5 de jul. de 2012

Santo Antônio Maria Zacarias


MENSAGEM DO PAPA JOÃO PAULO II 
AOS CLÉRIGOS REGULARES DE SÃO PAULO 
NO V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DO SEU
 SANTO FUNDADOR SANTO ANTÓNIO MARIA ZACARIAS

Ao Rev.do Pe. GIOVANNI MARIA VILLA
Superior-Geral dos Clérigos Regulares de São Paulo

1. Por ocasião do quinto centenário do nascimento de Santo António Maria Zacarias, desejo unir-me espiritualmente à alegria desta Congregação, bem como à das Religiosas Angélicas de São Paulo e do Movimento dos Leigos de São Paulo, e elevar ao Senhor ardentes acções de graças por ter dado à Igreja, na pessoa deste Santo, um incansável imitador do Apóstolo das Nações e um luminoso modelo de caridade pastoral. Formulo os mais sinceros bons votos a fim de que estas solenes celebrações jubilares constituam uma ocasião preciosa para pôr em evidência o dom da santidade resplandecente na Igreja de todos os tempos e que, no século XVI, encontrou em Santo António Maria Zacarias uma singular testemunha. Além disso, faço votos para que o Rev.do Padre, os seus colaboradores e toda a Família espiritual de Santo António Maria Zacarias sigam fidelmente os passos deste Santo. Ele conquistou numerosas almas para a "ciência do amor de Jesus Cristo", suscitando uma variedade de carismas de vida consagrada. Indicava constantemente a meta da santidade, não apenas aos seus religiosos orientados para o caminho da "reforma" ou da "renovação" espiritual, mas a todos os fiéis, a quem recordava que eram chamados a tornar-se "não pequenos... mas grandes santos" (Carta XI).

As celebrações do quinto centenário do nascimento do vosso Fundador representam uma preciosa oportunidade para aprofundar a actualidade da sua mensagem. Estou persuadido de que a reflexão sobre o seu amor ardente por Jesus, "exaltado na Cruz e escondido sob as Espécies eucarísticas", e sobre o seu zelo incansável pelas almas constituirá para os seus filhos espirituais um convite a dedicar-se com renovado ardor à educação humana e cristã das jovens gerações, que representam o futuro da Igreja e da sociedade em geral.

2. Procurando este objectivo, Santo António Maria Zacarias inspirou-se no Apóstolo das Nações e, por este motivo, gostava de se definir como um "Sacerdote do Apóstolo Paulo", indicando este mesmo modelo às Famílias religiosas e ao Movimento laical por ele fundados. E costumava recomendar aos seus seguidores:  "Então, estai persuadidos e certos de que, sobre o fundamento de Paulo, edificareis não o feno nem a lenha, mas o ouro e as margaridas; sobre vós e os vossos entes queridos, abrir-se-ão os céus e os seus tesouros" (Carta VI).

Na escola de São Paulo, ele aprendeu a lei fundamental da vida espiritual como um "crescimento de momento a momento" (Carta X), até alcançar a estatura do homem perfeito em Jesus Cristo, despojando-se incessantemente do  homem  velho,  para  se  revestir  do homem  novo,  na  justiça  e  santidade (cf. Ef 4, 22-24).

Durante a sua vida, ele teve que enfrentar obstáculos e perseguições, mas mostrou sempre coragem e confiança indómitas no Senhor. Hoje, estes mesmos sentimentos devem alimentar quantos fazem parte da sua Família espiritual. Com efeito, é necessário enfrentar com a audácia que nasce do amor a difícil situação em que se encontram não poucas das vossas beneméritas e seculares instituições educativas, para continuar a pôr a riqueza da vossa tradição pedagógica ao serviço dos jovens, das suas famílias e de toda a sociedade.

Da mesma forma, é necessário cuidar com singular zelo da formação cristã das novas gerações, através do anúncio da Palavra de Deus, da pontual e devota celebração dos Sacramentos, de maneira especial do sacramento da Reconciliação, da direcção espiritual, dos retiros e dos exercícios espirituais. Tudo aquilo que constituiu, desde o princípio, um aspecto específico do carisma barnabita exige dos Clérigos Regulares de São Paulo um impulso apostólico audacioso e constante. O Povo de Deus tem mais necessidade do que nunca de guias autorizados e de um alimento abundante, para acolher e viver a ""medida alta" da vida cristã ordinária", através de uma oportuna "pedagogia da santidade" (cf. Novo millennio ineunte, 31).

3. As palavras e o exemplo do Fundador continuam a impelir os seus filhos para uma renovada fidelidade ao impulso missionário, que se alimenta de orações ardentes e se fundamenta sobre uma sólida preparação teológica e cultural. Com efeito, somente assim é possível levar a toda a parte um anúncio incisivo e um testemunho credível do Evangelho (cf. Novo millennio ineunte, 42-57) e contribuir para uma vasta acção da nova evangelização, que diz respeito a toda a Comunidade eclesial. Possa esta benemérita Congregação, haurindo do fecundo património espiritual do seu Fundador, percorrer com decisão o caminho de Deus (cf. Sermão VI), em ordem a dar "vida espiritual" (Carta V) ao povo cristão.

Caríssimos Irmãos e Irmãs, não tenhais medo de vos empenhardes num combate aberto contra a mediocridade, o compromisso e qualquer forma de tibieza, que o Santo Fundador definia como "nociva e a maior inimiga de Cristo crucificado, que reina com tanta força nos tempos modernos" (Carta V). Cada um tenha a preocupação de fazer frutificar os dons recebidos e perseverar na oração e nas obras de amor, mantendo viva em cada circunstância a confiança da Providência divina.

4. Santo António Maria Zacarias preocupava-se não apenas em recordar constantemente aos leigos a vocação universal à santidade, mas procurava empenhá-los também na evangelização. Imitando o seu exemplo, também vós, queridos Barnabitas, juntamente com as Religiosas Angélicas de São Paulo, não hesiteis em encorajar quantos se sentem chamados a testemunhar o carisma do Fundador nos vários âmbitos da vida social. Além disso, promovei uma atenta e actualizada pastoral vocacional para acompanhar e sustentar aqueles que o Senhor  chama  para  abraçar  a  vida consagrada.

Desta maneira a tríplice Família espiritual fundada por Santo António Maria Zacarias, que segundo o seu exemplo volta a percorrer os passos de São Paulo, crescerá na comunhão de intenções e de corações, e será capaz de propor de novo, com um espírito sempre renovado, o caminho da santidade aos homens e às mulheres do nosso tempo. O Senhor, por intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, de quem Santo António Maria Zacarias foi terno e fiel devoto, suscite em cada um dos membros deste Instituto o entusiasmo e a coragem do bem ao serviço de Deus e dos irmãos mais necessitados.

Com estes bons votos concedo de coração à sua pessoa, Rev.do Padre, aos seus Irmãos Barnabitas, às Religiosas Angélicas e aos membros do Movimento laical de São Paulo, uma especial Bênção apostólica, propiciadora de graças e de  um  renovado  ardor  espiritual  e apostólico.

Vaticano, 5 de Julho de 2002

4 de jul. de 2012

Santa Catarina Drexel




* Uma santa americana para o o 4 de Julho!

Nascida na Filadélfia, estado de Pensilvânia, Estados Unidos da América, em 26 de Novembro de 1858, Katherine Drexel era a segunda filha de Francis Drexel e Hannah Langstroth. Seu pai era um conhecido banqueiro e filantropista. Os pais instilaram em suas filhas a idéia que a riqueza da família era um simples empréstimo de Deus e que deveria ser compartilhada com outros.

Quando a família viajou para o Oeste do país, Katherine, na época uma jovem adolescente, viu a pobreza e miseria que viviam os poucos índios americanos que sobreviveram. Esta experiência despertou o desejo de fazer algo específico para ajudá-los, sendo o início de sua jornada pessoal e ajuda financeira a numerosas missões e missionários que se dedicavam a evangelização dos indígenas. Em 1887 ela estabeleceu a primeira escola para índios, chama Escola Indígina Santa Catarina, na cidade de Santa Fé, Novo México.

Mais tarde, quando visitava o Papa Leão XIII em Roma, pediu que enviasse missionários que ela se responsabilizaria por todos os custos. Foi então que, para sua grande surpresa, o Papa pediu que ela mesma fosse como missionária para aquela região. Após conversar com o seu diretor espiritual, Bispo James O'Connor, tomou a decisão de dedicar-se totalmente a Deus, bem como investir seus bens em favor dos índios e negros americanos.

Tomada a decisão, transformou sua vida radicalmente, gastando para si apenas o mínimo necessário, vivendo na pobreza. Em 12 de Fevereiro de 1891 professou seus votos como religiosa e fundou a Ordem da Irmãs do Santíssimo Sacramento, dedicada a levar a mensagem do Evangelho e a Eucaristia para índios e negros.

Sempre uma mulher de oração, Katherine encontrou na Eucaristia uma fonte que alimentava seu amor pelos pobres e forças para combater o racismo. Sabendo que muitos negros viviam em situação precária, longe de serem realmente livres, pois continuavam trabalhando nas fazendas ou sub-empregos, sem educação e direitos constitucionais, sentia-se especialmente chamada a mudar a mentalidade racista do país. Por exemplo, nos estados do Sul, restrições legais quase impediam os negros de cursarem o ensino básico. 

Em vista disto, fundar e organizar escolas para índios e negros tornou-se uam prioridade para ela e sua congregação. Durante a sua vida, financiou diretamente 60 escolas e missões, especialmente no Oeste e Sul do país. O ápice foi a fundação da Universidade Xavier na Louisiana, a única instituição predominantemente negra e índia de ensino superior. Além disso, dedicava-se também a visitar as famílias, hospitais e prisões. 

Combinando uma vida de oração silenciosa e um determinado ativismo, iluminada pelo Espírito Santo, superou diversos obstáculos e facilitou grandes avanços na justiça social. Através de seu exemplo, reformulou a Igreja Americana, tornando-a consciente que sua missão não se restringia unicamente aos tradicionais católicos, em especial imigrantes italianos e irlandeses. 

Nos últimos 18 anos de sua vida permaneceu quase imóvel devido a uma séria doença. Dedicou-se totalmente a uma vida de adoração e contemplação, como sempre desejara desde a juventude. Faleceu em 3 de março de 1955, aos 96 anos. Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em 20 de Novembro de 1988; e canonizada em 01 de Outubro de 2000 pelo mesmo Papa. Algumas reliquias estão expostas no altar da Capela de Maria na Igreja de São Rafael Arcanjo, em Raleigh, Carolina do Norte; e na Paróquia Katherine Drexel, em Sugar Grove, Illinois. 





3 de jul. de 2012

Meu Senhor e meu Deus!

A Incredulidade de São Tomé - Caravaggio
3 de Julho - Festa de São Tomé
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio (Jo 20,24). Era o único discípulo que estava ausente. Ao voltar, ouviu o que acontecera, mas negou-se a acreditar. Veio de novo o Senhor, e mostrou seu lado ao discípulo incrédulo para que o pudesse apalpar; mostrou-lhe as mãos e, mostrando-lhe também a cicatriz de suas chagas, curou a chaga daquela falta de fé. Que pensais, irmãos caríssimos, de tudo isto? Pensais ter acontecido por acaso que aquele discípulo estivesse ausente naquela ocasião, que, ao voltar, ouvisse contar, que, ao ouvir, duvidasse, que, ao duvidar, apalpasse, e que, ao apalpar, acreditasse?

Nada disso aconteceu por acaso, mas por disposição da providência divina. A clemência do alto agiu de modo admirável a fim de que, ao apalpar as chagas do corpo de seu mestre, aquele discípulo que duvidara curasse as chagas da nossa falta de fé. A incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para a nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram logo. Pois, enquanto ele é reconduzido à fé porque pôde apalpar, o nosso espírito, pondo de lado toda dúvida, confirma-se na fé. Deste modo, o discípulo que duvidou e apalpou tornou-se testemunha da verdade da ressurreição.

Tomé apalpou e exclamou: Meu Senhor e meu Deus! Jesus lhe disse: Acreditaste, porque me viste? (Jo 20,28-29). Ora, como diz o apóstolo Paulo: A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se vêem (Hb 11,1). Logo, está claro que a fé é a prova daquelas realidades que não podem ser vistas. De fato, as coisas que podemos ver não são objeto de fé, e sim de conhecimento direto. Então, se Tomé viu e apalpou, por qual razão o Senhor lhe disse: Acreditaste, porque me viste? É que ele viu uma coisa e acreditou noutra. A divindade não podia ser vista por um mortal. Ele viu a humanidade de Jesus e proclamou a fé na sua divindade, exclamando: Meu Senhor e meu Deus! Por conseguinte, tendo visto, acreditou. Vendo um verdadeiro homem, proclamou que ele era Deus, a quem não podia ver.

Alegra-nos imensamente o que vem a seguir: Bem-aventurados os que creram sem ter visto (Jo 20,29). Não resta dúvida de que esta frase se refere especialmente a nós. Pois não vimos o Senhor em sua humanidade, mas o possuímos em nosso espírito. É a nós que ela se refere, desde que as obras acompanhem nossa fé. Com efeito, quem crê verdadeiramente, realiza por suas ações a fé que professa. Mas, pelo contrário, a respeito daqueles que têm fé apenas de boca, eis o que diz São Paulo: Fazem profissão de conhecer a Deus, mas negam-no com a sua prática (Tt 1,16). É o que leva também São Tiago a afirmar: A fé, sem obras, é morta (Tg 2,26).

-- Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa.

Se quisesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo


É esta a nossa glória: o testemunho de nossa consciência. Há homens de juízo temerário, detratores, maldizentes, murmuradores, suspeitosos do que não vêem, procurando acusar o que nem mesmo suspeitam.Contra gente assim, o que nos resta a não ser o testemunho de nossa consciência? Mas, irmãos, também em relação àqueles a quem queremos agradar, não procuramos nossa glória nem a devemos buscar, mas a salvação deles, de modo que não se extraviem aqueles que nos seguem, se andarmos bem. Sejam nossos imitadores, se o formos de Cristo. Se não formos imitadores de Cristo, que eles o sejam! Pois o Senhor apascenta o seu rebanho e junto com todos os bons pastores, ele é o único, porque todos estão nele.

Por isso, não temos em vista nosso proveito quando buscamos agradar aos homens, mas queremos alegrar-nos com eles, alegrarmo-nos por sentirem prazer com o bem, para vantagem deles, não para nossa honra. Claramente se percebe contra quem disse o Apóstolo: Se quisesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo (Gl 1,10). Também se percebe a favor de quem ele disse: Agradai a todos em tudo, assim como também eu lhes agrado em tudo. Ambas as coisas puras, ambas sem perturbação. Quanto a ti, come e bebe tranqüilamente; mas não pises os pastos, nem turves as águas.

Na verdade, também ouviste nosso Senhor Jesus Cristo, o Mestre dos apóstolos: Brilhem vossas obras diante dos homens, para que vejam o bem que fazeis e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,16). Ele vos fez assim: Nós, gente de suas pastagens e ovelhas de suas mãos (cf Mt 10,1-5). Louvor a ele que te fez bom, se és bom, e não a ti que, por ti mesmo só poderias ser mau. Por que queres torcer a verdade, de modo que quando fazes algum bem, queres ser elogiado e, quando fazes o mal, queres que o Senhor seja criticado? De fato, aquele que disse: Brilhem vossas obras diante dos homens, é o mesmo que, na mesma exortação, declarou: Não façais vossa justiça diante dos homens (Mt 6,1). Como no Apóstolo, também no Evangelho estes ditos te parecem contraditórios. Se, porém, não turvares a água de teu coração, aí encontrarás o acordo das Escrituras e terás paz também com elas.

Esforcemo-nos, pois, irmãos, não apenas para sermos bons, mas ainda para convivermos bem com os homens. Não procuremos apenas ter uma boa consciência, mas, na medida em que permitirem nossas limitações, vigilantes sobre a fragilidade humana, empenhemo-nos em nada fazer que levante dúvidas para o irmão mais fraco. Não aconteça que, comendo ervas boas e bebendo águas límpidas espezinhemos as pastagens de Deus e as ovelhas fracas comam a erva pisada e bebam a água turva.


-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

29 de jun. de 2012

O sétimo artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que nos ensina o sétimo artigo: donde há de vir a julgar os vivos e os mortos?
- Que o mesmo Cristo Nosso Senhor no fim do mundo virá do céu, cheio de glória e majestade para julgar todos os homens, dando a cada um o prêmio e castigo que tiver merecido.

Se cada um logo depois da morte tem de ser julgado por Jesus Cristo no juízo particular, porque havemos de ser julgados no Juízo Universal?
- Por muitas razões: (1) para glória de Deus; (2) para glória de Jesus Cristo; (3) para glória também dos santos; (4) para confusão dos maus; (5) finalmente para que o corpo, com a alma, tenha a sua sentença de glória ou de pena.

Porque será esse juízo para a glória de Deus?
- Para que saibam todos, com quanta justiça Deus governa o mundo, posto que agora se vê algumas vezes os bons em aflição e os maus em prosperidade.

Porque para glória de Jesus Cristo?
- Porque tendo ele sido injustametne condenado pelos homens, lhe é devido o aparecer uma vez como Juiz Supremo de todos na face de todo o mundo.

Porque será também esse Juízo para a glória dos santos?
- Porque muitos deles morreram difamados pelos maus; e pede a razão que em presença do mundo sejam glorificados.

E qual será a confusão dos maus?
- Grandíssima será a sua confusão, principalmente daqueles que em vida pretenderam ser estimados como bons e virtuosos, vendo manifesto a todo mundo os seus pecados, ainda os mais ocultos.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

28 de jun. de 2012

Deus é um rochedo inacessível


O que costuma acontecer a quem do alto de um monte olha para o vasto mar lá embaixo, isto mesmo se dá com o meu espírito em relação à altíssima palavra do Senhor: dessa altura olho para a inexplicável profundidade de seu sentido.

A mesma vertigem que se pode sentir em alguns lugares da costa, quando se olha desde uma grande elevação a cavaleiro das ondas para o mar profundo, do alto saliente de um penhasco que, do lado do mar, parece cortado pelo meio do vértice até a base mergulhada nas profundezas, sobrevém a meu espírito suspenso à grande palavra proferida pelo Senhor: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a DeusDeus se oferece à visão daqueles que têm o coração purificado. Deus, ninguém jamais o viu, diz o grande João. Confirma esta asserção, Paulo, aquele espírito sublime: A quem homem algum vê nem pode ver. Eis aqui o penhasco, escorregadio, despenhadeiro sem fundo, talhado a pique, que não oferece em si nenhum ponto de apoio para a inteligência da criatura! O próprio Moisés sentiu-se esmagado pela palavra: Não há, diz ele, quem veja a Deus e continue a viver. Ele sentenciou que este penhasco é inacessível, porque nunca nossa mente pode lá chegar, por mais que se esforce por alcançá-lo, erguendo-se até ele.

Ora, ver a Deus é gozar a vida eterna. No entanto, que Deus não possa ser visto, as colunas da fé, João, Paulo e Moisés, o afirmam. Percebes a vertigem que arrasta logo o espírito para as profundezas do conteúdo desta questão? De fato, se Deus é a vida, quem não vê a Deus não vê a vida. Mas que não se possa ver a Deus, tanto os profetas quanto os apóstolos, levados pelo Espírito divino, o atestam. Em que angústias, portanto, se debate a esperança dos homens?

Contudo, o Senhor vem erguer e sustentar a esperança vacilante, assim como fez a Pedro, a ponto de afundar, firmando-o na água tornada resistente ao caminhar, para que ele não se afogasse.

Portanto, se a mão do Verbo se estender para nós, que vacilamos no abismo de nossas especulações, colocando-nos em outra perspectiva, perderemos o medo e, já seguros, abraçaremos o Verbo que nos conduz como que pela mão, dizendo: Bem-aventurados os puros de coração porque eles verão a Deus.

-- Das Homílias de São Gregório de Nissa, bispo (século IV)

24 de jun. de 2012

Oração pela liberdade religiosa

O governo americano, liderado pelo Presidente Obama, e como vimos no discurso da Secretaria Hillary Clinton na última senta-feira, é favorável ao aborto. Com o apoio da maioria democrata no congresso, conseguiu arpovar uma lei que obriga todos os empregadores a pagarem seguro-saude para seus empregados que inclua aborto e outras técnicas reprodutivas que várias igrejas cristãos são contrárias. Portanto, de acordo com esta lei, escolas, universidades, hospitais e outras instituições católicas serão obrigadas a pagar aborto para seus funcionários. 

Obviamente os bispos posicionaram-se contrários, já avisaram que não cumprirão a tal lei por dever de consciência e estão dispostos a serem presos por seguirem a sua consciência. Na prática, várias pontos polêmicos da lei terão sua constitucionalidade avaliada pela Suprema Corte nos próximos dias, incluindo este ponto específico: se o governo pode obrigar instituições religiosas a agirem contrariamente a sua fé. 

A Confederação de Bispos Americana pediu que as pessoas rezem a oração abaixo em defesa da liberdade religiosa no país, na quinzena que começou com a festa de São Tomas Moore até o Dia da Independência (4 de Julho) - e que será exemplo para todo mundo, incluindo Brasil.

Oração pela liberdade religiosa:
Ó Deus, todo Poderoso e Pai de todas as nações, vós que nos libertastes em Jesus Cristo para vivermos na liberdade (Gl 5,1). Nós vos louvamos e bendizemos pelo dom da liberdade religiosa, que é a base dos direitos humanos, da justiça e do bem comum. Concedei aos nossos dirigentes a sabedoria para proteger e promover nossa liberdade. Que por vossa graça tenhamos força para defendê-la, tanto para nós, como para todos que vivem nessa terra abençoada. Isto vos pedimos pela intercessão de Maria Imaculada, nossa Padroeira, e em nome de vosso Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, na Unidade do Espírito Santo que vive e reina num só Deus, para sempre. Amém. 

22 de jun. de 2012

São Tomás More


De uma carta de São Tomás More, escrita no cárcere a sua filha Margarida

(The English Works of Sir Thomas More, London, 1557, p.1454)
(Sec. XVI)

Ponho-me inteiramente nas mãos de Deus com toda a esperança e confiança.
Embora eu tenha plena consciência, minha Margarida, de que os pecados da minha vida passada mereceram justamente que Deus me abandone, nunca deixarei de confiar na sua imensa bondade e de esperar com toda a minha alma. Até agora a sua santíssima graça deu-me forças para tudo desprezar do íntimo do coração – riquezas, rendimentos e a própria vida – antes que prestar juramento contra a voz da minha consciência. Foi Deus que, benignamente, levou o rei a privar-me até ao presente, só da liberdade. Com isto, em vez de me fazer mal, sua Majestade concedeu-me para proveito espiritual da minha alma, assim o espero, um benefício maior do que com todas aquelas honras e bens que antes me dispensava. E espero confiadamente que a mesma graça divina há-de continuar a favorecer-me, ou acalmando o ânimo do rei para que não me imponha tormento mais grave, ou dando-me a força necessária para suportar tudo, seja o que for, com paciência, fortaleza e boa vontade.
O meu sofrimento, unido aos méritos da dolorosíssima paixão do Senhor – infinitamente acima de tudo quanto eu venha a padecer – aliviará as penas que mereço no Purgatório e, graças à bondade divina, acrescentará também um pouco a minha recompensa no Céu.
Não quero desconfiar, minha Margarida, da bondade de Deus, por mais débil e fraco que eu me sinta. Mais ainda: se, no meio do terror e da consternação, eu me visse em perigo de ceder, lembrar-me-ia então de São Pedro, que, à primeira rajada de vento, começou a afundar-se, por causa da sua pouca fé, e procuraria fazer o que ele fez: gritar a Cristo: Salvai-me, Senhor. Espero que Ele estenderá a sua mão para me segurar e não me deixará afogar.
Mas se Deus permitisse que a minha semelhança com Pedro fosse mais longe, a ponto de eu me precipitar e cair totalmente, jurando e abjurando (que Deus, por sua misericórdia, afaste para bem longe de mim tal calamidade e que dessa queda me venha antes castigo do que benefício), ainda em tal caso, espero que o Senhor me dirigiria, tal como a Pedro, um olhar cheio de misericórdia e me levantaria de novo para eu voltar a defender a verdade, para descarregar a consciência e suportar corajosamente o castigo e a vergonha da minha anterior negação.
Finalmente, minha Margarida, estou inteiramente convencido de que, sem culpa minha, Deus não me abandonará. Por isso com toda a esperança e confiança me entregarei totalmente nas mãos de Deus. Se, por causa dos meus pecados, Deus permitisse a minha queda, ao menos brilharia em mim a sua justiça. Espero, porém, e espero com inteira certeza, que a sua clementíssima bondade guardará fielmente a minha alma e fará que em mim brilhe mais a sua misericórdia do que a sua justiça.
Está, pois, tranquila, minha filha, e não te preocupes comigo, seja o que for que me aconteça neste mundo. Nada pode acontecer-me que Deus não queira. E tudo o que Ele quer, por muito mau que nos pareça é, em verdade, muito bom.

20 de jun. de 2012

O sexto artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que nos ensina o sexto artigo do Credo: subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso?

- Que Jesus Criso subiu aos céus à vista dos seus discípulos no quadragésimo dia depois da sua Ressurreição; e que sendo como Deus, igual ao Pai na glória, como homem foi exaltado sobre todos os anjos e Santos, constituído Senhor de todas as coisas.

Porque demorou por quarenta dias a sua subida aos céus?
- Para estabelecer com várias aparições o mistério da sua Ressurreição e para instruir sempre mais e confirmar os apóstolos nas verdades da fé.

Subiu Ele aos céus enquanto Deus ou enquanto homem?
- Subiu enquanto homem, porque enquanto Deus já está presente em todo lugar.

Porque se diz que Cristo subiu aos céus; e de sua mão santíssima, que foi assunta aos céus, isto é, levada?
- Porque Cristo, sendo Deus e homem, por virtude própria subiu aos céus, mas sua mãe, como criatura, ainda que entre todas a mais digna, subiu ao céu por virtude de Deus.

Que querem dizer aquelas palavras: está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso? Tem Deus por ventura mão direita ou esquerda?
- O Pai não tem mão direita, nem esquerda; mas assim se diz para que possamos compreender a Glória que Jesus Cristo enquanto homem recebeu sobre todas as criaturas; pois assim dizemos no mundo e entendemos que a pessoa ocupa o lugar mais honorífico. 

Porque se diz que Cristo está sentado? Por ventura esta ele realmente sentado no céu?
- Diz-se que está sentado para fazermos entender que ele está na posse pacífica da sua Glória, como soberano e absoluto Senhor de todas as coisas.

19 de jun. de 2012

São Jerônimo e o Leão



Em Vita Divi Hieronymi, livro que conta a vida de São Jerônimo, encontra-se as razões pelas quais o santo é pintado com um leão ao seu lado. A história parece ser uma lenda medieval, incluída na versão original do livro escrito pelo croata Marulic, em torno de 1500. No início do livro, Marulic diz que escrevia para organizar várias hagiografias já existentes e teria se baseado também nas cartas do santo. Pois bem, vamos à história:

Uma tarde, no monastério em Jerusálem,  São Jerônimo sentou-se com outros monges para ouvirem a lição do dia quando um gigantesco leão aproximou-se andando em três patas, com a quarta pata levantada. Imaginem o caos que se seguiu quando todos os monges correram, cada um para um lado. Mas São Jerônimo calmamente levantou-se e foi ao encontro do hóspede inesperado. Naturalmente o leão não podia falar, mas ofereceu a pata ferida ao bom padre. Jerônimo examinou-a, notou que havia alguns espinhos, e pediu ao monge menos medroso que trouxesse um balde com água para lavar a ferida do leão. Jerônimo retirou com cuidados os espinhos e aplicou uma pomada. O ferimento rapidamente sarou. O gentil cuidado amansou o leão que ia e vinha pacificamente onde estava São Jerônimo como se fosse um animal doméstico. Sobre este episódio, o santo  disse "Pensem sobre isto e vocês encontrarão varias respostas. Eu creio que não foi tanto para a cura de sua pata que Deus o enviou, pois Ele curaria a pata sem a nossa ajuda, mas enviou o leão para mostrar quanto Ele estava ansioso para prover o que necessitamos para o nosso bem."

Os irmãos sugeriram que o leão poderia ser usado para proteger o jumento que carregava a lenha para o monastério. E assim foi por muito tempo. O leão guardava o jumento enquanto este ia e vinha. Um dia, entretanto, o leão estava muito cansado e dormiu enquanto o jumento pastava. Foi quando egípcios mercadores de óleo levaram o jumento.

O leão lá pelas tantas acordou e passou a procurar o jumento. Com incrível ansiedade procurou-o dia. No final do dia voltou e ficou no portão do monastério parado, consciente de sua culpa o leão não tinha mais o seu andar orgulhoso.

Os outros monges logo concluíram que o leão tinha na verdade comido o jumento, e  recusaram-se a alimentar o leão, enviando-o de volta para comer o resto da sua matança. Mas ainda havia uma certa dúvida se o leão havia ou não matado o jumento e assim Jerônimo mandou que eles procurassem pela carcaça do jumento. Não encontraram a carcaça, nem outro sinal de violência. Os monges levaram a noticia para São Jerônimo que disse "Eu fico triste pela perda do asno, mas não façam isto com o leão. Tratem dele como antes, dêem comida e ele fará o serviço do jumento. Façam com que ele traga em seu lombo algumas das peças de lenha." E assim aconteceu.

O leão regularmente fazia a sua tarefa, mas continuava a procurar o seu velho companheiro. Um dia, do alto de uma colina, viu na estrada homens montados em camelos e em um jumento. Ele então foi ao encontro deles. Ao se aproximar, reconheceu o amigo e começou a rugir. Os mercadores assustados correram como puderam, deixando o jumento, os camelos e sua carga para atrás.

O leão conduziu os animais para o mosteiro. Quando os monges viram aquela cena inusitada, um leão liderando um jumento e camelos, logo chamaram São Jerônimo. Ele abriu os portões e disse: "Tirem a carga dos camelos e do jumento, lavem suas patas e dêem comida e esperem para ver o que Deus tinha em mente quando nos deu o leão".

Suas instruções foram seguidas, o leão começou a rugir de novo e balançar o rabo alegremente. Os irmãos, com remorso da calúnia que haviam pensado do pobre leão, disseram uns aos outros "Irmão, confie na sua ovelha mesmo se por um tempo ela parecer um ganancioso rufião e Deus fará um milagre para curar o seu caráter".

Neste meio tempo, Jerônimo sabendo o que viria disse: "Meus irmãos, preparem refrescos porque novos hóspedes estão chegando e deverão ser tratados dignamente".

Assim se preparam para receber as visitas e em breve os mercadores estavam no portão. Foram bem-vindos, mas vendo os camelos, o jumento e o leão, prostraram-se aos pés de São Jerônimo e pediram perdão pelas sua falhas. Gentilmente Jerônimo disse "dêem os refrescos a eles e deixem partir com os seu camelos e suas cargas". Os mercadores ofereceram metade do óleo que carregavam e mais alguns alimentos para os monges.

O chefe dos mercadores estão disse "Nós daremos todo óleo que vocês precisarem durante o ano e nossos filhos e netos serão instruídos a seguirem esta ordem, e ainda nada de sua propriedade será jamais tocado por qualquer de nós".

São Jerônimo aceitou a oferta e os mercadores partiram com sua benção, voltando alegres para o seu povo. São Jerônimo então disse "vejam, meus irmãos, o que Deus tinha em mente quando nos mandou o seu leão"!


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