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10 de mai. de 2025

O significado da palavra Conversão


No Evangelho, a palavra conversão aparece em dois contextos diferentes e é dirigida a dois tipos diferentes de ouvintes. O primeiro é dirigido a todos, o segundo àqueles que já aceitaram o seu convite e o acompanham há muito tempo. Referimo-nos ao primeiro apenas para compreender melhor o segundo, que é o que mais nos interessa, neste período de transição na vida da Renovação Carismática Católica. A pregação de Jesus começa com as palavras programáticas: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam na Boa Nova” (Marcos 1:15).

Antes de Jesus, conversão sempre significou “retornar” (o termo hebraico, shub, significa mudar de rumo, refazer os passos). Indicava o ato de alguém que, em determinado momento da vida, percebe que está “fora do caminho”. Então ele para, reconsidera, decide voltar a observar a lei e retornar à aliança com Deus. Ele faz uma “mudança de direção” genuína e verdadeira. A conversão, neste caso, tem um significado fundamentalmente moral e sugere a ideia de algo doloroso de se realizar: mudança de hábitos.

Este é o significado usual de conversão na boca dos profetas, até e incluindo João Batista. Mas nos lábios de Jesus esse significado muda. Não porque ele goste de mudar o significado das palavras, mas porque com sua chegada as coisas mudaram. “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo!” Arrependimento não significa mais retornar à antiga aliança e à observância da lei, mas sim prosseguir e entrar no reino, alcançando a salvação que veio gratuitamente aos homens, pela livre e soberana iniciativa de Deus.

Conversão e salvação trocaram de lugar. Não primeiro a conversão e depois, como consequência disso, a salvação, mas, ao contrário: primeiro a salvação, depois, como uma exigência dela, a conversão. Não: convertam-se e o Reino virá entre vocês, o Messias virá, como diziam os últimos profetas, mas: convertam-se porque o Reino chegou, ele está entre vocês. Converter-se é tomar a decisão salvadora, a “decisão agora”, como a descrevem as parábolas do reino.

“Arrependei-vos e crede” não significa duas coisas diferentes e sucessivas, mas a mesma ação fundamental: arrependei-vos, isto é, crede! Converta-se crendo! Tudo isso requer uma verdadeira conversão, uma mudança profunda na maneira como entendemos nosso relacionamento com Deus. É preciso passar da ideia de um Deus que exige, que comanda, que ameaça, para a ideia de um Deus que estende as mãos cheias para nos dar tudo. É a conversão da lei à graça que São Paulo tanto apreciava.

Ouçamos agora o segundo contexto em que o Evangelho fala novamente de conversão:

“Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: “Quem é, pois, o maior no Reino dos céus?” Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,1-4).

Desta vez, converter significa voltar para quando você era criança! O mesmo verbo usado, strefo, indica inverter a direção da viagem. Esta é a conversão de alguém que já entrou no Reino, creu no Evangelho e serviu a Cristo por muito tempo. É a nossa conversão, a de nós que estamos na Renovação Carismática há anos, talvez desde o início.

O que aconteceu com os apóstolos? O que implica o argumento sobre quem é o maior? Que a maior preocupação não é mais o reino, mas a posição de cada um nele, o próprio eu. Cada um deles tinha algum direito de aspirar a ser o maior: Pedro havia recebido a promessa da primazia, Judas a bolsa de dinheiro, Mateus podia dizer que havia renunciado a mais que os outros, André que havia sido o primeiro a segui-lo, e João que havia estado com ele no Tabor... Os frutos dessa situação são evidentes: rivalidade, suspeitas, confrontos, frustração.

Para os apóstolos, tornar-se crianças significava voltar a ser como eram no momento da chamada à beira do lago ou à coletoria de impostos: sem pretensões, sem direitos, sem conflitos entre si, sem inveja, sem rivalidade. Rico apenas de uma promessa (“Eu vos farei pescadores de homens”) e de uma presença, a de Jesus. Volte ao tempo em que eles ainda eram parceiros de aventura, não competidores pelo primeiro lugar. Para nós também, tornar-se crianças significa retornar ao momento em que tivemos pela primeira vez uma experiência pessoal do Espírito Santo e descobrimos o que significa viver no senhorio de Cristo. Quando dissemos: “Só Jesus basta!” e nós acreditamos.

Fico impressionado com o exemplo do apóstolo Paulo descrito em Filipenses 3. Tendo descoberto Jesus como seu Senhor, ele considera todo o seu passado glorioso como perda, como lixo, a fim de ganhar a Cristo e se vestir com a justiça que vem pela fé nele. Mas um pouco mais adiante, ele faz esta declaração: “Irmãos, não penso que já o tenha alcançado. Uma coisa faço: esqueço-me das coisas que ficaram para trás e avanço para as que estão diante de mim” (Fp 3:13). Que passado? Não mais a do fariseu, mas a do apóstolo. Ele sentiu o perigo de se ver com um novo ganho, uma nova justiça toda sua, derivada do que havia feito a serviço de Cristo. Ele anula tudo com esta decisão: “Eu esqueço o passado e salto para o futuro”.

Como não ver em tudo isso uma lição preciosa para nós na Renovação Carismática Católica? Um dos muitos slogans que circularam nos primeiros anos da Renovação – uma espécie de grito de guerra – era: “Devolvam o poder a Deus!” Talvez ele tenha se inspirado no versículo do Salmo 68:35, “Reconhecei o poder de Deus”, que na Vulgata foi traduzido como “Restaurai (reddite) o poder de Deus”. Durante muito tempo considerei essas palavras como a melhor maneira de descrever a novidade da Renovação Carismática. A diferença é que durante um tempo pensei que o clamor era dirigido ao resto da Igreja e que éramos nós os responsáveis ​​por fazê-lo ressoar; Agora, creio que isso é dirigido a nós que, talvez sem perceber, nos apropriamos parcialmente do poder que pertence a Deus.

Em vista de um novo começo do fluxo de graça da Renovação Carismática, é necessário esvaziar os bolsos, começar do zero, repetir com profunda convicção as palavras sugeridas pelo próprio Jesus: “Somos servos inúteis; fizemos o que fomos chamados a fazer” (Lc 17,10). Façamos nosso o propósito do Apóstolo: "Esqueço-me das coisas que ficam para trás e avanço para as que estão à frente". Imitemos os vinte e quatro anciãos do Apocalipse, que "lançaram as suas coroas diante do trono, dizendo: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder" (Ap 4, 10-11).

A palavra de Deus a Isaías continua relevante: "Pois eis que eu o renovo; ele já está a caminho; você não o reconhece?" (Is 43, 19). Bem-aventurados seremos se permitirmos que Deus renove o que Ele tem em mente neste momento para nós e para a Igreja.

Minha sugestão para a corrente de oração: repita várias vezes ao dia uma das invocações dirigidas ao Espírito Santo na sequência de Pentecostes, aquela que cada um sentir que melhor responde à sua necessidade:

Regar a terra na seca,

cura o coração doente,

lava manchas, infunde

calor da vida no gelo,

domar o espírito indomável,

guia para aquele que entorta o caminho

-- Padre Raniero Cantalamessa O.F.M Cap.

-- A imagem é o quadra A Conversão de São Paulo, de Caravaggio



6 de nov. de 2021

Levemos sempre em nós a morte de Cristo

 Disse o Apóstolo: Para mim o mundo está crucificado, e eu, para o mundo (Gl 6,14). Para que saibamos, por fim, que nesta vida há morte e boa morte, exorta-nos a que levemos a morte de Jesus em nosso corpo (cf. 2Cor 4,10). 

Pois quem tiver em si a morte de Jesus, precisa também ter em seu corpo a vida do Senhor Jesus. Atue, portanto, a morte em nós, para que também possa agir a vida. Vida excelente depois da morte, isto é, vida excelente depois da vitória, vida excelente, terminado o combate. Nela a lei da carne já não luta contra a lei do espírito, não há mais em nós peleja da morte contra o corpo, mas no corpo, a vitória sobre a morte. E francamente não sei qual tem maior força, esta morte ou a vida. É claro que atendo à autoridade do Apóstolo que diz: Portanto a morte age em nós, mas a vida, em vós (2Cor 4,12). A morte de um só a quanta gente faz crescer a vida! Por isto ensina ser desejável esta morte aos que ainda estão nesta vida, para que refulja em nossos corpos a morte de Cristo, aquela ditosa pela qual se destrói o ser exterior, a fim de ser renovado nosso homem interior (cf. 2Cor 2,16) e se desfaça nossa habitação terrena (cf. 2Cor 5,1), abrindo-se assim para nós a habitação celeste. 

Imita, portanto, a morte, que se separa da união com esta carne e desata os laços de que fala o Senhor mediante Isaías: Desata as cadeias iníquas, solta os laços das altercações violentas, deixa livres os oprimidos, rompe todo limite injusto (Is 58,6). O Senhor aceitou sujeitar-se à morte para que a culpa desaparecesse. Mas, para não ser de novo a morte o fim da natureza humana, foi-lhe dada a ressurreição dos mortos, para que pela morte se apagasse a culpa, pela ressurreição se perpetuasse a natureza. 

Por isso, a morte é a passagem de tudo. É preciso que passes continuamente; passagem da corrupção para a incorrupção, da condição mortal à imortalidade, das perturbações para a tranqüilidade. Por isto não te assuste a palavra morte, mas os benefícios da boa passagem te alegrem. Pois, que é a morte a não ser a sepultura dos vícios, o despertar das virtudes? Por isto disse ele: Morra minha alma nas almas dos justos (Nm 23,10), quer dizer, seja consepultada para depor seus vícios, assumir a graça dos justos, que trazem no corpo e na alma a morte de Cristo.

-- Do Tratado sobre o benefício da morte, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

-- A imagem é um quadro chamado O Martírio de São Sebastião , de Michiel Coxie, pintura em óleo, de 1575. São Sebastião não morreu a flechadas, pois os executores não perceberam que ele ainda estava vivo. Uma mulher cristã foi ao local de execução para recuperar o corpo quando percebeu que ele ainda estava vivo. Ela escondeu-o em sua casa e tratou as feridas. Ao se recuperar, São Sebastião foi até o Imperador anunciar que a morte não tinha poder sobre ele. Novamente condenado à morte, desta vez São Sebastião foi ao encontro do Pai. 

2 de jun. de 2020

Santa Melânia, a Velha

Melânia, a Velha é a avó de outra santa com o mesmo nome, Melânia, a Jovem; ou seja, na mesma família temos duas santas, ambas chamadas Melânia, avó e a neta. A família estava no topo da administração romana, era riquíssima e tinha ligações com a Espanha. 

Melânia, a Velha, nasceu em 323 ou 325, os registros são incertos. Seus pais, quando ela chegou na idade adequada, escolheram como marido Valério Máximo, já tinha sido embaixador romano na corte em Constantinopla e prefeito de Roma, ou seja, também era de uma família rica e prestigiada, mas bem mais velho que Melânia. Permanenceram casados por poucos anos, tiveram três filhos e o marido faleceu quando ela tinha apenas 22 anos. Logo após, dois filhos também morreram, deixando a família reduzida apenas a Melânia e seu filho Valério Públicola, o futuro pai da neta Melânia.

Vida monástica

Ela decidiu que ao invés de casar novamente, iria deixar Roma e foi para Egito e Israel, onde passaria a viver próximo aos padres do deserto, bispos, monjes e monjas que eram o centro da igreja, que naquela época não era Roma. Surpreendente para nossos padrões atuais, ela deixou seu filho com um tutor que tinha acesso a todos os seus bens para garantir o sustento da criança e partiu para o Oriente. Ela só retornaria a ver o filho 37 anos após.

Ao chegar no Egito, ela visitou alguns monjes que viviam no deserto e decidiu que teria uma vida semelhante. No entanto, havia um problema prático: eles queriam viver em isolamento e, neste sentido, sua presença não era benvinda. Por outro lado, ela percebeu que continuar vivendo numa casa confortável, mesmo que estando em oração e jejum, envolvia ter que perder tempo com a administração da casa, limpeza e outras atividades que a distraiam do objetivo principal. 

Com estes pensamentos, ela foi para Jerusalém viver nos locais que Jesus e os apóstolos também haviam vivido. Chegando lá, inspirada pelos textos de Orígenes, construiu um monastério no Monte das Oliveiras onde passaria a viver uma vida ascética estudando as Sagradas Escrituras. Este foi um dos primeiros monastérios construídos como uma resposta intermediária entre o isolamento no deserto e as necessidades práticas de uma vida na cidade. O monastério chegou a abrigar 50 jovens vivendo uma vida penitente, mas também trabalhando numa hospedaria para peregrinos construída ao lado da casa. 

Melânia envolveu-se nos debates quanto às possíveis heresias de Orígenes, São Jerônimo que também morava em Jerusalém chegou a escrever contra ela. Quando os defensores de Orígines foram perseguidos, Melânia deu abrigo e os protegeu.

Viagem a Roma
Em 399 ela decidiu viajar para Roma. No caminho encontrou-se com São Paulino de Nola, que morava no sul da Itália, para quem deu de presente um pedaço da Santa Cruz de Cristo. Em Roma, não apenas reencontrou seu filho, mas também sua neta, a quem teria instigado a viver uma vida simples e peregrina, abandonando Roma e as riquezas da família.

Em 406 decidu retornar a Jerusalém. Novamente encontrou-se com São Paulino de Nola, que pediu-lhe para levar uma carta a São Agostinho, que estava no norte da África. Depois da longa viagem, ela permaneceu no monastério em Jerusalém até sua morte, em 410.

Santa Melânia, a Velha, é muito mais venerada pela Igreja Ortodoxa, não sendo muito popular no Ocidente. 

Dois exemplos para nós
Algumas histórias, de difícil comprovação, são contadas sobre ela.

Quando pela primeira vez chegou ao Egito, procurou um monge do deserto conhecido como Abba Pambo e deu-lhe 100 quilos de prata. Ainda habituada aos modos da corte, esperava um grande agradecimento e elogios, mas o monge não lhe disse nada. Ela insistiu e ressaltou que se tratava de 100 quilos de prata, uma fortuna. Enfim o monge lhe respondeu: "Minha filha, Deus que construiu as montanhas com seu poder, sabe que aí há 100 quilos de prata. Ele prestou atenção na viúva que deu duas moedinhas no templo (cf Mc 12, 42), Ele sabe o que estás fazendo. Mas se estás dando para mim, eu não quero bem materiais e podes levar de volta".

Anos depois, outro monge chamado Evagrius chegou a Jerusalém e ficou na hospedaria ao lado do monastério que ela havia fundado. O monge estava muito doente e não havia remédio que ajudasse. Percebendo que algo mais se passava, ela foi falar com ele e disse: "Estás doente por que há um pecado em teu coração!". O monge confessou que havia conhecido uma mulher muito linda, por quem sentia desejos da carne. Melânia lhe respondeu: "Prometa que de agora em diante vais viver em um monastério, recluso e em oração, e eu vou rezar por ti e pedir a Deus que te perdoe os pecados, sejam lá o que tiverdes feito". E, de fato, o monge se recuperou rapidamente e viveu ainda muito e muitos anos.  

-- autoria própria.


6 de abr. de 2020

A avareza espiritual

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá,; andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado. 

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras da visa espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Se ocupam mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito, como deveriam. 

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já dequela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos. 

 Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego ao  e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais. 

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez, significadas nestas coisas espirituais; o resto é apego e propriedade de imperfeição, que é necessário cortar, a fim de atingir algo da perfeição.

-- São João da Cruz, no livro A Noite Escura da Alma.  (século XVI)

7 de dez. de 2019

São John Newman, de teólogo anglicano a santo católico

John Newman nasceu em 21 de Fevereiro de 1801 em Londres, era o filho mais velho de uma família anglicana que teve outros dois meninos e três meninas. Moravam no centro de Londres onde o pai era banqueiro, e também possuíam uma casa nos arredores da cidade, para descanso aos fins de semana. 

Aos 15 anos leu alguns livros de escritores calvinistas que defendiam a idéia que o Papa era o anticristo e, em uma carta, escreveu que esta era verdadeira fé que não havia sido distorcida por homens. Muito mais tarde na vida, explicaria que a ênfase protestante na justificação pela fé (e não por obras) é a porta de entrada para um individualismo religioso que ignora o papel da Igreja na transmissão da fé e atualização dos seus ensinamentos, resultando um inevitável subjetivismo e relativismo, onde cada um determina o que lhe é adequado.

Vida na Igreja Anglicana

Ele estudou no Trinity College em Oxford, onde foi um estudante comum, mas o suficiente para se tornar professor no Oriel College, também em Oxford. Em 13 de Junho de 1824 recebeu o diaconato na Igreja Anglicana e, em 29 de Maio de 1825, padre. Mantendo a posição de professor, trabalhava na paróquia de São Clemente, além de começar a escrever artigos teológicos. Em 1928 foi apontado vigário da igreja da Universidade de Santa Maria e professor de emérito de hebraico. Começou a defender a idéia que a Igreja deveria ser independente do Estado, tendo prerrogativas e poderes de uma natureza diferente". Como isto contraria a posição da Rainha como chefe da Igreja Anglicana, resultou em sua saída da universidade ao final de 1832.
Retrato de John Newmann, por
William Charles Ross

Aproveitando a ocasião, viajou pelo Mediterrâneo, passando por Roma. Segundo ele, uma cidade fantástica mas referiu-se a Igreja Católica como politeísta e idólatra (adoradora de santos). Em Abril de 1833 estava na Sicília quando adoeceu gravemente e teve que ficar ali por três meses até recuperar-se. 

Ao retornar para Inglaterra, proferiu uma homília em que defendia que o governo de uma nação cristã deveria deixar-se guiar pelos princípios da fé e, se caso tome decisões contrárias a Deus, acaba por se tornar uma nação de apóstatas, sobre a qual vai recair a correção de Deus.

Em 1839, enquanto estudava sobre a natureza de Cristo[1], leu Santo Agostinho que firmou não haver posição intermediária, ou a pessoa está em comunhão com a Igreja ou não. Dali em diante ele começou a questionar a teologia da Igreja Anglicana. Em 1841 publicou um texto em que demonstrou que o documento fundamental na criação da Igreja Anglicana, chamado 39 Artigos da Fé, era baseado em erros populares, não em posições teológicas da Igreja Católica e seus artigos da fé.

John Newman decidiu sair de Oxford, parar de publicar em revistas da Igreja Anglicana e foi morar junto com outros homens em uma casa em Littlemore levando uma vida semi-monástica. Em Fevereiro de 1843 publicou um artigo se retratando de todas as críticas que havia feito à Igreja Católica e em 25 de Setembro proferiu o seu último sermão em uma Igreja Anglicana.

Vida na Igreja Católica

Em 9 de Outubro de 1845 foi recebido na Igreja Católica pelo padre Dominic Barbieri. A vida de John Newman mudou radicalmente pois não apenas perdera todos seus postos na Universidade, como também foi considerado como um traidor pela família e amigos. Em Fevereiro de 1846 foi ordenado padre, em Roma, e nomeado Doutor em Teologia pelo Papa Pio IX. Dali retornou para a Inglaterra, onde trabalhou na Faculdade de Teologia do Maryvale Institute. 

Em 1850, o Papa Pio IX publicou o documento Universalis Ecclesiae que reorganizou a Igreja Católica na Inglaterra, restabelecendo a hierarquia e o controle papal. O primeiro ministro denunciou o documento como uma manobra do Papa para controlar a Inglaterra e sobrepor ao governo de sua majestade. Isto resultou em violência contra padres e vandalismo contra igrejas. No ano seguinte, John Newman escreveu uma série de artigos em tom mais popular em que não apenas defendeu a Igreja como explicou as causas no anti-catolicismo no país. Por óbvio, John Newman foi atacado e até mesmo processado por partes do seu livro. 
Cardeal Newmann, em Maio de 1890,
já com 90 anos e três meses antes de sua morte.

Em 1854 transferiu-se para Dublin como Reitor da recém criada Universidade Católica da Irlanda, onde permaneceu por quatro anos. Seu objetivo foi criar uma universidade onde o livre pensamento científico fosse central mas os ensinamentos cristãos permenecessem no centro do currículo influenciando a juventude. Esta posição intermediária não foi bem recebida por todos, novamente causando alguns problemas e resultando em inimigos., 

Em 1864 publicou o livro Apologia Pro Vita Sua (Uma Defesa da Própria Vida [2]), uma espécie de autobiografia espiritual onde explica suas idéias teológicas e como elas evoluíram aos longos dos anos, incluindo a sua conversão ao catolicismo e aceitação dos dogmas católicos. Entre outros, o Papa Bento XVI diz ter sido seriamente influenciado por este livro. 

Após 32 anos de sua partida, John Newman foi eleito professor honorário em Oxford, casualmente no mesmo dia em que o Papa Pio IX morreu. Por recomendação de vários bispos, o sucessor Papa Leão XIII nomeou Newman como Cardeal, o que ocorreu no consistório de 12 de Maio de 1879. Por seu pedido, John Newman não foi ordenado bispo e teve permissão para continuar morando na Inglaterra. 

Sua saúde começou a falhar em 1886, sua última missa pública foi no Dia de Natal em 1889. Morreu de pneumonia em 11 de Agosto de 1890 e foi enterrado em Birmingham. Desde sua morte, e principalmente quando começou o processo de canonização, John Newmann foi atacado por vários motivos, inclusive espalhando boatos mentirosos quanto ao celibato e homossexualidade. 

O Papa João Paulo II proclamou-o Venerável em 1991 e o Papa Bento XVI declarou-o Bento após a cura milagrosa de um diácono americano que havia pedido sua intercessão. Outro milagre, a cura de uma mulher grávida de Chicago a quem os médicos deram a gravidez como perdida [3], conduziu a sua canonização em 13 de Outubro de 2019.

-- autoria própria

[1] Trata-se da questão do Monofisismo, isto é, pode Cristo ser homem e Deus ao mesmo tempo? Segundo a Igreja Católica e também a Anglicana, Cristo combinou as duas naturezas, mas Santo Agostinho teve que combater seitas heréticas que defendiam que Cristo jamais tornou-se realmente homem pois a natureza divina sempre foi superior, mesmo enquanto estava na Terra. 

[2] Aparentemente não há uma edição em português, o que é lastimável. Foi publicado em espanhol, italiano e inglês.  

[3] Neste vídeo, Melissa Villalobos conta que estava grávida, mas sangrava muito já por vários dias. Os médicos deram a gravidez como perdida e avisaram que a própria vida dela estava em risco. Pela intercessão de São John Newmann, o sangramento cessou imediatamente, a menina nasceu saudável e Melissa ainda teve outros filhos. O vídeo está em inglês, mas vale a pena o esforço.

13 de set. de 2019

Venerável Henriette DeLille


Henriette nasceu em Nova Orleans, no estado da Louisiana, em 11 de Março de 1813. Sua mãe, Marie-Josephe era uma negra* livre, isto é, não era escrava, assim Henriette nasceu já como uma mulher livre, mas é certo que sua bisavó foi trazida da África para ser escravizada. Seu pai era Jean-Baptiste Lille, um francês que emigrara para a Louisiana. O casamento entre eles seguia o costume da época, chamado plaçage, envolvendo um homem branco e uma mulher negra. Eles não casavam na Igreja, mas assinavam um documento dando certos direitos à esposa, incluindo 1/3 da herança e a previsão que se a esposa fosse escrava, passaria a ser uma mulher livre. O homem branco poderia ter uma esposa branca também, o que era comum entre fazendeiros, que mantinham a esposa branca na fazenda e a negra na cidade, mas se o homem branco fosse um militar transferido temporariamente para a região, sua esposa branca estaria na França e ele moraria entre o quartel e a casa com a esposa negra. 

Embora houvesse preconceito contra os negros, este arranjo permitia que as mulheres tivessem uma vida mais confortável. Henriette aprendeu a ler, estudou Literatura francesa, música e dança, tudo para prepará-la para também se tornar esposa de um homem branco. Quando chegou a adolescência, frequentava os bailes chamados quadroon, onde homens brancos conheciam as jovens negras. Segundo registros, Henriette chegou a ter dois filhos, que morreram com menos de três anos, provavelmente filhos de um homem branco.  

Durante um destes bailes, DeLille foi apresentada a Irmã Marthe Fontier, que era membro de uma comunidade religiosa dedicada à caridade. Impressionada com a vida das irmãs, Henriette procurou receber o Sacramento do Crisma e começou a lecionar em uma escola mantida pelas irmãs. Sua progressiva conversão resultou em conflitos com a mãe, que já havia planejado seu futuro, mas Henriette percebeu que a vida como segunda esposa era contrária aos ensinamentos da Igreja.  Finalmente em 1834, quando tinha 21 anos, Henriette recebeu o sacramento do Crisma. 

Em 1835, ela assumiu o controle dos bens de sua mãe que sofrera um problema psicológico e fora declarada incompetente. Henriette colocou a mãe um asilo onde poderia ser cuidada, vendeu todos os bens, reservou uma parte para o cuidado da mãe e usou o restante para comprar uma casa onde passou a viver com outras sete mulheres negras e uma francesa. Elas cuidavam dos doentes, ajudavam os pobres e davam aulas para negros livres e escravos, muito disso era feito às escondidas, pois não era permitido que negros frequentassem escolas, especialmente os escravos. Este foi o início de uma nova ordem, as Irmãs da Presentação. Nesta época seu irmão rompeu relações com Henriette por que ele tinha uma vida na sociedade e percebia o envolvimento dela com negros e pobres como algo prejudicial à boa fama dele. 

Em 1837, Padre Etienne Rousellon conseguiu a aprovação formal da nova congregação junto ao Vaticano, e elas passaram a se chamar Irmãs da Sagrada Família. DeLille assumiu o título de madre superiora. As irmãs foram especialmente reconhecidas por seu trabalho quando uma epidemia de febre amarela atingiu a cidade em 1853 quando não recusaram assistência a ninguém. 

Não há muitos escritos de Henriette, mas uma prece é especial, pois ela sempre a repetia: "Eu acredito em Deus, eu espero em Deus. Eu amo. Eu quero morrer e viver por Cristo".   

Após muitos anos de pobreza, trabalhando com doentes por longas horas, ela faleceu em 1862 com fama de santidade, tanto que a cidade dedicou uma rua ao seu nome. Na época  a ordem tinha 12 irmãs, número que ao longo dos anos foi crescendo, até alcançar 400 irmãs, hoje instaladas em vários estados americanos e Belize. A causa de canonização foi aberta em 1988 e, em 22 de Junho de 2010 a Congregação para as Causas dos Santos deu sua aprovação formal, atribuindo o título de Venerável. Atualmente alguns milagres estão sendo investigados e podem conduzir a sua beatificação. 

* no texto estou usando o padrão americano, onde bastaria um bisavô ou bisavó negro para sujeitar a pessoa a escravidão. Assim, Henriette mesmo sendo filha de um homem branco, mulata como diríamos no Brasil, era tratada como negra.

-- autoria própria.

23 de mar. de 2019

Santa Cunegundes, imperatriz e irmã de clausura

Santa Cunegundes nasceu em 975, era uma dos onze filhos de Siefried I de Luxemburgo e Edviges de Nordgau e descendente direta do Imperador Carlos Magno. Ela desejava tornar-se uma irmã de clausura desde jovem, mas por motivos políticos, seus pais arranjaram um casamento com o Príncipe Henrique, que viria se ser imperador do Santo Império Romano e canonizado pela Igreja. Em comum acordo, decidiram preservar a castidade, mesmo dentro do casamento e, por óbvio, não tiveram filhos.

São Henrique e Santa Cunegundes.
O marido foi coroado Imperador em 9 de Julho de 1002 e ela, imperatriz, em 10 de Agosto, ambos na cidade de Mainz, atual Alemenha. Como era tradição, depois foram coroados imperador e imperatriz pelo Papa, dentro da Basílica de São Pedro pelo Papa Bento VIII. Segundo relatos, era muito ativa politicamente, atuando como principal conselheira do marido e tomando parte dos Conselhos Imperiais. 

Durante o reinado, ela caiu gravemente doente e prometeu que caso fosse curado, doaria as terras e construiria um monastério para irmãs de clausura em Kassel, promessa que cumpriu prontamente após restaurar sua saúde. 

Diz-se que certa noite adormeceu, deixando uma vela acesa sobre sua cama, que em certo momento pegou fogo. Ao acordar, fez um Sinal da Cruz e o fogo imediatamente apagou. Em outro episódio, este bem mais público, seus inimigos políticos começaram a espalhar mentiras sobre sua fidelidade ao marido, dizendo que quebrara o voto de castidade com outros homens. Inspirada por Deus, mandou organizar como uma passarela de brasas ardentes e andou sobre elas, sem sofrer queimaduras, o que foi entendido como sinal de pureza. 

Em 1024 seu marido faleceu e ela assumiu o posto de regente do Império. Por não ter filhos, organizou um Conselho Imperial que elegeu o futuro rei, Conrado, que era príncipe de Worms e Speyer. 

Como viúva, Cunegundes rapidamente desfez-se dos bens materiais, doando o dinheiro para os pobres e a Igreja. Em 1025, no exato dia em que completou um ano da morte do marido, ela se retirou para a Abadia de Kaufungen, para tornar-se um irmã beneditina. Neste dia doou seu último bem material, uma relíquia da Santa Cruz, desfez-se de suas vestes imperiais e assumiu o hábito de irmã. 

No mesmo convento estava sua sobrinha Judite, que preferia passar o tempo em fofocas com outras irmãs em vez de orar, jejuar e ajudar nos trabalhso do convento. Após tentar corrigi-la muitas vezes, teria perdido a paciência e dado um tapa no rosto da sobrinha, mas a marca permaneceu no rosto por toda a vida, como uma lembrança dos votosde castidade e obediência que todas haviam feito.

Viveu por quinze anos dedicando à oração e aos trabalhos de caridade do convento até falecer em 3 de Março de 1040.  A santa foi canonizada pelo papa Inocêncio III em 29 de março de 1200 e é a patronessa de três países: Luxemburgo, Lituânia e Polônia. 
  

9 de fev. de 2019

Beata Alexandrina de Balazar

Alexandrina Maria da Costa, também conhecida como Beata Alexandrina de Balazar, foi uma mística portuguesa, que nasceu em 30 de Março de 1904 e morreu em 13 de Outubro de 1955, tendo passado quase toda vida na sua cidadezinha natal de Póvoa do Varzim, num povoado chamado Calvário. 

O pai abandonou a família, sendo criada apenas pela mãe, pode estudar apenas por dezoito meses, já com nove anos trabalhava nas fazendas. Quando tinha 12 anos, estava ajudando a fazer um tapete de flores para a Procissão do Santíssimo, enquanto colhia flores, teve sua primeira experiência mística ao começar a sangrar na cabeça; segundo ela, Jesus lhe colocou uma coroa de espinhos e passou a chamá-la Alexandrina das Dores.

Paralisia
Aos 14 anos, no Sábado Santo de 1918, estava com a irmã e outra menina em casa, trabalhando com costura, quando quatro homens forçaram a porta de entrada. Para escapar do ataque, Alexandrina pulou de uma janela com mais de quatro metros de altura, quebrando uma ou mais vértebras. Até os 19 anos ainda conseguia se arrastar até a Igreja, onde permanecia em oração quase todo dia.

Segundo Alexandrina, até 1928, dez anos após o ataque, ainda pedia a graça da cura, prometendo que sairia como missionária pelo mundo, até que compreendeu que sua salvação seria pelo sofrimento. Disse que "Nossa Senhora concedeu-me uma graça ainda maior. Depois da resignação deu-me a conformidade completa à vontade de Deus e, por fim, o desejo de sofrer”, e também que  "Jesus, tu és prisioneiro no Tabernáculo. E eu por tua vontade prisioneira na minha cama. Far-nos-emos companhia”.

Paixão de Cristo
De sexta-feira, 3 de Outubro de 1938 a 24 de Março de 1942, ou seja por 182 vezes, viveu, em todas as sextas-feiras, os sofrimentos da Paixão: Alexandrina, superando o estado habitual de paralisia, descia da cama e com movimentos e gestos, acompanhados de angustiantes dores, repetia, por três horas e meia, os diversos momentos da Via Crucis. Depois disso, a partir de 27 de Março de 1942, Alexandrina deixou de se alimentar, vivendo exclusivamente da Eucaristia por 13 anos, até sua morte.

Em 1936, Jesus falou-lhe que deveria escrever ao Papa para que ele consagrasse o mundo ao Coração Imaculado de Maria, este pedido foi renovado várias vezes, até que em 31 de Outubro de 1942 o Papa Pio XII celebrou esta consagração em língua portuguesa, e renovou-a, no Vaticano,  em 8 de Dezembro, na Festa da Imaculada Conceição. 

Neste ponto da vida, a sua fama de santidade já era conhecida e muitas pessoas vindas de longe visitavam-na, pediam conselhos e orações. De sua cama, pedia que as pessoas organizassem novenas, jejuns e rezassem intensamente. tournou-se também uma colboradora salesiana.

Falecimento e beatificação
No início de 1955 foi-lhe revelado que deveria preparar-se, pois morreria ainda naquele ano. Em 12 de Outubro pediu a Unção dos Enfermos, no dia seguinte rezou o rosário em honra à Nossa Senhora de Fátima e faleceu tranquilamente, após declarar: “Sou feliz porque vou para o céu”.

Sobre seu túmulo, que está numa capela na igreja de Balazar, pediu para escrever:

“Pecadores, se as cinzas do meu corpo puderem ser úteis para a vossa salvação, aproximai-vos: passai todos por cima delas, pisai-as até desaparecerem, mas não pequeis mais! Não ofendais mais o nosso Jesus! Pecadores, queria dizer-vos tantas coisas. Não bastaria este grande cemitério para escrevê-las todas! Convertei-vos! Não queirais perder a Jesus por toda a eternidade! Ele é tão bom!... Amai-O! Amai-O! Basta de pecar!”

Alexandrina foi beatificada em 25 de Abril de 2004 pelo Papa João Paulo II, que assim falou sobre ela:

" "Tu me amas?", pergunta Jesus a Simão Pedro. Ele responde: "Tu sabes tudo, Senhor, bem sabes que te amo." A vida da Beata Alexandrina Maria da Costa pode resumir-se neste diálogo de amor. Investida e abrasada por estas ânsias de amor, não quer negar nada ao seu Salvador: de vontade forte, tudo aceita para mostrar que o ama. Esposa de sangue, revive misticamente a paixão de Cristo e oferece-se como vítima pelos pecadores, recebendo a força da Eucaristia que se torna o único alimento dos seus últimos treze anos de vida. Pela esteira da Beata Alexandrina, expressa na trilogia sofrer, amar, reparar, os cristãos podem encontrar estímulo e motivação para nobilitar tudo o que a vida tenha de doloroso e triste com a prova maior de amor: sacrificar a vida por quem se ama. (…) O amor a Cristo é o segredo da santidade!" 

Por obediência aos seus diretores espirituais, escreveu vários diários e relatos de experiências místicas que estão publicados.  

-- autoria própria.



13 de set. de 2018

Deus, nesta noite compreendi que existes

Escuta Deus, eu nunca falei contigo
mas agora quero te dizer: olá, como estás?
Sabes Deus, me diziam que tu não existias
e eu, cheio de mim, acreditava nisto.

Nesta noite, desde uma cratera de bomba, vi teu firmamento,
então compreendi que me haviam mentido.
Se tivesse contemplado tuas coisas
teria compreendido que estavam me enganando.

Deus, gostaria de saber se pegarás na minha mão,
não sei, ma sinto que me compreenderás.
É curioso que eu tenha vindo a este inferno
para achar um momento para contemplar teu rosto.

Creio que não há muito a dizer,
apenas quue estou feliz de te ter conhecido.
Parece que logo chegará a hora zero,
mas não temo, depois de saber que estás tão próximo.

Já deram o sinal, Deus, agora tenho que marchar.
Quero que saibas que te amo sinceramente.
Esta batalha será tremenda, algo espantoso,
e, quem sabe, esta noite talvez chegue na tua casa.

Mesmo que até agora não tenha sido teu amigo,
Deus, estarás me esperando na tua porta?
Estou chorando, logo eu, derramando lágrimas!
Isto por que me gostaria ter Te conhecido a muitos anos.

Deus, agora tenho que ir, cumprir minhas ordens. Adeus!
Que estranho! Desde que Te encontrei, já não temo a morte.

-- escrito por soldado da II Guerra

28 de jul. de 2018

Evangelho não é auto-ajuda

No Rio Grande do Sul, pelos anos 80/90, Pe. Schneider ficou bastante conhecido pelos seus livros e palestras que misturavam auto-ajuda e cristianismo. Ele era bom palestrante e, não posso negar, algumas idéias e técnicas eram positivas e ajudaram-me. Lembrei dele quando nas últimas semanas vi no Twitter algumas mensagens de um outro padre, muito idênticas ao que o Pe. Scheneider dizia 30 anos atrás:
Jesus Cristo ajudando a mulher adúltera.

  • Assuma hoje sua história nas mãos e construa o ser humano melhor e mais feliz que você deseja ser.
  • Saiba aprender com seus problemas e desafios, e saiba que eles oferecem uma grande oportunidade de crescimento e madurecimento para você
  • Invista na virtude e no bem que existe dentro de você

É claro, Twitter não é lugar para pensamentos elaborados e, de fato, há  pessoas que precisam de um incentivo na vida, de um "vai dar certo", "força e confiança, você consegue". Mas estas frases estão mais para auto-ajuda do que anúncio do Evangelho, que são duas coisas diferentes.

Auto ajuda, baseada em qualquer filosofia, cristã, oriental ou agnóstica, tem algumas características claras:

1. A pessoa é o agente da mudança
A auto-ajuda baseia-se na idéia que a pessoa pode mudar, adquirir hábitos mais saudáveis ou produtivos, e isto trará uma melhora para a sua vida. Cada pessoa é totalmente capaz de alterar sua vida, apenas pela sua iniciativa e força de vontade.

2. É centrada em si mesmo
A auto ajuda busca a melhoria do indivíduo, nos seus objetivos imediatos, para ter uma vida melhor enquanto estamos, por aqui, vivos. Estabelecer objetivos e esforçar-se por alcança-los é saudável, mas há o risco de esquecer que os seus desejos particulares podem não ser adequados para seus familiares, amigos, sociedade ou a sua própria alma.

3. A oração é dispensável ou secundária 
Sendo centrada nos eus prórpios objetivos e na capacidade inata e, quase infinita, do ser humana de se daptar e modificar, muitas vezes a auto-ajuda dispensa a oração ou a mantém a serviço da pessoa e de suas necessidades.

4. A auto-ajuda não limitada pela realidade
Sendo centrada nas possibilidades da uma pessoa, a auto-ajuda é limitada, não contando adequadamente para a realidade que cerca as pessoas. As vezes os planos não funcionam por motivos fora do controle da pessoa, como uma doença, um acidente ou as condições da sociedade. 

Agora comparemos com o Evangelho:

1. Deus é o agente da mudança
Ao se deixar conduzir por Deus, a pessoa modificará seus hábitos para algo mais saudável para a sua alma. É Deus que age na pessoa, respeitando seus limites, mas é Deus que converterá a pessoa. O poder é de Deus, de sua Palavra transformadora, nunca da iniciativa pessoal. 

Pense na Aliança que Deus fez com Abraão: a promessa é toda de Deus, Ele não permite que Abraão se comprometa por que entende que cometerá erros, se afastará do Caminho de Deus. A promessa de Deus é que irá perdoar a Abraão quando este errrar e lhe dará filhos e uma terra. Deus cumpriu a promessa, Abraão foi ter relações com a escrava, não com sua esposa. 

2. O plano é de Deus
Uma pessoa ao receber o anúncio do Evangelho irá se converter, isto é, mudar de vida. Como diz o Profeta Ezequiel, Deus tirará o coração de pedra e dará um coração novo, de carne, capaz de amar ao próximo, sem egoísmo. Conheço muitas pessoas que planejavam serem professores, doutores ou advogados, mas ao receber a palavra de Deus, perceberam que eram chamados ao sacerdócio, a uma vida no monastério ou de missão em terras estrangeiras. Converter-se é deixar-se guiar por Deus, nunca tentar submetê-lo a sua própria vontade.    

3. A oração é essencial
Jesus Cristo já deu o exemplo, é necessário orar, estar em diálogo com Deus, mas não uma oração pedindo apenas pelos seus próprios planos. É importante entrar em oração e dizer: Pai, afasta de mim este cálice, mas se for tua vontade, que eu beba até a última gota.  

4. Deus te ama, mesmo quando teus planos são diferentes
Ninguém planeja ter uma doença, viver na pobreza ou estar desempregado; no entanto esta é a realidade para milhões de pessoas. Neste momento, em que nossos planos são diferentes, em que experimentamos nossas fraquezas, limitações e frustações, quando a auto-ajuda não funciona e expõe seus limites, quando, no fundo, enfrentamos nossa morte, é Jesus Cristo que vem e te diz: Eu enfrentei a morte, eu venci a morte, eu ressucitei, morri na Cruz por que te amo. 

O Evangelho é maior que qualquer auto-ajuda, o Evangelho é ilimitado, a auto-ajuda é restrita a uma pessoa. A Palavra de Deus é para aqueles que não podem se auto ajudar; o método não é estabelecer metas e adotar certos hábitos, mas oração habitual e arrependimento dos seus pecados. O objetivo não é tornar-se uma pessoa de sucesso, mas uma pessoa aberta ao serviço e amor ao próximo. 

-- autoria própria

14 de abr. de 2018

Os salmos de subida - Que alegria é estar com o Senhor

Os Salmos de Subida formam um conjunto de 15 salmos (120-134). Sem dúvida eram salmos cantados pelos judeus peregrinos que iam à Jerusalém em uma das três grandes festas anuais. São chamados "de subida" exatamente por que Jerusalém está nas montanhas, enquanto a maioria da população preferia morar nos vales mais férteis, ou seja, ir a Jerusalém, ainda hoje, é subir a montanha para encontrar o Senhor no alto. 
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Jerusalém no tempo de Cristo, no alto das montanhas e cercada por muralhas.
Para proteção suas portas eram estreitas e sempre guardadas. 
No Livro do Deuteronômio (16, 16), assim está ordenado: "Três vezes ao ano, todo homem deverá comparecer diante de Yahweh teu Deus, no lugar que Ele houver escolhido: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas e na festa das Tendas". Se hoje, de carro e por auto-estradas, esta subida pode levar uma hora ou mais, nos tempos bíblicos eram necessários dias. É em uma destas visitas a Jerusalém que o menino Jesus perdeu-se dos pais, e é ao final de uma destas subidas que Jesus é festivamente saudado pelo povo no Domingo de Ramos.

Se cada salmo já é uma benção de Deus, vê-los em conjunto nos ajuda a entender melhor a experiência de um judeu peregrino que ia a Jerusalém, deixando seu trabalho e bens por alguns dias, arriscando um pouco da sua vida, saindo do seu conforto diário.

Salmo 120: é o primeiro dos salmos de subida, o personagem deste salmo ainda está na planície, cercado por inimigos, por um povo que quer guerra, mas, no coração, este judeu já é um peregrino, pronto para partir. Esta acampado em Cedar, atual Síria, muito longe de Jerusalém, mas grita a Deus e pede seu auxílio.

Salmo 121: Ao pé da montanha, pronto para iniciar a subida, o peregrino diz: "Ergo os olhos para os montes, de onde virá meu socorro? Não deixará meu pé tropeçar, o teu guarda jamais dormirá". A subida pelas montanhas era dificil, era necessário dormir ao ar livre, onde animais poderiam atacar, por isto era importante que os guardas não dormissem. Também havia o risco de ladrões em busca do dinheiro que seria usado para pagar o dízimo no templo. O Sol durante o dia e o frio à noite são desafios, é necessário confiar em Deus durante a subida e em todos momentos da vida.

Salmo 122: Mas se o caminho é difícil, a esperança de chegar a Jerusalém, de chegar à presença de Deus, enche o coração de alegria. O peregrino canta: "Que alegria quando me disseram: vamos a casa do Senhor!". Para lá se dirijem todas tribos de Israel, que Deus guarde Jerusalém de seus inimigos, pelos séculos dos séculos.

Salmo 123: Já chegando a Jerusalém, o peregrino se pergunta: será que sou digno de entrar em teus palácios, ó Senhor? Reconhece seus erros, seus pecados, e suplica "Piedade, Senhor! Tenha Piedade!".

Salmo 124: E vendo que o caminho estava completo, que passara por perigos, mas Deus o protegera, o peregrino pode dizer: "Não estivesse Iahweh ao nosso lado quando os homens nos assaltaram,ter-nos-iam tragados vivos". "Bendito seja Iahweh, não nos entregou como presas aos seus dentes, mas fugimos vivos". "Nosso socorro é o Senhor, que fez o céu e a terra!". 

Salmo 125: Quase o mesmo tema do salmo anterior, Deus protege seus filhos, eles podem confiar que chegarão ao monte Sião, onde está Jerusalém, que também indica os céus. Na certeza da ressurreição, podemos confiar que estaremos ao lado de Deus. Os justos, de bom coração, não temem a Deus, mas o que preferem outros caminhos serão expulsos da Jerusalém celeste.

Salmo 126: Já em frente à Jerusalém, uma cidade esplendorosa, muito acima da sua experiência diária no pequeno vilarejo em que morava, o peregrino pode olhar a sua vida, ver como Deus agiu lhe salvando muitas vezes, e dizer que Deus fez grandes coisas por ele. Esta experiência de Deus vai mudar sua vida, por que chegou a Jerusalém chorando seus pecados, sem saber se merecia estar ali, mas sairá renovado, alegre e cantando. São os frutos que colherá, "por que ao ir, se vai chorando, levando as sementes, mas ao voltar, se volta cantando, trazendo os feixos".  

Salmo 127: Embora a cidade seja grandiosa, é necessário dizer que se o Senhor não constrói a casa, o trabalho dos homens é inútil, se o Senhor não guarda a cidade, os guardas vigiam a cidade em vão. A própria história de Israel é um exemplo, pois quando o povo substituiu o Senhor por outros deuses, mesmo a invencível Jerusalém foi derrotada, o povo tornou-se escravo na Babilônia e o templo vandalizado. Coloca tuas forças em Deus e nunca precisarás temer o inimigo.
Interior do templo em Jerusalém, imenso e riquíssimo. Imagine a experiência
de um camponês simples, vivendo em uma terra desértica, ao entrar neste prédio
Salmo 128: Esta é  benção para o fiel: terá uma boa esposa, bons filhos, uma casa e saúde para trabalhar. Poderá peregrinar a Jerusalém, encontrar-se com o Senhor todos anos.

Salmo 129: Ainda que o fiel seja ameaçado, atacado pelos inimigos, poderá contar com o Senhor e dizer: "Os inimigos lavram minhas costas, mas o Senhor é justo, cortou os chicotes dos ímpios".  Estes inimigos ainda irão se envergonhar dos seus pecados, reconhecer sua fraqueza, reconhecer a Deus e dizer aos que fiéis que no passado atacaram: "Que o Senhor vos abençoe".

Salmo 130: Ao chegar em Jerusalém, o peregrino está aflito, do profundo do seu peito sai um grito e pede que os ouvidos do Senhor lhe ouçam. Não é digno,de fato  ninguém é digno de estar ali, mas com esperança de ser ouvido, pede que Deus perdoe seus pecados, e não apenas os dele, mas os de todo Israel, pois a graça de Deus é abundante.

Salmo 131: O peregrino é como uma criança que coloca seus pedidos no colo do Pai, pois sabe que sua esperança não será em vão, pois o Pai lhe ama muitíssimo.

Salmo 132: As promessas feitas por Deus de que construiria um templo, um lugar permanente para a Arca da Aliança, foram cumpridas. Disto o peregrino é testemunha, pois está ali no Templo, vendo os sacerdotes, as procissões, os cantos e todo povo reunido ao redor de Deus. Iahweh prometeu a Davi e cumpriu. Que Deus continue abençoando o povo, seus filhos e colheitas, pois esta é a segurança de Israel.

Salmo 133: Estar ali no Templo é bom, é agradável estar juntos com os irmãos na fé. É como o orvalho, a umidade que cai sobre o deserto, é uma benção para a vida, já uma antevisão da vida eterna. 

Salmo 134: Por fim, basta apenas pedir a benção de Deus sobre todo povo de Israel. Os sacerdotes conduzem a liturgia e o povo responde reconhecendo que o Senhor fez o céu e a terra. Dali o peregrino sairá feliz, tendo visto o Senhor e experimentado um pouquinho do céu ainda na terra. Estes são os frutos que colheu ao peregrinar até a cidade no alto, até Jerusalém.

Nós, cristãos em 2018, somos chamados à esta mesma experiência: peregrinar, abandonar um pouco seu trabalho e bens, e se arriscar em busca do Senhor. Fisicamente, podemos ir a Jerusalém, Roma ou aos grandes santuários marianos, mas não com espírito de turismo, mas para entrar em oração, vendo nossas fraquezas, pedindo ao Pai ajuda e louvando por tudo que tem realizado em nossas vidas.

-- autoria própria

11 de nov. de 2017

A morte de São Martinho

São Martinho, ainda soldado, encontra o pobre
que mudaria sua vida.   
Martinho soube com muita antecedência o dia da sua morte e comunicou aos irmãos estar iminente a dissolução de seu corpo. Entretanto, surgiu a necessidade de ir à diocese de Candax, pois os eclesiásticos desta Igreja estavam em discórdia. Desejando restabelecer a paz, embora não ignorasse o fim de seus dias, não recusou partir, julgando que seria um excelente fecho de suas obras deixar a Igreja em paz.

Demorou-se por algum tempo na aldeia e na Igreja aonde fora, e a paz voltou para os clérigos. Quando já pensava em regressar ao mosteiro, começaram de repente a faltar-lhe as forças e, chamando os irmãos, disse-lhes que ia morrer. Diante disto todos se entristeceram grandemente, chorando e dizendo, a uma só voz: “Por que, pai, nos abandonas? A quem nos entregas, desolados? Lobos vorazes invadem teu rebanho; quem, ferido o pastor, nos livrará de seus dentes? Sabemos que desejas a Cristo, mas teus prêmios já estão seguros e não diminuirão com o adiamento! Tem compaixão de nós, a quem desamparas!” 

Comovido com estas lágrimas, ele que sempre possuíra entranhas de misericórdia, também chorou, segundo contam. Voltando-se então para o Senhor, respondeu aos queixosos somente com estas palavras: “Senhor, se ainda sou necessário a teu povo, não recuso o trabalho. Que se faça tua vontade”.

Que homem incomparável! O trabalho não o vence, a morte não o vencerá! Ele, que não se inclinava para nenhum dos lados, não temeria morrer e nem recusaria viver! No entanto, olhos e mãos sempre erguidos para o céu, não abandonava a oração o espírito invicto; e quando os presbíteros, que se haviam reunido junto dele, lhe pediram aliviar o frágil corpo, virando-o para o lado, disse: “Deixai-me, deixai-me, irmãos, olhar para o céu de preferência à terra, para que o espírito já se dirija ao caminho que o levará ao Senhor”. Dito isto, viu o demônio ali perto. “Por que estás aqui, fera nefasta? Nada em mim, ó cruel, encontrarás! O seio de Abraão me acolhe”.

Com estas palavras entregou o espírito ao céu. Martinho, feliz, é recebido no seio de Abraão; Martinho, pobre e humilde, entra rico no céu.

-- Das Cartas de Sulpício Severo, século V

* São Martinho era soldado do exército quando num dia de inverno encontrou um pobre que estava passando frio. Martinho cortou metade de sua túnica e deu para o pobre. Naquela noite teve uma visão em que entrava nos céus carregado por anjos e lá encontrava Jesus Cristo que lhe agradeceu por ter sido salvo naquele dia tão frio. Foi então que resolveu mudar de vida e entrar em um convento.

28 de set. de 2017

O sofrimento do pobre e a estultícia do rico (Lc 12,16-21)

Sofrimento do pobre

A bela cor do ouro te alegra extremamente, mas não pensas quantos e quais gemidos do indigente te acompanham.

Como poderei pôr sob teus olhos os sofrimentos do pobre? Eles, olhando ao redor, vêem que não há ouro nem haverá jamais: os utensílios e as vestes, que costumam ser os bens dos pobres, são todos de valor insignificante. Que fará? Olha para os filhos e decide conduzi-los ao mercado para se livrar da morte. Imagina tu o conflito entre a miséria da fome e o sentimento paterno: a fome ameaça de morte deplorável, a natureza, ao invés, o induz a morrer juntamente com os filhos. Mais vezes se decide, mais vezes desiste: finalmente sucumbe oprimido pela necessidade e pela inelutável penúria.

Como raciocina o pai? "Quem venderei primeiro? Qual será preferido pelo mercador? Decidir-me-ei pelo primogênito? Mas sua idade me envergonha. Pelo mais jovem? Tenho muita compaixão pela sua juventude sem experiência das desgraças. Este conserva bem a fisionomia dos pais, aquele a boa inclinação para os estudos. Terrível angústia! Que será de mim? Qual deles irei ofender? De qual fera tomarei o coração? Como esquecerei a natureza? Se conservo a todos, vê-los-ei se consumir por este flagelo. Se não vendo um, com que olhos olharei aqueles que me restaram? Esses, doravante suspeitos, me considerarão traidor. Como habitarei em minha casa, privado pela minha culpa dos filhos? Como poderei me sentar a uma mesa posta com tal preço?"

Finalmente ele parte, chorando lágrimas quentes, para vender seu filho mais querido. A dor não te comove e não levas em consideração a sua natureza. A fome mantém prisioneiro o infeliz e tu temporizas e te fazes de surdo, agravando desse modo a dilaceração. Tu não só não sentes paralisar a mão ao aceitar o preço de tal infortúnio, mas ainda regateias sobre o preço; e disputas como, recebendo muito, poderias dar ainda menos, agravando ainda mais a desgraça do infeliz. Suas lágrimas não te comovem, seu gemido não amolece teu coração, ao contrário, permaneces inflexível e implacável. Em tudo e por tudo, só vês ouro: imaginas o ouro; dormindo, sonhas com ouro; desperto, o cobiças. Como quem está atacado pela febre não vê a realidade, mas delira por causa do mal, assim tua alma, possuída pela cobiça das riquezas, vê, em tudo, ouro e prata. A vista do ouro te é mais importante do que a do sol. Fazes voto para que tudo se trans- forme em ouro para que possas obtê-lo.

Insaciável fome de ouro

O que não fazes pelo ouro? Para ti o trigo se torna ouro, o vinho se solidifica em ouro, a lã se transforma em ouro; todas as mercadorias, em suma, e todos os projetos te levam ao ouro. O ouro se reproduz por si mesmo, multiplicando-se com os lucros. E não estás jamais saciado e tuas ambições não têm limites.

Estultícia do rico

Por vezes, condescendemos com as crianças gulosas permitindo que se fartem à vontade daquilo que desejam, para que a saciedade exagerada lhes provoque a náusea. Nada disso acontece com o avaro; quanto mais- se enche, mais deseja. "Quando vossa riqueza prospera, não ponhais nela vosso coração" (Sl 61,11).

Tu, ao contrário, seguras o que te escapa e fechas com muros as saídas. Bloqueado, estagnado desta maneira, que coisa te fazem? Arrebentará os obstáculos e, porque até agora trancado com violência e a transbordar, arrasará os armazéns, esvaziará os celeiros do rico, como se ali entrasse um inimigo que avança. Não há garantia de que os deixará assim destruídos ao seu herdeiro. De fato, muito mais depressa será ele levado para outro lugar do que construídos aqueles celeiros, conforme seu projeto ambicioso. Ele, portanto, por seus pensamentos iníquos, teve um fim conveniente. Vós, porém, dai-me ouvidos: escancarai todas as portas dos depósitos, com toda a liberalidade permiti que a riqueza saia livremente. Como um grande rio irriga e fecunda a terra por milhares de canais, assim vós dai livre curso às riquezas para que possam chegar à casa dos pobres. 

Os poços, donde se extrai com freqüência a água, jorram água mais fácil e copiosa; deixados sem uso, as águas se corrompem. Da mesma maneira, a riqueza trancada é inútil e prejudicial, mas a que se movimenta e passa de um a outro é benéfica para todos e frutuosa. Oh! quantos louvores receberão daqueles que foram beneficiados! Que tu não o desprezes! Que éopiosa recompensa terás do justo juiz! Dela não duvides tu! De todos os lados vêm a teu encontro exemplos de ricos acusados diante do tribunal. Aqueles que guardam os bens que já possuem e se angustiam pelos futuros, sem saberem se estarão vivos no dia de amanhã; o amanhã lhes fará perder o hoje. Ainda não chegara nenhum suplicante, e ele já se antecipa com ferocidade. Não recolhera ainda os frutos, e ele já recebe a condenação pela avareza. A terra prometia seus frutos pondo à mostra a messe luxuriante: nos campos lavrados, anuncia-se abundante o trigo; muitos cachos se mostram nos sarmentos.

Carregada de frutos, a oliveira se oferece, junto com todas as espécies de delícias. Inábil e estéril era aquele rico, porque, sem ter ainda alguma coi- sa, já augurava o mal aos necessitados. E, no entanto, quantos perigos antes da colheita! De fato, ora o granizo quebra, ora o calor ardente rouba das mãos, ora a chuva, fora do tempo, precipitando-se, estraga os frutos. Por que então não pedes ao Senhor que leve a termo o seu dom? Mas, apoderando-te dele antecipadamente, tu te tornas-te indigno de receber o prometido.

-- parte II da Homília sobre a riqueza e a avareza,  São Basílio (século IV)

25 de set. de 2017

Homília sobre a avareza e o rico (Lc 12,16-21)

Dupla é a espécie da tentação: de um lado, as tribulações que põem à prova o coração como o ouro no crisol (cf. Sb 3,6) mostram quanto há nelas de bom na prática da paciência; de outro lado, a própria prosperidade da vida, que para a maior parte das pessoas se torna freqüentemente uma prova, dado que é igualmente difícil manter-se seguro o ânimo nas adversidades e não se deixar dominar pelo orgulho e pela arrogância no meio das dificuldades. Exemplo da primeira espécie de tentação é o grande Jó, campeão imbatível, que suportou os violentos assaltos do demônio, semelhantes ao ímpeto de uma torrente, com ânimo imperturbável e com propósito irremovível; e nas tentações tanto se mostrou superior, quanto maiores e árduas apareciam as lutas que empreendeu com o adversário.

Das tentações que derivam da prosperidade da vida, temos muitíssimos exemplos: entre outros, aquele rico cuja história acabamos de ler. Este homem, além das riquezas que possuía, desejava ainda outras. A misericórdia de Deus, ao invés de condená-lo imediatamente por sua ingratidão, às riquezas de antes ajuntava sempre novas, querendo com isso convidá-lo a ser liberal e benigno, uma vez saciado abundantemente. "As terras de um rico - diz, de o Evangelho - deram uma abundante colheita. E ele refletia consigo mesmo: Que farei? Demolirei meus celeiros e construirei outros maiores" (Lc 12,16-18). 

Por que deram tão abundante colheita as terras daquele homem que, na abundância, não soubera tirar nenhum proveito? Para que melhor aparecesse a longanimidade de Deus, a bondade daquele que se estende também a este. Deus, de fato, "faz chover sobre justos e injustos e faz nascer o sol sobre os bons e os maus" (Mt 5,45). Tal bondade de Deus, porém, acumula sobre a cabeça dos maus maiores castigos. Ela faz cair a chuva sobre o campo cultivado por mãos avaras e dá o sol que aquece a semente e multiplica abundantemente os frutos. 

A generosidade de Deus 
Eis quanto provém de Deus: fertilidade do solo, condições atmosféricas propícias, abundância das sementes, a ajuda dos bois e outros elementos que contribuem para o incremento da agricultura. 

E da parte do homem? Dureza de coração, misantropia e avareza: é dessa maneira que o homem agradece ao próprio benfeitor. Não se recordou da comunhão de natureza, não pensou que precisava dividir o supérfluo entre os indigentes, não levou em conta o mandamento: "Não negues um benefício ao necessitado" (Pr 3,27). "A caridade e a confiança não te abandonem" (Pr 3,3). "Reparte o pão com o faminto" (Is 58,7). Permaneceu surdo ao grito de todos os profetas e de todos os mestres. 

A avareza do homem 
Os celeiros, pequenos demais para abrigar tanta abundância, são destruídos, mas o coração avaro não estava satisfeito. Com o advento de novas riquezas às antigas e com os proventos de cada ano, aumentava a abundância. Estava o homem rico neste dilema, do qual não sabia como desembaraçar-se: não queria desfazer-se dos velhos, por avareza; não podia recolher o novo, por causa da abundância. Por isso, atormentava-se sem chegar a nenhuma conclusão: "Que farei?". Quem não se comoveria por um homem assim atormentado? Consternado pela prosperidade, é um mísero pelos bens que possui; mais mísero ainda pelos que viriam. 

Se a terra não lhe produz os proventos, cai em gemidos constantes. Se se acumulam frutos abundantes? Aflições, penas, angústias cruéis! Lamenta-se como um pobre. Não exclama, talvez, da mesma maneira de quem está na indigência? "Que farei? O que comerei? Como me vestirei?". 

Assim vai repetindo, em alta voz, o rico. Leva no coração o tormento, a ansiedade o aflige, porque aquilo que a outros torna alegres, consome pela preocupação o avaro. A casa está abarrotada de tudo, porém, ele não se alegra. Pelo contrário, aqueles bens que afluem de todas as partes e que transbordam os celeiros torturam-lhe a alma por temor de que, escapando para fora alguma migalha, os necessitados possam se aproveitar delas. 

Parece-me que a paixão destes se assemelha à dos glutões, que preferem arrebentar-se pela voracidade antes que deixar alguma sobra aos necessitados. 

O homem é administrador dos dons divinos 
Reconhece, ó homem, o teu doador. Recorda-te de ti mesmo: quem sou, que coisa administra, de quem recebeste, porque foste preferido entre muitos. És servidor da bondade de Deus, administrador dos teus companheiros de servidão. Não creias que tudo seja destinado a teu ventre. Considera os bens que estão nas tuas mãos como coisa de outros: por breve tempo alegram-te, depois deslizam e desaparecem rapidamente; àeles deverás prestar contas pormenorizadas. 

Embora tenhas tudo bem fechado com portas trancadas, amarrado e selado, todavia, as preocupações te impedem o sono. Ruminas dentro de ti, estulto conselheiro de ti mesmo: "Que farei?". Seria, ao invés, ocasião de dizer: saciarei quem tem fome, abrirei meus celeiros e chamarei todos os indigentes. Imitarei o benéfico edito de José: "Quantos não tenham pão, vinde a mim; tome cada um o suficiente do dom concedido por Deus, como de uma fonte comum" (Gn 47,13-26).

Por que não és assim também tu? Tens medo de que outros tirem proveito destes bens e, ruminando na alma sentimentos maus, meditas, não tanto como distribuir a cada um segundo a necessidade, mas como ajuntar ainda mais bens e tirar de todos os proventos para ti. 

Já haviam chegado aqueles que lhe pediriam a alma (cf. Lc 12,20) e ele confabulava consigo sobre alimentação; naquela mesma noite o levariam deste mundo (cf. Lc 12,20) e ele fantasiava gozar ainda por muitos anos. Foi-lhe deixado desejar tudo, expressar seu pensamento, para que seu propósito sofresse a sentença que merecia. 

Exortação aos ricos 
Toma cuidado para que não te aconteça o mesmo! Estas coisas foram escritas para que evitemos semelhante destino. Imita a terra, ó homem, e produz frutos à sua semelhança: não sejas pior que a criatura inanimada. A terra produz frutos não para o proveito próprio, antes para tua sustentação. Tu, no entanto, qualquer fruto de bondade que produzires, recolherás para teu proveito, dado que o mérito das boas obras se reverte para os doadores. Deste ao faminto? O dom se volta para ti e te é restituído com juros. Como o trigo lançado à terra transforma-se em lucro para aquele que o semeou, assim o pão dado ao fa- minto te renderá, a seu tempo, lucro abundante. Põe fim, pois, ao cultivo dos campos e começa a semear para o céu, porque está escrito: "Semeai para vós sementes de justiça" (Os 10,12). 

A generosidade é uma glória para o homem 
"Muito melhor um nome bom que grandes riquezas" (Pr 22,1). Se, pois, as riquezas te parecerem uma grande coisa pela honra que delas deriva, reflete quanto é mais vantajosamente honrável ser chamado pai de inumerá- veis filhos do que ter dinheiro na bolsa. Esta a deixarás aqui, quer queiras quer não; ao invés, a honra conquistada com as boas obras a levarás contigo à face do Senhor, quando todo o povo reunido em torno de ti diante do juiz comum te aclamará provedor, benfeitor e te dará todos os títulos da caridade. Não vês aqueles que gastam o dinheiro nos teatros, nos pugilatos, nas cenas burlescas, nas lutas com as feras -gente que ninguém deveria olhar no rosto? -e tu és tão mesquinho em distribuir, enquanto uma glória bem mais elevada te espera? Deus saberá te acolher, os anjos te louvarão, os homens, todos quantos existiram desde a criação, te aclamarão bem-aventurado. Uma glória eterna, uma coroa de justiça, o reino dos céus serão para ti o prêmio pela distribuição destes bens caducos. Não mais te ocuparás com eles: substitui o empenho pelos bens presentes, por aqueles que esperamos. Coragem, pois! Dispõe generosamente das tuas riquezas, sê ambicioso e generoso no dispensar a quem tem necessidade. Que se possa dizer de ti: "É generoso, distribui de boa vontade aos pobres, a sua justiça permanece para sempre" (Sl 111,9). Não vendas a preço muito alto aproveitando da necessidade, não esperes a carestia para abrir os celeiros, porque "o povo maldiz quem retém o trigo" (Pr 11,26). Não socorrer os famintos por causa do ouro, nem a penúria geral para poderes estar na abundância é inadmissível; não te faças desfrutador das desgraças humanas. Não faças da ira de Deus uma ocasião para aumentar tuas riquezas. Não tornes mais dolorosas as chagas de quem foi golpeado pelos flagelos. 

Tu, ao invés, fixas os olhos no ouro, mas não olhas em face o irmão. Sabes reconhecer a marca da moeda e distinguir a falsa da verdadeira, porém ignoras completamente o irmão necessitado.  

-- parte I da Homília sobre a riqueza e a avareza,  São Basílio (século IV)

7 de set. de 2017

Aqueles que creêm em Deus abandonam seus antigos costumes

Aqueles com quem vivemos trazem antiquíssimas inimizades com outros [índios] da mesma nação, e por isso de uma ou outra parte se declara e se aceita frequentemente a guerra, para a qual concorrem muitos de diversos lugares; assim, mesmo estando nós entre eles, partiram contra os inimigos.

Um dia antes de entrarem no combate, os que vinham de outros lugares, começaram a oferecer sacrifícios a seus feiticeiros, a quem chamam de pajés, interrogando-os sobre o que lhes sucederia no conflito. Não só os batizados, mas também outros a quem a palavra de Deus já fora semeada, perguntados se queriam dar créditos àquelas mentiras, responderam que não, e que traziam seu Deus no coração, em cujo auxílio confiavam que alcançariam vitória maior do que com sacrifícios imundos.

Tendo eles entrado em combate e aparecendo a imensa multidão de inimigos, muitos abalados pelo medo e terror, começaram a perder o ânimo. Vendo isso, uma mulher já batizada, que era esposa do chefe da aldeia e partira com ele para a guerra, aconselhou a todos que fizessem o sinal da cruz para perder o temor. Assim revigorados, os inimigos foram desbaratados e dispersos. Dos nossos catecúmenos, nenhum foi feito prisioneiro pelos inimigos, que costumam matá-los e comê-los. 

Aqueles feiticeiros de que já falei são tidos por eles em grande estima, por que chupam os outros quando são acometidos de alguma dor e, assim, os livram das doenças e afirmam que tem poder sobre a vida e a morte. Nenhum deles comparece diante de nós, por que descobrimos seus embustes e mentiras. Ocorreu que um destes feiticeiros foi convidado pelo filho de um dos cristãos à sua casa para que o curasse. Ao saber o que fizera seu filho, o pai o repreendeu asperamente, dizendo que não poderia entrar novamente na Igreja e seria assado pelo demônio por dar crédito aos feiticeiros.

Outra criança de quatro ou cinco anos, assaltada de grave enfermidade, rogava muitas vezes em prantos à sua mãe que a levasse ao templo, e gemendo em frente ao altar, pedia em sua própria língua: "Ó Padre curai-me!". Interrogada pelo seu pai se queria que chamassem um dos feiticeiros para aplicar os remédios da tribo, chorando com grande lamentos lançou-se por terra, dizendo que não, que com o auxílio de Deus recuperaria a saúde. O Senhor operou um certo remédio, que aplicado pelos irmãos da Companhia [de Jesus], recobrou a tão esperado saúde do menino.

Esperamos que ainda se colherão muitas graças e favores divinos, frutos dos obreiros de Deus que enviaste para esta tão fecunda vinha, para o maior benefício de Deus. Aqui habitamos presentemente com o Reverendo em Cristo Padre Manuel da Nóbrega, sete irmãos separados da convivência dos portugueses, aplicados tão somente à doutrina dos índios. Temos também conosco alguns índios que abominam os costumes da tribo, pondo em tudo amor ao Pai. Louvor e glória a Deus, de quem todo bem procede.

-- trechos de uma carta de São José de Anchieta escrita em setembro de 1554, quando estava em Piratininga, no atual estado de São Paulo

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