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3 de mar. de 2014

Para quarta-feira de cinzas: Fazei penitência

Inspirados pelo Espírito Santo, os ministros da graça de Deus pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com juramento: Pela minha vida, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que mude de conduta (cf. Ez 33,11); e acrescentou esta sentença cheia de bondade: Deixa de praticar o mal, ó Casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: "Ainda que vossos pecados subam da terra até o céu, ainda que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais negros que o cilício, se voltardes para mim de todo o coração e disserdes: 'Pai', eu vos tratarei como um povo santo e ouvirei as vossas súplicas” (cf. Is 1,18; 63,16; 64,7; Jr 3,4; 31,9).

Querendo levar à penitência todos aqueles que amava, o Senhor confirmou esta sentença com sua vontade todo-poderosa.

Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte.

Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo: Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte com sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o e praticando o direito e justiça (cf. Jr 9,22-23; ICor 1,31).

Antes de mais nada, lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus, quando exortava à benevolência e à longanimidade: Sede misericordiosos, e alcançareis misericórdia; perdoai, e sereis perdoados; como tratardes o próximo, do mesmo modo sereis tratados; dai, e vos será dado; não julgueis, e não sereis julgados; fazei o bem, e ele também vos será feito; com a medida com que medirdes, vos será medido (cf. Mt 5,7; 6,14; 7,1.2).

Observemos fielmente este preceito e estes mandamen­tos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Pois eis o que diz o texto sagrado: Para quem hei de olhar, senão para o manso e humilde, que treme ao ouvir minhas palavras ? (cf. Is 66,2).

Tendo assim participado de muitas, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a paz. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

-- Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, papa (século I)

2 de set. de 2013

Sete de Setembro: Um dia de oração e jejum pela paz

Hoje, queridos irmãos e irmãs,

queria fazer-me intérprete do grito que se eleva, com crescente angústia, em todos os cantos da terra, em todos os povos, em cada coração, na única grande família que é a humanidade: o grito da paz! É um grito que diz com força: queremos um mundo de paz, queremos ser homens e mulheres de paz, queremos que nesta nossa sociedade, dilacerada por divisões e conflitos, possa irromper a paz! Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra! A paz é um dom demasiado precioso, que deve ser promovido e tutelado.

Nossa Senhora Rainha da Paz - a imagen distingue-se
pela coroa e a pomba.
Vivo com particular sofrimento e com preocupação as várias situações de conflito que existem na nossa terra; mas, nestes dias, o meu coração ficou profundamente ferido por aquilo que está acontecendo na Síria, e fica angustiado pelos desenvolvimentos dramáticos que se preanunciam.

Dirijo um forte Apelo pela paz, um Apelo que nasce do íntimo de mim mesmo! Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor causou e está causando o uso das armas naquele país atormentado, especialmente entre a população civil e indefesa! Pensemos em quantas crianças não poderão ver a luz do futuro! Condeno com uma firmeza particular o uso das armas químicas! Ainda tenho gravadas na mente e no coração as imagens terríveis dos dias passados! Existe um juízo de Deus e também um juízo da história sobre as nossas ações aos quais não se pode escapar! O uso da violência nunca conduz à paz. Guerra chama mais guerra, violência chama mais violência.

Com todas as minhas forças, peço às partes envolvidas no conflito que escutem a voz da sua consciência, que não se fechem nos próprios interesses, mas que olhem para o outro como um irmão e que assumam com coragem e decisão o caminho do encontro e da negociação, superando o confronto cego. Com a mesma força, exorto também a Comunidade Internacional a fazer todo o esforço para promover, sem mais demora, iniciativas claras a favor da paz naquela nação, baseadas no diálogo e na negociação, para o bem de toda a população síria.

Que não se poupe nenhum esforço para garantir a ajuda humanitária às vítimas deste terrível conflito, particularmente os deslocados no país e os numerosos refugiados nos países vizinhos. Que os agentes humanitários, dedicados a aliviar os sofrimentos da população, tenham garantida a possibilidade de prestar a ajuda necessária.

O que podemos fazer pela paz no mundo? Como dizia o Papa João XXIII, a todos corresponde a tarefa de estabelecer um novo sistema de relações de convivência baseados na justiça e no amor (cf. Pacem in terris, [11 de abril de 1963]: AAS 55 [1963], 301-302).

Possa uma corrente de compromisso pela paz unir todos os homens e mulheres de boa vontade! Trata-se de um forte e premente convite que dirijo a toda a Igreja Católica, mas que estendo a todos os cristãos de outras confissões, aos homens e mulheres de todas as religiões e também àqueles irmãos e irmãs que não creem: a paz é um bem que supera qualquer barreira, porque é um bem de toda a humanidade.

Repito em alta voz: não é a cultura do confronto, a cultura do conflito, aquela que constrói a convivência nos povos e entre os povos, mas sim esta: a cultura do encontro, a cultura do diálogo: este é o único caminho para a paz.

Que o grito da paz se erga alto para que chegue até o coração de cada um, e que todos abandonem as armas e se deixem guiar pelo desejo de paz.

Por isso, irmãos e irmãs, decidi convocar para toda a Igreja, no próximo dia 7 de setembro, véspera da Natividade de Maria, Rainha da Paz, um dia de jejum e de oração pela paz na Síria, no Oriente Médio, e no mundo inteiro, e convido também a unir-se a esta iniciativa, no modo que considerem mais oportuno, os irmãos cristãos não católicos, aqueles que pertencem a outras religiões e os homens de boa vontade.

No dia 7 de setembro, na Praça de São Pedro, aqui, das 19h00min até as 24h00min, nos reuniremos em oração e em espírito de penitência para invocar de Deus este grande dom para a amada nação síria e para todas as situações de conflito e de violência no mundo. A humanidade precisa ver gestos de paz e escutar palavras de esperança e de paz! Peço a todas as Igrejas particulares que, além de viver este dia de jejum, organizem algum ato litúrgico por esta intenção.

Peçamos a Maria que nos ajude a responder à violência, ao conflito e à guerra com a força do diálogo, da reconciliação e do amor. Ela é mãe: que Ela nos ajude a encontrar a paz; todos nós somos seus filhos! Ajudai-nos, Maria, a superar este momento difícil e a nos comprometer a construir, todos os dias e em todo lugar, uma autêntica cultura do encontro e da paz. Maria, Rainha da paz, rogai por nós!

-- Papa Francisco, Angelus, 1o. de Setembro de 2013

22 de ago. de 2013

Santa Rosa de Lima, patrona da América da Sul

As Américas festejam neste dia 23 de Agosto sua primeira santa. Nascida Isabel, quando criança era tão amável que era comparada a uma rosa. Na sua confirmação, tomou este nome: Rosa. Desde jovem dedicava muitíssimas horas à oração, tomando como modelo Santa Catarina de Sena. Considerando a experiência de Santa Catarina, que decidiu dar suas roupas a uma pedinte, na qual disse ter visto o rosto de Cristo, escreveu:

Neste ano, 1616, vou vestir meu Divino Jesus, que a igreja logo irá apresentar como um recém-nascido pobre e desnudo, numa mangedoura, exposto ao severo inverno. Vou preparar uma vestimenta de cinquenta orações, de novecentos rosários e cinco dias de jejum em honra ao adorável mistério da Incarnação. Vou vesti-lo com as roupas de nove visitas ao Santíssimo Sacramento, de nove ofícios das orações e nove dias de jejum em honra aos nove meses em que foi gestado pela Santa Virgem Maria. Cristo deve ser coberto com outros cinco dias de jejum, cinco visitas ao Santíssimo Sacramento e cinco rosários em honra ao seu nascimento.

Como franjas de suas roupas, irei a trinta e três Santas comunhões, assistirei trinta e três missas. Vou passar trinta e três horas em oração. Recitarei trinta e três vezes o Pai Nosso, a Ave Maria, o Credo, o Glória ao Pai e Salve Rainha. Também vou recitar trinta e três rosários, e jejuar por trinta e três dias em honra aos anos em Jesus esteve na terra.

Finalmente, vou oferecer com um presente ao meu amado Jesus, minhas lágrimas de arrependimento e todos atos de amor que possa fazer em favor dos necessitados. Com isto ofereço meu coração e alma para que não haja nada em mim que não seja inteiramente consagrado a Ele.

* Tradução própria

7 de mar. de 2013

Homília sobre o Jejum em Tempo de Quaresma

Irmãos, o tempo de Quaresma, quando comparado ao restante do ano, é como um porto protegido, no qual todos navegadores podem se aproveitar de calmas águas espirituais. A Quaresma é um tempo de salvação não apenas para monges e padres, mas para todos, governantes ou governados, ricos ou pobres, imperadores e escravos, para todas as raças e idades.

Nas cidades e vilas deve-se reduzir as festividades e algazarias, para que salmos, preces e meditações tomem seu lugar, pois é para isto que o Senhor Deus nos propicia estas semanas e guia nossos espíritos para a paz e perdão das ofensas, se, com coração sincero, nos prostarmos perante Ele com temor, prometendo melhorarmos no futuro.

Os líderes da Igreja devem falar de modo simples, para que todos entendam, pois assim como os atletas precisam de incentivo nos estádios, aqueles que jejuam precisam de encorajamento dos seus pastores.

Assim, como fui posto a frente deste rebanho, devo dirigir-lhes algumas breves palavras. Jejuar é uma renovação da alma, como dizem os apóstolos, mesmo que estejamos fracos fisicamente, o espírito está se fortalecendo dia a dia. E renovado, o espírito torna-se mais bontio, mais próximo de sua beleza original; amorosamente desenhado  por aquele que disse Eu e o Pai viremos e faremos morada neste lugar.

Se tal é a graça do jejum, de nos tornarmos lugares adequados para Deus, devemos apreciá-lo, felizes, sem reclamar da escassez da dieta, pois sabemos que o Senhor preparou um banquete para milhares apenas com poucos pães. Também porque o não habitual e difícil, com entusiasmo, torna-se agradável.

O jejum não é definido apenas pela comida, mas também pela abstinênca de todo mal, como nos explicaram os santos padres. Portanto, eu lhes imploro, vamos nos abster da preguiça, avareza, malicias, roubos, desânimo, lerdeza, auto-indulgência e da excessiva confiança em si mesmo; vamos nos abster de desejos destrutivos que a serpente coloca a nossa frente quando estamos jejuando.

Ouçamos aquele que disse: "o fruto que colocaste na minha frente era agradável de segurar e de ótimo para comer".  Atentos, pois está dito: "agradável de segurar" não "agradável por natureza". Pois, assim como se alguém morder uma linda fruta pode estar podre por dentro, o prazer pode parecer de uma doçura incalculável, mas quando experimentado é mais amargo que o fel, ou melhor, é como uma espada de dois gumes que devora a alma que conquistou.

Isto é o que sofreu Adão quando foi enganado pela serpente, pois quando experimentou o fruto proibido encontrou morte, não vida.  Isto também é o que todos sofrem até hoje, pois somos enganados pelo demônio. Pois Lucífer, que é escuridão, tem poder para assumir a aparência de um anjo de luz, pode também transformar a aparência do que é ruim em agradável, o amargo em doce, trevas em luz, feiura em beleza, morte em vida, pois não cessa de guiar o mundo para a perdição em cada oportunidade.

Mas que nós, caro rebanho, não sejamos conduzidos à mentira, nem soframos o destino dos pássaros  que procurando por comida caem na armadilha dos caçadores. Ao contrário, assim que percebermos os disfarces do mal, virmos a nudez do demônio, possamos nos afastar dele em definitivo.

Aceitemos felizes os tempos de salmodiar, sejamos entusiásticos com os hinos, atentos às leituras, nos prostemos e oremos conforme o recomendado para cada hora; trabalhemos honestamente, pois o trabalho é bom e também por que aquele que não trabalha não é merecedor do alimento. Compartilhemos os problemas de todos, pois se um é fraco, outro é forte; nos alimentemos e bebamos com moderação, para que não provoquemos inveja entre os malvados, mas zelemos com bondade. Em tudo tenhamos compaixão para com os outros, sejamos razoáveis, obedientes e cheios de perdão e bons frutos; que a Paz de Cristo mantenha-se em nossos corações e pensamentos, guiando nossas ações.

E que cada um seja considerado pelo Pai como justo, sem condenação, quando alcançar o dia supremo da ressurreição, que no seu tempo ganhe o reino dos céus com Jesus Cristo Nosso Senhor, a quem se deve toda glória, com o Pai e o Espírito Santo, agora e para todo sempre, pelos tempos dos tempos. Amém.

-- São Teodoro Estudita, monge, século IX
* tradução própria

16 de nov. de 2012

Convertamo-nos a Deus que nos chamou

A Descida da Cruz, Rembrandt.
Penso não ter dado um conselho sem importância sobre a temperança; se alguém o seguir, não se arrependerá e salvará a si mesmo e a mim que dei o conselho. Não é pequena a recompensa de quem reconduzir à salvação o que se extraviara e se perdera. Podemos retribuir a Deus, nosso criador, se aquele que dize o que escuta disser e escutar com fé e caridade.

Permaneçamos, pois, justos e santos em nossa fé e oremos com confiança a Deus que afirmou: Ainda estarás a falar e te responderei: Eis-me aqui (cf. Is 58,9). Esta palavra é sinal de grande promessa; porque o Senhor se mostra mais pronto a dar do que o suplicante a pedir. Participantes de tão grande benignidade, não invejemos um ao outro por ter recebido bens tão excelentes. Estas palavras enchem de tanto gozo aos que as realizam, quanto de reprovação aos rebeldes.

Irmãos, tendo assim uma boa ocasião de nos arrepender, enquanto temos tempo e há quem nos receba, convertamo-nos para o Senhor que nos chamou. Se renunciamos a nossas paixões desregradas, dominamos nossa alma. Negando-lhe seus desejos maus, participaremos da misericórdia de Jesus. Sabei, pois, já vem o dia do juízo qual fornalha ardente e parte dos céus se desfará (cf. Ml 3,19) e toda a terra será liquefeita como chumbo ao fogo. Neste momento, ficarão patentes as obras dos homens, as ocultas e as manifestas.

Por isso, a esmola é boa como penitência pelo pecado. Melhor o jejum do que a oração; esmola mais que estes dois: a caridade cobre uma multidão de pecados (1Pd 4,8). Contudo, a oração, feita de consciência pura, livra da morte. Feliz quem for reconhecido perfeito nestas coisas; porque a esmola afasta o pecado. 

Façamos, portanto, penitência de todo o coração, para que nenhum de nós pereça. Se temos a obrigação de afastar os outros do culto dos ídolos e instruí-los, quanto mais devemos nos empenhar na salvação de todas as almas, que já gozam do verdadeiro conhecimento de Deus! Ajudemo-nos, então, um ao outro, de modo a reconduzir ao bem mesmo os fracos; para salvarmo-nos todos, não só cada um se converta, mas exortemo-nos mutuamente.

-- Da Homilia de um autor desconhecido do século segundo


25 de fev. de 2012

No Cristo fomos tentados e nele vencemos o demônio


Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração (Sl 60,2). Quem é que fala assim? Parece ser um só: Dos confins da terra a vós eu clamo, e em mim o coração já desfalece (Sl 60,3). Então já não é um só, e contudo é somente um, porque o Cristo, de quem todos somos membros, é um só. Como pode um único homem clamar dos confins da terra? Quem clama dos confins da terra é aquela herança a respeito da qual foi dito ao próprio Filho: Pede-me e te darei as nações como herança e os confins da terra por domínio (Sl 2,8).

Portanto, é esse domínio de Cristo, essa herança de Cristo, esse corpo de Cristo, essa Igreja de Cristo, essa unidade que somos nós, que clama dos confins da terra. E o que clama? O que eu disse acima: Ouvi, ó Deus, a minha súplica, atendei a minha oração; dos confins da terra a vós eu clamo. Sim, clamei a vós dos confins da terra, isto é, de toda parte. 

Mas por que clamei? Porque em mim o coração já desfalece. Revela com estas palavras que ele está presente a todos os povos no mundo inteiro, não rodeado de grande glória mas no meio de grandes tentações.

Com efeito, nossa vida,enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações.

Aquele que clama dos confins da terra está angustiado, mas não está abandonado. Porque foi a nós mesmos, que somos o seu corpo, que o Senhor quis prefigurar em seu próprio corpo, no qual já morreu, ressuscitou e subiu ao céu, para que os membros tenham a certeza de chegar também aonde a cabeça os precedeu.

Portanto, o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado por Satanás. Líamos há pouco no Evangelho que nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelo demônio no deserto. De fato, Cristo foi tentado pelo demônio. Mas em Cristo também tu eras tentado, porque ele assumiu a tua condição humana, para te dar a sua salvação; assumiu a tua morte, para te dar a sua vida; assumiu os teus ultrajes, para te dar a sua glória; por conseguinte, assumiu as tuas tentações, para te dar a sua vitória.

Se nele fomos tentados, nele também vencemos o demônio. Consideras que o Cristo foi tentado e não consideras que ele venceu? Reconhece-te nele em sua tentação, reconhece-te nele em sua vitória. O Senhor poderia impedir o demônio de aproximar-se dele; mas, se não fosse tentado, não te daria o exemplo de como vencer na tentação.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo

21 de fev. de 2012

O Tempo da Quaresma, por João Paulo II


Queridos irmãos e irmãs:

Papa João Paulo II recebe as cinzas durante a
celebração de Cinzas em 2004.
A quarta-feira de cinzas está marcada tradicionalmente por duas práticas da piedade cristã: a imposição das cinzas e o jejum. São dois gestos que afetam o corpo, porém chegam ao espírito. Dois gestos significativos, que representam uma realidade interior. Jejuar de alimentos, jejuar de paixões, jejuar das vaidades do mundo que passa, para uma tomada de consciência mais clara de nossa condição de pecadores, de criaturas necessitadas de Deus; necessitadas de nos convertermos a Ele, que é nossa verdadeira alegria. Deus, bem infinito e permanente. 

Este é, portanto, um "tempo saudável", no qual somos convidados a entrar novamente em nossas consciências, para descobrir os valores verdadeiros sobre os quais devemos apoiar nossa vida. É um tempo de reflexão e aprofundamento, no qual cada um deve comprometer-se a uma corajosa revisão da vida que lhe permita tomar consciência dos vários pontos em que sua conduta não está em sintonia com o Evangelho. O objetivo é dar a própria vida um sentido mais cristão, reafirmando o primado do espírito em relação a matéria que com frequência nos domina. 

Em particular, a Quaresma que começa hoje nos convida a escutar humildemente estas palavras severas do Apóstolo Tiago: Aproximai-vos de Deus, e ele se aproximará de vós. Lavai as mãos, pecadores, e purificai os vossos corações, ó homens de dupla atitude. Reconhecei a vossa miséria, afligi-vos e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto e a vossa alegria em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará (Tiago 4,8-10). Não fujamos deste chamado, estamos todos implicados. E mais ainda, seremos tanto mais aceitos pelo Senhor, quanto mais sintamos esta chamada como dirigida a nós.

A Quaresma nos convida a refletir de modo especial em torno de nossa fragilidade, sobre o nosso "ser pobre" e sobre a precariedade de bens terrenos, sobre o que como resultaria vão querer basear nossa felicidade neles, quando, ao contrário, somente encontramos a felicidade numa relação sincera e amiga com Deus, bem verdadeiramente supremo e absoluto.

A Quaresma nos convida ao arrependimento por termos nos afastado de Deus. Nos exorta a retornarmos a Ele. Nos convida a tomar consciência dos efeitos dolorosos e trágicos deste distanciamento dEle.

A Quaresma nos sugere sentimentos de saudável aflição. Nos recorda que Jesus chama de "bem aventuados os aflitos"(Mt 5,4), e ameaça com a condenação os que agora estão saciados e alegres (Lc 6,25). Por que? Por que a dor, vivida como arrependimento e expiação, leva à salvação e bem-aventurança; pois a alegria néscia daquele que não sabe elevar a vista para além do mundo, levará ao pranto amargo e inconsolável da perdição eterna (cf. Mt 8, 12; 13, 42, etc.).

A Quaresma é ocasião propícia para nos interrogarmos sobre a qualidade e motivo de nossas alegrias; para esclarecer se nascem de uma conversão a Deus ou de um ilusório contentar-se com perspectivas secularistas e terrenas. Ela nos convida a contrição, esperando a misericórdia do Pai e fazendo nossa obra redentora do Filho. A dor do pecado se mitiga com a esperança de que escutando o Evangelho e fazendo obras de penitência, conseguiremos o perdão divino e aliviaremos os merecidos castigos.  Aliviaremos os nossos e os do próximo.

O cristão, como nos exorta São Paulo (1 Tes 5, 16), deve estar sempre alegre. Porém a alegria cristã não é fugir das próprias responsabilidades. Não é um aturdir-se com prazeres fugazes do presente. A alegria cristão consiste em encontrar a própria dignidade perdida, após ter entrado novamente em nós mesmos e escutado as Palavras do Cristo. A Quaresma é o tempo apropriado para levar a cabo esta recuperação, este novo encontro com nosso "eu" autêntico. É um novo encontro que ocorre após uma séria escuta do convite evangélico a conversão. É um exercício fervoroso de obras de misericórdia, que nos dispõem a receber a misericórdia.

A tradição espiritual nos ensina que as principais obras do tempo quaresmal são três: a oração, a esmola e o jejum. A oração nos chama à uma relação mais intensa com Deus. A esmola significa uma atenção mais generosa aos irmãos necessitados. O jejum representa um firme propósito de disciplina moral e de purificação interior.

Tratam-se, evidentemente, dos aspectos essenciais da vida cristã e, como tais, necessários em todo momento. Há, sem dúvida, os tempos "fortes", apresentados no decorrer do ano litúrgico, momentos que nos exortam a um compromisso mais intenso e, com esta finalidade, os ritos e textos sagrados nos oferecem uma luz maior e uma graça mais abundante.

São tempos em que podemos, e devemos, acelerar o caminho, ou se o tivermos abandonado, retomá-lo, são tempos propícios para empreender um novo caminho com frutos e bons resultados. Aproveitemos, pois, este tempo favorável (cf. 2 Cor 6, 2). Este tempo de misericórdia.

-- Papa João Paulo II, audiência geral de 12 de Fevereirto de 1986, quarta-feira de cinzas (século XX)

* Nota: traduzi do texto espanhol disponível no site do Vaticano. 


4 de nov. de 2011

Meios de preparar-se para a morte


A Morte de São José, por Giuseppe Crispi. A direita, Jesus
abençoa seu pai; a esquerda, a Virgem Maria ora por ele. Os
anjos aguardam, para conduzi-lo aos céus. No chão, as
ferramentas de carpinteiro que já não são mais necessárias.
 
Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça.

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende o ter boa ou má sorte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte: "Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais." É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as precauções necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria um louco o comandante de uma praça que esperasse vê-la sitiada para fazer provisões de víveres e armamentos?

Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?... Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência. Quando cair sobre eles à destruição como uma tempestade... então invocar-me-ão e não os escutarei... Comerão os frutos do seu mau proceder (Pr 1,27.28.31).

A hora da morte é tempo de confusão e de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se vêem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. Aquilo que o homem semeou, isto também colherá (Gl 6,8). Não bastará receber os Sacramentos, mas será preciso morrer detestando o pecado e amando a Deus sobre todas as coisas. 

Como, porém, poderá aborrecer os prazeres ilícitos aquele que até então os amou?... Como amará a Deus sobre todas as coisas aquele que até esse instante tiver amado mais as criaturas do que a Deus? O Senhor chamou loucas - e na verdade o eram - as virgens que queriam preparar as lâmpadas quando já chegava o esposo. Todos temem a morte repentina, que impede regular as contas da alma. Todos confessam que os Santos foram verdadeiros sábios, porque souberam preparar-se para a morte antes que essa chegasse... E nós, que fazemos nós? Queremos correr o perigo de nos prepararmos para bem morrer, quando a morte nos estiver já próxima? Façamos agora o que nesse transe quiséramos ter feito... Oh! quanto é terrível então recordar o tempo perdido, e sobretudo o tempo mal empregado!... O tempo que Deus nos concedeu para merecer, mas que passou para nunca voltar. 

Que angústia nos dará o pensamento de que já não é possível fazer penitência, freqüentar os sacramentos, ouvir a palavra de Deus, visitar Jesus Sacramentado, fazer oração! O que está feito, está feito (Lc 16,21). 

Seria necessário ter então mais presença de espírito, mais tranqüilidade e serenidade para confessar-se bem, para dissipar graves escrúpulos e tranqüilizar a consciência... mas já não é tempo! (Ap 10,6). 

Já que é certo, meu irmão, que tens de morrer, prostra-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos Divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze - se ainda a não fizeste - uma confissão geral de toda a tua vida... Oh! quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão.

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece difícil, impossível te parecerá no momento da morte. 

O que mais importa é que resolvas pôr em execução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez por semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar- se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. 

Tais são os meios com que podemos alcançar uma boa morte e a salvação eterna. 

Exercer essas práticas será sinal evidente de nossa predestinação. 

Pelo que diz respeito ao passado, confiai no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos dá estas luzes porque quer salvar-vos, e esperai na intercessão de Maria, que vos obterá as graças necessárias. Com a vida assim regulada, e a esperança posta em Jesus e Maria, quanto nos ajuda Deus, e que força não adquire a alma! Coragem, pois, meu leitor, entrega-te todo a Deus, que te chama, e começa a gozar dessa paz que até agora, por culpa tua, não experimentaste. Pode, porventura, uma alma desfrutar paz maior que a de poder dizer todas as noites, ao descansar: se viesse esta noite a morte, morreria, segundo espero, na graça de Deus!? Que consolação se, ao ouvir o fragor do trovão, ao sentir a terra tremer, pudermos esperar resignadamente a morte, se Deus assim o tiver determinado! 
A Morte da Virgem Maria, obra de Caravaggio.
Maria Madalena e os apóstolos lamentam a morte da Virgem.
Considerada por demais triste, pois não há nenhum
elemento que sujira sua Assunção aos céus, a obra foi
recusada pelos frades que a encomendaram.

É necessário o cuidado de nos acharmos em qualquer tempo, como quiséramos estar na hora da morte. Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor (Ap 14,13). Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente aqueles que ao morrer já estão mortos para o mundo, ou seja desprendidos dos bens que por força então hão de deixar. Por isso, é necessário que desde já aceitemos o abandono de nossa fazenda, a separação de nossos parentes e de todos os bens terrenos. Se não o fizermos voluntariamente durante a vida, forçosa e necessariamente o teremos de fazer na morte, com a diferença de que então não será sem grande dor e grave perigo de nossa salvação eterna. Adverte-nos, neste propósito, Santo Agostinho, que constitui grande alívio, para morrer tranqüilo, regular em vida os interesses temporais, fazendo previamente as disposições relativas aos bens que temos de deixar, a fim de que na hora derradeira somente pensemos em nossa união com Deus. Convirá então só ocupar-se das coisas de Deus e da glória, pois são demasiadamente preciosos os últimos momentos da vida para dissipá-los em assuntos terrenos. No transe da morte se completa e se aperfeiçoa a coroa dos justos, porque é então que se recolhe a melhor soma de méritos, abraçando as dores e a própria morte com resignação ou amor. 

Mas não poderá ter na morte estes bons sentimentos quem neles não se exercitou durante a vida. Para este fim alguns fiéis praticam, com grande aproveitamento, a devoção de renovar em cada mês o protesto da morte, com todos os atos em tal transe próprios de um cristão, e isto depois de receber os sacramentos da confissão e comunhão, imaginando que se acham moribundos e a ponto de sair desta vida. 

O que se não faz na vida, difícil é fazê-lo na morte. A grande serva de Deus, irmã Catarina de Santo Alberto, filha de Santa Teresa, suspirava na hora da morte, exclamando: "Não suspiro, minhas irmãs, por temor à morte, pois há vinte e cinco anos que a espero; suspiro porque vejo tantos pecadores iludidos que esperam para reconciliar-se com Deus até à hora da morte, quando apenas poderão pronunciar o nome de Jesus". 

Examina, pois, meu irmão, se teu coração tem apego a qualquer coisa da terra, a determinadas pessoas, honras, riquezas, casa, sociedade ou diversões, e considera que não hás de viver aqui eternamente. 

Virá o dia, talvez próximo, em que deverás deixar tudo. Por que, neste caso, manter o afeto nessas coisas, correndo risco de ter morte inquieta?... 

Oferece-te, desde já, por completo a Deus, que pode, quando lhe aprouver, privar-te desses bens. Quem quiser morrer resignado, há de ter resignação desde agora em todos os acidentes contrários que lhe possam suceder; e há de afastar de si os afetos às coisas da terra. - Afigura-te que vais morrer - diz São Jerônimo - e facilmente conseguirás desprezar tudo. 

Se ainda não escolheste estado de vida, toma aquele que na hora da morte quererias ter escolhido e que possa proporcionar-te um trânsito mais consolador à eternidade. Se já tens um estado, faze tudo que ao morrer quiseras ter feito nesse estado. Procede como se cada dia fosse o último da vida, cada ação a derradeira que praticas; a última oração, a última confissão, a última comunhão. Imagina que estás moribundo, estendido sobre o leito, e que ouves aquelas palavras imperiosas: Sai deste mundo. Quanto estes pensamentos nos podem ajudar a caminhar bem e a menosprezar as coisas mundanas! Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar procedendo assim (Mt 24,46). Aquele que espera a toda hora a morte, ainda que esta venha subitamente, não pode deixar de morrer bem.

-- Do Livro Preparação para a Morte, de Santo Afonso Maria Ligório (século XVII)

Não sejas como quem diz uma coisa e faz outra


São Carlos Borromeu (1538-84), bispo de
Milão. Durante a peste que assolou a cidade
em 1576 vendeu todos os bens, inclusive seu
leito para ajudar os mais pobres. 

Somos todos fracos, confesso, mas o Senhor Deus nos entregou meios com que, se quisermos, poderemos ser fortalecidos com facilidade. Tal sacerdote desejaria possuir uma vida íntegra, que dele é exigida, ser continente e ter um comportamento angélico, como convém, mas não se resolve a empregar estes meios: jejuar, orar, fugir das más conversas e de nocivas e perigosas familiaridades.

Queixa-se de que, ao entrar no coro para a salmodia, ao dirigir-se para celebrar a missa, logo mil pensamentos lhe assaltam a mente e o distraem de Deus. Mas, antes de ir ao coro ou à missa, que fez na sacristia, como se preparou, que meios escolheu e empregou para fixar a atenção?

Queres que te ensine a caminhar de virtude em virtude e como seres mais atento ao ofício, ficando assim teu louvor mais aceito de Deus? Escuta o que digo. Se ao menos uma fagulha do amor divino já se acendeu em ti, não a mostres logo, não a exponhas ao vento! Mantém encoberta a lâmpada, para não se esfriar e perder o calor; isto é, foge, tanto quanto possível, das distrações; fica recolhido junto de Deus, evita as conversas vãs.

Tua missão é pregar e ensinar? Estuda e entrega-te ao necessário para bem exerceres este encargo. Faze, primeiro, por pregar com a vida e o comportamento. Não aconteça que, vendo-te dizer uma coisa e fazer outra, zombem de tuas palavras, abanando a cabeça.

Exerces cura de almas? Não negligencies por isso o cuidado de ti mesmo, nem dês com tanta liberalidade aos outros que nada sobre para ti. Com efeito, é preciso te lembrares das almas que diriges, sem que isto te faça esquecer da tua.

Entendei, irmãos, nada mais necessário aos eclesiásticos do que a oração mental que precede, acompanha e segue todos os nossos atos: Salmodiarei, diz o Profeta, e entenderei (cf. Sl 100,1 Vulg.). Se administras os sacramentos, ó irmão, medita no que fazes; se celebras a missa, medita no que ofereces; se salmodias no coro, medita a quem e no que falas; se diriges as almas, medita no sangue que as lavou e, assim, tudo o que é vosso se faça na caridade (1Cor 16,14). Deste modo, as dificuldades que encontramos todos os dias, inúmeras e necessárias (para isto estamos aqui), serão vencidas com facilidade. Teremos, assim, a força de gerar Cristo em nós e nos outros.

-- Do Sermão proferido no último sínodo por São Carlos Borromeu, bispo (século XVI)

29 de mar. de 2011

Oração, Jejum e Misericórdia

Há três coisas, meus irmãos, três coisas que mantêm a fé, dão firmeza à devoção e perseverança à virtude. São elas a oração, o jejum e a misericórdia. O que a oração pede, o jejum alcança e a misericórdia recebe. Oração, misericórdia, jejum: três coisas que são uma só e se vivificam reciprocamente.
São Pedro Crisólogo (406-451) foi Bispo
de Ravena. Proclamado Doutor da Igreja
pelo Papa Bento XIII em 1729.

O jejum é a alma da oração e a misericórdia dá vida ao jejum. Ninguém queira separar estas três coisas, pois são inseparáveis. Quem pratica somente uma delas ou não pratica todas simultaneamente, é como se nada fizesse. Por conseguinte, quem ora também jejue; e quem jejua, pratique a misericórdia. Quem deseja ser atendido nas suas orações, atenda as súplicas de quem lhe pede; pois aquele que não fecha seus ouvidos às súplicas alheias, abre os ouvidos de Deus às suas próprias súplicas.

Quem jejua, pense no sentido do jejum; seja sensível à fome dos outros quem deseja que Deus seja sensível à sua; seja misericordioso quem espera alcançar misericórdia; quem pede compaixão, também se compadeça; quem quer ser ajudado, ajude os outros. Muito mal suplica quem nega aos outros aquilo que pede para si.

Homem, sê para ti mesmo a medida da misericórdia;deste modo alcançarás misericórdia como quiseres, quanto quiseres e com a rapidez que quiseres; basta que te compadeças dos outros com generosidade e presteza.

Peçamos, portanto, destas três virtudes – oração,jejum, misericórdia – uma única força mediadora junto de Deus em nosso favor; sejam para nós uma única defesa, uma única oração sob três formas distintas.

Reconquistemos pelo jejum o que perdemos por não saber apreciá-lo; imolemos nossas almas pelo jejum, pois nada melhor podemos oferecer a Deus como ensina o Profeta: Sacrifício agradável a Deus é um espírito penitente; Deus não despreza um coração arrependido e humilhado (cf. Sl 50,19).

Homem, oferece a Deus a tua alma, oferece a oblação do jejum, para que seja uma oferenda pura, um sacrifício santo, uma vítima viva que ao mesmo tempo permanece em ti e é oferecida a Deus. Quem não dá isto a Deus não tem desculpa, porque todos podem se oferecer a si mesmos.

Mas, para que esta oferta seja aceita por Deus, a misericórdia deve acompanhá-la; o jejum só dá frutos se for regado pela misericórdia, pois a aridez da misericórdia faz secar o jejum. O que a chuva é para a terra, é a misericórdia para o jejum. Por mais que cultive o coração, purifique o corpo, extirpe os maus costumes e semeie as virtudes, o que jejua não colherá frutos se não abrir as torrentes da misericórdia.

Tu que jejuas, não esqueças que fica em jejum o teu campo se jejua a tua misericórdia; pelo contrário, a liberalidade da tua misericórdia encherá de bens os teus celeiros. Portanto, ó homem, para que não venhas a perder por ter guardado para ti, distribui aos outros para que venhas a recolher; dá a ti mesmo, dando aos pobres, porque o que deixares de dar aos outros, também tu não o possuirás.

-- Dos Sermões de São Pedro Crisólogo, bispo (século IV)


12 de fev. de 2011

O Sacramento da Extrema Unção - parte 4

O sentido do toque é o próximo, dos cinco sentidos é mais vivo e carnal, pelo qual muitos pecados entram na própria alma e na de outras pessoas. Sobre os pecados da carne, São Paulo fala: Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, ... (Gl 5,19). Por estas três palavras o apóstolo inclui todos os tipos de impurezas. Nem há necessidade de aprofundar-se sobre o tamanho destes pecados, dos quais os fiéis devem se manter distantes e cujos nomes nem devem ser ouvidos entre eles. São Paulo assim escreveu na Epístola aos Efésios: Quanto à fornicação, à impureza, sob qualquer forma, ou à avareza, que disto nem se faça menção entre vós, como convém a santos (Ef 5,3).

De novo, contra estes crimes, o que segue parece-me ser excelentes remédios, e como tais, são remendados por médicos para curar seus pacientes. Primeiro, os doentes devem jejuar e se abster de carne ou vinho. Da mesma forma, todos devem fazer o mesmo com relação à luxúria, abster-se de comer e beber em excesso.

Assim o apóstolo aconselha Timóteo: Não continues a beber só água, mas toma também um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas freqüentes indisposições (1Tm 5,23). Ou seja, tome vinho para ajudar com os problemas de estômago, mas apenas moderamente para evitar bebedeiras, pois muito vinho é luxúria. Também, médicos receitam remédios amargos, fazem incisões, tirar sangue, e outros atos dolorosos por natureza. Os santos repetem os apóstolos: Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros (1Cor 9,27). Já os mais antigos eremitas e anacoretas mantinham uma vida oposta aos prazeres e deleites da carne, em jejuns e vigílias, deitando-se no chão, vestidos de sacos. Assim faziam para não acostumar o corpo às delicias e concupiciências da carne.

Jesus Cristo, o filho do carpinteiro


Menciono um exemplos entre muitos. São Jerônimo menciona ao narrar a vida de Santo Hilário, que este ao sentir-se tentado com pensamentos impuros, dizia para seu corpo: "não deixarei fortalecer-se, nem alimentar-se com milho, mas apenas com palha; te farei sentir fome e sede, carregar pesos, acostumar ao calor e frio, para que pense mais em simples alimentos e menos em prazeres". Para fortalecer o corpo, médicos indicam caminhadas, jogar bola ou qualquer atividade física semelhante. Para fortalecer a alma, mantê-la saudável, se desejamos salvar nossa alma, gastar mais tempo todos os dias meditando os mistérios da redenção ou outros assuntos piedosos. Se não conseguimos nos concentrar nestas meditações, podemos ler as Sagradas Escrituras, as vidas de santos ou outros livros semelhantes.

Em suma, um poderoso remédio contra as tentações da carne e todos os pecados da impureza, é afastar-se das fraquezas, pois ninguém é mais exposto a tais tentações que os desocupados, que passam o tempo a fofocar, observar outros de suas janelas ou conversando com seus amigos. Ao contrário, ninguém é mais livre de tais tentações que os trabalhadores que passam o dia em trabalhos braçais ou outras artes.

Para nosso exemplo, o Salvador nasceu em uma família pobre, que dependia do seu próprio trabalho para alimentar-se, e antes de começar sua missão, era chamado de filho do carpinteiro, a quem ele ajudava. De Cristo foi dito: Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria? (Mc 6,3) E posso acrescentar, que os trabalhadores podem se dar por satisfeitos uma vez que a sabedoria de Deus escolheu para Si, Sua mãe e Seu pai esta situação; não porque precisassem de tais remédios, mas para nos advertir sobre os perigos da ociosidade, se quisermos evitar muitos pecados.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)


-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português.

8 de fev. de 2011

O Sacramento da Extrema Unção - parte 3

O terceiro sentido é o olfato, do qual não há nada a ser dito, pois os odores possuem pouco poder para corromper a alma; e os odores das flores são inofensivos.

Eu agora chego ao quarto sentido, o sentido do paladar. Os pecados que entram na alma e a corrompem através desta porta, são dois grandes: glutonia e bebedeira, e todos os pecados que os seguem. Contra estes dois vícios, temos a admoestação de Nosso Senhor no Evangelho segundo São Lucas: Velai sobre vós mesmos, para que os vossos corações não se tornem pesados com o excesso do comer, com a embriaguez e com as preocupações da vida (Lc 21, 34). Outra admoestação é feita por São Paulo, na Epístola aos Romanos: Comportemo-nos honestamente, como em pleno dia: nada de orgias, nada de bebedeira (Rm 13,13). Estes dois pecados são listados nas Sagradas Escrituras junto com outros crimes graves, como menciona São Paulo: Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem,  idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos,  invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. Dessas coisas vos previno, como já vos preveni: os que as praticarem não herdarão o Reino de Deus! (Gl 5, 19-21)

Mas este não é a única punição para tais pecados: ele não apenas matam a alma, como também a tornam totalmente incapaz de contemplar os assuntos divinos. Isto nos ensina o Salvador; e São Basílio em seu sermão sobre o jejum utiliza duas comparações muito interessantes.

A primeira utiliza o Sol e seus efeitos: "Como aqueles vapores que podemos ver em pântanos e lugares úmidos, cobrem os céus com nuvens e não permitem os raios do Sol nos alcançarem, da mesma forma glutonaria e bebedeira, como a fumaça, obscurecem nossa razão e privam-nos dos raios da luz divina." A outra comparação baseia-se em abelhas e fumaça: "as abelhas são expulsas de suas colméias com fumaça, assim a sabedoria de Deus é expulsa por orgias e bebedeiras; e a sabedoria é como uma abelha em nossas alma, produzindo o mel da virtude, da graça e toda consolação divina."

Além do mais, bebedeiras prejudicam a saúde do corpo. Um doutor chamado Antífanes, profissional muito capacitado, afirmou, como Clemente de Alexandria nos informa em seu livro "Pedagogus", que a causa de quase todas as doenças era muita comida ou muita bebida. Por outro lado, São Basílio nos conta ter pensado que "abstinência" era sinônimo de saúde. E, no entanto, médicos recomendam aos pacientes se abster de carne e vinho para restaurar a saúde de um corpo.

Bebedeiras e orgias não apenas afetam a saúde da alma e do corpo, mas também nossos interesses domésticos: quantos homens ricos tornaram-se pobres, quantos mestres tornaram-se servos, e todos pelas bebedeiras! Este vício também priva muitos pobres de enriquecerem; pois aqueles que não se contentam em ser moderados com a comida e bebida, facilmente gastam todos seus bens com os próprios prazeres, pois nada resta para outras necessidades. Assim, as palavras do Apóstolo se cumprem: enquanto uns têm fome, outros se fartam (1Cor 11,21).

Agora mencionarei alguns remédios. O exemplo dos santos nos serve como um remédio contra estes pecados. Omito eremitas e monges que São Jerônimo menciona em sua Carta para Eustóquio: ele conta que qualquer coisa "cozida" era considerada luxúria. Eu não vou alongar-me em Santo Ambrósio que, segundo contado por seus contemporâneos, jejuava todos os dias exceto Domingos e festas solenes. Não vou falar de Santo Agostinho, que usava apenas ervas e legumes para alimentar-se, e tinha refeições somente com estrangeiros e convidados. Mas se atentamente considerarmos como o Senhor de todas as coisas agiu em relação a si mesmo, como no deserto alimentou uma multidão com muito pouco, deveríamos, sem dúvida, termos sobriedade.

Deus, o todo-poderoso, o mais sábio, o mais generoso, que podia e desejava oferecer o melhor para seu amado povo, por quarenta anos os alimentou somente com maná e água de uma rocha. Maná era uma comida não muito diferente de farinha misturada com mel, com relata o livro do êxodo. Prestemos atenção em como Deus alimentou seu povo: sua comida, bolo; sua bebida, água; e eles continauram com boa saúde, até ele clamarem por carne.
Mosaico na Igreja da Multiplicação dos Pães, localizada
nas proximidades do local em que o milagre foi realizado,
em Tabga, ao norte do Mar da Galiléia.

Cristo Jesus, o Filho de Deus, seguiu o exemplo de seu Pai, no qual estão todos os tesouros de sabedoria e conhecimento, quando alimentou milhares do seu povo, colocou a frente deles somente alguns pães e peixes, além de água para beber. E não apenas quando nosso Salvador estava conosco, mas também após a sua Ressurreição, quando encontrou seus discípulos a beira-mar, dividiu com eles pão e peixe, de maneira muito frugal.

Quão diferentes são as maneiras de Deus das maneiras dos homens. O Rei dos Céus rejubila na simplicidade e sobriedade, é solícito para alimentar, enriquecer e animar a alma. Mas os homens preferem a concupiciência do inimigo de Deus. Assim, podemos dizer com o apóstolo, que o deus do homem carnal é sua barriga.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)



-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português. O texto em inglês está disponível aqui.

-- como o capítulo é bastante longo, e a tradução demanda tempo, publiquei esta segunda parte enquanto trabalho no restante do texto.

22 de nov. de 2010

Qual a obra, tal o ganho

O Senhor diz: Se vossa justiça não superar de muito a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus (Mt 5,20). Como será superior à deles, a não ser que a misericórdia esteja acima da condenação? (cf. Tg 2,13). E que de mais justo, de mais digno do que a criatura, feita à imagem e semelhança de Deus, imitar seu criador? A ele que decidiu a renovação e santificação dos fiéis pela remissão dos pecados para que, afastado o rigor do castigo e acabada a pena, recupere o réu a inocência, e o fim dos crimes seja a origem das virtudes?

Não é pela rejeição da lei que a justiça cristã pode superar a dos escribas e fariseus, mas recusando sua compreensão carnal. Por exemplo, o Senhor deu aos discípulos a regra do jejum. Quando jejuardes, não fiqueis tristes como os hipócritas. Ficam com o rosto abatido para mostrar aos homens que estão jejuando. Na verdade, eu vos digo: já receberam sua recompensa (Mt 6,16). Que recompensa? Não é o elogio dos outros? Por causa desta ambição, muitos ostentam a aparência da justiça: cobiça-se a ilusão da fama, de modo que a iniquidade, conhecida ocultamente, se alegre com a boa opinião enganadora.

Aqueles que têm gosto pelas coisas do alto e não terrenas não se preocupam com as perecíveis mas com as eternas, possuem encerradas em si riquezas incorruptíveis, das que disse o Profeta: Chegaram nosso tesouro e salvação, sabedoria, disciplina e piedade da parte do Senhor; são estes os tesouros da justiça (Is 33,6 Vul g.) pelos quais, com o auxílio de Deus, até os bens da terra serão transferidos para os céus. De fato, são muitos que usam como meios de misericórdia as riquezas recebidas de outros pelo direito ou adquiridas de outro modo. Distribuindo para sustento dos pobres aquilo que lhes sobra, ajuntam para si riquezas que não podem ser perdidas; o que reservaram para esmolas não está sujeito a nenhuma perda. Com justiça, então, eles mantêm seu coração onde está seu tesouro; porque a maior felicidade consiste em trabalhar para que cresçam estas riquezas, sem temor de perdê-las.

Dos Sermões de São Leão Magno, papa (século V)

20 de nov. de 2010

O Modo de Jejuar

Agora explicarei brevemente a maneira pela qual devemos jejuar, para que nosso jejum seja proveitoso e útil, nos conduza à uma vida justa, e, por conseqüência, à uma morte justa. Muitos jejuam em todos os dias indicados pela Igreja: nas vigílias, dias de semana e durante a Quaresma. Alguns jejuam também durante o Advento, prepararando-se piedosamente para a Natividade de Nosso Senhor; ou nas sextas-feiras, em memória da paixão de Cristo; ou aos sábados, em honra a Nossa Senhora Virgem Mãe de Deus. Mas, qualquer que seja o motivo, é questionável se estão aproveitando bem as vantagens do jejum. O principal objetivo do jejum é a mortificação da carne e que o espírito seja fortalecido. Com este propósito, devemos nos restringir apenas à dietas não prazerosas. Assim nossa mãe a Igreja nos orienta a termos apenas uma refeição completa por dia, e sem comer carnes vermelhas ou brancas e partir apenas ervas ou frutas.

Cristo no Deserto. 
Pintura de Moretto da Brescia, (Metropolitam
Museum of Art/NY)
Tertuliano assim qualifica em duas palavras, no seu livro "A Ressureição da Carne", quando chama o limento daqueles que jejuam como "refeições tardias e secas". Há aqueles que certamente não observam estes preceitos, que nos dias de jejum comem em apenas uma refeição tudo que comeriam durante num dia normal, que almoçam e jantam ao mesmo tempo, que para apenas uma refeição preparam tantos pratos de diferentes peixes e outras coisas agradáveis, que não parece algo para piedosos jejuadores, mas um banquete nupcial que continua através da noite. Estes que assim jejuam, certamente não aproveitam os benefícios do jejum.

Também não obtém os frutos de um jejum piedoso quem, apesar de comer moderadamente, nos dias de jejum não se abstem de jogos, festas, disputas, discussões, músicas lascivas, e atitudes imoderadas; ou ainda pior, cometem crimes como se fossem dias comuns. Escutem o que diz o profeta Isaias sobre este tipo de pessoas: De que serve jejuar, se com isso não vos importais? E mortificar-nos, se nisso não prestais atenção? É que no dia de vosso jejum, só cuidais de vossos negócios, e oprimis todos os vossos operários. Passais vosso jejum em disputas e altercações, ferindo com o punho o pobre. Não é jejuando assim que fareis chegar lá em cima vossa voz. (Is 58, 3-4) Então o Todo-Poderoso corrige o povo, porque nos dias de jejum, preferem fazer a sua vontade e não a vontade de Deus; por que não perdoam seus devedores, como rezam para serem perdoados por Deus; não são capazes nem de esperar para cobrar seu dinheiro. Também passam o tempo que deveria ser utilizado em orações ocupados em disputas e discussões. Assim agindo, ao invés de ocuparem o dia atendendo coisas espirituais, como deve-se fazer em dias de jejum, eles estão somando pecados novos aos pecados anteriores, atacando ao próximo.

Estes e outros pecados devem ser evitados por pessoas piedosas, que desejam que seu jejum agrade a Deus e seja útil para si mesmo. Estes poderão ter esperança em uma vida justa e em um dia, morrer de maneira santa.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)

15 de nov. de 2010

A importância do jejum

Seguindo a ordem dada pelo anjo, agora falaremos sobre o jejum. Nossa intenção é explicar a arte de viver justamente, porque nos preparará para morrermos justamente. Para jejuar de maneira correta, três coisas são suficientes, assim como escrevemos sobre a oração: a necessidade, os frutos e um método apropriado.
 
A necessidade de jejuar é dupla, derivada da lei humana e divina. Da divina, nos fala o profeta Joel: Por isso, agora ainda - oráculo do Senhor -, voltai a mim de todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto (Jl 2,12). A mesma linguagem utiliza o profeta Jonas, que testemunha sobre os ninivitas, que para acalmar a ira de Deus, proclama um jejum; e, no entanto, na época não havia nada dito sobre jejum na lei. Da mesma forma aprendemos das palavras de Nosso Senhor: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á. (Mt 6,17-18).
Profeta Jonas, ícone da Igreja Ortodoxa
Russa, pintado no século XVI (Monastério
de Khizi, Karelia, Russia)
Podemos acrescentar as palavras de um dos santos padres, Santo Agostinho, que fala: "nos Evangelhos e epístolas, ao longo de todo Novo Testamento, eu vejo o jejum como um preceito. Mas em certos dias nos é dito para não jejuarmos; e os dias em que devemos jejuar não está definido pelo Senhor ou apóstolos." São Leão (Papa Leão I) diz em seu sermão sobre o jejum: "aquilo que era figura das coisas futuras foram deixadas, uma vez que o seu significado foi realizado. Mas a utilidade de jejuar não passou com o Novo Testamento; deve ser piedosamente observado, pois o jejum é sempre lucro para a alma e o corpo". As palavras "Adorarás o Senhor teu Deus e a ele só servirás" (Lc 4,8) foram dadas aos primeiros cristãos. São Leão não quer dizer que os cristãos devem jejuar da mesma maneira que os judeus estavam acostumados. Mas, que o preceito dado aos judeus deve ser observado também pelos cristãos seguindo a determinação dos pastores da igreja quanto ao tempo e maneira.
 
Os frutos e as vantagens do jejum são facilmente provadas. Primeiro, é útil porque ajuda a preparar a alma para a oração e contemplação das coisas divinas, com disse o anjo Rafael: a oração é boa com jejum. Moisés por quarenta dias preparou sua alma jejuando, antes de falar com Deus; Elias jejuou por quarenta dias, com o objetivo de estar pronto, tanto quanto permite as limitações humanas, para conversar com Deus; e Daniel, por um jejum de três semanas, estava preparado para receber as revelações de Deus. A Igreja definiu jejuns nas vigílias de grandes festividades, para que os cristãos estejam prontos ao celebrar as solenidades divinas. Os santos padres falam desta utilidade do jejum. Não posso deixar de citar São João Crisóstomo: o Jejum é um suporte para a alma, nos dá asas para subir aos céus e apreciar as mais altas contemplações.
 
Outra vantagem do jejum é que sacrifica a carne; e tal jejum é particularmente agradável a Deus, pois a Ele agrada quando crucificamos a carne, com seus vícios e concupicências, como São Paulo nos ensina na Epístola aos Gálatas e diz sobre si mesmo: Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros (1Co 9,27). De maneira semelhante falam Teófilo, São Ambrósio, São Cipriano, São Basílio, São Jerônimo e Santo Agostinho. E nos ofício das orações, a Igreja canta: "Carnis terat superbiam potûs cibique Parcitas." (Moderação na bebida e comida sacrificam o orgulho da carne).
 
Outra vantagem é que honramos Deus em nossos jejuns, porque quando jejuamos em sua intenção, nos o honramos. Assim fala o apóstolo Paulo na Epístola aos Romanos: Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual (Rm 12,1). Deste culto espiritual, São Lucas fala quando menciona a profetisa Ana: Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações (Lc 2,37). O grande Concílio de Nicéia no V Canon, pede jejum durante a Quaresma, como um presente solene oferecido pela Igreja para Deus. Da mesma maneira escreve Tertuliano no seu livro "Ressureição da Carne", onde ele chama alimentos secos e já sem sabor tomados tardiamente como sendo sacrifícios agradáveis a Deus; e São Leão I, no segundo sermão sobre o jejum fala que para seguramente receber todo os frutos do jejum, o sacrifício de abstinência é mais valioso quando oferecido para Deus, aquele que nos dá tudo que precisamos.
 
A quarta vantagem do jejum é ser realizado como penitência por um pecado. Muitos exemplos na Sagradas Escrituras provam este ponto. Os ninivitas agradaram a Deus pelo jejum, como testifica Jonas. Os judeus fizeram o mesmo, jejuando com Samuel ganharam a vitória sobre os inimigos. O ímpio rei Acab, jejuando e vestindo roupa de sacos, satisfez parcialmente a Deus. Nos tempos de Judite e Ester, os judeus obtiveram misericórdia de Deus por nenhum outro sacrifício além de jejuns, choros e lutos.
 
Por fim, jejuar é meritório e muito poderoso para obter favores divinos. Ana, embora já com o ventre seco, mereceu por jejuns ter um filho. São Jerônimo interpreta assim esta passagem: ela chorou e não tomou alimentos e então Ana, por sua abstinência, mereceu dar à luz um filho. Sara, por um jejum de três dias, libertou-se de um demônio, como podemos ler no livro de Tobias. Mas também há uma passagem importante no Evangelho de São Mateus: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mt 6,17-18).
 
As palavras "recompensar-te-á" indica que dará um prêmio; em oposição a outra palavra: Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa (Mt 6,16). Pois os hipócritas ao jejuarem, recebem seu prêmio, ou seja, a admiração humana; os justos também recebem seu prêmio, o reconhecimento divino.
 
-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)
-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português. O texto em inglês está disponível aqui.

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