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8 de nov. de 2014

Dedicação da Basílica do Latrão - Domingo 09/11/2014

 Evangelho (Jo 2,13-22)
13Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 17Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” 19Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”.20Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” 21Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.
Comentário:
Unindo-se à Igreja de Roma,as igrejas de todo mundo lhe reconhecem a presidência; a ela estamos todos ligados. A Basílica de Latrão foi muitos séculos a sede papado, foi a primeira catedral do mundo, nela se realizaram as sessões de cinco concílios ecumênicos. Cada igreja-edifício reflete a imagem da comunidade que a projetou, segundo as possibilidades do tempo. Mas acima de tudo, cada uma deve refletir a Cristo, pedra angular da sua Igreja (1Pd 2,49).
Neste Evangelho Jesus utiliza a palavra "corpo"além do sentido natural, o único entendido inicialmente por quem o ouvia. Surge daí um mal-entendido que dá a Cristo oportunidade de desenvolver seu pensamento e anunciar, ainda que veladamente, a ressurreição e salvação da humanidade. 
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 69, 8-10
  • Isaias 28, 14-16
  • Ezequiel 47, 1-12
  • Zacarias 14, 21-23
Evangelhos
  • Mateus 21, 12-17
  • Mateus 26, 59-68
  • Mateus 28, 1-8
  • Lucas 19, 45-48
Livros Apostólicos
  • 1 Coríntios 3, 9-17

19 de jul. de 2014

Sobre Bispos, Arcebispos e Cardeais

Existe alguma diferença entre bispos, arcebispos e cardeais? Ou cardeais "mandam" nos arcebispos, que "mandam" nos bispos, e claro, quem sofre são os padres? Há algum tempo atrás me fizeram estas perguntas, que respondi da melhor maneira possível, ali no improviso. Agora vai uma resposta melhor estruturada, que segue.


Cada centímetro deste planeta, se foi evangelizado e tem uma presença católica estabelecida, está organizado em dioceses, também conhecidas como "igrejas particulares", confiadas a seus Bispos (canon 369). Apenas Roma tem a autoridade para criar e determinar os limites de uma diocese (canon 373). Todo católico deve conhecer, ou pelo menos deveria, o seu Bispo, afinal ao Bispo está submisso.



O que a maioria não sabe é que dioceses estão agrupadas em províncias eclesiásticas (canon 431) com objetivo de atuarem de maneira integrada e coerente em uma mesma região (estado, país). Como regra, não deve haver dioceses "isentas", todas devem estar integradas em alguma província eclesiástica. Ou seja, nenhuma diocese é uma ilha, comunicando-se apenas e diretamente com Roma, todas devem compartilhar algumas idéias com suas vizinhas. O mapa ao lado mostra as atuais 41 provincias eclesiásticas no Brasil, que agrupam 214 dioceses.

Esta divisão explica por que falamos no Arcebispo de Porto Alegre e Bispo de Osório, pois a Diocese de Osório é parte da província elesiástica de Porto Alegre. Comparando, é como as cidades que compõem o estado. 

Quando o Papa decide que um padre pode tornar-se Bispo, ele é escolhido para ser um dos sucessores dos Apóstolos (canon 375). Como padre, ele já foi ordenado, mas para tornar-se Bispo, deve receber a consagração episcopal em uma cerimônia apropriada. Não é o anúncio pelo Vaticano que torna o padre um Bispo, mas sim receber as "ordens superiores", que lhe conferem alguns poderes sacramentais adicionais: conferir o sacramento do Crisma (Confirmação); ordenar diáconos e padres; e ordenar outros bispos (na sucessão apostólica). Há, portanto, uma diferença importante, sacramental, entre padres e bispos. 

Já Cardeais são outra história! Alguns Bispos e Arcebispos são chamados de Cardeais por um motivo não relacionado a divisão geográfica, nem há diferença sacramental entre um Bispo e um Cardeal. Cardeais são aqueles que aconselham e auxiliam o Papa nos assuntos da Igreja, por isto é importante que estejam próximos ao Papa. Com os meios de comunicação atuais, não há tanta necessidade dos Cardeais residirem em Roma, mas eles são chamados a reuniões frequentes, chamadas "Consistórios". Por exemplo, em Outubro haverá um Consistório para tratar de assuntos relacionados à família. Outro momento decisivo na vida dos Cardeais é escolher o próximo Papa, quando o anterior morre. 

Juridicamente, para tornar-se um Cardeal, não é necessário ser Bispo ou Arcebispo. Ao longo dos séculos já houveram vários casos de diáconos e padres que tornaram-se Cardeais. Historicamente, os Papas tendem a colocar seus conselheiros mais próximos em dioceses mais importantes, onde podem exercer uma maior influência, e assim, transmitir as decisões do Papa, que eles mesmos aconselharam, de maneira mais fiel e visível. Assim, as Arquidioceses de cidades mais importantes, como São Paulo e Rio de Janeiro, são normalmente comandadas por um Cardeal. 

Resumindo, a Igreja está dividida em regiões geográficas chamadas dioceses. Cada diocese é administrada por um Bispo. Dioceses são agrupadas em províncias, administradas por Arcebispos. Alguns Bispos e Arcebispos podem ser chamados a serem conselheiros do Papa, ou seja, Cardeais. 

-- autoria própria

10 de mar. de 2013

Como será o conclave


* todos horários citados são os de Roma. Brasilia, São Paulo, Rio de Janeiro estão 4 horas atrás; Nova Iorque e Washington, 5 horas atrás. 

O conclave iniciará nesta terça-feira, quando às 3:45 da tarde os cardeais sairão da Casa Domus Santa Marta para o Palácio Apostólico. As 4:30 entrarão na Capela Sistina em procissão, farão um juramento e o Mestre de Cerimônias promulgará a ordem "Extra omnes", para que todos não participantes diretos do Conclave retirem-se. Cardeal Grech fará uma meditação sobre a grave incubência dos cardeais e a necessidade de agirem com reta intenção para o bem da Igreja Universal. Após, ocorrerá a primeira votação. As 7:00 celebrarão as Vésperas e, após, retornarão à Domus Santa Marta.

Iniciando na quarta-feira, 13 de Março, o dia de atividades iniciará com a celebração de uma Santa Missa às 8:15. Os cardeais devem entrar na Capela Sistina às 9:30, rezar a Liturgia das Horas e iniciar o processo de votação. Em torno de meio-dia há uma pausa para almoço e retorno à Capela Sistina às 4:00, uma breve oração e votações. 

São previstas duas votações pela manhã, duas pela tarde. Os votos são queimados ao final de cada sessão ou imediatamente após a eleição do Papa, ou seja, se na primeira votação o Papa for eleito, veremos a fumaça branca. Em caso contrário, podemos esperar fumaça negra em torno do meio-dia e 7:00 da noite. Se até sexta-feira à noite o Papa ainda não tiver sido eleito, o Sábado será reservado para um dia de orações. 

Tendo por base o histórico dos últimos conclaves, é razoável esperar que o Papa seja eleito a partir de quarta-feira, sendo quinta-feira o dia mais provável. Os fiéis podem e devem participar de maneira indireta, através de orações e jejuns em favor da uma eleição inspirada pelo Espírito Santo, para o bem de toda Igreja. 

Os últimos 11 conclaves

Apenas para termos um mínimo de referência histórica, vejamos os dados básicos dos últimos 11 conclaves para eleição de um Papa, a iniciar pelos mais recentes.

1. Bento XVI, 2005 - 115 eleitores - 4 votações - 18 e 19 de Abril
2. João Paulo II, 1978 - 111 eleitores - 8 votações - 14 a 16 de Outubro
3. João Paulo I, 1978 - 111 eleitores - 4 votações - 25 e 26 de Agosto
4. Paulo VI, 1963 - 80 eleitores - 6 votações - 19 a 21 de Junho
5. João XXIII, 1958 - 51 eleitores - 11 votações - 25 a 28 de Outubro
6. Pio XII, 1939 - 62 eleitores - 3 votações - 1 e 2 de Março
7. Pio XI, 1922 - 53 eleitores - 14 votações - 2 a 6 de Fevereiro
8. Bento XV, 1914 - 57 eleitores - 10 votações - 31 de Agosto a 3 de Setembro
9. Pio X, 1903 - 64 eleitores - 7 votações - 31 de Julho a 4 de Agosto
10. Leão XII, 1878 - 50 eleitores - 18 a 21 de Fevereiro
11. Pio IX, 1846 - 50 eleitores - 14 a 16 de Junho

Os conclaves anteriores, com regras totalmente diferentes, tendiam a durar semanas, qualquer comparação é quase irrelevante.


28 de set. de 2012

Castelo de Sant'Angelo - Roma

Castelo de Sant'Angelo. No topo está a imagem de São Miguel

No ano de 590 uma grande praga estava a matar muitíssimas pessoas em Roma. Os cristãos, em desespero, colocaram um ídolo no altar da Igreja de Santa Ágata. O Papa Gregório teve uma visão e organizou uma procissão pela cidade até a Igreja. Ao entrarem na Igreja, o ídolo caiu no chão, desfazendo-se em muitos pedaços. No retorno da procissão até o Vaticano, após atravessarem a Ponte Aelia, o Papa avistou São Miguel sobre um castelo, cuja espada pingando sangue apontava sobre a cidade, colocando-a na bainha da cintura. Conta-se que a praga afastou-se e ninguém mais caiu doente ou morreu.  
A imagem de São Miguel, obra do escultor
Peter Anton von Verschaffelt.

O Castelo foi aprimorado pelo Papa Nicolau III no século 14, quando foi conectado por um corredor à residência dos papas. Em 1527, quando o Rei Carlos V invadiu Roma, o Papa Clemente VII refugiou-se no castelo. Em 1667, o Papa Clemente IX fez colocar uma imagemd e São Miguel no alto do prédio, de modo que quem estiver atravessando a ponte, veja a imagem de frente. 

Ao longo dos séculos, o Castelo nunca foi derrotado. No século XIX foi utilizado como prisão. Restaurado no início do século XX, hoje é um museu bastante interessante. 

* 29 de Setembro é Festa dos Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel. O texto litúrgico é de São Gregório Magno.

12 de set. de 2012

O bispo de Roma, centro da unidade visível

Centro e sustentáculo de toda a unidade visível da Igreja católica é o bispo de Roma, como sucessor de São Pedro e vigário de Jesus Cristo. As afirmações de São Leão outra coisa não são senão o eco fidelíssimo dos textos evangélicos e da perene tradição católica, como ressalta do passo seguinte: "Em todo o mundo só Pedro é eleito, para ser preposto à evangelização de todas as nações, a todos os apóstolos e a todos os Padres da Igreja; de modo que, embora no meio do povo de Deus haja muitos pastores e muitos sacerdotes, todos porém são governados propriamente por Pedro, como principalmente são governados por Cristo. De maneira grande e admirável, ó diletíssimos, Deus se dignou fazer este homem participante do seu poder; e, se quis que também os outros chefes tivessem algo de comum com ele, tudo o que concedeu aos outros sempre o concedeu por meio dele". Sobre esta verdade, que é fundamental para a unidade católica, isto é, a verdade do vínculo divino, indissolúvel entre o poder de Pedro e o dos outros apóstolos, São Leão julga oportuno insistir: "Certamente também aos outros apóstolos estendeu-se esse poder (isto é, de desligar e ligar] e foi transmitido a todos os chefes da Igreja; mas não é em vão que se recomenda a uma só pessoa aquilo que a todos os outros deve ser comunicado. Com efeito, este poder é confiado singularmente a Pedro, justamente porque a figura de Pedro está acima de todos aqueles que governam a Igreja".


Mas o santo pontífice não esquece o outro vínculo essencial da unidade visível da Igreja, isto é, o magistério supremo e infalível, reservado pelo Senhor pessoalmente a Pedro e aos seus sucessores: "O Senhor toma cuidado, de modo especial, de Pedro, e roga em particular pela fé de Pedro, como que se a perseverança dos outros estivesse mais garantida se o ânimo do chefe não fosse vencido. Em Pedro, por isso, a fortaleza de todos é protegida, e o auxílio da graça divina segue esta ordem: a firmeza que a Pedro é dada por meio de Cristo é conferida aos apóstolos através de Pedro".

Tudo o que com tanta clareza e insistência São Leão afirma a respeito de São Pedro assevera-o também de si mesmo, não por estímulo de ambição humana, mas pela íntima persuasão que ele tem de si não menos que o príncipe dos apóstolos, ser o vigário do próprio Jesus Cristo, como se depreende deste trecho dos seus sermões: "Não é para nós motivo de orgulho a solenidade com que, cheio da gratidão a Deus pelo seu dom, festejamos o aniversário do nosso sacerdócio; porquanto com toda sinceridade confessamos que todo o bem por nós praticado no desenvolvimento do nosso ministério é obra de Cristo; e não de nós, que nada podemos sem ele, mas que dele nos gloriamos, de quem deriva toda a eficácia do nosso operar"

Com isto, longe de pensar que já agora São Pedro seja estranho ao governo da Igreja, São Leão, pelo contrário, gosta de associar à confiança na perene assistência do seu divino Fundador a confiança na proteção de São Pedro, de quem se professa herdeiro e sucessor, "substituindo-o no encargo". Por isto, aos méritos do apóstolo, mais do que aos seus, atribui ele os frutos do seu ministério universal. O que, entre outras coisas, é claramente provado pela seguinte expressão: "Portanto, se algo de bom operamos ou vemos, se algo obtemos da misericórdia de Deus com as nossas orações cotidianas, isto se deve às obras e aos méritos dele; na sua Sé perdura ainda o seu poder, domina a sua autoridade"

Na realidade, São Leão não ensina nada de novo. Igualmente aos seus predecessores Santo Inocêncio I e São Bonifácio I, e em perfeita harmonia com os bem conhecidos textos evangélicos, por ele mesmo comentados (Mt 16, 17-18; Lc 22, 31-32; Jo 21, 15-17), ele está convencido de haver recebido do próprio Cristo o mandato do supremo ministério pastoral. Afirma, com efeito: "A solicitude que devemos ter para com todas as Igrejas tem origem principalmente num mandato divino".

-- Carta Encíclica Aeterna Dei Sapientia, do Papa João XXIII, publicada em 11 de Novembro de 1961 - na ocasião dos 1500 anos de falecimento do de São Leão Magno.

13 de jul. de 2012

O nono artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que nos ensina o nono artigo: Creio na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos?
- Que é necessário crer na Santa Igreja Católica e reconhecer a união que há entre todos os membros da Igreja.

O que é Igreja Católica?
- Uma congregação de todos os fiéis que professam a fé e lei de Jesus Cristo, sob o governo dos legítimos pastores e obediência ao Pontífice Romano.

Esta congegação, quem tem por cabeça?
- Tem por sua cabeça invisível Jesus Cristo no céu e por sua cabeça visível na Terra o Romano Pontífice, Vigário de Jesus Cristo.

Porque chama-se "santa" esta Igreja?
- Porque a cabeça, Jesus Cristo, é santa; e tem muitos membros santos; tem a fé, a lei e os santos sacramentos.

O que quer dizer "católica"?
- Quer dizer universal.

E que quer dizer "universal"?
- Significa que a Igreja compreende os fiéis de todos os tempos, todos os lugares, de toda e qualquer idade e qualidade.

Porque logo depois do artigo sobre o Espírito Santo fala-se da Igreja?
- Para mostrar que toda santidade da Igreja provêm do Espírito Santo, que é autor de toda santidade.

O que quer dizer "comunhão dos santos"?
- Refere-se a participação nas orações e boas obras realizadas na mesma Igreja.

E participam deste bem espiritual os gentios, hebreus, hereges, cismáticos, apóstatas e excomungados?
- Não participam porque estão fora da Igreja.

Esta comunicação dos santos se estende também ao céu e ao purgatório?
- Sim, porque os santos rogam a Deus por nós e pelas almas do purgatório; e nós podemos aliviar as mesmas almas com orações, esmolas e outras boas obras.

 -- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)
Outros artigos do Creio:
  • Primeiro artigo: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
  • Segundo artigo: e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
  • Terceiro artigo: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
  • Quarto artigo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  • Quinto artigo: desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
  • Sexto artigo: subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
  • Sétimo artigode onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  • Oitavo artigo Creio no Espírito Santo


18 de jul. de 2011

Bula Unan Sanctam

Papa Bonifácio VIII governou a Igreja de 24 de
Dezembro de 1294 até a sua morte em 11 de
Outubro de 1303.
Urgidos pela fé, somos obrigados a acreditar e manter que a Igreja é única, santa, católica e também apostólica. Nós acreditamos com firmeza e confessamos com simplicidade que fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o Esposo no Cântico: "Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou" (Ct 6,9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo. Nela existe "um só Senhor, uma só fé e um só batismo" (Ef 4,5). De fato, apenas uma foi a arca de Noé na época do dilúvio; prefigurando uma única Igreja; encerrada com "um côvado" (Gn 6,16), teve um único piloto e um único chefe: Noé. Como lemos, tudo o que existia fora dela, sobre a terra, foi destruído.

Nós veneramos esta Igreja como única, pois o Senhor disse pela boca do profeta: "Salva minha vida da espada, meu único ser, da pata do cão" (Sl 21,21). Ao mesmo tempo que Ele pediu pela alma - ou seja, pela cabeça - também pediu pelo corpo, porque chamou o seu corpo como único, isto é, a Igreja, por causa da unidade da Igreja no seu esposo, na fé, nos sacramentos e na caridade. Ela é a veste sem costura (Jo 19,23) do Salvador, que não foi dividida, mas tirada à sorte. Por isso, esta Igreja, una e única, tem um só corpo e uma só cabeça, e não duas como um monstro: é Cristo e Pedro, vigário de Cristo, e o sucessor de Pedro, conforme o que disse o Senhor ao próprio Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Disse minhas em geral e não esta ou aquela em particular, de forma que se subentende que todas lhe foram confiadas. Assim, se os gregos ou outros dizem que não foram confiados a Pedro e aos seus sucessores, é necessário que reconheçam que não fazem parte das ovelhas de Cristo pois o Senhor disse no evangelho de São João: "Há um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10,16).

As palavras do Evangenho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. A espiritual deve ser manuseada pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual.

De acordo com o Beato Dionísio, é uma lei divina que as coisas mais simples alcancem as mais altas por intermediários. Então, de acordo com a ordem do universo, as coisas não foram consideradas como iguais, mas ordenadas das menores para maiores, das inferiores para superiores. Devemos reconhecer nitidamente que os poderes espirituais ultrapassam os temporais em dignidade e nobreza, pois as coisas espirituais ultrapassam as temporais. Isto vemos claramente pelo pagamento, bendição e consagração do dízimo; também pela cerimônia de aceitação do poder e governo do mundo. 

Pela verdade atestamos que o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: "O homem espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado" (1Cor 2,15).

Esta autoridade, ainda que tenha sido dada a um homem e por ele seja exercida, não é humana, mas de Deus. Foi dada a Pedro pela boca de Deus e fundada para ele e seus sucessores Naquele que ele, a rocha, confessou, quando o Senhor disse a Pedro: "Tudo o que ligares..." (Mt 16,19). Assim, quem resiste a este poder determinado por Deus "resiste à ordem de Deus" (Rm 13,2), a menos que não esteja imaginando dois princípios, como fez Manes, opinião que julgamos falsa e herética, já que, conforme Moisés, não é "nos princípios", mas "no princípio Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1). 

Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.

Dada no Vaticano, no oitavo ano de nosso pontificado [18 de novembro de 1302].

-- Bula Unan Sanctum, Papa Bonifácio VIII

9 de mai. de 2011

As propriedades da Igreja

Santo Urbano I, papa de 222 a 230.
Urbano, bispo, a todos os cristãos: na santificação do Espírito, em obediência e aspersão do Sangue de Cristo nosso Senhor, eu vos saúdo.

Convém a todos os cristãos, meus bem-amados irmãos, imitar Aquele cujo nome receberam. De que serve, irmãos - diz o apóstolo São Tiago - que um homem diga que tem fé, se não tem obras? (Tg 2,14). Irmãos: não queiram ser, muitos de vós, mestres, sabendo que receberão a maior condenação, já que em muitas coisas ofendemos a todos (Tg 3,1-2). Deixai que aquele que é sabio e dotado de sabedoria entre vós, mostre o que ensina em suas ações realizadas com a humildade da sabedoria (Tg 3,13).

I. A vida em comum e a razão pela qual a Igreja começou a possuir propriedades

Sabemos que vocês não ignoram que até hoje em dia o princípio de viver com todas as coisas em comum tem vigorado entre os bons cristãos e, pela graça de Deus, permanece sendo assim, sobretudo entre aqueles que foram escolhidos para a messe do Senhor, isto é, os clérigos, tal como lemos nos Atos dos Apóstolos: "A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma, e ninguém dizia que qualquer coisa que possuía era indigna, mas tinha [essa multidão] todas as coisas em comum. E, com grande vigor, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus e graça abundante havia entre todos eles. Também ninguém entre eles passava por necessidade, pois todos os que possuíam terras ou casas, as vendiam, e traziam o seu valor aos pés dos apóstolos, e a distribuição era feita a cada pessoa segundo suas necessidades. E José, chamado Barnabé pelos apóstolos - o que significa 'filho da consolação' -, um levita natural do Chipre, as vendeu e depositou o seu valor aos pés dos apóstolos" (At 4,32-37); e isso continua assim. E é por isso que os sumos sacerdotes e os demais, os levitas e o resto dos fiéis, perceberam que era mais vantajoso se entregassem às igrejas dirigidas pelos bispos, as heranças e campos que iam vendendo, pois assim poderiam organizar muito melhor a manutenção dos irmãos na fé, e ainda mais com as rendas das propriedades do que com o dinheiro que conseguiriam caso a vendessem; isto vale não apenas para o presente, como também para os tempos futuros, pois se começou a consignar às igrejas-mães a propriedade e as terras que iam vender, passando-se para o modo de viver com as rendas destas.

II. As pessoas e os usos em relação às propriedades eclesiásticas e os invasores destas

Em acréscimo, as propriedades que possuíam várias paróquias foram entregues aos bispos, que mantêm o cargo dos apóstolos. Isto é assim até hoje e deve continuar a ser sempre assim, no futuro. Dessas possessões, os bispos e os fiéis, que são seus administradores, devem satisfazer a todos os que desejam ter vida em comum, gerenciando as necessidades da melhor maneira possível, de tal sorte que ninguém seja encontrado passando necessidade entre eles. Por essa razão, as possessões dos fiéis são também chamadas oblações, pois que são oferecidas ao Senhor. Não devem, pois, ser desviadas para outros usos alheios aos pretendidos pela Igreja, em benefício dos irmãos cristãos anteriormente mencionados e dos pobres, pois estas são as oferendas dos fiéis, dinheiro da recompensa [pela remissão] dos pecados, patrimônio dos pobres doados ao Senhor pelos propósitos já mencionados.
Pieta, de Michelangelo - Basílica do Vaticano
Porém, se alguém agir de outro modo - que Deus não o permita! -, que tome cuidado para não vir a receber a condenação aplicada a Ananias e Safira; culpável de sacrilégio como foram aqueles que mentiram sobre o preço da propriedade, como lemos na passagem citada anteriormente nos Atos dos Apóstolos: Um homem chamado Ananias, com Safira, sua esposa, vendeu sua possessão, porém reteve uma parte do preço com o prévio consentimento de sua esposa; trouxe uma parte e a depositou aos pés dos apóstolos. Entretanto, Pedro disse a Ananias: 'Como Satanás te tentou para mentir ao Espírito Santo, retendo parte do preço da terra? Ficando com ela, não era tua? E depois de vendida, não estava à tua disposição? Por que concebeste isto em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus'. E ouvindo isto, Ananias caiu por terra e expirou. E um grande temor veio sobre todos aqueles que ouviram estas coisas. Logo alguns jovens prepararam o seu corpo e o levaram para fora; e o enterraram. Aproximadamente três horas depois, sua esposa entrou sem saber o que havia acontecido. Pedro lhe perguntou: 'Dize-me: vendestes vós o campo por tal valor?'. Disse ela: 'Sim, pelo valor tal'. Então Pedro lhe disse: 'Como combinastes para tentar o Espírito de Deus? Vêde: os pés daqueles que enterraram o teu marido estão chegando à porta e levarão também a ti'. Nesse mesmo instante, ela caiu aos seus pés e morreu. E os jovens entraram, a encontraram morta e, levando-a, a enterraram ao lado do seu marido. E um grande temor sobreveio a toda a Igreja e a todos que ouviram estas coisas (At. 5,1-11).

Irmãos: devemos guardar cuidadosamente estas coisas; devemos temê-las grandemente, pois a propriedade da Igreja não é propriedade pessoal, mas propriedade comum, propriedade oferecida a Deus; deve, pois, ser distribuída com o mais profundo espírito de temor, em espírito de fidelidade, sem outro motivo que os acima mencionados, para que não incorra em culpa de sacrilégio quem as desviam das mãos para as quais foram consignadas, a não ser que mereça a pena de morte de Ananias e Safira; a não ser que - o que é ainda pior - deva se tornar anátema (vem, Senhor Jesus!); a não ser que, ainda que seu corpo não caia morto como o de Ananias e Safira, sua alma, que é mais valiosa que o corpo, caia morta e seja separada da companhia dos fiéis, sendo atirada nas profundezas do inferno.

Portanto, todos devem prestar atenção a este problema e velar com fidelidade, evitando a desonra de tal usurpação, a não ser que as possessões dedicadas aos usos das coisas sagradas e divinas sejam corrompidas por qualquer grupo que as invada. E se alguém fizer assim, então, após a severa vingança que corresponde a esse crime, o rigor da justiça que deve ser empreendido contra tal sacrílego será o da condenação à infâmia perpétua: será preso ou exilado por toda a sua vida, pois, segundo o Apóstolo (1Cor. 5,5), devemos entregar tal homem a Satã, e deixar que seu espírito seja salvo no dia do Senhor.

III. No que se refere à tentativa de proibir à Igreja o direito de manter propriedades

Assim, pelo crescimento e modo de vida já mencionados, as igrejas dirigidas pelos bispos têm crescido com a ajuda do Senhor e a maior parte delas possui, agora, propriedades; entre elas, não há um só homem que, escolhendo a vida em comum, seja mantido na pobreza, sem que receba todo o necessário do bispo e de seus ministros. Logo, se alguém no presente ou no futuro se levantar contra isto e tentar desviar estas propriedades, deixai que seja afligido pelo Juízo já citado.

-- Da Epístola aos Cristãos, de Santo Urbano, papa (século III)

21 de fev. de 2011

Sermão para a Festa da Cátedra de São Pedro

Dentre todos os homens do mundo, Pedro foi o único escolhido para estar à frente de todos os povos chamados à fé, de todos os apóstolos e de todos os padres da Igreja. Embora no povo de Deus haja muitos sacerdotes e pastores, na verdade, Pedro é o verdadeiro guia de todos aqueles que têm Cristo como chefe supremo. Deus dignou-se conceder a este homem, caríssimos filhos, uma grande e admirável participação no seu poder. E se ele quis que os outros chefes da Igreja tivessem com Pedro algo em comum, foi por intermédio do mesmo Pedro que isso lhes foi concedido.

A Festa da Cátedra de São Pedro é celebrada desde o século
V como sinal da unidade da Igreja, fundada sobre o Apóstolo.
A todos os apóstolos o Senhor pergunta qual a opinião que os homens têm a seu respeito; e a resposta de todos revela de modo unânime as hesitações da ignorância humana.

Mas, quando procura saber o pensamento dos discípulos, o primeiro a reconhecer o Senhor é o primeiro na dignidade apostólica. Tendo ele dito: Tu és Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus lhe respondeu: Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu (Mt 16,16-17). Quer dizer, és feliz, porque o meu Pai te ensinou, e a opinião humana não te iludiu, mas a inspiração do céu te instruiu; não foi um ser humano que me revelou a ti, mas sim aquele de quem sou o Filho unigênito.

Por isso eu te digo, acrescentou, como o Pai te manifestou a minha divindade, também eu te revelo a tua dignidade: Tu és Pedro (Mt 16,18). Isto significa que eu sou a pedra inquebrantável, a pedra principal que de dois povos faço um só (cf. Ef 2,20.14), o fundamento sobre o qual ninguém pode colocar outro. Todavia, tu também és pedra, porque és solidário com a minha força. Desse modo, o poder, que me é próprio por prerrogativa pessoal, te será dado pela participação comigo.

E sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la (Mt 16,18). Sobre esta fortaleza, construirei um templo eterno. A minha Igreja destinada a elevar-se até ao céu deverá apoiar-se sobre a solidez da fé de Pedro.

O poder do inferno não impedirá esse testemunho, os grilhões da morte não o prenderão; porque essa palavra é palavra de vida. E assim como conduz aos céus os que a proclamam, também precipita no inferno os que a negam. Por isso, foi dito a São Pedro: Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra, será desligado nos céus (Mt 16,19).

Na verdade, o direito de exercer esse poder passou também para os outros apóstolos, e o dispositivo desse decreto atingiu todos os príncipes da Igreja. Mas não é sem razão que é confiado a um só o que é comunicado a todos. O poder é dado a Pedro de modo singular, porque a sua dignidade é superior à de todos os que governam a Igreja.

-- Dos Sermões de São Leão Magno, papa (século V)


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