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6 de nov. de 2021

Levemos sempre em nós a morte de Cristo

 Disse o Apóstolo: Para mim o mundo está crucificado, e eu, para o mundo (Gl 6,14). Para que saibamos, por fim, que nesta vida há morte e boa morte, exorta-nos a que levemos a morte de Jesus em nosso corpo (cf. 2Cor 4,10). 

Pois quem tiver em si a morte de Jesus, precisa também ter em seu corpo a vida do Senhor Jesus. Atue, portanto, a morte em nós, para que também possa agir a vida. Vida excelente depois da morte, isto é, vida excelente depois da vitória, vida excelente, terminado o combate. Nela a lei da carne já não luta contra a lei do espírito, não há mais em nós peleja da morte contra o corpo, mas no corpo, a vitória sobre a morte. E francamente não sei qual tem maior força, esta morte ou a vida. É claro que atendo à autoridade do Apóstolo que diz: Portanto a morte age em nós, mas a vida, em vós (2Cor 4,12). A morte de um só a quanta gente faz crescer a vida! Por isto ensina ser desejável esta morte aos que ainda estão nesta vida, para que refulja em nossos corpos a morte de Cristo, aquela ditosa pela qual se destrói o ser exterior, a fim de ser renovado nosso homem interior (cf. 2Cor 2,16) e se desfaça nossa habitação terrena (cf. 2Cor 5,1), abrindo-se assim para nós a habitação celeste. 

Imita, portanto, a morte, que se separa da união com esta carne e desata os laços de que fala o Senhor mediante Isaías: Desata as cadeias iníquas, solta os laços das altercações violentas, deixa livres os oprimidos, rompe todo limite injusto (Is 58,6). O Senhor aceitou sujeitar-se à morte para que a culpa desaparecesse. Mas, para não ser de novo a morte o fim da natureza humana, foi-lhe dada a ressurreição dos mortos, para que pela morte se apagasse a culpa, pela ressurreição se perpetuasse a natureza. 

Por isso, a morte é a passagem de tudo. É preciso que passes continuamente; passagem da corrupção para a incorrupção, da condição mortal à imortalidade, das perturbações para a tranqüilidade. Por isto não te assuste a palavra morte, mas os benefícios da boa passagem te alegrem. Pois, que é a morte a não ser a sepultura dos vícios, o despertar das virtudes? Por isto disse ele: Morra minha alma nas almas dos justos (Nm 23,10), quer dizer, seja consepultada para depor seus vícios, assumir a graça dos justos, que trazem no corpo e na alma a morte de Cristo.

-- Do Tratado sobre o benefício da morte, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

-- A imagem é um quadro chamado O Martírio de São Sebastião , de Michiel Coxie, pintura em óleo, de 1575. São Sebastião não morreu a flechadas, pois os executores não perceberam que ele ainda estava vivo. Uma mulher cristã foi ao local de execução para recuperar o corpo quando percebeu que ele ainda estava vivo. Ela escondeu-o em sua casa e tratou as feridas. Ao se recuperar, São Sebastião foi até o Imperador anunciar que a morte não tinha poder sobre ele. Novamente condenado à morte, desta vez São Sebastião foi ao encontro do Pai. 

2 de nov. de 2017

Morramos com Cristo, para vivermos com ele

Santo Ambrósio, bispo
Percebemos que a morte é lucro, e a vida, castigo. Por isso Paulo diz: Para mim, viver é Cristo, e morrer é lucro (Fl 1,21). Como unir-se a Cristo, espírito da vida, senão pela morte do corpo? Morramos então com ele, para com ele vivermos. Morramos diariamente no desejo e em ato, para que, por este sacrifício, nossa alma aprenda a se subtrair das concupiscências corporais. Que ela, como se já estivesse nas alturas, onde não a alcançam os desejos terrenos, aceite a imagem da morte para não incorrer no castigo da morte. Pois a lei da carne luta contra a lei do espírito e apoia-se na lei do erro. Mas qual o remédio? Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24) A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor (cf. Rm 7,25s).

Temos o médico, usemos o remédio. Nosso remédio é a graça de Cristo, e corpo de morte é o nosso corpo. Portanto afastemo-nos do corpo e não se afaste de nós o Cristo! Embora ainda no corpo, não lhe obedeçamos, não abandonemos as leis naturais, mas prefiramos os dons da graça.

E que mais? Pela morte de um só, o mundo foi remido. Cristo, se quisesse, poderia não ter morrido. Não julgou, porém, dever fugir da morte como coisa inútil nem que nos salvaria melhor, evitando a morte. Com efeito, sua morte é a vida de todos. Somos marcados com sua morte, ao orar anunciamos sua morte, ao oferecer o sacrifício pregamos sua morte. Sua morte é vitória, é sacramento, é a solenidade anual do mundo.

Não diremos ainda mais sobre a sua morte, se provarmos pelo exemplo divino que dela resultou a imortalidade, e que a morte se redimiu a si mesma? Não se deve lastimar a morte, que é causa da salvação do povo. Não se deve fugir da morte, que o Filho de Deus não rejeitou, e da qual não fugiu.

Na verdade, a morte não era da natureza, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não fez a morte, mas deu-a como remédio. Pelo pecado, condenado ao trabalho de cada dia e ao gemido intolerável, a vida dos homens começou a ser miserável. Era preciso dar fim aos males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça [a uma vida nos céus].

Por isso, tem o espírito de afastar-se logo da vida tortuosa e das nódoas do corpo terreno, e lançar-se para a celeste assembléia, embora pertença só aos santos lá chegar, e cantar a Deus o louvor, descrito no livro profético, que os salmistas cantam: Grandes e maravilhosas tuas obras, Senhor Deus onipotente; justos e verdadeiros teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não temeria e não glorificaria teu nome? Porque só tu és santo; todos os povos irão e se prostrarão diante de ti (Ap 15,3-4). Contemplar também, ó Jesus, tuas núpcias, nas quais a esposa, ao canto jubiloso de todos, é conduzida da terra ao céu – a ti virá toda carne (Sl 64,3) – já não mais manchada pelo mundo, mas unida ao espírito.

Era isto que o santo Davi desejava, acima de tudo, contemplar e admirar, quando dizia: Uma só coisa pedi ao Senhor, a ela busco: habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida e ver as delícias do Senhor (Sl 26,4).

-- Do Livro sobre a morte de seu irmão Sátiro, de Santo Ambrósio, bispo (Séc.IV)

10 de set. de 2016

Renova os nossos dias como no princípio

Deus Verbo do excelso Pai não abandonou a natureza dos homens que descambava para a corrupção. Mas pela oblação do próprio corpo destruiu a morte em que haviam incorrido, corrigiu pela doutrina sua indignidade e tudo de humano restaurou.

Poderá confirmar tudo isto pela autoridade dos teólogos, discípulos de Cristo, quem quer que leia o que dizem: A caridade de Cristo nos urge, sabendo que se um morreu por todos, logo todos estão mortos; e por todos morreu ele para que não mais vivamos para nós mesmos, mas para aquele que por nós morreu e ressuscitou dos mortos, nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 2Cor 5,14-15). E de novo: Aquele que foi colocado por pouco tempo abaixo dos anjos, Jesus, nós o vemos coroado de glória e de honra, por causa dos sofrimentos da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte em favor de todos (Hb 2,9). Mais adiante, dá a razão por que ao Deus Verbo e só a ele convinha fazer-se homem: Convinha que o autor da salvação, para quem tudo e por quem tudo foi feito, e que levaria muitos filhos à glória, chegasse à consumação pela paixão (Hb 2,10). Por estas palavras significa não competir a outro que não ao Deus Verbo, por quem foram criados no início, arrancar os homens da corrupção.

Foi este o motivo por que o Verbo aceitou um corpo, a fim de se tornar vítima em favor dos corpos semelhantes; também isto se afirma pelos seguintes dizeres: Os filhos têm em comum a carne e o sangue; ele de igual modo deles participou, para destruir por sua morte aquele que detinha o império da morte, isto é, o diabo, e libertar os que pelo temor da morte eram sujeitos à escravidão durante toda a vida (Hb 2,14-15). Na verdade, imolando o próprio corpo, pôs fim à lei decretada contra nós e para nós renovou o princípio da vida, dando a esperança de ressurgirmos. 

A morte recebera dos homens o poder contra os homens; pelo Verbo de Deus enviado aos homens, veio a destruição da morte e a ressurreição da vida, como disse o varão repleto de Cristo: Porque por um homem entrou a morte e por um homem, a ressurreição dos mortos. Pois como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos serão vivificados (1Cor 15,21-22) e o que se segue. Já não mais morremos para nosso castigo, mas como os que serão despertados dos mortos aguardamos a ressurreição comum a todos. Em seu tempo, Deus, o autor e doador destas coisas, o manifestará.

-- Dos Sermões de Santo Atanásio, bispo (século IV)

19 de jul. de 2015

Pode a esposa casar quando o marido desaparece?

Ano passado um avião com mais de 200 pessoas simplesmente sumiu. Por mais buscas que tenham sido realizadas, não foi encontrada uma única parte que possa ser útil para indicar seu destino final, muito menos a localização do que tenha restado. No século 21, mais de 200 pessoas desapareceram deixando famílias para trás. 

Menos espetacular e longe das manchetes, há histórias de pessoas que saíram para ir trabalhar, comprar leite na esquina ou ir numa festa, e nunca mais foram vistas. A polícia é acionada, familiares e amigos espalham notas de procura-se pelo Facebook, jornais, etc... e nada. Parece que evaporaram.

Em situações semelhantes, como fica o casamento católico dos que sobreviveram? Podem eles casar novamente? Apesar de pouco conhecido, a Igreja tem um procedimento determinado para tais casos.

Primeiro, é fundamental salientar que o casamento é para toda vida, assim afirma a teologia e confirma o Código Canônico. Um casamento válido e consumado apenas a morte pode dissolver, nenhum poder humano pode alcançá-lo (cânon 1141). 

Alguém poderia dizer que no caso do avião desaparecido, a situação é simples por que o governo já emitiu os atestados de óbitos para todas vítimas. Já aquele que saiu andando de casa, com boa saúde, e sumiu, pode demorar anos, mas a Justiça acabará também emitindo um atestado de óbito. Logo, o eventual viúvo ou viúva pode casar novamente quando achar outra pessoa. 

Nem tão rápido. Assim como um documento civil de divórcio não determina o final de casamento para a Igreja, também um atestado de óbito não o fará automaticamente. O cônjuge sobrevivente deve procurar seu bispo e solicitar uma declaração de morte presumida. O bispo, ouvindo as testemunhas e verificando as provas materiais, dentro das circunstâncias apresentadas, pode determinar com "certeza moral" o falecimento. O cânon 1707 trata do assunto.

Certeza moral é um conceito frequente na teologia moral e em várias situações do direito canônico. Pode-se dizer que é o equivalente ao padrão legal de "além de qualquer dúvida"e significa que a Igreja, utilizando da melhor maneira os fatos conhecidos, sem ser onisciente, toma uma decisão, mesmo sem estar 100% segura do ocorrido. Como seres humanos, bispos podem estar plenamente convencidos de que um fato ocorreu, mas sempre há a possibilidade estar errado, afinal somos falíveis. Mas, muitas vezes, a "certeza moral" é suficiente e a única forma possível de decidir em casos em que alguma ação se faz necessária, por isso Igreja entende que é suficiente.

Com base em decisão do bispo, o casamento é automaticamente reconhecido como concluído, e temos, então, um viúvo ou viúva que pode casar dentro da fé cristã. 

Mas digamos que, após anos e anos, já o segundo casamento plenamente válido e consumado, reaparece o primeiro marido. Coisas de novelas acontecem também na vida real. Qual a solução da Igreja? Como já observado, um casamento só pode ser dissolvido com a morte de um dos cônjuges, e aquele que se considerava morto, descobre-se estar vivo. A consequência lógica e imediata é que o primeiro casamento ainda é válido e o segundo, baseado em um erro de julgamento, não é válido. 

Obviamente esta seria um experiência extremante dolorosa e lastimável, de erros humanos que podem afetar muitas vidas e obrigaria o bispo a usar de grande caridade para lidar com as consequências adequadamente. Mas para a Igreja, a situação é clara: não morreu, o casamento não terminou! Felizmente não é uma situação comum, mas que está prevista no Código Canônico por não ser inédita.

Para quem se interessar, eis um link para o Código Canônico.

-- Autoria própria

7 de mar. de 2015

Católicos podem ser cremados?

O Código Canônico menciona cremação apenas duas vezes. O canon 1176.3 afirma que a Igreja recomenda, com vigor, a piedosa prática dos enterros; mas acrescenta que a cremação não é proibida, exceto se for realizada por razões contrárias aos ensinamentos cristãos. Este ponto é reforçado pelo canon 1184.1 ao estabelecer que os ritos funerais devem ser negados àqueles que escolherem a cremação por não acreditarem na fé cristã.

E qual ensinamento é essencial nesta questão? Católicos acreditam na ressurreição dos corpos e na dignidade do corpo humano, em todas as circunstâncias. Portanto, o corpo humano, mesmo que de uma pessoa morta, deve ser tratado com dignidade e respeito. 

Além disso, historicamente, a cremação está associada às práticas pagãs onde não há expectativa de uma eventual ressurreição. Os antigos romanos, principalmente nos séculos iniciais do Cristianismo, preferiam a cremação para que o espírito entrasse no mundo dos mortos e não ficasse vagando infeliz no mundo dos vivos. Já os hindus cremam os corpos como forma de purificar o falecido, para que possa reencarnar para uma vida melhor e, também, liberar a alma do corpo atual. Esta distinção teológica é essencial e já, desde os princípio, levou os cristãos a arriscarem-se para enterrar os corpos dos seus falecidos mesmo sobre as mais intensas perseguições.

Como o enterro tornou-se a norma nas sociedades cristãs ao longo dos séculos, uma pessoa que desejasse ser cremada deveria organizar seu funeral de maneira bastante incomum, o que era considerado um sinal claro que havia abandonado a esperança da ressurreição. 

No entanto, algumas questões práticas, principalmente saúde pública, podem levar à cremação, em especial, em épocas de guerras ou pestes.  Mais recentemente, o custo elevado é um motivo justo para a cremação, pois não há negação da fé, apenas impossibilidade de pagar pelo enterro. Se a cremação pode ocorrer por motivos justos, resta a questão das cinzas. Em uma norma publicada em 1997, a Igreja dá instruções claras:

Os restos cremados (cinzas) devem ser tratados com o mesmo respeito dado ao corpo humano. Devem ser guardados em uma urna funenária adequada e mantidos em um lugar apropriado e digno. Podem ser enterrados ou colocados em tumbas ou columbários. A prática de espalhar as cinzas no mar, ar, terra ou manter em casa não constituem práticas adequadas. Sempre que possível é importante identificar o lugar com placas registrem o nome do falecido.

-- autoria própria

1 de nov. de 2014

Comemoração dos Fiéis Defuntos - Domingo 02/11/2014

Evangelho (Jo 11, 17-27)
17Quando Jesus chegou a Betânia, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. 18Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. 19Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa.
21Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”.
23Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”.
24Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”.
25Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isto?”
27Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.
Comentário:
Neste trecho do Evangelho, João utiliza um recurso literário clássico para dar um ensinamento: Maria pensa que compreendeu o comentário de Cristo, mas se mantém dentro da idéia judaica de que na morte o homem desce ao Xeol a espera do Messias que virá no final dos tempos (Dn 12,2; Nm 16,33). Jesus gentilmente a corrige, dando um novo significado: Ele próprio é a Ressureição, aquele que nele crer jamais morrerá (Jo 8,51), já passou da morte à vida (Jo 5,24; 1Jo 3,14), já ressuscitou com Cristo graças à vida nova que nele está (Rm 6,1-11; Cl 2,12-13). A morte como concebida no Velho Testamento, é abolida; essa nova visão pressupõe a distinção entre a alma, que não morre, e o corpo que se corrompe na terra.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Números 16, 27-34
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Daniel 11,40-12,3
Evangelhos
  • João 5, 24-29
  • João 8, 51-59
Livros Apostólicos
  • Romanos 6, 1-14
  • Colossenses 2, 12-15
  • 1 João 3, 14

21 de jun. de 2014

Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor

Ilustríssima senhora, peço que recebas a graça do Espírito Santo e a sua perpétua consolação. Quando recebi tua carta, ainda me encontrava nesta região dos mortos. Mas agora, espero ir em breve louvar a Deus para sempre na terra dos vivos. Pensava mesmo que a esta hora já teria dado esse passo. Se é caridade, como diz São Paulo, chorar com os que choram e alegrar-se com os que se alegram (cf. Rm 12,15), é preciso, mãe ilustríssima, que te alegres profundamente porque, por teus méritos, Deus me chama à verdadeira felicidade e me dá a certeza de jamais me afastar do seu temor.

Na verdade, ilustríssima senhora, confesso-te que me perco e arrebato quando considero, na sua profundeza, a bondade divina. Ela é semelhante a um mar sem fundo nem limites, que me chama ao descanso eterno por um tão breve e pequeno trabalho; que me convida e chama ao céu para aí me dar àquele bem supremo que tão negligentemente procurei, e me promete o fruto daquelas lágrimas que tão parcamente derramei.

Por conseguinte, ilustríssima senhora, considera bem e toma cuidado em não ofender a infinita bondade de Deus. Isto aconteceria se chorasses como morto aquele que vai viver perante a face de Deus e que, com sua intercessão, poderá auxiliar-te incomparavelmente mais do que nesta vida. Esta separação não será longa; no céu nos tornaremos a ver. Lá, unidos ao autor da nossa salvação, seremos repletos das alegrias imortais, louvando-o com todas as forças da nossa alma e cantando eternamente as suas misericórdias. Se Deus toma de nós aquilo que havia emprestado, assim procede com a única intenção de colocá-lo em lugar mais seguro e fora de perigo, e nos dar aqueles bens que desejamos dele receber.

Disse tudo isto, ilustríssima senhora, para ceder ao desejo que tenho de que tu e toda a minha família considereis minha partida como um feliz benefício. Que a tua bênção materna me acompanhe na travessia deste mar, até alcançar a margem onde estão todas as minhas esperanças. Escrevo isto com alegria para dar-te a conhecer que nada me é bastante para manifestar com mais evidência o amor e a reverência que te devo, como um filho à sua mãe.

-- Da Carta escrita por São Luís Gonzaga à sua mãe. (Séc.XVI)

São Luís Gonzaga é padroeiro da juventude e dos estudantes, morreu aos 23 anos com grande desejo de ser santo. é contemporâneo de São Carlos Borromeu e São Roberto Belarmino e sua festa é comemorada dia 21 de junho.

1 de fev. de 2014

O Mistério da Morte

Em face da morte, o enigma da condição humana atinge o seu ponto máximo. O homem não apenas é atormentado com a dor e o progressivo declínio do corpo, mas com muito maior força pelo temor da destruição perpétua. Pelo acertado instinto de seu coração, afasta com horror e rejeita a ideia da total ruína e da morte definitiva de sua pessoa. A semente de eternidade que traz em si, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as conquistas da técnica, por mais úteis que sejam, não conseguem acalmar a angústia humana, pois o prolongamento biológico da vida não pode satisfazer o desejo inelutavelmente presente em seu coração de viver sempre.

Já que diante da morte toda imaginação fracassa, a Igreja, instruída pela Revelação, afirma ter sido o homem criado por Deus para uma finalidade feliz, para além dos limites da miséria terena. E não só, mas a fé cristã ensina que a morte corporal, que lhe seria poupada se não houvesse pecado, será vencida quando o homem recuperar a salvação, perdida por culpa sua, pelo onipotente e compadecido Salvador. Com efeito, Deus chamou e continua a chamar o homem a aderir com sua natureza integral à perpétua comunhão na incorruptível vida divina. Cristo conseguiu esta vitória, libertando o homem da morte por meio de sua morte e ressurgindo para a vida. Para quem reflete, a fé baseada em sólidos argumentos oferece uma resposta a sua ansiedade sobre a sorte futura. Ao mesmo tempo dá a possibilidade de comunicar-se com os caros irmãos já arrebatados pela morte em Cristo, despertando a esperança de possuírem eles, desde agora, a verdadeira vida junto de Deus.

Certamente incumbe ao cristão o dever urgente de lutar contra o mal através de muitas tribulações e de aceitar a morte; mas unido ao mistério pascal, configurado à morte de Cristo, firme na esperança, chegará à ressurreição.

Tudo isto vale para os cristãos e também para todos os homens de boa vontade em cujos corações a graça age invisivelmente. Tendo, pois, Cristo morrido por todos, e sendo uma só a vocação última do homem, isto é, a divina, devemos afirmar que o Espírito Santo oferece a todos a possibilidade, de modo só conhecido por Deus, de se associarem ao mistério pascal.

De tal valia e tão grande é o mistério do homem, que se esclarece pela Revelação cristã aos fiéis. Por conseguinte, por Cristo e em Cristo, ilumina-se o enigma da dor e da morte que, fora de seu Evangelho, nos esmaga. Cristo ressuscitou, por sua morte destruiu a morte e deu-nos a vida para que , filhos no Filho, clamemos no Espírito: Abá, Pai!

-- Da Constituição Pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (século XX)

27 de nov. de 2013

São Tiago da Pérsia

São Tiago da Pérsia, cuja festa liturgica é
celebrada em 27 de Novembro.
São Tiago, também conhecido como "recortado", nasceu na cidade real da Pérsia, de nobre família, e muito jovem ascendeu na hierarquia da corte, alcançando grande reputação frente ao rei devido ao seu conhecimento e inteligência, tendo recebido extraordinárias honras e favores. E esta era sua grande tentação.

O Rei decidiu banir o Cristianismo do reino, obrigando a todos cristãos renunciar a sua fé ou morrer. São Tiago não teve coragem de renunciar aos seus privilégios e abandonou o verdadeiro Deus, que deixou de professar. Sua mãe e a esposa ficaram muitísssimo aflitas com a sua queda, deplorando a cada dia a escolha feita e redobrando orações por ele. Quando o Rei Isdegerdes morreu, elas lhe escreveram a seguinte carta:

Nós fomos informadas que tempos atrás, em troca dos favores dos reis e bens materiais, abandonaste o amor do Deus imortal. Pois pense onde está o rei agora, cujos favores tinhas em tão alta conta. Homem infeliz,  pois agora que ele retornou ao pó, que é o destino de todos mortais, já não tens a minima esperança de receber uma só moeda, muito menos proteção. E saibas que se perseverares nos teus crimes, você mesmo, pela justiça divina, irá cair em tormentos, junto com o teu querido rei. E de nossa parte, não queremos mais assunto contigo.

Tiago foi muito afetado pela leitura de tal carta e começou a refletir quais justas punições na vida eterna lhe caberiam por sua apostasia, que receberia da prórpia do mais justo dos reis. Resolveu abandonar a corte, afastar-se da companhia daqueles que poderiam lhe seduzir novamente, renunciar as honras, pompas e prazeres, de tudo aquilo que poderia ocasionar sua ruina. 

Assim vemos todos os dias penitentes que esquecem-se dos perigos dos quais recém foram resgatados e colocam-se novamente nos mesmos buracos dos quais foram retirados pela misericórdia de Deus. Observe os animais, se algumas vez cairam em uma armadilha e, com sorte, dela saíram, redobram os cuidados para nunca mais cair novamente no mesmo ardil. Muito mais deveriam fazer todos os homens, que governam a si mesmos, pela razão ou fé, deveriam evitar todas as oportunidades de cair nas mesmas tentações. 

Pois São Tiago deu o exemplo, não apenas reconheceu seu crime, como publicamente o admitiu e pediu perdão. Suas palavras logo chegaram ao novo rei Varananes, que imediatamente mandou prendê-lo. Em sua presença, o santo professou sua fé. O rei, indignado e furioso, reprovou sua ingratidão, enumerou os favores que havia recebido e as honras concedidas por seu pai. São Tiago calmamente retrucou: 

- Onde está ele agora? O que é feito dele?

Estas palavras exasperaram o governante, que o ameaçou com punições severas, não apenas uma morte rápida, mas terríveis tormentos. O santo disse então:

- Qualquer tipo de morte não é nada mais que um sono. Possa minha alma morrer a morte dos justos.

- Morte - replicou o tirano - não é um sono, é o terror dos nobres e reis.

O mártir respondeu:

- É verdade que a morte aterroriza reis e todos pecadores que não aceitam a Deus, por que perecerão.

O rei escutou estas palavras e retrucou:

- Pois então me chamas de pecador, ó raça inútil, que não adora ao Deus Sol, não adora a Deusa Lua, nem ao fogo ou a água, ilustres criações dos deuses.

Replicou São Tiago:

- Eu não te acuso mas afirmo que atribuis o incomunicável nome de Deus às suas criações.

O rei, cada vez mais irado, chamou seus ministros e juízes para deliberar qual morte cruel deveria ser aplicada a tal ofensa. Após consultar seu  conselho, decidiu que a menos que renunciasse ao nome de Cristo, o santo deveria morrer lentamente, com seus membros cortados um a um, junta por junta. Tal sentença foi publicada.

No dia marcado, o povo reuniu-se na praça para ver o espetáculo, enquanto os cristãos prostavam-se no chão em orações pedindo a graça da perseverança. Quando chegou à praça, carregado pelos soldados, São Tiago virou seu rosto para Jerusalem, caiu de joelhos e levantando os braços aos céus, rezou com grande fervor. 

Os executores aproximaram-se do santo e mostraram seus machados, adagas e outras armas; então estenderam seu braço, e explicaram de que forma morreria caso não negasse a Deus e obedecesse ao rei. Seus amigos da corte pediram que considerasse a proposta do rei, que abjurasse mesmo que momentaneamente, apenas para se salvar. Mas o mártir lhes ensinou:

- Esta morte que lhe parece tão cruel é um preço pequeno a pagar pela vida eterna.

E aos executores perguntou:

- O que estais esperando, comecem logo sua tarefa. 

Eles então cortaram-lhe o dedão da mão direita. O santo gritou para que todos pudessem ouvir:

- Óh Salvador dos Cristãos, recebe este ramo da tua árvore. Ele irá aprodrecer mas sei que dele nascerá a tua glória.

O juiz que havia sido apontado como supervisor da execução caiu em lágrimas, assim como todo povo presente. Ele pediu:

- Já é bastante que tenhas perdido um dedo por causa de tua religião. Tens muitas riquezas para te assegurar uma vida tranquila, não as disperdice desta maneira.

São Tiago respondeu:

- A vinha morre no inverno, mas dá frutos na primavera; pois mais capaz de dar frutos é o corpo de Cristo quando podado. Meu coração se alegra no Senhor e exulta meu espírito em Deus meu Salvador. Recebe, ó Senhor, outro ramo de teu corpo.

E a cada dedo cortado, mais glórias aos céus proclamava. Após cortarem os cinco dedos da mão direita, cortaram os da esquerda. O juiz novamente pediu que ele recusasse a Deus e interrompesse o sofrimento enquanto estava vivo, ao que ele disse:

- Não é digno de Deus aquele que tendo empenhado sua palavra, volta a cair em pecado.

Cortaram-lhe os dedos do pé direito, e depois, do pé esquerdo, um por vez. A cada dedo cortado, mais graças proclamava. Aos carrascos disse:

- Agora que já me tiraste os pequenos ramos, ataquem os ramos principais até deixar apenas o tronco. Não tenham piedade de mim pois meu coração rejubila no Senhor e minha alma se eleva de alegria. 

Cortaram-lhe então o pé direito e o pé esquedo; a mão direita e a mão esquerda. O braço direito e o braço esquerdo. Por fim, a perna direita e, depois, a perna esquerda. Restou deitado em seu próprio sangue, apenas um tronco nu que perdeu todos os galhos, ainda assim continuava a orar e agradecer à Deus, com mais amor, até que, enfim, um guarda cortou-lhe a cabeça. O santo completou o seu martírio no dia 27 de Novembro de 421, o segundo ano do reinado de Vararanes. 

O cristãos ofereceram considerável quantia por seus restos mortais, mas o rei não aceitou. No entanto, a noite, aproveitaram a distração da guarda e resgataram o corpo. Contaram 28 partes que colocaram em um caixão, junto com as vestes ensanguentadas, e cobriram com linho branco. Deram-lhe sepultura em lugar secreto, para que o rei não pudesse roubar-lhe. 

Há quatro narrações de seu martírio, o que comprova a veracidade dos fatos. 

-- Autoria própria

18 de abr. de 2013

A cruz de Cristo, salvação para o gênero humano


Nosso Senhor foi calcado pela morte mas, por sua vez, esmagou-a como quem soca com os pés o pó da estrada. Sujeitou-se à morte e aceitou-a voluntariamente, para destruir aquela morte que não queria morrer. Nosso Senhor saiu para o Calvário carregando a cruz, para satisfazer as exigências da morte; mas, ao soltar um brado do alto da cruz, fez sair os mortos dos sepulcros, vencendo a oposição da morte.

A morte o matou no corpo que assumira; mas ele, com as mesmas armas, saiu vitorioso da morte. A divindade ocultou-se sob a humanidade e assim aproximou-se da morte, que matou, mas também foi morta. A morte matou a vida natural e, por sua vez, foi morta pela vida sobrenatural.
 
Ícone de Santo Éfrem. 
A morte não poderia devorá-lo se ele não tivesse um corpo nem o inferno tragá-lo se não tivesse carne. Foi por isso que desceu ao seio de uma Virgem para tomar um corpo que o conduzisse à mansão dos mortos. Com o corpo que assumira, lá entrou para destruir suas riquezas e arruinar seus tesouros.

A morte foi ao encontro de Eva, a mãe de todos os viventes. Ela é como uma vinha cuja cerca foi aberta pela morte, por meio das próprias mãos de Eva, para que pudesse provar de seus frutos. Então Eva, mãe de todos os viventes, tornou-se fonte da morte para todos os viventes.

Floresceu, porém, Maria, a nova videira, em lugar de Eva, a antiga videira; nela habitou Cristo, a nova vida, a fim de que, ao aproximar-se a morte com sua habitual segurança para alimentar a fome devoradora, encontrasse ali escondida, no seu fruto mortal, a Vida destruidora da morteQuando, pois, a morte engoliu sem temor o fruto mortal, ele libertou a vida e com ela, multidões.

O admirável filho do carpinteiro, que levou sua cruz até os abismos da morte que tudo devoravam, também levou o gênero humano para a morada da vida. E uma vez que o gênero humano, por causa de uma árvore, tinha se precipitado no reino das sombras, sobre outra árvore passou para o reino da vida. Na mesma árvore em que fora enxertado um fruto amargo, foi enxertado depois um fruto doce, para que reconheçamos o Senhor a quem criatura alguma pode resistir.

Glória a vós, que lançastes a cruz como uma ponte sobre a morte, para que através dela as almas possam passar da região da morte para a vida!

Glória a vós, que assumistes um corpo de homem mortal, para transformá-lo em fonte de vida para todos os mortais!

Vós viveis para sempre! Aqueles que vos mataram, trataram vossa vida como os agricultores: enterraram-na como o grão de trigo; mas ela ressuscitou e, junto com ela, fez ressurgir uma multidão de seres humanos.

Vinde, ofereçamos o grande e universal sacrifício do nosso amor. Entoemos com grande alegria cânticos e orações àquele que se ofereceu a Deus no sacrifício da cruz, para nos enriquecer por meio dela com a abundância de seus dons.

-- Dos Sermões de Santo Efrém, diácono (século IV)

21 de nov. de 2012

Capítulo 24 - Do juízo e das penas dos pecadores


O Juízo Final - Michelangelo.
Pintado no altar da Capela Sistina.

  1. Em todas as coisas olha o fim, e de que sorte estarás diante do severo Juiz a quem nada é oculto, que não se deixa aplacar com dádivas, nem aceita desculpas, mas que julgará segundo a justiça. Ó misérrimo e insensato pecador! Que responderás a Deus, que conhece todos os teus crimes, se, às vezes, te amedronta até o olhar dum homem irado? Por que não te acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser desculpado ou defendido por outrem, mas cada um terá assaz que fazer por si? Agora o teu trabalho é frutuoso, o teu pranto aceito, o teu gemer ouvido, satisfatória a tua contrição.
  2. Grande e salutar purgatório tem nesta vida o homem paciente: se, injuriado, mas se dói da maldade alheia, que da ofensa própria; se, de boa vontade, roga por seus adversários, e de todo o coração perdoa os agravos; se não tarda em pedir perdão aos outros; se mais facilmente se compadece do que se irrita; se constantemente faz violência a si mesmo, e se esforça por submeter de todo a carne ao espírito. Melhor é expiar já os pecados e extirpar os vícios, que adiar a expiação para mais tarde. Com efeito, nós enganamos a nós mesmos pelo amor desordenado que temos à carne.
  3. Que outra coisa há de devorar aquele fogo senão os teus pecados? Quanto mais te poupas agora e segues a carne, tanto mais cruel será depois o tormento e tanto mais lenha ajuntas para a fogueira. Naquilo em que o homem mais pecou, será mais gravemente castigado. Ali os preguiçosos serão incitados por aguilhões ardentes, e os gulosos serão atormentados por violenta fome e sede. Os impudicos e voluptuosos serão banhados em pez ardente e fétido enxofre, e os invejosos uivarão de dor, à semelhança de cães furiosos.
  4. Não há vício que não tenha o seu tormento especial. Ali, os soberbos serão acabrunhados de profunda confusão, e os avarentos oprimidos com extrema penúria. Ali será mais cruel uma hora de suplício do que cem anos aqui da mais rigorosa penitência. Ali não há descanso nem consolação para os condenados, enquanto aqui, às vezes, cessa o trabalho e nos consolam os amigos. Relembra agora e chora teus pecados, para que no dia do juízo estejas seguro entre os escolhidos. Pois erguer-se-ão, naquele dia, os justos com grande força contra aqueles que os oprimiram e desprezaram (Sab 5,1). Então se levantará, para julgar, Aquele que agora se curvou humildemente ao juízo dos homens. Então terá muita confiança o pobre e o humilde, mas o soberbo estremecerá de pavor.
  5. Então se verá que foi sábio, neste mundo, quem aprendeu a ser louco e desprezado, por amor de Cristo. Então dará prazer toda tribulação, sofrida com paciência, e a iniquidade não abrirá a sua boca (Sl 106,42). Então se alegrarão todos os piedosos e se entristecerão todos os ímpios. Então mais exultará a carne mortificada, que se fora sempre nutrida em delícias. Então brilhará o hábito grosseiro e desbotarão as vestimentas preciosas. Então terá mais apreço o pobre tugúrio que o dourado palácio. Mais valerá a paciente constância que todo o poderio do mundo. Mais será engrandecida a singela obediência que toda a sagacidade do século.
  6. Mais satisfação dará a pura e boa consciência que a douta filosofia. Mais valerá o desprezo das riquezas que todos os tesouros da terra. Mais te consolará a lembrança duma devota oração que a de inúmeros banquetes. Mais folgarás de ter guardado silêncio, do que de ter falado muito. Mais valor terão as boas obras que as lindas palavras. Mais agradará a vida austera e árdua penitência que todos os gozos terrenos. Aprende agora a padecer um pouco, para poupar-te mais graves sofrimentos no futuro. Experimenta agora o que podes sofrer mais tarde. Se não podes agora sofrer tão pouca coisa, como suportarás os eternos suplícios? Se tanto te repugna o menor incômodo, que te fará então o inferno? Certo é que não podes fruir dois gozos: deleitar-se neste mundo, e depois reinar com Cristo.
  7. Se até hoje tivesses vivido sempre em honras e delícias, que te aproveitaria isso se tivesses que morrer neste instante? Logo, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a ele servir. Pois quem ama a Deus, de todo o coração, não teme nem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno, porque o perfeito amor dá seguro acesso a Deus. Mas quem ainda se delicia no pecado, não é de estranhar que tema a morte e o juízo. Todavia, é bom que, se do mal não te aparta o amor, te refreie ao menos o temor do inferno. Aquele, porém, que despreza o temor de Deus, não poderá por muito tempo perseverar no bem, e depressa cairá nos laços do demônio.
-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

7 de nov. de 2012

Capítulo 23 - Da meditação da morte




A morte de uma irmã da caridade - Isidore Pils
  1. Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?
  2. Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Oxalá tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; freqüentemente, porém, é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito. Bem-aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste alguém morrer, reflete que também tu passarás pelo mesmo caminho.
  3. Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lc 12,40). Quando vier àquela hora derradeira, começarás a julgar mui diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso.
  4. Quão feliz e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a morte. Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade. Mui fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raro também se santificam os que andam em muitas peregrinações.
  5. Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio de tua salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens. Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Mui precioso é o tempo presente: agora são os dias de salvação, agora é o tempo favorável (2Cor 6,2). Mas, ai! Que melhor não aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.
  6. Olha, meu caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte. Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar livremente a Cristo. Castiga agora teu corpo pela penitência, para que possas então ter legítima confiança.
  7. Ó louco, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo! Quantas vezes ouviste contar: morreu este a espada; afogou-se aquele; este outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte, e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Sl 143,4).
  8. Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faze já, irmão caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Só cuida em tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus.  Granjeia agora amigos, venerando os santos de Deus e imitando suas obras, para que, ao saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lc 16,9).
  9. Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses com os negócios da terra. Conserva livre teu coração, e erguido a Deus, porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige tuas preces e gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça tua alma, depois da morte, passar venturosamente ao Senhor. Amém.
-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

19 de out. de 2012

Capítulo 19 - Dos exercícios do bom religioso


Santo Inácio de Loyola - Autor dos Exercícios Espirituais

  1. A vida do bom religioso deve ser ornada de todas as virtudes, para que corresponda o interior ao que por fora vêem os homens; e com razão, ainda mais perfeito deve ser no interior do que por fora parece, pois lá penetra o olhar perscrutador de Deus, a quem devemos suma reverência, em qualquer lugar onde estivermos, e em cuja presença devemos andar com pureza Angélica. Cada dia devemos renovar nosso propósito e exercitar-nos a maior fervor, como se esse fosse o primeiro dia de nossa conversão, dizendo: Confortai-me, Senhor, meu Deus, no bom propósito e em vosso santo serviço; concedei-me começar hoje deveras, pois nada é o que até aqui tenho feito.
  2. A medida da nossa resolução será nosso progresso, e grande solicitude exige o sério aproveitamento. Se aquele que toma enérgicas resoluções tantas vezes cai, que será daquele que as toma raramente ou menos firmemente propõe? Sucede, porém, de vários modos deixarmos o nosso propósito; e raras vezes passa sem dano qualquer leve omissão de nossos exercícios. O propósito dos justos mais se firma na graça de Deus, que em sua própria sabedoria; nela confiam sempre, em qualquer empreendimento. Porque o homem propõe, mas Deus dispõe, e não está na mão do homem o seu caminho (Jer 10,23).
  3. Quando, por motivo de piedade ou proveito do próximo, se deixa alguma vez o costumado exercício, fácil é reparar depois essa falta; omiti-lo, porém, facilmente, por enfado ou negligência, já é bastante culpável, e sentir-se-á o prejuízo. Esforcemo-nos quanto pudermos, ainda assim cairemos em muitas faltas; contudo, devemos sempre fazer um propósito determinado, mormente contra os principais obstáculos do nosso progresso espiritual. Devemos examinar e ordenar tanto o interior como o exterior, porque ambos importam ao nosso aproveitamento.
  4. Se não podes continuamente estar recolhido, recolhe-te de vez em quando, ao menos uma vez por dia, pela manhã ou à noite. De manhã toma resoluções, e à noite examina tuas ações: como te houveste hoje em palavras, obras e pensamentos, porque nisso, talvez não raro, tenhas ofendido a Deus e ao próximo. Arma-te varonilmente contra as maldades do demônio; refreia a gula, e facilmente refrearás todo apetite carnal. Nunca estejas de todo desocupado, mas lê ou escreve ou reza ou medita ou faze alguma coisa de proveito comum. Nos exercícios corporais, porém, haja toda discrição, porque não convém igualmente a todos.
  5. Os exercícios pessoais não se devem fazer publicamente, mais seguro é praticá-los secretamente. Guarda-te de ser negligente nos exercícios da regra, e mais diligente nos particulares; mas, satisfeitas inteira e fielmente as coisas de obrigação e preceito, se tempo sobrar, ocupa-te em exercícios, conforme te inspirar a tua devoção. Nem todos podem ter o mesmo exercício; um convém mais a este, outro àquele. Até do tempo depende a conveniência e o atrativo das práticas; porque umas são mais apropriadas para os dias festivos, outras para os dias comuns; dumas precisamos para o tempo da tentação, de outras no tempo de paz e sossego. Numas coisas gostamos de meditar quando estamos tristes, e noutras quando estamos alegres no Senhor.
  6. À volta das festas principais devemos renovar os nossos bons exercícios e com mais fervor implorar a intercessão dos santos. De uma para outra festividade devemos preparar-nos, como se então houvéssemos de sair deste mundo e chegar à festividade eterna. Por isso, devemos aparelhar-nos diligentemente, nos tempos de devoção, com vida mais piedosa e observância mais fiel de todas as regras, como se houvéssemos de receber em breve o galardão do nosso trabalho.
  7. E, se for adiada essa hora, tenhamos por certo que não estamos ainda bem preparados nem dignos de tamanha glória que, a seu tempo, se revelará em nós, e tratemos de nos preparar para a morte. Bem-aventurado o servo. Diz o evangelista São Lucas, a quem o Senhor, quando vier, achar vigiando. Em verdade vos digo que o constituirá sobre todos os seus bens (12, 37 e 43).

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

2 de jun. de 2012

São Carlos Lwanga e companheiros


São Carlos Lwanga morava na região do atual país de Uganda, que era governado pelo Rei Mwanga II. Devido às suas qualidades, foi nomeado chefe dos pajens do palácio real quando ainda era bastante jovem. Sua presença e liderança logo foram reconhecidas pelos demais membros da corte. Seu superior no palácio, Joseph Mukasa, lhe confiou várias tarefas, inclusive a de coordenar a construção de um lago artificial, pedido explícito do Rei. 

Este lago era uma obsessão do Rei, que já obrigara todos os servidores reais a trabalharem na sua construção, basicamente escavando a terra e carregando sacos de areia. Um dos servidores do palácio chamava-se Senkoole, era o Guardador da Chama Sagrada e Chefe dos Executores. Por isso, considerava-se superior a Carlos Lwanga e recusou-se a trabalhar sob suas ordens. Após tentar amigavelmente convencê-lo a colaborar, Carlso Lwanga levou o assunto ao conselho real, que decidiu por punir Senkoole não apenas com o trabalho mas também teve que alimentar os funcionários mais humildes. Na ocasião, Senkoole prometeu vingança.

Outro aspecto importante é que Carlos Lwanga foi preparado pela família para tornar-se um sacerdote do Deus Kabaka. De acordo com a cultura do povo, apenas homens virgens poderiam ser sacerdotes. Seu avó Semaganda não foi escolhido sacerdote exatamente porque não soube manter a castidade. Qualquer coisa contrária à virtude deixava Lwanga muito furioso e infeliz. Seus amigos logo tornaram-se bastante cuidadosos quanto ao que falavam com ele, para não aborrecê-lo.

Por esta época chegaram à cidade alguns missionários. Ao conhecê-los, soube que também guardavam a castidade, mas não consideravam um fardo. Impressionado, procurou Robert Mukasa, líder da comunidade católica e também funcionário no Palácio Real. Mukasa foi quem lhe ensinou os preceitos da fé e o convenceu a abandonar os deuses e ritos tribais. Em 1885, o rei ordenou matar missionários anglicanos, incluindo o Bispo James Hannington. Mukasa tentou convencer o rei de seu erro e também foi morto por decapitação. 

Neste mesmo dia, Carlos Lwanga foi batizado e assumiu a liderança dos cristãos, católicos e anglicanos, pois antes de ser batizado já havia dado exemplos de fé. Na Quaresma de 1884 acidentou-se com um arma. Sabendo que os curandeiros africanos lhe tratariam com um misto de remédios tradicionais e  invocações aos seus deuses e, também, que os missionários católicos encontravam-se ausentes, procurou o Reverendo Anglicano Ashe. Enquanto tratava a ferida, o Reverendo resolveu testá-lo. Travou-se então um pequeno diálogo:

Ashe: É verdade que vocês católicos jejuam?
Lwanga: Sim, é verdade.
Ashe, em tom debochado: Jejuar é coisa dos tempos passados. como vocês Baganda (NT: tribo de Lwanga) dizem, dos tempos do rei Kudiidi. Quer dizer que hoje você ainda não se alimentou?
Lwanga: Caro reverendo, eu lhe procurei por causa da ferida, não para discutir assuntos de religião. Mas já que o senhor começou, deixe-lhe fazer algumas perguntas.
Ashe: Claro, pergunte.
Lwanga: Você e eu, o que temos em comum?
Ashe: Somos cristãos.
Lwanga: O que é um cristão?
Ashe: É um seguidor de Cristo.
Lwanga: O que Cristo fez no deserto?
Ashe: Ele jejuou por 40 dias e 40 noites.
Lwanga: Se somos cristãos, somos seguidores de Cristo. Ele, antes de começar a sua missão jejuou por 40 dias  e 40 noites. Pensas que nós, católicos, fazemos errado ao imitar Cristo? Que pensas disto?

Ashe calou-se. Depois de algum tempo, mudou de assunto e apenas tratou a ferida. Após, avisou aos demais missionários que cuidassem para não serem desmoralizados em público por Lwanga.

Dias após o assassinato de Mukasa e o seu batizado, o Rei Mwanga chamou-lhe e, em tom fraternal, lhe disse: "Meu amigo, parece que nos últimos dias tens me evitado e estas se aproximando de mim com meu medo. Pensas que desejo matá-lo como tive que fazer com Mukasa? Eu não lhe matei não porque rezava para outro deus, mas porque me insultou opondo-se à ordem de matar os ingleses e ainda lhes informou disso, permitindo que tentassem fugir. Sei que não fazes nada disso; portanto não há o que temer. Eu não proibo ninguém de praticar a religião. Apenas reze aqui no Palácio, não procure os homens brancos. Além disso, por que ir lá? Não ganhas presentes, não ganhas nada indo lá. Mas se insistires em visitá-los, deves entender que estarás me traindo, do mesmo modo que Mukasa. Então serei obrigado a expulsar os estrangeiros e você junto com eles. Os ingleses irão te tratar como escravo, terás uma vida dura e te arrependerás de desobedecer minhas ordens.

Lwanga respondeu-lhe: ""Caro rei, acusas os homens brancos de desejarem tomar-lhe o reino e, a nós, de ajudá-los nesta tarefa. Saibas que a religião que ensinam diz para sermos leais ao nosso rei. Até hoje tens me confiado várias tarefas. Declaro, então, que ainda estou pronto a morrer ao seu serviço."

O rei também organizava orgias homossexuais e convidava os servidores do palácio a participarem, especialmente os jovens pajens que Lwanga comandava e catequisava. Lwanga, além de não comparecer, protegia os demais para que se safassem dos desejos do rei. E apesar das proibições e ameaças, sempre buscava uma maneira de participar das celebrações e catequeses organizadas pelos missionários católicos.

Certo dia o rei, furioso, ordenou que todos os pajens fossem reunidos e trazidos a sua presença. Lwanga pessoalmente certificou-se que todos abandonassem as suas tarefas imediatamente. Uma vez os pajens reunidos, Lwanga fez-se anunciar ao rei e entrou no salão real à frente do grupo. No salão havia muitos membros do exército e carrascos que vieram presenciar a cena. Como de hábito prostaram-se. 

O Rei perguntou em alta voz: "Todos os pajens estão aqui reunidos?". Lwanga confirmou. O rei então disse: "Todos os que seguem a religião dos brancos devem se postar atrás do grupo. Os que professam a minha religião podem permanecer próximos a mim. E se algum cristão tentar se esconder, saiba que perderá a cabeça imediatamente.". Carlos Lwanga levantou-se e falou: "Todos os homens de boa consciência não podem renegar seu Deus. Sempre nos dizes para seguir suas ordens e nunca nos omitimos, mesmo quando enfrentando os inimigos. Hoje, novamente, iremos seguir o seu comando." Então, pegando pela mão um dos pajens chamado Kizito, posicionou-se calmamente ao fundo, no que foi seguido pelos demais. Todos se alegram pois assim confessavam sua fé. Nisto o rei ordenou que os amarrassem e matassem.

Muitos foram logo levados e enforcados em árvores, outros, à prisão. Certo dia, Lwanga disse ao chefe da guarda: "Bem sabemos que vais nos matar, porque temos que esperar tanto?" No dia marcado, foram levados para fora da prisão, amarrados uns aos outros. Seguiu-se como uma procissão, com os soldados e carrascos brandindo suas armas, tocando tambores e cantando. 

Apareceu então Senkoole, o Guardador da Chama Sagrada, que havia prometido vingança, e apontando para Carlos Lwanga disse: "Você eu quero para meu proveito pessoal, vou sacrificá-lo aos deuses, serás uma oferenda de primeira." Sabendo que Senkoole, por motivos religiosos, não podia permanecer no mesmo local onde outros seriam mortos,  ao ser separado dos demais, os exortou: "Meus amigos, nos encontraremos logo no Paraiso, eu ficarei um pouco mais, vocês chegarão primeiro. Mantenham a coragem e perseverem até o final." Um a um dos cristãos era queimado com uma tocha, acessa diretamente na Chama Sagrada, enquanto ouviam a sentença: "A tua desobediência é responsável por tua morte e não o deus Kabaka".

Senkoole levou Carlos Lwanga para um lugar mais próximo de onde estavam os demais cristãos, para que estes pudessem assistir melhor. A pira foi construída embaixo de uma árvore, como se fosse uma cerca. Lwanga, amarrado, seria descido para próximo do fogo. Pediu, então, que o desamarrassem para que pudesse arranjar melhor a pira. Assim, o mártir pode preparar a sua cama de morte.

Novamente amarrado, desceram-no até perto do fogo. Senkoole controlava as chamas para que não fossem muito altas e, assim, queimassem Lwanga mais lentamente. Os pés eram queimados, mas o restante do corpo permanecia bem. Senkoole lhe falou: "Estou queimando o mais lentamente possível, para que teu Deus tenha tempo de vir salvá-lo". Lwanga respondeu: "Pobre homem bobo! Não entendes o que estás a dizer. Estás me queimando, mas é como se estivésseis colocando água sobre minha cabeça. Eu estou  morrendo por amor a Deus, mas fique atento pois se não te arrependeres, é tu que queimarás pela eternidade." Após, Lwanga ficou orando em silêncio. Quando finalmente percebeu que se último suspiro estava próximo, gritou: "Meu Deus!". Morreu na manhã do Dia da Ascenção do Senhor, festa na qual esperava ansiosamente comparecer e já estava a preparar adequadamente.

No total, doze católicos e nove anglicanos foram queimados. Um deles, Mgaba Tuzinde, estava na multdão assistindo ao martírio. Reconhecido, foi jogado ao fogo na mesma hora. O martírio se deu em 3 de Junho de 1886, em Uganda. Um ano após sua morte, o número de catecumenos já havia se multiplicado por quatro. 

O grupo foi beatifciado em 1920 pelo Papa Bento XV e canonizado em 16 de Outubro de 1964, pelo Papa Paulo VI. Os anglicanos, obviamente, não poderiam ser canonizados, mas seus nomes foram honrados em virtude do seu sacrificio. Como de hábito, São Carlos Lwanga e companheiros são lembrados no dia do seu martírio, 3 de Junho. 

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