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15 de jul. de 2014

Dt 32: Os benefícios de Deus a favor do povo

Queridos irmãos e irmãs,

"E Moisés fez ouvir a toda a assembleia de Israel as palavras deste cântico, até ao fim" (Dt 31, 30). Lê-se assim na abertura do cântico que acabamos de proclamar, tirado das últimas páginas do livro do Deuteronómio, precisamente do capítulo 32. Dele, a Liturgia das Laudes escolheu os primeiros doze versículos, reconhecendo neles um jubiloso hino ao Senhor que protege e cura com amor o seu povo no meio dos perigos e das dificuldades do dia. A análise do cântico revelou que se trata de um texto antigo mas posterior a Moisés, sobre cujos lábios foi posto, para lhe conferir um carácter de solenidade. Este cântico litúrgico situa-se na própria origem da história do povo de Israel. Não faltam nessa página orante notas ou ligações com alguns Salmos e com a mensagem dos profetas:  desta forma, ela tornou-se uma sugestiva e intensa expressão da fé de Israel.

O cântico de Moisés é mais amplo do que o trecho proposto pela Liturgia das Laudes, que constitui apenas o seu prelúdio. Alguns estudiosos pensaram detectar na composição um género literário que tecnicamente é definido com a palavra hebraica rîb, isto é "controvérsia", "litígio processual". A imagem de Deus presente na Bíblia não se mostra absolutamente como a do ser obscuro, uma energia anónima e feia, um acontecimento incompreensível. Ao contrário, é uma pessoa que tem sentimentos, age e reage, ama e condena, participa na vida das suas criaturas e não é indiferente às suas obras. Assim, no nosso caso, o Senhor convoca uma espécie de assembleia judicial, na presença de testemunhas, denuncia os delitos do povo acusado, exige uma pena, mas deixa impregnar a sua sentença por uma misericórdia infinita. Seguimos agora os vestígios desta vicissitude, embora nos detenhamos apenas nos versículos que a Liturgia nos propõe.

Vem imediatamente a menção dos espectadores-testemunhas cósmicos:  "Escutai, ó céus... ouça, toda a terra" (Dt 32, 1). Neste processo simbólico Moisés serve de autoridade pública. A sua palavra é eficaz e fecunda como a profética,  expressão  da  divina.  Observe-se o fluxo significativo das imagens para a definir:  trata-se de sinais deduzidos da natureza como a chuva, o orvalho, o aguaceiro, a chuvada e as gotas de água que fazem com que a terra seja verdejante e coberta de caules de trigo (cf. v. 2).

A voz de Moisés, profeta e intérprete da palavra divina, anuncia a iminente entrada em cena do grande juiz, o Senhor, do qual ele pronuncia o nome santíssimo, exaltando uma das suas numerosas características. De fato, o Senhor é chamado a Rocha (cf. v. 4), um título que aparece em todo o nosso cântico (cf. vv. 15.18.30.31.37), uma imagem que exalta a fidelidade estável e indiscutível de Deus, que é muito diferente da instabilidade e da infidelidade do povo. O tema é desenvolvido com uma série de afirmações sobre a justiça divina:  "A Sua obra é perfeita; todos os Seus caminhos são a própria justiça; Deus de verdade, jamais iníquo, constantemente equitativo e reto" (v. 4).

Depois da solene apresentação do Juiz supremo, que também é a parte lesada, o objetivo do cantor desloca-se para o acusado. Para o definir, ele recorre a uma eficaz representação de Deus como pai (cf. v. 6). As suas criaturas, tão amadas, são chamadas seus filhos, mas infelizmente são "raça perversa" (cf. v. 5). Com efeito, sabemos que já no Antigo Testamento se tem uma concepção de Deus como pai solícito em relação aos seus filhos que com muita frequência desiludem (Êx 4, 22; Dt 8, 5; Sl 102, 13; Sir 51, 10; Is 1, 2; 63, 16; Os 11, 1-4). Por isso, a denúncia não é fria mas apaixonada:  "É assim que recompensas o Senhor, povo louco e insensato? Não é Ele o teu Pai, o teu Criador? Não foi Ele que te formou e te consolidou?" (Dt 32, 6). De fato, é muito diferente insurgir-se contra um soberano implacável ou revoltar-se contra um pai amoroso.

Para tornar concreta a acusação e fazer com que a conversão provenha da sinceridade do coração, Moisés faz apelo à memória:  "Recorda-te dos dias antigos, medita os anos de cada século" (v. 7). Com efeito, a fé bíblica é um "memorial", isto é, uma redescoberta da ação eterna de Deus que se espalha com o passar do tempo; é tornar presente e eficaz aquela salvação que o Senhor proporcionou e continua a oferecer ao homem. O grande pecado de infidelidade coincide, então, com o "esquecimento", que apaga a recordação da presença divina em nós e na história.

O acontecimento fundamental que não se deve esquecer é o da travessia do deserto depois da saída do Egipto, o tema fundamental do Deuteronómio e de todo o Pentateuco. Desta forma, recorda-se a viagem terrível e dramática no deserto do Sinai, "nas solidões ululantes e selvagens" (v. 10), como se diz com uma imagem de grande impacto emotivo. Mas ali Deus inclina-se sobre o seu povo com uma ternura e doçura surpreendentes. Com o símbolo paterno entrelaça-se alusivamente também o materno da águia:  "Protegeu-o e velou por ele. Guardou-o como a menina dos Seus olhos. Como a águia vela pelo seu ninho. E paira sobre as suas aguiazinhas; estende as asas para as recolher, e leva-as sobre as suas penas robustas" (v. 10.11). O caminho no deserto transforma-se então num percurso tranquilo e sereno, porque há o manto protector do amor divino.

O cântico remete também para o Sinai, onde Israel se tornou aliado do Senhor, a sua "porção" e "herança", isto é, a realidade mais preciosa (cf. v. 9; Êx 19, 5). O cântico de Moisés torna-se desta forma um exame de consciência de todos para que, finalmente, os benefícios divinos sejam correspondidos com a fidelidade, e não com o pecado.

-- São João Paulo II, na audiência de 19 de Junho de 2002

9 de mar. de 2012

A Vida de Moisés - As pragas e a fuga do Egito

A Morte dos Primogênitos, por Bernardino Luini.
Com efeito, quem estava livre de culpa permanecia incólume, enquanto que com a mesma força, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, era castigado o culpado. Ao comando de Moisés todo tipo de água se converteu em sangue para o Egito, ao ponto de que também os peixes morressem por causa da densidade carnosa em que se havia transformado a água; o sangue, por outro lado, voltava a se converter em água para os hebreus, quando a tomavam. Aqui os magos reaparecem para simular, na água que tinham os hebreus, a aparência de sangue (Ex 7, 20-22). 

Sucedeu o mesmo com as rãs que invadiram o Egito: sua aparição até uma proliferação de tal magnitude não pode ser avaliada como uma conseqüência da natureza, mas que o comando dado à espécie das rãs modificou a natureza conhecida destes animais. Todo o Egito foi atormentado por estes animais que invadiram inclusive as casas, enquanto a vida dos hebreus se mantinha limpa dessas coisas repugnantes (Ex 7, 25-29). 

Da mesma forma, a atmosfera não permitia aos egípcios nenhuma distinção entre a noite e o dia; permaneciam em um obscuridade uniforme, enquanto para os hebreus, nas mesmas circunstâncias, nada havia mudado em relação ao habitual. E do mesmo modo com relação a todas as demais coisas: o granizo, o fogo, os mosquitos, as pústulas, as moscas, a nuvem de gafanhotos. Cada uma, segundo sua própria natureza, feriu os egípcios; os hebreus, ao contrário, sabiam do sofrimento de seus vizinhos por rumores e relatos, pois não experimentaram em si mesmos o ataque dessas calamidades. 

Depois, a morte dos primogênitos fez mais clara a diferença entre o povo hebreu e o egípcio: uns se desfaziam em lamentações pela perda dos seres mais queridos (Ex 12, 29); os outros permaneciam em total tranqüilidade e segurança, porque tinham a salvação confirmada pela aspersão do sangue e por haverem marcado as portas com sangue, como senha, em cada um dos lados das ombreiras e no montante que as unia (Ex 10, 21-23).

 Depois disso, enquanto os egípcios estavam abatidos pelo desastre dos primogênitos e choravam sua desgraça, solitários ou todos juntos, Moisés começou a dirigir o êxodo dos israelitas, após haver advertido que levassem consigo, como empréstimo, a riqueza dos egípcios. Quando já se passavam três dias de caminho fora do Egito – conta-nos a história – pareceu insuportável ao Egípcio que Israel não permanecesse na escravidão e, havendo mobilizado todos os seus súditos para a guerra, correu atrás do povo com sua cavalaria. Este, quando viu o arrancar da cavalaria e da infantaria, sendo inexperiente nas artes da guerra e estando pouco acostumado a estes espetáculos, deixou-se levar imediatamente pelo medo e rebelou-se contra Moisés. 

A história conta também este feito paradoxal de Moisés: que sua atividade foi dupla. Com efeito, com a voz e a palavra dava ânimo aos israelitas e os exortava a ter boas esperanças, e ao mesmo tempo apresentava a Deus suas súplicas em seu coração em favor daqueles que se encontravam em tal apuro, e era instruído por meio do conselho divino sobre como poderia fugir de tal perigo (Ex 12, 31-14, 5). 

Pois Deus mesmo, como conta a história, escutava sua voz silenciosa. Uma nuvem guiava o povo por virtude divina, não por sua própria natureza. Sua substância, com efeito, não era formada por alguns vapores ou exalações como resultado de que o ar se houvesse feito mais denso por causa de substância úmida e de sua compressão pelos ventos, mas era algo muito maior e que excedia a compreensão humana. Como atesta a Escritura, aquela nuvem era um prodígio tal que, quando os raios do sol brilhavam abrasadores, se convertia em uma proteção para o povo, fazendo sombra para os que estavam em baixo e umedecendo o calor excessivo do ar com uma água fina; durante a noite se transformava em fogo, iluminando os israelitas com o resplendor de sua própria luz desde o entardecer até o nascimento do dia (Ex 13, 21-23).

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

7 de mar. de 2012

A vida de Moisés - Infância e Juventude

Encontrando Moisés, de
Frederick Goodall (1885) 
Diz-se que Moisés viu a luz quando a lei do tirano proibia manter vivos os varões que nascessem (Ex 1, 16) e que com sua graça pressagiava já toda a graça que com o tempo haveria de reunir. Parecia tão belo já em fraldas (Ex 2, 2), que seus pais resistiram a destruí-lo com a morte. Depois, quando a ameaça do tirano se fez mais forte, não o atiraram sem mais à corrente do Nilo, mas o colocaram em uma cesta cujas junções haviam sido calafetadas com breu e piche, e desta forma o entregaram à corrente. Assim o explicam aqueles que refizeram cuidadosamente a história que a ele se refere. 

Guiada por uma força divina, a cesta arribou a uma encosta transversal, levada a este lugar pelo próprio movimento das águas. A filha do rei veio à região da praia onde se encontrava a cesta e, sendo alertada pelos gemidos que vinham da caixa, converteu-o em achado da rainha. Imediatamente, a princesa, vendo a beleza que resplandecia dele, encheu-se de benevolência e o adotou como filho. E posto que ele rechaçasse instintivamente um peito estranho, foi alimentado com o peito materno graças a um ardil de parentes (Ex 2, 1-9). 

Durante sua educação de príncipe, instruído nas ciências estrangeiras, ao sair da infância não escolheu as coisas que eram tidas em grande apreço pelos estrangeiros, nem deixou ver que confessava como mãe àquela mãe inventada que o havia feito filho adotivo, mas retornou à sua mãe natural e se misturou com os que eram de sua estirpe. 

Tendo-se originado uma briga entre um hebreu e um egípcio, tomou o partido do compatriota e matou o egípcio (Ex 2, 11–13). Pouco depois, quando brigavam dois hebreus, tentou acalmar a querela fazendo-os notar que, entre irmãos, é bom tomar como árbitro das divergências a natureza e não a ira (Ex 2, 13–15). Rechaçado por aquele que se inclinava à injustiça (Ex 2, 16-21) (At 7, 23-28), fez desta afronta o ponto de partida para uma filo mais alta: depois disto, tendo se afastado da convivência com a multidão (Ex 2, 15), passa a vida na solidão e contrai parentesco com um estrangeiro sagaz para discernir o melhor e acostumado a julgar os costumes e a vida dos homens. 

Bastou a este uma única ação – refiro-me ao ataque dos pastores – para descobrir a virtude do jovem: como havia lutado pela justiça sem pensar em seu próprio proveito, mas por achar que o justo é valioso por sua própria natureza, e como castigara a injustiça dos pastores, que não haviam feito nenhum dano a ele. Tendo admirado o jovem por estas coisas, e estimando que, apesar de sua manifesta pobreza, sua virtude era mais valiosa que uma grande riqueza, entrega-lhe sua filha por esposa, e permite-lhe levar uma vida segundo seus desejos.

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)


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