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10 de mai. de 2025

O significado da palavra Conversão


No Evangelho, a palavra conversão aparece em dois contextos diferentes e é dirigida a dois tipos diferentes de ouvintes. O primeiro é dirigido a todos, o segundo àqueles que já aceitaram o seu convite e o acompanham há muito tempo. Referimo-nos ao primeiro apenas para compreender melhor o segundo, que é o que mais nos interessa, neste período de transição na vida da Renovação Carismática Católica. A pregação de Jesus começa com as palavras programáticas: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam na Boa Nova” (Marcos 1:15).

Antes de Jesus, conversão sempre significou “retornar” (o termo hebraico, shub, significa mudar de rumo, refazer os passos). Indicava o ato de alguém que, em determinado momento da vida, percebe que está “fora do caminho”. Então ele para, reconsidera, decide voltar a observar a lei e retornar à aliança com Deus. Ele faz uma “mudança de direção” genuína e verdadeira. A conversão, neste caso, tem um significado fundamentalmente moral e sugere a ideia de algo doloroso de se realizar: mudança de hábitos.

Este é o significado usual de conversão na boca dos profetas, até e incluindo João Batista. Mas nos lábios de Jesus esse significado muda. Não porque ele goste de mudar o significado das palavras, mas porque com sua chegada as coisas mudaram. “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo!” Arrependimento não significa mais retornar à antiga aliança e à observância da lei, mas sim prosseguir e entrar no reino, alcançando a salvação que veio gratuitamente aos homens, pela livre e soberana iniciativa de Deus.

Conversão e salvação trocaram de lugar. Não primeiro a conversão e depois, como consequência disso, a salvação, mas, ao contrário: primeiro a salvação, depois, como uma exigência dela, a conversão. Não: convertam-se e o Reino virá entre vocês, o Messias virá, como diziam os últimos profetas, mas: convertam-se porque o Reino chegou, ele está entre vocês. Converter-se é tomar a decisão salvadora, a “decisão agora”, como a descrevem as parábolas do reino.

“Arrependei-vos e crede” não significa duas coisas diferentes e sucessivas, mas a mesma ação fundamental: arrependei-vos, isto é, crede! Converta-se crendo! Tudo isso requer uma verdadeira conversão, uma mudança profunda na maneira como entendemos nosso relacionamento com Deus. É preciso passar da ideia de um Deus que exige, que comanda, que ameaça, para a ideia de um Deus que estende as mãos cheias para nos dar tudo. É a conversão da lei à graça que São Paulo tanto apreciava.

Ouçamos agora o segundo contexto em que o Evangelho fala novamente de conversão:

“Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: “Quem é, pois, o maior no Reino dos céus?” Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,1-4).

Desta vez, converter significa voltar para quando você era criança! O mesmo verbo usado, strefo, indica inverter a direção da viagem. Esta é a conversão de alguém que já entrou no Reino, creu no Evangelho e serviu a Cristo por muito tempo. É a nossa conversão, a de nós que estamos na Renovação Carismática há anos, talvez desde o início.

O que aconteceu com os apóstolos? O que implica o argumento sobre quem é o maior? Que a maior preocupação não é mais o reino, mas a posição de cada um nele, o próprio eu. Cada um deles tinha algum direito de aspirar a ser o maior: Pedro havia recebido a promessa da primazia, Judas a bolsa de dinheiro, Mateus podia dizer que havia renunciado a mais que os outros, André que havia sido o primeiro a segui-lo, e João que havia estado com ele no Tabor... Os frutos dessa situação são evidentes: rivalidade, suspeitas, confrontos, frustração.

Para os apóstolos, tornar-se crianças significava voltar a ser como eram no momento da chamada à beira do lago ou à coletoria de impostos: sem pretensões, sem direitos, sem conflitos entre si, sem inveja, sem rivalidade. Rico apenas de uma promessa (“Eu vos farei pescadores de homens”) e de uma presença, a de Jesus. Volte ao tempo em que eles ainda eram parceiros de aventura, não competidores pelo primeiro lugar. Para nós também, tornar-se crianças significa retornar ao momento em que tivemos pela primeira vez uma experiência pessoal do Espírito Santo e descobrimos o que significa viver no senhorio de Cristo. Quando dissemos: “Só Jesus basta!” e nós acreditamos.

Fico impressionado com o exemplo do apóstolo Paulo descrito em Filipenses 3. Tendo descoberto Jesus como seu Senhor, ele considera todo o seu passado glorioso como perda, como lixo, a fim de ganhar a Cristo e se vestir com a justiça que vem pela fé nele. Mas um pouco mais adiante, ele faz esta declaração: “Irmãos, não penso que já o tenha alcançado. Uma coisa faço: esqueço-me das coisas que ficaram para trás e avanço para as que estão diante de mim” (Fp 3:13). Que passado? Não mais a do fariseu, mas a do apóstolo. Ele sentiu o perigo de se ver com um novo ganho, uma nova justiça toda sua, derivada do que havia feito a serviço de Cristo. Ele anula tudo com esta decisão: “Eu esqueço o passado e salto para o futuro”.

Como não ver em tudo isso uma lição preciosa para nós na Renovação Carismática Católica? Um dos muitos slogans que circularam nos primeiros anos da Renovação – uma espécie de grito de guerra – era: “Devolvam o poder a Deus!” Talvez ele tenha se inspirado no versículo do Salmo 68:35, “Reconhecei o poder de Deus”, que na Vulgata foi traduzido como “Restaurai (reddite) o poder de Deus”. Durante muito tempo considerei essas palavras como a melhor maneira de descrever a novidade da Renovação Carismática. A diferença é que durante um tempo pensei que o clamor era dirigido ao resto da Igreja e que éramos nós os responsáveis ​​por fazê-lo ressoar; Agora, creio que isso é dirigido a nós que, talvez sem perceber, nos apropriamos parcialmente do poder que pertence a Deus.

Em vista de um novo começo do fluxo de graça da Renovação Carismática, é necessário esvaziar os bolsos, começar do zero, repetir com profunda convicção as palavras sugeridas pelo próprio Jesus: “Somos servos inúteis; fizemos o que fomos chamados a fazer” (Lc 17,10). Façamos nosso o propósito do Apóstolo: "Esqueço-me das coisas que ficam para trás e avanço para as que estão à frente". Imitemos os vinte e quatro anciãos do Apocalipse, que "lançaram as suas coroas diante do trono, dizendo: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder" (Ap 4, 10-11).

A palavra de Deus a Isaías continua relevante: "Pois eis que eu o renovo; ele já está a caminho; você não o reconhece?" (Is 43, 19). Bem-aventurados seremos se permitirmos que Deus renove o que Ele tem em mente neste momento para nós e para a Igreja.

Minha sugestão para a corrente de oração: repita várias vezes ao dia uma das invocações dirigidas ao Espírito Santo na sequência de Pentecostes, aquela que cada um sentir que melhor responde à sua necessidade:

Regar a terra na seca,

cura o coração doente,

lava manchas, infunde

calor da vida no gelo,

domar o espírito indomável,

guia para aquele que entorta o caminho

-- Padre Raniero Cantalamessa O.F.M Cap.

-- A imagem é o quadra A Conversão de São Paulo, de Caravaggio



2 de nov. de 2010

Cristo transformou a morte

Cristo morreu e ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e vivos (Rm 14,9). Deus, porém, não é Deus dos mortos, mas dos vivos (Mt 22,32). Por isso, os mortos, que têm por Senhor aquele que vive, já não são mortos, mas vivos; a vida se apossou deles para que vivam sem nenhum temor da morte, à semelhança de Cristo que, ressuscitado dos mortos, não morre mais (Rm 6,9).

Santo Anastácio de Antioquia

Assim, ressuscitados e libertos da corrupção, não mais sofrerão a morte, mas participarão da ressurreição de Cristo, como Cristo participou da morte que sofreram.

Se ele desceu à terra, até então uma prisão perpétua, foi para arrombar as portas de bronze e quebrar as trancas de ferro (cf Is 45,2; Sl 106,16), a fim de atrair-nos a si, livrando da corrupção a nossa vida e convertendo em liberdade a nossa escravidão.

Se este plano da salvação ainda não se realizou - pois os homens continuam a morrer e os corpos a decompor-se -  ninguém veja nisso um obstáculo para a fé. Com efeito, já recebemos o penhor de todos os bens prometidos, quando Cristo levou consigo para o alto as prímicias de nossa natureza e já estamos sentados com ele nas alturas, como afirma São Paulo: Ressuscitou-nos com Cristo, e nos fez sentar com ele nos céus (Ef 2,6). 

-- Dos Sermões de Santo Anastácio de Antioquia, bispo (século VI)

11 de mai. de 2010

Renovação pelo Batismo

Os homens são concebidos duas vezes: uma corporalmente, a outra pelo Divino Espírito Santo. Acerca de um e outro nascimento, escreveram muito bem os autores sagrados. João diz: A todos que o receberam, deu-lhes a capacidade de se tornarem filhos de Deus, isto é, aos que acreditam no seu nome, pois estes não nasceram da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,12-13).

Todos os que acreditaram em Cristo, afirma ele, receberam a capacidade de se tornarem filhos de Deus, quer dizer, do Espírito Santo, e participantes da natureza divina. E para ficar bem claro que o Deus que gera é o Espírito Santo, acrescenta estas palavras de Cristo: Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus (Jo 3,5).

Como um vaso de barro, o homem precisa primeiro ser purificado pela água; em seguida, fortalecido e aperfeiçoado pelo fogo espiritual. Deus, com efeito, é um fogo devorador. Precisamos do Espírito Santo para nossa perfeição e renovação. Pois o fogo espiritual sabe também regar, e a água batismal é também capaz de queimar como o fogo.

-- Do Tratado sobre a Trindade, de Didimo de Alexandria (século IV)

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