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27 de mai. de 2024

Santa Dinfna, padroeira dos doentes mentais, mártir

Santa Dinfna nasceu na Irlanda, século sexto ou sétimo, era filha de um rei local, que era pagão, e sua rainha, que era cristã. A rainha morreu quando Dinfna era ainda criança, mas providenciou que a filha fosse batizada e fosse orientada por um padre. 

O Martírio de Santa Dimfna e São Gerebernus, pintura atribuída a Jacques de l'Ange

O rei decidiu procurar uma segunda espoda, que lhe desse um filho para seru sucessor, e enviou mensageiros por todo reino com ordens de encontrar uma moça virgem que fosse tão bonita quando a mãe de Dinfna, a qual ele amara muitíssimo, porém, os mensageiros não encontraram nenhuma moça que lhe agradasse. Com os passar dos anos, Dinfna tornou-se uma moça muito bonita e o rei decidiu que iria com a própria filha, mas ela já havia decidido que iria preservar a sua virgindade e dedicar-se à caridade.

Ao saber das intenções de seu pai, Dinfna fugiu com o seu confessor, Padre Gerebernus e auxiliares para o continente europeu. Instalou-se na cidade de Geel, próximo a uma capela dedicada a São Martinho de Tours, e lá passava o dia em oração. Após certo tempo decidiu construir um hospital para os doentes, usando a fortuna que havia trazido consigo.

Ao saber que suas moedas estavam sendo negociadas na Bélgica,  o rei logo entendeu que sua filha estava lá, organizou uma expedição, e foi buscá-la para forçar o casamento. Chegando em Geel, primeiro o rei mandou decapitar o Padre Gerebernus e outros servos que haviam ajudado na fuga. Dinfna suplicou pela vida deles, mas em vão. Enfim, ela era a única que restava viva, mas resistiu e declarou que jamais se casaria, que sua virgindade pertencia a Deus, e preferia morrer a cometer o pecado de incesto. O pai enfurecido tomou da sua própria espada e decapitou a filha que tinha apenas 15 anos.

Após o rei tomar rumo de volta à Irlanda, os habitantes de Geel enterraram os corpos de Dinfna e Padre Gerebernus em uma caverna próxima a cidade. Aos poucos surgiram relatos de milagres de cura de doentes mentais que perdido o rumo e, de alguma forma, haviam passado pela caverna. Desta maneira, a cidade começou a ser conhecida como um local de peregrinação para os doentes mentais, algo que persiste até os dias atuais.  Em 1349 uma igreja foi construída em honra à Dinfna, como muitos peregrinos vinham em busca de cura, a igreja foi expandida em 1480. A igreja original incendiou e uma nova foi construída em 1538, que existe até hoje.

Em 2004, o Martirológico Romano foi revisado e a festa de Santa Dinfna e São Gerebernus foi definida como 30 de Maio, segundo a tradição, dia do seu martírio. Santa Dinfna é padroeira das pessoas que sofrem transtornos mentais e neurológicos, bem como dos profissionais que tratam estes pacientes. 

Oração

Deus eterno e todo-poderoso, que escolheirs as criaturas mais frágeis para confundir os poderosos, dai-nos, ao celebrar o martírio de Santa Dinfna, a graça de imitar sua constância na fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!


29 de jul. de 2021

Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa

 


As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo nos advertem que, em meio à multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.

Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta o recebeu como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e, nesta condição, ser alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado. Pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.

Portanto, o Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e os fez irmãos; remiu os cativos e os fez co-herdeiros. Que ninguém dentre vós ouse dizer: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa! Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou: Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).

Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? encontrarás um faminto para repartires com ele o pão? um sedento para dares de beber? um doente para visitar? um desunido para reconciliar? um morto para sepultar? Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu: lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui: daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Queres realmente saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos: Em verdade eu vos digo: ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).

 -- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

-- A Memória de Santa Marta é celebrada em 29 de Julho 

27 de abr. de 2019

Duas poesias sobre a Cruz

Santa Teresa de Ávila nasceu em uma família nobre, mas preferiu abandonar  mundo e tornar-se irmã carmelita. Tinha visões de Cristo e outras experiências místicas, escreveu livros e poesias, como superiora da Ordem das Carmelitas, restabeleceu as regras de pobreza, e pela qualidade de seus escritos, hoje é uma poucas doutoras da Igreja. Para ela, Cristo é o Amado, e a Igreja é a sua Esposa.

A Cruz

Gostosa quietação da minha vida,
seja bem-vinda, cruz querida.
Ó bandeira que amparaste
o fraco e o fizeste forte!
Ó vida da nossa morte,
quão bem a ressuscitaste!
O Leão de Judá domaste,
pois por ti perdeu a vida.

Seja bem-vinda, cruz querida.
Quem não te ama vive atado,
e da liberdade alheio;
quem te abraça sem receio
não toma caminho errado.

Oh! ditoso o teu reinado,
onde o mal não tem cabida!
Seja bem-vinda, cruz querida.
Do cativeiro do inferno,
ó cruz, foste a liberdade;
aos males da humanidade
deste o remédio mais terno.

Deu-nos, por ti, Deus Eterno
alegria sem medida.
Seja bem-vinda, cruz querida.


Na Cruz está a Vida

Na cruz está a vida e o consolo,
e ela somente é o caminho para o céu.

Na cruz está o Senhor dos céus e da terra,
e o gozar de muita paz, ainda que haja guerra.
Todos os males são vencidos neste solo
e ela somente é o caminho para o céu.

Esta cruz, diz a Esposa para o seu Amado,
é uma árvore preciosa que se elevou,
e seu fruto é conhecido por Deus,
e ela somente é o caminho para o céu.

És uma oliveira preciosa, santa cruz,
cujo azeite é abundante e nos dá luz.
Alma minha, toma a cruz com grande consolo,
pois ela somente é o caminho para o céu.

A cruz é a arvore verde mais desejada pela Esposa,
que a sua sombra sentou para se alegrar com seu Amado,
o Rei dos céus,
e ela somente é o caminho para o céu.

Para a alma que se deixa levar por Deus,
e que verdadeiramente abandonou o mundo,
a cruz é a árvore da vida,
é um caminho alegre para o céu.

Depois que colocou na cruz o Salvador,
na cruz está a glória e a honra,
e no padecer todas as dores, vida e consolo,
e ela somente é o caminho para o céu.

-- Do livro Obras Completas, de Santa Teresa de Avila (século XVI)

25 de nov. de 2014

Beata Maria dos Anjos


Maria Fontanella, aos seis anos, combinou com seu irmão que no meio da noite fugiriam para o deserto onde viveriam a vida dos monges. Mas, obviamente, o plano não deu certo. Aos 12 anos juntou-se às Irmãs Cisterciences, mas retornou logo para casa quando seu pai faleceu. Enfim aos 14 anos entrou para o Convento das Irmãs Carmelitas. Nos primeiros tempos teve dificuldades para adaptar-se à rotina e seguir as orientações para noviças. Mas com perseverança, acabou professando os votos alguns depois.

Então veio um julgamento ainda mais sério. Maria começou a ter visões, ser atacada por espíritos diabólicos e duvidar da fé. Neste período praticou penitências extremas, muito além do comum mesmo para a época. A mais conhecida penitência foi amarrar-se em uma cruz. Guiada por conselheiro espiritual, após três anos emergiu desta noite escura com um profundo senso de oração e piedade.

 
Faleceu de causas naturais em 16 de Dezembro de 1717; foi beatificada em 1865 pelo Papa Pio IX. 

O texto a seguir foi dado às irmãs do Convento como preparação para o Natal:

A pureza é uma qualidade tão aprazível à Deus que seu Divino Filho tendo tornado-se homem pela graça do Espírito Santo nasceu de uma pura virgem. Todos nós sabemos com que abundância de graças e extraordinária pureza Deus adornou corpo e alma de Maria. Então a fez merecedora da Palavra que se tornou corpo em seu ventre. Portanto se queremos que o Imaculado Deus nasça em nossa alma, devemos buscar a pureza nas nossas consciências. A maneira correta de atingir este objetivo é banir de nossos corações até a menor das faltas e cultivar todas as virtudes.

Quão grande é a tua bondade, meu Jesus! Embora eu tenha te ofendido tão profundamente, ainda queres te revestir de um corpo humano para me libertar de todos meus pecados e perdoá-los. Imaginei que  um dia iria encontrar um Deus sentado no centro do tribunal acusando-me de todas as minhas faltas. Ao contrário, encontro o Filho de Maria, salvador dos meus pecados, o Cordeiro de Deus! Quão eficaz é a doçura do teu coração para afastar a dureza do meu. Eu detesto meus pecados com todas as minhas forças por que eles se opõem à tua infinita bondade. Imprima no meu coração tal arrependimento que eu prefira morrer a ofender-te novamente. 

-- Autoria e tradução própria.

8 de jun. de 2014

Santa Maria da Cruz, morte e canonização

As Irmãs de São José expandiram-se pela Australia e outros países. O legado de Maria da Cruz começava a sedimentar com tantas vidas que tocadas pelo seu trabalho.

Ao longo da décade 1880, a Ordem inaugurou escolas por todo país e Nova Zelândia. Em 1891 já eram 300 irmãs trabalhando em nove dioceses dos dois países. Enquanto visita irmãs na Nova Zelândia, em 1898, Irmã Bernard, ainda superiora da Ordem, faleceu. De acordo com os estatutos, Maria da Cruz deveria convocar imediatamente um capítulo da Ordem para eleger a nova superiora. 

No capítulo, Maria da Cruz foi escolhida. Sua principal preocupação nesta época era com a formação espiritual e professional das irmãs. Em 1900 foram inaugurados dois noviciados, em Adelaide e Sidnei. A Escola na qual as irmãs ganhavam prática como professoras, ao Norte de Sidnei, ainda hoje existe, sendo parte da Universidade Católica Australiana. 

Também em 1900, as irmãs de Queensland, que haviam se separado por instigação do Bispo local, retornaram à Ordem. O novo Bispo Higgins não apenas incentivou como reabriu a diocese para o trabalho das irmãs. Também foi incorporado o Instituto da Irmãs de Wilcannia.  

Em 1903, foi aprovado o voto feminino no país. Irmã Maria da Cruz escreveu para as irmãs incentivando que se alistassem e procurassem atentamente escolher candidatos de acordo com os ensinamentos da Igreja. 

A saúde de Maria da Cruz começou a deteriorar-se. Em 1901 foi aconselhada a ir descansar nas águas termais em Roturoa, Nova Zelândia. Enquanto estava lá, teve um derrame que deixou seu lado esquerdo paralisado. Após retornar para a Austrália, Maria procurou manter um rotina de visitas às escolas e orfanatos próximos a Sidnei, além de escrever muitas cartas para as diversas casas. Mesmo com sua saúde frágil, foi reeleita pela Ordem em 1905, embora as tarefas administrativas diárias já estivessem sob responsabilidade da Irmã La Merci. 

Em 19 de Março de 1909, Maria da Cruz faleceu. Cardeal Moran assim escreveu: Acredito que hoje assisti à morte de uma santa. A Ordem já tinha mais de 750 irmãs, 106 casas, 117 escolas, 12.409 alunos além de 12 orfanatos.
Entrada do Santuário em Sidney.

Santa Maria da Cruz foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em 19 de Janeiro de 1995, durante uma visita a Sidnei; e canonizada pelo Papa Bento XVI, em 17 de Outubro de 2010. Sua memória é celebrada em 8 de Agosto; e o principal santuário encontra-se em North Sydney.  

O Papa Bento XVI, assim referiu-se a ela: "Recordai-vos quem foram os vossos mestres, pois deles podeis aprender a sabedoria que conduz à salvação através da fé em Jesus Cristo". Durante muitos anos, inúmeros jovens em toda a Austrália foram abençoados com mestres que inspiraram no corajoso e santo exemplo de zelo, perseverança e oração de Madre Mary McKillop. Quando era jovem, ela dedicou-se à educação dos pobres, no difícil e exigente campo rural da Austrália, inspirando outras mulheres a agregarem-se a ela na primeira Comunidade religiosa feminina nesse país. Ela atendia às necessidades de cada pessoa que lhe era confiada, sem ter em consideração as condições ou a riqueza, oferecendo-lhe uma formação intelectual e espiritual. Apesar dos numerosos desafios, as suas preces a São José e a sua devoção inabalável ao Sagrado Coração de Jesus, a Quem dedicou a sua nova congregação, infundiram nesta santa mulher as graças necessárias para permanecer fiel a Deus e à Igreja. Através da sua intercessão, que hoje os seus seguidores possam continuar a servir a Deus e a Igreja com fé e humildade!

* Assim encerro a biografia de Santa Maria da Cruz, que foi publicada em 4 partes:

O início da vida de Santa Maria da Cruz
Maria da Cruz, o crescimento da escola e da ordem
Maria da Cruz, os desafios de uma nova Congregação

-- autoria própria

4 de jun. de 2014

Maria da Cruz, os desafios de uma nova Congregação

A confiança de Maria na Providência Divina permitiu-a enfrentar desafios tanto na sua ordem, na Igreja Católica, como a perda de familiares.

O trabalho das irmãs começava a dar frutos pois o estilo de vida religiosa era bastante adequado para o país. Normalmente elas andavam em par ou trio, uam suportando a outra. Alguns, no entanto, estranhavam que as irmãs saíam mendigando pelas ruas. Além disso, o trabalho de Padre Woods nas escolas de Adelaide começava a ser questionado. 

Os problemas em Adelaide, que obrigaram Maria da Cruz a retornar para Adelaide, tornaram-se públicos. O Bispo resolveu organizar uma comissão para investigar a vida das irmãs. Após muitas entrevistas, foi recomendado alterar a regra da Ordem para colocar cada convento sob a autoridade de um padre local, entre outras idéias. 

Percebendo que tais mudanças iriam contra o espírito da Ordem, Maria escreveu para o Bispo explicando a situação. O Bispo sentindo-se afrontado, resolveu excomungá-la em 22 de Setembro de 1871. Após mais negociações e depois de prometer obediência, o Bispo retirou a excomunhão cinco meses após. Ficou acertado que Maria da Cruz deveria viajar a Roma para pedir a aprovação da Ordem e sua Regra.

Em Roma, Monsenhor Kirby, então reitor do Colégio Irlandês, tornou-se o grande apoio da sua causa. Após encaminhar cartas pedindo a aprovação da Ordem e contando sua experiência pessoa, teve um encontro pessoal com o Papa Pio IX, que já sabia de muitos detalhes, incluindo a excomunhão. 

O Vaticano pediu que permanecesse na Europa até que tudo fosse analisado. Ela aproveitou para peregrinar a Paray-le-Monial, onde Margaret Alacoque teve suas visões do Sagrado Coração de Jesus, conhecer seus familiares longíquos na Escócia e visitar escolas por vários países, além de convidar muitas meninas a entrarem na Ordem. Após mais de um ano na Europa, a Ordem foi aprovada e, em 31 de Outubro de 1874, embarcou acompanhada de 15 postulantes em direção a Austrália.

Ao chegar, em Março de 1875, foi realizado o Primeiro Capítulo da Congregação. Após discutirem detalhadamente a nova Constituição, as irmãs aprovaram a nova Regra e elegeram Maria da Cruz como Superiora Geral. 

Bispo Quinn, de Queensland, ao saber das novidades, escreveu para Maria informando que não gostaria que as irmãs de sua Diocese estivessem sob uma autoridade central, que não fosse ele. Maria viajou até Adelaide para conversar com o Bispo, mas ele mantevesse irredutível e começou a substituir as irmãs por professores profissionais. Sem alternativas, Maria da Cruz transferiu-as para outras dioceses. Ao final de 1880, todas já haviam saído da Diocese.

Nesta mesma época, o Bispo de Bathurst, Matthew Quinn, irmão do Bispo de Queensland, também resolveu requerer que as irmãs estivessem sob sua autoridade. A provincial da Ordem na região, Irmã Teresa McDonald faleceu e o Bispo não aceitou a nomeação de uma nova provincial. Maria tentou negociar com o Bispo, mas o Conselho da Ordem decidiu não aceitar nenhum compromisso. As irmãs seriam transferidas para outro lugar, mas algumas foram convencidas pelo Bispo a permanecer, especialmente as noviças e postulantes.

Em 1883, Arcebispo Moran chegou a Diocese de Sidney. Ao ver que o número de pedidos para novas escolas era grande e conhecer o trabalho da Ordem, passou a apoia-la de maneira decisiva. A pedido de Roma, investigou os problemas com os vários bispos e escreveu um relatório amplamente favorável. O Vaticano renovou a aprovação da Ordem, mas requisitou que uma nova superiora fosse eleita, pois Maria da Cruz seria pessoalmente investigada. Assim, Irmã Bernard Walsh foi eleita.

Enquanto estas questões eram resolvidas, em 30 de Maio de 1886, a mãe de Maria morreu quando o navio em que viajava afundou. 

Em 15 de Julho de 1888, Papa Leão XIII definiu a Ordem como uma Congregação, cuja sede principal seria Sidney, e Irmã Bernard sua superiora por dez anos.

-- autoria própria

31 de mai. de 2014

Maria da Cruz, o crescimento da escola e da ordem

O desejo de Mary pela vida religiosa com sua resposta às necessidades das crianças pobres de Penola resultou na fundação de uma nova forma de vida religiosa.

A escola em Pinola foi aberta com a idéia de educar a todas crianças, sem distinção, tanto os que poderiam pagar quanto os que não poderiam, algo inovador na época. Era o início de um modelo de educação católica inédito na Austrália. Certa vez o governador
solicitou que seu neto fosse aluno da escola, mas exigiu uma separação dos alunos pobres. Mary não concordou, todas as criannças são filhos de Deus e recebiam o mesmo tratamento e importância. O menino jamais estudou na escola.

Os primeiros 33 alunos tiveram oportunidade de aprender a ler, escrever e matemática, sempre pensando em aplicações práticas. Por exemplo, a escrever a lista de compras e calcular o preço a pagar. Isto acompanhado de orações e cantos religiosos.

Após estabelecer a escola, Mary declarou sua intenção de servir a Deus. Em de 15 de Agosto de 1867, na pequena capela na Grote Street, em Adelaide, Mary MacKillop declarou seus votos e tornou-se Maria da Cruz. Em uma carta para a mãe escreveu: "Quando saí de casa não poderia imaginar que teria a felicidade de ver minha profissão de fé aceita. Graças a bondade de Deus e gentileza do Padre Woods, foi permitido que entrasse na vida religiosa.".  Em outra carta, afirmou: "A Cruz é minha porção; é meu suave descanso e suporte". Nesta época, Padre Woods auxiliou-a muitíssimo como diretor espiritual.

Após uma reunião dos bispos da Austrália, ao tomar conhecimento da escola de Pinola,  o Bispo de Queensland James Quinn solicitou que as Irmãs de São José estabelecesse uma escola em Brisbane. Mas, ao chegarem an diocese, perseguições e fofocas políticas quase impediram a criação da escola. Foi um ano muito difícil, mas também em que, de acordo com a própria santa, ela pode amadurecer e fortalecer sua fé e organização da Ordem.

Em Agosto de 1871, a Ordem já tinha 120 irmãs, com uma idade média de apenas 23 anos, a Ordem era não apenas nova, mas tentando a inexperiência. No entanto já eram chamadas à várias dioceses do país. Irmã Mechtilde relata que algumas vezes eram insultadas devido ao voto de pobreza, passavam necessidades, mas, em geral, eram bem recebidas pelo povo. Nesta época, Maria da Cruz não apenas sabia o nome de cada irmã como escrevia regularmente a cada uma delas. 

Ao final do ano, uma crise ocorreu em Adelaide. Alertada por cartas do Padre Woods, retornou imediatamente a casa inicial da Ordem pois duas irmãs alegavam ter visões místicas e não auxiliavam nas tarefas diárias, além de contestarem abertamente as orientações do Padre Woods e os regulamentos da Ordem. O assunto já era do conhecimento de outros padres e obrigou Maria da Cruz a chamas as duas irmãos à obediência. Era apenas o início de vários desafios que viriam no futuro com o crescimento da Ordem e sua dispersão pelo país.



27 de mai. de 2014

O início da vida de Santa Maria da Cruz

O início difícil da vida de Santa Maria da Cruz (Mary MacKillop) até a criação de uma escola num estábulo em Penola, sua vida já demonstra o desejo de ajudar aos necessitados e seguir a vontade de Deus.

Seu pai, Alexander MacKillop nasceu em uma família católica nas Highlands da Escócia. Aoos 14 anos foi enviado para o Colégio Scots em Roma para prepara-se para o sacerdócio. Seus professores o descreviam como um excelente estudante e grande debatedor. Ela ficou por seis anos, quando teve que retornar a Escócia por questões de saúde. Recuperado, recomeçou os estudos em Aberdeen por mais dezessete meses. Quando estava próximo a ordenação, decidiu por outra vida e em Janeiro de 1838 embarcou no navio Brilliant rumo a Austrália. 

Flora MacDonald chegou na Austrália em Abril de 1849 a bordo do Glen Huntly, tendo partido da Escócia junto com sua mãe e irmão. Ao chegar, ficaram em quarentena devido a ameaças de febre tifóide. Ao chegarem, foram ajudados por Alexander, que já estave melhor adaptado ao país. Três meses após, Alexander e Flora casaram-se em 14 de Julho.  Em Abril de 1841,Alexander adquiriu uma pequena casa em Melbourne. Mary MacKillop, a primira de oito filhos, nasceu em 15 de Janeiro de 1842.

Sendo a mais velha, Mary logo assumiu a responsabilidade por muitas tarefas caseiras dentro de casa. 

O pai era mau negociante e colocava a familia em dificuldades financeiras, mas compensava largamente educando os filhos na fé e educação geral, pois não havia dinheiro para pagar escolas. Muitas casas foram adquiridas e perdidas durante a infância de Mary. Todos aprenderam a confiar na providência de Deus, uma experiência que carregou por toda vida. 

Aos 14 anos, Mary começou a trabalhar e, logo, tornou-se a principal provedora da casa, respondendo pelas necessidades da família. 

Quatro anos após, Mary mudou-se para a cidade de Penola, Sul da Austrália, para trabalhar como governanta dos seus tios, Alexander e Margaret Cameron. Sua principal atividade era educar as crianças.

Percebendo que os filhos de outros empregados e vizinhos também não tinham acesso à educação, começou a ensiná-los a ler e escrever, usando o Catecismo como texto principal. Logo seu trabalho chamou a atenção do Padre Julian Woods, pároca da igreja na cidade.

Padre Woods tornou-se seu diretor espiritual, com quem compartilhava seus ideias de educação para os pobres. Percebendo que com a chegada de imigrantes pobres, isto tornava-se um problema mais importante, ele também desejava fazer algo. 

Para iniciar, adaptou um estábulo para tornar-se a escola e convidou Mary e suas irmãs Annie e Lexie para serem as professoras.  Aos 24 anos, Mary tornava-se diretora de uma escola e começava a servir a Igreja.

Na Festa de São José, 1o. de Maio de 1866, Mary apareceu usando um vestido muito simples, todo preto. A todos ficou evidente a sua opção. Em 21 de Novembro, sua irmã Lexie também optou pelas vestes de uma postulante a vida religiosa.

Nesta mesma época, Padre Woods tornou-se secretário do Bispo de Adelaide e logo após, Diretor de Educação da Diocese, que abrangia o Sul da Austrália. Este trabalho afastou-o de Penola, mas permitiu que aprovasse a construção de uma escola adequada na cidade. 

Padre Woods e o Bispo, com a intenção de fundarem uma ordem de religiosas na Austrália, criaram as regras da ordem:

1. Pobreza
2. Depender da Providência Divina
3. Não possuir bens materias, nem para fins pessoais.
4. Ir onde for chamada.

Em 1867, Mary tornou a primeira irmã e superiora da Ordem das Irmãs de São José do Sagrado Coração. Até o final do ano, outras dez irmãs haviam se juntado a ordem.

* em Março publiquei uma lista das 10 mais influentes mulheres na história da Igreja e comentei que não conhecia algumas e precisava ler um pouco antes de escrever. Santa Maria da Cruz é uma destas
"desconhecidas". 


-- autoria própria.


20 de jan. de 2014

Santa Inês, já preparada para a vitória

Celebramos o nascimento de uma virgem: imitemos sua integridade; é o nascimento de uma mártir: ofereçamos sacrifícios. É o aniversário de Santa Inês. Conta-se que sofreu o martírio com a idade de doze anos. Quanto mais detestável foi a crueldade que não poupou sequer tão tenra idade, tanto maior é a força da fé que até naquela idade encontrou testemunho.

Haveria naquele corpo tão pequeno lugar para uma ferida? Mas aquela que quase não tinha tamanho para receber o golpe da espada, teve força para vencer a espada. E isto numa idade em que as meninas não suportam sequer ver o rosto zangado dos pais e choram como se uma picada de alfinete fosse uma ferida!

Mas ela permaneceu impávida entre as mãos ensanguentadas dos carrascos, imóvel perante o arrastar estridente dos pesados grilhões. Oferece o corpo à espada do soldado enfurecido, sem saber o que é a morte, mas pronta para ela. Levada à força até os altares dos ídolos, estende as mãos para Cristo no meio do fogo, e nestas chamas sacrílegas mostra o troféu do Senhor vitorioso. Finalmente, tendo que introduzir o pescoço e ambas as mãos nas algemas de fero, nenhum elo era suficientemente apertado para segurar membros tão pequeninos.

Novo gênero de martírio? Ainda não preparada para o sofrimento e já madura para a vitória! Mal sabia lutar e facilmente triunfa! Dá uma lição de firmeza apesar de tão pouca idade! Uma recém-casada não se apresaria para o leito nupcial com aquela alegria com que esta virgem correu para o lugar do suplício, levando a cabeça enfeitada não de belas tranças mas de Cristo, e coroada não de flores mas de virtudes.

Todos choram, menos ela. Muitos se admiram de vê-la entregar tão generosamente a vida que ainda não começara a gozar, como se já tivesse vivido plenamente. Todos ficam espantados que já se levante como testemunha de Deus quem, por causa da idade, não podia ainda dar testemunho de si. Afinal, aquela que não mereceria crédito se testemunhasse a respeito de um homem, conseguiu que lhe dessem crédito ao testemunhar acerca de Deus. Pois o que está acima da natureza, pode fazê-lo o Autor da natureza.

Quantas ameaças não terá feito o carrasco para incutir-lhe terror! Quantas seduções para persuadi-la! Quantas propostas para casar com algum deles! Mas sua resposta foi esta: “É uma injúria ao Esposo esperar por outro que me agrade. Aquele que primeiro me escolheu para si, esse é que me receberá. Por que demoras, carrasco? Pereça este corpo que pode ser amado por quem não quero!” Ficou de pé, rezou, inclinou a cabeça.

Terias podido ver o carrasco perturbar-se, como se fosse ele o condenado, tremer a mão que desfecharia o golpe, e empalidecerem os rostos temerosos do perigo alheio, enquanto a menina não temia o próprio perigo. Tendes, pois, numa única vítima um duplo martírio: o da castidade e o da fé. Inês permaneceu virgem e alcançou o martírio.

-- Do Tratado sobre as Virgens, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

-- A festa litúrgica de Santa Inês é celebrada em 21 de Janeiro.

1 de out. de 2013

Amar até morrer de amor

* Neste trecho da sua autobiografia, Santa Teresa narra como descobriu estar com tuberculose, uma doença fatal naquela época.

Sabíeis, Madre, que sempre desejei ser santa, mas ai! sempre constatei, quando me comparei com os santos, haver entre eles e mim a mesma diferença que existe entre uma montanha cujos cimos se perdem nos céus, e o obscuro grão de, areia pisado pelos transeuntes. Em vez de desanimar, disse a mim mesma: Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis, portanto posso, apesar da minha pequenez, aspirar à santidade; não consigo crescer, devo suportar-me como sou, com todas as minhas imperfeições; mas quero encontrar o meio de ir para o Céu por uma via muito direta, muito curta, uma pequena via, totalmente nova. 

Estamos num século de invenções. Agora, não é mais preciso subir os degraus de uma escada, nas casas dos ricos, um elevador a substitui com vantagens. Eu também gostaria de encontrar um elevador para elevar-me até Jesus, pois sou pequena demais para subir a íngreme escada da perfeição. Procurei então, na Sagrada Escritura a indicação do elevador, objeto do meu desejo, e li estas palavras da eterna sabedoria: Quem for pequenino, venha cá; ao que falta entendimento vou falar. Vim, então, adivinhando ter encontrado o que procurava e querendo saber, ó Deus, o que faríeis ao pequenino que respondesse ao vosso chamado. Continuei minhas pesquisas e eis o que achei: Como alguém que é consolado pela própria mãe, assim eu vos consolarei. Sereis amamentados, levados ao colo, e acariciados sobre os joelhos! Ah! nunca palavras mais suaves, mais melodiosas, vieram alegrar minha alma. Vossos braços são o elevador que deve elevar-me até o Céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário, preciso permanecer pequena, que o venha a ser sempre mais. Ó meu Deus, superastes minha expectativa e quero cantar as vossas misericórdias. "Vós me instruístes, ó Deus, desde a minha juventude, e até agora proclamo as vossas maravilhas; e também até a velhice, até à canície continuarei a publicá-las". Qual será para mim essa idade avançada? Parece-me que poderia ser agora, pois dois mil anos não são mais que vinte aos olhos do Senhor... que um dia... Ah! não creiais, Madre querida, que vossa filha deseja vos deixar... não creiais que considera como graça maior a de morrer na aurora em vez de no crepúsculo. O que aprecia, o que deseja unicamente é agradar a Jesus... Agora que Ele parece aproximar-se dela, a fim de atraí-Ia para a sua glória,, vossa filha se alegra. Há muito compreendeu que Deus não precisa de ninguém (menos ainda dela que dós outros) para realizar o bem.na terra. 

No ano passado, Deus permitiu-me o consolo de observar o jejum da quaresma em todo o seu rigor. Nunca me sentira tão forte e essa força manteve-se até a Páscoa. Porém, na Sexta-Feira santa, Jesus deu-me a esperança de ir vê-lo em breve, no Céu... Oh! como me é suave essa lembrança! Após ter ficado junto ao túmulo até a meia-noite, regressei à nossa cela, mas apenas coloquei a cabeça no travesseiro senti um fluxo subir, subir borbulhando até meus lábios. Não sabia de que se tratava, mas pensei que, talvez, fosse morrer e minha alma estava inundada de alegria... Mas, como nossa lâmpada estava apagada, disse a mim mesma que era preciso esperar o amanhecer para ter certeza da minha felicidade, pois parecia-me ser sangue que eu tinha vomitado. O amanhecer chegou logo. Ao acordar, pensei imediatamente ter alguma coisa alegre a constatar. Perto da janela, pude verificar meu pressentimento... Ah! minha alma ficou repleta de uma grande consolação; estava intimamente persuadida de que Jesus, no dia do aniversário da sua morte, queria me deixar perceber um primeiro chamado. Era como um suave e longínquo murmúrio que me anunciava a chegada do Esposo... 

Assisti com grande fervor à Oração da Manhã e ao capítulo dos perdões. Estava ansiosa para que chegasse a minha vez, a fim de poder, pedindo perdão, confidenciar a vós, querida Madre, minha esperança e minha felicidade. Acrescentei que não tinha dor nenhuma (o que era verdade) e pedi-vos, Madre, que nada me désseis de particular. De fato, tive o consolo de passar a Sexta-feira Santa como eu queria. Nunca as austeridades do Carmelo pareceram-me tão deliciosas. A esperança de chegar ao Céu arrebatava-me de alegria. À noite desse feliz dia, foi preciso repousar, mas Jesus deu-me o mesmo sinal de que meu ingresso na vida eterna estava próximo... 

Gozava então de uma fé tão viva, tão clara, que o pensamento do Céu era toda a minha felicidade, não podia crer na existência de ímpios desprovidos de fé. Acreditava que falavam contra o próprio pensamento ao negar a existência do Céu, do belo Céu onde o próprio Deus quer ser a recompensa eterna. Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus fez-me sentir haver almas sem fé que, por abuso das graças, perdem esse precioso tesouro, fonte das únicas alegrias puras e verdadeiras. Permitiu que minha alma fosse invadida pelas mais densas trevas e que a idéia do Céu, tão suave para mim, não passasse de tema de combate e tortura... Essa provação não devia durar apenas alguns dias, algumas semanas, só devia desaparecer na hora marcada por Deus e... essa hora não chegou ainda... Gostaria de poder expressar o que sinto, mas creio ser impossível. É preciso ter andado por esse túnel escuro para compreender a escuridão. 

Oh Madre! nunca senti tão bem como o Senhor é compassivo e misericordioso, só me mandou essa provação no momento em que tive a força para suportá-la, creio que, mais cedo, ela me teria mergulhado no desânimo... Agora, subtrai-me tudo o que poderia se encontrar de satisfação natural no desejo que tinha do Céu... Madre querida parece-me que agora nada me impede de levantar vôo, pois não tenho mais grandes desejos a não ser o de amar até morrer de amor... 

-- Da Autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem (século XIX)

22 de ago. de 2013

Santa Rosa de Lima, patrona da América da Sul

As Américas festejam neste dia 23 de Agosto sua primeira santa. Nascida Isabel, quando criança era tão amável que era comparada a uma rosa. Na sua confirmação, tomou este nome: Rosa. Desde jovem dedicava muitíssimas horas à oração, tomando como modelo Santa Catarina de Sena. Considerando a experiência de Santa Catarina, que decidiu dar suas roupas a uma pedinte, na qual disse ter visto o rosto de Cristo, escreveu:

Neste ano, 1616, vou vestir meu Divino Jesus, que a igreja logo irá apresentar como um recém-nascido pobre e desnudo, numa mangedoura, exposto ao severo inverno. Vou preparar uma vestimenta de cinquenta orações, de novecentos rosários e cinco dias de jejum em honra ao adorável mistério da Incarnação. Vou vesti-lo com as roupas de nove visitas ao Santíssimo Sacramento, de nove ofícios das orações e nove dias de jejum em honra aos nove meses em que foi gestado pela Santa Virgem Maria. Cristo deve ser coberto com outros cinco dias de jejum, cinco visitas ao Santíssimo Sacramento e cinco rosários em honra ao seu nascimento.

Como franjas de suas roupas, irei a trinta e três Santas comunhões, assistirei trinta e três missas. Vou passar trinta e três horas em oração. Recitarei trinta e três vezes o Pai Nosso, a Ave Maria, o Credo, o Glória ao Pai e Salve Rainha. Também vou recitar trinta e três rosários, e jejuar por trinta e três dias em honra aos anos em Jesus esteve na terra.

Finalmente, vou oferecer com um presente ao meu amado Jesus, minhas lágrimas de arrependimento e todos atos de amor que possa fazer em favor dos necessitados. Com isto ofereço meu coração e alma para que não haja nada em mim que não seja inteiramente consagrado a Ele.

* Tradução própria

2 de mai. de 2013

Santa Fina ou Serafina


Santa Fina é uma heroina do norte da Itália, da pequena cidade de Giminiano. Ao contrário de outros santos, lembrados por tudo que fizeram em vida, ela é lembrada por aquilo que deixou de fazer, por ter pacientemente suportado uma doença degenerativa que a paralisou pouco a pouco, até a sua morte. 

São Gregório Magno anuncia a morte de Santa Fina, afresco atribuído
a Niccolo de Bonaventura, Igreja de Giminiano.
O principal relato sobre sua vida foi escrito por João Di Coppo e fala mais dos milagres que ocorreram após a morte da santa. Os pais, Cambio e Imperiera, eram trabalhadores, mas com uma situação econômica estável. Foi sua mãe lhe ministrou os ensinamentos da fé. 

Desde criança Serafina foi reclusa, talvez porque seus pais já percebiam sua fragilidade. Na adolescência tornou-se uma bela jovem, com uma feição adorável, boa estatura e bem proporcionada. Mas foi então que a doença, talvez alguma forma de tuberculose ou osteomielite, começou a afetá-la. Di Coppo assim relata:

São Paulo nos ensina que o sofrimento fortalece o espírito. Por este motivo, Fina era a mais bela e formosa criatura aos olhos de Jesus Cristo, seu mestre, que lhe permitiu tantos sofrimentos. Ela ficou paralítica de seu pescoço para baixo, todo corpo paralisado. Ao final, já não podia mover-se, nem sequer um braço ou mão.

Enquanto Deus permitia esta aflição, ela decidiu não repousar em uma cama confortável. Ao contrário, escolheu uma tábua de madeira para deitar-se. E como um lado de seu corpo ficou paralisado, afligido pela doença, ela decidiu deitar-se sobre o lado saudável. Por cinco anos esteve nesta posição. Não permitia a ninguém trocá-la de posição. Permaneceu por tantos anos assim que sua carne era uma grande ferida. E, no entanto, nunca gemeu ou reclamou; manteve-se dando graças a Deus até o final. 

Era um exemplo para todos moradores da cidadezinha, que vinha visitá-la em busca de conselhos. Saíam maravilhados de ouvir palavras de encorajamento de uma jovem tão desesperadamente enferma. Falava muito dos sofrimentos de Jesus na Cruz, muito maiores que os dela, que nos valeram a vida eterna. Pedia a todos que fossem devotos de Nossa Senhora, um exemplo para todas mulheres. 

Casa da Santa em Giminiano. Hoje é uma capela.
Sua mãe tratava-a da melhor maneira possível, mas ainda assim, muitas vezes tinha que deixá-la sozinha. Até que certo, a mãe foi assaltada e morta em frente de casa, aumentando os sofrimentos da Santa. Fina passou a depender dos vizinhos, mas muitos tinham repulsas de suas feridas. 

Fina era devota de São Gregório Magno, que perseverou até o final, enquanto uma severa gastrite o enfraquecia. Com frequencia, Fina pedia ao santo que intercedesse por ela. Em 4 de março de 1253, o Santo apareceu-lhe numa visão, anunciando que seu sofrimento estava próximo ao final e ela morreria no dia do aniversário de São Gregório Magno. 

Assim ocorreu em 12 de Março: Santa Fina faleceu enquanto anjos tocavam os sinos da Igreja. Quando foi retirada da mesa, perceberam que ela deitava-se sobre violentas brancas. Conta-se que doentes tocaram seu corpo e foram imediatamente curados. Santa Serafina, através de seus sofrimentos e milagres, tornou-se uma heroína popular. 

Com doações deixadas sobre seu túmulo, um hospital foi construído com a missão de acolher os pobres  e doentes. Bem administrado, logo tornou-se um dos mais importantes da região e permaneceu em uso por mais de 800 anos. Na capela do hospital estava a tábua na qual a Santa repousava. 

-- autoria própria

14 de dez. de 2012

Maria e a Igreja

Igreja Católica Bizantina Santa Maria,
em Whiting/Indiana

O Filho de Deus é o primogênito dentre muitos irmãos; sendo Filho único por natureza, associou a si muitos pela graça, para serem um só com ele. Com efeito, a quantos o recebem, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,12).

Constituído Filho do homem, a muitos constituiu filhos de Deus. Ele, o Filho único, por seu amor e poder associou muitos a si. E todos esses, embora sejam muitos por sua geração segundo a carne, são um só com ele pela regeneração divina.

Um só, portanto, é o Cristo total, cabeça e corpo: Filho único do único Deus nos céus e de uma única mãe na terra. Muitos filhos, e um só Filho. Pois assim como a cabeça e os membros são um só Filho, assim também Maria e a Igreja são uma só Mãe e muitas mães; uma só Virgem e muitas virgens.

Ambas são mães e ambas são virgens; ambas concebem virginalmente do mesmo Espírito; ambas, sem pecado, dão à luz uma descendência para Deus Pai. Maria, imune de todo pecado, deu à luz a Cabeça do corpo; a Igreja, para a remissão de todos os pecados, deu à luz o corpo da Cabeça. Ambas são mães do Cristo, mas nenhuma delas pode, sem a outra, dar à luz o Cristo total.

Por isso, nas Escrituras divinamente inspiradas, o que se atribui de modo geral à Igreja, virgem e mãe, aplica-se particularmente a Maria. E o que se atribui especialmente a Maria, virgem e mãe, pode-se com razão aplicar de modo geral à Igreja, virgem e mãe; e quando o texto se refere a uma delas, pode ser aplicado indistinta e indiferentemente a uma e à outra.

Além disso, cada alma fiel é igualmente, a seu modo, esposa do Verbo de Deus, mãe de Cristo, filha e irmã, virgem e mãe fecunda. É a própria Sabedoria de Deus, o Verbo do Pai, que designa ao mesmo tempo a Igreja em sentido universal, Maria num sentido especial e cada alma fiel em particular.

Eis o que diz a Escritura: E habitarei na herança do Senhor (cf. Eclo 24,7.13). A herança do Senhor é, na sua totalidade, a Igreja, muito especialmente é Maria, e de modo particular, a alma de cada fiel. No tabernáculo do seio de Maria, o Cristo habitou durante nove meses; no tabernáculo da fé da Igreja, habitará até o fim do mundo; e no amor da alma fiel, habitará pelos séculos dos séculos.

-- Dos Sermões do Bem-aventurado Isaac, abade do Mosteiro de Stella (século XII)

8 de nov. de 2012

Oração à Trindade


* A Oração à Trindade foi composta pela Beata Isabel da Trindade (1880-1906), monja carmelita, cuja memória litúrgica é celebrada em 9 de Novembro. 

Beata Isabel aos 23 anos, pouco tempo após
fazer a sua profissão de fé.
Ó meu Deus, Trindade que eu adoro, fazei com que eu me esqueça totalmente de mim, para me fixar em Vós: imóvel, pacífica, como se a minha alma já estivesse na eternidade. Que nada perturbe a minha paz, nem me leve a abandonar-vos, ó meu Imutável, mas que, em cada momento, possa penetrar cada vez mais na profundidade do vosso Mistério. Pacificai a minha alma, fazei dela o Vosso céu, a Vossa morada e o lugar de Vosso repouso. Fazei que nunca Vos deixe só, que esteja totalmente atenta a Vós, acordada em minha fé... uma adoradora perfeita, totalmente entregue à Vossa Ação criadora. 

Ó meu Cristo amado, crucificado por amor, como eu gostaria de ser a esposa do Vosso Coração! Encher-Vos de glória e amar-Vos até morrer de amor! Porém sinto a minha incapacidade. Por isso vos peço que me "revistais de Vós mesmo", para identificar a minha alma com todos os movimentos da Vossa, para mergulhar, preencher e transformar-me em Vós, a fim de que a minha vida não seja senão uma irradiação da Vossa. Vinde a mim como Adorador, Reparador e Salvador.


Ó Verbo eterno, Palavra do meu Deus, quero passar a minha vida a escutar-Vos. Quero ser totalmente dócil aos Vossos ensinamentos, a fim de aprender tudo de Vós. E no meio da noite, do nada, da incapacidade, quero fixar-Vos sempre e permanecer sob a Vossa admirável luz. Ó meu astro amado, fascinai-me para que nunca mais me separe da Vossa irradiação. 

Ó Fogo consumidor, Espírito de amor, vinde a mim, para que se faça na minha alma como que uma encarnação do Verbo: que eu seja para Ele uma humanidade na qual renove todo o Seu Mistério. E Vós, ó Pai, inclinai-Vos para esta Vossa pobre e pequena criatura, cobri-a com a Vossa sombra, não vejais nela senão o Bem Amado no qual pusestes todas as Vossas complacências. 

Ó meus Três, meu Tudo, minha Beatitude, solidão infinita, imensidade em que me perco, entrego-me a Vós como uma presa. Sepultai-Vos em mim para que eu me sepulte em Vós, esperando vir a contemplar na Vossa luz a imensidão das Vossas grandezas.

29 de out. de 2012

O martírio de Santa Eulália


Santa Eulália nasceu em Emerita Augusta no ano de 292. Quando atingiu 12 anos, o imperador Diocleciano proibiu qualquer forma de culto a Jesus Cristo, mandando a todos adorar aos ídolos pagãos. A criança percebeu a injustiça das leis e resolveu protestar contra o governo. 

Sua mãe percebendo o risco, enviou-a para uma casa de campo, longe da cidade, mas de alguma forma ela chegou à cidade de Mérida. De madrugada, antes do amanhecer, se apresentou ao tribunal e gritou aos magistrados: "Digam-me que fúria é esta que os move a perder suas almas ao adorar ídolos falsos e negar o criador de todas as coisas? Se estais a procura de cristãos, aqui estou eu. Sou inimiga dos vossos deuses e estou disposta a pisoteá-los. Com a boca e o coração confesso o Deus verdadeiro. Isis, Apolo, Venus e até mesmo Maximiliano não são nada; uns porque obra dos homens, outro porque adora a coisas feitas por mãos humanas. Não se detenham, podem queimar-me, coratar meus membros; é coisa fácil quebrar um vaso frágil, porém minha alma não morrerá, por maior que seja a dor".

Sobremaneira irado, o governador Daciano ordenou ao pretor: "Apressa-te, cubra-la de suplícios para que saiba que há deuses e não é coisa que se faça não aceitar a sua autoridade". Porém, mudou de idéia e disse: "Tragam aqui os instrumentos de tortura". E disse-lhe: "Antes que morra, atrevida donzela, quero te mostrar tua loucura. Veja quantas alegrias podes desfrutar, que honras podes ter se te casares com um dignatário. Deixarás tua casa em lágrimas, teus pais ficarão gemendo de amor se te mantiveres obstinada a perder a vida. Veja estes instrumentos de suplício: ou te cortarão a cabeça com a espada, ou te queimará o fogo; e todos chorarão, enquanto te transformarás em cinzas. Que te custa evitar tudo isto? Basta tocares com a ponta de um só dedo a este sal consagrado e um pouquinho de incenso. Estarás totalmente perdoada". 

A menina respondeu-lhe: "A um só Deus oferecerei sacrifícios e queimarei incenso. A Ele e nada mais". Arrebatada de indignação, cuspiu no rosto do governador, jogou os ídolos no chão e com um pontapé derrubou o incensário em frente ao altar dos ídolos. Foi então que resolveram levar-lhe à prisão e aplicar-lhe três martírios, conforme ordenou o pretor Calpurniano.

O primeiro consistiu em açoitar-lhe com correias com espinhos que faziam cortes profundos por todo corpo. Sobre eles, Eulália disse: "Veja Senhor, que escrevem teu nome em meu corpo. Quão agradável é ler estas letras que assinalam a vitória de Jesus Cristo, que o meu sangue proclame o teu nome!"

Frente a tal destemor, Calpurniano mandou trazer azeite fervendo para derramar-lhe no corpo. Ela respondeu: "Este azeite não me fez mal, apenas acendeu ainda mais meu amor por Jesus Cristo".

Vendo isto, mandou-lhe queimar todo corpo lentamente, com tochas. Ela pediu-lhe: "Meu corpo esta assando, manda que me salguem para que minha carne possa ser um saboroso manjar a meu esposo celestial."

Então ordenou que a colocassem dentro do forno, mas viu que nada acontecia. Não tendo mais recursos, mando retirá-la e arrastá-la nua pela cidade até a praça onde as execuções eram realizadas. Foi então que avisou a Calpurniano: "Se não te arrependeres, aquele por cujo amor padeço, te dará o merecido castigo."

Ao chegar à praça, arrancaram-lhe as unhas dos pés e dedos e puseram-na em uma cruz. Levantando-a, deixaram cair a cruz para que quebrasse os ossos. Começaram novamente a queimar-lhe com tochas e vendo que chegava o fim de sua vida, disse suas últimas palavras: "Porque, Calpurniano, usas de crueldade contra mim? Pois abra teus olhos, veja meu rosto, grava-o bem em tua memória, para que no dia do juízo, quando compareceremos em frente ao meu Senhor e esposo Jesus Cristo, lembre-te de mim, pois ali receberás o castigo merecido por tua crueldade e eu receberei o prêmio pelos tormentos que ordenaste." 

As chamas atingiram o cabelo da virgem e ela faleceu. Dize-se que neste momento uma pomba branca saiu de seu corpo e, para admiração de todas testemunhas, subiu direto aos céus. O fogo apagou-se imediatamente e repousaram em paz os restos mortais. E todos puderam testemunhar este milagre, até mesmo os carrascos, surpreendidos, arrependeram-se. 

Mas Calpurniano ordenou que o corpo deveria ficar exposto, como exemplo para todos, por mais três dias. Foi então que nevou por três dias, cobrindo o cadáver. Ao final da tempestade, os cristãos apresentaram-se para recolher o corpo e dar-lhe digna sepultura. 

Assim que possível, uma igreja foi erguida no local de sua sepultura, tendo o altar principal sido construído exatamente sobre sua tumba. Relatos do século IV já afirmam que peregrinos visitavam a igreja para venerar seus santos ossos, que repousavam próximos ao Deus Vivo na Eucaristia. A Festa de Santa Eulália é celebrada em 10 de Dezembro.

Nota: Este texto trata de Santa Eulália de Mérida. Eventualmente pode ser confundida com Santa Eulália de Barcelona a quem é dedicada a Catedral (de Barcelona).


18 de out. de 2012

Santa Mariana Cope

A segunda nova iorquina que será canonizada pelo Papa Bento XVI neste domingo é a Irmã Marianna Cope, que aceitou o convite de São Damião para morrer pelos leprosos. 


Marianne Cope nasceu em 23 de janeiro de 1838, numa região de Hesse, Alemanha. No ano seguinte a família emigrou para os Estados Unidos, indo residir em Utica, no estado de Nova Iorque. Tornaram-se membros da Paróquia de São José. Quando estava na oitava série, seu pai tornou-se inválido. Sendo a filha mais velha, começou a trabalhar em uma fábrica. Com a morte do pai em 1862 e considerando que as irmãs já podiam também trabalhar, sentiu-se livre para seguir a sua vocação religiosa. Entrou no noviciado da Irmãs da Terceira ordem Franciscana, em Siracuse. Após completar a formação e receber o hábito, tornou-se professora em uma escola para imigrantes alemães mantida pela Igreja. 

Em 1870, já como membro do Conselho da Congregação envolveu-se na abertura dos primeiros hospitais católicos no estado. Já naquela época decidiram que os hospitais deveriam atender a todos, sem discriminação de raça e religião. Como diretora do hospital em Siracuse, participou do acordo que transferiu a Escola de Medicina de Geneva para Siracuse. Algo inédito, no contrato entre as partes estipulava-se que os pacientes teriam direito a serem tratados por médicos formados, não por estudantes. 


Em 1883, Madre Mariana, Superiora Geral da Congregação, recebeu um pedido por ajuda na colonia de leprosos no Havai, cujo diretor era São Damião de Molokai. Mais de 50 outras ordens já haviam recusado o convite, mas ela respondeu entusiasticamente:

Estou ansiosa por esta tarefa e desejo de todo coração ser uma das escolhidas. Que grande privilégio será sacrificar-se pela salvação destas almas. Não estou com medo da doença, pelo contrário, será um grande prazer servir aos abandonados leprosos.

Junto com outras seis irmãs, viajou para Honolulu, onde chegou em 8 de Novembro de 1883. Os sinos da catedral tocaram para bem recebê-las. Tendo Madre mariana como supervisora, as irmãs foram encarregadas do Hospital na ilha de Oahu, que recebia os pacientes de todas as ilhas e ministrava os primeiros tratamentos. Na medida em que o caso se agravava, os pacientes eram enviados para a colônia na ilha de Molokai. Após dois anos de trabalho, seus serviços já eram reconhecidos, sendo que o próprio rei agradeceu-lhe pessoalmente. Em 1885, as irmãs fundaram uam casa para receber as crianças órfãs de pais leprosos, que eram rejeitadas por todos. Mas um novo governo, em 1887, decidiu fechar o hospital e Oahu e transferir todos doentes para Molokai. Mesmo sabendo que nunca mais poderia retornar, as irmãs aceitaram a missão e partiram para Molokai. 

Em Novembro de 1888 passou a tratar pessoalmente do Pe. Damião e assumir suas tarefas. Permaneceu em Molokai até 9 de Agosto de 1918, qando faleceu de causas naturais, sem nunca ter tido lepra, algo considerado miraculoso. Foi beatificada em 14 de maio de 2005, pelo Papa Bento XVI. Seus restos mortais foram transferidos do Havai para Siracuse, onde foi construído um santuário em sua honra. 
Madre Mariana ao lado do corpo
de São Damião de Molokai.

Sobre ela, o Papa Bento XVI falou: A vida da Madre Marianne Cope caracterizou-se por uma profunda fé e amor, que deu o fruto de um espírito missionário de imensa esperança e confiança. Em 1862, ela entrou na Congregação das Irmãs Franciscanas, em Syracuse, onde ficou impregnada da particular espiritualidade de São Francisco de Assis, dedicando-se inteiramente às obras de misericórdia espirituais e corporais. A sua própria experiência de vida consagrada deu lugar a um apostolado extraordinário, enriquecido de virtudes heróicas. Fiel ao carisma da Ordem e segundo a imitação de São Francisco, que abraçou os leprosos, Madre Marianne partiu para a missão como voluntária, com um "Sim" confiante. E durante trinta e cinco anos, até à sua morte, ocorrida em 1918, a nossa nova Beata dedicou  a  sua  vida  ao  amor  e  ao serviço dos leprosos nas ilhas de Maui e de Molokai.

Sem dúvida, humanamente falando, a generosidade de Madre Marianne foi exemplar. Contudo, somente as boas intenções e o altruísmo não explicam adequadamente a sua vocação. Só a perspectiva da fé pode fazer-nos compreender o seu testemunho como cristã e como religiosa deste amor sacrifical, que alcançou a sua plenitude em Jesus Cristo.






15 de out. de 2012

Santa Catarina Tekakwitha

No próximo domingo, 21 de Outubro, o Papa Bento XVI canonizará sete beatos, sendo duas nova-iorquinas. 

Única imagem conhecida de Santa Kateri em vida,
pintada pelo Pe. Chauchetiere.
Uma delas é a Beata Kateri (Catarina) Tekakwitha, índia Mohawk, nascida em 1656, filha do chefe Kenneronkwa e Tagaskouita, uma índia Algonquin que havia sido criada por jesuítas franceses e sequestrada pelos Mohawks. Uma epidemia de sarampo atingiu a tribo em 1661, quando seus pais e o irmão morreram. Kateri ficou com cicatrizes e a vista afetada. Quando tinha 11 anos, seu tio proibiu qualquer contato com os jesuítas, após uma filha sua abandonar a tribo para ir morar numa missão. Mas na primavera de 1675, com 18 anos, Kateri conheceu o Pe. Jacques de Lamberville, com quem começou a estudar o catecismo.

Considerando sua conversão verdadeira, Pe. Lamberville batizou-a na Páscoa de 1676, em 18 de Abril. Após batizada, índios da sua tribo a acusaram injustamente de ser promíscua, provavelmente por despeito, pois ela recusou-se a casar com um não-cristão. Rejeitada pela tribo, teve que partir para uma missão próxima à Montreal, onde outras índias convertidas moravam. 

Na tradição Mohawk os guerreiros faziam sacrifícios de caráter religioso, até sangrarem. Apesar da oposição dos jesuítas, as mulheres insistiam que deveriam fazer mortificações severas devido aos muitos pecados das suas tribos. Diz-se que Kateri colocava espinhos sobre sua cama, além de praticar jejuns e longas horas de oração. 

Segundo o Pe. Cholonec, Tekakwitha  afirmou durante a Festa da Anunciação: "Após muito deliberar, decidi o que fazer: consagrei-me inteiramente a Jesus, filho de Maria. Escolhi-o como meu marido e apenas Ele poderá me ter como esposa". Por isso, Kateri é considerada a primeira virgem Mohawk. Após algum tempo pediu permissão para formar um grupo de mulheres a quem orientaria, mas os jesuítas consideraram ser muito cedo para tal tarefa. De qualquer modo, alguns conselhos seus eram sempre lembrados por suas companheiras: 
  • "Tenham coragem, apesar das palavras daqueles que não tem fé."
  • "Assegurem-se que sejam agradáveis à vista de Deus e eu as ajudarei quando estiver com Ele.
  • "Nunca desistam das mortificações."
Na Semana Santa de 1679, suas companheiras notaram que Kateri não estava bem. Chamaram o Pe. Cholenec para ministrar os últimos ritos. Após recebê-los, ela exclamou: "Irei amá-los no céu". E estas foram sua últimas palavras. Após sua morte, sua face se reconstituiu, desaparecendo as cicatrizes do sarampo. Teria ainda aparecido três vezes: para suas companheiras Mariè-Therese e Anastasia; e uma terceira para o Pe. Chauchetière. As amigas disse que se alegrassem, pois estava indo para o céu.

Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em 22 de Junho de 1980. Dela disse o Papa: Esta admirável coroa dos novos beatos, dom beneficente de Deus à Sua Igreja, é completado por esta doce, frágil mas também forte figura de jovem mulher que morreu quando tinha apenas 24 anos de idade: Catarina Tekakwitha, o "Lírio dos Mohawks", a donzela iroquesa, que na América do Norte do século XVII foi a primeira a renovar as maravilhas de santidade de Santa Escolástica, Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, Santa Angela Merici e Santa Rosa de Lima, precedendo no sofrimento do Amor, a sua grande irmã espiritual, Teresa do Menino Jesus.

4 de jul. de 2012

Santa Catarina Drexel




* Uma santa americana para o o 4 de Julho!

Nascida na Filadélfia, estado de Pensilvânia, Estados Unidos da América, em 26 de Novembro de 1858, Katherine Drexel era a segunda filha de Francis Drexel e Hannah Langstroth. Seu pai era um conhecido banqueiro e filantropista. Os pais instilaram em suas filhas a idéia que a riqueza da família era um simples empréstimo de Deus e que deveria ser compartilhada com outros.

Quando a família viajou para o Oeste do país, Katherine, na época uma jovem adolescente, viu a pobreza e miseria que viviam os poucos índios americanos que sobreviveram. Esta experiência despertou o desejo de fazer algo específico para ajudá-los, sendo o início de sua jornada pessoal e ajuda financeira a numerosas missões e missionários que se dedicavam a evangelização dos indígenas. Em 1887 ela estabeleceu a primeira escola para índios, chama Escola Indígina Santa Catarina, na cidade de Santa Fé, Novo México.

Mais tarde, quando visitava o Papa Leão XIII em Roma, pediu que enviasse missionários que ela se responsabilizaria por todos os custos. Foi então que, para sua grande surpresa, o Papa pediu que ela mesma fosse como missionária para aquela região. Após conversar com o seu diretor espiritual, Bispo James O'Connor, tomou a decisão de dedicar-se totalmente a Deus, bem como investir seus bens em favor dos índios e negros americanos.

Tomada a decisão, transformou sua vida radicalmente, gastando para si apenas o mínimo necessário, vivendo na pobreza. Em 12 de Fevereiro de 1891 professou seus votos como religiosa e fundou a Ordem da Irmãs do Santíssimo Sacramento, dedicada a levar a mensagem do Evangelho e a Eucaristia para índios e negros.

Sempre uma mulher de oração, Katherine encontrou na Eucaristia uma fonte que alimentava seu amor pelos pobres e forças para combater o racismo. Sabendo que muitos negros viviam em situação precária, longe de serem realmente livres, pois continuavam trabalhando nas fazendas ou sub-empregos, sem educação e direitos constitucionais, sentia-se especialmente chamada a mudar a mentalidade racista do país. Por exemplo, nos estados do Sul, restrições legais quase impediam os negros de cursarem o ensino básico. 

Em vista disto, fundar e organizar escolas para índios e negros tornou-se uam prioridade para ela e sua congregação. Durante a sua vida, financiou diretamente 60 escolas e missões, especialmente no Oeste e Sul do país. O ápice foi a fundação da Universidade Xavier na Louisiana, a única instituição predominantemente negra e índia de ensino superior. Além disso, dedicava-se também a visitar as famílias, hospitais e prisões. 

Combinando uma vida de oração silenciosa e um determinado ativismo, iluminada pelo Espírito Santo, superou diversos obstáculos e facilitou grandes avanços na justiça social. Através de seu exemplo, reformulou a Igreja Americana, tornando-a consciente que sua missão não se restringia unicamente aos tradicionais católicos, em especial imigrantes italianos e irlandeses. 

Nos últimos 18 anos de sua vida permaneceu quase imóvel devido a uma séria doença. Dedicou-se totalmente a uma vida de adoração e contemplação, como sempre desejara desde a juventude. Faleceu em 3 de março de 1955, aos 96 anos. Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em 20 de Novembro de 1988; e canonizada em 01 de Outubro de 2000 pelo mesmo Papa. Algumas reliquias estão expostas no altar da Capela de Maria na Igreja de São Rafael Arcanjo, em Raleigh, Carolina do Norte; e na Paróquia Katherine Drexel, em Sugar Grove, Illinois. 





13 de jun. de 2012

Santa Germana Cousin

Santa Germana Cousin, padroeira da crianças
abandonadas, deficientes e pastores.

Germana Cousin foi a última filha de Lourenço Cousin, pequeno proprietário agrícola de Pibrac, e de sua terceira esposa, Maria Laroche, mulher piedosa e de saúde frágil. Mestre Lourenço chegou a ser alcaide de Pibrac em 1573 e em 1574.

A data de nascimento de Germana não é precisa, mas provavelmente veio ao mundo no ano de 1579. Não chegou a conhecer a mãe, que faleceu pouco tempo depois de seu nascimento. Mais ou menos dois anos após perdeu também o pai. 

Talvez devido a avançada idade dos pais, ela nasceu com uma deformação na mão direita e uma doença chamada escráfulas, que consiste em feridas purulentas que surgem no pescoço e afeta também as juntas. A situação no país também não era melhor, pois estava dividido por uma guerra civil entre católicos e protestantes huguenotes, cada lado apoiado por uma parte da família real. O povo sofria com a fome e muitas igrejas foram atacadas, quando horríveis sacrilégios eram cometidos contra a Eucaristia, imagens, livros sagrados e sacerdotes.

Hugo, seu irmão mais velho, tornou-se o herdeiro dos bens do pai Lourenço e acolheu a pequena órfã. Era casado com Armanda Rajols, que não poupava maus tratos à pequena, talvez devido ao ressentimento por ter perdido seu único filho natural quando ainda era recém-nascido. A madrasta dava-lhe pouco alimento e não zelava por sua saúde, deixando-a aos cuidados de uma criada, Joana Aubian. Essa boa mulher tratava das feridas da criança, dividia com ela a comida e a cama.

Santa Germana passou a viver no paiol, onde aquecia-se dormindo com as ovelhas. Não era admitida dentro de casa por medo que contaminasse a família com alguma doença. Vestia-se sempre com trapos velhos, descalça mesmo no frio do inverno, era tratada com menos afeição que o cachorro da família. Pela manhã espera no lado de fora da casa seu alimento, normalmente as sobras e pão velho. Estes fatos foram testemunhados pelos vizinhos, que os narraram em documentos incluídos no processo de canonização.

Sua tarefa era pastorear as ovelhas pelas montanhas da região. Assim, ficava longe de casa pelo restante do dia. Muitos dias a madrasta lhe enviava a pastorear próximo à Floresta de Bouconne, na esperança que os lobos que se escondiam nas árvores lhe atacassem. Ao retornar para casa, devia ainda fiar lã, não importando se o frio lhe enregelava os dedos da sua mão já deformada. Por fim, a madrasta, certo dia bêbada, jogou-lhe sobre o corpo água fervente. 

O único momento de descanso permitido era ir à missa na Igreja de Santa Maria Madalena, num vilarejo próximo. Prestava atenção à cada palavra do sermão e participava das catequeses dadas após a celebração. Foi então que sua vida começou a fazer sentido, pois sentia que seus sofrimentos eram poucos quando comparados aos do Filho de Deus. Percebeu que a vida é apenas uma rápida passagem para a eternidade com Cristo, se por isso fizesse merecer. 

Embora fosse totalmente analfabeta, guardava os ensinamentos que ouvia no profundo do coração, e durante a semana, nas muitas horas que pastoreava sozinha, repetia as palavras para melhor assimilá-las, ou percorria as contas do rosário, lembrando-se dos mistérios divinos. A Eucaristia passou a ser seu alimento e Jesus a companhia preferida. Não satisfeita em apenas atender à Missa, ficava na Igreja durante todo dia, em contemplação. Na hora do Angelus ajoelhava-se onde estivesse e se punha a rezar. Santa Germana improvisou uma cruz e um pequeno altar, para que pudesse adorá-la durante o dia de trabalho.

Movida pelo Espírito Santo, decidiu-se por um singular método de pastoreio. Quando ouvia o sino da Igreja chamar os fiéis para a Missa diária, cravava seu cajado de pastora em meio ao rebanho e ordenava em alta voz que as ovelhas não se afastassem, esperando o seu retorno. Jamais perdeu uma ovelha, nem mesmo para os lobos. Sabia que melhor Pastor estava a cuidar das suas ovelhas.

As crianças da cidade começaram a ir ao seu encontro após terminarem as aulas. Nestas ocasiões não falava de si, mas do amor de Deus e dos sofrimentos de Jesus Cristo. Estas catequeses eram transmitidas aos pais, que passaram a lhe chamar de "a devota". 

Certo dia estava muito longe da cidade quando ouviu o sino chamando para Missa. De onde estava, devia atravessar um rio, cuja água era muito fria, proveniente do degelo das montanhas. Usar a única ponte lhe obrigaria caminhar grande distância, não seria possível chegar a tempo na Igreja. Foi então que, com o testemunho de dois outros pastores, Santa Germana caminhou até as margens do rio, pediu um favor especial a Deus, e as águas se abriram. Como os judeus fugindo do Egito, Santa Germana passou a pé enxuto. O milagre tornou-a famosa, o que mais atraiu a ira da sua madrasta.

Em outra ocasião, ela arriscou-se a entrar na cozinha da casa, com a idéia de distribuir o alimento para crianças pobres que estavam a passar fome. Sua madrasta a encontrou e acusou-lhe de roubo. Arrastou-a até a prefeitura da cidade e exigiu que fosse presa, a prova era o embrulho que carregava. Ao abrirem o pacote, nele encontrou-se apenas flores do campo. Por fim, seu irmão permitiu que passasse a dormir num quartinho, embaixo da escada da casa. 

Numa noite de junho de 1601, um sacerdote e dois religiosos que estavam viajando, ao cair da noite acomodaram-se nas ruínas de um antigo castelo próximo de Pibrac.  No meio à noite foram despertados pelo som de uma música, viram o céu iluminar-se e um cortejo celeste de virgens descer sobre uma casa rural das redondezas. Em seguida, o mesmo cortejo subiu para o céu acompanhado de uma jovem vestida de luz e coroada de flores silvestres.

Naquela manhã de verão, percebendo que ela não se levantara no horário costumeiro, seu irmão foi chamá-la. Ele encontrou-a morta, com o rosto iluminado e o rosário nas mãos. Ao amanhecer, entrando no povoado, o sacerdote e os religiosos relataram o maravilhoso fato aos habitantes de Pibrac, e constataram que se tratava da casa onde pouco antes fora encontrada morta uma pobre pastora chamada Germana Cousin.
     
Seu corpo foi sepultado em frente ao altar na Igreja de Santa Maria Madalena, mas com o tempo ela ficou esquecida. Numa fria manhã de dezembro de 1644, Guilherme Cassé, coveiro, e seu ajudante Gaillard Baron iniciaram os trabalhos de escavação de um túmulo para enterrar uma defunta, quando estarrecidos descobrem o corpo de uma jovem de uns vinte anos, conservado em sua mortalha um tanto escurecida. O corpo parecia ter sido colocado no túmulo há poucos dias. A jovem apresentava cicatrizes no pescoço e sua mão direita era deformada.
O corpo incorrupto está na Catedral de Pribac, França.

A notícia rapidamente se espalhou pela cidade. Dois anciãos, Pedro Pailhès e Joana Salères, reconheceram-na como sendo Germana Cousin, falecida 43 anos atrás. O corpo foi instalado num caixão perto do púlpito da igreja paroquial, e o povo, que a tinha em conta de santa, logo afluiu para contemplá-la. Outros ridicularizam os ingênuos e exigiram que o caixão fosse transferido para outro lugar. Entre estes estava Maria de Clément Gras, esposa do nobre Francisco de Beauregard.

Pouco tempo depois, esta senhora foi surpreendida por um câncer no seio e a criança que ela amamentava ficou doente. Estavam ambos às portas da morte. O esposo então se lembrou do desprezo que ela demonstrara pela pobre Germana, e cogitou se Deus não ficara ofendido e quisera puni-la. Maria de Clément Gras foi então para junto do corpo de Germana e pediu perdão por sua atitude, suplicando também a sua cura e a de seu filho, prometendo oferecer à igreja um caixão adequado para colocar seu corpo.

Na noite seguinte, ela foi despertada por uma grande claridade em seu quarto: Germana lhe aparece e prediz a cura de seu filho! Após a visão, a chaga do seu seio estava quase fechada. Ela fez vir seu filhinho: ele estava são e sugou longamente o leite que recusava há tempos. O fato é reconhecido como o primeiro milagre realizado pela intercessão da jovem após a descoberta de seus despojos.

Em 1793, durante a Revolução Francesa, os membros do "comitê de salvação pública" decidiram atacar a Igreja e sumir com o corpo da santa. O caixão foi profanado por um certo Toulza, acompanhado de três cúmplices. Eles retiraram o corpo do caixão e o enterraram na sacristia, jogando cal e água sobre ele. Depois da Revolução Francesa, a pedido da população o prefeito Jean Cabriforce, mandou procurar o local onde haviam enterrado o corpo. Uma vez mais Germana foi descoberta: seu corpo estava intacto, apesar de ter permanecido durante anos sob a ação da cal viva.

Foi o Beato Pio IX quem proclamou, no dia 7 de maio de 1854, a beatificação de Germana. E em 29 de junho de 1867, colocou-a entre as virgens santas. Sua festa é celebrada em 15 de Junho. 


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