12 de abr. de 2026

As nove posições para rezar

 As formas de oração de São Domingos despertaram a curiosidade de seus irmãos. Diz-se que eles o observavam rezar. Faziam-no de uma janela superior. Viram o que foi registrado como as nove formas de oração de Domingos: nove posturas ou gestos distintos. Frequentemente, ouviam-no recitar ou exclamar palavras das Escrituras. Essas nove formas são incomuns em nossos tempos atuais; portanto, uma breve intodução pode ser útil.

De uma perspectiva histórica, surgiu na Igreja da Espanha, no final do século XII, um grupo religioso que exerceu grande influência sobre o povo. Sua crença de que o corpo era mau e a alma boa, era pregada tanto em palavras quanto em ações. Esse grupo religioso era extremamente austero e praticava a autopenitência. Algumas das formas de oração de Domingos refletiam esse modo de pensar.

De uma perspectiva filosófica, o dominicano São Tomás de Aquino ensinou que certas atitudes e gestos corporais podem nos predispor à oração e que, inversamente, uma oração intensa pode irromper em uma expressão corporal.

De uma perspectiva psicológica, a Irmã Catherine Aubin, autora de Sobre a Oração com o Corpo, Segundo São Domingos, sugere que, quando alguém ama, esse amor se manifesta por meio de gestos, palavras e sorrisos. O mesmo ocorre na oração.

De uma perspectiva antropológica bíblica, Aubin recorda que funções específicas e dinâmicas são atribuídas às diferentes partes do corpo. Por exemplo, o pescoço pode simbolizar o lugar de honra, de peso — mas também de afeto ou humildade; daí a inclinação da cabeça. É dentro desses diversos contextos que examinamos as nove formas de oração de Domingos.

A PRIMEIRA MANEIRA DE ORAR É A INCLINAÇÃO

Na Tradição Dominicana, existem três formas desse gesto: a simples inclinação da cabeça, uma inclinação a partir dos ombros, e a inclinação profunda, a partir da cintura.


Antigos desenhos de São Domingos em oração diante do altar de Cristo crucificado mostram-no fazendo uma inclinação profunda. Vários textos relatam que, permanecendo ereto, Domingos inclinava a cabeça e contemplava humildemente a cabeça inclinada de Cristo crucificado. Ele se humilhava diante do Cristo que assumiu a humilhação da cruz. E os irmãos o ouviam rezar: 

  • “Eu não sou digno de que entres sob o meu teto.” [Mt 8:8]
  • “Fui profundamente humilhado diante de Ti, ó Senhor.” [Sl 118:107]
  • “Ó Senhor, Deus, a oração dos humildes e mansos sempre Te agradou.” [Jd 9:16]

São Domingos ensinou os irmãos a se humilharem diante de Cristo crucificado e a se humilharem diante da Trindade enquanto entoavam o Glória ao Pai. Esse mesmo gesto perdura, ainda hoje, em algumas congregações dominicanas.

ESTENDIDO NO CHÃO

Domingos deitava-se de bruços, estendido no chão. Dizia-se que ele assumia essa postura quando tomado por uma grande tristeza, e então chorava. Às vezes, com a voz alta o suficiente para ser ouvida, ele orava: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador.” [Lucas 18:13]

São Domingos orava com todo o seu corpo, foi assim que ensinou seus irmãos a rezar pela misericórdia de Deus.

Ele ainda exortava: “Se não puderem chorar pelos seus próprios pecados, chorem pelos pecados dos outros.”

Dessa maneira, São Domingos invocava a misericórdia de Deus para todos.

AJOELHADO EM AUTOFLAGELAÇÃO

Erguendo-se de sua prostração até ficar de joelhos — conforme descrito na segunda forma de oração —, Domingos se flagelava com uma corrente de ferro. Esta terceira maneira de orar era uma forma de penitência. É preciso recordar o contexto da época em que São Domingos viveu, o que nos permite compreender o que, hoje, poderia parecer uma forma de oração inaceitável.

Em memória de seu exemplo, a Ordem decretou que todos os frades deveriam receber a disciplina — com varas de madeira sobre os ombros. Tal prática devia ser observada nos dias em que não houvesse festas litúrgicas, enquanto, curvados, recitavam: “Tende piedade de mim, ó Deus, em vossa bondade; [...] apagai as minhas ofensas” [Miserere, Sl 51]; ou: “Das profundezas clamo a vós, Senhor; Senhor, ouvi a minha voz!” [De Profundis, Sl 130].

A flagelação era realizada em penitência pelas próprias faltas do frade, bem como pelas faltas alheias.

Humildade, misericórdia e autodisciplina caracterizam as três primeiras maneiras de orar de São Domingos. De que modo a humildade, a misericórdia e a autodisciplina servem como meio para superar as faltas?

A GENUFLEXÃO

Enquanto contemplava a cruz, Domingos genufletia frequentemente. Tomado de reverência diante do Cristo crucificado, ele se levantava e, em seguida, ajoelhava-se — erguendo-se e ajoelhando-se repetidas vezes.

E, nessas posturas, uma transformação operava-se nele; ele sentia uma imensa confiança na misericórdia de Deus para consigo mesmo, para com seus irmãos e para com todos os pecadores. Por vezes, podia-se ouvi-lo murmurar: “A ti clamo, ó Senhor! Ó meu Deus, não permaneças em silêncio para comigo...” [Sl 27,1]

Em outros momentos, permanecia em genuflexão silenciosa, e parecia que uma grande alegria o levava às lágrimas. Então, mais uma vez, levantava-se e, novamente, ajoelhava-se. Tornou-se a forma íntima e pessoal de adoração de Domingos. Ele ensinou seus irmãos a rezar dessa maneira por meio de seu próprio exemplo, pois orava assim não apenas em seu quarto, mas também durante suas viagens.

São Domingos — por vezes chamado de “atleta de Cristo” — rezava de modos fisicamente exigentes, marcados por uma rigorosa disciplina corporal. E o fazia com grande graça e agilidade.

Hoje em dia, habitualmente genufletimos ao entrar e sair da igreja ou capela. Talvez o façamos como uma forma de etiqueta eclesiástica. Se essa é a sua prática, o que lhe vem à mente no momento em que dobra o joelho?

COM AS MÃOS ESTENDIDAS

Na quinta maneira de rezar, São Domingos permanecia de pé, com as mãos estendidas diante de si, como se estivesse lendo um livro. Diz-se que ele se mantinha em tal reverência, como se estivesse lendo a própria presença de Deus.

Em seguida, por algum tempo, ele unia as mãos; em outros momentos, erguia-as, tal como faz o sacerdote na liturgia. Parecia que São Domingos se postava como um profeta que, primeiro, falava com Deus, ouvia atentamente a resposta divina e, depois, detinha-se em reflexão silenciosa sobre aquilo que lhe fora revelado.


OS BRAÇOS ESTENDIDOS EM FORMA DE CRUZ

Na sexta maneira de orar,  São Domingos permanecia de pé, com os braços estendidos, em forma de cruz. Diz-se que ele orava dessa maneira na expectativa de um milagre que Deus realizaria.

Foi assim que São Domingos suplicou a Deus quando um menino foi ressuscitado na Igreja de São Sisto, em Roma; quando o próprio São Domingos foi elevado do solo durante a celebração da Missa; e quando um grupo de peregrinos foi salvo de se afogar em um rio próximo a Toulouse. Aqueles que observavam essa forma de oração ficavam tão impressionados que acabavam por não se lembrar do que São Domingos dizia.

Nessa reverente súplica, São  Domingos parecia conhecer a intenção de Deus de fazer brotar, da morte na cruz, uma nova vida. “Estendi as minhas mãos para ti... Ouve-me depressa, ó Senhor.” (Sl 142, 1-7)

Nessa imitação de Cristo na Cruz, São  Domingos inspirava os irmãos; contudo, não os encorajava nem os desencorajava a orar dessa maneira.

Experimente! É sério! Você consegue manter essa postura por um minuto? Por dois?

AS MÃOS ELEVADAS AO CÉU

A sétima posição para orar consistia na súplica, na qual todo o ser de São Domingos era visto como uma flecha disparada de um arco, dirigida para o céu. Erguidas acima de sua cabeça, as mãos de Domingos permaneciam unidas ou levemente afastadas, como se estivessem a receber algo do céu. Dessa forma, São Domingos reconhecia que todos os bons dons provêm de Deus.

Enquanto mantinha essa postura,São  Domingos parecia entrar em um estado de êxtase; e, ao recobrar a consciência terrena, orava: “Ouve, ó Senhor, a voz da minha súplica que a Ti dirijo, quando elevo as minhas mãos para o Teu santo templo.” (Sl 27,2)


LEITURA ORANTE

A oitava forma de oração — a leitura orante ou reflexiva — poderia ser descrita como São Domingos em conversa à mesa com a Palavra. O santo retirava-se para algum lugar tranquilo e, sentado à mesa, fazia o sinal da cruz e começava a ler um livro.

Pouco depois, parecia que estava a dialogar com um amigo; mostrava-se, alternadamente, a escutar em silêncio, a discutir e argumentar, a rir e a chorar, e, em seguida, a inclinar-se e, falando em voz baixa, a bater no peito. Era como se São Domingos descobrisse que Deus, de alguma forma, lhe falava por meio das palavras que lia.

Diz-se que ele parecia transitar da leitura para a oração, da oração para a meditação e da meditação para a contemplação.

A NONA MANEIRA DE ORAR: CAMINHANDO

Orar durante uma jornada consiste em caminhar na solidão. Enquanto São Domingos e seus companheiros viajavam a pé de um país a outro, ele se afastava da companhia deles e caminhava sozinho.


Esse era um tempo de meditação para Domingos. Era o momento de meditar sobre as Escrituras e comungar com o Espírito Santo. Referindo-se às suas longas caminhadas solitárias, ele costumava citar aos seus companheiros: “Eu a conduzirei (minha esposa) ao deserto e lhe falarei ao ouvido.” (Oséias 2:16) Essa era a preparação para a santa pregação de Domingos.

Caminhe. Sozinho. Ouça os sons do ambiente ao seu redor: aviões sobrevoando, carros no tráfego distante, ruídos da indústria. Volte seu foco para os sons da natureza: o chilrear dos pássaros, o farfalhar das folhas ao vento, o canto dos grilos. Direcione sua atenção para o som de seus passos, para sua respiração, para a sensação do bater de seu coração.

Caminhe agora para a parte mais profunda de si mesmo e ouça. Você consegue ouvir a voz de Deus?


-- tradução própria da página St. Dominic's Nine Ways of Prayer by S. Chris Broslavick

4 de abr. de 2026

A Ressurreição - Páscoa 2026

Evangelho da Vigília de Páscoa, Mateus 28, 1-10.

Comentários de São Jerônimo sobre o Evangelho de São Mateus

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 Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.

O fato de serem descritos momentos diferentes para essas mulheres nos Evangelhos não é sinal de falsidade, como objetam os ímpios. Pelo contrário, isso demonstra uma visitação persistente. Pois elas iam e voltavam frequentemente e não conseguiam suportar ficar ausentes do sepulcro do Senhor, nem mesmo por um breve momento.

De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.

Nosso Senhor é um só e o mesmo Filho de Deus e Filho do homem. Segundo ambas as naturezas — divindade e carne —, Ele manifesta sinais: ora de sua grandeza, ora de sua humildade. É por isso que, na presente passagem — embora seja um homem aquele que foi crucificado, sepultado e encerrado no sepulcro, a quem uma pedra retinha como obstáculo —, no entanto, os eventos que ocorrem do lado de fora o revelam como o Filho de Deus: o sol se retira, a escuridão cai, a terra treme, o véu do templo se rasga, as rochas se fendem, os mortos ressuscitam; há o serviço dos anjos, os quais, já desde o momento de seu nascimento, provaram que Ele era Deus. 

Por exemplo: Gabriel vem a Maria; um anjo fala com José; o mesmo anjo anuncia a notícia aos pastores; mais tarde, ouve-se um coro de anjos cantando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Ele é tentado no deserto e, imediatamente após sua vitória, os anjos o servem. Agora, também, um anjo vem atuar como guarda do sepulcro do Senhor. Por meio de suas vestes resplandecentes, ele expressa a glória Daquele que triunfou. E, além disso, quando o Senhor ascende aos céus, dois anjos são vistos no Monte das Oliveiras, prometendo a segunda vinda do Salvador aos
apóstolos.


Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos. Então o anjo disse às mulheres: "Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado.

Os guardas estão completamente aterrorizados pelo medo. Jazem ali, estupefatos como mortos; e, no entanto, o anjo não consola a eles, mas sim às mulheres: “Não tenhais medo.” Que eles tenham medo, diz ele. O pânico persiste naqueles em quem habita a incredulidade. Mas quanto a vós, já que buscais o Jesus crucificado, ouvi isto: Ele ressuscitou e cumpriu as suas promessas.

Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos".







Assim, se não acreditais nas minhas palavras, deveis acreditar no sepulcro vazio. Ide com passos rápidos e anunciai aos seus discípulos que Ele ressuscitou. E Ele vai adiante de vós para a Galileia — isto é, para o pântano dos Gentios, onde outrora havia erro e instabilidade, e onde anteriormente Ele não havia deixado a sua pegada com pé firme e estável.

As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 

Dois sentimentos distintos ocupavam as mentes das mulheres: o medo e a alegria. O primeiro provinha
da grandeza do milagre; o segundo, da sua saudade do Ressuscitado. E, no entanto, ambos os sentimentos aceleravam os seus passos femininos. Elas foram aos apóstolos para que, por meio deles,
o celeiro da fé fosse espalhado.

De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: 'Alegrai-vos!' As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés.

Aquelas que buscavam dessa maneira, aquelas que corriam desse modo, mereceram encontrar o Senhor ressuscitado e ser as primeiras a ouvir: “Salve!” Assim, a maldição da mulher Eva foi quebrada entre as mulheres. Aquela que buscava o vivente entre os mortos e que ainda não sabia que o Filho de Deus havia ressuscitado, ouve, merecidamente: “Não me toques, pois ainda não subi para meu Pai.”

10 Então Jesus disse a elas: "Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão".

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, deve-se sempre observar o seguinte: Quando surge uma visão de maior majestade, o medo é, a princípio, afastado. Assim, uma vez que a mente tenha sido acalmada dessa maneira, as palavras proferidas podem ser ouvidas.

Ele também falou a esses irmãos em outra passagem: “Anunciarei o teu nome aos meus irmãos.” Não é na Judeia que eles verão o Salvador, mas na multidão dos Gentios.

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A Ressurreição, gravura de Giulio Bonasone, Metropolitan Museus on Art, New York.

A gravura mostra a cena fundamental da fé cristã, Jesus Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte. Os guardas estão no chão, caídos, mal podem olhar o vitorioso Cristo. Abaixo de Cristo, sua tumba agora vazia, não mãos de Cristo estão os sinais de sua vitória, uma bandeira branca, sinal de pureza, e a cruz. 







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