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1 de nov. de 2014

Comemoração dos Fiéis Defuntos - Domingo 02/11/2014

Evangelho (Jo 11, 17-27)
17Quando Jesus chegou a Betânia, encontrou Lázaro sepultado havia quatro dias. 18Betânia ficava a uns três quilômetros de Jerusalém. 19Muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa.
21Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”.
23Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”.
24Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”.
25Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá jamais. Crês isto?”
27Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.
Comentário:
Neste trecho do Evangelho, João utiliza um recurso literário clássico para dar um ensinamento: Maria pensa que compreendeu o comentário de Cristo, mas se mantém dentro da idéia judaica de que na morte o homem desce ao Xeol a espera do Messias que virá no final dos tempos (Dn 12,2; Nm 16,33). Jesus gentilmente a corrige, dando um novo significado: Ele próprio é a Ressureição, aquele que nele crer jamais morrerá (Jo 8,51), já passou da morte à vida (Jo 5,24; 1Jo 3,14), já ressuscitou com Cristo graças à vida nova que nele está (Rm 6,1-11; Cl 2,12-13). A morte como concebida no Velho Testamento, é abolida; essa nova visão pressupõe a distinção entre a alma, que não morre, e o corpo que se corrompe na terra.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Números 16, 27-34
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Daniel 11,40-12,3
Evangelhos
  • João 5, 24-29
  • João 8, 51-59
Livros Apostólicos
  • Romanos 6, 1-14
  • Colossenses 2, 12-15
  • 1 João 3, 14

27 de ago. de 2014

Quem tem sede, venha a mim e beba

São Columbano, cripta da Abadia de
Bobbio.  Viveu de 543 a 615, tendo fundado
vários monastérios na Europa.
Irmãos caríssimos, prestai ouvidos ao que vamos dizer como a algo de necessário. Contentai a sede de vossas almas nas águas da fonte divina, sobre a qual desejamos falar, mas não a extingais; bebei, mas não vos sacieis. Chama-nos a si a fonte viva, a fonte da vida e diz: Quem tem sede venha a mim e beba (Jo 7,37).

Entendei o que bebeis. Diga-vos Jeremias, diga-vos a própria fonte: Abandonaram-me a mim, fonte de água viva, diz o Senhor (Jr 2,13). O próprio Senhor, nosso Deus, Jesus Cristo, é a fonte da vida; por isso nos convida a irmos a ele, fonte, para o bebermos. Bebe-o quem ama; bebe quem se sacia com a palavra de Deus; quem muito ama, muito deseja; bebe quem arde de amor pela sabedoria.

Vede donde mana esta fonte: do mesmo lugar donde desceu o pão. Pão e fonte são o mesmo, o filho único, nosso Deus, o Cristo Senhor, de quem devemos ter sempre fome. Comemo-lo, amando; devoramo-lo desejando e, no entanto, famintos, desejemo-lo ainda. Da mesma forma, qual água de uma fonte; bebamo-lo sempre pela plenitude do desejo e deleitemo-nos com a suavidade de sua particular doçura.

Pois é doce e suave o Senhor; por mais que o comamos e bebamos, estamos sempre sedentos e famintos, porque nosso alimento e bebida nunca se podem tomar e beber totalmente; tomando, não se consome, bebido não acaba, pois nosso pão é eterno, nossa fonte é perene, nossa fonte é doce. Eis a razão por que diz o Profeta: Vós que tendes sede, ide à fonte (Is 55,1). É fonte dos sedentos, não dos saciados. Por isto chama a si sedentos, que em outro lugar declara felizes, aqueles que nunca bebem bastante, mas quanto mais sorvem, tanto mais têm sede.

 Irmãos, é justo que a fonte da sabedoria, o Verbo de Deus nas alturas (Eclo 1,5 Vulg.), sempre seja desejada, buscada, amada por nós; estão escondidos, segundo as palavras do Apóstolo, todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e chama quem tem sede a deles tomar. 

Se tens sede, bebe da fonte da vida; se tens fome, come o pão da vida. Felizes os que têm fome deste pão e sede desta fonte. Sempre comendo e sempre bebendo, ainda desejam comer e beber. Porque é imensamente doce aquilo que sempre se saboreia e sempre se deseja mais. O rei profeta já dizia: Saboreai e vede quão doce, quão suave é o Senhor (Sl 33,9).

-- Das Instruções de São Columbano, abade (século VII)

28 de jul. de 2012

Os três últimos artigos do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)

Que nos ensina o décimo artigo do Credo: a remissão dos pecados?
- Que Deus deixou a sua Igreja o poder de perdoar todos os pecados por meio dos sacramentos.

Fora da Igreja pode-se esperar o perdão dos pecados?
- Certamente não; fora da Igreja  não há remissão dos pecados, nem esperança de salvação.

Que nos ensina o undécimo artigo: a ressurreição da carne?
- Que todos os homens, no fim do mundo, hão de ressuscitar por virtude de Deus Onipotente, recobrando cada um a sua alma e o corpo que dantes tivera.

Que nos ensina finalmente o último Artigo: a vida eterna?
- Que para os bons cristãos esta preparado no Céu um prêmio eterno.

E o que coisa se reserva para os infiéis e para os maus cristãos?
- A eles se dará uma pena no Inferno.

Que quer dizer esta voz, Amém, que no fim dos símbolo se ajunta?
- Quer dizer "assim é", que vem a ser o mesmo que "tudo quanto está dito é verdadeiro, é certo".

 -- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

Outros artigos do Creio:
  • Primeiro artigo: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
  • Segundo artigo: e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
  • Terceiro artigo: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
  • Quarto artigo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  • Quinto artigo: desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
  • Sexto artigo: subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
  • Sétimo artigode onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  • Oitavo artigo Creio no Espírito Santo
  • Nono artigo Creio na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos

4 de nov. de 2011

Meios de preparar-se para a morte


A Morte de São José, por Giuseppe Crispi. A direita, Jesus
abençoa seu pai; a esquerda, a Virgem Maria ora por ele. Os
anjos aguardam, para conduzi-lo aos céus. No chão, as
ferramentas de carpinteiro que já não são mais necessárias.
 
Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça.

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende o ter boa ou má sorte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte: "Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais." É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as precauções necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria um louco o comandante de uma praça que esperasse vê-la sitiada para fazer provisões de víveres e armamentos?

Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?... Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência. Quando cair sobre eles à destruição como uma tempestade... então invocar-me-ão e não os escutarei... Comerão os frutos do seu mau proceder (Pr 1,27.28.31).

A hora da morte é tempo de confusão e de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se vêem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. Aquilo que o homem semeou, isto também colherá (Gl 6,8). Não bastará receber os Sacramentos, mas será preciso morrer detestando o pecado e amando a Deus sobre todas as coisas. 

Como, porém, poderá aborrecer os prazeres ilícitos aquele que até então os amou?... Como amará a Deus sobre todas as coisas aquele que até esse instante tiver amado mais as criaturas do que a Deus? O Senhor chamou loucas - e na verdade o eram - as virgens que queriam preparar as lâmpadas quando já chegava o esposo. Todos temem a morte repentina, que impede regular as contas da alma. Todos confessam que os Santos foram verdadeiros sábios, porque souberam preparar-se para a morte antes que essa chegasse... E nós, que fazemos nós? Queremos correr o perigo de nos prepararmos para bem morrer, quando a morte nos estiver já próxima? Façamos agora o que nesse transe quiséramos ter feito... Oh! quanto é terrível então recordar o tempo perdido, e sobretudo o tempo mal empregado!... O tempo que Deus nos concedeu para merecer, mas que passou para nunca voltar. 

Que angústia nos dará o pensamento de que já não é possível fazer penitência, freqüentar os sacramentos, ouvir a palavra de Deus, visitar Jesus Sacramentado, fazer oração! O que está feito, está feito (Lc 16,21). 

Seria necessário ter então mais presença de espírito, mais tranqüilidade e serenidade para confessar-se bem, para dissipar graves escrúpulos e tranqüilizar a consciência... mas já não é tempo! (Ap 10,6). 

Já que é certo, meu irmão, que tens de morrer, prostra-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos Divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze - se ainda a não fizeste - uma confissão geral de toda a tua vida... Oh! quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão.

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece difícil, impossível te parecerá no momento da morte. 

O que mais importa é que resolvas pôr em execução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez por semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar- se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. 

Tais são os meios com que podemos alcançar uma boa morte e a salvação eterna. 

Exercer essas práticas será sinal evidente de nossa predestinação. 

Pelo que diz respeito ao passado, confiai no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos dá estas luzes porque quer salvar-vos, e esperai na intercessão de Maria, que vos obterá as graças necessárias. Com a vida assim regulada, e a esperança posta em Jesus e Maria, quanto nos ajuda Deus, e que força não adquire a alma! Coragem, pois, meu leitor, entrega-te todo a Deus, que te chama, e começa a gozar dessa paz que até agora, por culpa tua, não experimentaste. Pode, porventura, uma alma desfrutar paz maior que a de poder dizer todas as noites, ao descansar: se viesse esta noite a morte, morreria, segundo espero, na graça de Deus!? Que consolação se, ao ouvir o fragor do trovão, ao sentir a terra tremer, pudermos esperar resignadamente a morte, se Deus assim o tiver determinado! 
A Morte da Virgem Maria, obra de Caravaggio.
Maria Madalena e os apóstolos lamentam a morte da Virgem.
Considerada por demais triste, pois não há nenhum
elemento que sujira sua Assunção aos céus, a obra foi
recusada pelos frades que a encomendaram.

É necessário o cuidado de nos acharmos em qualquer tempo, como quiséramos estar na hora da morte. Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor (Ap 14,13). Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente aqueles que ao morrer já estão mortos para o mundo, ou seja desprendidos dos bens que por força então hão de deixar. Por isso, é necessário que desde já aceitemos o abandono de nossa fazenda, a separação de nossos parentes e de todos os bens terrenos. Se não o fizermos voluntariamente durante a vida, forçosa e necessariamente o teremos de fazer na morte, com a diferença de que então não será sem grande dor e grave perigo de nossa salvação eterna. Adverte-nos, neste propósito, Santo Agostinho, que constitui grande alívio, para morrer tranqüilo, regular em vida os interesses temporais, fazendo previamente as disposições relativas aos bens que temos de deixar, a fim de que na hora derradeira somente pensemos em nossa união com Deus. Convirá então só ocupar-se das coisas de Deus e da glória, pois são demasiadamente preciosos os últimos momentos da vida para dissipá-los em assuntos terrenos. No transe da morte se completa e se aperfeiçoa a coroa dos justos, porque é então que se recolhe a melhor soma de méritos, abraçando as dores e a própria morte com resignação ou amor. 

Mas não poderá ter na morte estes bons sentimentos quem neles não se exercitou durante a vida. Para este fim alguns fiéis praticam, com grande aproveitamento, a devoção de renovar em cada mês o protesto da morte, com todos os atos em tal transe próprios de um cristão, e isto depois de receber os sacramentos da confissão e comunhão, imaginando que se acham moribundos e a ponto de sair desta vida. 

O que se não faz na vida, difícil é fazê-lo na morte. A grande serva de Deus, irmã Catarina de Santo Alberto, filha de Santa Teresa, suspirava na hora da morte, exclamando: "Não suspiro, minhas irmãs, por temor à morte, pois há vinte e cinco anos que a espero; suspiro porque vejo tantos pecadores iludidos que esperam para reconciliar-se com Deus até à hora da morte, quando apenas poderão pronunciar o nome de Jesus". 

Examina, pois, meu irmão, se teu coração tem apego a qualquer coisa da terra, a determinadas pessoas, honras, riquezas, casa, sociedade ou diversões, e considera que não hás de viver aqui eternamente. 

Virá o dia, talvez próximo, em que deverás deixar tudo. Por que, neste caso, manter o afeto nessas coisas, correndo risco de ter morte inquieta?... 

Oferece-te, desde já, por completo a Deus, que pode, quando lhe aprouver, privar-te desses bens. Quem quiser morrer resignado, há de ter resignação desde agora em todos os acidentes contrários que lhe possam suceder; e há de afastar de si os afetos às coisas da terra. - Afigura-te que vais morrer - diz São Jerônimo - e facilmente conseguirás desprezar tudo. 

Se ainda não escolheste estado de vida, toma aquele que na hora da morte quererias ter escolhido e que possa proporcionar-te um trânsito mais consolador à eternidade. Se já tens um estado, faze tudo que ao morrer quiseras ter feito nesse estado. Procede como se cada dia fosse o último da vida, cada ação a derradeira que praticas; a última oração, a última confissão, a última comunhão. Imagina que estás moribundo, estendido sobre o leito, e que ouves aquelas palavras imperiosas: Sai deste mundo. Quanto estes pensamentos nos podem ajudar a caminhar bem e a menosprezar as coisas mundanas! Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar procedendo assim (Mt 24,46). Aquele que espera a toda hora a morte, ainda que esta venha subitamente, não pode deixar de morrer bem.

-- Do Livro Preparação para a Morte, de Santo Afonso Maria Ligório (século XVII)

28 de out. de 2011

Em Deus não há partes

Santo Anselmo, monge e Bispo de Cantuária durante o século XI.
Eis um novo motivo de perturbação; eis- me, de novo, na tristeza e no luto, eu que procuro a alegria e a felicidade! Já a minha alma pensava estar saciada e, de novo, eis que estou mergulhado na extrema miséria! Já estava prestes a saciar- me eis que me sinto mais faminto que antes. Procurava elevar- me até a luz de Deus e eis- me caído, de novo nas minhas trevas.

Na verdade não caí nelas agora porque já estava envolvido por elas. Sem dúvida, caíra nelas ainda antes que minha mãe me concebesse. Certamente fui concebido nelas e nasci enfaixado por elas. Todos nós, sem dúvida, caímos com Adão. Nele, todos pecamos; nele perdemos aquilo que ele recebeu com tanta facilidade e, todavia, perdeu com grande desgraça, sua e nossa; justamente aquilo que agora não encontramos mais, apesar das nossas buscas. 

Com efeito, quando procuramos a Deus, não encontramos e, se O encontramos, percebemos que não é aquilo que procurávamos. Ajuda-me, bom Deus! Ó Senhor, busquei o seu rosto; permite que o encontre, ó Senhor; não afastes de mim o teu rosto. Purifica, cura, aguça, ilumina o olho da minha alma para que possa, finalmente, contemplar-te. Que a minha alma possa reunir todas as suas forças e que, com o ardor da sua inteligência, se dirija a ti, meu Senhor. 

Quem és, ó Senhor, quem és? Como o meu coração poderá compreender-te? Não resta dúvida que és a vida, a sabedoria, a verdade, a bondade, a felicidade, a eternidade e tudo aquilo que constitui o verdadeiro bem. Mas esses atributos são numerosos e a minha inteligência não pode compreendê-los todos em um único ato de pensamento, para entender as delícias de Deus, de uma vez. 

Mas como podes, ó Senhor, ser todas essas coisas? Ou elas, quiçá, são partes de ti, ou cada uma já é tudo aquilo que tu és? Mas aquilo que tem partes não é uno, e, sim, composto e distinto de si mesmo e pode fracionar-se, na realidade ou pelo ato pensamento. 

Porém isso não se pode afirmar de ti, que és o ser do qual não se pode pensar nenhuma coisa melhor. Não existem, portanto, partes em ti, ó Senhor. Tu não és múltiplo; és uno e idêntico a ti e de maneira alguma há diferença em ti. Aliás, tu és a unidade absoluta, aquela que nem o pensamento consegue fracionar. Por isso, a vida, a sabedoria e todas as outras qualidades não são em partes, mas todas formam uma única indivisível, e cada uma delas é o que tu és e, ao mesmo tempo, o que são as outras todas. 

Portanto, tu não tens partes, e a tua eternidade - pois se identifica contigo- não é parte de ti, nem da tua eternidade. Tu está inteiro por toda parte e a tua eternidade é inteira e imperecível 

-- Do Livro Proslógio, de Santo Anselmo, bispo (século XI).

30 de mai. de 2011

Explicação Catequética do Credo - artigo XII: Creio na Vida Eterna

Artigo XI: Creio na Ressurreição do Corpo

Na Terra os santos estão ressucitando, enquanto nos céus os
anjos honram a Deus, no centro da iamgem,
40. A nossa alma, criada a imagem e semelhança de Deus Todo-Poderoso, por ter uma natureza espiritual, é enriquecida com faculdades que representam a perfeição divina: vontade, inteligência e memória. A partir da criação é impelida por um certo desejo inato, inspirado pelo Criador, de unir-se a Ele, sua imagem. Não podemos crer que tão excelente criação de Deus, este instinto ativo dado pelo Criador, tenha sido em vão. Todos nós, cristãos, estamos convencidos do contrário e, sem dúvidas, achamos que a alma, exceto se lutar contra, buscará satisfazer este desejo e buscar aquele bem superior a tudo, a vida eterna. E, até mesmo antes da ressurreição do corpo, as almas que houverem morrido na graça de Deus e totalmente purificadas de todos pecados, estarão de posse desta vida eterna, sendo admitidas a partir deste momento à vista e alegrias de Deus.

41. Portanto, estas almas, uma vez unidas aos seus corpos, em um estado melhor e mais perfeito, irão aproveitar a felicidade que estamos descrevendo, ininterruptamente pela eternidade. Por todo este espaço de tempo, infinito, as almas dos santos regojizarão com Deus nos céus, junto aos coros de inumeráveis anjos, jubilantes e triunfantes Santos, entre todos homens, todos na presença amorosa e beatifica de Deus Criador e Senhor de tudo, que despejará suas bençãos celestiais em cada um  e sobre todos. A excelência destas bençãos é tão sublime, que por maior esforço façamos durante nossa vida mortal pensando ou imaginando, nunca formaremos uma idéia ou imagem que se aproxime, mesmo que a longa distância, da verdade. A magnificência de Deus supera de tal modo nossa forças que nem os Santos puderam imaginar quão grande é este amor de Deus. No entanto, o menos que consigamos imaginar ou compreender sobre esta inefável felicidade, é abundatemente suficiente para nos convencer que devemos desejá-la.

42. No céus os santos vivem em paz e descanso, numa gloriosa paz, sem reclamações ou ofensas contra qualquer um, todos em amor mútuo, honrando um ao outro, compartilhando todos bens. Eles não podem sentir nenhum impulso ao mal, serem atacados por outros, ou temerem qualquer coisa. Por outro lado, tão abundante são os bens que possuem, bens de todos tipos, que ultrapassam todos desejos e são suficientes para a eternidade. E todas bençãos são seguramente guardadas para eles, que não precisam temer, nem há risco, de serem retiradas ou diminuídas. Isto é o que São Matias compreendia quando disse: Creio na Vida Eterna

-- Explanação Catequética do Credo para os Habitantes das Ilhas Molucas, por São Francisco Xavier (século XVI)

13 de set. de 2010

Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro

Sobrevêm muitas ondas e fortes tempestades, mas não tememos afogar, pois estamos firmados sobre a pedra. Enfureça-se o mar, não tem forças para destruir a pedra. ergam-se as vagas, não podem submergir o navio de Cristo. Pergunto eu: que tememos? A Morte? Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro (Fl 1, 21). O exílio talvez, dizes-me? Do Senhor é a terra e tudo quanto contém (Sl 23, 1). A confiscação dos bens? Nada trouxemos para o mundo e, é certo, nada daqui poderemos levar (1Tm 6, 7); os pavores deste mundo são desprezíveis, e seus bens, merecedores de riso. Não tenho medo da pobreza, não ambiciono riquezas, não temo a morte, nem prefiro viver a não ser para vosso proveito. Por isso recordo os acontecimentos atuais e rogo à vossa caridade que tenhais confiança.

Cristo está comigo, a quem temerei? Mesmo que as ondas, os mares, o furor dos príncipes se agitem contra mim, tudo isto não me impressiona mais do que uma aranha. E se a vossa caridade não me retivesse, não recusaria partir ainda hoje mesmo para outro lugar. Repito sempre: Senhor, faça-se a tua vontade (Mt 26, 42); não o que quer este ou aquele, mas o que tu queres. Esta é a minha torre, minha pedra imóvel; este é o meu báculo firme. Se Deus quiser isto, faça-se. Se quiser que permaneça aqui, agradecerei. Onde quer que me queira, darei graças.

-- Das Homílias de São João Crisóstomo, bispo (século IV) 

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