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18 de abr. de 2020

Imolação premeditada, Santa Gianna Molla

Gianna Beretta nasceu na cidade de Magenta, perto de Milão, em 4 de Outubro de 1922, a décima filha dos seus pais Alberto e Maria Beretta, que viriam a ter outros três filhos. A família morava próxima a Basílica de São Martinho, em Magenta, e nela Gianna foi batizada. Três dos seus irmãos se tornaram religiosos: Enrico, um missionário capuchinho que veio ao Brasil; Giuseppe, padre na diocese de Bérgamo; e Virginia, médica e religiosa canosiana.

Na sua infância, a família foi morar em Bérgamo (1925) e, depois, em Genova (1937). Foi nesta cidade que Gianna estudou na Escola Santa Dorotéia e participava dna paróquia de São Pedro, onde Dom Mario Righetti era o pároco. Em 1941, durante a II Guerra, a família decidiu sair de Bérgamo, que estava sendo bombardeada, para ir morar com o avô materno. No ano seguinte, Gianna começou a estudar medicina, primeiro em Milão, depois Pavia, onde formou-se em 30 de Novembro de 1949. Durante a sua adolescência e depois na faculdade, sempre participou ativamente da Ação Católica e do grupo das Damas de São Vicente, ia diariamente às missas, visitava o Santíssimo Sacramento e recitava o Rosário.

Gianna, médica

Gianna abriu seu consultório em Mesero e começou a atender pacientes enquanto especializava-se em Pediatria. Seu plano era vir para o Brasil onde estava seu irmão como missionário, onde poderia atender às mulheres pobres, porém devido a sua saúde frágil, foi aconselhada a permanecer na Itália.  Sobre sua profissão, Gianna escreveu:

"Todos trabalham para o benefício das pessoas, mas nós, doutores, trabalhamos diretamente nas pessoas. O grande mistério é que um homem é como Jesus: 'Aquele que visitar um doente, é a mim que ajuda'. Assim como o presbítero pode tocar Jesus, nós também tocamos Jesus no corpo de nossos pacientes, nós temos a oportunidade de fazer o bem de uma forma que os padres não podem. Nossa missão não termina quando os remédios já não tem efeito, devemos conduzir as almas a Deus; nossa palavra tem alguma autoridade. Médicos católicos são necessários!"

Gianna, esposa e mãe

Em Dezembro de 1954 conheceu Pietro Molla, um engenheiro, e casaram-se menos de uma ano depois, em 24 de Setembro de 1955, na mesma igreja onde fora batizada, a Basílica de São Martinho em Magenta. Permanecendo aberta à vida, logo tiveram três filhos: Pierluigi (1956), Mariolina (1957) e Laura (1959).

Em 1961 engravidou pela quarta vez, mas no segundo mês de gravidez desenvolveu um fibroma (tumor, em geral benigno) no útero. Os médicos deram três opções de tratamento:

- abortar a criança e fazer um tratamento, mas mantendo a possibilidade de outra gravidez;
- retirar o útero, o que também resultaria na morte da criança e esterilidade;
- retirar apenas o fibroma, preservando a vida da criança, mas arriscando a vida da mãe.

Gianna, que era médica e entendia perfeitamente os riscos de cada opção, foi clara na sua decisão, salvem a criança. Para os médicos e o marido, sua ordem foi clara: "Se houver necessidade de escolher entre eu e o bebê, não hesitem; escolhem, eu exijo, o bebê. Salvem minha filha!"

Na manhã de 21 de Abril de 1962, Sábado Santo, Molla foi conduzida ao hospital para uma cesariana, nasceu sua filha Gianna Emanuela. Santa Gianna continuou sofrendo com dores severas e uma septicemia, falecendo uma semana depois, em 28 de Abril. Sua filha, Gianna Emanuela sobreviveu e tornou-se médica geriátrica.

Comentando sobre a escolha de Santa Gianna, o Papa Paulo VI descreveu-a como sendo "uma jovem mãe da Diocese de Milão que, para dar a vida à sua filha sacrificava, com imolação premeditada, a própria". Desta maneira, com total conhecimento científico e suas dores, Santa Gianna seguiu o exemplo de Jesus Cristo e muitos outros santos, dando sua vida em favor da vida.

Milagres e canonização

Mesmo que seu plano de vir ao Brasil ajudar mulheres não tenha se concretizado, os dois milagres que conduziram a sua canonização foram exatamente ajudando mulheres doentes no Brasil. O primeiro salvou Lucia Sylvia Cirilo, que após o nascimento do quarto filho, teve uma infecção na área vaginal. Como morava em Grajaú, uma pequena cidade do Maranhão e a mesma cidade onde o irmão de Gianna havia sido missionário, a solução seria transferi-la para São Luís, mas quase certamente não haveria tempo para tanto. Uma irmã no hospital ao saber da situação,  começou a orar pedindo que Santa Gianna intercedesse. A ferida inflamada curou-se e cicatrizou quase imediatamente, salvando Lucia. O segundo milagre salvou o quarto bebê de Elisabete Comparini, de Franca/SP: a mãe, cujo útero rompeu-se no terceiro mês de gravidez, perdeu todo líquido amniótico Como a mãe recusava-se a abortar, os médicos mantiveram a gravidez e a criança nasceu saudável meses depois, um fato sem explicação científica. 

Santa Gianna Beretta Molla foi beatificada em 1994 e canonizada em 2004, ambas cerimônias presididas pelo Santo Papa João Paulo II, que também lhe concedeu o título de "Mãe de Família".

Por fim, duas frases de Santa Gianna:

"Nosso corpo é um cenáculo, um ostensório: deve resplandecer como um cristal para que o mundo possa ver a Deus".

"Amor e sacrifício estão intimamente ligados, como a o Sol e a luz. Não há amor sem sofrimento, não há sofrimento sem amor".


-- autoria própria


26 de jun. de 2017

Regras sobre casamento de mesmo sexo

Recentemente Dom Thomas Paprocki, bispo de Springfield, estado de Illinois, publicou regras para sua diocese acerca de casamentos do mesmo sexo. Embora as normas sejam simples e dentro da expectativa considerando a doutrina da Igreja, Dom Thomas teve a coragem de abordar o tema de maneira clara, mesmo sabendo que a patrulha politicamente correta iria criticá-lo. 
Bispo Thoomas Paprocki

Dom Thomas tem um doutorado em Lei Canônica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, além de ser formado em direito civil pela DePaul University e ter trabalhado muitos anos advogando para clientes pobres. Portanto, além de bispo, é extremamente qualificado para escrever um documento deste tipo.

É importante dizer que o documento não discrimina ninguém, nem é contra uma categoria de pessoas (homessexuais, lésbicas, LBGT, etc...) pois concentra-se em um ato público, de livre escolha das partes, o casamento de mesmo sexo. Todos somos pecadores e a Igreja está esperando de portas abertas para acolher a todos. 

O documento original está em inglês, a tradução é minha iniciativa e responsabilidade. Para comentários adicionais, sugiro outro canonista, Dr Edward Peters - também em inglês. Por fim, o documento restringe-se à Diocese de Springfield, cada bispo local pode estabelecer suas próprias regras considerando a situação local.

DECRETO SOBRE QUESTÕES PASTORAIS RELATIVAS AO "CASAMENTO" DO MESMO SEXO

Embora tenha sido o ensinamento claro e consistente da Igreja Católica desde sua fundação por Nosso Senhor Jesus Cristo que Deus instituiu o matrimônio como uma união entre um homem e uma mulher que estabelecem entre eles um relacionamento para toda vida, ordenado para o bem dos esposos, procriação e educação dos filhos (cf. Mt 19,4-6; Gaudium et Spes, n.48; CIC, n. 1055). Jesus Cristo afirmou o casamento como um espaço privilegiado na humanidade que a sociedade cristã elevou a dignidade de sacramento. Logo, a Igreja tem não somente a autoridade, mas também a séria obrigação de reafirmar seus ensinamentos sobre casamento e preservar o sagrado valor do matrimônio.  

Embora revertendo uma tendência milenar de reconhecer legal e judicialmente casamentos como somente possível entre um homem e um homem, "casamentos" do mesmo sexo são agora reconhecidos pela legislação e decisões judiciais nos Estados Unidos da América. 

Portanto é minha responsabilidade como bispo diocesano orientar o povo de Deus confiado a mim com caridade e sem faltar com a verdade, eu, Reverendo Thomas John Paprocki, pela graça de Deus e favor da Santa Sé, Bispo de Springfield em Illinois, promulgo as seguintes normas como política diocesana quanto ao casamento de mesmo sexo e questões pastorais:

1. Solenidades e bençãos de casamentos do mesmo sexo

a. Nenhum membro do clero ou outra pessoa agindo como funcionário ou representante da Diocese deve ajudar ou colaborar em solenidades ou benção de casamentos do mesmo sexo, incluindo prover serviços, acomodações, vantagens, bens ou privilégios para tais eventos.

b. Nenhuma propriedade ou prédio da Igreja, incluindo mas não limitado à paróquias, escolas, instituições de saúde ou caridade, ordens ou qualquer outro local dedicado, consagrado ou utilizado para celebrações católicas, pode ser utilizado para solenidades ou bençãos de casamento do mesmo sexo ou receber festas relacionadas a tais eventos.

c. Para não dar aparência de aprovação, nenhum ítem ou símbolo da fé católica, incluindo mas não limitado a vasos sagrados, vestimentas ou livros litúrgicos, podem ser usados em solenidades ou bençãos de casamentos do mesmo sexo.
2. Recebimento da Santa Comunhão

a. Dada a natureza objetivamente imoral da relação em um casamento do mesmo sexo, pessoas em tais uniões não devem se apresentar para a Sagrada Eucaristia, nem devem ser admitidas para tal (CIC, n. 915-916).

b. Pastores que conheçam tal situação devem orientar privadamente pessoas nestas circunstâncias, chamando-os à conversão e aconselhando-as a não se apresentarem para receber a Sagrada Eucaristia até  restaurarem sua comunhão com a Igreja através do Sacramento da Reconciliação.

c. Em perigo de morte, a pessoa vivendo publicamente em um casamento de mesmo sexo pode receber a Eucaristia na forma de viático se expressar arrependimento por seus pecados (CIC, n. 921).

3. Sacramentos de Iniciação

a. Crianças com pais vivendo um casamento de mesmo sexo podem ser batizadas se houver esperanças bem fundamentadas de que serão criadas dentro da fé católica (CIC, n.868). O pastor deve julgar cada situação e determinar se é apropriado realizar uma celebração pública de batismo.

b. Crianças com pais vivendo um casamento de mesmo sexo que sejam qualificadas e predispostas a aceitar a fé católica podem receber  Primeira Eucaristia e o Sacramento da Confirmação.

c. Pessoas vivendo publicamente em um casamento de mesmo sexo não podem servir como padrinhos de Batismos ou Confirmação.

d. Pessoas vivendo publicamente em um casamento de mesmo sexo não devem ser admitidas no Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA) ou receber o Sacramento da Confirmação até se afastarem do relacionamento objetivamente imoral.

4. Ritos funerários

a. Exceto se houverem dado sinais de arrependimento antes da morte, pessoas falecidas que viveram abertamente um casamento de mesmo sexo dando escândalo aos fiéis devem ser privados de ritos funerários eclesiais. Em caso de dúvida, o pastor local ou administrador paroquial deve consultar o ordinário local, cujo julgamente deve ser seguido (CIC, n. 1184).

5. Escolas católicas, catequéticas e programas de formação

a. Crianças vivendo com pessoas em um casamento de mesmo sexo podem ser admitidas em escolas católicas, catequéticas ou programas de formação. No entanto, os pais ou responsáveis legais devem ser informados que seu(s) filho(s) receberão os ensinamentos da Igreja quanto à casamento e sexualidade em sua totalidade e deverão assinar os contratos utilizados pela escola (*).

Finalmente, recordo a todos ministros da Igreja que mesmo sendo claros e diretos sobre os ensinamentos da Igreja, nosso atividade pastoral deve sempre ser respeitosa, amorosa e sensível com todos irmãos e irmãs na fé, como era Jesus Cristo, o Bom Pastor e eterno modelo. Advirto que qualquer pessoa culpada de violar as normas acima pode ser punida com justiça (CIC, n. 1315, 1339, 1347 e 1389).

Publicado na Curia da Diocese de Sppringfield, Illinois, em 12 de Junho, no Ano 2017 de Nosso Senhor.

Assinado pelo Bispo Reverendo Thomas Paprocki e pelo notário eclesial.

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(*): nos EUA, os contratos de escolas católicas costumam explicitar que durante o horário escolar as crianças participarão de missas, catequeses de Primeira Comunhão e Crisma, retiros e outros momentos de oração adequados à idade. Várias destas atividades não são opcionais.

CIC = Catecismo da Igreja Católica

13 de nov. de 2016

A anulação do casamento do Rei Henrique VIII

Todos aprendemos na escola que o Rei Henrique VIII brigou com o Papa e resolveu formar a Igreja da Inglaterra (Anglicana) por que queria casar com outra mulher, já que a primeira esposa não lhe dera um sucessor.  Dito assim, parece ser uma simples questão de divórcio, que já foi resolvida com a separação da Igreja e o Estado, bem como o fim do poder das Monarquias. Na verdade é um pouco mais complicado e ainda é uma questão atual na Igreja.

O casamento

O jovem Henrique era o segundo filho do Rei da Inglaterra, por isso as atenções eram voltadas para o irmão mais velho, Artur. Como de hábito, muito cedo iniciou a busca por uma esposa, a futura rainha. As implicações políticas eram enormes e muito mais importantes que qualquer vontade pessoal. Feitas as negociações, em 1488 ficou decidido que Artur casaria com Catarina de Aragão, filha dos Reis da Espanha. Os jovens "noivos" ainda não haviam completado três de idade, por isso casaram-se apenas em Novembro de 1501, quando completaram 15 anos. 
Henrique e Catarina casaram em 11 de Junho de 1509, duas
semanas após foram coroados Rei e Rainha da Inglaterra.

Os problemas começaram quando Artur faleceu meses após o casamento, deixando Catarina viúva. O Rei da Inglaterra, pai de Artur, ainda estava vivo e teve que refazer seus planos para a sucessão, que agora recaia em Henrique. Considerando a situação política, optou-se por Henrique casar com a viúva do irmão, mantendo os acordos com a Espanha.  

Porém havia um problema: casar com a viúva do irmão não era permitido, exceto se houvesse uma permissão especial do Bispo. Em se tratando de reis, foram direto ao Papa Julio II, que considerando as vantagens de uma firme aliança entre reinos católicos, autorizou o casamento. Se tudo houvesse corrido bem, este era o fim do caso, com os filhos de Henrique entrando na linha sucessória do trono.

O pedido de divórcio

Infelizmente Catarina tinha problemas na gravidez e as crianças, quando nasciam, tinham saúde fraca e morriam prematuramente, apenas uma menina cresceu até a idade adulta. A medida que envelheciam, ficava claro que não haveria um filho homem para suceder Henrique VIII. Junto com seus auxiliares e apoio do Cardeal Wolsey, legado papal na Inglaterra, decidiram pedir a anulação do casamento, para que o Rei casasse novamente de maneira válida. Na país considerava-se que era causa ganha e o Rei já poderia procurar uma nova esposa, no caso, Ana Bolena foi escolhida.  A palavra central é "anulação", não divórcio, ou seja, o pedido era para que a Igreja declarasse que o casamento de Henrique e Catarina fora inválido e, para todos efeitos, ambos estariam solteiros.

O argumento legal é que o Papa Julio II quando concedeu a exceção que permitiu o casamento, o fez de maneira inválida por que o Papa não pode se sobrepor a Deus, que claramente estipulara a proibição em Levítico 20,21:

Se um homem casar com a esposa de seu irmão, trará desgraça para a família, não terão filhos por causa deste incesto.

Este argumento centra a questão nos limites dos poderes de um Papa, poderes que são sempre limitados pela Lei Divina. O Papa sempre estará abaixo de Deus, assim, por exemplo, nunca poderá autorizar um casamento entre pai e filha, pois esta seria uma violação direta da Lei estabelecida por Deus, a primeira pessoa da Santíssima Trindade. Por outros motivos, como um limite de idade, o Papa poderia dispensar, pois se trata de uma regra criada pelos homens, que ao longo dos séculos tem variado. Portanto, a questão a ser resolvida é sobre como surgiu  a proibição de um irmão casar coma viúva do irmão: se é uma Lei de Deus, o Papa Julio II errou e o casamento deixaria de ser válido, Henrique e Catarina estariam solteiros; se é uma lei humana, o Papa tem poder para dispensar os noivos e o casamento foi plenamente válido. 

A decisão Papal

Papa Clemente VII governou a Igreja
de 19 de Novembro 1523 até 25 de
Setembro de 1534. 
Em tratando-se de questões canônicas, a palavra final é sempre dada pelo Papa, e especialmente num caso envolvendo Reis, o problema foi apresentado direto para o Papa Clemente VII. É certo que questões políticas faziam parte da conjuntura, mas a questão era estritamente canônica.

Se o Livro de Levítico parece sustentar o caso de Henrique, o Livro de Deuteronômio 25,5 foi usado como contra-argumento: 

Quando irmãos morarem juntos, e um deles morrer, e não tiver filho, então a mulher do falecido não se casará com homem estranho, de fora; seu cunhado estará com ela, e a receberá por mulher, e fará a obrigação de cunhado para com ela.

O papa pediu aos teólogos e exegetas romanos que estudassem o caso. A conclusão foi que sendo toda Escritura inspirada por Deus, ambos trechos eram igualmente válidos. Levítico refere-se ao caso de traição conjugal, pois ambos irmãos estariam vivos; enquanto o Deuteronômio claramente fala de uma viúva do primeiro irmão.  Assim, apesar de algumas idas e vindas influenciadas pelas questões políticas, Papa Clemente VII afirmou que a dispensa concedida pelo Papa anterior fora válida e o casamento estava mantido. 

As consequências

Henrique VIII, que nesta altura já tinha filhos com Ana Bolena, decidiu por separar a Igreja da Inglaterra da Igreja Católica, e tornar-se o seu líder. Inspirado pela idéias de Lutero, que cada cristão é capaz de interpretar as Escrituras, casou-se oficialmente com Ana Bolena. Milhões de ingleses foram separados de sua Igreja e muitos foram martirizados, incluindo seu auxiliar direto, São Tomás Moore. 

-- autoria própria



27 de ago. de 2016

A Pastoral Familiar

 A Igreja insiste no fato de que as famílias cristãs são, pela graça do sacramento nupcial, os sujeitos principais da pastoral familiar, sobretudo oferecendo o testemunho dos cônjuges e das famílias. Para isso é preciso fazer os casais experimentar que o Evangelho da família é alegria que enche o coração e a vida inteira, porque, em Cristo, somos libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. À luz da parábola do semeador (Mt 13, 3-9), a tarefa consiste em cooperar na sementeira: o resto é obra de Deus.
Por isso exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas. A pastoral familiar deve fazer experimentar que o Evangelho da família é resposta às expectativas mais profundas da pessoa humana: a sua dignidade e plena realização na reciprocidade, na comunhão e na fecundidade. Não se trata apenas de apresentar uma normativa, mas de propor valores, correspondendo à necessidade deles que se constata hoje, mesmo nos países mais secularizados.
A principal contribuição para a pastoral familiar é oferecida pela paróquia, que é uma família de famílias, onde se harmonizam os contributos das pequenas comunidades, movimentos e associações eclesiais.
Guiar os noivos no caminho de preparação para o matrimônio
É preciso ajudar os jovens a descobrir o valor e a riqueza do matrimônio. Devem poder captar o fascínio duma união plena que eleva e aperfeiçoa a dimensão social da vida, confere à sexualidade o seu sentido maior, ao mesmo tempo que promove o bem dos filhos e lhes proporciona o melhor contexto para o seu amadurecimento e educação. A complexa realidade social que a família é chamada a enfrentar atualmente, exige um empenho maior de toda a comunidade na preparação dos noivos para o matrimônio. 
Há várias maneiras legítimas de organizar a preparação próxima para o matrimônio e cada Igreja local discernirá a que for melhor, procurando uma formação adequada. Não se trata de lhes ministrar o Catecismo inteiro nem de os saturar com demasiados temas, devendo-se dar prioridade a um renovado anúncio do querigma – conteúdos que, comunicados de forma atraente e cordial, os ajudem a comprometer-se num percurso da vida toda com ânimo grande e liberalidade. Habitualmente são muito úteis os grupos de noivos e a oferta de palestras opcionais sobre uma variedade de temas que realmente interessam aos jovens. Entretanto são indispensáveis alguns momentos personalizados, dado que o objetivo principal é ajudar cada um a aprender a amar esta pessoa concreta com quem pretende partilhar a vida inteira, incluindo também a possibilidade de individuar incompatibilidades e riscos.
Deve ser possível, também, detectar os sinais de perigo que poderá apresentar a relação, para se encontrar, antes do matrimônio, os meios que permitam enfrentá-los com bom êxito. Infelizmente, muitos chegam às núpcias sem se conhecer. Limitaram-se a divertir-se juntos, a fazer experiências juntos, mas não enfrentaram o desafio de se manifestar a si mesmos e aprender quem é realmente o outro.
Deve-se procurar que os noivos não considerem o matrimônio como o fim do caminho, mas o assumam como uma vocação que os lança para diante, com a decisão firme e realista de atravessarem juntos todas as provações e momentos difíceis.
A preparação da celebração
A preparação próxima do matrimônio tende a concentrar-se nos convites, na roupa, na festa com os seus inumeráveis detalhes que consomem tanto os recursos econômicos como as energias e a alegria. Na preparação mais imediata é importante esclarecer os noivos para viverem com grande profundidade a celebração litúrgica, ajudando-os a compreender e viver o significado de cada gesto. Lembremo-nos de que um compromisso tão grande como este expresso no consentimento matrimonial e a união dos corpos que consuma o matrimónio só podem ser interpretados como sinal do amor do Filho, Deus feito carne, em matrimôonio com a sua Igreja, uma aliança de amor.
Às vezes, os noivos não percebem o peso teológico e espiritual do consentimento, que ilumina o significado de todos os gestos sucessivos. É necessário salientar que aquelas palavras não podem ser reduzidas ao presente; implicam uma totalidade que inclui o futuro: “até que a morte vos separe”.
Também se pode meditar com as leituras bíblicas e enriquecer a compreensão do significado das alianças que trocam entre si, ou doutros sinais que fazem parte do rito. Mas não seria bom os noivos chegarem ao matrimônio sem ter rezado juntos, um pelo outro, pedindo ajuda a Deus para serem fiéis e generosos, perguntando juntos a Deus que espera deles, e inclusive consagrando o seu amor diante duma imagem de Maria.
Acompanhamento nos primeiros anos da vida matrimonial
Temos de reconhecer como um grande valor que se compreenda que o matrimônio é uma questão de amor: só se podem casar aqueles que se escolhem livremente e se amam. Apesar disso, se o amor se reduzir a mera atração ou a uma vaga afetividade, isto faz com que os cônjuges sofram duma extraordinária fragilidade quando entram em crise ou a atração física diminui. A união é real, é irrevogável e foi confirmada e consagrada pelo sacramento; mas, ao unir-se, os esposos tornam-se protagonistas, senhores da sua própria história e criadores dum projeto que deve ser levado para a frente conjuntamente. O “sim” que deram um ao outro é o início dum itinerário cujo objetivo se propõe superar as circunstâncias que surgirem e os obstáculos que se interpuserem. A bênção recebida é uma graça e um impulso para este caminho sempre aberto. Habitualmente ajuda sentar-se a dialogar para elaborar o seu projeto concreto com os seus objetivos, meios e detalhes.
Uma das causas que leva a rupturas matrimoniais é ter expectativas demasiado altas sobre a vida conjugal. Quando se descobre a realidade mais limitada e problemática do que se sonhara, a solução não é pensar imediata e irresponsavelmente na separação, mas assumir o matrimônio como um caminho de amadurecimento, onde cada um dos cônjuges é um instrumento de Deus para fazer crescer o outro. É possível a mudança, o crescimento, o desenvolvimento das potencialidades boas que cada um traz dentro de si. Cada matrimónio é uma história de salvação, o que supõe partir duma fragilidade que, graças ao dom de Deus e a uma resposta criativa e generosa, pouco a pouco vai dando lugar a uma realidade cada vez mais sólida e preciosa. Talvez a maior missão dum homem e duma mulher no amor seja esta: a de se tornarem, um ao outro, mais homem e mais mulher. Fazer crescer é ajudar o outro a moldar-se na sua própria identidade.
O acompanhamento deve encorajar os esposos a serem generosos na comunicação da vida. Neste sentido, é preciso redescobrir a Encíclica Humanae vitae  e a Exortação apostólica Familiaris consortio. A opção da paternidade responsável pressupõe a formação da consciência que é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Quanto mais procurarem os esposos ouvir a Deus e os seus mandamentos (Rm 2,15) e se fizerem acompanhar espiritualmente, tanto mais a sua decisão será intimamente livre de um arbítrio subjetivo e da acomodação às modas de comportamento no seu ambiente.
Alguns recursos
Os primeiros anos de matrimônio são um período vital e delicado, durante o qual os cônjuges crescem na consciência dos desafios e do significado do matrimónio. Tem grande importância a presença de casais de esposos com experiência. Os esposos que têm uma boa experiência podem oferecer os instrumentos práticos que lhes foram úteis: a programação dos momentos para estar juntos sem nada exigir, os tempos de recreação com os filhos, as várias maneiras de celebrar coisas importantes, os espaços de espiritualidade partilhada.
O desafio das crises
A história duma família está marcada por crises de todo o gênero, que são parte também da sua dramática beleza. É preciso ajudar a descobrir que uma crise superada não leva a uma relação menos intensa, mas a melhorar, sedimentar e maturar o vinho da união. Não se vive juntos para ser cada vez menos feliz, mas para aprender a ser feliz de maneira nova, a partir das possibilidades que abre uma nova etapa. Cada crise implica uma aprendizagem que permite incrementar a intensidade da vida comum ou, pelo menos, encontrar um novo sentido para a experiência matrimonial. É preciso não se resignar de modo algum a uma curva descendente, a uma inevitável deterioração, a uma mediocridade que se tem de suportar. Cada crise esconde uma boa notícia, que é preciso saber escutar, afinando os ouvidos do coração.
Há crises comuns que costumam verificar-se em todos os matrimônios, como a crise ao início quando é preciso aprender a conciliar as diferenças e a desligar-se dos pais; ou a crise da chegada do filho, com os seus novos desafios emotivos; a crise de educar uma criança, que altera os hábitos do casal; a crise da adolescência do filho, que exige muitas energias, desestabiliza os pais e às vezes contrapõem-nos entre si; a crise do "ninho vazio", que obriga o casal a fixar de novo o olhar um no outro; a crise causada pela velhice dos pais dos cônjuges, que requer mais presença, solicitude e decisões difíceis.
A estas crises, vêm juntar-se as crises pessoais com incidência no casal, relacionadas com dificuldades econômicas, laborais, afetivas, sociais e espirituais. Algumas famílias sucumbem quando os cônjuges se culpam mutuamente, mas a experiência mostra que, com uma ajuda adequada e com a ação de reconciliação da graça, uma grande percentagem de crises matrimoniais é superada de forma satisfatória. Saber perdoar e sentir-se perdoado é uma experiência fundamental na vida familiar.
Tornou-se frequente que, quando um cônjuge sente que não recebe o que deseja, ou não se realiza o que sonhava, isso lhe pareça ser suficiente para pôr fim ao matrimônio. Mas, assim não haverá matrimônio que dure. Nestas circunstâncias, alguns têm a maturidade necessária para voltar a escolher o outro como companheiro de estrada, para além dos limites da relação, e aceitam com realismo que não se possam satisfazer todos os sonhos acalentados. Evitam considerar-se os únicos mártires, apreciam as pequenas ou limitadas possibilidades que lhes oferece a vida em família e apostam em fortalecer o vínculo numa construção que exigirá tempo e esforço. No fundo, reconhecem que cada crise é como um novo “sim” que torna possível o amor renascer reforçado, transfigurado, amadurecido, iluminado. A partir duma crise, tem-se a coragem de buscar as raízes profundas do que está a suceder, de voltar a negociar os acordos fundamentais, de encontrar um novo equilíbrio e de percorrer juntos uma nova etapa.
Velhas feridas
É compreensível que, nas famílias, haja muitas dificuldades, quando um dos seus membros não amadureceu a sua maneira de relacionar-se, porque não curou feridas dalguma etapa da sua vida. As vezes ama-se com um amor egocêntrico próprio da criança, fixado numa etapa onde a realidade é distorcida e se vive o capricho de que tudo deva girar à volta do próprio eu. Outras vezes ama-se com um amor da adolescência, caraterizado pelo confronto, a crítica ácida, o hábito de culpar os outros, a lógica do sentimento e da fantasia, onde os outros devem preencher os nossos vazios ou apoiar os nossos caprichos.
Muitos terminam a sua infância sem nunca se terem sentido amados incondicionalmente, e isto compromete a sua capacidade de confiar e entregar-se. Uma relação mal vivida com os seus pais e irmãos, que nunca foi curada, reaparece e danifica a vida conjugal. Então é preciso fazer um percurso de libertação, que nunca se enfrentou. Quando a relação entre os cônjuges não funciona bem, convém assegurar-se de que cada um tenha feito este caminho de cura da própria história. Cada um deve ser muito sincero consigo mesmo, para reconhecer que o seu modo de viver o amor tem estas imaturidades. Por mais evidente que possa parecer que toda a culpa seja do outro, nunca é possível superar uma crise esperando que apenas o outro mude. É preciso também questionar-se a si mesmo sobre as coisas que poderia pessoalmente amadurecer ou curar para favorecer a superação do conflito.
Acompanhar depois das rupturas e dos divórcios
Nalguns casos, a consideração da própria dignidade e do bem dos filhos exige pôr um limite firme às pretensões excessivas do outro, a uma grande injustiça, à violência ou a uma falta de respeito que se tornou crônica. É preciso reconhecer que há casos em que a separação é inevitável. Por vezes, pode tornar-se até moralmente necessária, quando se trata de defender o cônjuge mais frágil, ou os filhos pequenos, das feridas mais graves causadas pela violência, humilhação e a exploração, alienação e a indiferença. Mas deve ser considerado um remédio extremo, depois que se tenham demonstrado vãs todas as tentativas razoáveis.
É indispensável um discernimento particular para acompanhar pastoralmente os separados, os divorciados, os abandonados. Tem-se de acolher e valorizar sobretudo a angústia daqueles que sofreram injustamente a separação, o divórcio ou o abandono, ou então foram obrigados, pelos maus-tratos do cônjuge, a romper a convivência. Não é fácil o perdão pela injustiça sofrida, mas constitui um caminho que a graça torna possível.
Quanto às pessoas divorciadas que vivem numa nova união, é importante fazer-lhes sentir que fazem parte da Igreja, que não estão excomungadas nem são tratadas como tais, porque sempre integram a comunhão eclesial.
A Igreja não pode cessar de ser a voz dos mais frágeis: os filhos, que sofrem muitas vezes em silêncio. Hoje, não obstante a nossa sensibilidade aparentemente evoluída e todas as nossas análises psicológicas refinadas, pergunto-me se não nos entorpecemos também relativamente às feridas da alma das crianças. Sentimos nós o peso da montanha que esmaga a alma duma criança, nas famílias onde se maltrata e magoa, até quebrar o vínculo da fidelidade conjugal? Tais experiências não ajudam estas crianças a amadurecer para serem capazes de compromissos definitivos. Ajudar a curar as feridas dos pais e sustentá-los espiritualmente é bom também para os filhos, que precisam do rosto familiar da Igreja que os ampare nesta experiência traumática. O divórcio é um mal e é muito preocupante o aumento do número de divórcios. Por isso, sem dúvida, a nossa tarefa pastoral mais importante relativamente às famílias é reforçar o amor e ajudar a curar as feridas, para podermos impedir o avanço deste drama do nosso tempo.
Algumas situações complexas
Os matrimônios com disparidade de culto constituem um lugar privilegiado de diálogo inter-religioso. Comportam algumas dificuldades especiais quer em relação à identidade cristã da família quer quanto à educação religiosa dos filhos. É necessário prestar uma atenção particular às pessoas que se unem em tais matrimônio, e não só no período anterior ao casamento. Enfrentam desafios peculiares os casais e as famílias, nos quais um dos cônjuges é católico e o outro não-crente. Em tais casos, é necessário testemunhar a capacidade que tem o Evangelho de mergulhar nestas situações para tornar possível a educação dos filhos na fé cristã.
No decurso dos debates sobre a dignidade e a missão da família, destacou-se quanto aos projetos de equiparação ao matrimônio das uniões entre pessoas homossexuais, que não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, nem sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família.
As famílias monoparentais têm frequentemente origem a partir de mães ou pais biológicos que nunca quiseram integrar-se na vida familiar. Seja qual for a causa, o progenitor que vive com a criança deve encontrar apoio e conforto nas outras famílias que formam a comunidade cristã.
Quando a morte crava o seu aguilhão
Compreendo a angústia de quem perdeu uma pessoa muito amada, um cônjuge com quem se partilhou tantas coisas. O próprio Jesus Se comoveu e chorou no velório dum amigo (Jo 11, 33.35). E como não compreender o lamento de quem perdeu um filho? Com efeito, é como se o tempo parasse: abre-se um abismo que engole o passado e também o futuro. E às vezes chega-se até a dar a culpa a Deus! Quantas pessoas – compreendo-as – se chateiam com Deus. A viuvez é uma experiência particularmente difícil. Alguns, quando têm de viver esta experiência, mostram que sabem fazer convergir as suas energias para uma dedicação ainda maior aos filhos e netos, encontrando nesta experiência de amor uma nova missão educativa. Aqueles que já não podem contar com a presença de familiares a quem se dedicar e de quem receber carinho e proximidade, a comunidade cristã deve sustentá-los com particular atenção e disponibilidade.
Consola-nos saber que não se verifica a destruição total dos que morrem, e a fé assegura-nos que o Ressuscitado nunca nos abandonará. Podemos, assim, impedir que a morte envenene a nossa vida, torne vãos os nossos afectos e nos faça cair no vazio mais escuro. A Bíblia fala de um Deus que nos criou por amor, e fez-nos duma maneira tal que a nossa vida não termina com a morte (Sab 3, 2-3). São Paulo fala-nos dum encontro com Cristo imediatamente depois da morte: tenho o desejo de partir e estar com Cristo (Flp 1, 23). Com Ele, espera-nos depois da morte aquilo que Deus preparou para aqueles que O amam (1Cor 2, 9). De forma muito bela, assim se exprime o prefácio da Missa dos Defuntos: Se a certeza da morte nos entristece, conforta-nos a promessa da imortalidade. Para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba, apenas se transforma». Com efeito, «os nossos entes queridos não desapareceram nas trevas do nada: a esperança assegura-nos que eles estão nas mãos bondosas e vigorosas de Deus.
Uma maneira de comunicarmos com os seres queridos que morreram é rezar por eles. Diz a Bíblia que rezar pelos mortos é santo e piedoso (2Mac 12, 44.45). Rezar por eles pode não só ajudá-los, mas também tornar mais eficaz a sua intercessão em nosso favor. O Apocalipse apresenta os mártires a interceder pelos que sofrem injustiça na terra (cf. 6, 9-11), solidários com este mundo em caminho. Alguns Santos, antes de morrer, consolavam os seus entes queridos, prometendo-lhes que estariam perto ajudando-os. Santa Teresa de Lisieux sentia vontade de continuar, do Céu, a fazer bem. E São Domingos afirmava que seria mais útil, depois de morto, mais poderoso para obter graças.

Se aceitarmos a morte, podemos preparar-nos para ela. O caminho é crescer no amor para com aqueles que caminham conosco, até ao dia em que não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor (Ap 21, 4). Deste modo preparar-nos-emos também pera reencontrar os nossos entes queridos que morreram. Assim como Jesus entregou o filho que tinha morrido à sua mãe (Lc 7, 15), de forma semelhante procederá conosco. Não gastemos energias, detendo-nos anos e anos no passado. Quanto melhor vivermos nesta terra, tanto maior felicidade poderemos partilhar com os nossos entes queridos no céu. Quanto mais conseguirmos amadurecer e crescer, tanto mais poderemos levar-lhes coisas belas para o banquete celeste.
-- resumo do capítulo 6 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, Papa Francisco

20 de ago. de 2016

O amor conjugal

O amor conjugal é o amor que une os esposos, santificado, enriquecido e iluminado pela graça do sacramento do matrimônio. É uma união afetiva, espiritual e em comunhão com Deus, mas que reúne em si a ternura da amizade e a paixão erótica, capaz de subsistir mesmo quando os sentimentos e a paixão enfraquecem. Este amor forte, fruto do Espírito Santo, é reflexo da aliança indestrutível entre Cristo e a humanidade que culminou na entrega até ao fim na cruz. O Espírito, que o Senhor infunde, dá um coração novo e torna o homem e a mulher capazes de se amarem como Cristo nos amou. 
O matrimônio é o ícone do amor de Deus por nós. Com efeito, também Deus é comunhão: as três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo – vivem desde sempre e para sempre em unidade perfeita. É precisamente nisto que consiste o mistério do matrimônio: dos dois esposos, Deus faz uma só existência. Isto tem consequências muito concretas na vida do dia-a-dia, porque, em virtude do sacramento, os esposos são investidos numa autêntica missão, para que possam tornar visível, a partir das realidades simples e ordinárias, o amor com que Cristo ama a sua Igreja, continuando a dar a vida por ela.

A vida toda, tudo em comum
O casamento é uma união que busca do bem do outro, reciprocidade, intimidade, ternura, estabilidade e uma semelhança entre os dois que se vai construindo com a vida partilhada. O matrimônio acrescenta a tudo isso uma exclusividade indissolúvel, que se expressa no projeto estável de partilhar e construir juntos toda a existência. Estes e outros sinais mostram que, na própria natureza do amor conjugal, existe a abertura ao definitivo. É uma aliança diante de Deus, que exige fidelidade: O Senhor constituiu-Se testemunha entre ti e a esposa da tua juventude, aquela que tu atraiçoaste, embora ela fosse a tua companheira e aquela com quem fizeste aliança. Ninguém atraiçoe a mulher da sua juventude, porque Eu odeio o divórcio (Ml 2, 14.15-16).
Um amor frágil cede à cultura do provisório, que impede um processo constante de crescimento. Mas prometer um amor que dure para sempre é possível, quando se descobre um desígnio maior que os próprios projetos, que nos sustenta e permite doar o futuro inteiro à pessoa amada. Para que este amor possa atravessar todas as provações e manter-se fiel contra tudo, requer-se o dom da graça que o fortalece e eleva. Como dizia São Roberto Belarmino, “o fato de um só se unir com uma só num vínculo indissolúvel, de modo que não possam separar-se, sejam quais forem as dificuldades, e mesmo quando se perdeu a esperança da prole, isto não pode acontecer sem um grande mistério”.
Além disso, o matrimônio inclui a paixão, mas sempre orientada para uma união cada vez mais firme e intensa. Com efeito, não foi instituído só em ordem à procriação, mas para que o amor mútuo se exprima convenientemente, aumente e chegue à maturidade. Esta união peculiar entre um homem e uma mulher adquire um caráter totalizante, que só se verifica na união conjugal. E precisamente por ser totalizante, esta união também é exclusiva, fiel e aberta à geração. Partilha-se tudo, incluindo a sexualidade, sempre no mútuo respeito.
Alegria e beleza
No matrimônio convém cuidar da alegria do amor. Quando a busca do prazer é obsessiva, encerra-nos numa coisa só e não permite encontrar outros tipos de satisfações. Pelo contrário, a alegria expande a capacidade de desfrutar e permite-nos encontrar prazer em realidades variadas, mesmo nas fases da vida em que o prazer se apaga. A alegria matrimonial implica aceitar que o matrimônio é uma combinação necessária de alegrias e fadigas, de tensões e repouso, de sofrimentos e libertações, de satisfações e buscas, de aborrecimentos e prazeres.
A beleza – o “valor sublime” do outro, que não coincide com os seus atrativos físicos ou psicológicos – permite-nos saborear o caráter sagrado da pessoa. Na sociedade de consumo, o sentido estético empobrece-se e, assim, se apaga a alegria. Tudo se destina a ser comprado, possuído ou consumido, incluindo as pessoas. Ao contrário, a ternura é uma manifestação deste amor que se liberta do desejo da posse egoísta. Isto permite-me procurar o seu bem, mesmo quando sei que não pode ser meu ou quando se tornou fisicamente desagradável, agressivo ou chato.
O olhar que aprecia tem uma enorme importância e, recusá-lo, habitualmente faz dano. Muitas feridas e crises têm a sua origem no momento em que deixamos de nos contemplar. Isto é o que exprimem algumas queixas e reclamações, que se ouvem nas famílias: “O meu marido não me olha, para ele parece que sou invisível”. “Por favor, olha para mim, quando te falo”. “A minha mulher já não me olha, agora só tem olhos para os filhos”. Em minha casa, não interesso a ninguém, nem sequer me vêem, é como se não existisse»”. O amor abre os olhos e permite ver, mais além de tudo, quanto vale um ser humano.
Por outro lado, a alegria renova-se no sofrimento. Depois de ter sofrido e lutado unidos, os cônjuges podem experimentar que valeu a pena, porque conseguiram algo de bom, aprenderam alguma coisa juntos ou podem apreciar melhor o que têm. Poucas alegrias humanas são tão profundas e festivas como quando duas pessoas que se amam conquistaram, conjuntamente, algo que lhes custou um grande esforço compartilhado.
Casar-se por amor
Quero dizer aos jovens que nada disto é prejudicado, quando o amor assume a modalidade da instituição matrimonial. A união encontra nesta instituição o modo de canalizar a sua estabilidade e o seu crescimento real e concreto. Casar-se é uma maneira de exprimir que realmente se abandonou o ninho materno, para tecer outros laços fortes e assumir uma nova responsabilidade perante outra pessoa. Por isso, o matrimônio supera qualquer moda passageira e persiste. A sua essência está radicada na própria natureza da pessoa humana e do seu caráter social. Implica uma série de obrigações; mas estas brotam do próprio amor, um amor tão decidido e generoso que é capaz de arriscar o futuro.
Semelhante opção pelo matrimônio expressa a decisão real e efetiva de transformar dois caminhos num só, aconteça o que acontecer e contra todo e qualquer desafio. Pela seriedade de que se reveste este compromisso público de amor, não pode ser uma decisão precipitada; mas, pela mesma razão, também não pode ser adiado indefinidamente. Comprometer-se de forma exclusiva e definitiva com outro sempre encerra uma parcela de risco e de aposta ousada. A recusa de assumir um tal compromisso é egoísta, interesseira, mesquinha; não consegue reconhecer os direitos do outro e não chega jamais a apresentá-lo à sociedade como digno de ser amado incondicionalmente.
Amor que se manifesta e cresce
O amor de amizade unifica todos os aspectos da vida matrimonial e ajuda os membros da família a avançarem em todas as suas fases. Por isso, os gestos que exprimem este amor devem ser constantemente cultivados, sem mesquinhez, cheios de palavras generosas. Na família é necessário usar três palavras: com licença, obrigado, desculpa. Quando numa família não somos invasores e pedimos “com licença”, quando na família não somos egoístas e aprendemos a dizer “obrigado”, e quando na família nos damos conta de que fizemos algo incorrecto e pedimos “desculpa”, nessa família existe paz e alegria.
Não fazem bem certas fantasias sobre um amor idílico e perfeito, privando-o assim de todo o estímulo para crescer. Não existem as famílias perfeitas que a publicidade falaciosa e consumista nos propõe. Nelas, não passam os anos, não existe a doença, a tribulação nem a morte. (...) A publicidade consumista mostra uma realidade ilusória que não tem nada a ver com a realidade que devem enfrentar no dia-a-dia os pais e as mães de família. É mais saudável aceitar com realismo os limites, os desafios e as imperfeições, e dar ouvidos ao apelo para crescer juntos, fazer amadurecer o amor e cultivar a solidez da união, suceda o que suceder.
O diálogo
O diálogo é uma modalidade privilegiada e indispensável para viver, exprimir e maturar o amor na vida matrimonial e familiar. Reservar tempo, tempo de qualidade, que permita escutar, com paciência e atenção, até que o outro tenha manifestado tudo o que precisava comunicar. Em vez de começar a dar opiniões ou conselhos, é preciso assegurar-se de ter escutado tudo o que o outro tem necessidade de dizer. Isto implica fazer silêncio interior, para escutar sem ruídos no coração e na mente: despojar-se das pressas, pôr de lado as próprias necessidades e urgências, dar espaço. Muitas vezes um dos cônjuges não precisa duma solução para os seus problemas, mas de ser ouvido.
É necessário desenvolver o hábito de dar real importância ao outro. Trata-se de dar valor à sua pessoa, reconhecer que tem direito de existir, pensar de maneira autónoma e ser feliz. É preciso nunca subestimar aquilo que diz ou reivindica, ainda que seja necessário exprimir o meu ponto de vista. Para isso, é preciso colocar-se no seu lugar e interpretar a profundidade do seu coração, individuar o que o apaixona, e tomar essa paixão como ponto de partida para aprofundar o diálogo.
Deve-se ter amplitude mental, para não se encerrar obsessivamente numas poucas ideias, e flexibilidade para poder modificar ou completar as próprias opiniões. É possível que, do meu pensamento e do pensamento do outro, possa surgir uma nova síntese que nos enriqueça a ambos. A unidade, a que temos de aspirar, não é uniformidade, mas uma “unidade na diversidade” ou uma “diversidade reconciliada”.
Por último, reconheçamos que, para ser profícuo o diálogo, é preciso ter algo para se dizer; e isto requer uma riqueza interior que se alimenta com a leitura, a reflexão pessoal, a oração e a abertura à sociedade. Caso contrário, a conversa torna-se aborrecida e inconsistente. Quando cada um dos cônjuges não cultiva o próprio espírito e não há uma variedade de relações com outras pessoas, a vida familiar torna-se endogâmica e o diálogo fica empobrecido.
O mundo das emoções
Desejos, sentimentos, emoções (os clássicos chamavam-lhes paixões) ocupam um lugar importante no matrimônio. É próprio de todo o ser vivo tender para outra realidade, e esta tendência reveste-se sempre de sinais afetivos: prazer ou sofrimento, alegria ou tristeza, ternura ou receio. O ser humano é um vivente desta terra, e tudo o que faz e busca está carregado de paixões.
Experimentar uma emoção não é, em si mesmo, algo moralmente bom nem mau. O que pode ser bom ou mau é o ato que a pessoa realiza movida ou sustentada por uma paixão. Pois, se os sentimentos são alimentados, procurados e, por causa deles, cometemos más ações, o mal está na decisão de os alimentar e nos atos maus que se seguem. Na mesma linha, sentir atração por alguém não é, por si, um bem. Se esta atração me leva a procurar que essa pessoa se torne minha escrava, o sentimento estará ao serviço do meu egoísmo. Neste caso, os sentimentos desviam dos grandes valores e escondem um egocentrismo que torna impossível cultivar uma vida sadia e feliz em família.
O amor matrimonial leva a procurar que toda a vida emotiva se torne um bem para a família e esteja ao serviço da vida em comum. A maturidade chega a uma família quando a vida emotiva dos seus membros se transforma numa sensibilidade que não domina nem obscurece as grandes opções e valores, mas segue a sua liberdade, brota dela, enriquece-a, embeleza-a e torna-a mais harmoniosa para bem de todos.
Deus ama a alegria dos seus filhos
Algumas correntes espirituais insistem em eliminar o desejo para se libertar da dor. Mas nós acreditamos que Deus ama a alegria do ser humano, pois Ele criou tudo para nosso usufruto (1 Tim 6, 17). Deixemos brotar a alegria à vista da sua ternura, quando nos propõe: Meu filho, se tens com quê, trata-te bem. (...) Não te prives da felicidade presente (Eclo 14, 11.14). Também um casal de esposos corresponde à vontade de Deus, quando segue este convite bíblico: No dia da felicidade, sê alegre (Eclo 7, 14). A questão é ter a liberdade para aceitar que o prazer encontre outras formas de expressão nos sucessivos momentos da vida, de acordo com as necessidades do amor mútuo.
A dimensão erótica do amor
Tudo isto nos leva a falar da vida sexual dos esposos. O próprio Deus criou a sexualidade, que é um presente maravilhoso para as suas criaturas. Quando se cultiva e evita o seu descontrole, fazemo-lo para impedir que se produza o depauperamento de um valor autêntico. A sexualidade não é um recurso para compensar ou entreter, mas trata-se de uma linguagem interpessoal onde o outro é tomado a sério, com o seu valor sagrado e inviolável. Assim, o coração humano torna-se participante, por assim dizer, de outra espontaneidade. Neste contexto, o erotismo aparece como uma manifestação especificamente humana da sexualidade. O erotismo mais saudável, embora esteja ligado a uma busca de prazer, supõe a admiração e, por isso, pode humanizar os impulsos.
Assim, não podemos, de maneira alguma, entender a dimensão erótica do amor como um mal permitido ou como um peso tolerável para o bem da família, mas como dom de Deus que embeleza o encontro dos esposos. Tratando-se de uma paixão sublimada pelo amor que admira a dignidade do outro, torna-se uma afirmação amorosa plena e cristalina, mostrando-nos de que maravilhas é capaz o coração humano, e assim, por um momento, sente-se que a existência humana foi um sucesso.
Violência e manipulação
Não podemos ignorar que muitas vezes a sexualidade se despersonaliza e enche de patologias, de modo que se torna cada vez mais ocasião e instrumento de afirmação do próprio eu e de satisfação egoísta dos próprios desejos e instintos. Neste tempo, também a sexualidade corre grande risco de se ver dominada pelo espírito venenoso do usa e joga fora. Com frequência, o corpo do outro é manipulado como uma coisa que se conserva enquanto proporciona satisfação e se despreza quando perde a atração.
Nunca é demais lembrar que, mesmo no matrimônio, a sexualidade pode tornar-se fonte de sofrimento e manipulação. Por isso, devemos reafirmar, claramente, que um ato conjugal imposto ao próprio cônjuge, sem consideração pelas suas condições e pelos seus desejos legítimos, não é um verdadeiro ato de amor e nega, por isso mesmo, uma exigência de reta ordem moral, nas relações entre os esposos. Por isso, São Paulo exortava: Que ninguém, nesta matéria, defraude e se aproveite do seu irmão (1 Ts 4, 6). E não obstante ele escrevesse numa época em que dominava uma cultura patriarcal, na qual a mulher era considerada um ser completamente subordinado ao homem, todavia ensinou que a sexualidade deve ser uma questão a discutir entre os cônjuges: levantou a possibilidade de adiar as relações sexuais por algum tempo, mas de mútuo acordo (1 Cor 7, 5).
É importante deixar claro a rejeição de toda a forma de submissão sexual. Por isso, convém evitar toda a interpretação inadequada do texto da Carta aos Efésios, onde se pede que as mulheres [sejam submissas] aos seus maridos (Ef 5, 22). Retomemos São João Paulo II: “O amor exclui todo o genero de submissão, pelo qual a mulher se tornasse serva ou escrava do marido”. Por isso, se diz que devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo (Ef 5, 28). Na realidade, o texto bíblico convida: Submetei-vos uns aos outros (Ef 5, 21).
Lembremo-nos de que um amor verdadeiro também sabe receber do outro, é capaz de se aceitar como vulnerável e necessitado, não renuncia a receber, com gratidão sincera e feliz, as expressões corporais do amor na carícia, no abraço, no beijo e na união sexual. Bento XVI era claro a este respeito: “Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade”.
Matrimónio e virgindade
A virgindade é uma forma de amor. Como sinal, recorda-nos a solicitude pelo Reino, a urgência de entregar-se sem reservas ao serviço da evangelização (cf. 1Cor 7, 32) e é um reflexo da plenitude do Céu, onde nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos (Mt 22, 30). São Paulo recomendava a virgindade, porque esperava para breve o regresso de Jesus Cristo e queria que todos se concentrassem apenas na evangelização: O tempo é breve (1Cor 7, 29). Contudo deixa claro que era uma opinião pessoal e um desejo dele (cf. 1Cor 7, 6-8), não uma exigência de Cristo: Não tenho nenhum preceito do Senhor (1Cor 7, 25). Ao mesmo tempo reconhecia o valor de ambas as vocações: Cada um recebe de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira, outro de outra (1Cor 7, 7). Neste sentido, diz São João Paulo II que os textos bíblicos não oferecem motivo para sustentar nem a “inferioridade” do matrimônio, nem a “superioridade” da virgindade ou do celibato devido à abstinência sexual. Em vez de se falar da superioridade da virgindade sob todos os aspectos, parece mais apropriado mostrar que os diferentes estados de vida são complementares, de tal modo que um pode ser mais perfeito num sentido e outro pode sê-lo a partir dum ponto de vista diferente. Por exemplo, Alexandre de Hales afirmava que, em certo sentido, o matrimónio pode-se considerar superior aos restantes sacramentos, porque simboliza algo tão grande como «a união de Cristo com a Igreja ou a união da natureza divina com a humana».[167]
A transformação do amor

O alongamento da vida provocou algo que não era comum noutros tempos: a relação íntima e a mútua pertença devem ser mantidas durante quatro, cinco ou seis décadas, e isto gera a necessidade de renovar repetidas vezes a recíproca escolha. É o companheiro no caminho da vida, com quem se pode enfrentar as dificuldades e gozar das coisas lindas. Não é possível prometer que teremos os mesmos sentimentos durante a vida inteira; mas podemos ter um projeto comum estável, comprometer-nos a amar-nos e a viver unidos até que a morte nos separe, e viver sempre uma rica intimidade. O amor, que nos prometemos, supera toda a emoção, sentimento ou estado de ânimo, embora possa incluí-los. É um querer-se bem mais profundo, com uma decisão do coração que envolve toda a existência. 
-- resumo de parte do capítulo 4 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, Papa Francisco

26 de jun. de 2016

O argumento teológico de Henrique VIII

Nestes tempos de rompimento da Inglaterra com a Europa, vamos rever um rompimento realmente histórico que ocorreu a quase 500 anos: o Rei Henrique VIII brigou com o Papa e criou a Igreja da Inglaterra, separando-a da Igreja Católica. 

Todos aprendemos, meio por alto, que o Rei gostaria de casar novamente por que a primeira esposa não conseguia ter filhos. Mas como o Igreja Católica nunca aprovou o divórcio e o Rei tinha pessoas inteligentes para auxiliá-lo, o pedido para o Papa tinha que ser algo mais aceitável. De fato, o Rei nunca pediu para o Papa aprovar o divórcio, isto seria negado rapidamente, sem muitas discussões. Na verdade foi pedido que a Igreja reconhecesse que o casamento seria nulo por que transgrediria a lei divina.

Rei Henrique VIII quando assumiu
o trono aos 18 anos (1509).
Antes de entrar no cerne do argumento, um pouco mais de história para entender o contexto. O jovem Henrique não era o sucessor natural de seu pai, Henrique VII, pois tinha um irmão mais velho, Artur. Como era típico nas famílias reais, seus pais começaram a negociar o casamento do futuro rei quando ele ainda era criança, afinal sua esposa seria a futura Rainha da Inglaterra. Artur foi prometido para Catarina de Aragão, filha dos reis espanhois Fernando e Isabela em 1488, quando Artur tinha dois anos e Catarina apenas três anos! O casamento ocorreu em Londres quando ambos atingiram os 15 anos. 

Os problemas começaram meses depois quando Artur adoeceu e morreu, deixando Catarina viúva aos 16 anos. Henrique, aos 12 anos, tornou-se o príncipe sucessor e não havia planos ainda para seu casamento. Para manter a aliança com a Espanha estável, a solução foi fácil pois Catarina já estava ali a disposição. 

Mas havia um impedimento no direito canônico da época: casar a viúva do irmão não era permitido, exceto se a Igreja concedesse uma permissão especial. Feito o pedido e as devidas tratativas políticas, o Papa Julio II permitiu a realização do casamento. Do ponto de vista canônico, estava tudo perfeito.

Infelizmente Catarina não conseguiu ter filhos saudáveis e o Rei estava sem um sucessor; foram 5 bebês que morreram durante ou logo após o parto, apenas Maria sobreviveu. Conforme Catarina envelhecia, Henrique ficava mais e mais ansioso com a situação, até que decidiu casar novamente. É neste momento que importa apresentar um argument  teológico aceitável, não apenas um "eu quero por que quero por que souno o Rei da Inglaterra". Isto não impressionaria o Papa. 

Henrique pediu a anulação do casamento, não o divórcio, alegando um erro do Papa Júlio II, pois ao permitir seu casamento com Catarina, teria se colocado contra a lei divina, baseando-se em Levítico 20, 21: 

Se um homem tomar a mulher de seu irmão, será uma impureza; ofenderá a honra de seu irmão: não terão filhos. 
Rainha Catarina de Aragão, a primeira
esposa legítima de Henrique VIII.

Veja que os fatos estão favoráveis ao Rei, de fato o casal não teve filhos saudáveis. Assim como o Rei Davi, Henrique estaria sendo punido com a morte dos seus, por que o casamento jamais deveria ter sido autorizado pela Igreja. Por óbvio, se a Igreja reconhecesse o erro, o casamento perderia sua validade e o Rei Henrique poderia escolher uma nova esposa, conforme sua conveniência. 

A questão fundamental do julgamento passou a ser: a proibição de casamento com a viúva do irmão é uma lei divina ou criado pelos homens? Se fosse uma lei divina, o Papa teria ultrapassado seus limites, estabelecendo-se acima de Deus. Se fosse uam lei de conveniência humana, o Papa teria agindo dentro dos seus limites e o casamento continuaria válido. 

Apesar da citação do Levítico, outro versículo de Deuteronômio (25, 5) diz exatamente o contrário: Se um irmão morrer sem deixar filhos, a viúva não se casará com um estranho, seu cunhado a desposará.

Após algum tempo, o Papa Clemente VII respondeu a Henrique VIII que o casamento havia sido válido. O Rei declarou-se acima do Papa em assuntos da Igreja na Inglaterra e terminou por casar-se com Ana Bolena em uma cerimônia realizada secretamente. Catarina foi exilada e morreu em 1539, sua filha Maria casou-se com o Príncipe Felipe da Espanha em 1553 e tornou-se rainha da Inglaterra em 1556.

Quanto ao Direito Canônico (canons 1089-1092), o impedimento de casar a viúva do irmão foi retirado em 1983 pelo Santo Papa João Paulo II. Porém continua proibido o casamento entre pais, filhos e irmãos; sogros, genros e noras; além de outros casos que incluem ações criminais, como assassinar ou sequestrar o atual cônjuge.

-- autoria propria

19 de jul. de 2015

Pode a esposa casar quando o marido desaparece?

Ano passado um avião com mais de 200 pessoas simplesmente sumiu. Por mais buscas que tenham sido realizadas, não foi encontrada uma única parte que possa ser útil para indicar seu destino final, muito menos a localização do que tenha restado. No século 21, mais de 200 pessoas desapareceram deixando famílias para trás. 

Menos espetacular e longe das manchetes, há histórias de pessoas que saíram para ir trabalhar, comprar leite na esquina ou ir numa festa, e nunca mais foram vistas. A polícia é acionada, familiares e amigos espalham notas de procura-se pelo Facebook, jornais, etc... e nada. Parece que evaporaram.

Em situações semelhantes, como fica o casamento católico dos que sobreviveram? Podem eles casar novamente? Apesar de pouco conhecido, a Igreja tem um procedimento determinado para tais casos.

Primeiro, é fundamental salientar que o casamento é para toda vida, assim afirma a teologia e confirma o Código Canônico. Um casamento válido e consumado apenas a morte pode dissolver, nenhum poder humano pode alcançá-lo (cânon 1141). 

Alguém poderia dizer que no caso do avião desaparecido, a situação é simples por que o governo já emitiu os atestados de óbitos para todas vítimas. Já aquele que saiu andando de casa, com boa saúde, e sumiu, pode demorar anos, mas a Justiça acabará também emitindo um atestado de óbito. Logo, o eventual viúvo ou viúva pode casar novamente quando achar outra pessoa. 

Nem tão rápido. Assim como um documento civil de divórcio não determina o final de casamento para a Igreja, também um atestado de óbito não o fará automaticamente. O cônjuge sobrevivente deve procurar seu bispo e solicitar uma declaração de morte presumida. O bispo, ouvindo as testemunhas e verificando as provas materiais, dentro das circunstâncias apresentadas, pode determinar com "certeza moral" o falecimento. O cânon 1707 trata do assunto.

Certeza moral é um conceito frequente na teologia moral e em várias situações do direito canônico. Pode-se dizer que é o equivalente ao padrão legal de "além de qualquer dúvida"e significa que a Igreja, utilizando da melhor maneira os fatos conhecidos, sem ser onisciente, toma uma decisão, mesmo sem estar 100% segura do ocorrido. Como seres humanos, bispos podem estar plenamente convencidos de que um fato ocorreu, mas sempre há a possibilidade estar errado, afinal somos falíveis. Mas, muitas vezes, a "certeza moral" é suficiente e a única forma possível de decidir em casos em que alguma ação se faz necessária, por isso Igreja entende que é suficiente.

Com base em decisão do bispo, o casamento é automaticamente reconhecido como concluído, e temos, então, um viúvo ou viúva que pode casar dentro da fé cristã. 

Mas digamos que, após anos e anos, já o segundo casamento plenamente válido e consumado, reaparece o primeiro marido. Coisas de novelas acontecem também na vida real. Qual a solução da Igreja? Como já observado, um casamento só pode ser dissolvido com a morte de um dos cônjuges, e aquele que se considerava morto, descobre-se estar vivo. A consequência lógica e imediata é que o primeiro casamento ainda é válido e o segundo, baseado em um erro de julgamento, não é válido. 

Obviamente esta seria um experiência extremante dolorosa e lastimável, de erros humanos que podem afetar muitas vidas e obrigaria o bispo a usar de grande caridade para lidar com as consequências adequadamente. Mas para a Igreja, a situação é clara: não morreu, o casamento não terminou! Felizmente não é uma situação comum, mas que está prevista no Código Canônico por não ser inédita.

Para quem se interessar, eis um link para o Código Canônico.

-- Autoria própria

19 de jan. de 2015

Celibato, continência e castidade

A segunda leitura deste domingo nos dizia: O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo (1 Cor 6,13). Pois bem, é comum encontrar uma confusão em três termos bastante comuns quando falamos sobre a posição da Igreja sobre sexualidade: celibato, continência e castidade. Então, para esclarecer melhor o que significam, vou traduzir um excelente texto do canonista Edward Peters (original aqui).

Celibato é a escolha, consciente e delibarada, de não entrar em um casamento. Celibato não é apenas ser solteiro, é uma decisão pessoal; por óbvio, nenhuma criança é celibatária. Pode ser uma escolha temporária, por exemplo decidir esperar até a formatura, ou permanente, devido a votos religiosos. Pode ser uma escolha por boas razões, como ir ajudar os necessitados em países distantes; ou por más razões, como manter a independência para namorar quantas pessoas desejar. Quando houver livre escolha, podemos chamar tal pessoa de celibatária.

Portanto, solteiros, sejam quais forem as circunstâncias, talvez não tenha encontrado o amor da sua vida ou decidiu entrar na vida religiosa, são convidados pela Igreja a restrigirem suas atividades sexuais, a exercerem a continência, próxima palavra que veremos. Por enquanto, enfatiza-se que celibato é uma escolha de vida, temporária ou permanente.

Continência é a escolha de não manter relações sexuais. Novamente, é importante ser uma escolha, simplesmente não ter sexo não é exatamente continência. Se houver um problema de saúde que impossibilite relações sexuais, não teriamos continência, ou num exemplo extremo, uma pessoa vivendo sozinha numa ilha não teria parceiros para manter relações, Em ambos casos não se falaria de continência. 

Todos solteiros são chamados a se absterem de relações sexuais, mesmo que estejam namorando ou sejam noivos. Mas também é possível que casais decidem manter continência, o caso de Maria e José. Eles não eram celibatários, pois estavam casados, mas abstiveram-se de relações sexuais. 

A expressão "continência temporária" é comum e significa que um casal decide não manter relações por um tempo, como, por exemplo, o tempo de Quaresma. Mas, neste caso, o termo "abstinência" é mais adequado. 

Castidade é uma virtude que ocorre quando a pessoa utiliza sua capacidade sexual em acordo com seu estado de vida. Ou seja, uma pessoa solteira é casta se mantiver continência, isto é, não manter relações sexuais; uma pessoa casada é casta se mantiver relações sexuais apropriadas com sua esposa, e somente com sua esposa. Em ambos casos, solteiros ou casados, trata-se da mesma virtude, mas as ações são diferentes. 

Em resumo, a Igreja ensina que todos são chamados a castidade, em todos os tempos e situações; que pessoas solteiras são chamadas à continência; e reconhece que algumas pessoas podem escolher o celibato como modo de vida por justas razões.

-- Tradução própria.

15 de out. de 2014

Posso casar no religioso sem casar no civil?

Dia destes uma amiga postou no Facebook um vídeo do Padre Paulo Ricardo intitulado "Posso casar no religioso sem casar no civil?". Sem nem mesmo assistir o vídeo, respondi imediatamente "Não deve!". Padre Paulo responde baseado no Direito Canônico e está absolutamente certo, mas eu pensei em termos bastante diferentes.

Minha reação foi pensar porque um dos noivos proporia tal arranjo e, lembrando de alguns casos, formulei minhas hipóteses:

Primeira: deixar tudo mais simples caso tenha que se separar.

Neste caso, nem deve casar, principalmente na Igreja, por que não acredita num conceito fundamental - casamento é para sempre, o casal é convidado a perdoar as falhas do cônjuge infinitas vezes, se necessário; não desistir nunca, rezar juntos, pedir a graça da perseverança tantas vezes quanto necessário. 

Segunda: algum motivo relacionado a dinheiro, como querer esconder certos bens do cônjuge.

De novo, haveria um problema sério de compreensão sobre casamento. Um casal divide tudo, na riqueza ou na pobreza, e em todas outras circuntâncias. Tudo deve ser compartilhado, nada escondido, inclusive as contas. Em termos práticos, é interessante que as contas bancárias, cartões de crédito, etc... sejam todos em conjunto e do conhecimento de ambos.

Terceira: a situação legal não permitiria o casamento ou gostaria de esconder o fato que já foi casado antes.

Se um dos dois já foi casado e ainda não contou para o noivo/noiva, por que esconderia? Como saber se não há filhos ou outras "surpresas" guardadas no passado? Ou seria apenas falta de confiança? Mas se não confia, por que casar? Bem, se a situação legal não permite um segundo casamento, é bom clarear todos os fatos, sob pena de nulidade sacramental.

Enfim, pode não ser obrigatório, mas não vejo bons motivos para não casar no civil.  

-- autoria própria

21 de set. de 2014

Alterações no processo de anulação de casamentos

Monsenhor Pio Vito Pinto foi nomeado para a
Rota Romana em 25 de Março de 1995.
Isto é importante. O Serviço de Imprensa do Vaticano anunciou neste sábado que o Papa Francisco criou uma Comissão Especial presidida pelo Monsenhor Pio Vito Pinto, decano do Tribunal da Rota Romana. O trabalho tem por objetivo preparar uma proposta de reforma dos processos de anulação matrimonial com o objetivo de simplificar os procedimentos e salvaguardar os princípios de indissolubilidade do matrimônio. 

A comissão iniciará seus trabalhos próximo ao início do Concílio Extraordinário para discutir diversos assuntos ligados à família, que ocorrerá em Outubro. Em várias manifestações de Bispos nos últimos meses, simplificar a anulação de casamentos tem sido um tema recorrente e um dos poucos que não interfere em questões de fé, como a comunhão de casais em segunda união. 

Sempre lembrando que a anulação do casamento não é uma espécie de "divórcio católico", pelo contrário, é o reconhecimento que, por algum justo motivo, os laços matrimoniais não foram criados. O processo nos tribunais canônicos analisa se os motivos alegados são verdadeiros e podem ser comprovados, justificando a anulação do casamento. 

9 de ago. de 2014

Casamento, divórcio e nulidade

Casamentos são para toda vida. Esta idéia é fundamental na Igreja Católica e repetida muitíssimas vezes quando a Igreja se posiciona contrária ao divórcio. No entanto, é possível que a Igreja declare um casamento nulo, o que para a maioria parece ser uma espécie de "divórcio" católico.

Em realidade, nada mais diferente que divórcio e nulidade. Quando um casamento é declarado nulo, é uma afirmação que o casamento jamais existiu; enquanto o divórcio civil parte do pressuposto que o contrato de casamento foi contraído e agora está sendo rompido de maneira amigável ou não. 

O conceito fundamental na declaração de nulidade é a validade do sacramento. O termo validade questiona se um sacramento externamente administrado teve, realmente, efeitos espirituais. Validade sacramental requer as palavras corretas, alguém autorizado a ministrá-lo (diácono, padre ou bispo), e a intenção correta e clara de todos, ministro e fiéis recebendo o sacramento. Por exemplo, no Batismo, a fórmula correta é "Eu te batizo em nome do Pai, Filho e Espírito Santo". Batizar apenas em nome de Deus ou acrescentar Nossa Senhora, por exemplo, invalidaria o Batismo. O Batismo deve ser feito com água. Se por alguma razão, o padre utilizar outro líquido, também invalidaria o Batismo. E, por fim, se o batizando ao mesmo tempo continuar participando em outra religião, digamos, é um "pai-de-santo", o Batismo também não é válido; embora tenha acontecido na frente de todos dentro da Igreja. Ou seja, a aparência externa é importante, mas não é tudo.

E quanto ao casamento? Primeiro, a imensa maioria dos católicos assume que o padre confere o sacramento. Mas, de fato, o sacramento é administrado pelos próprios esposos. O canon 1057 explica que o casamento é um ato voluntário de consentimento mútuo, legitimamanete manifestado por pessoas habilitadas. O padre apenas pergunta ao noivos se concordam em receber o outro como legítimo esposo, em todas circunstâncias da vida (na riqueza, neccessidade, riqueza, pobreza, doença, saúde, etc...) e de maneira indissolúvel (nenhum homem pode separar). Uma falha de consentimento, por um ou ambos noivos, pode tornar o sacramento inválido. 

Para expressar o consentimento, cada noivo deve entender plenamente a idéia de casamento, na concepção católica, e serem plenamente habilitados mental e emocionalmente a compreenderam seus atos. O canon 1055 desfine casamento como sendo "o pacto matrimonial, pelo qual o homem e a mulher constituem entre si o consórcio íntimo de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole, entre os batizados foi elevado por Cristo Nosso Senhor à dignidade de sacramento".

O termo é "pacto", que implica concordância, entre um homem e uma mulher, tendo como objetivo o bem do casal e seus filhos, de maneira natural. Os cursos pré-nupciais devem explicar, de todos modos possíveis, este conceito, para que os noivos entendam plenamente do que a Igreja está falando e possam concordar com algo que conhecem.

E quanto às capacidades, a mental é mais simples de ser observada: pessoas doentes mentais ou senis não possuem suficiente capacidade para compreender os seus atos de maneira plena, incluindo o casamento; se alguém estiver bêbado ou drogado durante a cerimônia, também não está apto a expressar seu consentimento (a rigor, o padre poderia não realizar o casamento); já a capacidade psíquica é mais difícil de ser identificada, pois traumas passados podem interferir seriamente nas decisões de uma pessoa, mas também é uma razão válida para nulidade sacramental.

Além das falhas de consentimento, há outros motivos mais claros para decretar nulidade, como a idade dos noivos, um deles já ter outra família constituída, falsidade ideológica - dizer que é uma pessoa, enquanto sabe ser outra, etc... Em geral, estes motivos são mais simples de demonstrar pois as provas materiais são muito mais evidentes e fácil de serem obtidas, enquanto falhas de consentimento podem ser imateriais e depender mais de julgamento. 

Se há algo que podemos fazer é rezar para que o padres reunidos no próximo Concílio para tratarem dos assuntos da família, que será realizado ainda neste ano, inspirados pelo Espírito Santo, possam encontrar maneiras práticas de explicitarem  de maneira mais simples e clara o conceito de casamento católico para os fiéis, casados ou não. 

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