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8 de jul. de 2017

É necessário o padre dizer "eu te absolvo" após a Confissão?

A perfeição de todo ser ou ato está relacionada à sua forma. Da mesma forma, um sacramento perfeito tem uma forma perfeita, a forma perfeita dos sacramentos é aquela que torna visível o seu efeito. Ora, o sacramento da penitência consiste na remoçãodo pecado, essa remoção é expressa pelo sacerdote quando diz: Eu te absolvo.  Pois, os pecados são como amarras, segundo aquilo da Escritura: O homem será preso por suas próprias faltas e ligado com as cadeias de seu pecado (Pv 5,22). Portanto é claro que esta é a frase é convenientíssima para ressaltar o que acontece na Penitência, que somos libertos de nossos pecados quando ouvimos: Eu te absolvo.

Esta mesma perfeição de forma é visível em outros sacramentos. A forma do batismo é "Eu te batizo"; e a da confirmação "Eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação". Estas palavras são acompanhadas pelo uso da matéria, da água e dos santos óleos. No sacramento da Eucaristia, a consagração ocorre também com a ajuda da matéria, o pão e vinho, mas a verdade da consagração é expressa quando o sacerdote diz: "Isto é o meu corpo". Mas o sacramento da penitência não consiste na consagração de matéria nenhuma nem utiliza qualquer matéria santificada; mas antes, na remoção do pecado, quando o sacerdote declara: Eu te absolvo.

Agora vamos discutir alguns argumentos contrários e respondê-los:

1. Se Cristo não disse "Eu te absolvo", porque os sacerdotes usam esta frase?

A frase em questão é tirada das próprias pa­lavras que Cristo disse a Pedro: Tudo o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus (Mt 18,18). "Eu te absolvo" é a forma que a Igreja utiliza na absolvição sacramental para indicar que os pecados estão desligados - desvinculados - da pessoa.

2. Nas absolvições dadas em público, o padre não diz "Eu te absolvo".


Objeção: No uso comum, em certas absolvições públicas na Igreja, o celebrante não fala no modo indicativo, dizendo "Eu te absolvo", mas em modo de súplica, dizendo "Que Deus oni­potente tenha misericórdia de vós", ou, "Deus onipo­tente vos dê a absolvição". Ainda, o Papa Leão (I) disse: "não podemos obter o perdão de Deus senão pelas súplicas dos sacerdotes".

Resposta: As absolvições dadas em público são orações voltadas à remissão dos pecados veniais. A oração do sacerdote não está, objetivamente, perdoando os pecados cometidos por cada pessoa, mas pedindo a Deus que os absolva. No sacramento da Penitência há algo mais, os pecados são efetivamente perdoados, e isto é confirmado quando o sacerdote declara "Eu te absolvo".

3. Somente Deus pode absolver os pecados


Objeção: Absolver e perdoar são sinônimos. Como diz Santo Agostinho, somente Deus pode perdoar os pecados, purificar-nos interiormente deles Logo, osacerdote não deveria dizer "Eu te absolvo".

Resposta:  Só Deus, pela sua autoridade, pode perdoar os pecados. Os sacerdotes, através do seu minis­tério, são instrumentos de Deus em todos sacramentos. É a virtude divina que realiza a obra interiormente, realizando aquilo que é visível nos sinais sacramen­tais, suas palavras e gestos. Isto é claro pelo que Cristo disse a Pedro: "Tudo o que desatares sobre a terra, etc."; e também aos discípulos: "Aos que vós perdoardes os pecados, ser-­lhes-ão perdoados" (Jo 20, 23). Eu te absolvo está de acordo com as palavras ditas pelo Senhor quando deu o po­der das chaves. Como o sacerdote absolve na qualidade de ministro, se acrescentam palavras concernentes à primária autoridade de Deus, e são: Eu te absolvo em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo; ou seja, por virtude da paixão de Cristo; ou, por autoridade de Deus. Não sendo porém esse acréscimo determinado pelas palavras de Cristo, como no batismo, isso é deixado ao arbítrio dos sacerdotes.

4. Milagres de cura são realizados por Deus, mas parece que o milagre do perdão dos pecados é realizado pelo sacerdote.


Objeção: Assim como o Senhor deu aos discípulos o poder de absolver dos pecados, tam­bém lhes deu o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios. Ora, para curar os enfermos os Apóstolos não pronunciavam as palavras "Eu te curo", mas ­O Senhor Jesus Cristo te cure. Logo, parece que os sacerdotes, recebendo um poder outorgado por Cristo aos Apóstolos, não devem usar da fórmula - Eu te absolvo; mas - Cristo te dê a absol­vição.


Resposta: Aos Apóstolos não foi dado o poder de, por si mesmos, curarem os en­fermos, mas que estes fossem curados pelas ora­ções deles. Foi-lhes porém conferido o poder de celebrar os sa­cramentos. Por onde, nos sacramentos pode usar o modo indicativo - Eu te absolvo - mas quando curar doenças ou expulsam demônios, falam em forma de súplica - Que Deus te cure. Mas isto não é absoluto, às vezes, pois Pedro ordenou ao coxo - O que tenho isso te douEm nome de Jesus Cristo levanta-te e anda.

5. A absolvição dos pecados seria dependente de uma revelação de Deus, que não ocorre comumente a cada confissão. 


Objeção: Como lemos no Evangelho, antes de Cristo ter dito a Pedro: "Tudo o que ligares sobre a terra, etc.", disse-lhe: "Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foi a carne e sangue quem te revelou, mas sim meu Pai, que está nos céus (Mt 16, 17)"Assim, parece que o sacerdote, a quem não foi nenhuma feita revelação, diz presunçosamente "Eu te absolvo".


Resposta: Os sacramentos da Lei Nova não só signi­ficam, mas também realizam o que significam, e isto nos assegura a revelação "geral" da nossa fé, não sendo necessária uma revelação particular a cada sacramento.  Quando o sacerdote batiza alguém, o declara interiormente purificado, por palavras e por atos que não somente significam, mas produzem essa purificação; assim também quando diz  "Eu te absolvo", declara o penitente absolvido, não só significativa, mas também efetivamente.   Tanto no batismo quanto na penitência, o sacerdote age com a certeza da fé. Assim também todos outros sacramen­tos da lei nova produzem por si mesmos um efeito, em virtude da paixão de Cristo. 

Ao penitente que acreditar nesta absolvição, os horizontes se abrem. Como exemplo, Santo Agostinho declara: "Não é vergonhosa nem difícil, depois de perpetrado, mas expiado o adultério, a reconciliação dos cônjuges, quando, pelo poder das chaves do reino dos céus, não se tem mais dúvida sobre a remissão dos pecados".

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 3, de São Tomás de Aquino


1 de jul. de 2017

A confissão é necessária para a Salvação?

Será a confissão necessária para a Salvação? Não basta apenas confessar os pecados para Deus? Vejamos o que diz São Tomás de Aquino:

Há dois modos de um ato ser necessário à salvação:

  • obrigatório: trata-se de atos sem os quais não se pode alcançar a salvação, como a graça de Cristo e o sacramento do batismo pelo qual renascemos em Cristo. 
  • condicional, como o sacramento da penitência, pois é necessário apenas àqueles que estão em pecado. Conforme diz a Escritura: Assim, Senhor, Deus dos justos, não pediste penitência para os justos, para Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra Ti, mas pediste penitência para mim, que sou pecador (*) E na Carta a Tiago: Ora, o pecado, quando tiver sido realizado, gera a morte (Tg 1,5). 

Logo, para alcançar a salvação, é necessário que o pecador seja purificado do pecado, o que não pode ocorrer sem o sacramento da penitência, no qual a virtude da paixão de Cristo, a absolvição do sacerdote e a confissão do pecador cooperam com a graça para perdoar o pecado.

Por onde é claro que o sacramento da penitência é necessário à salvação, depois do pecado; assim como o remédio é necessário ao corpo de quem caiu em grave doença.

1. Mas arrepender-se de seus pecados não é suficiente?

O Salmo 126, 5-6 diz que "Os que semeiam entre lágrimas, colherão com alegria. Na ida, caminham chorando, os que levam a semente. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes". E sobre esta tristeza que salva, São Paulo escreveu aos Coríntios: Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte (2Co 7,10). Logo, o arrependimento sem a penitência bastaria à salvação.

Este argumento é parcial, pois apenas a boa intenção e o arrependimento não são suficientes para libertar do pecado; se bastassem, não haveria causa para tristezas. Mas quando a boa intenção é vencida pelo pecado, não pode ser restituída plenamente sem a penitência, pois a tristeza com os pecados remete ao passado, a absolvição dos pecados impulsiona o futuro.

A caridade não é suficiente para apagar os pecados?

A Escritura diz: A caridade cobre todos os delitos (Pv 10,12). E a seguir: Os pecados purificam-se pela misericórdia e pela fé (Pv 16,6). Ora, se o objetivo deste sacramento é só purificar os pecados, tendo caridade, fé e misericórdia, podemos alcançar a salvação, mesmo sem o sacramento da penitência.

Nem a fé, nem a caridade nem a misericórdia podem, sem a penitência, tirar-nos do estado de pecado. Pois a caridade não exige que nos arrependamos da ofensa cometida contra o amigo, nem que nos reconciliemos com ele. A fé requer que, pela virtude da paixão de Cristo, nos justifiquemos dos nossos pecados. E por fim também a misericórdia pede que reparemos pela penitência a nossa miséria, em que nos precipitou o pecado, segundo aquilo da Escritura: o pecado é a vergonha dos povos (Pv 14,34). Donde o outro dito da Escritura: deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão (Mt 5:24).

Cristo não perdoou sem confissão ou penitência?

Os sacramentos da Igreja começaram com a instituição de Cristo. Ora, como lemos no Evangelho, Cristo perdoou a mulher adúltera, sem penitência (cf Jo 8,1-11). Logo, parece não ser a penitência necessária à salvação.

Pela excelência do poder, que só Cristo tinha, é que concedeu à mulher adúltera o efeito do sacramento da penitência - a remissão dos pecados - sem esse sacramento; embora não sem a penitência interior, que operou nela pela graça.

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 5, de São Tomás de Aquino

 (*) Este trecho de 2Cr 11 não está incluído na Bíblia Católica atual, mas faz parte de várias versões históricas, é um apêndice na Vulgata, provavelmente usada por São Tomás de Aquino, e ainda é mantido na versão luterana. 

15 de mar. de 2015

Pena de morte

Arcebispo Silvano Tomasi, representante da
Santa Sé junto às Nações Unidas em Genebra.
Nesta semana o representante do Vaticano no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas Arcebispo Silvano Tomasi declarou que (1) "A posição da Santa Sé sobre este assunto já foi claramente articulada no passado ... defendendo a inviolável dignidade da vida humana e o papel das autoridades de defender de maneira adequada o bem comum da sociedade. Considerando as circunstâncias práticas atuais da maioria dos países, ..., parece evidente que há outros meios além da pena de morte par defender vidas humanas de agressores". E após mais alguns argumentos, "em conclusão, a Santa Sé apoia integralmente os esforços para abolir a pena de morte. Como forma de atingir este objetivo, é necessário 1) realizar reforma sociais que permitam às sociedades implementar a abolição da pena de morte; 2) melhorar as condições das prisões, assegurando o respeito a dignidade da pessoa humana privada de sua liberdade". 

Esta posição apenas reafirma o Catecismo da Igreja Católica:

2267. A doutrina tradicional da Igreja, desde que não haja a mínima dúvida acerca da identidade e da responsabilidade do culpado, não exclui o recurso à pena de morte, se for esta a única solução possível para defender eficazmente vidas humanas de um injusto agressor.

Contudo, se processos não sangrentos bastarem para defender e proteger do agressor a segurança das pessoas, a autoridade deve servir-se somente desses processos, porquanto correspondem melhor às condições concretas do bem comum e são mais consentâneos com a dignidade da pessoa humana.

Na verdade, nos nossos dias, devido às possibilidades de que dispõem os Estados para reprimir eficazmente o crime, tornando inofensivo quem o comete, sem com isso lhe retirar definitivamente a possibilidade de se redimir, os casos em que se torna absolutamente necessário suprimir o réu são já muito raros, se não mesmo praticamente inexistentes.

Então, apenas para reiterar, a pena de morte poderia ser utilizada em situações raríssimas quando aplicá-la é melhor para preservar o bem-comum. Digamos, talvez, um poderoso traficante ou algum tipo de líder cuja simples presença em uma prisão levaria seus seguidores a atacar frontalmente para conseguir a sua libertação, ameaçando a vida dos guardas e, até mesmo, dos demais presos. Mas, como demonstra os Estados Unidos em Guantanamo, parece que ainda é possível evitar esta ameaça de maneira inteligente. 

(1) Declaração oficial do Vaticano, infelizmente apenas em inglês; logo a tradução é minha responsabilidade.

25 de fev. de 2015

Muitas são as minhas faltas, maior é a Tua misericórdia

Muitas são as minhas faltas e inumeráveis,
Contudo, não tão espantosas como a Tua misericórdia!
Múltiplos são os meus pecados,
Mas sempre pequenos, comparados com o Teu perdão.
Que efeito poderá ter um pouco de trevas
Sobre a Tua luz divina?
Como pode uma pequena obscuridade rivalizar
Com os Teus raios, Tu que és grande!
Como pode a concupiscência do meu corpo frágil
Ser comparada com a Paixão da Tua cruz?
O que parecerão aos olhos da Tua bondade, ó Todo-Poderoso,
Os pecados de todo o universo?
Eis que eles são como bolha de água
Que, pela queda da Tua chuva abundante,
Desaparece imediatamente.
És Tu que dás o sol aos maus e aos bons,
E fazes chover para todos indistintamente.
Para uns a paz é grande por causa da espera da recompensa;
Mas àqueles que preferiram a terra,
Tu perdoas por misericórdia:
Dás-lhes um remédio de vida como aos primeiros;
E esperas sempre o seu regresso a Ti...

-- 
Das Orações de São Gregório de Narek (séc. XI), monge; recém declarado doutor da Igreja.

11 de nov. de 2014

Enquanto estamos aqui na terra, façamos penitência

Enquanto estamos aqui na terra, façamos penitência. Com efeito, somos argila na mão do artífice. Se o oleiro, tendo feito um vaso, e, em suas mãos, este se entorta ou quebra, de novo torna a fazê-lo. Se, porém,se decidiu a pô-lo no forno, nada mais há que fazer. Assim também nós, enquanto estamos no mundo e temos tempo, façamos, de coração, penitência pelos pecados cometidos, para sermos salvos pelo Senhor.

Porque depois de sairmos do mundo já não mais poderemos reconhecer os nossos pecados nem fazer penitência. Por este motivo, irmãos, se fizermos a vontade do Pai, mantivermos casto nosso corpo e guardarmos os preceitos do Senhor, alcançaremos a vida eterna. O Senhor disse no evangelho: Se não fordes fiéis no pouco, quem vos confiará o muito? Pois eu vos digo: quem é fiel no pouco também será fiel no muito (cf. Lc 16,10-11). Quis dizer: Guardai casto o corpo e imaculado o caráter, para que sejamos dignos de receber a vida.

E ninguém venha dizer que a carne não será julgada nem ressurgirá. Confessai: em que fostes salvos, em que recobrastes a vista, se não foi vivendo ainda nesta carne? Convém-nos, portanto, proteger a carne como templo de Deus. Tal qual fostes chamados no corpo, assim no corpo ireis. Cristo Senhor, que nos salvou, era antes só espírito e fez-se carne e assim nos chamou. Do mesmo modo também nós receberemos a recompensa neste corpo. 

Amemo-nos, pois, uns aos outros, para entrarmos todos no reino de Deus. Enquanto temos tempo de ser curados, entreguemo-nos a Deus médico, dando-lhe a paga. Que paga? A penitência brotada de um coração sincero. Com efeito, ele prevê todas as coisas e conhece o que se passa em nosso íntimo. Louvemo-lo, pois, não só de boca, mas de coração, para que nos receba como filhos. De fato o Senhor disse: Meus irmãos são aqueles que fazem a vontade de meu Pai (cf. Lc 8,21s).

-- Homília de um autor desconhecido, do século II

30 de ago. de 2014

Oração para reformar a vida

Primeiramente, antes de entrar na oração, repouse um pouco o espírito, assentando-se ou passeando, como lhe parecer melhor.

Faça uma oração preparatória: como, por exemplo, pedir graça a Deus nosso Senhor para que possa conhecer no que faltei aos dez mandamentos; e também pedir graça e ajuda para doravante se emendar, pedindo perfeita inteligência, para melhor os guardar e para maior glória e louvor de sua divina Majestade.

Para o primeiro modo de orar, convém considerar e pensar, no primeiro mandamento, como o tenho guardado e em que tenho faltado; tendo como norma demorar nesta consideração o tempo de quem reza três pai nossos e três ave-marias. E, se neste tempo, acho faltas minhas, pedir vênia e perdão delas, e dizer um Pai-Nosso. E, desta forma maneira se faça em cada um de todos os dez Mandamentos.

Primeira nota: É de notar que, quando uma pessoa vier a pensar num mandamento no qual acha que não tem hábito de pecar, não é necessário que se detenha tanto tempo. Mas, conforme a pessoa acha que tropeça mais ou menos num mandamento, assim deve deter-se mais ou menos na consideração e exame dele.

Depois de terminar a reflexão, como já se disse, sobre todos os Mandamentos, acusando-se neles e pedindo graça para emendar no futuro, há de acabar-se com um diálogo a Deus Nosso Senhor.

No segundo dia, reflete-se sobre os pecados capitais. Faça-se a oração preparatória, pela maneira já indicada, depois segue-se examinando cada um dos sete pecados capitais que se hão de evitar. Guarda-se igualmente a ordem e a regra já indicadas e o diálogo final.

Para melhor conhecer as faltas cometidas nos pecados mortais, considerem-se os seus contrários. E assim, para melhor evitá-los, proponha e procure a pessoa, com santos exercícios, adquirir as sete virtudes a elas contrárias.

No terceiro dia, reflete-se sobre as potências da alma: inteligência, vontade e sensibilidade. Observe-se a mesma ordem e regra, fazendo a oração preparatória e o diálogo. 

No quarto dia, os cinco sentidos corporais, seguindo sempre a mesma ordem, apenas mudando-se o assunto. 

Quem quer imitar, no uso de seus sentidos, a Cristo Nosso Salvador, encomende-se na oração preparatória a sua divina majestade, e depois de ter considerado em cada sentido, diga-se um Pai Nosso. Quem quiser imitar a Nossa Senhora, na oração preparatória encomende-se a ela, para que lhe alcance graça de seu Filho e Senhor para isso e, depois de ter considerado em cada sentido, diga uma Ave Maria.

-- Dos Exercícios Espirituais, de Santo Inácio de Loyola (século XVI)

16 de ago. de 2014

Como pecamos com as palavras

Não jurar, nem pelo Criador nem pela criatura, a não ser com verdade, necessidade e reverência. Necessidade entendo, não quando se afirma com juramento qualquer verdade, mas quando é de alguma importância para o proveito da alma ou do corpo ou de bens temporais. Reverência entendo, quando ao pronunciar o nome do seu Criador e Senhor, com consideração, se lhe tributa a honra e reverência devidas.

É de advertir que, ainda que no juramento em vão, pecamos mais jurando pelo Criador que pela criatura, é mais difícil jurar devidamente, com verdade, necessidade e reverência, pela criatura que pelo Criador, pelas razões seguintes:


Primeira: Quando queremos jurar por alguma criatura, o fato de querer nomear a criatura não nos faz estar tão atentos nem advertidos para dizer a verdade ou para afirmá-la com necessidade, como ao querermos nomear o Senhor e Criador de todas as coisas.

Segunda: É que, ao jurar pela criatura, não é tão fácil prestar reverência e acatamento ao Criador, como quando se jura pelo mesmo Criador e Senhor e se profere o seu nome; porque o fato de querer nomear a Deus nosso Senhor, traz consigo mais acatamento e reverência que o querer nomear uma coisa criada. Portanto, concede-se mais aos perfeitos que aos imperfeitos jurar pela criatura; porque os perfeitos, pela assídua contemplação e iluminação do entendimento,consideram, meditam e contemplam mais estar Deus nosso Senhor em cada criatura, segundo a sua própria essência, presença e potência; e, assim, ao jurarem pela criatura, estão mais aptos e dispostos para prestar acatamento e reverência a seu Criador e Senhor do que os imperfeitos.

Terceira: É que na frequência do jurar pela criatura, se há-de temer mais a idolatria nos imperfeitos que nos perfeitos.

Não dizer palavra ociosa. Por palavra ociosa entendo a que não me aproveita a mim nem a outrem, nem se ordenaa tal intenção. De sorte que falar de tudo o que é proveitoso ou com intenção de aproveitar à alma própria ou alheia, ao corpo ou a bens temporais, nunca é ocioso; nem o falar alguém de coisas que estão fora do seu estado, como se um religioso falasse de guerras e comércio. Mas, em tudo o que se disse, há mérito quando as palavras se ordenam a bom fim, e pecado quando se dirigem a mau fim ou se fala inutilmente.

Não dizer palavras para difamar ou murmurar, porque se descubro um pecado mortal que não seja público, peco mortalmente; e, se um pecado venial, venialmente; e, se um defeito, mostro o meu próprio defeito. Mas sendo reta aintenção, de duas maneiras se pode falar do pecado ou falta de outrem.

Primeira: quando o pecado é público, como, por exemplo, de uma meretriz pública, de uma sentença dada em juízo, ou de um erro público que infecciona as almas com quem conversa.

Segunda: quando o pecado oculto se descobre a alguma pessoa para que ajude a levantar a que está em pecado; tendo, contudo, algumas conjecturas ou razões prováveis de que a poderá ajudar.

-- Dos Exercícios Espirituais, de Santo Inácio de Loyola (século XVI)

1 de ago. de 2014

Exercícios espirituais: como tomar consciência do seus pecados

O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudam para o seu fim, e tanto deve deixar-se delas, quanto disso o impedem. 

Pelo que, é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejemos e escolhamos o que mais nos conduz para o fim para que somos criados.

[Nota: a pessoa deve ter um caderninho, onde cada página reppresenta um dia]

Primeiro tempo: Pela manhã, logo ao levantar, deve propor guardar-se, com diligência, daquele pecado particular ou defeito que se quer corrigir e emendar.

Segundo tempo: Depois da refeição do meio-dia, pedir a Deus nosso Senhor o que se quer, a saber, graça para se recordar de quantas vezes caiu naquele pecado particular ou defeito e para se emendar no futuro. Em seguida, faça o primeiro exame, pedindo conta à sua alma daquele ponto particular proposto de que se quer corrigir e emendar, percorrendo hora por hora ou tempo por tempo, começando desde a hora em que se levantou até à hora e momento do presente exame; e faça, na primeira linha da página tantos pontos quantas forem as vezes que tenha incorrido naquele pecado particular ou defeito; e depois, proponha, de novo, emendar-se até ao segundo exame que fará.

Terceiro tempo: Depois da refeição da noite, fará o segundo exame, também de hora em hora, começando desde o primeiro exame até ao segundo, e fará, na segunda linha da mesma página tantos pontos quantas as vezes que tenha incorrido naquele pecado particular ou defeito.

Seguem-se quatro adições para mais depressa tirar aquele pecado ou defeito particular:

Primeira adição: Cada vez que a pessoa cair naquele pecado ou defeito particular, ponha a mão no peito, doendo-se deter caído; o que se pode fazer mesmo diante de muitas pessoas, sem que notem o que faz.

Segunda adição: Como a primeira linha da página significa o primeiro exame e a segunda linha o segundo, veja, à noite, se há emenda, da primeira linha para a segunda, a saber: do primeiro exame para o segundo.

Terceira adição: Conferir o segundo dia com o primeiro, a saber: os dois exames do dia presente com os outros dois exames do dia passado, e verificar se, de um dia para o outro, se emendou.

Quarta adição: Conferir uma semana com a outra, e verificar se se emendou, na semana presente, em comparaçãocom a semana passada.

-- Do Livro Exercícios Espirituais, de Santo Inácio de Loyola (século XVI)

16 de mar. de 2013

Quinto Domingo de Quaresma - Ano C

O acontecimento histórico desta semana, a eleição do Papa Francisco, o primeiro Papa das Américas, o primeiro jesuíta, o primeiro a chamar-se Francisco, talvez o primeiro a ter apenas um pulmão, lembra-nos claramente que Deus inclui todos na sua Igreja, e todos tem um papel a desempenhar. 

A primeira leitura deste Domingo é tirada do livro Isaias (Is 43,16-21). Na semana passada ouvimos a conclusão da saída do Egito e a primeira Páscoa na terra prometida. Hoje começamos a olhar para um novo êxodo que Deus promete através do profeta Isaias, um êxodo que promete ser ainda mais maravolhoso que o primeiro, pois Deus promete restaurar toda grandeza de Israel após o retorno da Babilônia.

A segunda leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fp 3,8-14) é uma advertência ao povo sob os falsos mestres, judeus que tentam manter as velhas tradições enquanto dizem ser cristãos. Segundo eles, para ser cristão, era necessário ser judeu, ser circuncidado, obedecer as leis do Velho Mandamento. Esta questão, se os gentios convertidos ao Cristianismo devem aceitar os ritos judaicos precipitou o primeiro Concílio de Jerusalem. O Apóstolo responde que é necessário olhar para a frente, abandonar o passado, mirar Cristo Ressucitado na cruz.

O Evangelho de São João (8,1-11) é sobre uma mulher surpreendida em adultério, segundo a antiga lei sujeita a morte por apredejamento. “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Assim Jesus clama por misericórdia, e eles acabam se afastar reconhecendo também serem pecadores. 

Quando fica a sós com a mulher, a mulher talvez esteja assustada por que Jesus não tem pecados e, segundo a condição que Ele mesmo impôs, poderia puni-la. Mas olhando para ela, diz-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Como ressalta Santo Agostinho, Jesus condena o pecado, não a mulher. Com cantamos no Salmo: "Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!" 

Cristo inclui a mulher adúltera na sua Igreja, foi misericordioso. Como aconselhou o Papa Francisco ao confessores na Basílica de Santa Maria Maior, na sua primeira visita após a eleição: "Sejam piedosos com as almas que lhes procuram, estas pessoas precisam de vós", lembrem-se sempre, emfatizou "misericórida, misericórdia, misericórdia".  

16 de fev. de 2013

No Cristo fomos tentados e nele vencemos o demônio


Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Quem é que fala assim? Parece ser um só: Dos confins da terra a vós eu clamo, e em mim o coração já desfalece (Sl 60,3). Então já não é um só, e contudo é somente um, porque o Cristo, de quem todos somos membros, é um só. Como pode um único homem clamar dos confins da terra? Quem clama dos confins da terra é aquela herança a respeito da qual foi dito ao próprio Filho: Pede-me e te darei as nações como herança e os confins da terra por domínio (Sl 2,8).

Portanto, é esse domínio de Cristo, essa herança de Cristo, esse corpo de Cristo, essa Igreja de Cristo, essa unidade que somos nós, que clama dos confins da terra. E o que clama? O que eu disse acima: Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração; dos confins da terra a vós eu clamo. Sim, clamei a vós dos confins da terra, isto é, de toda parte. 

Mas por que clamei? Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória mas no meio de grandes tentações.

Com efeito, nossa vida,enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações.

Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu.

Portanto, o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque ele assumiu a tua condição humana, para te dar a sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a sua vitória.

Se nele fomos tentados, nele também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que ele venceu? Reconhece-te nele em sua tentação, reconhece-te nele em sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (século V)

23 de jan. de 2013

Salmo 50: Senhor, tende piedade de mim

Caríssimos Irmãos e Irmãs: 

Escutamos o Miserere, uma das orações mais célebres do Saltério, o Salmo penitencial mais intenso e repetido, o cântico do pecado e do perdão, a meditação mais profunda sobre a culpa e a graça. A Liturgia das Horas faz-nos repeti-lo nas Laudes de cada sexta-feira. Desde há muitos séculos numerosos corações de fiéis judeus e cristãos elevam aos céus como que um suspiro de arrependimento e de esperança dirigido a Deus misericordioso.
A tradição judaica colocou o Salmo nos lábios de Davi, convidado pelas palavras severas do profeta Natan a fazer penitência (cf. vv. 1-2; 2 Sam 11, 12), o qual lhe reprovava o adultério cometido com Betsabé e o homicídio de seu marido, Urias. Mas o Salmo enriquece-se nos séculos seguintes, com a oração de muitos outros pregadores, que retomam os temas do "coração novo" e do "Espírito" de Deus infundido no homem redimido, segundo o ensinamento dos profetas Jeremias e Ezequiel (cf. v. 12; Jr 31, 31-34; Ez 11, 19; 36, 24-28).

São dois os horizontes que o Salmo 50 delineia. Em primeiro lugar, está a região tenebrosa do pecado (cf. vv. 3-11), na qual se encontra o homem desde o início da sua existência:  "Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-me no pecado" (v. 7). Mesmo se esta declaração não pode ser assumida como uma formulação explícita da doutrina do pecado original como foi delineada pela teologia cristã, não há dúvida de que ela lhe corresponde:  de fato, exprime a dimensão profunda da inata debilidade moral do homem. O Salmo, nesta primeira fase, apresenta-se como uma análise do pecado, feita diante de Deus. São três as palavras hebraicas usadas para definir esta triste realidade, que provém da liberdade humana mal empregue.

A primeira palavra, hattá, significa literalmente "não atingir o alvo": o pecado é uma aberração que nos afasta de Deus, meta fundamental das nossas relações, e por conseguinte também do próximo.

A segunda palavra hebraica é "awôn, que remete para a imagem de "torcer", "curvar". Por conseguinte, o pecado é um desvio sinuoso do caminho reto; é a inversão, a deturpação, a deformação do bem e do mal, no sentido declarado por Isaías:  "Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que têm as trevas por luz e a luz por trevas" (Is 5, 20). Precisamente por este motivo, na Bíblia, a conversão é indicada como um "voltar" (em hebraico shûb) ao caminho reto, corrigindo o percurso.

A terceira palavra que o salmista usa para falar do pecado é peshá. Ela exprime a rebelião do súdito em relação ao soberano e, por conseguinte, é um desafio aberto dirigido a Deus e ao seu projeto para a história humana.

Mas se o homem confessa o seu pecado, a justiça salvífica de Deus está pronta para o purificar radicalmente. Desta forma passa-se para a segunda parte espiritual do Salmo, a luminosa da graça (cf. vv. 12-19). De fato, através da confissão das culpas abre-se para quem reza um horizonte de luz no qual Deus atua. O Senhor não age apenas negativamente, eliminando o pecado, mas regenera a humanidade pecadora através do seu Espírito vivificante:  infunde no homem um "coração" novo e puro, ou seja, um conhecimento renovado, e abre-lhe a possibilidade de uma fé límpida e de um culto agradável a Deus.

Orígenes fala a este propósito de uma terapia divina, que o Senhor realiza através da sua palavra e mediante a obra regeneradora de Cristo:  "Assim como Deus predispôs para o corpo o remédio das ervas terapêuticas misturadas com sabedoria, assim também preparou remédios para a alma com as palavras que infundiu, distribuindo-as nas divinas Escrituras... Deus também deu outra atividade médica, cujo arquiatra é o Salvador, o qual diz de si mesmo:  "não são os sadios que precisam do médico, mas os doentes". Ele era o médico por excelência capaz de curar qualquer debilidade, qualquer enfermidade" (Homilias sobre os Salmos, Florença, 1991, pp. 247-249).

A riqueza do Salmo 50 mereceria uma exegese cuidadosa de cada uma das suas partes. É o que faremos quando ele voltar a ressoar nas várias sextas-feiras das Laudes. O olhar de conjunto, que agora dirigimos a esta grande súpplica bíblica, já nos revela algumas componentes fundamentais de uma espiritualidade que deve reflectir-se na existência quotidiana dos fiéis. Em primeiro lugar, há um profundo sentido do pecado, entendido como uma escolha livre, conotada negativamente a nível moral e teologal:  "Contra Vós apenas é que eu pequei,  pratiquei  o  mal  perante  os Vossos olhos" (v. 6). Depois, verifica-se também  no  Salmo  um  profundo  sentido  da  possibilidade  de  conversão:   o pecador, sinceramente arrependido (cf. v. 5), apresenta-se em toda a sua miséria e despojamento a Deus, suplicando-lhe que não o afaste da sua presença (cf. v. 13).

Por fim, no Miserere, vê-se uma radicada convicção do perdão divino que "apaga, lava e purifica" o pecador (cf. vv. 3-4) e chega até a transformá-lo numa criatura nova que tem espírito, língua, lábios e coração transformados (cf. vv. 14-19). "Mesmo se os nossos pecados afirmava santa Faustina Kowalska fossem escuros como a noite, a misericórdia divina é mais forte do que a nossa miséria. É necessária uma só coisa:  que o pecador abra pelo menos um pouco da porta do seu coração... o resto fá-lo-á Deus... Tudo se iniciou com a tua misericórdia e tudo terminará com a tua misericórdia" (M. Winowska, O ícone do Amor misericordioso. A mensagem da Irmã Faustina,Roma, 1981, pág. 271).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 24 de Outubro de 2001

28 de jul. de 2012

Os três últimos artigos do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)

Que nos ensina o décimo artigo do Credo: a remissão dos pecados?
- Que Deus deixou a sua Igreja o poder de perdoar todos os pecados por meio dos sacramentos.

Fora da Igreja pode-se esperar o perdão dos pecados?
- Certamente não; fora da Igreja  não há remissão dos pecados, nem esperança de salvação.

Que nos ensina o undécimo artigo: a ressurreição da carne?
- Que todos os homens, no fim do mundo, hão de ressuscitar por virtude de Deus Onipotente, recobrando cada um a sua alma e o corpo que dantes tivera.

Que nos ensina finalmente o último Artigo: a vida eterna?
- Que para os bons cristãos esta preparado no Céu um prêmio eterno.

E o que coisa se reserva para os infiéis e para os maus cristãos?
- A eles se dará uma pena no Inferno.

Que quer dizer esta voz, Amém, que no fim dos símbolo se ajunta?
- Quer dizer "assim é", que vem a ser o mesmo que "tudo quanto está dito é verdadeiro, é certo".

 -- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

Outros artigos do Creio:
  • Primeiro artigo: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
  • Segundo artigo: e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
  • Terceiro artigo: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
  • Quarto artigo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  • Quinto artigo: desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
  • Sexto artigo: subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
  • Sétimo artigode onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  • Oitavo artigo Creio no Espírito Santo
  • Nono artigo Creio na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos

12 de jun. de 2012

Conselhos úteis para quem entra num caminho de oração


Santa Teresa de Ávila, pintado por Frei João da Miséria.
Este quadro é considerado o retrato mais fiel da santa,
pois o Frei a conhecia pessoalmente.
1. Parece-me bem falar de algumas tentações que tenho visto haver ao princípio (de um caminho de oração) - algumas tenho-as eu tido - e dar alguns avisos sobre coisas que julgo necessárias. Procure-se andar ao princípio com alegria e liberdade, porque há pessoas a quem parece que se lhes vai a devoção se se descuidam um pouco. Bom é cada qual andar com temor para não se fiar pouco nem muito de si mesmo, pondo-se em ocasiões em que lhe é fácil ofender a Deus. Isto é muito necessário até já se estar muito forte na virtude. E não há muitos que o estejam tanto que, metidos em ocasiões favoráveis ao seu natural, se possam descuidar. Que sempre - enquanto vivemos, e até por humildade - é bom conhecer a nossa miserável natureza. Mas há muitas coisas em que se pode, como já disse, tomar recreação, mesmo para se voltar mais forte à oração. Em tudo é preciso discrição.

2. Ter grande confiança que, se nos esforçamos, pouco a pouco - embora não seja logo - poderemos chegar aonde muitos santos chegaram com o favor de Deus. Se os santos nunca se tivessem determinado a desejá-lo e pouco a pouco realizá-lo, nunca teriam subido a tão alto estado. Quer Sua Majestade que andem com humildade e sem nenhuma confiança em si. Espanta-me o muito que faz neste caminho o animar-se a grandes coisas; porque, embora depois a alma não tenha forças, dá um voo e chega a muito, ainda que - como avezinha que tem fracas penas - se canse e fique mais algum tempo.

Muito me aproveitei daquilo que diz Santo Agostinho: Dá-me, Senhor, o que me mandas e manda o que quiseres. Pensava muitas vezes que S. Pedro nada tinha perdido em se lançar ao mar, embora depois temesse. Estas primeiras determinações são grande coisa, ainda que, neste primeiro estado, seja preciso ir-se detendo e ater-se à discrição e parecer do mestre; mas há de olhar-se que não ensine a andar como sapos nem se contente com que a alma se satisfaça a só caçar lagartixas.

A humildade, no entanto, deve estar sempre à frente para se compreender que não há de vir das nossas forças.

4. Mas é mister entendermos como há-de ser esta humildade, porque penso que o demônio faz muito dano, a fim de que não vão muito adiante almas que tem oração, fazendo-lhes compreender mal a humildade, e que lhes pareça soberba o ter grandes desejos e querer imitar os santos e desejar o martírio. Logo nos diz ou dá a entender que as coisas dos santos são para admirar, mas não para as fazermos nós que somos pecadores.

Isto também o digo eu; mas temos de olhar ao que é de espantar e ao que é de imitar. De fato, não seria bem que uma pessoa fraca e enferma se expusesse a muitos jejuns e penitências ásperas, e fosse para um deserto onde não pudesse dormir nem tivesse que comer, ou coisas semelhantes. Mas sem pensar que nos podemos esforçar com o favor de Deus a ter um grande desprezo do mundo, a não estimar honras, nem estar atento às riquezas. Temos uns corações tão apertados, que parece nos há-de faltar a terra em querendo-nos descuidar um pouco do corpo para darmos ao espírito. Depois nos parece que ajuda ao recolhimento ter muito bem consertado tudo o que é preciso, porque os cuidados inquietam a oração.

A mim, isto me pesa; termos tão pouca confiança em Deus e tanto amor próprio, que nos inquieta este cuidado. E assim é que, onde o espírito está tão pouco acostumado com isto, que umas fazer ninharias nos dá tão grande trabalho como as coisas grandes e de muito tomo. E, a nosso juízo, presumimos de espirituais!

5. Há esta maneira de caminhar, querendo conciliar corpo e alma para não perder cá na terra o descanso e gozar lá no Céu de Deus. E assim será a passo de galinha, se andarmos em justiça mas apegados ao corpo; nunca se chegará à liberdade de espírito. Maneira muito boa de proceder, me parece, para o estado de casados, que hão-de viver conforme a sua vocação; mas para outro estado, de maneira alguma desejo tal maneira de aproveitar, nem me farão crer que é boa. Tenho-a experimentado e sempre me ficaria assim, se o Senhor, por Sua bondade, não me tivesse ensinado outro atalho.

6. Ainda que, nisto de desejos, sempre os tive grandes, procurava isto que tenho dito: ter oração e viver a meu belo prazer. Creio que, se tivesse tido quem me lançasse a voar, mais eu teria me empenhado em que estes desejos fossem com obras. Mas são - por nossos pecados - tão poucos e contados os que não tenham neste caso discrição demasiada, que julgo ser isto causa bastante para os que começam, não chegarem mais depressa a uma grande perfeição. O Senhor nunca falta, nem é por Ele que há falha; nós é que somos os faltosos e miseráveis.

7. Também se podem imitar os santos procurando solidão e silêncio e outras muitas virtudes, que não nos matarão estes negros corpos que tão concertadamente se querem levar para desconcertar a alma. E o demônio ajuda muito a torna-los inaptos; quando vê um pouco de temor. Mais não quer para nos dar a entender que tudo nos há-de matar e tirar a saúde; até o ter lágrimas faz-nos temer de cegar... Passei por isto e por isso o sei, e não sei que melhor vista nem saúde podemos desejar que perdê-la por tal causa.

Como sou tão enferma, até que me determinei a não fazer caso do corpo nem da saúde, sempre estive atada, sem valer para nada; e ainda agora faço bem pouco. Mas quis Deus que eu entendesse este ardil do demônio; e quando ele me ameaçava perder a saúde, dizia: Pouco vai em que eu morra. Quando era o descanso: Não tenho necessidade de descansar, mas sim de cruz. E assim outras coisas. Vi claramente que, em muitas delas, embora eu de fato fosse muito enferma, era tentação do demônio ou frouxidão minha. Desde que não ando com tantos cuidados e não sou tão amimada, tenho muito mais saúde.

Assim vai muito de, nos princípios - ao começar a ter oração - não apequenar os pensamentos. Creiam o que digo, porque sei isto por experiência. E, para que escarmentem em mim, poderá também aproveitar o dizer estas minhas faltas.

8. Outra tentação que há logo muito de ordinário, é desejar que todos sejam muito espirituais, pois começam a saborear o sossego e o lucro que ele traz. Desejar isto não é mal; o procurá-lo é que poderá não ser adequado se não há muita discrição para proceder de modo a não parecer que querem ensinar; porque neste caso, quem quiser fazer algum bem, precisa ter virtudes muito fortes para não causar tentação aos outros.

Aconteceu isto comigo - e por isso o compreendo - quando procurava, como já tenho dito, que outras tivessem oração. Como, por um lado, me viam enaltecer o grande bem que era ter oração e por outro lado me viam com grande pobreza de virtudes, trazia-as eu tentadas e desatinadas, como depois me disseram. E tinham sobrada razão, porque não percebiam como se podia harmonizar uma coisa com a outra. E fui eu causa de não terem por mal o que era mal, por verem que o fazia algumas vezes, parecendo-lhes haver algum bem em mim.

9. E isto faz o demônio: parece ajudar-se das boas virtudes que temos para autorizar - no que pode - o mal que pretende. E assim, em muitos anos, só três aproveitaram do que lhes dizia; mas depois, quando o Senhor me havia já dado mais forças na virtude, em dois ou três anos aproveitaram muitas, como depois direi.

E, além disto, há outro grande inconveniente que é prejudicar a alma; pois o que mais havemos de procurar ao princípio é de cuidar só dela, fazendo de conta que não há na terra senão Deus e ela; e isto é o que muito lhe convem.

-- Do Livro da Vida, capítulo 13, de Santa Teresa de Ávila (século XVI)


11 de jun. de 2012

Jesus veio curar as chagas do pecado


O homem dotado de razão que se prepara para a libertação que lhe trará a vinda de Jesus deve conhecer o que é segundo a sua natureza espiritual. Deus não veio somente uma vez visitar suas criaturas. Desde a origem, a Lei da Aliança encaminhou muitos para o Criador e ensinou-lhes como adorar a Deus convenientemente. 

Mas a extensão do mal, o peso do corpo, as paixões perversas tornaram impotente a Lei da Aliança e deficientes os sentidos interiores. Impossível recobrar o estado da criação primeira. Por isso é que Deus, em sua bondade, proporcionou-lhes aprender, pela Lei escrita, como adorar o Pai. 

O Criador constatou que a chaga se envenenava e que era necessário recorrer a um médico; Jesus, já criador dos homens, vem ainda curá-los. Ele se entregou por todos nós; nossos pecados causaram a sua humilhação; suas chagas, nossa cura. 

Peço-vos, caros amigos no Senhor, considerai este escrito como um mandamento do Senhor. Compete-nos agora trabalharmos em nossa libertação, graças à sua vinda; compreendei bem o que sois, para vos dispordes a vos oferecerdes como vítimas agradáveis a Deus. Preparai- vos, porque ainda temos intercessores para suplicar a Deus que ponha em nosso coração aquele fogo na terra espalhado por Jesus.

-- Dos Escritos de Santo Antão, monge (século IV)

25 de fev. de 2012

No Cristo fomos tentados e nele vencemos o demônio


Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Quem é que fala assim? Parece ser um só: Dos confins da terra a vós eu clamo, e em mim o coração já desfalece (Sl 60,3). Então já não é um só, e contudo é somente um, porque o Cristo, de quem todos somos membros, é um só. Como pode um único homem clamar dos confins da terra? Quem clama dos confins da terra é aquela herança a respeito da qual foi dito ao próprio Filho: Pede-me e te darei as nações como herança e os confins da terra por domínio (Sl 2,8).

Portanto, é esse domínio de Cristo, essa herança de Cristo, esse corpo de Cristo, essa Igreja de Cristo, essa unidade que somos nós, que clama dos confins da terra. E o que clama? O que eu disse acima: Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração; dos confins da terra a vós eu clamo. Sim, clamei a vós dos confins da terra, isto é, de toda parte. 

Mas por que clamei? Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória mas no meio de grandes tentações.

Com efeito, nossa vida,enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações.

Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu.

Portanto, o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque ele assumiu a tua condição humana, para te dar a sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a sua vitória.

Se nele fomos tentados, nele também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que ele venceu? Reconhece-te nele em sua tentação, reconhece-te nele em sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo

14 de set. de 2011

Jesus Cristo, a Ponte para o Céu


Por não estar em Mim, o pecado não merece amor. Quem o faz, ofende toda criação e odeia-Me. O homem tem obrigações de Me querer bem. Sou imensamente bom, dei-lhe o ser, numa chama de caridade. Todavia, os maus fogem de Mim. Mas, por justiça ou misericórdia, ninguém escapa das Minhas Mãos.

Eis Meu plano: criara o homem à Minha imagem e semelhança para que alcançasse a vida eterna, participasse do Meu Ser, experimentasse Minha suma, eterna e doce bondade.

O pecado veio impedir-lhe de atingir essa meta. O homem deixava de realizar o Meu plano, pois a culpa lhe fechara o Céu e a porta da Minha misericórdia.

O pecado fez germinar na humanidade espinhos e sofrimentos, tribulações numerosas, rebelião interna.

Ao revoltar-se contra Mim o homem criava a rebelião dentro de si. Em conseqüência da perda do estado de inocência, a carne se revoltou contra o espírito... Imediatamente brotou um rio tempestuoso, cujas ondas continuam a açoitar a humanidade. São as misérias e males provenientes do próprio homem, do demônio e do mundo. Nele todos se afogavam; ninguém mais, graças a virtudes pessoais, atingia a vida eterna.

Para remediar tantos males, construí a Ponte no Meu Filho, que permitiria a travessia do rio sem perigo de afogar-se. O rio é o tempestuoso  mar desta tenebrosa vida...

Quero que contemples a Ponte de Meu Filho, que vejas sua grandiosidade. Ela se estende do céu à terra, pois nela a "terra" da vossa natureza humana está unida à divindade sublime, graças à encarnação que realizei no homem. Todos vós deveis passar por esta Ponte, louvando-Me através do trabalho pela salvação dos homens e tolerando muitas dificuldades, a exemplo do Meu doce e amoroso Verbo Encarnado. Não há outro modo de chegar até Mim.

Cada pessoa tem uma vinha, a vinha da própria alma. Nela trabalha com a vontade pessoal, livre, durante o tempo desta vida. Acabado este tempo nenhum outro trabalho será realizado, seja para o bem, seja para o mal.

Começareis por purificar-vos com a contrição interior, desapegando- vos e desejando a virtude. Sem esta predisposição, exigida na medida de vossas possibilidades como ramos unidos à Videira, que é Meu Filho (Jo 15,1). nada recebereis.

Dizia Meu Filho: Éu sou a videira verdadeira e vós os ramos; Meu Pai é o agricultor (Jo 15,5). Sim, Eu Sou o agricultor, de Mim se originam todos os seres. Tenho um poder incalculável, pelo qual governo o universo; nada Me escapa. Fui Eu o agricultor que plantou a verdadeira vinha, Cristo, no chão da humanidade, para que vós, unidos a Ele, possais frutificar. Quem não produzir ações santas e boas, será cortado da videira; e secará. Separado, perderá a vida da graça e irá para o fogo eterno...

Sabes que os mandamentos da Lei se reduzem a dois sem eles, nenhum outro é observado. São: amar-Me sobre todas as coisas e amar o próximo como a ti mesma. Eis o começo, o meio e o fim dos mandamentos da lei.

Todavia esses "dois" não se "reúnem" em Mim sem os "três", isto é, sem a unificação das três faculdades da alma: A memória a inteligência e a vontade. A memória há de recordar-se dos Meus beneficies e da Minha bondade; a inteligência pensará no amor inefável revelado em Cristo, pois Ele se oferece como objeto de reflexão, para manifestar a chama do Meu amor; a vontade unindo-se às faculdades anteriores, Me amará e desejará como seu fim.

O coração humano, ao ser atraído pelo amor, leva consigo todas as faculdades da alma: Quando são harmonizadas e reunidas tais faculdades, todas as ações humanas - corporais ou espirituais - ficam-Me agradáveis, pois unem-se a Mim na caridade.

Foi exatamente para isso que Meu Filho se elevou na cruz, trilhando o caminho do amor cruciante. Ao dizer, Quando Eu for elevado, atrairei a Mim todas as coisas, ele queria significar: quando o coração humano e as faculdades forem atraídas, todas as demais faculdades e suas ações o serão...

É muita estreita a união dessas três faculdades. Quando uma delas Me ofende, as outras também o fazem. Como disse, uma apresenta à outra o bem ou o mal, conforme agrada ao livre arbítrio.

O livre arbítrio, se acha na vontade e a move como quer, em conformidade ou não com a razão.

Possuis a razão, sempre unida a Mim, a menos que o livre arbítrio a afaste mediante o amor desordenado, e tende em vós uma lei perversa, que luta contra o espírito. Ensinou o apostolo Paulo em sua carta (C1 3,5) a mortificar o corpo e a destruir a vontade própria, ou seja, refrear o corpo mortificando a carne, quando ela se opõe ao espírito. Tendes, então, duas partes em vós mesmos: a sensualidade e a razão. A sensualidade foi dada como servidora, a fim de que as virtudes sejam exercidas e provadas através do corpo. O homem é livre, já que Meu Filho o libertou com Seu Sangue. Ninguém pode dominar a pessoa humana quanto a vontade, pois ela possui o livre arbítrio. Este se identifica com a vontade, concorda com ela. Fica, pois, o livre arbítrio entre a sensualidade, e a razão, e inclina-se ora de um lado ora de outro, conforme preferir...

Quando a pessoa tenta livremente reunir as três faculdades, memória, inteligência e vontade, em Mim, na maneira explicada, todas as atividades espirituais e corporais humanas ficam unificadas. O livre arbítrio se afasta da sensualidade, tende para o lado da razão.

Ninguém pode vir a Mim, senão Por meio de Cristo. Esta a razão pela qual fiz d'Ele uma Ponte de três degraus. Esses três degraus representam os três estados espirituais do homem. O pavimento desta ponte é feito de pedras, a fim de que a chuva (da justiça divina) não retenha o caminhante. "Pedras" são as virtudes verdadeiras e reais. Antes da Paixão do Meu Filho, elas ainda não tinham sido assentadas, motivo pelo qual os antigos não atingiam o céu, mesmo que vivessem piedosamente. O Paraíso ainda não fora aberto com a chave do Sangue, e a chuva da justiça divina impedia a caminhada.

Quando aquelas pedras foram assentadas no Corpo do Meu Filho - por Mim comparado a uma ponte - foram embebidas, amalgamadas e assentadas com sangue. Em outras palavras: o sangue (humano) foi misturado com a cal da divindade e fortemente queimado no calor da caridade.

Tais pedras foram postas em Cristo por Mim, mas é n'Ele que toda virtude é comprovada e vivificada. Fora de Jesus ninguém possui a vida da graça. Ocorre estar n'Ele, trilhar suas estradas, viver Sua mensagem. Somente Ele faz crescer as virtudes, somente Ele as constrói como pedras vivas, cimentando-as com o próprio Sangue.

Nele, todos os fiéis caminham na liberdade, sem o medo da justiça divina, pois vão cobertos pela misericórdia, descida do céu no dia da encarnação.

Foi a chave do Sangue de Cristo que abriu o céu. Portanto, esta ponte é ladrilhada; e seu telhado é a misericórdia.

Possui também uma despensa, constituída pela hierarquia da Santa Igreja, que conserva e distribui o Pão da Vida e o Sangue. Assim, Minhas criaturas, viandantes e peregrinas, não fraquejam de cansaço na viagem. Para isto ordenei que vos fosse dado o Corpo e o Sangue do Meu Filho, Homem Deus...

Disse Jesus: Eu sou o caminho, a verdade, e a vida; quem vai por Mim não caminha nas trevas, mas na luz (Jo, 8,12)... Quem vai por tal caminho é filho da verdade, atravessa a ponte e chega até Mim, verdade eterna, oceano de paz. Quem não trilha esse caminho, vai pela estrada inferior, no rio do pecado. É uma estrada sem pedras, feita somente de água, inconsistente; por sobre ela ninguém vai sem afundar. É o caminho dos prazeres e das altas posições, daqueles cujo amor não repousa em Mim e nas virtudes, mas no apego desordenado ao que é humano e passageiro. Tais pessoas são como a água sempre a escorrer. À semelhança daquelas realidades, vão passando.
Calvário, de Josse Lieferinxe (c. 1500). Museu
do Louvre, Paris.

Eles acham que são as coisas criadas, objeto de seu amor, que se vão; na realidade, também eles caminham continuamente em direção à morte. Bem que gostariam de deter-se, reter na vida as coisas que amam. Seriam felizes se as coisas não passassem. Perdem-nas todavia, seja por causa da morte, seja pelos acontecimentos com que faço, escapar-lhes das mão, os bens deste mundo...

Com o retorno de Meu Filho ao céu, enviei o Mestre, o Espírito Santo. Ele veio no Meu poder, na sabedoria do Filho, e na própria clemência. É uma só coisa Comigo e o Filho. Por sua vinda fortaleceu o Caminho - Mensagem deixado no mundo por Jesus. O Espírito Santo é qual mãe a nutrir no Divino Amor. Ele liberta o homem, torna-o dono de si, isento da escravidão e do egoísmo. A chama da Minha caridade (o Espírito Santo) não sobrevive junto ao egoísmo....

Assim, todos os homens, recebem luzes para conhecer a verdade. Basta que cada um o queira, que não destrua a luz da razão, pelo egoísmo desordenado.

A mensagem de Jesus é verdadeira e ficou no mundo qual pequena barca para retirar os pecadores do rio do pecado e conduzi-os ao porto da salvação.

Primeiro, coloquei Meu Filho como Ponte - Pessoa, a conviver com os homens; após Sua morte, ficou a Ponte - Mensagem possuindo ela Meu poder, a sabedoria do Filho e o amor do Espírito. O poder fortifica os caminhantes, a sabedoria ilumina e ajuda a reconhecer a Verdade, o Espírito Santo infunde o amor que aperfeiçoa, que destrói o egoísmo e conserva no homem o apego ao bem...

O Verbo encarnado, Meu Filho único e ponte de glória, deu aos homens vida e grandeza. Eram escravos do demônio e Ele os libertou.

Para que cumprisse tal missão, tornei-O servo; para cobrir a desobediência de Adão exigi que obedecesse; para confundir o orgulho, humilhou-se até a morte na cruz. Por Sua morte, destruiu o pecado. No intuito de livrar a humanidade da morte eterna, fez do Seu Corpo uma bigorna.

No entanto os pecadores desprezam Seu Sangue, pisoteiam-No com um amor desordenado. Esta é a injustiça, este o julgamento falso a respeito do qual o mundo é e será repreendido até o dia do juízo final. Tal repreensão começou quando enviei o Espírito Santo sobre os apóstolos. São três as repreensões: a voz da Igreja, o Juízo Particular e o Juízo Final...

-- Do Livro Revelações de Santa Catarina de Sena (século XIV)




23 de ago. de 2011

As cinco vias da penitência



Queres que cite as vias da penitência? São muitas, é certo, variadas e diferentes; todas levam ao céu.

É a seguinte a primeira via da penitência: a reprovação dos pecados: Sê tu o primeiro a dizer teus pecados para seres justificado (cf. Is 43,25-26). O profeta também dizia: Disse, confessarei contra mim mesmo minha injustiça ao Senhor, e tu perdoaste a impiedade de meu coração (Sl 31,5). Reprova também tu aquilo em que pecaste; basta isto ao Senhor para desculpar-te. Quem reprova aquilo em que pecou, custará mais a recair. Excita o acusador interno, tua consciência, não venhas a ter acusador lá, diante do tribunal do Senhor.

Esta primeira é ótima via da penitência. A seguinte não lhe é nada inferior: não guardemos lembrança das injúrias recebidas dos inimigos, dominemos a cólera, perdoemos as faltas dos companheiros. Com isso, aquilo que se cometeu contra o Senhor será perdoado. Eis outra expiação dos pecados. Se perdoardes a vossos devedores, também vos perdoará vosso Pai celeste (Mt 6,16).

Queres saber a terceira via da penitência? Oração ardente e bem feita, que brote do fundo do coração.

Se ainda uma quarta desejas conhecer, chamá-la-ei de esmola. Possui muita e poderosa força.

E ser modesto no agir e humilde, isto, não menos que tudo o mais, destrói os pecados. Testemunha é o publicano que não podia citar nada feito com retidão, mas em lugar disto ofereceu a humildade e depôs pesada carga de pecados.

Indicamos cinco vias da penitência: primeira, a reprovação dos pecados; segunda, o perdão das faltas do próximo; terceira, a oração; quarta, a esmola; quinta, a humildade.

Não sejas preguiçoso, mas caminha todos os dias por elas; são fáceis, não podes nem mesmo objetar a pobreza; pois ainda que pela indigência leves vida dura, renunciar à ira e mostrar humildade está em teu poder, bem como orar assiduamente e condenar os pecados; em parte alguma a pobreza é impedimento. O que digo aqui, naquela via da penitência que consiste em dar dinheiro (falo de esmola) ou em observar os mandamentos, será obstáculo a pobreza? A viúva que deu dois tostões já respondeu.

Tendo, pois, aprendido o meio de curar nossas chagas, usemos deste remédio. E com isso, recuperada a saúde, fruiremos com confiança da mesa sagrada, correremos gloriosos ao encontro de Cristo, Rei da glória, e alcançaremos os eternos bens, por graça, misericórdia e benignidade de nosso Senhor Jesus Cristo.

-- Das Homílias de São João Crisóstomo (Homília do Diabo Tentador), bispo (século V)

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