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30 de ago. de 2021

31 de Agosto: São Nicodemos e São José de Arimatéia

 


Nicodemos foi um fariseu, membro do Sinédrio, certamente um homem que havia estudado a fé judaica. Ele é mencionado três vezes no Evangelho de São João:

1.  Na primeira vez em que é citado, ele é identificado com um fariseu que vem visitar Jesus a noite, escondido. Jesus havia ido à Jerusalém para passar a Páscoa, ao chegar no Templo, derrubou as mesas do negociantes, dizendo que ali era a casa do Pai. Quando Nicodemos visita a Jesus, ele faz referência a estes eventos: “Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3,2), ao que Jesus responde:  “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”. (Jo 3,3). Daí segue uma conversa sobre o significado da expressão "nascer de novo". Nicodemos parece entender literalmente, como se um homem pudesse entrar de novo no ventre de sua mãe, mas muitos teólogos argumentam que Nicodemos estava propositalmente usando uma interpretação literal para que Cristo explicasse melhor o rela significado do seu ensinamento. Ao responder, Jesus parece surpreso que um mestre judaico não entendia o significado de um renascimento espiritual.

2. No capítulo 7, Nicodemos adverte seus colegas no Sinédrio que não devem julgar a Cristo sem ouvi-lo, dizendo: “Condena acaso a nossa Lei algum homem, antes de o ouvir e conhecer o que ele faz?” (Jo 7, 51). Isto confirma não apenas que fazia parte do Sinédrio como também tinha alguma influência, pois, naquela ocasião, Cristo não foi preso.

3. Finalmente quando Jesus é spultado, Nicodemos traz uma mistura de mirra e perfumes, cerca de 33 quilos, apesar de saber que os judeus não embalsamavam seus falecidos. Isto mostra que ele era um homem de posses, mas também algo mais importante, como destacaou o Papa Bento XVI: "Estas quantidades foram extraordinárias, excedendo qualquer outra utilizada normalmente. Nicodemos preparou o sepultamento de um rei".

José de Arimatéia aparece nos quatro Evangelhos como sendo o responsável pelo enterro de Cristo. 

São Mateus (27,57) fala apenas que era um homem rico e discípulo de Cristo, São Marcos (15, 43) acrescenta que ele era "um ilustre membro do conselho que também esperava o Reino de Deus" e São Lucas (23, 50-56) esclarece que ele não havia concordado com a decisão do Sinédrio.

De acordo com São João (19,38), após saber da morte de Jesus, este discípulo secreto de Cristo, pediu para Pilatos permissão para fazer o enterro antes do anoitecer. JOsé imediatamente comprou um pano de linho e foi até o Gólgota para sepultar a Cristo, o que fez com o auxílio de Nicodemos.

Após limpar e preparar o corpo de Cristo, colocaram-no em uma caverna, num jardim próximo. O Evangelho de São Mateus afirma que aquele seria a tomba que José adquirira para si mesmo. O sepultamento foi rápido para que cumprissem tudo antes de chegar o sábado.  

Ambos são venerados pelas várias igrejas católicas e cristãs, embora em dias diferentes. No atual calendário adotado pela Igreja Católica Romana, ambos são lembrados conjuntamente em 31 de Agosto. 

-- autoria própria.

-- A pintura chama-se O Sepultamento de Cristo, foi pintada por Ticiano em 1559 e está no Museu do Prado em Madrid. Nela José de Arimatéia e Nicodemos seguram o corpo de Cristo, enquanto Maria e São João observam. Um anjo está junto deles. Note as ricas vestes vermelhas de Nicodemos, como Maria e João estão envoltos em trevas, muito pertubados com a morte de Cristo, enquanto Cristo e o Anjo estão na luz.


3 de abr. de 2021

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

 

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

Por que a Igreja canta durante a vigília pascal, velando sobre a tumba de Cristo, nesta tumba onde está depositado o seu corpo martirizado, retirado da cruz onde estava pregado, sinal da Antiga Aliança? Qual é o motivo desta festa de Páscoa?

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

Por que a Igreja canta durante a vigília pascal, que abre a Páscoa da Nova Aliança? Por toda superfície da terra, a Igreja está reunida para adorar o poder do Altíssimo: “A direita do Senhor é poderosa; fez maravilhas a direita do Senhor” (Sl 117, 16).

É este poder que revelou-se no início da criação do mundo. Deus disse: "Seja feito"; e criou os céus e a terra (Gn 1,1).

É este poder que manifestou-se na libertação do povo de Israel da escravidão no Egito, o poder que conduziu o povo eleito através do Mar Vermelho, salvando-o das mãos do Faraó.

A Igreja, reunida em frente à tomba de Cristo, medita maravilhada sobre as múltiplas formas que o poder de Deus se manifestou, seu poder criador, seu poder salvador.

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

É realmente abençoada esta noite na qual resplandece a luz de Cristo, na qual a vida vencerá a morte. De fato, é Cristo que fala no Salmo: "Não morrerei; viverei para narrar as obras do Senhor" (Sl 117, 17).

Estamos reunidos, pela fé, nesta vigília para experimentar este poder e o amor de Deus. Estamos aqui para acolher a sua revelação, como aconteceu com as três mulheres que, ao acordarem, foram encontrar o Senhor na sua tumba, como aconteceu com o apóstolo, que correu para o sepulcro. Sobre as mulheres, o Evangelho diz que não sabiam o que pensar, que estavam amedontradas (Lc 24, 3-4; Mc 16,5). Isto por que se encontraram com um mistério que supera a capacidade do homem, que o deixa surpreso, é um mistério tremendo.

Passado o medo, veio como uma admiração adorante; e a Igreja reunida em frente ao sepulcro de Cristo, no coração desta noite abençoada, enxerga o pecado iluminado por uma nova luz, e pode cantar: "Ó feliz culpa que nos trouxe tão grande redentor!"

Realmente este é o sucesso daquela noite, "isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos. Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e de felicidade" (Sl 117,23-24). 

Recebei a revelação do poder Deus

Convido a todos, de modo especial, a acolher esta revelação do poder de Deus, de seu poder criativo e salvador, em especial vós, caros irmãos e irmãs, que nesta noite pascal estão recebendo o Batismo. A Igreja vos acolhe com grande alegria, vós que pediram, de modo sacramental, entrar na morte de Cristo para ressurgir para uma vida nova. O Bispo de Roma vos saúda cordialmente, vos convida a entrar nesta fonte de salvação.

Eis um grupo de vinte e quatro pessoas, todos jovens, provenientes de uma dezena de países e vários continentes. São um sinal de como Cristo chama os seus discípulos de todos povos e nações, são um sinal da universilidade da mensagem evangélica. Pela vossa presença, nossa vigília pascal é especialmente importante por que faz presente o mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, que está sempre presente nos sacramentos da Igreja. O poder da morte e ressureição de Cristo não para de agir nem de animar a humanidade.

Que coisa maravilhosa é a obra do poder divino, seu poder criativo, seu poder salvífico.

A Igreja nasce para vida na ressurreição do Senhor Ressuscitado. "A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular" (Sl 117,22). Todos nós nascemos desta pedra, penetra em nós o sopro vivificante desta noite pascal, o sopro vivificante da ressurreição de Cristo. 

Estamos mortos para o pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus. (cf Rm 6,11; Col 2,13).

-- Papa João Paulo II, homília da Vigília de Páscoa, 6 de Abril de 1985.

-- tradução própria

13 de abr. de 2019

Judas e Pedro

Nesta Semana Santa há dois personagens, discípulos de Jesus que o acompanharam por três anos, que são fundamentais:

Judas beijando a Cristo e São Pedro cortando a orelha do soldado, tela
de José Joaquim da Rocha, 1776.
- Judas Iscariotes, que entrega Jesus para os soldados em troca de um suborno de 30 moedas. Caindo em si, tenta devolver o dinheiro, mas os sacerdotes do Templo simplesmente negam recebê-lo; em desespero, Judas se enforca, este é o seu final na Terra.

- Pedro, meio falastrão, que prometeu acompanhar Jesus até a morte, mas no momento decisivo de tornar suas palavras em ações, prefere negar a Cristo três vezes para salvar sua vida. Caindo em si, chora amargamente a traição que cometera. Por se manter justo com os outros, irá reecontrar Jesus, a quem dirá, as mesmas três vezes, amá-lo, e de quem receberá a missão, também três vezes repetidas, de apascentar suas ovelhas. Por aceitar sua missão, Pedro tornou-se o primeiro Papa da nascente Igreja e terminou também crucificado.

Ambos traíram a Jesus, mas somente um viveu para refazer sua história. Qual a diferença? 

Judas, em desespero, não suportou o peso do seu pecado. Tentou se desfazer dele, devolvendo as moedas, mas os sacerdotes apenas lhe disseram que não queriam nada mais com ele. Sem ver solução, sem confiar em Deus, achando que seu pecado era tão grande que não tinha perdão, Judas entrou em um desespero tão grande que acabou se suicidando. Hoje, com o auxílio da Psicologia, entendemos que o suicida não está num estado normal e prefre cometer um ato que contrário à natureza, não só humana, mas todos animais tendem a se preservar, nunca tirar a sua vida.

Pedro chorou amargamente, admitiu sua culpa, permaneceu com seus irmãos, viu a Cristo Ressuscitado, mas ainda carregava dentro de si a sua culpa. Foi preciso que Cristo insiste, repetisse três vezes que lhe amava, que tinha um lugar para ele na sua Igreja, que permanecesse ao seu lado, para que Pedro se sentisse realmente perdoado. 

Sobre Pedro, a Igreja afirma que está nos seus céus, por isso é chamado de São Pedro. De Judas, a Igreja não sabe o que aconteceu, talvez esteja no Céu, ou no Purgatório, ou no Inferno. O que terá pensado Judas naquele último momento em que já não podia desfazer seu ato, livrar-se da corda no pescoço, mmas ainda tinha um último suspiro de vida? Diz-se que mesmo depois de morrer, Deus, em sua bondade, ainda concede mais cinco minutos para o arrependimento do seus pecados.

São Paulo dirá que o que pregamos é loucura para o mundo. E o que pregamos é Deus Misericordioso que pode apagar todos os pecados. Pregamos Jesus Cristo, que do alto na Cruz, suas últimas palavras foram: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem". A quem Jesus está perdoando? A todos! Aos soldados que estavam cumprindo a ordem de matá-lo; a Pilatos, que aceitou matá-lo, ainda que lavasse suas mãos para dizer que não concordava; aos sacerdotes judeus que armaram a acusação e um falso julgamento. Mas Jesus estava ali também perdoando a Pedro, que lhe negara três vezes; a Judas Iscariotes, que lhe entregara aos soldados; a outros apóstolos que, com medo, se omitiram. 

Jesus estava também perdoando a nós que escutamos o que Ele falou, conhecemos seus Dez Mandamentos e, no entanto, todos os dias fazemos exatamente o contrário. Lembro claramente de um rapaz em Manaus, que contava ter matado a duas pessoas em troca de dinheiro, mas entendeu que Deus havia perdoado aquele pecado gravíssimo. Lembro de uma senhora que viu o amor de Deus perdoando-lhe o pecado de ter abortado seu filho. Lembro de outro rapaz que Deus perdoou os pecados cometidos em muitos anos de drogas, sexo e homossexualismo. Nenhum deles é uma pessoa excepcional, como anjos que andam levitando pelo mundo; muito pelo contrário, cometeram atos contrários à natureza humana, contrários aos ensinamentos de Deus, mas eles tem a certeza do Amor Deus Misericordioso, que um dia os conduzirá aos céus, à uma vida eterna ao lado de Deus. 

Todos nós pecamos, todos nós precisamos ser como Pedro, que mesmo envorganhado, permaneceu com seus irmãos, permaneceu na Igreja. Um dia veremos o Amor de Deus na nossa vida, veremos como nossos pecados são realmente, profundamente perdoados. Veremos que Deus pode tirar de nossas pecados uma nova vida, fazer uma transformação, uma verdadeira conversão. 

Estamos entrando na Semana Santa, celebraremos Jesus Cristo Ressuscitado, Jesus Cristo que renova a nossa vida, perdoa todos os nossos pecados, sem a mínima exceção. É um tempo privilegiado do Amor de Deus, um tempo festivo, na noite de Páscoa Cristo venceu a Morte e dos infernos retorna glorioso. Alegre-se a Terra, inundada pela luz de Cristo Jesus, que destruiu as trevas da morte e do pecado.  Aleluia!



-- autoria própria

24 de mar. de 2018

O sofrimento de Cristo na cruz

A Cruz é um escândalo
Como disse São Paulo, "a Cruz é um escândalo" por que é impossível entender que alguém com poder para evitá-la, prefira, conscientemente, passar por todo sofrimento. É um escândalo por que a razão humana não a aceita. E assim é com todo sofrimento, sempre buscamos a tranquilidade, a felicidade e a alegria, mas, em muitos momentos da vida, encontramos o sofrimento. A Cruz de Cristo só pode ser explicada se você olhar além dela, para a Ressurreição. É ela que lança uma nova luz sobre o sofrimento de Cristo, é ela que pode lançar uma nova luz para explicar nossos sofrimentos diários.

A descida da Cruz, de Jean Jouvenet
Sempre que estamos doentes, percebemos nossos limites. Se a doença for mais grave, vemos a morte de perto. Se estamos sofrendo por que uma pessoa amada faleceu, então é exatamente a morte que estamos contemplando, estamos contemplando nossos limites temporais, que um dia nossos dias na Terra terminarão, que nossos dias de tranquilidade, felicidade e alegria são necessariamente limitados. Não sofremos apenas por doença, sofremos emocionalmente em muitas situações, por exemplo, se uma pessoa amada nos abandona ou trai, se sofremos uma injustiça, uma falsa acusação que nos leva a perder o emprego. Muitas pessoas, frente ao sofrimento, caem no desespero, perdem a esperança de uma vida melhor, e terminar por tirar a própria vida.

O sofrimento no Antigo Testamento
No Antigo Testamento há muitos exemplos de pessoas que sofreram. José foi vendido pelos irmãos para ser levado ao Egito como escravo, traído pela própria família que ele amava. No Egito foi acusado falsamente por uma mulher e posto na cadeia. Jó tinha filhos, muitos bens, uma vida estável. Perdeu a saúde, tinha feridas, os ex-amigos o abandonaram, perdeu filhos, esposa, os bens. Mas, anos depois, José entende o plano de Deus, como tinha que estar no Egito e ser preso para conhecer o chefe da guarda, saber dos sonhos do Faraó, para se tornar o administrador do reino, salvar sua família e perdoar os irmãos. Jó, um homem inocente que sofreu, louvava a Deus por tudo, reconhecia o poder de Deus, sabia que Deus lhe havia dado a vida e tudo mais, e também tinha poder para retirá-la. Mantendo sua fé, recuperou tudo que possuía, mas agora não por seu esforço, mas pela compaixão de Deus. José, traído pelos seus irmãos para salvá-los, prefigura Cristo traído por seu discípulo; Jó, o homem inocente sofredor, prefigura Cristo, inocente e sofredor.

A Paixão de Cristo
Cristo, o filho de Deus nascido homem, nos amou até o extremo, até perder todas as forças, até morrer na Cruz, aceitou o sofrimento de maneira total e perfeita. Na Última Ceia, Cristo mesmo explicou: Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). Cristo sofreu na Cruz para nos dar a vida definitiva, a vida eterna. Naquela noite Cristo venceu a morte e dos infernos retornou vitorioso, ó noite maravilhosa (Pregão Pascal). Nesta noite nascemos novamente, livres do mal e do pecado, perdemos o medo da morte e podemos enfrentar o sofrimento de frente. É a ressurreição que explica a Cruz. 

Sendo obediente ao Pai até o final, até sua morte, Jesus elimina a raiz de todos os sofrimentos. É o ápice de todos os milagres, pois até ali Jesus havia curados a muitos, ressuscitado alguns, tocado outros com sua palavra, mas na Cruz realizou um milagre que beneficia a todos, inclusive a nós que estamos há dois mil anos longe de Jerusalém. É nesta cruz que Cristo cura nossas fraquezas físicas e espirituais. 

Por que Cristo escolheu a Cruz? Sendo Filho de Deus Onipotente e Onisciente, Cristo poderia salvar a todos com um estalar de dedos, um momento mágico, não precisaria escolher o caminho da Cruz. Mas esta solução tiraria toda nossa liberdade de escolha, o livre arbítrio que nos faz humanos e não robôs. Ao mesmo tempo seria como dizer que nossos pecados não são importantes, que nossas escolhas são irrelevantes, seria como como dizer: "Tudo bem, é só uma criancinha mesmo." Como adultos precisamos entender que nossas escolhas tem consequência, que nossos pecados nos afastam da Salvação de Jesus Cristo. Não está sempre tudo bem, muitas vezes é preciso retormar o caminho, e por isso a Igreja nos oferece o sacramento da Reconciliação.

Nossos sofrimento, a nossa Cruz
Muitos santos mudaram sua vida ao passar por uma enfermidade grave, como São Francisco e Santo Inácio de Loiola, que se converteram enquanto estavam convalecendo. Esta é uma experiência também comum para nós, pois certamente já ouvimos algo como "Fulano se curou de um câncer e agora é uma ppessoa mudada". Para estes santos, foi na doença em que Cristo lhes convidou: "Siga-me! Toma tua Cruz, una-se a Mim, encontre tua Salvação!".

Nesta Semana Santa, é isto que Cristo está nos dizendo também: olhe para a tua Cruz, seja ela qual for, talvez um marido bêbado e violento, talvez uma traição, uma doença, uma injustiça, o desemprego, abraça a tua Cruz, esta é a Cruz da tua Salvação, identifique tua cruz, precisas saber qual é a tua cruz por que ela é essencial para ti. Abrace esta Cruz e siga a Juesus, ame a tua Cruz e tua vida mudará, por que após a Cruz está a Ressurreição de Cristo, a vitória sobre a morte!

-- co-autoria com minha esposa após lermos a Carta Apóstólica Salvifici Doloris, do Papa João Paulo II. 

7 de fev. de 2017

O sacrifício de Abraão

Abraão tomou a lenha do sacrifício e colocou-a sobre os ombros de seu filho Isaac. Tomou na mão o fogo e o cutelo, e foram ambos juntos. Ora, Isaac, carregando a lenha para o próprio holocausto, é uma figura de Cristo carregando sua cruz. No entanto levar a lenha para o holocausto é ofício de sacerdote. Torna-se então ele mesmo a vítima e o sacerdote. O que se segue: e foram ambos juntos refere-se a essa realidade, porque Abraão, como sacrificador, leva o fogo e o cutelo; mas Isaac não vai atrás e sim a seu lado, para que se veja que, juntamente com ele, exerce igual sacerdócio.

         E depois? Disse Isaac a seu pai Abraão: Pai! Neste momento, uma palavra assim parece uma tentação. Como terá abalado o coração paterno esta palavra do filho que ia ser imolado! Mesmo endurecido pela fé, Abraão responde com voz branda: Que queres, filho? E ele: Vejo o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto? Abraão respondeu: Deus providenciará uma ovelha para o holocausto, meu filho.

         Impressiona-me a resposta cuidadosa e prudente de Abraão. Não sei o que via em espírito, pois responde olhando para o futuro e não para o presente: Deus mesmo providenciará uma ovelha. Assim fala do futuro ao filho que indaga pelo presente. O Senhor providenciava para si um cordeiro em Cristo.

         Abraão estendeu a mão para pegar a faca e imolar o filho. O anjo do Senhor chamou-o do céu, dizendo: Abraão, Abraão. Respondeu ele: Eis-me aqui. Tornou o anjo: Não toques no menino nem lhe faças nenhum mal. Agora sei que temes a Deus.

         Comparemos estas palavras com as do Apóstolo a respeito de Deus: Ele não poupou seu Filho, mas entregou-o por todos nós. Vede Deus rivalizando com os homens em magnífica generosidade. Abraão, mortal, ofereceu a Deus o filho mortal, que não morreria então. Deus entregou à morte por todos o Filho imortal.

         Olhando Abraão para trás, viu um carneiro preso pelos chifres entre os espinhos. Dissemos acima, creio, que Isaac figurava Cristo e, no entanto, também o carneiro parece figurar Cristo. É muito importante ver como ambos se relacionam a Cristo: Isaac que não foi morto e o carneiro que o foi. Cristo é o Verbo de Deus, mas o Verbo se fez carne.

         Padece, portanto, Cristo, mas, na carne; morre enquanto homem do qual o carneiro é figura; já dizia João: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. O Verbo, porém, permanece incorrupto, isto é, Cristo segundo o espírito; a imagem deste é Isaac. Por isto ele é vítima e também pontífice segundo o espírito. Pois aquele que oferece a vítima ao Pai, segundo a carne, este mesmo é oferecido no altar da cruz.

-- Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero (século III)

28 de jan. de 2017

Na cruz não falta nenhum exemplo de virtude

Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para ser remédio contra o pecado e para exemplo do que devemos praticar.
Cristo na Cruz, de Carl Heinrich Bloch

Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio contra todos os males que nos sobrevêm por causa dos nossos pecados.

Mas não é menor a utilidade em relação ao exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar nossa vida inteira. Quem quiser viver na perfeição, nada mais tema fazer do que desprezar aquilo que Cristo desprezou na cruz e desejar o que ele desejou. Na cruz, pois, não falta nenhum exemplo de virtude.

Se procuras um exemplo de caridade: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Assim fez Cristo na cruz. E se ele deu sua vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por causa dele.

Se procuras um exemplo de paciência, encontras na cruz o mais excelente! Podemos reconhecer uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora, Cristo suportou na cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque atormentado, não ameaçava (1Pd 2,23); foi levado como ovelha ao matadouro e não abriu a boca (cf. Is 53,7; At 8,32).

É grande, portanto, a paciência de Cristo na cruz. Corramos com paciência ao combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia (cf. Hb 12,1-2).

Se procuras um exemplo de humildade, contempla o crucificado: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.

Se procuras um exemplo de obediência, segue aquele que se fez obediente ao Pai até à morte: Como pela desobediência de um só homem, isto é, de Adão, a humanidade toda foi estabelecida numa condição de pecado, assim também pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça (Rm 5,19).

Se procuras um exemplo de desprezo pelas coisas da terra, segue aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e que na cruz está despojado de suas vestes, escarnecido, cuspido, espancado, coroado de espinhos e, por fim, tendo vinagre e fel como bebida para matar a sede.

Não te preocupes com as vestes e riquezas, porque repartiram entre si as minhas vestes (Jo 19,24); nem com honras, porque fui ultrajado e flagelado; nem com a dignidade, porque tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na em minha cabeça (cf. Mc 15,17); nem com os prazeres, porque em minha sede ofereceram-me vinagre (Sl 68,22).

-- Das Conferências de Santo Tomás de Aquino, presbítero (século XII)

25 de mar. de 2016

O poder do sangue de Cristo

Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do sangue do Senhor. Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.

Queres compreender mais profundamente o poder deste sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água, como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.

De seu lado saiu sangue e água (Jo 19,34). Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Disse que esta água e este sangue são símbolos do batismo e da eucaristia. Foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo batismo e pela eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa.

Por esta razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de seu lado, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte.

Vede como Cristo se uniu à sua esposa, vede com que alimento nos sacia. Do mesmo alimento nos faz nascer e nos nutre. Assim como a mulher, impulsionada pelo amor natural, alimenta com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, também Cristo alimenta sempre com o seu sangue aqueles a quem deu novo nascimento.

-- Das catequeses de São João Crisóstomo (século IV)

28 de mar. de 2015

Domingo de Ramos - Domingo 29/03/2015

* A liturgia do Domingo de Ramos tem duas formas do Evangelho, a mais curta, que será utilizada aqui, e outra mais longa. 
Mc 11,1-10
Naquele tempo, 1quando se aproximaram de Jerusalém, na altura de Betfagé e de Betânia, junto ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, 2dizendo: “Ide até o povoado que está em frente e, logo que ali entrardes, encontrareis amarrado um jumentinho que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui! 3Se alguém disser: ‘Por que fazeis isso?’, dizei: ‘O Senhor precisa dele, mas logo o mandará de volta’”.
4Eles foram e encontraram um jumentinho amarrado junto de uma porta, do lado de fora, na rua, e o desamarraram.
5Alguns dos que estavam ali disseram: “O que estais fazendo, desamarrando esse jumentinho?”
6Os discípulos responderam como Jesus havia dito, e eles permitiram. 7Levaram então o jumentinho a Jesus, colocaram sobre ele seus mantos, e Jesus montou.
8Muitos estenderam seus mantos pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam apanhado nos campos. 9Os que iam na frente e os que vinham atrás gritavam: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! 10Bendito seja o reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana no mais alto dos céus!”
Comentário:
A leitura do Evangelho torna atual o que Jesus fez "naquele tempo". Ele se apresenta como rei humilde e pobre (Zc 9,9). A multidão que o aclama somos nós, o seu povo, que o reconhecemos como nosso guia e chefe. Em Marcos não se fala "Filho de Deus" mas do "Reino do nosso pai Davi" , o que atende melhor as idéias de libertação política de Israel por um rei ungido por Deus, como foi Davi; uma intenção muita mais restrita que a Jesus, que queria libertar a humanidade, não apenas o país.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Genesis 49, 8-11
  • 2 Samuel 7, 12-16
  • 1 Reis 1, 28-37
  • 2 Reis 9, 1-13
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 117 (118), 22-29
  • Zacarias 9, 9-10
Evangelhos
  • Mateus 21, 1-11
  • Lucas 19, 28-38
  • João 12, 12-19
Cartas
  • Atos 2, 29-36

22 de fev. de 2015

Stabat Mater Dolorosa - Em pé, em frente a Cruz, a Mãe chorava

Stabat Mater Dolorosa é um hino do século XIII em honra ao sofrimento de Maria ao ver seu Filho morrendo pregado na Cruz. Seu autor não é claro, sendo atribuído a, preferencialmente ao Franciscano Jacopone da Todi ou ao Papa Inocêncio III, mas também há fontes citando São Bernardo de Claraval ou os Papas Gregório X e XI. Ao longo dos séculos recebeu diversas composições musicais sendo as mais conhecidasas de Palestrina, Pergolesi, Scarlatti, Vivaldi, Haydn, Rossini e Dvořák.

O título do hino é parte da primeira linha, Stabat Mater Dolorosa, que significa "A mãe permaneceu cheia de tristeza". Já era bem conhecido já no final do século XIV e Georgius Stella escreveu sobre a sua utilização em 1388, com outros autores corroborando a afirmação mais para o final do século. 

Como sequência litúrgica, foi suprimido, juntamente com centenas de outros, pelo Concílio de Trento, mas retornou ao missal por ordem do papa Bento XIII, em 1727, na festa de Nossa Senhora das Dores e como oração opcional na Sexta-Feira Santa. Como música, é perfeitamente adequada para todo período quaresmal. 

De pé, a mãe dolorosa
junto da cruz, lacrimosa,
via o filho que pendia.
Na sua alma agoniada
enterrou-se a dura espada
de uma antiga profecia
Oh! Quão triste e quão aflita
entre todas, Mãe bendita,
que só tinha aquele Filho.
Quanta angústia não sentia,
Mãe piedosa quando via
as penas do Filho seu!
Quem não chora vendo isso:
contemplando a Mãe de Cristo
num suplício tão enorme?
Quem haverá que resista
se a Mãe assim se contrista
padecendo com seu Filho?
Por culpa de sua gente
Vira Jesus inocente
Ao flagelo submetido:
Vê agora o seu amado
pelo Pai abandonado,
entregando seu espírito.
Faze, ó Mãe, fonte de amor
que eu sinta o espinho da dor
para contigo chorar:
Faze arder meu coração
do Cristo Deus na paixão
para que o possa agradar.
Ó Santa Mãe dá-me isto,
trazer as chagas de Cristo
gravadas no coração:
Do teu filho que por mim
entrega-se a morte assim,
divide as penas comigo.
Oh! Dá-me enquanto viver
com Cristo compadecer
chorando sempre contigo.
Junto à cruz eu quero estar
quero o meu pranto juntar
Às lágrimas que derramas.
Virgem, que às virgens aclara,
não sejas comigo avara
dá-me contigo chorar.
Traga em mim do Cristo a morte,
da Paixão seja consorte,
suas chagas celebrando.
Por elas seja eu rasgado,
pela cruz inebriado,
pelo sangue de teu Filho!
No Julgamento consegue
que às chamas não seja entregue
quem por ti é defendido.
Quando do mundo eu partir
dai-me ó Cristo conseguir,
por vossa Mãe a vitória.
Quando meu corpo morrer
possa a alma merecer
do Reino Celeste, a glória. Amém.
-- Tradução do hino disponível na Wikipedia

18 de abr. de 2014

A esposa de Pilatos

Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal, sua mulher mandou dizer a ele: "Não se envolva com esse justo, porque esta noite, em sonhos, sofri muito por causa dele." (Mt 27,19).
O Sonho da Mulher de Pilatos, gravura de Alphonse François, c. 1879.

Quando estava sentado: Pôncio Pilatos estava presidindo o Tribunal sentado na cadeira principal, numa posição elevada, acima dos demais, no Pretório, onde os governadores romanos julgavam os casos trazidos até eles. Já havia perguntado à multidão o que preferiam: Barrabás ou Jesus? 

Sua mulher mandou dizer a ele: o nome não é citado na Bíblia, mas de acordo com a tradição era Claudia, certamente uma dama da alta classe, talvez neta do Imperador Augusto. Diz-se que era uma prosélita, isto é, estaria aprendendo o Judaísmo. Assim como o marido, ela já tinha ouvido falar de Jesus. Naquele dia, o marido fora acordado muito cedo para resolver a questão enquanto ela permaneceu dormindo. Acordou-se com um sonho pertubou, mas por mais urgente que fosse o assunto, não poderia entrar no Tribunal, reservado para homens. Certamente não poderia publicamente interferir no caso e preferiu escrever uma mensagem explicando a caso, que somente ele leria.

Não se envolva com esse justo: em toda história da Paixão de Cristo é a única pessoa a interferir em favor de Cristo, uma mulher, romana. Os apóstolos, com medo, negaram a Cristo e certamente não se apresentaram no Tribunal como discípulos. 

Em sonhos, sofri muito por causa delecomo não há nenhum detalhe, é impossível saber o conteúdo do sonho. Em outras passagens bíblicas, Deus enviou mensagens através de sonhos: José entendou a gravidez milagrosa de Maria através de um sonho, em outro sonho foi alertado a fugir para o Egito. Então é possível inferir que o sonho tenha sido também uma mensagem de Deus, capaz de comovê-la e convencê-la que algo deveria ser feito para evitar a condenação de Cristo. Por mais convincente que tenha sido, no entanto, não foi capaz de alterar a infeliz decisão de Pilatos.  

Segundo tradições não confirmadas, Claudia teria posteriormente se convertido ao Cristianismo e as Igrejas Ortodoxa Oriental e Ortodoxa da Etiópia consideram-na santa por sua intervenção em favor Cristo, sendo 27 de Outubro o seu dia festivo.

-- autoria própria




16 de abr. de 2014

São Pedro também se converteu

Todos os seres humanos, à exceção de Maria, têm continuamente necessidade de conversão. Jesus prediz a Pedro a sua queda e a sua conversão. Por que Pedro teve de converter-se? No início do seu chamamento, assombrado com o poder divino do Senhor e com a sua própria miséria, Pedro dissera: "Senhor, afasta-Te de mim, que eu sou um homem pecador" (Lc 5, 8). Na luz do Senhor, reconhece a sua insuficiência. Precisamente deste modo, com a humildade de quem sabe que é pecador, é que Pedro é chamado. Ele deve reencontrar sem cessar esta humildade. Perto de Cesareia de Filipe, Pedro não quisera aceitar que Jesus tivesse de sofrer e ser crucificado: não era conciliável com a sua imagem de Deus e do Messias.

São Pedro negando Jesus. A serva está iluminada, ela
que diz a verdade.
No Cenáculo, não quis aceitar que Jesus lhe lavasse os pés: não se adequava à sua imagem da dignidade do Mestre. No horto das oliveiras, feriu com a espada; queria demonstrar a sua coragem. Mas, diante de uma serva, afirmou que não conhecia Jesus. Naquele momento, isto parecia-lhe uma pequena mentira, para poder permanecer perto de Jesus. O seu heroísmo ruiu num jogo mesquinho por um lugar no centro dos acontecimentos. Todos nós devemos aprender sempre de novo a aceitar Deus e Jesus Cristo como Ele é, e não como queríamos que fosse. A nós também nos custa aceitar que Ele esteja à mercê dos limites da sua Igreja e dos seus ministros.

Também não queremos aceitar que Ele esteja sem poder neste mundo. Também nos escondemos por detrás de pretextos, quando a pertença a Ele se nos torna demasiado custosa e perigosa. Todos nós temos necessidade da conversão que acolhe Jesus no seu ser Deus e ser-Homem. Temos necessidade da humildade do discípulo que segue a vontade do Mestre. Nesta hora, queremos pedir-Lhe que nos fixe como fixou Pedro, no momento oportuno, com os seus olhos benévolos, e nos converta.

-- Papa Bento XVI, trecho da homília da Missa de Quinta-Feira Santa, em 21 de Abril de 2011

13 de abr. de 2014

Domingo de Ramos: Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel

Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.

Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.

Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si.

Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.

Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.

Éramos antes como escarlate por causa dos nossos pecados,mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.

-- Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo (século VI)

28 de mar. de 2013

O poder do sangue de Cristo


Queres conhecer o poder do sangue de Cristo? Voltemos às figuras que o profetizaram e recordemos a narrativa do Antigo Testamento: Imolai, disse Moisés, um cordeiro de um ano e marcai as portas com o seu sangue (cf. Ex 12,6-7). Que dizes, Moisés? O sangue de um cordeiro tem poder para libertar o homem dotado de razão? É claro que não, responde ele, não porque é sangue, mas por ser figura do sangue do Senhor. Se agora o inimigo, ao invés do sangue simbólico aspergido nas portas, vir brilhar nos lábios dos fiéis, portas do templo dedicado a Cristo, o sangue verdadeiro, fugirá ainda mais para longe.


Queres compreender mais profundamente o poder deste sangue? Repara de onde começou a correr e de que fonte brotou. Começou a brotar da própria cruz, e a sua origem foi o lado do Senhor. Estando Jesus já morto e ainda pregado na cruz, diz o evangelista, um soldado aproximou-se, feriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu água e sangue: a água, como símbolo do batismo; o sangue, como símbolo da eucaristia. O soldado, traspassando-lhe o lado, abriu uma brecha na parede do templo santo, e eu, encontrando um enorme tesouro, alegro-me por ter achado riquezas extraordinárias. Assim aconteceu com este cordeiro. Os judeus mataram um cordeiro e eu recebi o fruto do sacrifício.

De seu lado saiu sangue e água (Jo 19,34). Não quero, querido ouvinte, que trates com superficialidade o segredo de tão grande mistério. Falta-me ainda explicar-te outro significado místico e profundo. Disse que esta água e este sangue são símbolos do batismo e da eucaristia. Foi destes sacramentos que nasceu a santa Igreja, pelo banho da regeneração e pela renovação no Espírito Santo, isto é, pelo batismo e pela eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Pois Cristo formou a Igreja de seu lado traspassado, assim como do lado de Adão foi formada Eva, sua esposa.

Por esta razão, a Sagrada Escritura, falando do primeiro homem, usa a expressão osso dos meus ossos e carne da minha carne (Gn 2,23), que São Paulo refere, aludindo ao lado de Cristo. Pois assim como Deus formou a mulher do lado do homem, também Cristo, de seu lado, nos deu a água e o sangue para que surgisse a Igreja. E assim como Deus abriu o lado de Adão enquanto ele dormia, também Cristo nos deu a água e o sangue durante o sono de sua morte.

Vede como Cristo se uniu à sua esposa, vede com que alimento nos sacia. Do mesmo alimento nos faz nascer e nos nutre. Assim como a mulher, impulsionada pelo amor natural, alimenta com o próprio leite e o próprio sangue o filho que deu à luz, também Cristo alimenta sempre com o seu sangue aqueles a quem deu o novo nascimento.

-- Das Catequeses de São João Crisóstomo, bispo (século IV)

23 de mar. de 2013

Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel


Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.

Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta. 

Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si. 

Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.

Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.

Éramos antes como escarlate por causa dos nossos pecados, mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.

-- Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo (século XI)

Domingo de Ramos

Então o povo foi ao encontro de Cristo que entrava na cidade carregando palmas e aclamando: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel! (Jo 12,13). Neste domingo comemoramos a entrada gradiosa de Cirsto em Jerusalem para completar o mistério Pascal. No antigo calendário, anterior ao Vaticano II, o evangelho da Paixão era lido duas semanas antes da Páscoa e o Domingo de Ramos marcava o início solene da Semana Santa. 


A Igreja combinou as duas celebrações neste domingo paa reforçar a solenidade da Semana Santa. Jesus é um sinal de contradição, amado por alguns, perseguido por outros. E a queda de Cristo é, na verdade, vitória para a humanidade. Por isso seguimos o exemplo dos judeus, aclamando Cristo, Filho de Deus, Rei da Igreja, na certeza da sua Ressurreição.

Quanto a liturgia, a cor é a vermelha e há uma entrada especial, um pouco mais solene, que inclui a benção das palmas. Uma menção especial sobre as palmas: agora abençoadas passam a ter um valor especial, não devem ser jogadas no lixo ou menosprezadas de alguma maneira. É comum as pessoas levar para suas casas, onde pode-se colcoar por exemplo próximo a uma imagem de Cristo ou santo de devoção. Não são amuletos que possam ser utilizados para curar doenças ou espantar espíritos, assumindo um caráter supersticioso; são testemunhas da fé em Cristo e sua vitória Pascal. O ideal é mantê-las até o próximo ano, quando podem ser devolvidas na Igreja antes da Quarta-Feira de Cinzas. As palmas serão queimadas e suas cinzas utilizadas na liturgia. 


6 de abr. de 2012

A descida do Senhor à mansão dos mortos



Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. 

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. 

O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa.  Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos", e Cristo te iluminará. 

Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceramde ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’ 

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. 

Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. 

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. 

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. 

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. 

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. 

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”. 

-- De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo (século IV)


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