18 de set. de 2012

O exemplo de São Paulo

O túmulo de São Pedro encontra-se diretamente abaixo
do altar principal da Basílica Vaticana,

Estando Paulo, certa ocasião, em grande indigência e preso pela proclamação da verdade, alguns irmãos enviaram-lhe com que acudir a suas necessidades. Agradecido, responde-lhes: Fizestes bem provendo-me do necessário. Eu, porém, aprendi a bastar-me em qualquer situação. Sei ter muito e sei passar privações. Tudo posso naquele que me dá forças. No entanto fizestes bem em enviar-me aquilo de que preciso (cf. Fl 4,10-14).

Mas desejando mostrar o que é que lhe interessava neste gesto em seu favor – não houvesse acaso entre eles algum dos que se apascentam a si e não as ovelhas – não se alegra tanto por ter sido socorrido em sua necessidade, quanto se congratula com eles por sua liberalidade. O que procurava então? Diz: Não porque espero dádivas para mim, mas porque busco frutos para vós (Fl 4,17). Não para que me sacie eu, mas para que não fiqueis vazios vós.

Que aqueles que não podem, como Paulo, sustentar-se com o trabalho de suas mãos, aceitem o leite das ovelhas, supram as suas necessidades, mas não descuidem a fraqueza das ovelhas. Não procurem isto para o próprio proveito, como se anunciassem o Evangelho só para atender a sua penúria, mas tenham em mira a luz da palavra da verdade a fim de iluminar os homens. Pois parecem-se com lâmpadas, como foi dito: Estejam vossos rins cingidos e lâmpadas acesas (Lc 12,35); e: Ninguém acende uma lâmpada e a põe debaixo da vasilha, mas sobre o candelabro a fim de iluminar aqueles que estão em casa; assim brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,15-16).

Se para teu uso acendessem em casa uma lâmpada, não lhe porias mais óleo para não se extinguir? Todavia, se mesmo com óleo a lâmpada não brilhasse, não seria de modo algum digna de ser posta no candelabro, mas logo quebrada. O bastante para viver, por necessidade se aceita, por caridade se dá. Não seja o Evangelho um objeto venal, como se fosse o preço que recebem os que o anunciam para terem com que viver. Se assim o vendem, por uma ninharia vendem uma coisa preciosa. Do povo recebem o sustento necessário; do Senhor, a recompensa de seu ministério. Não é o povo o indicado para dar a recompensa àqueles que servem ao Evangelho na caridade. Estes esperam sua recompensa da mesma fonte de que os outros aguardam a sua salvação.

Por que então são repreendidos? Por que censurados? É que, bebendo o leite e cobrindo-se com a lã, descuravam as ovelhas. Procuravam apenas seu interesse, não o de Jesus Cristo.

-- Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo (século V)

17 de set. de 2012

Salmo 62: a alma sedenta do Senhor


Salmo 62 proclamado durante uma celebração na Canção Nova.


O Salmo 62, no qual nos detemos para reflectir, é o Salmo do amor místico que celebra a adesão total a Deus, partindo de um anseio quase físico e chegando à sua plenitude num abraço íntimo e perene. A oração faz-se desejo, sede e fome, porque envolve a alma e o corpo.

Como escreve Santa Teresa de Ávila, "a sede exprime o desejo de algo, mas um desejo tão intenso que perecemos se dele nos privamos" (Caminho de perfeição, c. XIX). Deste Salmo, a liturgia propõe-nos as primeiras duas estrofes, que estão centradas precisamente nos símbolos da sede e da fome, enquanto a terceira estrofe faz oscilar um horizonte obscuro, do juízo divino sobre o mal, em contraste com a luminosidade e a candura do resto do Salmo.

Então, iniciemos a nossa meditação com o primeiro cântico, o da sede de Deus (cf. vv. 2-4). É a aurora, o sol que está a nascer no céu obscuro da Terra Santa, e o orante começa o seu dia, indo ao templo para buscar a luz de Deus. Ele tem necessidade daquele encontro com o Senhor de maneira quase instintiva, dir-se-ia "física". Assim como a terra árida é morta, enquanto não for irrigada pela chuva, e assim como nas fendas do terreno ela se parece com uma boca dessedentada e seca, assim o fiel aspira por Deus para ser por Ele saciado e poder assim existir em comunhão com Ele.

O profeta Jeremias já tinha proclamado:  o Senhor é "fonte de águas vivas", reprovando o povo por ter cavado "cisternas rotas, que não podem reter as águas" (2, 13). O próprio Jesus exclamará em voz alta:  "Se alguém tem sede venha a mim e beba... que acredite em mim" (Jo 7, 37-38). Em plena tarde de um dia ensolarado e silencioso, Ele promete à mulher samaritana:  "Quem beber da água que Eu lhe der, jamais terá sede, porque a água que Eu lhe der se tornará nele uma nascente de água a jorrar para a vida eterna" (Jo 4, 14).

No que diz respeito a este tema, a oração do Salmo 62 relaciona-se com o cântico de outro Salmo maravilhoso:  "Assim como a corça suspira pelas correntes de água, assim também a minha alma suspira por Vós, ó meu Deus. A minha alma tem sede do Senhor, do Deus vivo" (41, 2-3). Pois bem, na língua do Antigo Testamento o hebraico a "alma" é expressa com o termo nefesh, que nalguns textos designa a "garganta" e em muitos outros chega a indicar todo o ser da pessoa.

Compreendido nesta acepção, o vocábulo ajuda a entender como é essencial e profunda a necessidade de Deus; sem Ele faltam a respiração e a própria vida. Por isso, o Salmista chega a pôr em segundo plano a própria existência física, se vier a faltar a união com Deus:  "O vosso amor é mais precioso do que a vida" (62, 4). Inclusivamente no Salmo 72, repetir-se-á ao Senhor:  "Além de Vós, nada mais anseio sobre a terra. A minha carne e o meu coração já desfalecem, mas o Senhor é para sempre a rocha do meu coração e a minha herança... o meu bem é estar perto de Deus" (vv. 25-26 e 28).

Depois do cântico da sede, eis que se modula nas palavras do Salmista o cântico da fome (cf.Sl 62, 6-9). Provavelmente, com as imagens do "lauto banquete" e da saciedade, o orador remete para um dos sacrifícios que se celebravam no templo de Sião:  o sacrifício chamado "de comunhão", ou seja, um banquete sagrado em que os fiéis comiam a carne das vítimas imoladas. Outra necessidade fundamental da vida é aqui utilizada como símbolo da comunhão com Deus:  a fome é saciada quando se escuta a Palavra divina e se encontra o Senhor. Com efeito, "o homem não vive somente de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor" (Dt 8, 3; cf. Mt 4, 4). E aqui o pensamento do cristão corre para aquele banquete que Cristo preparou na última noite da sua vida terrestre, e cujo profundo valor Ele já tinha explicado durante o discurso de Cafarnaum:  "A minha carne é, em verdade, comida e o meu sangue é, em verdade, bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em mim e eu nele" (Jo 6, 55-56).

Através do alimento místico da comunhão com Deus, "a alma une-se a Ele", como declara o Salmista. Uma vez mais, a palavra "alma" refere-se a todo o ser humano. Não é sem motivo que se fala de um abraço, de um abraço quase físico:  Deus e o homem já estão em plena comunhão, e dos lábios da criatura não pode brotar senão o louvor jubiloso e agradecido. Mesmo quando estamos na noite escura, sentimo-nos protegidos sob as asas de Deus, como a arca da aliança é coberta pelas asas dos querubins. E então floresce a expressão extática da alegria:  "Exulto à sombra das vossas asas". O medo dissolve-se, o abraço não se aperta ao vazio, mas ao próprio Deus, enquanto a nossa mão se entrelaça com o poder da Sua direita (cf. Sl 62, 8-9).

A partir de uma leitura do Salmo à luz do mistério pascal, a sede e a fome que nos impelem para Deus encontram a sua satisfação em Cristo crucificado e ressuscitado, de Quem chega até nós, mediante o dom do Espírito e dos Sacramentos, a vida nova e o alimento que a sustém.

É o que nos recorda João Crisóstomo que, comentando a anotação joanina: do lado "saiu sangue e água" (cf. Jo 19, 34), afirma:  "Aquele sangue e aquela água são símbolos do Batismo e dos Mistérios", ou seja, da Eucaristia. E conclui:  "Vedes como Cristo atraiu a si mesmo a esposa? Vedes com que alimento Ele nos nutre a todos nós? Fomos formados e somos nutridos pelo mesmo alimento. Com efeito, assim como a mulher nutre aquele que ela gerou com o próprio sangue e leite, assim também  Cristo  alimenta  continuamente com o seu sangue aquele que Ele mesmo gerou" (Homilia III, destinada aos neófitos).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 25 de Abril de 2001.

12 de set. de 2012

O bispo de Roma, centro da unidade visível

Centro e sustentáculo de toda a unidade visível da Igreja católica é o bispo de Roma, como sucessor de São Pedro e vigário de Jesus Cristo. As afirmações de São Leão outra coisa não são senão o eco fidelíssimo dos textos evangélicos e da perene tradição católica, como ressalta do passo seguinte: "Em todo o mundo só Pedro é eleito, para ser preposto à evangelização de todas as nações, a todos os apóstolos e a todos os Padres da Igreja; de modo que, embora no meio do povo de Deus haja muitos pastores e muitos sacerdotes, todos porém são governados propriamente por Pedro, como principalmente são governados por Cristo. De maneira grande e admirável, ó diletíssimos, Deus se dignou fazer este homem participante do seu poder; e, se quis que também os outros chefes tivessem algo de comum com ele, tudo o que concedeu aos outros sempre o concedeu por meio dele". Sobre esta verdade, que é fundamental para a unidade católica, isto é, a verdade do vínculo divino, indissolúvel entre o poder de Pedro e o dos outros apóstolos, São Leão julga oportuno insistir: "Certamente também aos outros apóstolos estendeu-se esse poder (isto é, de desligar e ligar] e foi transmitido a todos os chefes da Igreja; mas não é em vão que se recomenda a uma só pessoa aquilo que a todos os outros deve ser comunicado. Com efeito, este poder é confiado singularmente a Pedro, justamente porque a figura de Pedro está acima de todos aqueles que governam a Igreja".


Mas o santo pontífice não esquece o outro vínculo essencial da unidade visível da Igreja, isto é, o magistério supremo e infalível, reservado pelo Senhor pessoalmente a Pedro e aos seus sucessores: "O Senhor toma cuidado, de modo especial, de Pedro, e roga em particular pela fé de Pedro, como que se a perseverança dos outros estivesse mais garantida se o ânimo do chefe não fosse vencido. Em Pedro, por isso, a fortaleza de todos é protegida, e o auxílio da graça divina segue esta ordem: a firmeza que a Pedro é dada por meio de Cristo é conferida aos apóstolos através de Pedro".

Tudo o que com tanta clareza e insistência São Leão afirma a respeito de São Pedro assevera-o também de si mesmo, não por estímulo de ambição humana, mas pela íntima persuasão que ele tem de si não menos que o príncipe dos apóstolos, ser o vigário do próprio Jesus Cristo, como se depreende deste trecho dos seus sermões: "Não é para nós motivo de orgulho a solenidade com que, cheio da gratidão a Deus pelo seu dom, festejamos o aniversário do nosso sacerdócio; porquanto com toda sinceridade confessamos que todo o bem por nós praticado no desenvolvimento do nosso ministério é obra de Cristo; e não de nós, que nada podemos sem ele, mas que dele nos gloriamos, de quem deriva toda a eficácia do nosso operar"

Com isto, longe de pensar que já agora São Pedro seja estranho ao governo da Igreja, São Leão, pelo contrário, gosta de associar à confiança na perene assistência do seu divino Fundador a confiança na proteção de São Pedro, de quem se professa herdeiro e sucessor, "substituindo-o no encargo". Por isto, aos méritos do apóstolo, mais do que aos seus, atribui ele os frutos do seu ministério universal. O que, entre outras coisas, é claramente provado pela seguinte expressão: "Portanto, se algo de bom operamos ou vemos, se algo obtemos da misericórdia de Deus com as nossas orações cotidianas, isto se deve às obras e aos méritos dele; na sua Sé perdura ainda o seu poder, domina a sua autoridade"

Na realidade, São Leão não ensina nada de novo. Igualmente aos seus predecessores Santo Inocêncio I e São Bonifácio I, e em perfeita harmonia com os bem conhecidos textos evangélicos, por ele mesmo comentados (Mt 16, 17-18; Lc 22, 31-32; Jo 21, 15-17), ele está convencido de haver recebido do próprio Cristo o mandato do supremo ministério pastoral. Afirma, com efeito: "A solicitude que devemos ter para com todas as Igrejas tem origem principalmente num mandato divino".

-- Carta Encíclica Aeterna Dei Sapientia, do Papa João XXIII, publicada em 11 de Novembro de 1961 - na ocasião dos 1500 anos de falecimento do de São Leão Magno.

9 de set. de 2012

A unidade da Igreja no pensamento de São Leão Magno


Antes de tudo São Leão nos ensina que a Igreja é una, porque um é o seu esposo, Jesus Cristo: "Tal é, com efeito, a Igreja virgem, unida a um só esposo, Cristo, a ponto de não admitir erro algum; de modo que, em todo o mundo, nós gozamos de uma só união, casta, integra". O santo acha, outrossim, que essa admirável unidade da Igreja teve início com o nascimento do Verbo encarnado, como resulta destas expressões: "É, com efeito, o nascimento de Cristo que determina a origem do povo cristão: o natal da Cabeça é também o natal do corpo. Mesmo se cada um dos chamados [à fé] tem a sua vez, se todos os filhos da Igreja estão distribuídos na sucessão dos tempos, todavia o conjunto dos fiéis, nascidos da fonte batismal, assim como com Cristo são crucificados na sua paixão, são ressuscitados na sua ressurreição, são postos à destra do Pai na sua ascensão, assim também com ele são congerados neste nascimento". Desse misterioso nascimento do "corpo da Igreja" (Cl 1,18) participou intimamente Maria, graças à sua virgindade, tornada fecunda por obra do Espírito santo. Com efeito, São Leão exalta Maria como "Virgem, serva e mãe do Senhor""Genitora de Deus" e "Virgem perpétua".

Além disto, observa ainda São Leão, o sacramento do batismo não só torna cada cristão membro de Cristo, mas o faz também participante da sua realeza e do seu sacerdócio espiritual: "Com efeito, todos aqueles que foram regenerados em Cristo foram também feitos reis com o sinal da cruz, e sagrados sacerdotes com a unção do Espírito Santo". O sacramento da Confirmação, chamado "santificação dos crismas", corrobora tal assimilação a Cristo Cabeça, enquanto na eucaristia ela acha o seu remate: "Com efeito, a participação no Corpo e no Sangue de Cristo não faz senão transformar-nos naquilo que tomamos; e em tudo, tanto na carne como no espírito, trazemos aquele mesmo no qual fomos mortos, sepultados e ressuscitados".

Mas, note-se bem, para São Leão não pode haver perfeita união dos fiéis com Cristo Cabeça e entre si, como membros de um mesmo organismo vivo e visível, se aos vínculos espirituais das virtudes, do culto e dos sacramentos não se juntar a profissão externa da mesma fé: "Grande sustentáculo é a fé íntegra, a fé verdadeira, à qual nada pode ser acrescentado ou tirado por quem quer que seja; pois que a fé, se não é única, então absolutamente não existe". Entretanto, à unidade da fé é indispensável a união entre os mestres das verdades divinas, isto é, a concórdia dos bispos entre si em comunhão com o pontífice romano e em submissão a ele. "A compacidade de todo o corpo é que dá origem à sua sanidade e à sua beleza; e essa mesma compacidade, se reclama a unanimidade, exige entretanto sobretudo a concórdia dos sacerdotes. Estes têm em comum a dignidade sacerdotal, mas não o mesmo grau de poder; já que, mesmo entre os apóstolos, houve igualdade de honra, mas diferença de poder, enquanto a todos foi comum a graça da eleição, mas a um só foi concedido o direito de preeminência sobre os outros".

-- Carta Encíclica Aeterna Dei Sapientia, do Papa João XXIII, publicada em 11 de Novembro de 1961 - na ocasião dos 1500 anos de falecimento do de São Leão Magno.

8 de set. de 2012

A sabedoria cristã


* Este é um texto escrito a mais de 1500 anos, mas o primeiro parágrafo é direto ao ponto quanto a um dos principais problemas de certas teologias modernas, cuja prática é excessivamente desejosa de reparações terrenas. 
São Leão Magno,  doutor da Igreja, que governou
de 29 de Setembro de 440 até 10 de Novembro de 461.

Em seguida diz o Senhor: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados (Mt 5,6). Esta fome nada tem de corpóreo. Esta sede não busca nada de terreno. Mas deseja ser saciada com a justiça e, introduzida no segredo mais oculto, anseia por ser repleta do próprio Senhor.

Feliz espírito, faminto do pão da justiça e que arde por tal bebida. Na verdade não teria disso nenhuma cobiça, se não lhe houvesse provado a doçura. Ouvindo o espírito profético que lhe diz: Provai e vede como é suave o Senhor (Sl 33,9), tomou uma porção da altíssima doçura e inflamou-se pelo amor das castíssimas delícias. Abandonando todo o criado, acendeu-se-lhe o desejo de comer e beber a justiça e experimentou a verdade do primeiro mandamento: Amarás o Senhor Deus de todo o teu coração, com toda a tua mente, com todas as tuas forças (Dt 6,5; cf. Mt 22,37). Porque não são coisas diferentes amar a Deus e amar a justiça.

Por fim, como o interesse pelo próximo se une ao amor de Deus, também aqui o desejo da justiça é acompanhado pela virtude da misericórdia, e se diz: Bem-aventurados os misericordiosos porque deles terá Deus misericórdia (Mt 5,7).

Reconhece, ó cristão, a dignidade de tua sabedoria e entende de que modo engenhoso foste chamado ao prêmio. A misericórdia te quer misericordioso, a justiça, justo, para que em sua criatura transpareça o Criador e no espelho do coração do homem refulja a imagem de Deus expressa pelas linhas da imitação. Firme é a fé dos que assim agem, teus desejos te acompanham e daquilo que amas gozarás sem fim.

Já que pela esmola tudo se faz puro para ti, chegas à bem-aventurança que é prometida como conseqüência. Diz o Senhor: Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus (Mt 5,8). Imensa felicidade, caríssimos, para quem se prepara tão grande prêmio. Que é, então, ter o coração puro? Entregar-se às virtudes acima descritas. Que inteligência poderá conceber e que língua proclamar quão grande seja a felicidade de ver a Deus? E, no entanto, isto acontecerá quando a natureza humana for transformada, de sorte que não mais em espelho ou enigma, mas face a face (1Cor 13,12), verá aquela Divindade que homem algum pôde ver tal qual é. E obterá o que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem subiu ao coração do homem (1Cor 2,9), pelo gáudio indizível da eterna contemplação.

-- Do Sermão sobre as Bem-aventuranças, de São Leão Magno, papa (século V)


6 de set. de 2012

Homília na Festa da Natividade de Nossa Senhora


* Homília proferida pelo Papa João Paulo II, em 8 de Setembro de 1979, Festa da natividade de Nossa Senhora, celebrada na Basílica de Loreto. No interior da Basílica está a casa de Nossa Senhora, que foi transportada pelos cruzados de Isael até a Itália. 

Basílica de Nossa Senhora de Loreto
1. "O teu nascimento, ó Virgem Mãe de Deus; anunciou a alegria ao mundo inteiro". Hoje é o dia desta alegria. A Igreja, a 8 de Setembro, nove meses depois da solenidade da Imaculada Conceição da Mãe do Filho de Deus, celebra a recordação do seu nascimento. O dia da natividade da Mãe faz voltar os nossos corações para o Filho: "De ti nasceu o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus: Ele levantou a maldição e trouxe a graça, venceu a morte e deu-nos a vida eterna" (Ant. do Benedictus).

Assim pois, a grande alegria da Igreja passa do Filho para a Mãe. O dia da sua natividade e verdadeiramente um prenúncio e o inicio do mundo melhor ("origo mundi melioris"), como proclamou de modo esplêndido o Papa Paulo VI.

E por isso a liturgia de hoje confessa e anuncia que o nascimento de Maria esparge a própria luz sobre todas as Igrejas que há no orbe.

2. A festividade do nascimento de Maria dir-se-ia que projeta a sua luz, de modo especial, sobre a Igreja da terra italiana, precisamente aqui, em Loreto, no admirável santuário, que hoje é a meta da nossa peregrinação comum. Desde o princípio do meu pontificado desejei ardentemente vir a este local; esperei  porém exatamente este dia, esta festividade de hoje. 

3. O culto da Mãe de Deus nesta terra anda ligado, segundo antiga e viva tradição, à casa de Nazaré. A casa em que, segundo recorda o Evangelho de hoje, Maria habitou, a seguir aos desposórios com José. A casa da Sagrada Família. Cada casa é sobretudo santuário da mãe. Esta cria-o, de modo especial, com a sua maternidade. E necessário que os filhos da família humana, ao virem ao mundo, encontrem um teto sobre a cabeça; que tenham uma casa. A casa de Nazaré, como sabemos, não foi todavia o lugar do nascimento do Filho de Maria e Filho de Deus. Provavelmente, todos os predecessores de Cristo, de que fala a genealogia do Evangelho de hoje, segundo Mateus, vieram ao mundo debaixo do tecto duma casa. Isto porém não lhe foi concedido a Ele. Nasceu como um exilado em Belém, num estábulo. E não pôde voltar à casa de Nazaré, porque foi obrigado a fugir à crueldade de Herodes, indo de Belém para o Egipto, e só depois da morte do rei, se atreveu José a levar Maria com o Menino para a casa de Nazaré.

Desde então, aquela casa foi o local da vida quotidiana, o local da vida oculta do Messias; a casa da Sagrada Família. Foi o primeiro templo, a primeira igreja, sobre a qual a Mãe de Deus irradiou a própria luz com a sua Maternidade. Irradiou-a com a sua luz, a emanar do grande mistério da Encarnação; do mistério do seu Filho.

4. Abrangidas por esta luz crescem, em todo o vosso país de sol, as casas familiares. E tantas são elas. Dos picos dos Alpes e das Dolomitas — de que me pude aproximar no domingo 26 de Agosto visitando os lugares natalícios do Papa João Paulo I — até à Sicília. Tantas, tantas casas; as casas familiares. E tantas, tantas famílias; cada uma delas mantém-se, graças à tradição cristã e mariana da vossa pátria, em certa ligação espiritual com aquela luz que promana da casa de Nazaré, particularmente hoje: no dia da natividade da Mãe de Cristo.

Talvez essa luz, que procede da tradição da casa nazaretana em Loreto, realize alguma coisa ainda mais profunda: faça que todo este país, que a vossa pátria, se torne uma como grande casa familiar. Grande casa, habitada por grande comunidade, cujo nome é "Itália". É necessário retroceder na realidade histórica, mesmo talvez até à realidade pré-histórica, para chegar às suas raízes longínquas. Um estrangeiro como eu, que tem consciência da realidade "que forma a história da própria nação, interna-se nesta realidade com especial respeito e com atenção cheia de recolhimento. Mas como se desenvolve, a partir das suas raízes antiquíssimas, esta grande comunidade humana, cujo nome é "Itália"? Com que laço, os homens, que hoje a constituem, estão unidos hoje àquelas gerações que passaram através da terra, desde os tempos da antiga Roma até aos tempos presentes? O Sucessor de Pedro, cujo lugar se mantém nesta terra desde os tempos da Roma imperial, sendo testemunha de tantas mudanças e, ao mesmo tempo, de toda a história da vossa terra, tem o direito e o dever de se propor tais perguntas.

E tem o direito de assim perguntar o Papa que é filho doutra terra, o Papa cujos compatriotas jazem aqui em Loreto, no cemitério de guerra. Sabe todavia porque é que eles caíram aqui. O antigo adágio romano "pro aris et focis" explica-o no melhor dos modos. Caíram por cada altar da fé e por cada família na terra natal, que desejavam preservar da destruição. Pois, em meio de todas as alternativas da história, cujos protagonistas são os homens, e sobretudo os povos e as nações, permanece sempre a casa, como arca da aliança das gerações e garantia dos valores mais profundos: dos valores humanos e divinos. Por isso, a família e a pátria, a fim de preservarem estes valores, não poupam nem sequer os próprios filhos.
Casa de Nossa Senhora no interior da Basílica. As pedras originais
estão recobertas por obras artísticas.

5. Como vedes, caros Irmãos e Irmãs, venho aqui a Loreto para reler o misterioso destino do primeiro santuário mariano na terra italiana. Na verdade, a presença da Mãe de Deus no meio dos filhos da família humana, e no meio de cada nação da terra em particular, diz-nos tanta coisa das nações e mesmo das comunidades!

E venho, ao mesmo tempo, no período de preparação para um importante encargo, que me convém tomar, a seguir ao convite do Secretário-Geral da ONU, diante do alto foro da mais representativa Organização do mundo contemporâneo. Venho procurar aqui neste Santuário, pela intercessão de Maria, nossa Mãe, a luz. Já no domingo último pedi em Castel Gandolfo, durante o encontro do Angelus, que se ore pelo Papa e pela sua missão cheia. de responsabilidades no foro da ONU. Hoje repito e renovo uma vez mais essa petição.

Trata-se, na verdade, de trabalhar e colaborar para que na terra, que a Providência destinou a ser a habitação dos homens, a casa de família, símbolo da unidade e do amor, ela vença tudo quanto ameaça esta unidade e o amor entre os homens: o ódio, a crueldade, a destruição e a guerra. Para esta casa familiar se tornar a expressão das aspirações dos homens, dos povos, das nações e da humanidade — apesar de tudo, o que lhe é contrário, que a elimina da vida dos homens, das nações e da humanidade, que abala os seus fundamentos, quer sócio-económicos quer éticos, porque sobre uns e sobre outros é que se baseia cada casa: seja a que para si constrói cada família, seja também a que, com o esforço de gerações inteiras, para si constróem os povos e as nações: a casa da própria cultura, da própria história; a casa de todos e a casa de cada um.

6. Eis a inspiração que encontro aqui, em Loreto. Eis o imperativo moral que daqui desejo levar comigo. Eis, ao mesmo tempo, o problema, que exatamente diante da tradição da Casa de Nazaré e diante do rosto da Mãe de Cristo em Loreto, desejo recomendar e confiar, de modo especial, ao seu maternal Coração, à sua omnipotência de intercessão ("omnipotentia supplex").

Assim como já fiz em Guadalupe, no México, e depois na polaca Jasna Gora (Monte Claro) em Czestochowa, desejo neste encontro de hoje em Loreto recordar aquela consagração ao Coração Imaculado de Maria que, há vinte anos, fizeram os Pastores da Igreja italiana, em Catânia, a 13 de Setembro de 1959, no encerramento do 16° Congresso Eucarístico Nacional. E desejo referir as palavras que, naquela ocasião, dirigiu aos fiéis o meu Predecessor João XXIII de venerada memória, na sua mensagem radiofónica: "Nós confiamos que, em virtude desta homenagem à Virgem Santíssima, os Italianos todos, com renovado fervor, venerem n'Ela a Mãe do Corpo Místico, de que é a Eucaristia símbolo e centro vital; imitem n'Ela o modelo mais perfeito da união com Jesus, nossa Cabeça; a Ela se unam na oferta da Vítima divina, e da sua maternal intercessão implorem, para a Igreja, os dons da unidade e da paz, sobretudo mais viçoso e fiel florescer de vocações sacerdotais. Deste modo, a consagração tornar-se-á motivo de empenho cada vez mais sério na prática das virtudes cristãs, que é defesa eficacíssima contra os males que as ameaçam e fonte de prosperidade mesmo temporal, segundo as promessas de Cristo" (João XXIII).

Tudo quanto, há vinte anos, foi expresso no ato de consagração a Maria, realizado pelos Pastores da Igreja italiana, hoje desejo eu não só recordar, mas também, com todo o coração, repetir, renovar e fazer propriedade minha, em certo modo, já que, em virtude dos imperscrutáveis decretos da Providência, me tocou aceitar o património dos Bispos de Roma na Sé de São Pedro.

7. E faço-o com a mais profunda convicção da fé, da inteligência e do coração juntamente. Porque na nossa difícil época, e também nos tempos que virão, só pode salvar o homem o verdadeiro e grande Amor.

Só graças a ele esta terra, habitação da humanidade, pode tornar-se uma casa: a casa das famílias. a casa das nações e a casa da humanidade inteira. Sem amor, sem o grande e verdadeiro Amor, não há casa para o homem na terra. O homem seria condenado a viver privado de tudo, mesmo que erguesse os mais esplêndidos edifícios e os mobilasse o mais modernamente possível.

Aceitai, ó Senhora de Loreto, ó Mãe da Casa de Nazaré, esta minha e nossa peregrinação, que é grande oração comum pela casa do homem da nossa época: pela casa que prepara os filhos da terra inteira para a eterna casa do Pai, no céu. Ámen.

100.000 acessos

Chegamos hoje a 100.000 acessos. Sei, tem gente com 100.000 acessos por dia, mas, enfim, vale anotar o número. Só nos cabe agradecer a audiência e lembrar que estamos cumprindo a nossa missão de propagar os ensinamentos da Igreja, a Palavra de Deus e o exemplo dos santos.


4 de set. de 2012

Sobre as orações (Compêndio da Doutrina Católica)


Que outra oração costumamos dizer depois do Pai Nosso?
- A Ave maria, com a qual recorrermos à Virgem Santíssima.

Por que razão depois do Pai Nosso rezamos mais vezes a Ave Maria do que qualquer outra oração?
- Porque a Virgem Santíssima é a mais poderosa advogada para com seu Filho Jesus Cristo; e por isso depois de rezarmos a Oração que nos ensinou o mesmo Senhor, rogamos à Virgem Santíssima, que nos alcance as graças que a Ele tínhamos pedido.

Repete essa oração:
- Ave Maria cheia de graças, o Senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres; bendito é o fruto do teu ventre Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém.

É bom e proveitoso pedirmos também aos outros santos?
- É coisa utilíssima e o deve fazer todo cristão. Devemos particularmente orar aos nossos Santos Anjos da Guarda, aos santos, especialmente de quem temos o nome, e aos protetores do bispado e da freguesia* (cidade).

Em que se diferem as orações que fazemos a Deus das que fazemos aos Santos?
- Em que nós rogamos a Deus, que nos dê os bens e nos livre dos males, e aos Santos lhes pedimos que roguem e intercedem por nós.

Que queremos dizer, quando dizemos que tal Santo fez aquela graça?
- Que aquele Santo alcançou de Deus aquela graça.

Com que oração haveis de implorar a proteção do Anjo da Guarda?
- Com aquela que comumente chamamos de Angele Dei.

Dizei em língua portuguesa?
- Anjo do Senhor, que foste dado para minha guarda por ordem da piedosa providência de meu Deus, guardai-me nesse dia, ilustrai o meu entendimento, dirigi os meus afetos e governai os meus sentidos para não ofender ao meu Senhor. Amém.

Que outro objetivo tendes em dizer esta oração?
- De render as graças ao anjo da guarda pelo amoroso cuidado, que continuamente tem de mim. 

NT: A versão mais popular do Angele Dei no Brasil é diferente: Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa me ilumina. Amém

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

3 de set. de 2012

A cura de traumas sexuais com a ajuda dos santos

Acabei de ler um livro muito interessante, entitulado My Peace I Give You - Healing Sexual Wounds with the Help of the Saints (Minha paz vos dou - curando traumas sexuais coma ajuda dos santos), escrito por Dawn Eden. A autora sofreu abusos sexuais quando criança, primeiro de uma pessoa que cuidava das crianças enquanto havia uma celebração na sinagoga quea família participava, depois por parte de um namorado da mãe. Ela conta que começou a mudar de rumo quando percebeu que nós católicos temos uma mãe que nos ama e ao conhecer o exemplo de muitos santos. 

No processo de cura, o primeiro ponto é a memória, as lembranças dos fatos ocorridos, que ficam a perturbar a existência. Uma oração de Santo Inácio de Loyola pode ser de grande ajuda:

Recebe, ó Senhor, toda minha liberdade, minha memória, compreensão e desejos. Qualquer coisa que eu tenha ou possua poss ser retirado de mim. Eu dou de volta para Ti e me rendo completamente para ser governado por Tua Vontade. Dê-me seu Amor e Graça e já serei rico o suficiente, não pedirei nada mais.

Após oferecer sua liberdade, Santo Inácio oferece a sua memória, que no sentido mais amplo inclui tudo aquilo que recebemos pelos nossos sentidos, tenhamos ou não consciência. Isto é especialmente importante quanto referimo-nos a traumas, de qualquer tipo, pois o cérebro faz um esforço organizado não lembrar-se dos fatos, mantê-los no inconsciente, mas ainda assim eles afetam a vida da pessoa. 

Oferecer a memória para Deus significa que o santo entende que fatos passados não podem ser alterados, mas há esperança que Deus, por seu amor, pode alterar completamente a forma como compreendemos. Memórias não são, nem devem ser inimigos. Como disse o Papa Bento XVI: Memória e esperança são inseparáveis. Envenenar o passado não nos dá esperança, apenas destrói os fundamentos emocionais da pessoa.

E então vem um segundo ponto importante: pedir a Deus que purifique a memória, cure os traumas do passado, não requer, necessariamente, trazer todos fatos para o nível consciente, mas sim oferecer para Deus aqueles fatos que forem lembrados. Deus é poderoso suficiente para curar todos fatos, os conscientes e os inconscientes. Alguns fatos são tão perturbadores que sua simples lembrança coloca a pessoa num estado em que não consegue perceber o amor o Deus

Outro ponto fundamental é resgatar as boas lembranças associadas à época do trauma. No caso da autora, as noites de Páscoa, com a família reunida, a atenção às crianças e a lembrança dos judeus sendo resgatados da escravidão no Egito eram momentos especiais. Estas lembranças sãi importantes para purificar a memória, ver que mesmo na tristeza há um fio de esperança. Como lembra Santa Baquita, que de tão traumatizada esqueceu seu próprio nome, quão deslubrantes e felizes eram os dias e noites na África: Vendo o sol, a lua, as estrelas, estas maravilhas, diz para mim: quem criou estas maravilhas? Ainda quero encontrá-lo para agradecer

Enquanto lia o livro, muitas vezes lembrei de pessoas que destruiam seu passado, presente e futuro apenas criticando pais, mães e ex-maridos, ou seja, envenenando seu passado, tirando a esperança do seu próprio futuro, inclusive dos seus filhos, como adverte o Papa. Hoje, depois do livro, eu pediria para lembrar alguns fatos bons da mesma época, se possível com a mesma pessoa. Acho que ajudaria a lembrar que todos somos humanos, com virtudes e pecados. 

Não vou alongar, muito, o livro é bastante interessante. Espero que um dia seja publicado em português. A autora tem outro entitulado A aventura da castidade, já traduzido para espanhol. Mantém um blog, cujo endereço é http://dawneden.blogspot.com/ . 




1 de set. de 2012

O Senhor se compadeceu de nós


Felizes de nós, se o que ouvimos e cantamos também executamos. A audição é nossa semeadura, e nossos atos, frutos da semente. Disse isto de antemão para exortar vossa caridade a não entrardes sem fruto na igreja, ouvindo tantas coisas boas sem realizá-las. Porque por sua graça fomos salvos, assim diz o Apóstolo, não por nossas obras, não aconteça alguém se ensoberbecer (Ef 2,8-9) pois por sua graça fomos salvos (Ef 2,5). Pois não precedeu nenhuma vida virtuosa que Deus pudesse amar e dizer: “Ajudemos, socorramos estes homens porque vivem bem”. Desagradava-lhe nossa vida, desagradava-lhe em nós tudo o que fazíamos, mas não lhe desagradava o que ele mesmo fez em nós. Por isto, o que nós fizemos, ele o condenará; o que ele próprio fez, ele o salvará.

Não éramos bons. Mas ele se compadeceu de nós e enviou seu Filho para morrer não pelos bons, mas pelos maus, não pelos justos, mas pelos ímpios. Na verdade Cristo morreu pelos ímpios (Rm 5,6). E como continua? Mal se encontra alguém que morra por um justo, pois talvez alguém se atreva a morrer por um bom (Rm 5,7). Quiçá haja alguém que ouse morrer por um bom. Mas pelo injusto, pelo ímpio, pelo iníquo, quem quererá morrer? Só Cristo, para que, justo, justifique até mesmo os injustos.

Não tínhamos, meus irmãos, nenhuma obra boa, mas todas eram más. E sendo tais os atos dos homens, sua misericórdia não abandonou os homens. Deus enviou seu Filho, para remir-nos, não por ouro, não por prata, mas ao preço de seu sangue derramado, cordeiro imaculado levado como vítima pelas ovelhas maculadas, se é que só maculadas e não totalmente corrompidas! Recebemos então esta graça. Vivamos de modo digno dessa graça e não façamos injúria à grandeza do dom que recebemos. Tão grande médico veio a nós e perdoou todos os nossos pecados. Se quisermos recair na doença, não só nos prejudicaremos a nós mesmos, mas seremos ingratos ao próprio médico.

 Sigamos os caminhos que ele próprio indicou, muito em especial a via da humildade, via que ele mesmo se fez por nós. Mostrou-nos pelos preceitos o caminho da humildade e criou-o padecendo por nós. Com o intuito de morrer por nós – e sem poder morrer – o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), para poder morrer por nós, aquele que não podia morrer. E com sua morte matar nossa morte.

Fez isto o Senhor, isto nos concedeu. O excelso humilhou-se, humilhado foi morto e, ressurgindo, foi exaltado, a fim de não nos deixar mortos nas profundezas, mas de exaltar em si na ressurreição dos mortos aqueles que já agora exaltou pela fé e o testemunho dos justos. Deu-nos então a humildade como caminho. Se nos agarrarmos a ela, confessaremos o Senhor e com toda razão cantaremos: Nós te confessaremos, Senhor, confessaremos e invocaremos teu nome (Sl 74,2).

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

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