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14 de jan. de 2017

A Genealogia de Jesus

Ícone ortodoxo para a Genealogia de Jesus. Deitado à
sombra do carvalho deMambré, está Abraão.  No centro,
Maria e seu filho Jesus, em torno algusn antepassados
mais importantes, como Jacó, Davi e Salomão.
O Evangelho de São Mateus inicia com a genealogia de Jesus. A maioria acha este trecho chato e desnecessário, mas há algumas pérolas escondidas. Então, começamos com o trecho do Evangelho (Mat 1, 1-17):

1 Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
2 Abraão gerou a Isaac; e Isaac gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos;
3 E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;
4 E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom;
5 E Salmom gerou, de Raab, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé;
6 E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias.
7 E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa;
8 E Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias;
9 E Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias;
10 E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias;
11 E Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para babilônia.
12 E, depois da deportação para a babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel;
13 E Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor;
14 E Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde;
15 E Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó;
16 E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo.
17 De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações.

Para os judeus, a genealogia, a lista dos antepassados, era fundamental. Então, para apresentar Jesus, São Mateus começa justamente pela genealogia. A lista inicia com Abraão, o pai da fé, a quem Deus se revelou como o único Deus. Passa pelo Rei Davi, fundamental na história da Israel pois unificou o país e  conquistou Jerusalém. Seu filho, o Rei Salomão, construiu o primeiro Templo de Jerusalém, em torno do qual a vida religiosa dos judeus gravita. Daí até chegar a José, marido de Maria, mas não o pai biológico de Jesus. 

A lista repete três vezes quatorze gerações. Por que? Em hebraico, cada palavra pode ser representada por um número e as vogais não são escritas. Assim, o Rei David é escrito como DVD. Cada letra corresponde um número, no caso D=4 e V=6, resultando DVD = 4+6+4 = 14. Ao repetir o número catorze três vezes, Mateus enfatiza a ligação de Jesus com o Rei David, o ungido por Deus para liderar o povo de Israel.

As mulheres na genealogia
Para chegar ao número catorze, a lista é um pouco diferente da sucessão de reis do Antigo Testamento, e nela aparecem cinco mulheres:  Tamar, Raab, Rute, Betsabéia (mulher de Urias) e Maria. 

Tamar era cananéia e foi escolhida por Judá para ser a esposa do seu primeiro filho Her, que morreu sem descendentes (Gn 38). Como era costume, casou-se com o segundo filho, Onã, que também morreu sem descendentes, por culpa do marido que não consumava o ato sexual. Judá, então, recusou-se a deixar o terceiro filho casar com ela, pensando que ela seria de alguma maneira almaldiçoada. Para garantir seus direitos de viúva, ela disfarçou-se de prostituta e deitou-se com Judá, gerando dois filhos gêmeos. Considerando a situação, Judá acabou por reconhecer as ações de Tamar como justas.  

Raab também era cananéia, vivia em Jericó, onde era prostituta. Quando Josué e seu grupo de espiões foi investigar Jericó, Raab os protegeu, por acreditar em Deus (Js 2,1-21). Quando as muralhas de Jericó caíram e Josué invadiu a cidade, apenas Raab e sua família foram poupados (Js 6, 17-25).

Rute é outra estrangeira na lista que escolheu acreditar no Deus de Israel e que experimenta a bondade e misericórida de Deus. Por conselho de sua mãe Noemi, decidiu casar-se com Booz, em vez do noivo a quem fora prometida por seu pai. Certa noite, enquanto Booz dormia, Rute deitou-se ao seu lado, que acabou por aceitá-la como esposa, depois de resolver a questão do primeiro noivado. Rute foi bisavó de Davi e autora de um dos livros da Bíblia. 

Betsabéia era a mulher de Urias, ambos estrageiros. Urias era um dos guerreiros destacados de exército de Davi. Enquanto o marido estava lutando, foi seduzida por Davi e engravidou do futuro Rei Salomão. Na tentativa de esconder o pecado, Davi ordenou que Urias recebesse uma missão suicida, para que morresse sem saber que a esposa engravidara de outro homem (2Sm 11). 

Quatro mulheres estão na lista, nenhuma teve filhos com o marido prometido, como era o esperado na época. Esta é a ligação óbvia, por que Maria também não teve um filho com José. Mas há outros aspectos importantes a considerar.

Os antepassados de Jesus não eram uma família perfeita, sua história também acomodava pecadores. Todos nós temos pecados na nossa vida, assim como esta quatro mulheres, e Deus redime o pecado, pois concedeu a elas o fruto da vida, seus filhos. Perdoar os pecados cometidos por mulheres é constante na vida de Cristo, tanto adúlteras como prostitutas. E isto já está explícito desde o início do Evangelho de Matues.

Além disso, estas estrangeiras marcavam o alcance de Jesus, ao indicar que Ele não era um judeu "puro" que viria para salvar exclusivamente os judeus, mas incluía, desde antes do seu  nascimento, os estrangeiros.

Desde o início do Evangelho de Mateus temos este anúncio essencial a todas as nações: Jesus perdoa os pecados, ninguém é excluído por nascimento ou qualquer outra condição.

-- este texto é quase uma transcrição da catequese dada pelo Pe. Pat Angelucci no Curso sobre o Evangelho de São Mateus, na minha paróquia.

10 de jun. de 2015

Vós sois a luz do mundo

São Cromácio (
Vós sois a luz do mundo. Não pode ficar escondida uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lâmpada e a coloca debaixo de uma vasilha, mas sim num candeeiro, onde ela brilha para todos os que estão em casa (Mt 5,14-15). O Senhor chamou seus discípulos de sal da terra, porque eles deviam dar um novo sabor, por meio da sabedoria celeste, aos corações dos homens que o demônio tornara insensatos. E também os chamou de luz do mundo porque, iluminados por ele, verdadeira e eterna luz, tornaram-se também eles luz que brilha nas trevas.

            O Senhor é o sol da justiça; é, por conseguinte, com toda razão que chama seus discípulos luz do mundo; pois é por meio deles que irradia sobre o mundo inteiro a luz do seu próprio conhecimento. Com efeito, eles afugentaram dos corações dos homens as trevas do erro, manifestando a luz da verdade.

            Iluminados por eles, também nós passamos das trevas para a luz, como afirma o Apóstolo: Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz (Ef 5,8). E noutra passagem: Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas (1Ts 5,5).

            Com razão diz também São João numa epístola sua: Deus é luz (1Jo 1,5); e quem permanece em Deus está na luz, da mesma forma como ele próprio está na luz. Portanto, uma vez que temos a felicidade de estar libertos das trevas do erro, devemos caminhar sempre na luz, como filhos da luz. A esse propósito, diz ainda o Apóstolo: Vós brilhais como astros no universo. Conservai com firmeza a palavra da vida (Fl 1,15-16). Se não procedemos assim, ocultaremos e obscureceremos com o véu da nossa infidelidade, para prejuízo tanto nosso como dos outros, uma luz tão útil e necessária.

            Eis o motivo por que incorreu em merecido castigo aquele servo que, recebendo o talento para dar juros no céu, preferiu escondê-lo a depositá-lo no banco.

            Assim, aquela lâmpada resplandecente, que foi acesa para nossa salvação, deve sempre brilhar em nós. Pois temos a lâmpada dos mandamentos de Deus e da graça espiritual a que se refere Davi: Vosso mandamento é uma luz para os meus passos, é uma lâmpada em meu caminho (cf. Sl 118,105). E Salomão também diz acerca dela: O preceito da lei é uma lâmpada (cf. Pr 6,23).

            Por isso, não devemos ocultar esta lâmpada da lei e da fé, mas colocá-la sempre no candelabro da Igreja para a salvação de todos. Então gozaremos da luz da própria verdade e serão iluminados todos os que creem.

-- Dos Tratados sobre o Evangelho de São Mateus, de São Cromácio, bispo (século IV)

22 de set. de 2010

Homília sobre São Mateus

Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” (Mt 9, 9). Jesus o viu não tanto com os olhos do corpo, mas com os olhos do amor. Viu o publicano, e o amou e escolheu, e lhe disse: “Segue-me!”, isto é, imita-me. Pedindo-lhe que o seguisse, não pedia tanto que fosse atrás dele, mas que vivesse como ele; pois aquele que diz permanecer em Cristo deve proceder como Cristo procedeu. Mateus se levantou e seguiu-o (Mt 9, 9).

Nada de espantoso que o publicano, ao primeiro e imperioso apelo do Senhor, tenha abandonado sua busca de lucros terrenos, e, desprezando os bens temporais, tenha aderido àquele que via desinteressado de qualquer riqueza. É que o Senhor, chamando-o exteriormente pela sua palavra, tocava-lhe o mais fundo da alma, espalhando em seu coração, para que o seguisse, a graça espiritual.

Enquanto estava à mesa na casa de Mateus, vieram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se à mesa, junto com Jesus e seus discípulos (Mt 9, 10). A conversão de um só publicano abriu o caminho da penitência e do perdão a muitos publicanos e pecadores. Belo presságio, na verdade: aquele que devia mais tarde ser apóstolo e doutor entre os pagãos arrasta consigo, por ocasião de sua conversão, os publicanos e pecadores, que tomam o caminho da salvação. O ministério que ia desempenhar após progredir na virtude, Mateus já o inicia nos primórdios de sua fé.

Experimentemos compreender profundamente o episódio aqui relatado. Mateus não ofereceu ao Senhor apenas um banquete corporal em sua casa terrestre. Mais que isto: preparou-lhe um festim na casa de seu coração, por sua fé e seu amor, como testemunha aquele que diz: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo (Ap 3, 20).

Sim, o Senhor está à porta e bate quando o nosso coração está atento a sua vontade, seja pela boca do homem que ensina, seja por uma inspiração interior. Abrimos nossa porta ao apelo de sua voz, quando damos livre assentimento a suas admoestações internas ou externas, e quando pomos em execução o que concluímos que devemos fazer. Então ele entra para tomar a refeição, ele conosco e nós com ele, pois habita no coração dos eleitos pela graça do seu amor, para alimentá-los constantemente com a luz de sua presença, a fim de que elevem progressivamente os seus desejos. E ele também se alimenta desse zelo pelas coisas do céu, que são como o mais delicioso alimento.

-- Das Homílias de São Beda Venerável, presbítero, século VIII

14 de abr. de 2010

Uma Alma é Preciosa

Nada há de mais precioso que uma alma! Pois, de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perde a própria alma? (Mc 8,36) Mas o amor ao dinheiro, pervertendo e corrompendo tudo, extingue o temor de Deus e apodera-se de nós como o tirano que invade uma fortaleza. É o que nos leva a descuidarmos da salvação dos nossos filhos e da nossa, preocupando-nos apenas em amontoar riquezas que deixaremos a outros, estes a seus descendentes e assim por diante, tornando-nos então transmissores e não possuidores de dinheiro e bens. Que loucura! Será que nossos filhos valem menos que os escravos? Corrigimos os escravos, embora não seja por amor mas por conveniência própria; os filhos, porém, vêem-se privados desta providência: são tidos por nós em menor apreço que os escravos.

-- Das Homílias sobre o Evangelho de São Mateus, de São João Crisóstomo

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