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20 de ago. de 2022

A Comunhão é a união mística entre Cristo e a Igreja



Na nossa catequese mistagógica sobre a Eucaristia, após a Liturgia da Palavra e a Consagração, alcançamos o terceiro momento, a comunhão.

Este é o momento da Missa que mais claramente expressa a unidade e igualdade de todos batizados, acima de qualquer distinção de ministério ou posição na Igreja. Até este momento a distinção de ministério está presente, na Liturgia da Palavra há uma diferença entre o que ensina e os ouvintes, na consagração há o padre consagrando e o povo participando, mas na Comunhão não há nenhuma diferença. A comunhão recebida por um simples batizado é a mesma recebida pelo padre ou bispo. A comunhão Eucarística é uma proclamação sacramental de que a koinonia* está em primeiro lugar na Igreja e é mais importante que a hierarquia.

Vamos refletir sobre a Comunhão Eucarística a partir de um texto de São Paulo (1Cor 10:16-17):

O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só corpo, porque todos nós comungamos do mesmo pão.

A palavra “corpo” ocorre duas vezes, mas com significados diferentes. Na primeira vez, “o corpo de Cristo”, indica o corpo real de Cristo, nascido de Maria, morto e ressuscitado; na segunda vez, “formamos um só corpo”, indica o corpo místico da Igreja. Não é possível falar de forma mais clara e direta que a Eucaristia é sempre uma comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs, que há uma dimensão vertical e outra horizontal. Vamos falar, agora, da primeira:

Comunhão com Cristo

Que tipo de comunhão é criada entre nós e Cristo na Eucaristia? Em João 6,57  Jesus diz: “Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim.” A preposição “por” indica uma causa e um objetivo. Significa que aquele que recebe o corpo de Cristo vive dEle, isto é, por causa dEle, pela graça da vida que recebe dEle; também significa que vive para servir à sua glória e reino. Assim como Cristo vive em união com o Pai, pelo mistério da sagrada Eucaristia, seu corpo e sangue, vivemos por Jesus e para Jesus.

De fato, é um princípio fundamental da vida que os mais fortes se alimentam dos mais fracos, por exemplo uma planta assimila os minerais do solo, enquanto os animais se alimentam de vegetais, não ao contrário. Em todos os casos da natureza, aquele que come assimila os nutrientes dos mais fracos. No nível espiritual, também é o divino que assimila o humano, não ao contrário, mas, ao contrário da natureza, na Comunhão aquele que é comido que incorpora que o recebe. Para aqueles que se aproximam para recebê-lo, Jesus repete o que disse para São Agostinho: “Não és tu que me receberás, mas Eu que te receberei”.

Um filósofo ateísta diz: “O homem é aquilo que ele come” (F. Feuerbach), indicando que no homem não há qualquer diferença qualitativa entre matéria e espírito, que tudo se resume a compostos orgânicos e matéria. Um ateísta, mesmo sem saber, dá uma excelente formulação do mistério cristão: Graças a Eucaristia, o cristão é realmente aquilo que come! São Leão Magno escreveu a muitos séculos: “Nossa participação no corpo e sangue de Cristo nos transforma naquilo que recebemos”.

Na Eucaristia, portanto, não há somente uma comunhão entre Cristo e nós, mas também assimilação; comunhão não é apenas a união de dois corpos, duas mentes, duas vontades, também é o recebimento de um corpo, de uma mente e da vontade de Cristo: “quem se une ao Senhor torna-se com ele um só espírito.” (1 Cor 6,17).

Mas a nutrição, o comer e beber, não é a única analogia que podemos fazer sobre a Eucaristia, mesmo que seja indispensável. Há algo que ela não pode expressar pois é uma comunhão entre objetos materiais, não entre pessoas. Gostaria de insistir em outra analogia que pode nos ajudar a compreender a natureza da comunhão Eucarísitica como uma comunhão entre pessoas que procuram esta comunhão.

A Carta aos Efésios diz que o casamento é um símbolo da união entre Cristo e a Igreja: “Por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne (Gn 2,24). Esse mistério é grande, quero dizer, com referên­cia a Cristo e à Igreja. Em resumo, o que importa é que cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher respeite o seu marido.” (Ef 5, 31-33). A Eucaristia, para usar uma imagem forte mas verdadeira, é a consumação do casamento entre Cristo e a Igreja. Uma vida cristã sem Eucaristia é como um casamento que não é consumado. No momento da Comunhão, o celebrante diz: “Benditos são aqueles chamados para Ceia do Senhor”,  no livro do Apocalipse, do qual esta expressão foi retirada, diz ainda mais explicitamente: “Ele me diz, então: ‘Escreve: Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro’. Disse-me ainda: ‘Estas são palavras autênticas de Deus.’“ (Ap 19, 9).

Como explica São Paulo, a consequência imediata do casamento é que o corpo, isto é, toda pessoa, do marido pertence à esposa e, vive versa, a esposa pertence ao marido (cf. 1Cor 7,4). Isto significa que a Palavra encarnada, incorruptível, que dá a vida, passa a ser “minha”, mas também que minha carne, minha humanidade, se transforma em Cristo. Na Eucaristia recebemos o corpo e sangue de Cristo, mas Cristo também recebe nosso corpo e sangue! Jesus, conforme escreveu Santo Hilário: “Quando Ele diz ‘Tomai e comei, este é o meu corpo’, nós o recebemos, mas também podemos dizer ‘tome, este é o meu corpo’”.

Tentemos agora entender as consequências de tudo isto. Na sua vida humana, Jesus não teve todas experiências humanas possíveis. Para começar, ele era homem, não mulher, ele não experimentou algumas coisas que metade da humanidade experimenta; ele não foi casado, então não teve a experiência de estar unido à outra pessoa, ter filhos, ou pior, perder um filho; ele morreu jovem, não experimentou a velhice, etc…

Mas agora, através da Eucaristia, Ele tem toda esta experiência. Ele vive a condição de uma mulher, de um doente, de um velho, um pobre imigrante, de uma pessoa sendo bombardeada, etc..

Não há nada em nossa vida que não seja familiar à Cristo. Ninguém deve dizer: “Jesus não sabe o que é ser casado, perder um filho, estar doente, velho ou ser negro!” O que Cristo não viveu enquanto estava neste mundo, Ele vive e experimenta através do Espírito, graças à comunhão espiritual da Sagrada Missa. Santa Isabel da Trindade compreendeu profundamente este mistério e escreveu para sua mãe: “A noiva pertence ao seu noivo. Meu noivo me recebeu, Ele me quer para acrescentar humanidade à Ele”.

Que coisa maravilhosa, que consolação é pensar que nossa humanidade passa a fazer parte da humanidade de Cristo! Mas também que responsabilidade! Se meus olhos se transforma nos olhos de Cristo, minha boca na de Cristo, esta é uma excelente razão para não deixar meus olhos se perderem em imagens lascivas, minha língua não falar contra o próximo, meu corpo não se transformar em instrumento de pecado. “Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo? Tomarei, então, os membros de Cristo e os farei membros de uma prostituta? De modo algum!” (1 Cor 6,15).

E ainda, isto não é tudo, a parte mais bela ainda está faltando. O corpo da esposa pertence ao noivo, mas também o corpo do noivo pertence à esposa. Na comunhão, aquele que está dando também está recebendo, recebendo nada mesmo que a santidade de Cristo! Onde este maravilhoso comércio que a liturgia nos fala ocorreria na vida dos fiéis se não fosse no momento da comunhão?

Ali temos a oportunidade de dar para Jesus nossas sujeiras, nossos pecados, e receber o manto da justiça (cf. Is 61,10). De fato, está escrito que “É por sua graça que estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1 Cor 1,30). Aquilo que se tornou para nós estava destinado para nós, é algo que nos pertence. “Ou não sabeis que o vosso corpo ..., já não vos pertenceis? Porque fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” (1 Cor 6,19-20). No sentido contrário, também aquilo que pertence a Deus pertence a nós, mas temos que lembrar que pertencemos a Cristo por direito, mas Ele pertence a nós por graça!

Esta é uma descoberta capaz de dar asas a nossas vidas espirituais. Este é um grande passo de fé e devemos rezar a Deus para não morrermos sem fazer esta caminhada.

-- Padre Raniero Cantalamessa, terceira catequese no Tempo de Quaresma, 25 de Março de 2022.

*koinonia é o compartilhamento, a comunhão dos bens espirituais da Igreja; também pode ser estendida aos bens materiais, o que é comum nas ordens religiosas.



7 de jan. de 2018

Perguntas sobre a Eucaristia - Presença Real

Para os orientais, a palavra é a ação. Quando Deus disse: "que se faça o mundo", o mundo foi criado. Vendo a ação de Deus, entendemos que Deus existe. Hoje nós podemos perceber Deus na criação, ao observarmos o mar, as montanhas, os céus, toda natureza, muitos testemunharam Deus vivo em Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado em forma humana. Muitos poderiam pensar que estamos, então, nunca espécie de desvantagem, por não termos o mesmo privilégio dos apóstolos, Maria e outros daquela época. Isto é pensar pouco de Deus, pois na Eucaristia manifesta-se a presença real de Cristo, que é presente em Corpo e Sangue. Como acreditamos nisto? Por que Cristo mesmo disse: 

"Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? 

Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. 5Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim." (Jo 6, 49-57)

1. Como Cristo está presente no mundo e na Igreja?

Jesus Cristo está presente na sua Igreja de múltiplos modos: na sua Palavra, na oração da sua Igreja, "onde dois ou três estão reunidos em Meu nome" (Mt 18, 20), nos pobres, nos doentes, nos prisioneiros, nos seus sacramentos, dos quais é o autor, no sacrifício da missa e na pessoa do ministro. Mas está presente sobretudo sob as espécies eucarísticas.

* segundo Catecismo da Igreja Católica (CIC), parágrafo 1373.

2.  Como Cristo está presente na Eucaristia?

O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos (São Tomás de Aquino, Suma Teológica). No Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo. "Esta presença chama-se "real", não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem "reais", mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem"(Papa Paulo VI, Misterium Fides).

*CIC 1374

3. Por que a hóstia e o vinho não são meros sinais? 

Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu corpo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação.

Que era capaz de realizar milagres, Cristo deu provas ainda vida na multiplicação dos pães e transformar a água em vinho nas bodas de Canaã. Se a pessoa aceitar estes milagres, torna-se menos difícil aceitar que Deus é capaz de transformar hóstia e vinho em Corpo e Sangue cada vez que uma Missa é celebrada.

*CIC 1376, 1335

4. Como os apóstolos aceitaram esta realidade?

O primeiro anúncio da Eucaristia dividiu os discípulos, tal como o anúncio da paixão os escandalizou: "Estas palavras são insuportáveis! Quem as pode escutar?" (Jo 6, 60). A Eucaristia e a cruz causam dúvidas até hoje. Tendo amado os seus, o Senhor amou-os até ao fim. Sabendo que era chegada a hora de partir deste mundo para regressar ao Pai, lhes deixou uma garantia deste amor, e para jamais se afastar dos seus e para os tornar participantes da sua Páscoa, instituiu a Eucaristia como memorial da sua morte e da sua ressurreição, e ordenou aos seus Apóstolos que a celebrassem até ao seu regresso.

*CIC 1336-1337

5. Como a Eucaristia beneficia a Igreja?

Os que recebem a Eucaristia ficam mais estreitamente unidos a Cristo. Por isso mesmo, Cristo une todos os fiéis num só corpo: a Igreja. A Comunhão renova, fortalece e aprofunda esta incorporação na Igreja já realizada pelo Batismo.  A Eucaristia realiza esta vocação: "O cálice da bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque participamos desse único pão" (1 Cor 10, 16-17). 

Quando ouvimos esta palavra: "O corpo de Cristo"; e respondemoss: "Ámen", então, confirmamos nosso Batismo, confirmamos sermos membros do Corpo de Cristo que é a Igreja. Sem a Sagrada Eucaristia, não haveria Igreja.

* CIC 1396.



6 de jan. de 2018

Perguntas sobre Eucaristia - Aliança e Sacrifício de Cristo

A origem da palavra "sacrifício" é literalmente "fazer algo santo", isto é, retornar para Deus algo que ele criou. Quase todas as religiões tem este conceito, como o sacrifício de animais para agradar a Deus, ou os melhores frutos da colheita, bens preciosos, etc... Mas, na Igreja Católica há este conceito único de que o sacrifício é feito por Deus, para Deus, em Cristo, na Eucaristia. E esta á uma aliança que Deus fez conosco, válida para toda eternidade.

1. O que é uma aliança no sentido bíblico?

 De todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar o seu Criador; só ele é chamado a partilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. 

Porque é imagem de Deus, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas. 

A Aliança Bíblica é uma espécie de acordo com Deus, onde Deus cria o homem, lhe dá os recursos necessários para preservar a vida, por que Lhe ama como um pai ama seu filho e, em troca, o homem de decide amá-lo como uma resposta ao amor de Deus. A Aliança Bíblica começa com uma ação de Deus a qual o homem responde por livre vontade.

Na Bíblia, a primeira Aliança foi com Adão e Eva, que poderiam ter permanecido no Paraíso, mas duvidaram do amor de Deus quando aceitaram as mentiras do Demônio e terminaram se afastando da presença de Deus. 

* segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC) parágrafos 356-358.

2.  Qual foi a Aliança de Deus com Abraão?

Abraão e Sara eram velhos e não tinham filhos, não tinham para quem deixar sua herança, a família terminaria ali com os dois velhos morrendo. Deus promete a Abraão filhos, aumentar sua herança, manter seu nome na terra por mil gerações, exatamente o que Abraão temia que não seria mais possível. Em troca Deus pediu que confiassem nele, abandonassem o que haviam construído onde moravam, pois Deus lhe daria uma terra maravilhosa, cheia de frutos e mel. 

Esta é a Aliança de Deus com Abraão: Deus dá tudo, filhos, saúde, bens materiais; Abraão teria que confiar em Deus, sair da Babilônia onde morava e seguir às orientações de Deus até chegar à Terra Prometida. 

3. Por que sacrifícios do Antigo Testamento foram incompletos? 

Os Judeus, segundo a sua própria confissão, não puderam nunca cumprir integralmente a Lei sem violação do mínimo preceito (Jo 7, 19; At 13, 38-41; 15, 10), pois são humanos. Por isso é que, em cada festa anual da Expiação, pedem a Deus perdão pelas suas transgressões da Lei. Com efeito, a Lei constitui um todo e, como lembra São Tiago, "quem observa toda a Lei, mas falta num só mandamento, torna-se réu de todos os outros" (Tg 2, 10).

Este princípio da integralidade da observância da Lei, não só na letra mas também no espírito, era caro aos fariseus. Tomando-o extensivo a Israel, conduziram muitos judeus do tempo de Jesus a um zelo religioso extremo (Rm 10, 2). 

O cumprimento perfeito da Lei só podia ser obra de quem escreveu a Lei, Deus mesmo, nascido sujeito à Lei na pessoa do Filho (Gl 4, 4). Em Jesus, a Lei já não aparece gravada em tábuas de pedra, mas "no íntimo do coração" (Jr 31, 33), o qual, proclamando "fielmente o direito" (Is 42, 3), se tornou "a aliança do povo" (Is 42, 6). 

* CIC 578-580

4. Por que o sacrifício de Cristo é perfeito?

A morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens (1 Cor 5, 7; Jo 8, 34-36), restabelecendo a comunhão entre o homem e Deus (Ex 24, 8), reconciliando-o com Ele pelo "sangue derramado pela multidão, para a remissão dos pecados" (Mt 26, 28; Lv 16, 15-16). 

Este sacrifício de Cristo é único, leva à perfeição e ultrapassa todos os sacrifícios (Heb 10, 10). Antes de mais, é um dom do próprio Deus Pai: é o Pai que entrega o seu Filho para nos reconciliar consigo (1 Jo 4, 10). Ao mesmo tempo, é um sacrifício do Filho de Deus, que livremente e por amor (Jo 15, 13) oferece a sua vida (Jo 10, 17-18) ao Pai pelo Espírito Santo (Heb 9, 14) para reparar a nossa desobediência.

* CIC 613, 614

5. Por que o sacrifício de Cristo é definitivo e dispensa todos os outros? 

Nenhum homem, ainda que fosse o mais santo, estava em condições de tornar sobre si os pecados de todos os homens e de se oferecer em sacrifício por todos. A existência, em Cristo, da pessoa divina do Filho, que ultrapassa e ao mesmo tempo abrange todas as pessoas humanas e O constitui cabeça de toda a humanidade, é que torna possível o seu sacrifício redentor por todos.

A morte redentora de Jesus deu cumprimento sobretudo à profecia do Servo sofredor (Is 53. 7-8; At 8, 32-35). O próprio Jesus apresentou o sentido da sua vida e da sua morte à luz do Servo sofredor (Mt 20, 28). Após a sua ressurreição, deu esta interpretação das Escrituras aos discípulos de Emaús (450) e depois aos próprios Apóstolos (Lc 24, 25-27).

Consequentemente, Pedro pôde formular assim a fé apostólica no plano divino da salvação: fostes resgatados da vã maneira de viver herdada dos vossos pais, pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito nem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por nossa causa (1 Pe 1, 18-20). 

É o "amor até ao fim" (Jo 13, 1) de Deus por todos seus filhos que confere ao sacrifício de Cristo o valor de redenção e reparação, de expiação e satisfação. "O amor de Cristo nos pressiona, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram" (2 Cor 5, 14). 

* CIC 601, 602, 616

6. Como entender que a Missa é um sacrifício?

 Porque é o memorial da Páscoa de Cristo, a Eucaristia é também um sacrifício. O carácter sacrificial da Eucaristia manifesta-se nas próprias palavras da instituição: "Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós" e "este cálice é a Nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós" (Lc 22, 19-20). Na Eucaristia, Cristo dá aquele mesmo corpo que entregou por nós na cruz, aquele mesmo sangue que "derramou por muitos em remissão dos pecados" (Mt 26, 28).

A Eucaristia é, pois, um sacrifício, porque torna presente o sacrifício da cruz, porque é dele memorial: porque após a morte de Cristo não se devia extinguir o seu sacerdócio (Heb 7, 24-27), na última ceia, "na noite em que foi entregue" (1 Cor 11, 13), Ele quis deixar à Igreja um sacrifício visível, em que fosse representado o sacrifício cruento que ia realizar uma vez por todas na cruz, perpetuando a sua memória até ao fim dos séculos e aplicando a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que nós cometemos cada dia. (Concílio de Trento, Doutrina da Santa Missa)

O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício: é uma só e mesma vítima e Aquele que agora Se oferece pela ação dos sacerdotes é o mesmo que outrora Cristo ofereceu a Si mesmo na cruz; só a maneira de oferecer é que é diferente. E porque neste divino sacrifício, que se realiza na missa, aquele mesmo Cristo, que a Si mesmo Se ofereceu outrora de modo cruento sobre o altar da cruz, agora está contido e é imolado de modo incruento, este sacrifício é verdadeiramente salvador (Santo Inácio de Antioquia).

* CIC 1365-1367
-- autoria própria






9 de mai. de 2017

Como era o Corpo Ressuscitado de Cristo?

O corpo ressuscitado de Cristo teve a mesma natureza do corpo humano, tudo o que pertence à natureza do corpo humano existiu totalmente no corpo de Cristo ressuscitado. Ora, é manifesto que da natureza do corpo humano fazem parte as carnes, os ossos, o sangue e atributos semelhantes. Tudo isso existiu no corpo de Cristo ressuscitado pois do contrário a ressurreição não seria perfeita, se não se reintegrasse tudo o que se desagregou pela morte. Considere que o Senhor fez aos seus fiéis a seguinte promessa: Até os mesmos cabelos da vossa cabeça, todos eles estão contados (Mt 10,30; Lc 12,7). E noutro lugar: Não se perderá um cabelo da vossa cabeça (Lc 21,8).

Quanto a afirmar que o corpo de Cristo não tinha carne nem ossos nem as demais partes naturais ao corpo humano, isso constitui o erro de Entíquio, bispo da cidade de Constantinopla. Dizia ele que o nosso corpo, na glória da ressurreição, será impalpável e mais leve que o vento e o ar. E que o Senhor, depois de ter confirmado o coração de seus discípulos, fazendo-os lhe apalpar o corpo, tornou então imaterial tudo o que antes nele podia ser tocado. 

São Gregório Magno refutou esta doutrina argumentando que o corpo de Cristo não sofreu depois da ressurreição nenhuma mudança, pois, se é inadmissível que Cristo tivesse recebido, na sua concepção, um corpo não-humano, digamos, celeste, como Valentiniano afirmava, muito mais inadmissível é que, na ressurreição, reassumisse um corpo de natureza diferente, pois que o corpo reassumido na ressurreição, para a vida imortal, foi o mesmo que assumiu, na concepção, para a vida mortal. Reconhecendo seu erro, Entíquio retratou-se antes de morrer.

Alguns persistem achando que Cristo ressuscitado era um espírito imaterial, sem carne nem ossos. Esta dúvida foi esclarecida pelo próprio Cristo: Observai as minhas mãos e meus pés e vede que Eu Sou o mesmo! Tocai-me e comprovai o que vos afirmo. Por que um espírito não tem carne nem ossos, como percebeis que Eu tenho (Lc 24, 39). Mas como a corpo de Cristo não sofreu a decadência natural, mas foi visto por cinquenta dias após sua morte? Para explicar este milagre, São Paulo afirma: Nem a corrupção herdará a incorruptibilidade (1Cor 15,50). É fato que Deus todo-poderoso, com relação às propriedades visíveis e palpáveis dos corpos, pode manter algumas e privar os corpos de outras, conforme quiser; de sorte que guardem a sua forma exterior sem nenhuma falha ou corrupção, o movimento sem a fadiga, o poder de comer sem a necessidade. de nutrir-se, como relatam os evangelistas.

Por fim, cabe dizer quanto ao sangue conservado por certas Igrejas como relíquias, esse não correu do lado de Cristo; mas é considerado como tendo jorrado milagrosamente de alguma imagem sua, objeto de qualquer violência, não afetando, portanto a integridade do corpo ressuscitado. 

-- adaptado da Suma Teológica, Tertia Pars, questão 54, artigo 2, de São Tomás de Aquino.

11 de jul. de 2014

Este sacramento, que recebestes, tem por fonte a palavra de Cristo

Vemos que são maiores as obras da graça do que as da natureza. Entre as obras da graça, incluímos a graça da bênção profética. Se a bênção humana teve a força de mudar a natureza, que diremos da própria consagração divina, em que agem as palavras mesmas do Senhor e Salvador? Porque este sacramento que recebes se realiza pela palavra de Cristo. Se tanto pôde a palavra de Elias que fez o fogo descer do céu, não terá a palavra de Cristo o poder de mudar a substância dos elementos? Já leste acerca da criação do mundo inteiro que ele falou e tudo foi feito, ele ordenou e tudo foi criado. Portanto a palavra de Cristo, que pôde do nada fazer o que não era, não poderá mudar o que existe para aquilo que não era? Dar novas naturezas às coisas não é menos do que mudá-las. 

Mas por que apresentamos argumentos? Voltemo-nos para seus exemplos, confirmemos pelos mistérios da encarnação a verdade do mistério. Acaso, quando Jesus nasceu de Maria, foi observada a natureza comum? Normalmente, a mulher concebe pela união com o homem. Está, portanto, bem claro que a Virgem gerou fora da ordem natural. E este que consagramos é o corpo que proveio da Virgem. Por que exiges aqui que seja segundo a natureza, quando foi além da natureza que da Virgem se deu o nascimento do mesmo Senhor Jesus? É realmente a verdadeira carne de Cristo que foi crucificada, sepultada; é verdadeiramente o sacramento desta carne. O próprio Senhor Jesus declara: Isto é o meu corpo. Antes da bênção das palavras celestes era outra realidade; depois da consagração, entende-se o corpo. Ele mesmo diz que é seu sangue. Antes da consagração é outra coisa; depois da consagração, chama-se sangue. E tu dizes: “Amém”; o que quer dizer: “É verdade”. Confesse o nosso interior o que proclamam os lábios, sinta o afeto o que a palavra soa. 

Vendo tão grande graça, a Igreja exorta seus filhos, exorta os amigos a que acorram ao sacramento: Comei, amigos meus, bebei e inebriai-vos, meus irmãos. O que comemos, o que bebemos, o Espírito Santo pelo Profeta o exprimiu: Provai e vede, como é suave o Senhor; feliz de quem nele confia. Neste sacramento está Cristo porque é o corpo de Cristo. Não é, por conseguinte, alimento corporal, mas espiritual. O Apóstolo, falando da sua figura, dizia: Nossos pais comeram o pão espiritual e beberam da bebida espiritual. O corpo de Deus é corpo espiritual; o corpo de Cristo é corpo do espírito divino, porque Cristo é espírito, como lemos: O Espírito diante de nossa face, o Cristo Senhor. E na carta de São Pedro encontramos: E Cristo morreu por vós. Por fim este pão fortalece o nosso coração e esta bebida alegra o coração do homem; assim nos lembra o Profeta.

-- Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

12 de abr. de 2014

Sobre o pão e vinho eucarísticos após a missa

O Pão e Vinho Eucarísticos deixam de ser Corpo e Sangue de Cristo quando a Missa termina? Não! Durante a celebração da Eucaristia, o pão e vinho tornam-se Corpo e Sangue de Cristo e assim ermanecem ao final da Missa. Não podem ser transformados de novo em simples pão e vinho. Não há nenhuma possibilidade de transformá-los de volta ao seu estado natural ao final da celebração. A presença do Corpo e Sangue de Cristo persiste enquanto as espécies eucarístiscas existirem (Catecismo da Igreja Católica, 1377). Cristo permance na Eucaristia enquanto as espécies se mantiverem sob a forma de pão e vinho. São Cirilo de Alexandria já afirmava: Cristo não é alterado, nem seu seu santo corpo é afetado, o poder da consagração e restauraçãoo da vida é perpétuo (carta 83, para o Bispo de Arsinoe). 

Embora seja possível consumir todo pão e vinho ao final da Missa, normalmente algumas hóstias consagradas são guardadas no Tabernáculo, diz-se que são "reservadas" e constituem o Sagrado Sacramento.

Porque anjos guardam o tabernáculo? Assim Deus orienttou
Moisés sobre como construir a Arca da Aliança, o primeiro
tabernáculo. 
Há vários motivos para manter algumas hóstias intactas: em primeiro lugar, são utilizadas para a distribuição aos doentes e aqueles que por legítimas razões não puderam comparecer à Eucaristia. Também podem ser expostas para permitir sua adoração, utilizando o rito apropriado; ou carregadas durante as procissões de Corpus Christi, ou ainda, apenas permitir a oração privada. Diversos santos tinham profunda adoração pelo Santíssimo Sacramento e passavam horas adorando-o. Nas igrejas católicas de rito oriental, a devoção é especialmente importante no tempo de Quaresma.

O tabernáculo onde o Corpo e Sangue de Cristo são mantidos deve estar colocado em um local apropriado e distinto da igreja, adequadamente decorado e que convide à oração. Antigamente o tabernáculo era colocado ao centro da parede do altar, mas recomenda-se que sempre possível seja colocado em outro local. Em igrejas maiores é comum haver uma capela específica para o Santíssimo Sacramento. 

De acordo com a tradição da Igreja, é comum inclinar-se ou ajoelhar-se em frente no tabernáculo, além de fazer o sinal da cruz. Não é apropriado conversas desnecessárias e casuais em frente ao tabernáculo, ao qual deve-se sempre mostrar reverência. 

-- autoria própria


6 de mai. de 2013

Cristo é o vínculo da unidade


Cada vez que participamos do corpo sagrado de Cristo, unimo-nos a ele corporalmente, como afirma São Paulo ao falar do mistério do amor misericordioso de Deus: Este mistério, Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo (Ef 3,5-6).

Ora, se todos nós formamos um só corpo em Cristo, não apenas uns com os outros, mas também com aquele que habita em nós pela sua carne, por que não vivemos plenamente esta união existente entre nós e com Cristo? Com efeito, Cristo é o vínculo da unidade, por ser ao mesmo tempo Deus e homem.

Seguindo o mesmo caminho, podemos falar da nossa união espiritual, afirmando que todos nós, ao recebermos o único e mesmo Espírito Santo, nos unimos uns com os outros e com Deus. Embora estejamos separados, somos muitos e, em cada um de nós, Cristo faz habitar o Espírito do Pai que é também o seu. Todavia, o Espírito é um só e indivisível e, com a sua presença e ação, reúne os que individualmente são distintos uns dos outros, fazendo com que em si mesmo todos sejam um só. Assim como a virtude do corpo sagrado de Cristo transforma num só corpo os que dele participam, parece-me que o único e indivisível Espírito de Deus, habitando em cada um, vincula a todos numa unidade espiritual.

Por isso, novamente São Paulo se dirige a nós: Suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos em guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. Há uma só fé, um só Senhor, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos (Ef 4,2-6). Se efetivamente é um só Espírito que habita em nós, também o único Deus e Pai de todos estará em nós por seu Filho, unindo entre si e consigo todos os que participam do mesmo Espírito.

Desde agora, torna-se evidente que, de alguma maneira, estamos unidos ao Espírito Santo por participação. De fato, se de uma vez por todas abandonamos a vida puramente natural e obedecemos às leis do espírito, é claro que, deixando de lado a nossa vida anterior e unindo-nos ao Espírito Santo, adquirimos uma configuração espiritual e, até certo ponto, transformamos em outra a nossa natureza. Assim já não somos simplesmente homens, mas filhos de Deus e habitantes do céu, pelo fato de nos termos tornado participantes da natureza divina.

Todos, portanto, somos um só no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Um só, repito, pela identidade de condição, um só pela união da caridade, pela comunhão do corpo sagrado de Cristo e pela participação do único Espírito Santo.

-- Do Comentário sobre o Evangelho de João, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V)

1 de mai. de 2013

A eucaristia, páscoa do Senhor


Um só morreu por todos. É ele mesmo que em todas as igrejas do mundo, pelo mistério do pão e do vinho, imolado, nos alimenta, acreditado, nos vivifica e, consagrado, santifica os que o consagram.

Esta é a carne e este é o sangue do Cordeiro. É o mesmo pão descido do céu que diz: O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo (Jo 6,51). Também o seu sangue está expresso sob a espécie do vinho. Ele mesmo afirma no Evangelho: Eu sou a videira verdadeira (Jo 15,1), manifestando com toda clareza que é seu sangue todo vinho oferecido como sacramento da paixão. O grande patriarca Jacó já profetizara acerca de Cristo, ao dizer: Lavará no vinho a sua túnica e no sangue da uva o seu manto (Gn 49,11). Na verdade, haveria de lavar no seu próprio sangue a túnica do nosso corpo, que tomara sobre si como uma veste.

O Criador e Senhor da natureza, que produz o pão da terra, também transforma o pão no seu próprio Corpo (porque pode fazê-lo e assim havia prometido); do mesmo modo, aquele que transformou a água em vinho, transforma o vinho no seu sangue.

Diz a Escritura: É a páscoa do Senhor (Ex 12,11), isto é, a passagem do Senhor. Por isso não julguemos terrestres os elementos que se tornaram celestes, porque o Senhor “passou” para essas realidades terrestres e transformou-as no seu corpo e no seu sangue.

O que recebes é o corpo daquele pão do céu, e o sangue é daquela videira sagrada. Porque, ao dar o pão e o vinho consagrados a seus discípulos, disse-lhes: Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue (Mt 26,26.28). Acreditemos, portanto, naquele em quem pusemos a nossa confiança: a Verdade não sabe mentir.

Quando Jesus falava sobre a necessidade de comer seu corpo e de beber seu sangue, a multidão, desconcertada, murmurava: Esta palavra é dura! Quem consegue escutá-la? (Jo 6,60). Querendo purificar com o fogo celeste tais pensamentos – que deveis evitar, como já vos disse – ele acrescentou: O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida (Jo 6,63).

-- Dos Tratados de São Gaudêncio de Bréscia, bispo (século IV)

13 de abr. de 2012

O pão do céu e a bebida da salvação



Na noite em que foi entregue, nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão e, depois de dar 
graças, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei: isto é o meu corpo”. Em seguida, tomando o cálice, deu graças e disse: “Tomai e bebei: isto é o meu sangue” (cf. Mt 26,26-27; 1Cor 11,23-24). Tendo, portanto, pronunciado e dito sobre o pão: Isto é o meu corpo, quem ousará duvidar? E tendo afirmado e dito: Isto é o meu sangue, quem se atreverá ainda a duvidar e dizer que não é o seu sangue?

Recebamos, pois, com toda a convicção, o Corpo e o Sangue de Cristo. Porque sob a forma de pão é o corpo que te é dado, e sob a forma de vinho, é o sangue que te é entregue. Assim, ao receberes o corpo e o sangue de Cristo,te transformas com ele num só corpo e num só sangue. Deste modo, tendo assimilado em nossos membros o seu corpo e o seu sangue, tornamo-nos portadores de Cristo; tornamo-nos, como diz São Pedro, participantes da natureza divina (2Pd 1,4).

Outrora, falando aos judeus, dizia Cristo: Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós (cf. Jo 6,53). Como eles não compreenderam o sentido espiritual do que lhes era dito, afastaram-se escandalizados, julgando estarem sendo induzidos por Jesus a comer carne humana.

Na Antiga Aliança havia os pães da propiciação; por pertencerem ao Velho Testamento, já não mais existem. Na Nova Aliança, porém, trata-se de um pão do céu e de um cálice da salvação que santificam a alma e o corpo. Assim como o pão é próprio para a vida do corpo, também o Verbo é próprio para a vida da alma.

Por isso, não consideres o pão e o vinho eucarísticos como se fossem elementos simples e vulgares. São realmente o corpo e o sangue de Cristo, segundo a afirmativa do Senhor. Muito embora os sentidos te sugiram outra coisa, tema firme certeza do que a fé te ensina.

Se foste bem instruído pela doutrina da fé, acreditas firmemente que aquilo que parece pão, embora seja como tal sensível ao paladar, não é pão, mas é o corpo de Cristo. E aquilo que parece vinho, muito embora tenha esse sabor, não é vinho, mas é o sangue de Cristo. Antigamente, bem a propósito, já dizia Davi nos salmos: O pão revigora o coração do homem, e o óleo ilumina a sua face (Sl 103,15). Fortifica, pois, teu coração, recebendo esse pão espiritual e faze brilhar a alegria no rosto de tua alma.

Com o rosto iluminado por uma consciência pura, contemplando como num espelho a glória do Senhor, possas caminhar de claridade em claridade, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem sejam dadas honra, poder e glória pelos séculos sem fim. Amém.

-- Das Catequeses de Jerusalem (século IV)
-- A imagem é o quadro Última Ceia, de Tintoretto pintado em 1592-94.

5 de jul. de 2010

Das divisões na Igreja

Está escrito: Uni-vos aos santos, porque os que deles se aproximam serão santificados. E ainda em outro lugar: Com o inocente serás inocente, com o eleito serás eleito e com o perverso usarás de astúcia. Por isso nos unimos aos inocentes e justos; eles são eleitos de Deus. Por que há entre vós lutas, cóleras, dissenssões, divisões e guerras? Porventura não temos um só Deus, um só Cristo e um só Espírito da graça derramado sobre nós e não há uma só vocação em Cristo? Por que arrancamos e despedaçamos os membros de Cristo e nos revoltamos contra nosso próprio corpo e chegamos à loucura de esquecer que somos membros uns dos outros?

Lembrai-vos das palavras de nosso Senhor Jesus: Ai daquele homem! Melhor lhe fora não ter nascido do que escandalizar a um dos meus eleitos; melhor lhe fora ser amarrado à mó de moinho e afogado no mar do que perverter um só de meus escolhidos. Vossa divisão perverte a muitos, lança a muitos no desânimo, a muitos na hesitação, a todos nós na tristeza, causa-nos aflição, e ainda persiste vossa sedição!

Vamos depressa acabar com isso! Vamos nos ajoelhar aos pés do Senhor e implorar com lágrimas e súplicas que ele nos seja proprício e se reconcilie conosco, fazendo-nos voltar ao nosso antigo modo de viver, tão belo, casto, conforme o amor fraterno. Se há um fiel, se há um notável na exposição da doutrina, um sábio no discernimento das palavras, um casto na vida, tanto mais humilde deve ser quanto parece ser maior e procure o que é útil a todos e não o próprio interesse.

-- Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, papa (século I)

3 de jun. de 2010

Corpus Christi

O unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que, feito homem, dos homens fizesse deuses.


Tudo quanto assumiu da nossa natureza, Jesus empregou-o para nossa salvação. Seu corpo, por exemplo, ele ofereceu a Deus Pai como sacrifício no altar da cruz, para nossa reconciliação; seu sangue, ele o derramou ao mesmo tempo como preço do resgate e purificação de todos os nossos pecados.

Mas, a fim de que permanecesse para sempre entre nós o memorial de tão imenso benefício, ele deixou aos fiéis, sob as aparências do pão e do vinho, o seu corpo como alimento e o seu sangue como bebida.

Ó precioso e admirável banquete, fonte de salvação e repleto de toda suavidade! Que há de mais precioso que este banquete? Nele, já não é mais a carne de novilhos e cabritos que nos é dada a comer, como na antiga Lei, mas é o próprio Cristo, verdadeiro Deus, que se nos dá em alimento. Poderia haver algo de mais admirável que este sacramento?

De fato, nenhum outro sacramento é mais salutar do que este; nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais.

É oferecido na Igreja pelos vivos e pelos mortos, para que aproveite a todos o que foi instituído para a salvação de todos.

Ninguém seria capaz de expressar a suavidade deste sacramento; nele se pode saborear a doçura espiritual em sua própria fonte; e torna-se presente a memória daquele imenso e inefável amor que Cristo demonstrou para conosco em sua Paixão.

Enfim, para que a imensidade deste amor ficasse mais profundamente gravada nos corações dos fiéis, Cristo instituiu este sacramento durante a última Ceia, quando, ao celebrar a Páscoa com seus discípulos, estava prestes a passar deste mundo para o Pai. A Eucaristia é o memorial perene da sua Paixão, o cumprimento perfeito das figuras da Antiga Aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou. É ainda singular conforto que ele deixou para os que se entristecem com sua ausência.

-- Das Obras de Santo Tomás de Aquino, presbítero (século XIII)

7 de mai. de 2010

Batismo e o Corpo de Cristo

Pelo Espírito Santo, Jesus nasceu da Virgem Maria; pelo mesmo Espírito, nós também renascemos na fonte batismal como filhos de Deus e membros do corpo de Cristo. E assim como ele nasceu livre de todo pecado, também nós renascemos pela remissão de nossos pecados.

Assim como na cruz ele tomou sobre seu corpo de carne os pecados de todos nós (que formamos seu corpo espiritual), do mesmo modo, pela graça da regeneração, concedeu ao seu corpo espiritual que não lhe fosse atribuído nenhum pecado, como está escrito: Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de pecado (Sl 31,2). Este homem feliz é, sem a menor dúvida, Cristo: enquanto cabeça do Cristo místico é Deus e perdoa os pecados; enquanto cabeça do corpo, é o filho do homem, nada tendo que se lhe perdoar.

Ele é justo em si mesmo e justifica-se a si mesmo. Ele próprio é Redentor e redimido. Tomou sobre seu corpo, na cruz, os pecados daquele corpo que ele purifica por meio da água do batismo, e continua salvando pela cruz e pela água. Ele é o Cordeiro de Deus que tira, que carrega o pecado do mundo (Jo 1,29). Ele é Deus que, oferecendo-se a si mesmo, reconciliou-se consigo próprio, com o Pai e com o Espírito Santo.

-- adaptado Dos Sermões do Bem-aventurado Isaac, abade do mosteiro de Stella (século XII)

3 de mai. de 2010

Igreja - Corpo Espiritual

Sendo muitos, nós formamos um só corpo e somos membros uns dos outros; e é Cristo quem nos une pelo vínculo da caridade. Convém, portanto, que tenhamos os mesmos sentimentos uns para com os outros; se um membro sofre, todos sofrem com ele; se um membro é honrado, os demais se alegram com ele.

Acolhei-vos uns aos outros, como Cristo também vos acolheu, para a Glória de Deus (Rm 15, 7). Para pôr em prática este acolhimento recíproco, devemos ter os mesmos sentimentos, carregando os fardos uns dos outros e guardando a unidade do espírito pelo vínculo da paz (Ef 4, 3). Foi assim que Deus também nos acolheu em Cristo. Falou a verdade quem disse: Deus amou tanto o mundo, que deu seu Filho Unigênito (Jo 3,16). Efetivamente o mundo inteiro foi salvo pela misericórdia de Deus.

-- adaptado da Carta aos Romanos, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V).

30 de abr. de 2010

O Corpo de Deus

Este é o  caminho onde encontramos nossa salvação: Jesus Cristo, nosso defensor e arrimo de nossas fraquezas. Combatamos, irmãos, com todas as nossas forças, sob as suas ordens irrepreensíveis. Asseguremos a salvação de todo corpo que formamos em Cristo Jesus.

O forte proteja o fraco e o fraco respeite o forte; o rico seja generoso para com o pobre e o pobre agradeça a Deus por ter dado alguém que o ajude na pobreza. O sábio manifeste sua sabedoria não por palavras, mas por boas obras; o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe que outro o faça. Quem é casto de corpo não se vanglorie, sabendo que é Deus quem lhe dá o dom da continência.

Consideremos irmãos de que matéria somos feitos, quem éramos e em que condições entramos no mundo, onde Deus nos tinha preparado tantos benefícios antes mesmo de termos nascido. Por tudo lhe demos graças sabendo que recebemos todas estas coisas de Deus. A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

-- adaptado da Carta aos Coríntios, de Sào Clemente I, papa (século I)

28 de abr. de 2010

A união natural dos fiéis em Deus

Proclamamos como uma verdade que a Palavra de Deus se fez carne (Jo 1, 14) e que na ceia do Senhor nós recebemos esta mesma Palavra que se fez carne. Então como se pode negar que permaneça naturalmente em nós aquele que assumiu a natureza da nossa carne ao nascer como homem e também uniu sua natureza humana à natureza divina no sacramento da comunhão? Deste modo todos somos um só, porque o Pai está em Cristo e Cristo está em nós.

Até que ponto esta unidade é natural em nós, o mesmo Senhor o declara: Quem come da minha carne e bebe do meu sangue, permanece em mim e eu nele (Jo 6, 56). Realmente, ninguém poderá estar em Cristo se Cristo não estiver nele. Cristo somente assume em si a carne daquele que recebe a sua.

O Senhor já havia ensinado assim esta perfeita unidade, dizendo: Assim como o Pai que vive, me enviou, e eu vivo por causa do Pai, assim o que me come viverá por causa de mim (Jo 6, 57). Vive, portanto, pelo Pai; e do mesmo modo que vive pelo Pai, também nós vivemos pela sua carne.

-- adaptado do Tratado sobre a Trindade, de Santo Hilário, bispo.

22 de abr. de 2010

A Eucaristia e o Corpo de Cristo

Nós somos membros do corpo de Cristo e nos alimentamos das coisas criadas que ele próprio nos dá, fazendo nascer o sol e cair a chuva. Por isso, o Senhor declara que o cálice, fruto da criação, é o seu sangue, que fortalece nosso sangue; e o pão, fruto também da criação, é o seu corpo, que fortalece nosso corpo.

Portanto, quando o cálice de vinho misturado com água e o pão natural recebem a palavra de Deus, transformam-se na eucaristia do sangue e corpo de Cristo. São eles que alimentam e revigoram a substância de nossa carne. Como é possível negar que a carne é capaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, essa carne que se alimenta com o sangue e o corpo de Cristo e se torna membro do seu corpo?

O apóstolo diz na Carta aos Efésios: Nós somos membros do seu corpo (Ef 5, 30), da sua carne e seus ossos (cf Gn 2, 23); não é de um homem espiritual e invisível que ele fala - o espírito não tem carne, nem ossos (cf Lc 24, 39) - mas sim do organismo verdadeiramente humano, que consta de carne, nervos e ossos, que se nutre com o cálice do seu sangue e se robustece com o pão que é seu corpo.

-- do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo (século II)

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