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3 de mar. de 2014

Para quarta-feira de cinzas: Fazei penitência

Inspirados pelo Espírito Santo, os ministros da graça de Deus pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com juramento: Pela minha vida, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que mude de conduta (cf. Ez 33,11); e acrescentou esta sentença cheia de bondade: Deixa de praticar o mal, ó Casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: "Ainda que vossos pecados subam da terra até o céu, ainda que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais negros que o cilício, se voltardes para mim de todo o coração e disserdes: 'Pai', eu vos tratarei como um povo santo e ouvirei as vossas súplicas” (cf. Is 1,18; 63,16; 64,7; Jr 3,4; 31,9).

Querendo levar à penitência todos aqueles que amava, o Senhor confirmou esta sentença com sua vontade todo-poderosa.

Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte.

Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo: Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte com sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o e praticando o direito e justiça (cf. Jr 9,22-23; ICor 1,31).

Antes de mais nada, lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus, quando exortava à benevolência e à longanimidade: Sede misericordiosos, e alcançareis misericórdia; perdoai, e sereis perdoados; como tratardes o próximo, do mesmo modo sereis tratados; dai, e vos será dado; não julgueis, e não sereis julgados; fazei o bem, e ele também vos será feito; com a medida com que medirdes, vos será medido (cf. Mt 5,7; 6,14; 7,1.2).

Observemos fielmente este preceito e estes mandamen­tos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Pois eis o que diz o texto sagrado: Para quem hei de olhar, senão para o manso e humilde, que treme ao ouvir minhas palavras ? (cf. Is 66,2).

Tendo assim participado de muitas, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a paz. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

-- Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, papa (século I)

16 de abr. de 2013

Posse e uso das riquezas


Sobre o uso das riquezas, já a pura filosofia pôde delinear alguns ensinamentos de suma excelência e extrema importância; mas só a Igreja no-los pode dar na sua perfeição, e fazê-los descer do conhecimento à prática. O fundamento dessa doutrina está na distinção entre a justa posse das riquezas e o seu legítimo uso.

A propriedade particular é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária. Agora, se se pergunta em que é necessário fazer consistir o uso dos bens, a Igreja responderá sem hesitação: A esse respeito o homem não deve ter as coisas exteriores por particulares, mas sim por comuns, de tal sorte que facilmente dê parte delas aos outros nas suas necessidades. É por isso que o Apóstolo disse: Ordena aos ricos do século... dar facilmente, comunicar as suas riquezas (São Tomás de Aquino)).

Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do seu necessário ou do de sua família; nem mesmo a nada suprimir do que as conveniências ou decência Impõem à sua pessoa: "Ninguém com efeito deve viver contrariamente às conveniências" (São Tomás de Aquino). Mas, desde que haja suficientemente satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos pobres: "Do supérfluo dai esmolas" (Lc 11,41). 

É um dever, não de estrita justiça, exceto nos casos de extrema necessidade, mas de caridade cristã, um dever cujo cumprimento se não pode conseguir pelas vias da justiça humana. Mas, acima dos juízos do homem e das leis, há a lei e o juízo de Jesus Cristo, nosso Deus, que nos persuade de todas as maneiras a dar habitualmente esmola: "É mais feliz", diz Ele, "aquele que dá do que aquele que recebe" (At 20,35), e o Senhor terá como dada ou recusada a Si mesmo a esmola que se haja dado ou recusado aos pobres: "Todas as vezes que tenhais dado esmola, a um de Meus irmãos, é a Mim que a haveis dado" (Mt 25,40). 

Eis, aliás, em algumas palavras, o resumo desta doutrina: Quem quer que tenha recebido da divina Bondade maior abundância, quer de bens externos e do corpo, quer de bens da alma, recebeu-os com o fim de os fazer servir ao seu próprio aperfeiçoamento, e, ao mesmo tempo, como ministro da Providência, ao alívio dos outros. E por isso, que quem tiver o talento da palavra tome cuidado em se não calar; quem possuir superabundância de bens, não deixe a misericórdia entumecer-se no fundo do seu coração; quem tiver a arte de governar, aplique-se com cuidado a partilhar com seu irmão o seu exercício e os seus frutos (São Gregório Magno).

-- Papa Leão XIII, na Carta Encíclica Rerum Novarum (15 de Maio de 1891)

21 de fev. de 2012

O Tempo da Quaresma, por João Paulo II


Queridos irmãos e irmãs:

Papa João Paulo II recebe as cinzas durante a
celebração de Cinzas em 2004.
A quarta-feira de cinzas está marcada tradicionalmente por duas práticas da piedade cristã: a imposição das cinzas e o jejum. São dois gestos que afetam o corpo, porém chegam ao espírito. Dois gestos significativos, que representam uma realidade interior. Jejuar de alimentos, jejuar de paixões, jejuar das vaidades do mundo que passa, para uma tomada de consciência mais clara de nossa condição de pecadores, de criaturas necessitadas de Deus; necessitadas de nos convertermos a Ele, que é nossa verdadeira alegria. Deus, bem infinito e permanente. 

Este é, portanto, um "tempo saudável", no qual somos convidados a entrar novamente em nossas consciências, para descobrir os valores verdadeiros sobre os quais devemos apoiar nossa vida. É um tempo de reflexão e aprofundamento, no qual cada um deve comprometer-se a uma corajosa revisão da vida que lhe permita tomar consciência dos vários pontos em que sua conduta não está em sintonia com o Evangelho. O objetivo é dar a própria vida um sentido mais cristão, reafirmando o primado do espírito em relação a matéria que com frequência nos domina. 

Em particular, a Quaresma que começa hoje nos convida a escutar humildemente estas palavras severas do Apóstolo Tiago: Aproximai-vos de Deus, e ele se aproximará de vós. Lavai as mãos, pecadores, e purificai os vossos corações, ó homens de dupla atitude. Reconhecei a vossa miséria, afligi-vos e chorai. Converta-se o vosso riso em pranto e a vossa alegria em tristeza. Humilhai-vos na presença do Senhor, e ele vos exaltará (Tiago 4,8-10). Não fujamos deste chamado, estamos todos implicados. E mais ainda, seremos tanto mais aceitos pelo Senhor, quanto mais sintamos esta chamada como dirigida a nós.

A Quaresma nos convida a refletir de modo especial em torno de nossa fragilidade, sobre o nosso "ser pobre" e sobre a precariedade de bens terrenos, sobre o que como resultaria vão querer basear nossa felicidade neles, quando, ao contrário, somente encontramos a felicidade numa relação sincera e amiga com Deus, bem verdadeiramente supremo e absoluto.

A Quaresma nos convida ao arrependimento por termos nos afastado de Deus. Nos exorta a retornarmos a Ele. Nos convida a tomar consciência dos efeitos dolorosos e trágicos deste distanciamento dEle.

A Quaresma nos sugere sentimentos de saudável aflição. Nos recorda que Jesus chama de "bem aventuados os aflitos"(Mt 5,4), e ameaça com a condenação os que agora estão saciados e alegres (Lc 6,25). Por que? Por que a dor, vivida como arrependimento e expiação, leva à salvação e bem-aventurança; pois a alegria néscia daquele que não sabe elevar a vista para além do mundo, levará ao pranto amargo e inconsolável da perdição eterna (cf. Mt 8, 12; 13, 42, etc.).

A Quaresma é ocasião propícia para nos interrogarmos sobre a qualidade e motivo de nossas alegrias; para esclarecer se nascem de uma conversão a Deus ou de um ilusório contentar-se com perspectivas secularistas e terrenas. Ela nos convida a contrição, esperando a misericórdia do Pai e fazendo nossa obra redentora do Filho. A dor do pecado se mitiga com a esperança de que escutando o Evangelho e fazendo obras de penitência, conseguiremos o perdão divino e aliviaremos os merecidos castigos.  Aliviaremos os nossos e os do próximo.

O cristão, como nos exorta São Paulo (1 Tes 5, 16), deve estar sempre alegre. Porém a alegria cristã não é fugir das próprias responsabilidades. Não é um aturdir-se com prazeres fugazes do presente. A alegria cristão consiste em encontrar a própria dignidade perdida, após ter entrado novamente em nós mesmos e escutado as Palavras do Cristo. A Quaresma é o tempo apropriado para levar a cabo esta recuperação, este novo encontro com nosso "eu" autêntico. É um novo encontro que ocorre após uma séria escuta do convite evangélico a conversão. É um exercício fervoroso de obras de misericórdia, que nos dispõem a receber a misericórdia.

A tradição espiritual nos ensina que as principais obras do tempo quaresmal são três: a oração, a esmola e o jejum. A oração nos chama à uma relação mais intensa com Deus. A esmola significa uma atenção mais generosa aos irmãos necessitados. O jejum representa um firme propósito de disciplina moral e de purificação interior.

Tratam-se, evidentemente, dos aspectos essenciais da vida cristã e, como tais, necessários em todo momento. Há, sem dúvida, os tempos "fortes", apresentados no decorrer do ano litúrgico, momentos que nos exortam a um compromisso mais intenso e, com esta finalidade, os ritos e textos sagrados nos oferecem uma luz maior e uma graça mais abundante.

São tempos em que podemos, e devemos, acelerar o caminho, ou se o tivermos abandonado, retomá-lo, são tempos propícios para empreender um novo caminho com frutos e bons resultados. Aproveitemos, pois, este tempo favorável (cf. 2 Cor 6, 2). Este tempo de misericórdia.

-- Papa João Paulo II, audiência geral de 12 de Fevereirto de 1986, quarta-feira de cinzas (século XX)

* Nota: traduzi do texto espanhol disponível no site do Vaticano. 


10 de mar. de 2011

Purificação espiritual por meio do jejum e da misericórdia

Em todo tempo, amados filhos, a terra está repleta da misericórdia do Senhor (SI 32,5). À própria natureza é para todo fiel uma lição que o ensina a louvar a Deus, pois o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe proclamam a bondade e a onipotência de seu Criador; e a admirável beleza dos elementos postos a nosso serviço requer da criatura racional uma justa ação de graças.

O retorno, porém, desses dias.que os mistérios da salva­ção humana marcaram de modo mais especial e que prece­dem imediatamente a festa da Páscoa, exige que nos prepa­remos com maior cuidado por meio de uma purificação espiritual.

Na verdade, é próprio da solenidade pascal que a Igreja inteira se alegre com o perdão dos pecados. Não é apenas nos que renascem pelo santo batismo que ele se realiza, mas também naqueles que desde há muito são contados entre os filhos adotivos.

É, sem dúvida, o banho da regeneração que nos torna criaturas novas; mas todos têm necessidade de se renovar a cada dia para evitarmos a ferrugem inerente à nossa condi­ção mortal, e não há ninguém que não deva se esforçar para progredir no caminho da perfeição; por isso, todos sem exceção, devemos empenhar-nos para que, no dia da reden­ção, pessoa alguma seja ainda encontrada nos vícios do passado.

Por conseguinte, amados filhos, aquilo que cada cristão deve praticar em todo tempo, deve praticá-lo agora com maior zelo e piedade, para cumprir a prescrição, que remonta aos apóstolos, de jejuar quarenta dias, não somente reduzin­do os alimentos, mas sobretudo abstendo-se do pecado.

A estes santos e razoáveis jejuns, nada virá juntar-se com maior proveito do que as esmolas. Sob o nome de obras de misericórdia, incluem-se muitas e louváveis ações de bondade; graças a elas, todos os fiéis podem manifestar igualmente os seus sentimentos, por mais diversos que se­jam os recursos de cada um.

Se verdadeiramente amamos a Deus e ao próximo, nenhum obstáculo impedirá nossa boa vontade. Quando os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14), proclamavam bem-aventurado, não só pela virtude da benevolência mas tam­bém pelo dom da paz, todo aquele que, por amor, se com­padece do sofrimento alheio.

São inúmeras as obras de misericórdia, o que permite aos verdadeiros cristãos tomar parte na distribuição de es­molas, sejam eles ricos, possuidores de grandes bens, ou pobres, sem muitos recursos. Apesar de nem todos poderem ser iguais na possibilidade de dar, todos podem sê-lo na boa vontade que manifestam.

-- Dos Sermões de São Leão Magno, papa (século V)






4 de mar. de 2011

Os tesouros de São Casimiro


Filho do rei da Polónia, nasceu no ano 1458. Praticou de modo excelente as virtudes cristãs, especialmente a castidade e a bondade para com os pobres. Teve um grande zelo pela promoção da fé e uma singular devoção à Sagrada Eucaristia e a Nossa Senhora. Morreu vítima de tuberculose em 1484. Passados 120 anos de seu enterro, foi aberto o túmulo e encontrou-se seu corpo incorrupto. Nem sequer seus vestidos se haviam deteriorado. Sobre seu peito foi encontrada uma poesia à Santíssima Virgem.

Uma caridade quase inacreditável, não fingida mas sincera, inflamava o coração de Casimiro no amor de Deus pela acção do Espírito divino; e de tal modo transbordava espontaneamente no amor do próximo, que nada era para ele alegria maior, nada lhe era mais agradável, do que dar o que lhe pertencia e dar-se a si próprio aos pobres de Cristo, aos peregrinos, aos doentes, aos prisioneiros e aos atribulados. Para as viúvas, os órfãos e os oprimidos, não era apenas tutor e defensor: era pai, filho e irmão.

E seria necessário escrever uma longa história, se quiséssemos referir cada uma das grandes obras com que demonstrou o seu amor para com Deus e para com os homens.

Dificilmente se pode descrever ou imaginar o seu amor pela justiça, a sua temperança, a sua prudência, a sua constância e fortaleza de ânimo, precisamente naquela idade mais inconsiderada em que os homens costumam ser mais impetuosos e inclinados para o mal.

Todos os dias persuadia o pai a governar com justiça o reino e os povos que lhe estavam submetidos. E se às vezes acontecia, ou por inércia ou pela fraqueza humana, que alguma coisa vinha negligenciada no governo, nunca deixava de repreender o rei com delicadeza.

Abraçava e defendia como suas as causas dos pobres e dos infelizes, e por isso o povo lhe chamava defensor dos pobres. E, apesar de ser filho do rei e de nobre ascendência, nunca se mostrava orgulhoso a tratar ou conversar com qualquer pessoa, por mais humilde que fosse de condição.

Preferiu sempre ser contado entre os humildes e pobres de espírito, dos quais é o reino dos Céus, a ser considerado entre os ilustres e poderosos deste século. Nunca ambicionou o poder; e quando o pai lho ofereceu não o quis aceitar, temendo que o seu ânimo fosse ferido pelo aguilhão das riquezas, a que Nosso Senhor Jesus Cristo chamou espinhos, ou pudesse ser manchado pelo contágio das coisas terrenas.

Todos os da sua casa, os seus camareiros e secretários, dos quais alguns ainda vivem, homens insignes e bons que o conheciam profundamente, asseguram e testemunham que ele viveu em virgindade até ao fim dos seus dias.

-- Da Vida de São Casimiro, escrita por um autor quase contemporâneo

1 de mar. de 2011

No mundo, mas não do mundo

Desejaria exortar-vos a deixar tudo, mas não me atrevo. Se não podeis deixar as coisas do mundo, fazei uso delas de modo que não vos prendam a ele, possuindo os bens terrenos sem deixar que vos possuam. Tudo o que possuís esteja sob domínio do vosso espírito, para que não fiqueis presos pelo amor das coisas terrenas, sendo por elas dominados.

Usemos as coisas temporais, mas desejemos as eternas. As coisas temporais sejam simples ajuda para a caminhada, mas as eternas, o termo do vosso peregrinar. Tudo o que se passa neste mundo seja considerado como acessório. Que o olhar do nosso espírito se volte para a frente, fixando-nos firmemente nos bens futuros que esperamos alcançar.

Extirpemos radicalmente os vícios, não só das nossas ações mas também dos pensamentos. Que o prazer da carne, o ardo da cobiça e o fogo da ambição não nos afastem da Ceia do Senhor! Até as coisas boas que realiamos no mundo, não nos apeguemos a elas, de modo que as coisas agradáveis sirvam ao nosso corpo sem prejudicar o nosso coração.

A Missa de São Gregório, obra anônima holandesa.
Por isso, irmãos, não ousamos dizer-vos que deixeis tudo. Entretanto, se o quiserdes, mesmo possuindo-as, deixareis todas as coisas se tiverdes o coração voltado para o alto. Pois quem põe a serviço da vida todas as coisas necessárias, sem ser por elas dominado, usa do mundo como se dele não usasse. Tais coisas estão ao seu serviço, mas sem perturbar o propósito de quem aspira às do alto. Os que assim procedem têm à sua disposição tudo que é terreno, não como objeto de sua ambição, mas de sua utilidade. Por conseguinte, nada detenha o desejo do vosso espírito, nenhuma afeição vos prenda a este mundo.

Se amramos o que é bom, deleite-se nosso espírito com bens ainda melhores, isto é, os celestes. Se tememos o mal, ponhamos diante dos olhos os males eternos. Desse modo, contemplando na eternidade o que mais devemos amar e o que mais devemos temer, não nos deixaremos prender ao que existe na terra.

Para assim procedermos, contamos com o auxílio do Mediador entre Deus e os homens. Por meio dele logo obteremos tudo, se amarmos realmente aquele que, sendo Deus, vive e reina com o Pai eo Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Das Homílias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa

6 de dez. de 2010

Como dar esmolas

Agora iremos discutir um pouco o método de dar esmolas; pois é especialmente necessário para viver bem e ter uma morte feliz.

Primeiro, devemos dar esmolas com pura intenção de agradar a Deus e não obter reconhecimento humano. Isto Nosso Senhor nos ensina quando diz: Quando, pois, der esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens.Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. (Mt 6,2-3). Santo Agostinho expõe esta passagem assim: a mão esquerda significa a intenção de dar esmolas para obter honras mundanas e outras vantagens temporais; a mão direita significa a intenção de conceder esmolas para ganahr a vida eterna, ou para glória de Deus, e por caridade ao próximo.

Segundo, nossas esmolas devem ser dadas pronta e voluntariamente, tal que não pareça ter sido extorquida através de súplicas, nem adiada dia após dia. O homem sábio diz: Não digas ao teu próximo: Vai, volta depois! Eu te darei amanhã, quando dispões de meios (Pv 3,28). Abraão, temente a Deus, pediu aos anjos para ir à casa dele, não esperou que lhe pedissem, e disse a Ló para fazer o mesmo. E lemos que Tobias também não esperou que o pobre viesse a ele, mas procurou-os por si mesmo.

Terceiro, devemos das esmolas com alegrias, não tristeza. O Eclesiástico diz para mostrar contentamento. São Paulo escreve: Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria (2 Cor 9,7).

Quarto, nossas esmolas devem ser dadas com humildade, pois o homem rico deve lembrar que recebe muito mais do que el dá. Sobre este ponto, São Gregório fala: quando der bens terrenos, o homem encontrará muito proveito em controlar seu orgulho e relembrar cuidadosamente as palavras de seu Mestre celestial: eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16,9). Para através de suas amizades adquirir tabernáculos eternos, aqueles que dão, sem dúvida, devem lembrar de oferecer seus dons para os pobres, não para os ricos.

Em Jope havia uma discípula chamada Tabita - em
grego, Dorcas. Esta era rica em boas obras e
esmolas que dava (At 9,36).
Quinto, nossas esmolas devem ser dadas abundantemente, em proporção aos nossos bens. Assim fez e nos ensinou Tobias, o mais generoso em dar esmolas: se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração (Tb 4,9). E o apóstolo ensina que as esmolas devem ser dadas para alcançar a benção, não com avareza. São João Crisóstomo acrescenta: não apenas dar, mas dar abundantemente, isto é esmola. E, no mesmo sermão, repete: aqueles que desejam ser ouvidos por Deus quando dizem "tenha piedade de mim, oh Deus", de acordo com a divina misericórdia, devem ter misericórdia para com os pobres, na medida de suas posses.

Por fim, acima de todas as coisas, quem desejar ser salvo e ter uma boa morte, diligentemente deve perguntar-se, através de leituras e meditações, ou consultando homens santos e sábios, se suas supérfluas riquezas podem ser mantidas sem cometer pecado, ou se devem dá-las para os pobres; o que deve ser compreendido como supérfluo e quais são os bens necessários. Pode ocorrer que algumas riquezas moderadas sejam supérfluas, enquanto outras grandes riquezas seja absolutamente essenciais.

E desde que este tratado não requer estudos escolásticos aprofundados, irei brevemente citar algumas passagens da Escritura e Santos Padres. As Escrituras dizem: não podeis servir a Deus e à riqueza (Mt 6,24) e quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo (Lc 3,11). E no capítulo 12 de São Lucas é dito sobre quem tem grandes riquezas, que nem sabe o que fazer com elas: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão? (Lc 12,20). Santo Agostinho explica que estas palavras indicam que o homem rico perecerá porque não sabe utilizar suas riquezas supérfluas.

São João Crisóstomo afirma em sua 34a. homília ao povo de Antioquia: tens algumas posses? O interesse dos pobres está confiado a ti, sejam teus bens frutos de justos trabalhos ou herdados de teus pais. São Agostinho, nos Comentários sobre o Salmo 147: nossos bens supérfluos pertencem aos pobres; se não forem dados a eles, nós possuímos o que não temos direito. São Leão fala: bens temporais são dados para nós pela liberalidade de Deus, e Ele pedirá contas deles, pois foram concedidos a nós. São Tomás ensina que as riquezas temporais que possuímos, por lei natural pertencem aos pobres. E também que o Senhor nos pede para dar aos pobres não apenas a décima parte, mas todos bens supérfluos. O mesmo autor assegura que esta é a opinião comum de todos teólogos. E acrescento também, que se alguém quiser obedecer estritamente a letra da lei, não é apenas convidado a dar seus bens para os pobres, é obrigado a fazê-lo pela lei da caridade, pois tanto faz se escaparmos do inferno por seguirmos a lei ou por verdadeira caridade.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII) 

26 de nov. de 2010

Os frutos da esmola

Em primeiro lugar, ninguém duvida que as Sagradas Escrituras pedem esmolas. A sentença que nosso supremo e justo Juiz proferirá contra os ímpios no último dia é suficiente, mesmo supondo que não tenha nada mais contra nós:  Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber; era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes (Mt 25,41-43). E um pouco depois: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer (Mt 25,45).  

Se não há muito a dizer sobre a necessidade de dar esmolas, há muito mais sobre os frutos, pois estes são abundantes. Primeiro, esmolas salvam a alma da morte eterna, sejam elas uma forma de satisfação ou disposição de receber as graças. Esta doutrina é claramente ensinada nas Sagradas Escrituras. No livro de Tobias podemos ler: a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas (Tb 4,11); no mesmo livro, o anjo Rafael afirma: a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna (Tb 12,9). E Daniel disse ao rei Nabucodonosor: Queiras então, ó rei, aceitar meu conselho: resgata teu pecado pela justiça, e tuas iniqüidades pela piedade para com os infelizes; talvez com isso haja um prolongamento de tua prosperidade (Dn 4,24 ).

Esmolas também, se dadas por um homem justo, e com verdadeira caridade, são meritórias para a vida eterna:  isto o Juiz dos vivos e mortos pode testemunhar: Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim (Mt 25, 34-36). E logo após: Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes (Mt 25,41).
Maria Madalena aos pés de Jesus

Em terceiro lugar, esmolas são como um batismo, porque levam consigo tanto os pecados quanto a punição, de acordo com as palavras do Eclesiástico: A água apaga o fogo ardente, a esmola enfrenta o pecado (Eclo 3,33). A água extingue completamente o fogo, de tal modo que a fumaça permanece. Desta maneira ensinam muitos dos Santos Padres, como São Cipriano, São Ambrósio, São João Crisóstomo e São Leão, cujas palavras é desnecessário citar. Esta, portanto, é uma grande vantagem, que pode inflamar em todos os homens o amor às esmolas. Mas isto não pode ser entendido de qualquer modo, mas apenas aquelas que são procedidas de grande contrição e caridade, tais como Santa Maria Madalena, que, em lágrimas de verdadeira contrição, lavou os pés do Senhor; e tento comprado o mais precioso perfume, derramou-o sobre Seus pés.

Em quarto lugar, as esmolas aumentam a confiança em Deus e produzem alegria espiritual; embora isto seja comum a outras obras de caridade, dá-se de modo particular com as esmolas, pois através delas prestasse um serviço especial a Deus e aos irmãos, e esta obra é claramente reconhecida como boa. Daí a palavra de Tobias: A esmola será para todos os que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo (Tb 4,12). E o apóstolo, na sua Epístola aos Hebreus, diz: Não percais esta convicção a que está vinculada uma grande recompensa (Hb 10, 35). São Cipriano, no Sermão sobre as Esmolas, a chama de "grande conforto dos fiéis".

Em quinto lugar, as esmolas conciliam a boa vontade de muitos que rezam por seus benfeitores e obtém para eles tanto a graça da conversão, ou o dom da perseverança, ou um aumento de méritos e glória. De todas estas maneiras devem ser compreendidas estas palavras do Nosso Senhor: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16,9).

Em sexto lugar, as esmolas demonstram disposição para receber a graça da justificação. Deste fruto Salomão nos fala no livro dos Provérbios, onde afirma: É pela bondade e pela verdade que se expia a iniqüidade (Pv 16,6a). E quando Cristo ouviu falar da liberalidade de Zaqueu: Senhor, vou dar a metade dos meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo. Disse-lhe Jesus: Hoje entrou a salvação nesta casa (Lc 19, 9b-10a). Também lemos nos Atos dos Apóstolos o que foi dito à Cornélio, que ainda não era um cristão, mas deu grandes esmolas: As tuas orações e as tuas esmolas subiram à presença de Deus como uma oferta de lembrança (At 10,4). Deste ponto Santo Agostinho prova que Cornélio, pelas suas esmolas obteve de Deus a graça da fé e perfeita justificação.

Por fim, esmolas são um instrumento para aumentar os bens materiais. Isto afirma o homem inteligente: Quem se apieda do pobre empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício (Pv 19,17). E também: O que dá ao pobre, não padecerá penúria (Pv 28,27). Jesus nos ensinou esta verdade pelo seu próprio exemplo, quando ordenou a seus discípulos que distribuíssem os cinco pães e dois peixes; em retorno receberam doze cestos, dos quais serviram-se por muitos dias. Tobias também distribui fartamente aos pobres e, em curto espaço de tempo, obteve grandez riquezas. A viúva de Sarepta, deu a Elias apenas um refeição e um pouco de óleo, obeteve de Deus por este ato de caridade, abundância de alimentos e óleo, que por longo tempo não terminaram. 

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII) 

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