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31 de out. de 2020

Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo

 Amados irmãos e irmãs

A nossa celebração eucarística inaugurou-se hoje com a exortação "Alegremo-nos todos no Senhor". A liturgia convida-nos a compartilhar o júbilo celeste dos santos, a saborear a sua alegria. Os santos não são uma exígua casta de eleitos, mas uma multidão inumerável, para a qual a liturgia de hoje nos exorta a levantar o olhar. Em tal multidão não estão somente os santos oficialmente reconhecidos, mas os batizados de todas as épocas e nações, que procuraram cumprir com amor e fidelidade a vontade divina. De uma grande parte deles não conhecemos os rostos e nem sequer os nomes, mas com os olhos da fé vemo-los resplandecer, como astros repletos de glória, no firmamento de Deus.

No dia de hoje, a Igreja festeja a sua dignidade de "mãe dos santos, imagem da cidade divina" (A. Manzoni), e manifesta a sua beleza de esposa imaculada de Cristo, nascente e modelo de toda a santidade. Sem dúvida, não lhe faltam filhos obstinados e até rebeldes, mas é nos santos que ela reconhece os seus traços característicos, e precisamente neles saboreia a sua glória mais profunda.

Na primeira Leitura, o autor do livro do Apocalipse descreve-os como "uma multidão enorme, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas" (Ap 7, 9). Este povo compreende os santos do Antigo Testamento, a partir do justo Abel e do fiel Patriarca Abraão, os do Novo Testamento, os numerosos mártires do início do cristianismo e também os beatos e os santos dos séculos seguintes, até às testemunhas de Cristo desta nossa época. Todos eles são irmanados pela vontade de encarnar o Evangelho na sua existência, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus, que é o Espírito Santo.

Mas "para que servem o nosso louvor aos santos, o nosso tributo de glória, esta nossa solenidade?". Com esta interrogação tem início uma famosa homilia de São Bernardo para o dia de Todos os Santos. É uma pergunta que se poderia fazer também hoje. E atual é inclusive a resposta que o Salmo nos oferece: "Os nossos santos diz não têm necessidade das nossas honras, e nada lhes advém do nosso culto. Por minha vez, devo confessar que, quando penso nos santos, sinto-me arder de grandes desejos" (Disc. 2; Opera Omnia Cisterc. 5, 364ss.). Eis, portanto, o significado da solenidade moderna: contemplando o exemplo luminoso dos santos, despertar em nós o grande desejo de ser como os santos: felizes por viver próximos de Deus, na sua luz, na grande família dos amigos de Deus. Ser santo significa: viver na intimidade com Deus, viver na sua família. Esta é a vocação de todos nós, reiterada com vigor pelo Concílio Vaticano II, e hoje proposta de novo solenemente à nossa atenção.

Mas como é que podemos tornar-nos santos, amigos de Deus? A esta interrogação pode-se responder antes de tudo de forma negativa: para ser santo não é necessário realizar ações nem obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais. Depois, vem a resposta positiva: é preciso sobretudo ouvir Jesus e depois segui-lo sem desanimar diante das dificuldades. "Se alguém me serve Ele admoesta-nos que me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo" (Jo 12, 26). Quem nele confia e o ama com sinceridade, como o grão de trigo sepultado na terra, aceita morrer para si mesmo. Com efeito, Ele sabe que quem procura conservar a sua vida para si mesmo, perdê-la-á, e quem se entrega, se perde a si mesmo, precisamente assim encontra a própria vida (cf. Jo 12, 24-25). A experiência da Igreja demonstra que cada forma de santidade, embora siga diferentes percursos, passa sempre pelo caminho da cruz, pelo caminho da renúncia a si mesmo. As biografias dos santos descrevem homens e mulheres que, dóceis aos desígnios divinos, enfrentaram por vezes provações e sofrimentos indescritíveis, perseguições e o martírio. Perseveraram no seu compromisso, "vêm da grande tribulação lê-se no Apocalipse lavaram as suas túnicas e branquearam-nas no sangue do Cordeiro" (Ap 7, 14). Os seus nomes estão inscritos no livro da Vida (cf. Ap 20, 12); a sua morada eterna é o Paraíso. O exemplo dos santos constitui para nós um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria daqueles que confiam em Deus, porque a única verdadeira causa de tristeza e de infelicidade para o homem é o facto de viver longe de Deus.

A santidade exige um esforço constante, mas é possível para todos porque, mais do que uma obra do homem, é sobretudo um dom de Deus, três vezes Santo (cf. Is 6, 3). Na segunda Leitura, o Apóstolo João observa: "Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!" (1 Jo 3, 1). Portanto, é Deus que nos amou primeiro e, em Jesus, nos tornou seus filhos adoptivos. Na nossa vida tudo é dom do seu amor: como permanecer indiferente diante de um mistério tão grande? Como deixar de responder ao amor do Pai celestial, com uma vida de filhos reconhecidos? Em Cristo, entregou-se inteiramente a nós e chama-nos a um profundo relacionamento pessoal com Ele. Portanto, quanto mais imitarmos Jesus e permanecermos unidos a Ele, tanto mais entraremos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito, e isto impele-nos, por nossa vez, a amar os irmãos. O amar implica sempre um acto de renúncia a si mesmo, o "perder-se a si próprio", e é precisamente assim que nos torna felizes.

Assim chegamos ao Evangelho desta festa, ao anúncio das Bem-Aventuranças, que há pouco ouvimos ressoar nesta Basílica. Jesus diz: Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os aflitos, os mansos, quem tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, bem-aventurados os puros de coração, os pacificadores, os que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5, 3-10). Na realidade, o Bem-Aventurado por excelência é somente Ele, Jesus.

Com efeito, Ele é o verdadeiro pobre de espírito, o aflito, o manso, aquele que tem fome e sede de justiça, o misericordioso, o puro de coração, o pacificador; Ele sofre perseguição por causa da justiça. As Bem-Aventuranças revelam-nos a fisionomia espiritual de Jesus e assim exprimem o seu mistério, o mistério da Morte e da Ressurreição, da Paixão e da alegria da Ressurreição. Este mistério, que é mistério da verdadeira bem-aventurança, convida-nos ao seguimento de Jesus e, deste modo, ao caminho que conduz a ela. Na medida em que aceitamos a sua proposta e nos colocamos no seu seguimento cada qual nas suas próprias circunstâncias também nós podemos participar das Bem-Aventuranças. Juntamente com Ele, o impossível torna-se possível e até um camelo pode passar pelo fundo de uma agulha (cf. Mc 10, 25); com a sua ajuda, somente com a sua ajuda podemos tornar-nos perfeitos como é perfeito o Pai celeste (cf. Mt 5, 48).

Estimados irmãos e irmãs, agora entramos no coração da Celebração eucarística, estímulo e alimento de santidade. Daqui a pouco tornar-se-á presente de modo mais excelso Cristo, verdadeira Videira à qual, como ramos, estão unidos os fiéis que vivem na terra e os santos do céu. Por conseguinte, mais íntima será a comunhão da Igreja que peregrina no mundo, com a Igreja triunfante na glória. No Prefácio proclamaremos que os santos são nossos amigos e modelos de vida. Invoquemo-los para que nos ajudem a imitá-los e comprometamo-nos a responder com generosidade, segundo o seu exemplo, à vocação divina. Invoquemos especialmente Maria, Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda Santa, nos faça ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo!

Amém. 

 -- Papa Bento XVI, Homília da Solenidde de Todos os Santos, 1o. de Novembro de 2006

3 de mai. de 2016

Quantos santos há na Igreja Católica?

O dia 11 de Fevereiro de 2013 certamente foi histórico para a Igreja Católica, pois neste dia o Papa Bento XVI renunciou. Mas,  no mesmo dia, o ainda Papa encaminhou três canonizações: Beata Laura Upegui (Colômbia), Beata Maria Guadaluppe Zavala (México), ambas fundadoras de ordens religiosas, e Beato Antonio Primaldo e seus 799 companheiros, todos residentes no sul da Itália martirizados pelos muçulmanos por se negarem a converter-se ao islamismo em 1480. Estas 802 pessoas foram canonizadas em um único dia reunindo-se ao estimado número de 10.000 outros santos já reconhecidos pela Igreja. 

O fato essencial é que o número de santos na Igreja é incerto, não há um número preciso, e é impossível obter um por que por séculos a Igreja não teve um processo formal e centralizado de canonização, como estamos acostumados nos dias atuais. As comunidades dos primeiros séculos veneravam muitíssimos santos, em geral mártires, cuja história ficou perdida ao longo do tempo. 

Apenas nos séculos XVII e XVIII começou-se a prestar atenção nestas histórias e buscar comprovações da sua veracidade. Alguns santos, como Jorge e Valentino tem uma história tão fantástica e sem nenhuma confirmação adicional que parece tratar-se de lendas, não pessoas reais. Ou você realmente pensa que São Jorge enfrentou dragões na lua muito antes de astronautas chegarem lá? Há também as tradições locais, como o francês São Guinefort, protetor dos bebês, por que salvou
miraculosamente um recém nascido picado por uma cobra venenosa. Seu culto persistiu por vários séculos apesar de repetidamente ter sido proibido pela Igreja. Por quê? São Guinefort era um cachorro!

Percebendo as confusões, a Igreja da Idade Média começou a ordenar o processo de canonização, inicialmente de maneira decentralizada, sob a supervisão do bispo local. Por óbvio, não é possível manter um critério único, mas já evitou os excessos mais óbvios. Em 1588, o Papa Sixto V centralizou o processo no Vaticano, encarregando a Congregação de Ritos e Liturgia de avaliar os potenciais candidatos à santidade. 

Em 1969, Paulo VI criou a Congregação para a Causa dos Santos para supervisionar o processo. Também suprimiu o culto de vários santos cuja história está muito misturada com lendas orais, até o ponto em que as vezes é impossível garantir até mesmo sua existância real, como São Jorge. Igrejas já existentes com este nome podem permanecer, mas sua festa foi retirada do Calendário Romano e foi proibida a criação de novas igrejas.

Neste ponto é interessante dizer que o Calendário Romano não é, nem tenta ser, abrangente. Não há um santo para cada dia do ano, são incluídos apenas aqueles cuja mensagem e exemplo são realmente importantes para Igreja universal, inspirando católicos em todo mundo. Ou seja, o número de santos no Calendário Romano é bastante restrito, mas todos são devidamente homenageados em 1o. de Novembro, o Dia de Todos os Santos, canonizados ou não. Outros santos podem ser incluídos no calendário de uma diocese ou paróquia de acordo com as tradições locais, com a devida autorização do bispo.

O processo de canonização foi simplificado pelo Papa João Paulo II em 1983 ao eliminar a figura do Promotor da Fé, mais conhecido por Advogado do Diabo, que procurava encontrar razões contrárias a canonização do santo. Não apenas por este fato, mas também por seu longo reinado, João Paulo II foi um dos papas que canonizou mais santos: 482. Bento XVI canonizou apenas 45 santos e Papa Francisco já canonizou 835, pois um dos seus primeiros atos incluiu São Antonio Primaldo e seus 799 companheiros.

A Wikipedia em português tem uma lista 474 nomes, incluindo alguns casos do "santo e companheiros". Uma lista muito mais completa, ainda que em inglês, é encontrada no site Catholic Online: apenas na letra "A" já estão listados 894 nomes. E, apenas para citar, as Igrejas Ortodoxas reconhecem outros santos, particulares da sua fé, que não estão nos cânones católicos. Mas aí já seria o caso de outro texto.

-- autoria própria

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