26 de abr. de 2022

O sacramento da unidade e da caridade

A edificação espiritual do corpo de Cristo realiza-se na caridade, segundo as palavras de São Pedro: Como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus, por Jesus Cristo (1Pd 2,5). Esta edificação espiritual atinge sua maior eficácia no momento em que o próprio Corpo do Senhor, que é a Igreja, no sacramento do pão e do cálice, oferece o corpo e o sangue de Cristo: o cálice que bebemos é a comunhão com o sangue de Cristo; e o pão que partimos, é a comunhão com o corpo de Cristo. Porque há um só pão, nós todos participamos desse único pão (cf. 1Cor 10,16-17).

Por isso pedimos que a mesma graça que faz da Igreja o Corpo de Cristo, faça com que todos os membros, unidos pelos laços da caridade, perseverem firmemente na unidade do corpo.

E com razão suplicamos que isto se realize em nós pelo dom daquele Espírito que é ao mesmo tempo o Espírito do Pai e do Filho; porque sendo a Santíssima Trindade, na unidade de natureza, igualdade e amor, o único e verdadeiro Deus, é unânime a ação das três Pessoas divinas na obra santificadora daqueles que adota como filhos.

Eis por que está escrito: O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5,5).

O Espírito Santo, que é unidade do Pai e do Filho, realiza agora naqueles a quem concedeu a graça da adoção divina, transformação idêntica à que realizou naqueles que receberam o mesmo Espírito, conforme lemos no livro dos Atos dos Apóstolos: A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma (At 4,32). Quem fez dessa multidão dos que creram em Deus um só coração e uma só alma, foi aquele Espírito que é unidade do Pai e do Filho e com o Pai e o Filho é um só Deus.

Por isso, o Apóstolo exorta a conservarmos com toda a solicitude esta unidade do espírito no vínculo da paz, quando diz aos efésios: Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: com toda a humildade e mansidão, suportando-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito (Ef 3,1-4).

Deus, com efeito, enquanto conserva na Igreja o amor que ela recebeu pelo Espírito Santo, transforma-a num sacrifício agradável a seus olhos. De modo, que, recebendo continuamente esse dom da caridade espiritual, a Igreja possa sempre se apresentar como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus.

 -- Dos “Livros a Monimo”, de São Fulgêncio, bispo de Ruspe (século VI)

23 de abr. de 2022

Homilia da Canonização de Irmã Faustina Kowalska

 


 1. "Confitemini Domino quoniam bonus, quoniam in aeternum misericordia eius".

"Louvai o Senhor, porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor" (Sl 118, 1). Assim canta a Igreja na Oitava de Páscoa, como que recolhendo dos lábios de Cristo estas palavras do Salmo, dos lábios de Cristo ressuscitado, que no Cenáculo traz o grande anúncio da misericórdia divina e confia aos apóstolos o seu ministério: "A paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós... Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 21-23).

Antes de pronunciar estas palavras, Jesus mostra as mãos e o lado. Isto é, indica as feridas da Paixão, sobretudo a chaga do coração, fonte onde nasce a grande onda de misericórdia que inunda a humanidade. Daquele Coração a Irmã Faustina Kowalska, a Beata a quem de agora em diante chamaremos Santa, verá partir dois fachos de luz que iluminam o mundo: "Os dois raios, explicou-lhe certa vez o próprio Jesus representam o sangue e a água" (Diário, Libreria Editrice Vaticana, pág. 132).

2. Sangue e água! O pensamento corre rumo ao testemunho do evangelista João que, quando um soldado no Calvário atingiu com a lança o lado de Cristo, vê jorrar dali "sangue e água" (cf. Jo 19, 34). E se o sangue evoca o sacrifício da cruz e o dom eucarístico, a água, na simbologia joanina, recorda não só o baptismo, mas também o dom do Espírito Santo (cf. Jo 3, 5; 4, 14; 7, 37-39).

A misericórdia divina atinge os homens através do Coração de Cristo crucificado: "Minha filha, dize que sou o Amor e a Misericórdia em pessoa", pedirá Jesus à Irmã Faustina (Diário, pág. 374). Cristo derrama esta misericórdia sobre a humanidade mediante o envio do Espírito que, na Trindade, é a Pessoa-Amor. E porventura não é a misericórdia o "segundo nome" do amor (cf. Dives in misericordia, 7), cultuado no seu aspecto mais profundo e terno, na sua atitude de cuidar de toda a necessidade, sobretudo na sua imensa capacidade de perdão?

É deveras grande a minha alegria, ao propor hoje à Igreja inteira, como dom de Deus para o nosso tempo, a vida e o testemunho da Irmã Faustina Kowalska. Pela divina Providência a vida desta humilde filha da Polónia esteve completamente ligada à história do século XX, que há pouco deixámos atrás. De facto, foi entre a primeira e a segunda guerra mundial que Cristo lhe confiou a sua mensagem de misericórdia. Aqueles que recordam, que foram testemunhas e participantes nos eventos daqueles anos e nos horríveis sofrimentos que daí derivaram para milhões de homens, bem sabem que a mensagem da misericórdia é necessária.

Jesus disse à Irmã Faustina: "A humanidade não encontrará paz, enquanto não se voltar com confiança para a misericórdia divina" (Diário, pág. 132). Através da obra da religiosa polaca, esta mensagem esteve sempre unida ao século XX, último do segundo milénio e ponte para o terceiro. Não é uma mensagem nova, mas pode-se considerar um dom de especial iluminação, que nos ajuda a reviver de maneira mais intensa o Evangelho da Páscoa, para o oferecer como um raio de luz aos homens e às mulheres do nosso tempo.

3. O que nos trarão os anos que estão diante de nós? Como será o futuro do homem sobre a terra? A nós não é dado sabê-lo. Contudo, é certo que ao lado de novos progressos não faltarão, infelizmente, experiências dolorosas. Mas a luz da misericórdia divina, que o Senhor quis como que entregar de novo ao mundo através do carisma da Irmã Faustina, iluminará o caminho dos homens do terceiro milénio.

Assim como os Apóstolos outrora, é necessário porém que também a humanidade de hoje acolha no cenáculo da história Cristo ressuscitado, que mostra as feridas da sua crucifixão e repete: A paz seja convosco! É preciso que a humanidade se deixe atingir e penetrar pelo Espírito que Cristo ressuscitado lhe dá. É o Espírito que cura as feridas do coração, abate as barreiras que nos separam de Deus e nos dividem entre nós, restitui ao mesmo tempo a alegria do amor do Pai e a da unidade fraterna.

4. É importante, então, que acolhamos inteiramente a mensagem que nos vem da palavra de Deus neste segundo Domingo de Páscoa, que de agora em diante na Igreja inteira tomará o nome de "Domingo da Divina Misericórdia". Nas diversas leituras, a liturgia parece traçar o caminho da misericórdia que, enquanto reconstrói a relação de cada um com Deus, suscita também entre os homens novas relações de solidariedade fraterna. Cristo ensinou-nos que "o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a "ter misericórdia" para com os demais. "Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia" (Mt 5, 7)" (Dives in misericordia, 14). Depois, Ele indicou-nos as múltiplas vias da misericórdia, que não só perdoa os pecados, mas vai também ao encontro de todas as necessidades dos homens. Jesus inclinou-se sobre toda a miséria humana, material e espiritual.

A sua mensagem de misericórdia continua a alcançar-nos através do gesto das suas mãos estendidas rumo ao homem que sofre. Foi assim que O viu e testemunhou aos homens de todos os continentes a Irmã Faustina que, escondida no convento de Lagiewniki em Cracóvia, fez da sua existência um cântico à misericórdia: Misericordias Domini in aeternum cantabo.

5. A canonização da Irmã Faustina tem uma eloquência particular: mediante este acto quero hoje transmitir esta mensagem ao novo milénio. Transmito-a a todos os homens para que aprendam a conhecer sempre melhor o verdadeiro rosto de Deus e o genuíno rosto dos irmãos.

Amor a Deus e amor aos irmãos são de facto inseparáveis, como nos recordou a primeira Carta de João: "Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e guardamos os Seus mandamentos" (5, 2). O Apóstolo recorda-nos nisto a verdade do amor, indicando-nos na observância dos mandamentos a medida e o critério.

Com efeito, não é fácil amar com um amor profundo, feito de autêntico dom de si. Aprende-se este amor na escola de Deus, no calor da sua caridade. Ao fixarmos o olhar n'Ele, ao sintonizarmo-nos com o seu coração de Pai, tornamo-nos capazes de olhar os irmãos com olhos novos, em atitude de gratuidade e partilha, de generosidade e perdão. Tudo isto é misericórdia!

Na medida em que a humanidade souber aprender o segredo deste olhar misericordioso, manifesta-se como perspectiva realizável o quadro ideal, proposto na primeira leitura: "A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia mas, entre eles, tudo era comum" (Act 4, 32). Aqui a misericórdia do coração tornou-se também estilo de relações, projecto de comunidade, partilha de bens. Aqui floresceram as "obras da misericórdia", espirituais e corporais. Aqui a misericórdia tornou-se um concreto fazer-se "próximo" dos irmãos mais indigentes.

6. A Irmã Faustina Kowalska deixou escrito no seu Diário: "Sinto uma tristeza profunda, quando observo os sofrimentos do próximo. Todas as dores do próximo se repercutem no meu coração; trago no meu coração as suas angústias, de tal modo que me abatem também fisicamente.

Desejaria que todos os sofrimentos caíssem sobre mim, para dar alívio ao próximo" (pág. 365). Eis a que ponto de partilha conduz o amor, quando é medido segundo o amor de Deus!

É neste amor que a humanidade de hoje se deve inspirar, para enfrentar a crise de sentido, os desafios das mais diversas necessidades, sobretudo a exigência de salvaguardar a dignidade de cada pessoa humana. A mensagem de misericórdia divina é assim, implicitamente, também uma mensagem sobre o valor de todo o homem. Toda a pessoa é preciosa aos olhos de Deus; Cristo deu a vida por cada um; o Pai dá o seu Espírito a todos, oferecendo-lhes o acesso à Sua intimidade.

7. Esta mensagem consoladora dirige-se sobretudo a quem, afligido por uma provação particularmente dura ou esmagado pelo peso dos pecados cometidos, perdeu toda a confiança na vida e se sente tentado a ceder ao desespero. Apresenta-se-lhe o rosto suave de Cristo, chegando-lhe aqueles raios que partem do seu Coração e iluminam, aquecem e indicam o caminho, e infundem esperança. Quantas almas já foram consoladas pela invocação "Jesus, confio em Ti", que a Providência sugeriu através da Irmã Faustina! Este simples acto de abandono a Jesus dissipa as nuvens mais densas e faz chegar um raio de luz à vida de cada um.

"Jezu ufam tobie!"

8. Misericordias Domini in aeternum cantabo (Sl 88 [89], 2). À voz de Maria Santíssima, "Mãe da misericórdia", à voz desta nova Santa, que na Jerusalém celeste canta a misericórdia juntamente com todos os amigos de Deus, unamos também nós, Igreja peregrinante, a nossa voz.

E tu, Faustina, dom de Deus ao nosso tempo, dádiva da terra da Polónia à Igreja inteira, obtém-nos a graça de perceber a profundidade da misericórdia divina, ajuda-nos a torná-la experiência viva e a testemunhá-la aos irmãos! A tua mensagem de luz e de esperança se difunda no mundo inteiro, leve à conversão os pecadores, amenize as rivalidades e os ódios, abra os homens e as nações à prática da fraternidade. Hoje, ao fixarmos contigo o olhar no rosto de Cristo ressuscitado, fazemos nossa a tua súplica de confiante abandono e dizemos com firme esperança:

Jesus Cristo, confio em Ti!

"Jezu, ufam tobie!". 

 -- Papa João Paulo II, 30 de Abril de 2000

19 de abr. de 2022

Eucaristia e a Oração Judaica


O objeto desta catequese mistagógica é a parte central da Missa, a Oração Eucarística, a parte  que inclui a consagração do corpo e sangue de Cristo. Farei dois tipos de observações, uma litúrgica e ritual, outra teológica e existencial.

Do ponto de vista ritual e litúrgico, temos hoje uma fonte que os Padres da Igreja e os doutores medievais não tiveram. A nova fonte é a reaproximação entre cristãos e judeus. Nos primeiros dias da igreja vários fatores históricos acentuaram as diferenças entre Cristianismo e Judaísmo, ao ponto de contrastar um com outro, como fez Santo Inácio de Antioquia. Distinguir-se dos judeus em vários pontos, como a data da Páscoa, dias de jejuns e muitas outras coisas, se tornou um tipo de “moda”. A acusação contra muitos adversários e heréticos naqueles tempos era chamá-los de “judaizantes”.

A tragédia do povo judaico, o Holocausto, e um novo clima de diálogo com o Judaísmo iniciado no Concílio Vaticano II, tornou possível uma melhor compreensão da matriz judaica na Eucaristia. Assim como a Páscoa Cristã não pode ser plenamente compreendida se não for considerada como o cumprimento das profecias da Páscoa Judaica, a Eucaristia também não pode ser compreendida se não for como o cumprimento de tudo o que os judeus fazem e dizem durante a refeição ritual. Um primeiro resultado importante desta mudança é que, hoje em diante, nenhum estudioso sério pode explicar a Eucaristia Cristã como sendo baseada em algum culto misterioso do Helenismo, como foi tentado por algum tempo.

Os Padres da Igreja mantiveram as Escrituras do povo judeu, mas não sua liturgia, já que não mais tinham acesso à ela após a separação entre a Igreja  e a Sinagoga. Eles, então, utilizaram as figuras contidas nas Escrituras, o cordeiro pascal, o sacrifício de Isaac, o de Melquisedec, o maná, mas perderam o contexto litúrgico na qual o povo judaico celebrava estes fatos, em especial, na Páscoa (o Seder) e nas celebrações semanais nas sinagogas. O primeiro nome que designa a Eucaristia no Novo Testamento, como escrito por Paulo, é “refeição do Senhor” (1 Cor 11,20), o que é uma evidente referência à ceia judaica, que agora é diferente pela fé em Jesus. A Eucaristia é um sacramento de continuidade, não de oposição, entre o Velho e Novo Testamento, entre o Judaísmo e o Cristianismo.

A Eucaristia e a Berakah Judaica

Esta é a perspectiva que o Papa Bento XVI apresenta no capítulo sobre a instituição da Eucaristia no seu segundo livro sobre Jesus de Nazaré. Seguindo a opinião prevalente entre os estudiosos, ele aceita a cronologia joanina segundo a qual a Última Ceia não era uma ceia pascal mas uma solenidade de despedida. Citando Louis Bouyer, ele acrescenta que é possível traçar o desenvolvimento da liturgia eucarística cristã, isto é, do cânon, a partir da Berakah (bendição) judaica. 

Por várias razões culturais e históricas, a partir dos tempos medievais, a teologia tem tentado explicar a Eucaristia com base na filosofia, em particular, utilizando as noções aristotélicas de substância e acidente. Isto também era uma maneira de colocar os novos conhecimentos da época a serviço da fé e imitar a mesma metodologia dos Padres da Igreja. Hoje em dia, temos que fazer o mesmo com nosso conhecimento, no nosso caso, com o conhecimento histórico e litúrgico, mais que princípios filosóficos. No contexto de alguns estudos já iniciados por Louis Bouyer, eu gostaria de mostrar como esta luz tem iluminado nossa compreensão da Eucaristia Cristã quando consideramos como os Evangelhos narram a instituição da Eucaristia e o que sabemos sobre rituais judeus. Desta maneira, as inovações de Jesus não são diminuídas, mas ressaltadas.

A ligação entre o velho e o novo rito é dada pela Didaqué, um texto da era apostólica, onde encontramos o primeiro rascunho da anáfora eucarística. O rito da sinagoga era composto de uma série de preces, a Berakah, que, em grego, pode ser traduzido como Eucaristia. No início da refeição, cada um toma o cálice em suas mãos e repete, quase a mesma frase utilizada no ofertório: “Bendito és tu Senhor, nosso Deus, Rei eterno, que nos deu o fruto da vinha”.

Mas a refeição oficialmente iniciava apenas quando o pai da família, ou o líder da comunidade, partia o pão e distribuía entre os presentes. E, de fato, Jesus tomou o pão, recitou a bênção, partiu-o e distribuiu aos apóstolos dizendo: “Este é o meu corpo que eu dou para vós.” E aqui o rito que era apenas preparação, torna-se realidade. A figura torna-se o evento.

Após a benção do pão, os pratos usuais eram servidos. Quando a refeição está próxima do final, todos estão prontos para o grande ritual final que conclui a celebração e lhe dá um sentido mais profundo. Todos lavam suas mãos novamente, pois já haviam feito no início da refeição, então Jesus, tendo um cálice de vinho misturado com água, entoa três orações de agradecimento: a primeira a Deus Criador, a segunda pela libertação do Egito, a terceira porque Deus continua agindo no tempo presente. Após as preces, o cálice passa de mão e mão, e todos bebem. Este rito antigo foi realizado por Jesus muitas vezes, Ele certamente o conhecia muito bem.

Lucas diz que Jesus, após a refeição, toma o cálice e diz: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós” (Lc 22,20). Algo decisivo ocorre neste momento quando Jesus acrescenta suas palavras à tradicional oração de agradecimento, à Berakah judaica. Aquele ritual era uma ceia sagrada na qual o povo celebrava e agradecia a Deus, o seu Salvador, por tê-los salvo e feito uma aliança de amor que fora selada com o sangue de um cordeiro. Agora, naquele exato momento, Jesus anunciou que decidira dar sua vida em nosso favor e declarava que a Velha Aliança que celebravam estava concluída. Naquele momento, com estas simples palavras, Jesus fazia uma nova e eterna Aliança com seu Sangue.

-- Padre Raniero Cantalamessa, Primeira Homília de Quaresma, 18 de Março de 2022 

* esta é a terceira parte de uma série de catequeses dadas pelo Padre Raniero na Quaresma de 2022.  Nos próximos dias publicarei a sequência.

* tradução própria 

* a imagem é o quadro A Ültima Ceia, pintado por Simon Benning, cc 1525. Está exposto no J. Paul Getty Museum, Los Angeles.

11 de abr. de 2022

Eucaristia e a Liturgia da Palavra

Nos primeiros anos da Igreja, a Liturgia da Palavra e a Liturgia da Eucaristia não eram celebradas em conjunto. Os discípulos participavam dos serviços no Templo, ouviam as leituras da Bíblia, recitavam salmos e rezavam juntos com os judeus, depois iam para suas casas onde se reuniam para compartilhar o pão, isto é, celebrar a Eucaristia (Atos 2,46).


No entanto, esta prática logo tornou-se impossível devido à hostilidade da comunidade judaica e porque as Escrituras tinham um novo significado, alinhado aos ensinamentos de Cristo. Então eles pararam de ir ao Templo ou sinagogas para ler e ouvir as Escrituras, tiveram que criar o próprio lugar de oração, ou seja, foi a Liturgia da Palavra que conduziu até a Oração Eucarística. 


No segundo século, São Justino descreveu a Liturgia da Eucaristia já contendo os elementos essenciais da Missa atual. Não apenas a Liturgia da Palavra era parte integral, mas em adição às leituras do Velho Testamento, outras, que São Justino chamou de “Memórias dos Apóstolos”, isto é, as cartas e Evangelhos do Novo Testamento, também eram lidas. 


Quando ouvimos as leituras bíblicas na liturgia, elas tem um significado novo e mais forte que teriam em outro contexto. Quando lemos as Escrituras em casa ou as estudamos em um curso, elas nos servem para conhecer melhor a Bíblia, mas quando lemos na Liturgia, elas nos servem para conhecer melhor à Deus que se faz presente na partilha do pão e trazem à luz um novo aspecto do mistério que estamos prestes a receber. 


Isto já é visível na primeira Liturgia da Palavra, aquela entre Cristo Ressuscitado e os discípulos de Emaús. Enquanto ouviam a explicação da Palavra, seus corações foram tocados de uma maneira em reconheceram a Jesus quando partiu o pão. 


As palavras da Bíblia não são apenas lidas e ouvidas durante uma Missa, elas são revividas de uma maneira que seu significado se torna real e presente. Seja lá o que aconteceu naquele tempo, está também acontecendo neste momento, como os liturgistas adoram falar. Não somos apenas ouvintes, recipientes passivos, mas somos também aqueles que falam as palavras, que também vivem o momento. Nós somos colocados no lugar do povo da história. 


Alguns exemplos podem nos ajudar a entender esta idéia: Quando a primeira leitura na Missa é a história de como Deus falou com Moisés na sarça ardente (Ex 3), compreendemos que somos realmente nós que estamos em frente à sarça ardente. Quando lemos sobre os lábios de Isaías sendo tocados por uma brasa viva (Is 6), lembramos que nossos lábios receberam em breve o pão vivo, Cristo, aquele que lançou fogo sobre a Terra. (Lc 12, 49). Quando lemos como foi dito à Ezequiel  para comer os rolos da Lei e se alimentar deles (Ez 2,8-3,3), é como uma luz nos iluminando, somos nós que temos que nos alimentar da Palavra que se fez carne, Jesus. 


Passando ao Novo Testamento, da primeira leitura para o Evangelho, a idéia torna-se ainda mais clara. Se a mulher que sofria de hemorragia estava certa que poderia ser curada se pudesse tocar pelo menos a ponta do manto de Jesus, o que mais pode acontecer conosco que logo receberemos a Jesus, algo muito mais que apenas tocar seu manto?


Lembro certa vez que ouvi a história de Zaqueu e, de repente, ela se tornou real para mim, eu era Zaqueu, era para mim que Jesus estava dizendo: “Hoje irei à tua casa”! E quando recebi a comunhão, eu pude dizer com toda fé, “Ele veio para ficar na casa de um pecador”, e Jesus me respondeu “Hoje a Salvação entrou nesta casa” (Lc 19, 5-9).


O mesmo também é verdadeiro toda vez que o Evangelho é proclamado na Missa. Como podemos não nos identificar com o paralítico para quem Jesus diz “Teus pecados foram perdoados”, “Levantai … e vá para casa” (Mc 2,5.11). Ou com Simeão ao segurar Jesus bebê em seus braços (Lc 2,27-28)? Ou com Tomé que, tremendo, toca nas feridas de Jesus (Jo 20, 27-28)? 


No segundo Domingo do Tempo Comum, neste ano litúrgico, lemos um Evangelho em que Jesus diz a um homem com a mão paralisada: “ ‘Estende tua mão!’. Ele estendeu-a e a mão foi curada” (Mc 3,5). Nós não temos uma mão paralisada, mas todos nós temos,de certa maneira, uma alma paralisada, corações quebrados. Não achas que é para quem está ouvindo o que Jesus diz neste momento: “Estende tua mão, abre teu coração, com a fé e prontidão daquele homem”


Quando proclamada durante a liturgia, a Escritura age de uma maneira que está acima e além de qualquer explicação humana e é assim que os sacramentos agem. Estes são textos divinamente inspirados que possuem um poder de cura. Após ler o Evangelho, a Igreja convida o ministro a beijar o livro e dizer “Per evangelica dicta deleantur nostra delicta” - “Através das palavras do Evangelho sejam nossos pecados perdoados”.


Ao longo da história da Igreja, alguns eventos importantes ocorreram como resultado direto da audição das leituras da Missa. Por exemplo, certo dia um jovem ouviu o Evangelho em que Jesus diz a um jovem rico “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Então vem e segue-me” (Mt 19, 21).  Aquele jovem percebeu que a palavra estava sendo dita diretamente para ele, foi para casa e vendeu tudo o que tinha, dali se dirigiu ao deserto para permanecer em oração. O nome daquele jovem era Antão, e foi assim que o movimento monástico iniciou-se na Igreja. 


Muitos séculos depois, em Assis, um jovem recém convertido foi à Igreja com seu amigo. O Evangelho daquele dia era Jesus dizendo a seus discípulos: “Não leveis coisa alguma para o caminho, nem bordão, nem mochila, nem pão, nem dinheiro, nem tenhais duas túnicas” (Lc 9,3). Imediatamente ele virou-se para seu amigo e disse: “Ouviste isto? É isto que o Senhor quer de nós.” e assim iniciou-se o movimento franciscano. 


A Liturgia da Palavra é um dos melhores recursos para fazer a Missa algo novo e envolvente, evitando o perigo de uma repetição monótona que, em especial os jovens, acham algo chato e repetitivo. Mas para que isto ocorra, é importante investir mais tempo e oração na preparação da homilia. Os fiéis devem ser capazes de ver como a palavra de Deus está dirigida a eles, ilumina suas situações de vida e provê respostas para suas demandas existenciais.


Há duas maneiras de preparar a homilia. Você pode se sentar e, confiando no seu próprio conhecimento e preferências pessoais, escolher os temas a serem abordados. E, quando sua fala estiver preparada, ajoelhar-se diante do Senhor e pedir que Ele dê poder às suas palavras, que acrescente o Espírito à mensagem. Este é um bom método, mas não é profético. Para ser profético, deve-se fazer o contrário: primeiro ajoelhar-se perante o Senhor e perguntar o que Ele quer que seja dito. Deus tem em seu coração uma palavra especial para cada ocasião, e Ele nunca falha em revelar sua palavra ao padre que for insistente e humilde. Inicialmente não há nada além de uma mudança imperceptível de coração: uma pequena luz que ilumina o pensamento, uma palavra da Bíblia que lhe chama a atenção, que ajuda em uma situação. Pode parecer uma pequena semente, mas já contém tudo que é necessário.
Depois de rezar, você senta-se numa mesa, abre seus livros, consulta sua notas, organiza os pensamentos, estuda os padres da Igreja, os teólogos, os poetas, mas já não é mais a Palavra de Deus a serviço das tuas idéias, mas teus conhecimentos a serviço da palavra de Deus. Então a Palavra de Deus alcança todo seu poder.

Através de Espírito Santo

Mas uma coisa ainda deve ser acrescentada: toda atenção dada à Palavra de Deus não é suficiente. “O poder vem de Deus, deve descender sobre a celebração. Na Eucaristia a ação do Espírito Santo não é limitada ao momento da consagração, na oração que o padre recita. A presença de Deus é indispensável também na liturgia da palavra, assim como na comunhão.


O Espírito Santo continua, na Igreja, a ação do Ressuscitado que após a Páscoa “abriu a mente dos discípulos para o entendimento das Escrituras” (cf. Lc 24,25). A Bíblia, de acordo com a Constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II, deve ser lida e interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que a inspirou” (DV, 12). A ação do Espírito Santo na liturgia da palavra é exercida através do espírito presente nos leitores e ouvintes. 


O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a Boa-Nova aos pobres. (Lc 4,18)


Assim o Senhor indicou de onde vêm a força da sua palavra. Seria um erro acreditar que somente a unção sacramental recebida na ordenação é suficiente. Isto permite a nós [padres] realizar certos atos sagrados, governar, pregar e administrar os sacramentos. A unção nos dá, por assim dizer, não necessariamente a autoridade para realizá-los, mas a autorização através da sucessão apostólica, mas isto não o mesmo sucesso apostólico!


Mas se a onça é dada pela presença do Espírito e é um dos seus dons, o que podemos fazer para sermos como os discípulos? Em primeiro lugar, devemos começar com uma certeza: “Vós, porém, tendes a unção do Santo e sabeis todas as coisas” (1Jo 2,20). Isto é, graças ao Batismo e Crisma, e, para alguns, a ordenação sacerdotal e episcopal, nós já recebemos a unção. De acordo com a doutrina católica, foi impresso em nossa alma uma qualidade permanente, como uma marca ou selo: “Ora, quem nos confirma a nós e a vós em Cristo, e nos consagrou, é Deus. Ele nos marcou com o seu selo e deu aos nossos corações o penhor do Espírito.” (2Cor 1,21,22).


Esta unção é como um perfume fechado, ele se mantém inerte e não podemos percebê-lo até que abre o frasco. Isto é o que ocorreu com o jarro de alabastro que a mulher do Evangelho utilizou (Mc 14,3). Esta é a parte da unção que nos toca. Não depende de nós criar o perfume, mas depende de nós remover os obstáculos que impedem sua propagação. Não é difícil entender o que significa para nós quebrar o vaso de alabastro. O vaso é nossa humanidade, nós mesmos, muitas vezes nosso árido intelectualismo. Abrir o frasco de perfume é não resistir a Deus, mas resistir ao mundo. 


Afortunadamente para nós, nem tudo depende de um esforço ascético. Neste caso, fé, oração e humildade são importantes. Assim, pede-se aos ungidos que antes de ler ou pregar, que o faça a serviço de Deus. Quando nos prepararmos para ler o Evangelho ou uma leitura, a liturgia pede que purifiquemos nossos corações e nossos lábios para que possamos proclamar o Evangelho dignamente. Porque não dizer algumas vezes, ou ao menos pensar: “Senhor, unge meu espírito e minha mente, para que possa proclamar tua palavra com a suavidade e poder do Espírito”


A unção não é necessária apenas para os proclamadores ler efetivamente a palavra, mas também é necessário para os ouvintes recebê-la. O evangelista João escreve para sua comunidade: “Vós, porém, tendes a unção do Santo e sabeis todas as coisas. ... a sua unção vos ensina todas as coisas, assim é ela verdadeira e não mentira. Permanecei nele, como ela vos ensinou” (1 Jo 2,20-27).


Não que uma preparação humana seja inútil, mas ela não é suficiente. É o espírito que realmente instrui, isto é, Cristo e a inspiração do Espírito que instruem. Quando esta inspiração não ocorre, as palavras podem ser apenas barulho inútil. Tenhamos esperança que hoje o Senhor nos instruiu, nos deu essa inspiração interior, e não sejamos apenas barulho inútil.


-- Padre Raniero Cantalamessa, Primeira Homília de Quaresma, 11 de Março de 2022

* esta é a segunda parte de uma série de catequeses dadas pelo Padre Raniero na Quaresma de 2022.  Nos próximos dias publicarei a sequência.

9 de abr. de 2022

A Eucaristia - Introdução e história da salvação

 * Esta é a parte introdutória de uma série de catequeses dadas pleo Padre Raniero Cantalamessa para o Papa e cardeais no Vaticano durante a Quaresma de 2022. Nos próximos dias publicarei a continuação das catequeses.
 
Entre os muitos problemas que a pandemia tem causado à humanidade, há pelo menos um efeito positivo do ponto de vista da fé. Ela nos conscientes da necessidade da Eucaristia e do vazio que sua ausência cria, ela nos ajudou a compreender que não devemos ter a Eucaristia como algo corriqueiro. No período mais agudo da crise, em 2020, estava muito impressionado, e acho muitos outros também, em como era importante assistir a Santa Missa celebrada pelo Papa todas manhãs.

Muitas igrejas locais e nacionais decidiram dedicar este ano a catequeses especiais sobre a Eucaristia, pois há como um renascimento do desejo de receber a Comunhão na Igreja Católica. Acho uma decisão oportuna e um exemplo a ser seguido, e daqui que dar minha pequena contribuição, dedicando minhas reflexões pascais ao mistério da Eucaristia.

A Eucaristia está no centro de todos os tempos litúrgicos, na Quaresma não mais que em outros tempos pois ela é celebrada todos dias. Qualquer progresso que fazemos para compreendê-la é um progresso na nossa vida espiritual e da comunidade eclesial. Porém, também é, infelizmente, algo considerado comum, devido à repetição, resulta em um ato  considerado simples e comum na rotina diária. São João Paulo II, na carta Ecclesia de Eucharistia, escrita em 2003, diz que os cristãos devem redescobrir e sempre manter vivo um certo deslumbramento Eucarístico. Este é o propósito destas catequeses: redescobrir a maravilha da Eucaristia.

Falar de Eucaristia nestes tempos de pandemia e agora com os horrores de uma guerra não significa deixar de lado a dramática realidade que vivemos, mas é uma ajuda para  entendermos essa realidade de um ponto de vista mais elevado. A Eucaristia está presente na história como um evento que mudou para sempre os papéis do vencedor e das vítimas. Na cruz, Cristo fez da vítima o real vencedor, “Victor quia victima”, como definiu Santo Agostinho: vencedor porque é a vítima. A Eucaristia nos oferece a chave verdadeira para compreender a história. Ela nos assegura que Jesus está conosco, não apenas como uma intenção ou ideia, mas realmente neste mundo que parece ter saído de controle. Ele repete para nós: “Coragem! Eu venci o mundo.” (Jo 16,33).

A Eucaristia na História da Salvação

 O Sacrifício de Isaac, Laurent de la Hyre
Qual é o lugar da Eucaristia na história da salvação? A resposta é que ela não está em um momento específico, ela é a história completa. A Eucaristia coexiste com a história da Salvação. Assim como num belo dia sol o céu inteiro pode ser refletido em uma gota de água, a Eucaristia reflete toda história da salvação.


A Eucaristia, no entanto, está presente na história da salvação de três maneiras diferentes  ou três estágios: no Velho Testamento está presente como figura, no Novo Testamento como um acontecimento, no nosso tempo, o tempo da Igreja, como um sacramento. A figura antecipa e prepara o acontecimento, o sacramento prolonga e atualiza Jesus Cristo.

No Velho Testamento, como disse, a Eucaristia está presente como “figura”. Uma destas figuras foi o maná no deserto, outra foi o sacrifício de Melquisedec, outro ainda a imolação de Isaac. No hino Lauda Sion, composto por São Tomás de Aquino para a festa de Corpus Christi, cantamos:

Foi já predito em figuras

Na imolação de Isaac,

e o Cordeiro pascal;

e no maná do deserto…


É devido a esta função de prefiguração da Eucaristia que São Tomás chamou os rituais do Velho Testamento como sacramentos da Velha Lei.

Com a vinda de Cristo, sua morte e ressurreição, a Eucaristia não é mais uma figura, mas um acontecimento, uma realidade. Chamamos um acontecimento porque é algo que historicamente aconteceu, foi um evento único no tempo e espaço, que ocorreu uma única vez e é irrepetível: “É certo que Cristo apareceu uma só vez ao final dos tempos para destruição do pecado pelo sacrifício de si mesmo”. (Hb 9,26).

Finalmente, neste tempo da Igreja, a Eucaristia está presente como um sacramento, através do sinal do pão e vinho, instituído por Cristo. É importante que entendamos bem a diferença entre acontecimento e sacramento, na prática é a diferença entre história e liturgia. Deixemos Santo Agostinho nos ajudar:

Sabemos e acreditamos com fé inabalável que Cristo morreu uma única vez por nós, o justo pelos pecadores, o Senhor pelos servos. Sabemos perfeitamente que isto ocorreu apenas uma vez e que o sacramento periodicamente renova o sacrifício, como se a história que aconteceu uma única vez fosse repetida muitas e muitas vezes. O acontecimento e o sacramento não estão em conflito, como se o sacrifício fosse uma farsa e somente o acontecimento fosse verdadeiro. De fato, o que a história proclama ter ocorrido uma única vez, o sacramento renova no coração dos fiéis. A história conta o que aconteceu, e como aconteceu, a liturgia nos assegura que o passado não seja esquecido, não no sentido de que repete o mesmo acontecimento, mas no sentido de que celebramos o fato.

Falar sobre a relação entre o sacrifício da cruz e a Missa é algo muito importante e tem sido um ponto de grande divisão entre católicos e protestantes. Santo Agostinho utiliza, como vimos, dois verbos: renovar e celebrar, que são perfeitamente corretos, em especial se entendermos um em relação ao outro: a Missa renova o evento da cruz ao celebrá-lo, mas não o refaz, e renova-o, não é mera lembrança. A palavra que alcança um maior consenso ecumênico hoje em dia e, talvez, o verbo representar, como utilizado por Paulo VI na encíclica Misterium Fidei,  com o sentido de re-apresentar, isto é, tornar presente novamente. Neste sentido, podemos dizer que a Eucaristia representa a crucificação.

De acordo com a história, houve uma única Eucaristia, aquela realizada por Jesus através de sua vida e morte; de acordo com a liturgia, graças ao sacramento, muitas Eucaristias foram e serão celebradas até o final dos tempos. O evento aconteceu uma única vez,o sacramento é realizado toda vez. Graças ao sacramento da Eucaristia nós participamos, misteriosamente, do acontecimento passado, ele  se torna presente para nós e podemos também testemunhá-lo.

Nestas reflexões de Quaresma falaremos sobre a Eucaristia, isto é, sobre o sacramento. Na Igreja antiga havia uma catequese especial, chamada mistagógica, que era reservada aos bispos e dada somente após o Batismo. O propósito era resvalar aos neófitos o significado dos ritos celebrados e a profundeza dos mistérios da fé: batismo, crisma e unção, mas, em especial, da Eucaristia. O que pretendemos fazer aqui é como uma catequese mistagógica. Mas estarmos firmemente ancorados no sacramento e sua natureza ritual, vamos seguir o desenvolvimento da Missa em suas três partes: liturgia da palavra, liturgia eucarística (a anáfora) e a Comunhão, e incluir, ao final, uma reflexão sobre a adoração eucarística fora da Missa.

-- Padre Raniero Cantalamessa, Primeira Homília de Quaresma, 11 de Março de 2022.

25 de mar. de 2022

O sacramento da nossa reconciliação

 


 A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.

Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.

Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.

Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido;existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.

Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.

Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.

A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.

É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).

-- Das Cartas de São Leão Magno, Papa (século V)

11 de fev. de 2022

A Meditação, Primeiro Grau da Oração

A palavra meditação é muita usada nas Sagradas Escrituras então quer dizer outra coisa mais que um pensamento fixo e atento, capaz de produzir efeitos bons ou maus.

No primeiro salmo (Sl 1,1-2), o homem chama-se bem-aventurado porque sua vontade está posta na lei do Senhor, e na sua lei meditará dia e noite; mas em outro Salmo diz-se: Porque razão se embraveceram as nações e os povos meditaram coisas vãs? (Sl 2,1-2) A meditação, pois, pode tender para o bem ou para o mal; mas, como na Sagrada Escritura é ordinariamente empregada para exprimir a atenção que prestamos às coisas divinas, para nos excitarmos a amá-las, quando falamos de meditação, entendemos a que é santa e início da teologia mística.

Toda meditação é pensamento, mas nem todo pensamento é meditação. Muitas vezes temos pensamentos a que o espírito se prende por simples passatempo, sem qualquer intenção ou pretensão, à semelhança das moscas que voam por aqui e por ali, sobre as flores, sem delas tirarem coisa alguma; esta espécie de pensamento, por atento que seja, não pode ter o nome de meditação, mas deve-se chamar simplesmente pensamento. Algumas vezes pensamos atentamente numa coisa para entender as suas causas, os seus efeitos, as suas qualidades; este pensamento chama-se estudo, e nele o espírito faz como os besouros que esvoaçam indistintamente sobre as flores e a folhas, para as comerem e delas se nutrirem.

Quando, porém, pensamos nas coisas divinas, não para as apreender, mas para lhes dar o nosso afeto, chama-se a isto meditar, a este exercício, meditação; o nosso espírito aplica-se a tarefa, não como mosca que se diverte, ou besouro que só procura comer e encher-se, mas como abelha, que pousa aqui e ali sobre as flores dos santos mistérios, para deles extrair o mel do divino amor. 

Assim muitos devaneiam em pensamentos inúteis, sem as vezes saberem em que pensam, entregando-se a cogitações que martirizam a sua alma e que quereriam não ter, como testemunha o Santo Patriarca Jó: Passaram os meus dias, desvaneceram-se os meus pensamentos que flagelaram o meu coração (Jó 17,11).

Muitos entregam-se ao estudo, e nesta ocupação laboriosa enchem-se de vaidade, não podendo resistir ao veemente desejo de saber, mas poucos são os que meditam para aquecer o coração no santo amor de Deus.

Numa palavra, o pensamento e o estudo incidem sobre qualquer espécie de assunto, mas a meditação só se refere aos assuntos cuja consideração nos pode tornar bons e devotos; de sorte que a meditação não é outra coisa mais que um pensamento atento, reiterado ou conservado voluntariamente no espírito, a fim de excitar a vontade de afetos e resoluções santas e salutares.

A Sagrada Bíblia explica admiralvelmente em que consiste a meditação com uma excelente comparação. Ezequias descreve num cântico a atenção que presta às suas dores, dizendo: Clamarei como o filhinho da andorinha, gemerei como a pomba (Is 38,14). De fato, os filhinhos das andorinhas abrem desmedidamente o bico, quando chilreiam, e as pombas, ao contrário, conservam o bico fechado, cadenciando a voz na garganta e peito, tanto para exprimir a alegria como a tristeza. Ezequias, pois, para mostrar que no meio das suas mágoas fazia muitas orações vocais, diz: Clamarei como filhinho da andorinha, isto é, abrindo a boca  para soltar diante de Deus muitas vozes plangentes. Por outro lado, querendo atestar que empregava a santa oração mental, continua: Gemerei como a pomba, volvendo e revolvendo os meus pensamentos dentro do coração para bendizer e louvar a soberana misericórdia do meu Deus, que me tirou das portas da morte (Is 38,10), tendo compaixão das minhas misérias. 

Assim diz Isaías (Is 38,14): Rugiremos como ursos, e meditando gemeremos como pombas. O rugido dos ursos refere-se às exclamações e aos brados que se empregam na oração vocal, e o gemidos das pombas à santa meditação.

E para que se saiba que as pombas não fazem o seu arrulho só nas ocasiões tristes, mas também nas alegres, o Esposo sagrado, descrevendo a primavera natural para exprimir as graças da primavera espiritual, diz (Ct 2,12): Ouviu-se na terra a voz da rola; porque na primavera é que a pomba começa a apaixonar-se do amor, como manifesta nos frequentes arrulhos. E logo depois (Ct 2,14): Pomba minha, mostra-me a tua face; soe a tua voz dentro dos meus ouvidos; porque a tua voz é doce e graciosa é a tua face.

Quer dizer que a alma devota lhe é muito grata, quando se apresenta diante dele e medita para se animar ao santo amor espiritual, como fazem as pombas para se excitarem aos seus amores naturais.

Do mesmo modo aquele que tinha dito: Gemerei como a pomba, exprimindo-se doutra forma, afirma: Relembrarei diante de ti todos os meus anos com amargura da minha alma (Is 38, 15), porque meditar e relembrar para excitar os afetos é uma e mesma coisa.

Moisés advertindo o povo que relembrasse os favores recebidos de Deus: Guardarás os mandamentos do Senhor teu Deus, e andarás nos seus caminhos, e O temerás (Dt 8,6); e Deus dá também este mesmo preceito a Josué (1, 8): Não se aparte da tua boca o livro desta lei; mas meditarás nele dia e noite, para observares e cumprires tudo o que nele está escrito.

O que numa das passagens é expresso pela palavra meditar é na outra enunciado pela palavra relembrar. E para mostrar que o pensamento refletido e a meditação tendem a mover-nos aos afetos, resoluções e ações, diz-se numa e noutra passagem, que é necessário relembrar e meditar a lei para observar e praticar. Neste sentido o Apóstolo exorta-nos desta forma (Hb 12, 3): Meditai atentamente n'Aquele que sofreu tal contradição da parte dos pecadores contra a sua pessoa, para que não desfaleçais, faltando-vos a coragem. 

E porque quer Ele que meditemos na Sagrada Paixão, não para nos tornarmos sábios, mas para sermos pacientes e corajosos no caminho do Céu. Oh Senhor, como tenho amado a vossa Lei!, diz Davi (Sl 118, 97), ela é a minha meditação todo o dia. Medita na lei porque a ama, e ama-a porque a medita.

A meditação não é mais que o ruminar místico, necessário para tirar as impurezas (Lv 11,3-4.8), ao qual nos convida uma das devotas pastoras, que seguiam a sagrada Sulamita; afirmava ela que a santa doutrina é como um vinho precioso, digno não só de ser bebido por pastores e doutores, mas de ser cuidadosamente saboreado, e, por assim dizer, mastigado e ruminado. A tua garganta, diz ela (Ct 7,9-10), é como o melhor vinho, digno de ser bebido pelo meu amado, e saboreado entre os seus lábios e os seus dentes. Do mesmo modo o bem-aventurado Isaac (Gn 24,63), como um cordeiro limpo e puro, saía à tarde para os campos para exercitar o seu espírito com Deus, isto é, para orar e meditar.

A abelha na primavera vai voejando de flor em flor não ao acaso, mas de propósito, não somente para se recrear com o aprazível matiz da paisagem, mas para procurar o mel, e tendo-o achado, suga-o e dele se carrega. Em seguida, leva-o à colméia, dispõe-no artisticamente, separando dele a cera e fazendo com esta o favo no qual conserva o mel para o inverno seguinte.

Tal é a alma devota na meditação: vai de mistério em mistério, não de passagem, nem mesmo só para se consolar com a admirável beleza dessas divinas verdades, mas com o intuito de encontrar motivos de amor e afetos, e, tendo-os encontrado, os atrai a si, os saboreia, e deles se carrega e, resumindo-os e dispondo-os dentro do coração, põe de parte o que vê ser mais apropriado ao seu adiantamento, fazendo resoluções convenientes para o tempo da tentação.

Desta forma a celeste amante, como abelha mística, vai pousando no Cântico dos Cânticos, ora sobre os olhos, ora sobre os lábios, sobre as faces, ou sobre os cabelos do seu Bem-amado, isto é, de Jesus, para aurir dÉle a suavidade de mil afetos apaixonados, de sorte que, toda abrasada no amor divino, fala com Ele, interroga-O, escuata-O, suspira e O admira, ao passo que Ele a enche de alegria inspirando-a, movendo-lhe o coração, abrindo-o para nele difundir luzes, claridades, doçuras sem fim, dum modo tão secreto que bem se pode dizer desta santa conversação da alma com Deus o que a Sagrada Escritura diz de Deus com Moisés (Ex 19,19-20): que Moisés, estando no alto da montanha falava com Deus e Ele lhe respondia.
 

-- São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, livro 6, capítulo 2. (século XVI)

19 de jan. de 2022

A Providência divina é admirável na variedade de graças que distribui aos homens


A Providência eterna agiu com incomparável benevolência para com a Rainha das rainhas, a Mãe do amor puro (Eclo 24,24), a única perfeita.

Dispensou também especiais benefícios, graças e bençãos aos homens e anjos, de cuja abundância todos foram orvalhados como de uma chuva que cai sobre os justos e injustos (Mt 5, 45); todos foram esclarecidos, como de uma luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo (Jo 1,9), todos receberam a sua parte, como de uma semente que cai não só sobre a boa terra, mas no meio dos caminhos, entre os espinhos e sobre as pedras (Mt 13, 38), de modo que todos fossem sem excusa (5) perante o Redentor, se não aproveitassem esta abundantíssima redenção para sua salvação. 

Porém, Teótimo [1], ainda que estas graças sejam assim derramadas sobre toda natureza humana, e nisto sejamos todos iguais, pois tantas bençãos nos são oferecidas a todos, é certo que a variedade destes favores é tão grande, que não se pode dizer o que é mais admirável, se a grandeza de todas as graças numa tal diversidade, ou a sua diversidade em tantas grandezas.

Quen não vê que os meios de salvação entre os cristãos são maiores e mais poderosos que entre os bárbaros, e que entre cristãos há povos e cidades onde os pastores são prestativos e hábeis?

Ora, negar que estes meios exteriores são favores da Providência divina, ou pôe em dúvida que contribuam à salvação e à perfeição das almas, seria ser ingrato para com a celeste Bondade e desmentir a verdadeira experiência que nos ensina que, de ordinário, onde abundam estes meios exteriores, os interiores tem mais eficácia e produzem melhor resultado.

Assim como não se encontra nunca dois homens perfeitamente parecidos nos dons naturais, também não se encontra iguais nos sobrenaturais. 

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino asseguram que os anjos receberam a graça segundo a variedade de suas condições naturais. Ora eles são todos, ou de diferente espécie, ou pelo menos de diferentes condições, porque se distinguem uns dos outros; por conseguinte há tantas graças diferentes quantos são so anjos.

Com respeito aos homens, ainda que a graça lhes não seja dada segunda as suas condições naturais, todavia a divina Bondade, comprazendo-se, e para assim dizer, recreando-se na produção de graças, diversifica-as por infinitas formas, para que esta variedade se faça o formoso esmalte da sua redenção e misericórdia, como a Igreja canta na festa de cada Confessor Pontífice: Não se achou outro semelhante a ele (Eclo 44,20). E como no céu ninguém conhece o novo nome senão que o recebe (Ap 2,17), porque cada um dos bem-aventurados tem o seu nome particular, conforme o novo estado de glória que adquire, assim também na terra, cada um recebe uma graça particular, que todas são diversas.

Por isso o nosso Salvador compara a sua graça às pérolas (Mt 13, 44.46), que, como diz Plínio, nunca são perfeitamente iguais; e como as estrelas diferem umas das outras em claridade (1Cor 15,41), do mesmo modo serão os homens diferentes uns dos outros na glória, sinal evidente de o terem sido na graça.

Ora esta variedade na graça, ou essa graça na variedade, produz uma beleza e harmonia, que regozija a santa cidade, a Jerusalém celeste.

Mas importa muito não procurar investigar por que motivo a suprema Sabedoria distribuiu uma graça a uma graça a um antes que a outro, nem por que razão transbordou os seus favores mais num lugar que em outros.

Não, Teótimo, não tenhais nunca esta curiosidade, porque se todos recebem suficiente e abundandamente o que é necessário para a salvação, que razão de quixa pode ter o homem por Deus distribuir as suas graças com mais liberalidade a uns que a outros?

Se alguém perguntasse qual a causa porque Deus fez os lírios maiores que as violetas, porque o alecrim não é uma rosa e cravo não é um malmequer, porque motivo o pavão é mais belo que um morcego, ou porque é o figo doce e o limão ácido, escarneceriam de suas perguntas e dir-lhe-iam: "Pobre homem, já que a beleza do mundo requer variedade, é preciso que haja diferentes e desiguais perfeições nas coisas, e que não seja a outra; eis porque umas são pequenas, outras são grandes; umas acres, outras doces; umas mais e outras menos belas".

Dá-se o mesmo com as coisas sobrenaturais: cada pessoa tem o seu dom; um dum modo e outro doutro, diz o Espírito Santo (1Cor 7,7).

É, pois, um disparate querer investigar porque razão São Paulo não teve a graça de São Pedro, nem São Pedro a de São Paulo, porque motivo Santo Antão não foi Snato Atanásio, nem Santo Atanásio não foi São Jerônimo.

A Igreja é um jardim matizado de flores, e é preciso que as haja de diversos tamanhos, de diversas cores, de diversos aromas, numa palavra, de diferentes perfeições; todas tem o seu valor, a sua graça, o seu esmalte; e todas, no conjunto de suas variedades, produzem a beleza.


-- São Francisco de Sales, Tratado do Amor Divino, livro 2, capítulo 7.

[1]: S. Francisco explica no prefácio do livro que Teótimo não é uma pessoa que ele conhecia, mas a alma do leitor. Teótimo combina duas palavras gregas, Theos, que significa Deus, e Timé, um presente especial, ou seja, para o santo, todas pessoas recebem de Deus um presente especial, sua alma. O santo escolheu esta forma porque escreve não apenas para  o intelecto, como a maioria dos livros, mas para a alma.


 

17 de jan. de 2022

O Espírito Santo ilumina sua Igreja


O Espírito Santo ensina que os lábios da divina Esposa, isto é, da Igreja, se assemelham a uma fita escarlate ou ao favo que destila doçura (Ct 4,3), para que todos saibam que a doutrina que ela anuncia se resume no sagrado amor.

A Igreja, banhada pelo sangue de Jesus, é mais viva e brilhante que o escarlate, é mais suave que o mel, por causa da doçura do Bem amado que a inunda de delícias (Ct 7,5). Por isso, este celeste Esposo, ao começar a publicação da sua Lei, fez descer sobre os discípulos - seus pregadores, grande número de línguas de fogo, mostrando assim que o Evangelho era destinado a abrasar os corações.

É um quadro admirável contemplar as pombas, tão belas, expostas aos raios do sol. Vêde, mudam de cor, segundo as diversas posições em que a examinamos, porque as suas penas são tão sensíveis à luz, que o sol dardejando-as forma uma surpreendente variedade de matizes; cores tão agradáveis, que excedem em formosura o esmalte das mais preciosas pedrarias; tão deslumbrantes e tão delicadamente douradas que o seu ouro as torna vivamente coloridas. É por isso que o profeta diz aos israelitas: (Sl 66, 13-18):

É, pois, com holocaustos que entrarei em vossa casa, pagarei os votos que fiz para convosco,
votos proferidos pelos meus lábios, quando me encontrava na tribulação.
Oferecerei em holocausto as mais belas ovelhas, com os mais gordos carneiros; imolarei touros e cabritos.
Vinde, ouvi vós todos que temeis ao Senhor. Eu vos narrarei quão grandes coisas Deus fez à minha alma.
Meus lábios o invocaram, com minha língua o louvei.


Na verdade, a Igreja tem uma rica variedade de instruções, sermões, tratados e livros piedosos, todos belos e agradáveis porque o Sol da Justiça mistura admiravelmente os raios da sua divina sabedoria com as línguas dos pastores, que são suas penas que, por vezes, fazem também de línguas, e são a rica plumagem desta pomba mística (Sl 62, 3). Contudo por entre a diversidade de cores da doutrina, que a Igreja publica, descobre-se por toda parte o precioso ouro da sua santa dileção, iluminando com seu incomparável brilho toda a ciência dos santos e erguendo-a acima de qualquer outra ciência.

Tudo na Igreja procedo do amor, está enraizado no amor, tende ao amor e vive do amor. Como é bom ouvir falar coisas do Céu a um São Paulo, que as aprendeu no próprio Céu! (2 Cor 12, 4). Como é agradável ver almas alimentadas no seio da dileção escreverem da sua santa suavidade. São Tomás de Aquino deixou-nos um grande tratado, São Boaventura e o beato Dionísio Cartuxo escreveram vários, por diversos títulos, excelentes. Quem jamais exprimiu melhor as celestes paixões do amor sagrado do que Santa Catarina de Gênova, Sanata Angela de Foligno e Santa Catarina de Sena?

Finalmente a bem-aventurada Teresa de Jesus escreveu tão bem das sagradas moções do amor em todos livros que nos deixou, que nos encanta ver tanta eloquência em tão grande humildade, tanta energia de espírito em tanta simplicidade; a sua sapientíssima ignorância faz parecer ignorantíssima a ciência de muitos letrados, que, cansados de tanto estudo, sofrem a vergonha de não entenderem o que ela escreveu, com tanta felicidade, acerca do amor divino.

Assim Deus levanta o trono do seu poder sobre o pedestal da nossa fraqueza, servindo-se dos fracos para confundir os fortes (1 Cor 1,27).

-- São Francisco de Sales, prefácio do Tratado do Amor de Deus (século XVII)

16 de jan. de 2022


São Francisco de Sales com Santa Joana de Chantal
Em 24 de Janeiro, relembramos São Francisco de Sales. Seguem 31 frases do santo, para que possamos passar um mês inteiro com os ensinamentos deste grande santo:

Dia 1: A medida de amar a Deus é amá-lo sem medida.

Dia 2: Não espere as mudanças e eventualidades desta vida com medo; antes, encare-as com a firme esperança de que, ao surgirem, Deus, de quem você é filho, o livrará delas.

Dia 3: Só confia n’Ele e Ele continuará conduzindo você seguramente através de tudo. Onde não puder caminhar, Ele o carregará nos braços.

Dia 4: Não se preocupe com o que pode acontecer amanhã; o mesmo Pai eterno que cuida de você hoje, se encarrega de você amanhã e todos os dias. Ou Ele protegerá você do sofrimento, ou lhe dará a força infalível para suportá-lo.

Dia 5: Esteja em paz, pois, e afaste todos os pensamentos de angústia.

Dia 6: Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade.

Dia 7: Faça tudo com calma e em paz. Realize quanto puder, tão bem quanto for capaz.

Dia 8: Pense muitas vezes em Nosso Senhor, pois Ele ajudará a suportar os problemas. Todos eles serão incapazes de abalar você, só lembrando-se de que você tem um tal amigo.

Dia 9: Procure ver Deus em todas as coisas sem exceção, e disponha-se a fazer a vontade dEle com alegria. Faça tudo para Deus, unindo-se com Ele por palavras e obras.

Dia 10: Avance muito simplesmente com a Cruz de Nosso Senhor e tenha paz consigo mesmo. Passará por cada tempestade com seguridade, enquanto a sua confiança se fixar em Deus.

Dia 11: Não perca a sua paz interior por nada, nem se todo o seu mundo parece vir abaixo. Se se dá conta que se afastou da proteção de Deus, conduza o seu coração de volta para Ele tranquila e simplesmente.

Dia 12: Faça todas as coisas em nome de Deus e fará tudo bem. Se comer ou beber, trabalhar ou descansar, ganhará muito aos olhos de Deus, ao fazer todas essas coisas como Deus quer que se faça”.  São Francisco de Sales

Dia 13: Aconteça o que acontecer, não desanime; segure-se firmemente em Deus, mantenha-se em paz, com confiança no seu amor eterno por você.

Dia 14: O fogo sagrado do verdadeiro amor de Deus que tudo transforma, transforme os  nossos corações, de modo que sejamos só amor.

Dia 15: Deus o colocou no mundo para realizar em você a sua bondade.

Dia 16: O amor ao próximo é o critério para verificar o nosso amor para com Deus.

Dia 17: O amor e a fidelidade juntos trazem sempre consigo a familiaridade e a confiança.

Dia 18: Deus é maior que o nosso coração e nosso coração é maior que o mundo inteiro.

Dia 19: O máximo do amor a Deus está na perfeição do amor aos nossos irmãos.

Dia 20: O vosso falar seja doce, franco, sincero, puro e verdadeiro: nisto está a perfeição do amor.

Dia 21: Doçura, forma concreta de viver a caridade.

Dia 22: Ide ao ‘Porto Real’ da vida religiosa pelo real caminho do amor de Deus e do próximo, da humildade e da complacência.

Dia 23: O que não é absolutamente Deus, não é nada para nós.

Dia 24: Para receber a glória de Deus em nossos corações, é preciso mantê-los vazios de nossa própria glória.

Dia 25: Deus, tendo criado o homem à sua imagem e semelhança, quer que, como nele, tudo no homem seja ordenado pelo amor e para o amor.

Dia 26: Qualquer um que tenha Jesus Cristo em seu coração, ele o terá logo depois em todas as suas ações.

Dia 27: Coragem, por amor a Deus... Nada é impossível ao amor.

Dia 28: A doçura é um raio de céu que nos faz ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus.

Dia 29: Procuremos ser aquilo que somos de modo a honrar o Artífice de quem somos sua obra.

Dia 30: Esteja em paz, pois, e afaste todos os pensamentos de angústia.

Dia 31: Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade.

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