25 de mai. de 2021

Pecado pessoal e pecado social

O pecado, no sentido próprio e verdadeiro, é sempre um ato da pessoa, porque é um ato de um homem, individualmente considerado, e não propriamente de um grupo ou de uma comunidade. Este homem pode ser condicionado, pressionado, impelido por numerosos e poderosos fatores externos, como também pode estar sujeito a tendências, taras e hábitos relacionados com a sua condição pessoal. Em não poucos casos, tais fatores externos e internos podem atenuar, em maior ou menor grau, a sua liberdade e, consequentemente, a sua responsabilidade e culpabilidade. No entanto, é uma verdade de fé, também confirmada pela nossa experiência e pela nossa razão, que a pessoa humana é livre. E não se pode ignorar esta verdade, para descarregar em realidades externas — as estruturas, os sistemas, os outros - o pecado de cada um. Além do mais, isso seria eliminar a dignidade e a liberdade de pessoa, que se revelam — se bem que negativa e desastrosamente — também nessa responsabilidade do pecado cometido. Por isso, em todos e em cada um dos homens, não há nada tão pessoal e intransferível como o mérito da virtude ou a responsabilidade da culpa.

Como ato da pessoa, o pecado tem as suas primeiras e mais importantes consequências no próprio pecador; ou seja, na relação dele com Deus, que é o próprio fundamento da vida humana; e também no seu espírito, enfraquecendo-lhe a vontade e obscurecendo-lhe a inteligência.

A Queda dos Condenados, por Dirk Bouts
Chegados a este ponto, devemos perguntar-nos: a que realidade se referiam os que, na preparação do Sínodo e no decorrer dos trabalhos sinodais, mencionaram não poucas vezes o pecado social? A realidade que está subjacente a tal expressão e conceito faz com estes tenham, na verdade, diversos significados.

Falar de pecado social quer dizer, primeiro que tudo, reconhecer que, em virtude de uma solidariedade humana tão misteriosa e imperceptível quanto real e concreta, o pecado de cada um se repercute, de algum modo, sobre os outros. Está nisto uma outra faceta daquela solidariedade que, a nível religioso, se desenvolve no profundo e magnífico mistério da Comunhão dos Santos, graças à qual se pode dizer que "cada alma que se eleva, eleva o mundo" (Elisabeth Leseur: Journal et pensées de chaque jour). A esta lei da elevação corresponde, infelizmente, a lei da descida, de tal modo que se pode falar de uma comunhão no pecado, em razão da qual uma alma que se rebaixa pelo pecado arrasta consigo a Igreja, e, de certa maneira, o mundo inteiro. Por outras palavras não há nenhum pecado, mesmo o mais íntimo e secreto, o mais estritamente individual, que diga respeito exclusivamente àquele que o comete. Todo o pecado se repercute, com maior ou menor veemência, com maior ou menor dano, em toda a estrutura eclesial e em toda a família humana. Segundo esta primeira acepção, a cada pecado pode atribuir-se indiscutivelmente o caráter de pecado social.

Há certos pecados, no entanto, que constituem, pelo seu próprio objeto, uma agressão direta ao próximo e — mais exatamente, com base na linguagem evangélica — ao irmão. Estes são uma ofensa a Deus, porque ofendem o próximo. A tais pecados costuma dar-se a qualificação de sociais; e é esta a segunda acepção do termo. Neste sentido, é social o pecado contra o amor do próximo, que é tanto mais grave na Lei de Cristo, porquanto está em jogo o segundo mandamento, que é "semelhante ao primeiro" (cf. Mt 22, 39; Mc 12, 31; Lc 10, 27s) é igualmente social todo o pecado cometido contra a justiça, quer nas relações de pessoa a pessoa, quer nas da pessoa com a comunidade, quer, ainda, nas da comunidade com a pessoa. É social todo o pecado contra os direitos da pessoa humana, a começar pelo direito à vida, incluindo a do nascituro, ou contra a integridade física de alguém; todo o pecado contra a liberdade de outrem, especialmente contra a suprema liberdade de crer em Deus e de o adorar; todo o pecado contra a dignidade e a honra do próximo. É social todo o pecado contra o bem comum e contra as suas exigências, em toda a ampla esfera dos direitos e dos deveres dos cidadãos. Pode ser social tanto o pecado de comissão como o de omissão: da parte dos dirigentes políticos, económicos e sindicais, por exemplo, que, embora podendo, não se empenhem com sabedoria no melhoramento ou na transformação da sociedade, segundo as exigências e as possibilidades do momento histórico; como também da parte dos trabalhadores, que faltem aos seus deveres de presença e de colaboração, para que as empresas possam continuar a proporcionar o bem-estar a eles próprios, as suas famílias e à inteira sociedade.

A terceira acepção de pecado social diz respeito as relações entre as várias comunidades humanas. Estas relações nem sempre estão em sintonia com a desígnio de Deus, que quer no mundo justiça, liberdade e paz entre os indivíduos, os grupos, os povos. Assim, a luta de classes, seja quem for o seu responsável ou, por vezes, o sistematizador, é um mal social. Assim, a contraposição obstinada dos blocos de Nações e duma Nação contra a outra e de grupos contra outros grupos no seio da mesma Nação, é igualmente um mal social. Em ambos os casos, pode fazer-se a pergunta, se é possível atribuir a alguém a responsabilidade moral de tais males e, por conseguinte, o pecado. Ora, deve admitir-se que realidades e situações como as que acabam de ser indicadas, ao generalizarem-se e até mesmo ao agigantarem-se como fatos sociais, quase sempre se tornam anónimas, assim como são complexas e nem sempre identificáveis as suas causas. Por isso, ao falar-se aqui de pecado social, a expressão tem um significado claramente analógico. Em todo o caso, falar de pecados sociais, mesmo que seja em sentido analógico, não deve induzir ninguém a subestimar a responsabilidade individual das pessoas; mas tem em vista constituir um alerta para as consciências de todos, a fim de que cada um assuma as próprias responsabilidades, no sentido de serem séria e corajosamente modificadas essas realidades nefastas e essas situações intoleráveis.

Dito isto, de maneira clara e inequívoca, como premissa, é preciso acrescentar imediatamente que não é legítima nem aceitável uma acepção do pecado social, não obstante esteja muito em voga nos nossos dias nalguns ambientes, (Libertatis Nuntius, 14-15) a qual, ao opôr, não sem ambiguidade, pecado social a pecado pessoal, mais ou menos inconscientemente leva a diluir e quase a eliminar o pessoal, para admitir somente as culpas e responsabilidades sociais. Segundo esta concepção, que revela com facilidade a sua derivação de ideologias e sistemas não cristãos — hoje, talvez, já postos de parte por aqueles mesmos que a certa altura foram os seus autores oficiais — praticamente todos os pecados seriam sociais, no sentido de serem imputáveis não tanto à consciência moral duma pessoa, quanto a uma entidade vaga e colectividade anónima, que poderia ser a situação, o sistema, a sociedade, as estruturas, a instituição etc.

Pois bem: a Igreja, quando fala de situações de pecado ou denuncia como pecados sociais certas situações ou certos comportamentos coletivos de grupos sociais, mais ou menos vastos, ou até mesmo de Nações inteiras e blocos de Nações, sabe e proclama que tais casos de pecado social são o fruto, a acumulação e a concentração de muitos pecados pessoais. Trata-se dos pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a iniquidade ou a desfruta; de quem, podendo fazer alguma coisa para evitar, ou eliminar, ou pelo menos limitar certos males sociais, deixa de o fazer por preguiça, por medo e temerosa conivência, por cumplicidade disfarçada ou por indiferença; de quem procura escusas na pretensa impossibilidade de mudar o mundo; e, ainda, de quem pretende esquivar-se ao cansaço e ao sacrifício, aduzindo razões especiosas de ordem superior. As verdadeiras responsabilidades, portanto, são das pessoas.

Uma situação — e de igual modo uma instituição, uma estrutura, uma sociedade — não é sujeita de atos morais; por isso, não pode ser, em si mesma, boa ou má.

No fundo de cada situação de pecado, porém, encontram-se sempre pessoas pecadoras. Isto é tão verdadeiro que, se tal situação vier a ser mudada nos seus aspectos estruturais e institucionais pela força da lei, ou — como acontece com mais frequência, infelizmente — pela lei da força, a mudança revela-se, na realidade, incompleta, de pouca duração e, no fim de contas, vã e ineficaz — para não dizer mesmo contraproducente — se não se converterem as pessoas directa ou indirectamente responsáveis por essa mesma situação.

--  São João Paulo II, Recconciliatio et Paenitentia (seção 13),  2 de Dezembro de 1984.

22 de mai. de 2021

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida

Encontramo-nos reunidos sob a abóbada desta Basílica, e toda a nossa consciência se acha compenetrada da recordação do Cenáculo hierosolimitano [NT: Cenáculo de Jerusalém], onde, precisamente no dia do Pentecostes "se encontravam todos" (At 2, 1) aqueles que constituíam a primeiríssima Igreja. Encontravam-se no mesmo local em que — cinquenta dias antes — na tarde do dia da Ressurreição Jesus tinha vindo ter com eles. "Veio Jesus... e colocou-se no meio deles e disse-lhes: "A paz seja convosco! E dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado" (Jo 20, 19-20). Naquele momento já não podiam ter dúvida, alguma; e "os discípulos — escreve o Evangelista — ficaram cheios de alegria, ao verem o Senhor" (Jo 20, 20), o Senhor ressuscitado. E então Jesus disse-lhes novamente: "A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20, 20). Em suma, disse palavras já conhecidas e, contudo, novas: novas pela novidade de todo o Mistério pascal e novas pela novidade do Senhor Ressuscitado, que as pronunciava: "eu envio a vós...".

E sobretudo eram novas por motivo daquilo que era afirmado por Cristo, imediatamente a seguir a elas. Efectivamente, "depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: 'Recebei o Espírito Santo' " (Jo 20, 22).

Desta maneira, já nesse momento receberam o Espírito Santo. Já então se havia iniciado o Pentecostes; o Pentecostes que chegaria, cinquenta dias depois, à sua plena manifestação; e isto era necessário para que pudesse maturar neles e revelar-se para o exterior aquilo que havia acontecido, quando eles tinham ouvido; "Recebei o Espírito Santo..." — a fim de que a Igreja pudesse nascer. Nascer, no caso, quer dizer sair para o mundo e, por esse mesmo fato, tornar-se visível no meio dos homens.

E isto realizou-se com a potência própria daquela tarde pascal, a tarde daquele mesmo dia da Ressurreição (cf. Jo 20, 19); isso aconteceu com a potência da paixão e da morte do Senhor, o qual, aliás, já na véspera da mesma paixão, havia dito claramente: "... se eu não for, o Consolador (Paracletos) não virá a vós; mas se eu for, enviar-vo-lo-ei" (Jo 16, 7). Tinha partido, pois, através da Cruz, e voltou através da Ressurreição; mas voltou, não já para permanecer, mas sim para soprar sobre os Apóstolos e dizer-lhes: "Recebei! Recebei o Espírito Santo!".

Oh! Como é bom o Senhor! Ele deu-lhes o Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida... e com o Pai e o Filho recebe a mesma glória e adoração... Ele, igual na Divindade! Sim, Jesus deu-lhes o Espírito Santo; disse, de fato, "recebei". Mas, mais ainda, não os entregou Ele, não os confiou a eles, aos Apóstolos, ao Espírito Santo? Poderá o homem "receber" o Deus vivo e possuí-1'O como algo "próprio"?

Então Cristo deu os Apóstolos, aqueles que eram o início do novo Povo de Deus e o fundamento da Sua Igreja, ao Espírito Santo, ao Espírito que o Pai haveria de mandar em Seu Nome (cf. Jo 14, 26), ao Espírito de Verdade (cf. Jo 14, 17; 15, 26; 16, 13), ao Espírito por meio do qual o amor de Deus foi derramado nos nossos corações (cf. Rom 5, 5); deu-os ao Espírito Santo a fim de que eles, por seu turno, O recebessem como Dom; Dom alcançado do Pai por obra do Messias, do Servo sofredor de Javé, do qual fala a profecia de Isaías.

E foi por isso que Ele "lhes mostrou as mãos e o lado" (Jo 20, 20), isto é, os sinais do sacrifício cruento, e em seguida acrescenta ainda: "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 23).

Com estas palavras Ele confirmou o Dom; é o Dom do Consolador, o Dom dado à Igreja para o homem, o qual traz em si a herança do pecado. Para cada um dos homens e para todos os homens.

Trata-se do Dom do Alto, dado à Igreja que é enviada a todo o mundo. No dia do Pentecostes, os Apóstolos — e juntamente com eles aquela que era a primeiríssima Igreja — saíram daquele cenáculo pascal; e imediatamente se encontraram no meio do mundo sujeito ao pecado e à morte; e encontraram-se aí com o testemunho da Ressurreição.

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida

Ao evocarmos o primeiro Concilio Ecuménico Constantinopolitano, nós professamos hoje a mesma fé n'Aquele que é Senhor e dá a vida, que com o Pai e o Filho recebe a mesma glória e adoração; e identificando esta veneranda Basílica de São Pedro com o humilde Cenáculo hierosolimitano, nós recebemos o mesmo Dom! "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 22). Sim, nós recebemos o mesmo Dom, ou seja, confiamo-nos a nós próprios e confiamos a Igreja ao mesmo Espírito Santo, ao Qual ela já foi confiada de uma vez para sempre, naquela tarde da Ressurreição e depois na manhã do Pentecostes. Ou melhor, nós permanecemos nessa entrega confiante ao Espírito Santo, que Cristo então operou, ao mostrar aos Apóstolos as mãos e o lado (cf. Jo 20, 20), os sinais da sua paixão, antes de lhes dizer: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20, 21).

Nós permanecemos nessa entrega confiante ao Espírito Santo, que constituiu a Igreja e continuamente a constitui sobre os seus fundamentos. Nós permanecemos, assim, em tal entrega confiante ao Espírito Santo, mediante a qual somos a Igreja e mediante a qual somos enviados, de um modo análogo a como foram enviados do Cenáculo aqueles primeiros apóstolos e aquela primeiríssima Igreja hierosolimitana, quando sucedeu que, após algo semelhante a uma rajada de vento sobrevindo impetuosamente e depois da aparição das línguas de fogo sobre cada um deles, os mesmos saíram para o meio dá multidão numerosa, que tinha acorrido a Jerusalém para as festas e começaram a falar nas diversas línguas, "conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem" (At 2, 4); e foram ouvidos pelos homens que falavam outras línguas como aqueles que anunciavam "nas nossas línguas as maravilhas de Deus" (At 2, 11).

Permanecemos, pois, nesta entrega. confiante ao Espírito Santo; e passados quase dois mil anos, nada mais desejamos senão permanecer n'Ele, não separar-nos d'Ele de nenhum modo, não O "contristar" nunca (cf. Ef 4, 30).

— porque somente n'Ele está conosco Cristo;

— porque só com a Sua ajuda é que nós podemos dizer: "Jesus é Senhor" (cf. 1 Cor 12, 3);

— porque somente pelo poder da Sua graça é que nós podemos clamar: "Abbá, Pai" (Rom 8, 15);

— porque somente pelo Seu poder, pela potência do Espírito Santo que é Senhor e dá a vida, é que nós somos a mesma Igreja, esta Igreja em que "há... diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. E a cada um é concedida a manifestação do Espírito para que redunde em vantagem comum (1 Cor 12, 4-7).

Assim, pois, estamos no Espírito Santo e n'Ele desejamos permanecer:

— n'Ele, que é o Espírito que dá a vida e é uma nascente de água jorrante até à vida eterna (cf. Jo 4, 14; 7, 38-39);

— n'Ele, pelo Qual o Pai dá novamente a vida aos homens mortos pelo pecado, até que um dia ressuscite em Cristo os seus corpos mortais (cf. Rom 8, 10-11);

— n'Ele, no Espírito Santo, que habita na Igreja e nos corações dos fiéis (cf. 1 Cor 3, 16; 6, 19) e neles ora e dá testemunho da sua adopção filial (cf. Gal 4, 6; Rom 8, 15-16, 26);

— n'Ele, que dota a Igreja com diversos dons hierárquicos e carismáticos e com a ajuda destes a dirige e a enriquece de frutos (cf. Ef. 4, 11-12; 1 Cor. 12, 4; Gál. 5, 22);

— n'Ele, que com a força do Evangelho faz rejuvenescer a Igreja, a renova continuamente e a leva à perfeita união com o Seu Esposo (cf. Const. dogm. Lumen Gentium, n. 4).

Sim. Nós desejamos permanecer n'Ele, no Espírito Santo, no Paráclito assim, como a Ele — ao Espírito do Pai — nos confiou Cristo crucificado e ressuscitado. Confiou-nos a Ele dando-no-1'O a nós: aos Apóstolos e à Igreja, quando disse, no Cenáculo hierosolimitano: "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 22).

E estas palavras começaram a ter atuação prática diante de todas as línguas e nações no dia do Pentecostes, no dia em que a Igreja nasceu no Cenáculo de Jerusalém e saiu para o mundo.

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida

É esta fé dos Apóstolos e dos Padres da Igreja, que no ano de 381 o Concílio de Constantinopla ensinou solenemente a professar, que nós, aqui reunidos nesta Basílica Romana de São Pedro, em unidade espiritual com os nossos Irmãos que celebram a Liturgia jubilar na Catedral do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, desejamos professar, ensinando-a com a mesma pureza e potência no ano de 1981 como a professou e ensinou a professar aquele venerável Concílio há dezasseis séculos atrás.

Desejamos também pôr em prática à luz da mesma fé o ensino do II Concílio do Vaticano, daquele Concílio dos nossos tempos que tão generosamente manifestou a obra do Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida, em toda a missão da Igreja. Desejamos, pois, actuar na vida esse Concílio, que se tornou a palavra de ordem e a tarefa das nossas gerações; e desejamos compreender ainda mais profundamente o ensino dos antigos Concílios, em particular o ensino daquele que se realizou há mil e seiscentos anos em Constantinopla.

Nesta luz — fixando o olhar no mistério do único Corpo, que é composto por diversos membros — nós, com renovado fervor, fazemos votos bem sentidos por que se realize aquela unidade a que, em Cristo, são chamados todos aqueles que — segundo as palavras de São Paulo foram "batizados num só Espírito para constituírem um só corpo" (1 Cor 12, 13); todos aqueles que foram "embebidos em um só Espírito" (1 Cor 12, 13). E desejamos isto com renovado fervor especialmente no dia de hoje, que nos recorda os tempos da Igreja indivisa. E por isso clamamos:

Ó Luz beatíssima / penetrai até ao mais íntimo nos corações dos vossos fiéis! (Sequência da solenidade de Pentecostes).

Nos nossos tempos nota-se que a face da terra se acha muitíssimo enriquecida, graças à criatividade e ao trabalho do homem, com as obras da ciência e da técnica, após terem sido tão profundamente explorados o interior da mesma terra e os espaços do universo cósmico; ao mesmo tempo, porém, a humanidade encontra-se perante ameaças até agora desconhecidas, que provêm da parte de forças que o próprio homem desencadeou.

E é hoje que nós, Pastores da Igreja, herdeiros daqueles que receberam o Espírito Santo no Cenáculo do Pentecostes, devemos sair, assim como eles saíram, conscientes da imensidade do Dom, que na Igreja é participado pela família humana: nós devemos sair... continuamente sair para o mundo e, encontrando-nos nas diversas partes da terra, devemos repetir ainda com maior fervor:

Que o Vosso Espírito desça

E renove a face da Terra! Que Ele desça!

Ao longo da história da humanidade e através do mundo visível, a Igreja não cessa de confessar:

Creio no Espírito!

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida.

Neste Espírito nós permanecemos. Amém.

-- Homília na Solenidade de Pentecostes, Santo Papa João Paulo II, 7 de Junho de 1981

 

18 de mai. de 2021

O drama do homem

Como escreve o Apóstolo São João "se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós próprios e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, Ele que é fiel e justo perdoar-nos-á os pecados" (1Jo 1,8s). Estas palavras inspiradas, escritas nos primórdios da Igreja, introduzem melhor do que qualquer outra expressão humana a reflexão sobre o pecado, que está intimamente relacionada com o discurso sobre a reconciliação. Elas apreendem o problema do pecado no seu horizonte antropológico, enquanto parte integrante da verdade acerca do homem, mas inserem-no imediatamente no horizonte divino, no qual o pecado é confrontado com a verdade do amor de Deus, justo, generoso e fiel, que se manifesta sobretudo pelo perdão e pela redenção. Por isso, o próprio São João escreve pouco depois que "se (o nosso coração) de alguma coisa nos acusa, Deus é maior do que o nosso coração" (1Jo 3,20).

Reconhecer o próprio pecado, ou melhor — indo mais ao fundo na consideração da própria personalidade — reconhecer-se pecador, capaz de pecar e de ser induzido ao pecado, é o princípio indispensável do retorno a Deus. É a experiência exemplar de Davi, que depois de "ter feito o mal aos olhos do Senhor", repreendido pelo profeta Natan, (2Sam 11-12) exclama: "Reconheço a minha culpa, o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra Vós, só contra Vós; pratiquei aquilo que é mal aos vossos olhos" (Sl 50[51], 5). De resto, Jesus põe na boca e no coração do filho pródigo aquelas palavras significativas: "Pai, pequei contra o Céu e contra ti" (Lc 15,18-21).

Na realidade, reconciliar-se com Deus supõe e inclui o afastar-se com  determinação do pecado, no qual se caiu. Supõe e inclui, portanto, o fazer penitência no sentido mais pleno do termo: arrepender-se, manifestar o arrependimento, assumir a atitude concreta do arrependido, que é a de quem se coloca no caminho do regresso ao Pai. Isto é uma lei geral, que cada um deve seguir na situação particular em que se encontra. A exposição sobre o pecado e a conversão, de fato, não pode ser desenvolvida somente em termos abstratos.

A Torre de Babel, o homem se colocando acima de Deus.

Na condição concreta do homem pecador, em que não pode haver conversão sem reconhecimento do próprio pecado, o ministério de reconciliação da Igreja intervém, em qualquer hipótese, com uma finalidade claramente penitencial, isto é, para levar o homem ao "conhecimento de si", segundo a expressão de Santa Catarina de Sena, ao desapego do mal, ao restabelecimento da amizade com Deus, à reordenação interior e à nova conversão eclesial. Acrescente-se que, para além do âmbito da Igreja e dos fiéis, a mensagem e o ministério da penitência são dirigidos a todos os homens, uma vez que todos têm necessidade de conversão e de reconciliação (Rm 3,23-26).

Para exercitar adequadamente tal ministério penitencial, será também necessário avaliar, com os olhos iluminados (Ef 1,18) pela fé, as consequências do pecado, que são motivo de divisão e de ruptura, não só no interior de cada homem, mas também nos vários círculos em que ele vive: familiar, profissional e social, como tantas vezes se pode verificar pela experiência, em confirmação da página bíblica referente à cidade de Babel e à sua torre (Gn 11,1-9). Tendo a intenção de construir aquilo que devia ser, a um tempo, símbolo e foco de unidade, aqueles homens encontraram-se mais dispersos do que antes, confundidos na linguagem, divididos entre si e incapazes de consenso e de convergência.

Porque falhou o ambicioso projeto? Porque "se afadigaram em vão os construtores"? (Sl 127[126], 1) Porque os homens tinham colocado como sinal e garantia da desejada unidade unicamente uma obra das suas mãos, esquecidos da ação do Senhor. Calcularam apenas com a dimensão horizontal do trabalho e da vida social, descuidando da dimensão vertical, pela qual se teriam encontrado radicados em Deus, seu Criador e Senhor, e voltados na direção dele como fim último do seu caminho.

--  São João Paulo II, Recconciliatio et Paenitentia (seção 13),  2 de Dezembro de 1984.

15 de mai. de 2021

A Reconciliação vem de Deus

 Deus é fiel ao seu desígnio eterno mesmo quando o homem, induzido pelo Maligno (Sab 2,4) e arrastado pelo seu orgulho, abusa da liberdade que lhe foi dada para amar e procurar generosamente o bem, recusando a obediência ao seu Senhor e Pai; mesmo quando o homem, em vez de responder com amor ao amor de Deus, se opõe a Ele como a um seu rival, iludindo-se e presumindo das suas forças, com a consequente ruptura das relações com Aquele que o criou. Não obstante esta prevaricação do homem, Deus permanece fiel no amor. A narração do Jardim do Édem leva-nos, certamente, a meditar sobre as consequências funestas da rejeição do Pai, que se traduz na desordem interna do homem e na ruptura da harmonia entre o homem e a mulher e entre irmão e irmão (Gn 3,2). Também é significativa a parábola evangélica dos dois filhos que se afastam do pai, de maneira diversa, cavando um abismo entre si. A recusa do amor de Deus e dos seus dons de amor está sempre na raiz das divisões da humanidade (Lc 15,11-32, Parábola do Filho Pródigo).

 A Volta do Filho Pródigo, Rembrandt

Mas nós sabemos que Deus, rico em misericórdia (Ef 2,4) tal como o pai da parábola, não fecha o coração a nenhum dos seus filhos. Espera-os, procura-os, vai alcançá-los precisamente no ponto em que a recusa da comunhão os aprisiona no isolamento e na divisão e chama-os a reunirem-se à volta da sua mesa, na alegria da festa do perdão e da reconciliação.

Esta iniciativa de Deus concretiza-se e manifesta-se no ato redentor de Cristo, que se irradia no mundo mediante o ministério da Igreja.

De acordo com a nossa fé, de fato, o Verbo de Deus fez-se carne e veio habitar a terra dos homens, entrou na história do mundo, assumindo-a e recapitulando-a em si (Ef 1,10). Ele revelou-nos que Deus é amor e deu-nos o mandamento novo (Jo 13,34) do amor, comunicando-nos, ao mesmo tempo, a certeza de que o caminho do amor está aberto a todos os homens, de tal modo que não é vão o esforço para instaurar a fraternidade universal (Gaudium et Spes, 38). Vencendo, com a sua morte na Cruz, o mal e a força do pecado, pela sua obediência cheia de amor trouxe a salvação a todos e tornou-se para todos reconciliação. N'Ele, Deus reconciliou o homem consigo.

A Igreja, continuando o anúncio de reconciliação que Cristo apregoou nas aldeias da Galileia e de toda a Palestina (Mc 1,15), não cessa de convidar a humanidade inteira a converter-se e a acreditar na Boa Nova; ela fala em nome de Cristo, fazendo seu o apelo do Apóstolo Paulo, que já recordámos: "Nós somos ... embaixadores ao serviço de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Suplicamo-vos, pois, em nome de Cristo: Reconciliai-vos com Deus" (2Cor 5,20). 

Quem aceita este apelo entra na reconciliação e faz a experiência da verdade contida naquele outro anúncio de São Paulo, segundo o qual Cristo "é a nossa paz, ele que fez de dois povos um só, destruindo o muro de separação, isto é, de inimizade que constituía a barreira (...) estabelecendo a paz para reconciliar uns e outros com Deus" (Ef 2,14-16). Embora este texto diga diretamente respeito à superação da divisão religiosa entre Israel, como povo eleito do Antigo Testamento, e os outros povos, todos chamados a fazer parte da Nova Aliança, ele contém, todavia, a afirmação da nova universalidade espiritual, querida por Deus e por Ele realizada, mediante o sacrifício do seu Filho, o Verbo feito homem, sem limites nem exclusões de qualquer género, para todos aqueles que se convertem e acreditam em Cristo. Todos, portanto, somos chamados a usufruir dos frutos desta reconciliação querida por Deus: todos e cada um dos homens, todos e cada um dos povos.

--  São João Paulo II, Recconciliatio et Paenitentia (seção 10),  2 de Dezembro de 1984.

3 de abr. de 2021

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

 

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

Por que a Igreja canta durante a vigília pascal, velando sobre a tumba de Cristo, nesta tumba onde está depositado o seu corpo martirizado, retirado da cruz onde estava pregado, sinal da Antiga Aliança? Qual é o motivo desta festa de Páscoa?

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

Por que a Igreja canta durante a vigília pascal, que abre a Páscoa da Nova Aliança? Por toda superfície da terra, a Igreja está reunida para adorar o poder do Altíssimo: “A direita do Senhor é poderosa; fez maravilhas a direita do Senhor” (Sl 117, 16).

É este poder que revelou-se no início da criação do mundo. Deus disse: "Seja feito"; e criou os céus e a terra (Gn 1,1).

É este poder que manifestou-se na libertação do povo de Israel da escravidão no Egito, o poder que conduziu o povo eleito através do Mar Vermelho, salvando-o das mãos do Faraó.

A Igreja, reunida em frente à tomba de Cristo, medita maravilhada sobre as múltiplas formas que o poder de Deus se manifestou, seu poder criador, seu poder salvador.

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

É realmente abençoada esta noite na qual resplandece a luz de Cristo, na qual a vida vencerá a morte. De fato, é Cristo que fala no Salmo: "Não morrerei; viverei para narrar as obras do Senhor" (Sl 117, 17).

Estamos reunidos, pela fé, nesta vigília para experimentar este poder e o amor de Deus. Estamos aqui para acolher a sua revelação, como aconteceu com as três mulheres que, ao acordarem, foram encontrar o Senhor na sua tumba, como aconteceu com o apóstolo, que correu para o sepulcro. Sobre as mulheres, o Evangelho diz que não sabiam o que pensar, que estavam amedontradas (Lc 24, 3-4; Mc 16,5). Isto por que se encontraram com um mistério que supera a capacidade do homem, que o deixa surpreso, é um mistério tremendo.

Passado o medo, veio como uma admiração adorante; e a Igreja reunida em frente ao sepulcro de Cristo, no coração desta noite abençoada, enxerga o pecado iluminado por uma nova luz, e pode cantar: "Ó feliz culpa que nos trouxe tão grande redentor!"

Realmente este é o sucesso daquela noite, "isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos. Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e de felicidade" (Sl 117,23-24). 

Recebei a revelação do poder Deus

Convido a todos, de modo especial, a acolher esta revelação do poder de Deus, de seu poder criativo e salvador, em especial vós, caros irmãos e irmãs, que nesta noite pascal estão recebendo o Batismo. A Igreja vos acolhe com grande alegria, vós que pediram, de modo sacramental, entrar na morte de Cristo para ressurgir para uma vida nova. O Bispo de Roma vos saúda cordialmente, vos convida a entrar nesta fonte de salvação.

Eis um grupo de vinte e quatro pessoas, todos jovens, provenientes de uma dezena de países e vários continentes. São um sinal de como Cristo chama os seus discípulos de todos povos e nações, são um sinal da universilidade da mensagem evangélica. Pela vossa presença, nossa vigília pascal é especialmente importante por que faz presente o mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, que está sempre presente nos sacramentos da Igreja. O poder da morte e ressureição de Cristo não para de agir nem de animar a humanidade.

Que coisa maravilhosa é a obra do poder divino, seu poder criativo, seu poder salvífico.

A Igreja nasce para vida na ressurreição do Senhor Ressuscitado. "A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular" (Sl 117,22). Todos nós nascemos desta pedra, penetra em nós o sopro vivificante desta noite pascal, o sopro vivificante da ressurreição de Cristo. 

Estamos mortos para o pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus. (cf Rm 6,11; Col 2,13).

-- Papa João Paulo II, homília da Vigília de Páscoa, 6 de Abril de 1985.

-- tradução própria

14 de mar. de 2021

Maria no Mistério Pascal - Homília de Quaresma

Antes de concluir esta catequese sobre Maria no mistério pascal, próxima à cruz,  gostaria de dedicar um pouco de tempo para Maria, modelo de esperança. Sempre há um tempo na vida em que precisamos da fé e esperança de Maria. Quando parece que Maria não escuta mais nosssas súplicas, quando parece que Ele não cumprirá suas promessas,quando nos faz experimentar derrota após derrota, quando parece que os poderes da escuridão são vitoriosos e tudo é amedontrador, como a escuridão que cobriu toda terra (Mt 27,45). Como diz um dos salmos, parece que Deus "não tem misericórdia para com o justo" (Salmo 76, 9). É nesta hora que devemos lembrar de Maria, sua fé e esperança, e clamar como outros fizeram: "Pai, eu não consigo entender teus desígnios, mas eu confio em vós!"

Talvez Deus esteja pedindo para que sacrifiquemos nosso Isaac, como Abraão, sacrificar aquela pessoa, um bem, um projeto, uma fundação, uma tarefa que gostamos, que Deus confiou a nós e para o qual temos dedicado nossas vidas. Esta é a ocasião que Deus está oferecendo para mostrar que confiamos nele, mais do que nos presentes, mais do que em nossas idéias.

Deus disse a Abraão, "Eu te fiz pai de muitas nações" (Gn 17,5) e após o teste de Isaac, diz, “Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos, e todas as nações da terra desejarão ser bendita como ela, porque obedeceste à minha voz” (Gn 22,16-18). Ele disse o mesmo a Maria, e ainda mais: Eu te farei mãe de todas nações da terra, mãe da Igreja! Todas as gerações te chamarão abençoada e por ti serão abençoadas. 

Um dos líderes do Protestantismo, Calvino, enquanto comentaca o livro do Gênesis 12,3 ("todas as famílias da terra serão benditas em ti”), diz que "Abraão não é apenas um exemplo, mas é uma fonte de bençãos". Isto ajuda a esclarecer a afirmação de Santo Irineu para todos cristãos, que disse "Assim como Eva, pela sua desobediência, tornou-se causa de morte para todos homens, Maria, pela sua obediência, tornou-se motivo de salvação para si mesma e todos nós". Também Maria não é apenas um exemplo, mas uma fonte de bençãos, por que foi instrumento de Deus, pela Sua graça, não pelo seu mérito.

A Bíblia nos conta que Judite, após arriscar sua vida em favor do povo judaico, retornou a sua cidade e o povo correu para encontrá-la, o sumo sacerdote a abençoou dizendo:  “Minha filha, tu és bendita do Senhor, Deus Altíssimo, mais que todas as mulheres da terra. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te guiou para cortar a cabeça de nosso maior inimigo! Ele deu neste dia tanta glória ao teu nome, que nunca o teu louvor cessará de ser celebrado pelos homens, que se lembrarão eternamente do poder do Senhor. Ante os sofrimentos e a angústia de teu povo, não poupaste a tua vida, mas salvaste-nos da ruína, em presença de nosso Deus." (Judite 13, 23-25)

Recordemos a presença de Maria no Mistério Pascal, considerando que as palavras de São Paulo resumindo a missão de Cristo, também podem ser aplicadas a ela, pois são como um resumo da vida cristã: 

Maria, embora fosse a Mãe do Deus, não considerou isto como um privilégio para ser usado, mas se considerava a menor, chamando a si mesma, serva, e viveu como todas as mulheres do seu tempo. Ela humilhou-se a si mesma, obediente a Deus, até a morte de seu Filho, e morte de Cruz. 

Por isso Deus a exaltou e lhe deu um nome pelo qual, após a morte de Jesus, todos a chamarãom todos irão inclinar sua cabeça frente a ela, nos céus e na terra, e embaixo da terra, e toda língua confessará que Maria é a Mãe de Deus, para glória de Deus, seu Pai. Amém!

-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte III, 3 de Abril de 2020. 

 -- tradução própria

7 de mar. de 2021

Maria Santíssima Mãe da Igreja - homília de Quaresma


 A doutrina católica tradicional sobre Maria, Mãe dos Cristãos, foi renovada pela Igreja no Concílio Vaticano II, onde o papel de Maria foi incluído dentro da história da salvação e o mistério de Cristo. A Igreja explicou que predestinada pela Palavra a ser Mãe de Deus, a Virgem Maria era nesta terra a virgem mãe do Salvador e, acima de todos e de maneira singular, estava generosa e humildemente associada ao Senhor. Ela O concebeu, trouxe à vida e alimentou Cristo. Ela apresentou-O ao Pai no templo e permaneceu unido à Ele até morrer na Cruz. Desta maneira única, ela cooperou através da sua obediência, fé, esperança e caridade com a missão do Salvador de trazer à luz a alma dos pecadores. Neste sentido, ela é nossa mãe pela graça.

O Concílio explicou o papel maternal de Maria desta maneira:  A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultâneamente com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência foi na terra a nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça (Lumen Gentium, 61). 

E também: Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece (Lumen Gentium, 60).

Além dos títulos de Mãe de Deus e Mãe dos Fiéis, o Concílio também utilizou termos como tipo e figura (exemplo) para explicar o papel de Maria: Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (Lumen Gentium, 63).

A novidade destes ensinamentos sobre Maria, como sabemos, é a sua inclusão num documento da Igreja. Como é comum nestes casos, não foi sem aglum sofrimento e conflito que o Concílio renovou a Mariologia convencional dos últimos séculos. Maria não é mais tratada separadamente, como um papel de intermediária entre Cristo e a Igreja. Ela foi ligada à Igreja, como nos dias dos Santos Padres. Como Santo Agostinho disse Maria é o mais importante membro da Igreja, mas ainda assim, um membro da Igreja, não está acima dela, não está fora dela. Maria é santa, Maria é abençoada, mas a Igreja é mais importante que Maria. Por que? Por que Maria é parte da Igreja, um santo e exceptional membro, mais santo e abençoado que os demais, mas ainda é um membro da Igreja. Se ela é um membro do corpo, por consequência, conclui-se que o corpo é mais importante que seus membros.

Logo após o Concílio, o Papa Paulo VI aprofundou a idéia da maternidade de Maria para todos fiéis declarando-a explicita e solenemente com o título de Mãe da Igreja: Portanto, para glória da Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima Mãe da Igreja, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão (Paulo VI, 21 de Novembro de 1964).

-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte I, 3 de Abril de 2020. 

 -- tradução própria do texto em inglês.

27 de fev. de 2021

Eis aí o teu filho - homília de Quaresma

Quando Jesus viu sua mãe e o discípulo que amava ao pé da cruz, Ele disse "Mulher, eis aí teu filho! e então disse ao discípulo "Eis aí tua mãe!". E a partir daquele momento, o discípulo considerou-a sua mãe. (João 19, 26-27). Em outra catequese, falamos de Maria como Mãe de Deus ,hoje falarei sobre Maria, Mãe dos Cristãos, nossa mãe.

Devemos imediatamente ressaltar que não estamos lidando com dois títulos e duas verdades do mesmo nível. Mãe de Deus é um título solenemente atribuído a Maria e é baseado na maternidade real. Tem uma conexão essencial com a principal verdade da nossa fé, pois Jesus é ao mesmo tempo Deus e homem, na mesma pessoa, Mãe de Deus é um título proclamado por toda igreja. Mãe dos Cristãos ou Nossa Mãe indica a maternidade espiritual, não tão relacionado às principais verdades da nossa fé, não podemos dizer que utilizado por todos cristãos, em qualquer lugar e sempre, mas reflete a doutrina e devoção de algumas Igrejas, em especial da Igreja Católica.

 Calvário, de Josse Lieferinxe (c. 1500)

Santo Agostinho nos ajuda a entende as semelhanças e diferenças entre estas duas maternidades. Fisicamente, Maria é apenas Mãe de Jesus, enquanto, espiritualmente, por fazer a vontade de Deus, ela é nossa irmã e mãe. Ela não foi a mãe espiritual de Jesus, a cabeça da Igreja, nosso Salvador, mas ela certamente é a mãe espiritual de todos nós, membros do corpo de Cristo, por que sua caridade cooperou para o nascimento da igreja da qual todos nós somos memberos.

Nesta meditação, gostaria de trazer à luz toda riqueza e o dom de Cristo, que está contido neste título, não apenas para que utilizemos estes títulos para honrar Maria, mas para edificar nossa fé e imitarmos a Cristo.

Assim como a maternidade física, a espiritual ocorre em dois momentos diferentes: concepção e nascimento. Apenas um não é suficiente. Maria experimentou ambos, ela espiritualmente nos concebeu e nos trouxe a luz. Ela nos concebeu, isto é, nos recebeu, quando entendeu que seu filho não era como os outros meninos, compreensão esta iniciou na Anunciação do anjo e progrediu na medida que Jesus gradualmente avançava na sua missa. Ele era o Messias em torno do qual uma comunidade estava sendo formada. Este tempo da concepção de Maria ocorreu através de seu "sim", foi um tempo de alegria.

Ao pé da cruz, Maria teve seu tempo de sofrimento. Jesus, naquele momento, referiu-se a ela como "Mulher". Sabendo que o João Evangelista, além do discurso direto, utilizou muitos alusões, símbolos e referências, estas palavras fazem-nos pensar em outras passagens, como quando Jesus disse: Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora (Jo 16, 21) e, no livro do Apocalipse: uma mulher ... estava grávida, e já com as dores de parto, e gritava na ânsia de dar à luz (Ap 12, 1-2).

Mesmo que entendamos esta mulher como sendo a Igreja, a comunidade da nova aliança dando à luz ao novo homem e nova mulher, Maria estava pessoalmente envolvida com esta comunidade inicial de fiéis. Esta comparação entre Maria e a Mulher foi aceita pela Igreja desde o inicio. Santo Irineu, um dos discípulos de São Policarpo, e este de São João, ja falava de Maria como a nova Eva, a nova "mãe de todos viventes".

Examinemos agora o texto de São João para ver se há alguma referência nele para o que estamos dizendo. As palavras de Jesus para Maria "Mulher, eis teu filho" e para João, "Eis tua mãe", tem um significado direto e real. Jesus confiou João a Maria e Maria a João.

Mas este não é o significado completo da cena. A exegêse moderna, que tem feito enormes progressos na compreensão da linguagem e expressões do quarto Evangelho, está ainda mais convencida disto que os Santos Padres estavam. Se apenas lermos a passagem de maneira simples e direta, considerando apeans o que está escrito, parece algo fora do lugar, algo que não combina com o restante do texto. Para João, o momento da morte era o momento da glorificação de Jesus, o cumprimento final das Escrituras.

Então, dado este fato, é muito estranho que o texto contenha algo privado e pessoal, não um comentário universal e eclesial ligando esta mulher às mulheres de Genêsis 3,15 e Apocalipse 12. O significado eclesial é que o discípulo não era apenas João, mas representava todos os discípulos de Cristo, a sua Igreja. Cristo morrendo nos deixou ao cuidado de Maria como seus filhos, assim como Maria foi dada a nós como nossa mãe.

As vezes as palavras de Jesus descrevem algo presente e revelam aquilo que já era uma verdade; outras, criam e trazem a existência aquilo que elas expressam. As palavras de Jesus morrendo na cruz para Maria e João são do segundo tipo. Neste sentido, são semelhantes a quando ele disse, "Este é meu corpo", ali Jesus fez Maria mãe de João e João, filho de Maria. Ele não proclamou a nova maternidade de Maria, ele a instituiu. Não é uma palavra que tenha vindo de Maria, é uma Palavra de Deus, não se baseia nos méritos de Maria, mas na graça de Deus.

Aos pés da cruz, Maria se torna a filha de Sião, que após a perda do seu filho, recebe uma nova e numerosa família de Deus, mas uma família no Espírito, não na carne. Um salmo, que a liturgia aplica a Maria, diz: "Ajuntarei Raab e Babilônia aos que me honram; eis a Filisteia e Tiro com a Etiópia, lá todos nasceram. Será dito de Sião: “Um por um, todos esses homens nela nasceram; foi o próprio Altíssimo quem a fundou. O Senhor inscreverá então no registro dos povos: 'Aquele também nasceu em Sião'"  (Sl 87, 4-6). E, de fato, é verdade, todos nascemos em Sião! Isto deve ser dito de Maria, a nova Sião, este e aquele são nascidos dela. Eu, você, cada pessoa, até mesmo aqueles que ainda não sabem, esta escrito no registro de Deus: "Este homem nasceu em Sião"

Mas, não fomos "nascidos ... pela palavra de Deus, viva e eterna" (1Pd 1,23)? Não somos todos "nascidos de Deus" (Jo 1,13), renascidos pela "água e Espírito" (Jo 3,5)? Tudos isto é verdade, mas não deixa de ser verdade de que, em outro sentido, somos filhos de Maria, sua fé e sofrimento. Se São Paulo, um apóstolo de Cristo, pode dizer a seus seguidores, "fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho" (1Cor 4,15), não poderia Maria, com ainda mais razão, eu me tornei tua mãe em Cristo? Quem tem mais direito de dizer as palavras do apóstolo: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gal 4,19)? Ela deu a luz novamente ao pé da cruz, por que ela já havia dado a luz antes, na alegria, não no sofrimento, quando deu a luz à palavra viva e eterna, Cristo, do qual renascemos.

Assim como aplicamos a Maria, aos pés da cruz, a lamentação de Sião, que bebeu do cálice da ira divina, também, confiando no poder infinito da palavra de Deus, que vai muito além dos nossos esquemas exegéticos, também podemos aplicar a Maria o hino de Sião reconstruída após o exílio, que maravilhada, olha por todos seus filhos e exclama: "'Quem me gerou estes filhos?'. Não tinha filhos, era estéril: 'Quem os criou?'. Eis que eu estava desamparada e só: 'De onde vieram eles?'" (Is 49,21).


-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte I, 3 de Abril de 2020. 

-- tradução própria 

Nota: nos próximos publicarei as segunda e terceira parte da homília.

22 de fev. de 2021

O conhecimento do Pai através da Sabedoria criadora e humana

Ícone da Santa Sabedoria
  A unigênita Sabedoria de Deus é quem cria e dá realidade a tudo. Tudo, como se disse, fizeste na sabedoria; e também: A terra está repleta de tua criação.

 Para que as coisas não apenas existissem, mas existissem boamente, aprouve a Deus doar-se, por meio de sua Sabedoria, a todas as suas criaturas, imprimindo-lhes alguma coisa da semelhança e da beleza de si mesmo em todas e em cada uma. Deste modo tornou claro serem todas as criaturas ornadas de sabedoria e obras dignas de Deus.

 Assim como nossa palavra ou verbo é a imagem do Verbo, o Filho de Deus, também a sabedoria posta em nós é a sua imagem da sabedoria do Verbo de Deus, isto é, da própria Sabedoria. Na sabedoria posta em nós, tendo a capacidade de saber e de compreender, nós nos tornamos aptos a receber a Sabedoria criadora e, por ela, a conhecer o seu Pai. Porque quem tem o Filho, diz ele, tem também o Pai, e: Quem me recebe, recebe aquele que me enviou. Por conseguinte, já que uma forma criada da Sabedoria existe em nós e em tudo, é justo que a verdadeira e criadora Sabedoria reconheça pertencer-lhe esta forma e diga: O Senhor me criou em suas obras.

 Mas porque, como já explicamos, o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria, foi do agrado de Deus salvar os que crêem pela estupidez da pregação. Já não mais, como nos tempos antigos, Deus quis ser conhecido pela imagem e sombra da sabedoria existente nas coisas criadas, mas quis que a verdadeira Sabedoria, ela mesma, assumisse a carne, se fizesse homem e padecesse a morte da cruz, a fim de que nela firmados pela fé, todos os que crêem pudessem ser salvos de então em diante.

 Portanto, é a Sabedoria de Deus, a mesma que anteriormente, por sua própria imagem impressa nas criaturas – e por isso a chamamos sabedoria criada – se fazia conhecer não somente a si, como ainda, através de si, o seu Pai. Depois, ela ainda, que é o Verbo, fez-se carne, como disse São João e, destruída a morte e libertada nossa raça, manifestou-se a si mesma e, em si, também ao Pai, de modo ainda mais claro. Daí estas palavras: Dá-lhes que te conheçam a ti, único verdadeiro Deus, e ao que enviaste, Jesus Cristo.

 Por isto, a terra inteira está cheia de seu conhecimento. Na verdade, um só é o conhecimento que temos do Pai através do Filho e do Filho a partir do Pai. O Pai alegra-se com a única e mesma alegria com que o Filho se delicia no Pai, dizendo: Era eu que fazia sua alegria, em sua presença, cada dia, eu me deliciava.

-- Dos Sermões contra os Arianos, de Santo Atanásio, bispo (Séc. IV)

26 de dez. de 2020

O ícone da Sagrada Família



O ícone da Sagrada Família foi encomendado ao pintor e fundador do Caminho Neocatecumenal Kiko Argüello pelo Pontifício Conselho para a Família por ocasião do II Encontro Mundial das Famílias realizado no Rio de Janeiro em 1997. Foi doado pelo autor ao Papa João Paulo II e desde então foi utilizado em vários Encontros Mundiais da Família. 

O ícone original foi pintado a óleo sobre uma placa de carvalho, medindo 1 metro por 1,20. O fundo, como é tradição na pintura sacra de raízes orientais, foi laminado com folhas finas de ouro, alusivo à luz celestial que transfigura o mundo. A cor ocre avermelhada predomina, o que na iconografia simboliza a divindade. 

Significado teológico

Este ícone é rico em conteúdo bíblico e teológico, propondo uma meditação sobre a Sagrada Família, a missão salvífica de Cristo e a família cristã. O momento histórico-salvífico que representa é o regresso da Sagrada Família de Jerusalém a Nazaré, depois que a criança foi encontrada no Templo.

Jesus quando adolescente carrega a cruz em forma de um cetro real, símbolo duplo da Paixão que ele vai sofrer e seu status como rei. São José, com o rosto do Servo de Javé (Is 53) inspirado no Rosto do Mortalha, tem a responsabilidade de pai e protetor do "Filho amado" (Mc 1, 11).  

Embora esta representação de São José carregando Jesus em seu ombros seja rara, um precedente pode ser citado no mosaico do século 12 do Retorno do Sagrada Família do Egito no mosteiro de Cora (Turquia). O tema foi retomado por autores modernos, como William Dobson (1817-1878), em uma de suas pinturas São José carrega o adolescente Jesus no retorno a Nazaré depois de se encontrar com o Doutores da Lei no Templo de Jerusalém. Na composição devemos destacar também a figura de São José representada de acordo com a iconografia de Cristo carregando a ovelha nos ombros, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1: 25-37), e que é preservado em outras imagens canônicas, como o Bom Pastor, São Cristóvão ou, mais recentemente, o Divino Pastor.

A Virgem Maria é representada como Theotokos, ou Mãe de Deus, como indicam as letras vermelhas acima de sua cabeça. Ela caminha ao lado deles recebendo da mão de Cristo um rolo em que as palavras do profeta Isaías aparecem em letras gregas: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para proclamar aos pobres a Boa Nova" (cf. Is 61,1), palavras que Jesus vai ler na Sinagoga de Nazaré no início do seu ministério público e que aplicará a si mesmo, identificando-se como Messias e Salvador (Lc 4, 18,21). As duas estrelas na cabeça e ombro da Virgem fazem referência às outras pessoas da Santíssima Trindade, Deus Pai e Espírito Santo.

A família é essencial ao plano de Deus

Quando Jesus tinha doze anos, ele estava com São José, a Virgem e seus parentes para celebrar a Páscoa no Templo em Jerusalém. Lá eles perderam-no de vista e descobriram-no depois de três dias sentados com os professores da Lei conversando com eles, "e todos os que o ouviram ficaram espantados com sua inteligência e suas respostas" (Lc 2, 47). Diante da preocupação dos pais, Jesus revela sua filiação divina: “Você não sabia que eu devo me ocupar das coisas de meu Pai?” (Lc 2,49), e embora eles não o façam naquele momento, sabem que é necessário formá-lo na fé de seu povo e prepará-lo para sua missão redentora. Da apresentação da criança, o Evangelho diz que Maria e José "cumpriram todas as coisas de acordo com a Lei do Senhor [e] a criança cresceu e se tornou forte, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele” (Lc 2,40).

A Palavra de Deus, feita Homem, só pode realizar sua missão quando adulto e Deus revela que o lugar histórico onde o Filho de Deus se torna adulto é na Família de  Nazaré. Até o próprio Deus, feito carne em Jesus Cristo, não dispensa uma família para "crescer em sabedoria, idade e graça." A família é, portanto, fundamental no desígnio de Deus: “a família constitui o lugar natural e o instrumento mais efetivo de humanização e personalização da sociedade: colabora de forma original e profunda na construção do mundo, possibilitando uma vida humana adequada, em particular salvaguardando e transmitindo virtudes e valores”. (Familiaris Consortio, 43)

O fato de Jesus adolescente ser carregado nos ombros indica a importância que o pai tem na família, que deve preparar o jovem para a vida adulta. O papel do pai na e para a família é de importância única e insubstituível. "Como a experiência ensina, a ausência do pai causa desequilíbrios psicológicos e morais, além de notáveis ​​dificuldades nas relações familiares. Estes problemas também ocorrem nas circunstâncias opostas, quando a presença opressora do pai, a superioridade abusiva de prerrogativas que humilham as mulheres e inibem o desenvolvimento de relacionamentos saudáveis. " (Familiaris Consortio, 25)

O sacramento do Matrimônio: um jugo que nos faz livres

Outra interpretação da posição corporal que Jesus adota no ícone entende Jesus como símbolo do jugo matrimonial na Sagrada Família e, portanto, de todas famílias cristãs. Cristo é o vínculo de união do sacramento matrimonial. “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo sobre vós e recebei minha doutrina, porque eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para as vossas almas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve”. (Mt 11, 28-30).

Como é bem sabido, o jugo é um instrumento de madeira ao qual pares de mulas ou bois são amarrados, para fazer os animais trabalharem juntos. O termo vem do latim iugum, o que, por sua vez, deriva de uma raiz indo-européia que aparece em sânscrito como yug, signficando "união". Dois bois que trabalham juntos, unidos pela mesma canga, são chamados jugo.  A expressão deriva desta última palavra e também se aplica, por extensão, a outros animais trabalhando juntos, ou algumas pessoas cooperando para fazer o que mesmo.


A presença de Cristo permite ao homem deixar seu egoísmo e passar para o outro, amar na dimensão da Cruz, segundo o mesmo Espírito de Jesus Cristo, onde a mulher se submete ao marido e o homem ama sua esposa como Cristo amou sua Igreja (Ef 5, 25-29). Desta forma, os esposos podem entrar na comunhão perfeita de amor um pelo outro. Eles podem viver em comunhão, unidos pela graça de um vínculo eterno, que eleva à santidade os laços naturais da afetividade. Os cônjuges são, portanto, cônjuges em significado pleno: com jugo, unidos pelo mesmo jugo, mas por livre escolha, por amor um ao outro.

A presença de Cristo torna o milagre do casamento possível hoje no mundo, mesmo que desprezado por muitos, porque acreditam que o amor tem uma data de validade. Aqui está um novo desafio para a família cristã: mostrar que unidos a Cristo ressuscitado, o casamento recebe um vinho novo no meio dos trabalhos e lutas da vida e o casal por continuar junto no caminho da alegria, das provas e da santidade.

-- Tradução própria de uma carta escrita pela família Castillo de Luna, em 2016.


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