29 de jul. de 2010

A Igreja Católica

Igreja "Católica" é o nome próprio desta santa Mãe de todos nós. Instruídos com os preceitos e o modo de viver nesta Santa Igreja Católica, possuiremos o reino dos céus e receberemos por herança a vida eterna. Por este motivo, agüentamos absolutamente tudo para a alcançarmos de Deus. Nossa meta proposta não é nada insignificante: a posse da vida eterna, esta é a nossa luta. Por isso, na profissão de fé, após termos dito: Na ressurreição da carne, isto é, dos mortos, já explicada, aprendamos a crer: E na vida eterna, que é a nossa batalha de cristãos.

-- Das catequeses de São Cirilo de Jerusálem, bispo (século IV)

28 de jul. de 2010

Igreja ou convocação do povo de Deus

Católica ou universal chama-se a Igreja, porque se espalhou de um extremo a outro de todo o orbe da terra. Igreja, isto é, convocação*: nome bem apropriado porque convoca a todos e os reúne, como o Senhor diz no Levítico: Convoca toda a congregação diante da porta do tabernáculo do testemunho. É de notar a palavra convocar, usada aqui pela primeira vez nas Escrituras, na ocasião em que o Senhor estabeleceu Aarão como sumo sacerdote. No Deuteronômio Deus diz a Moisés: convoca para junto de mim o povo para que me escutem e aprendam a temer-me. Há outra menção da Eclésia (= convocação), quando se fala das tábuas da Lei: Nelas estavam escritas todas as palavras que o Senhor vos falou no monte, do meio do fogo, no dia da Eclésia, isto é, convocação; como se dissesse mais claramente: No dia em que, chamados pelo Senhor, vos congregastes. O Salmista também diz: Eu te confessarei, Senhor, na grande "Eclésia", no meio do povo numeroso te louvarei.

-- Das Catequeses de São Cirilo de Jerusálem , bispo (século IV)

* A palavra Eclesia significa assembléia, assembléia do povo. Assim, a Igreja é a assembléia do povo. Também é utilizada em outro contexto, por exemplo, na democracia grega havia uma "eclesia" para discutir as questões de governo. O autor sabia também que nesta palavra está contido o termo grego "clesis", que quer dizer convocação.

27 de jul. de 2010

Semeai para vós mesmos na justiça

Imita a terra, ó homem! À semelhança dela produze fruto, não te reveles inferior a uma coisa inanimada. Ela nutre frutos não para seu consumo, mas para teu serviço. Tu, no entanto, todo fruto de beneficência que produzisses, colherias para ti mesmo, porque o prêmio das boas obras reverteria a ti. Como o trigo que cai na terra redunda em lucro para o semeador, assim o pão dado ao faminto, grande proveito te trará no futuro. Seja, portanto, o final de tua lavoura o início da sementeira celeste: Semeai para vós mesmos na justiça (Os 10,12). Mesmo contra a vontade, terás de deixar aqui teu dinheiro. Pelo contrário, enviarás ao Senhor a glória conseguida pelas boas obras. Ali, na presença do Juiz de todos, o povo em peso te proclamará o provedor, o generoso doador e te cobrirá com todos os nomes significantes de bondade e de benignidade.
Glória eterna, coroa de justiça, reino dos céus, tudo isto premia as coisas corruptíveis que bem usaste. Nada te cause cuidado daqueles bens, objeto da esperança, pelo pouco caso dado às coisas temporais. Ânimo, então, e reparte de diversos modos as riquezas, sendo liberal e magnânimo nos gastos com os indigentes. De ti dirão: Distribuiu, deu aos pobres; sua justiça permanecerá para sempre (Sl 112, 9).Não te alegras, não te regozijas por não teres que ir bater à porta dos outros, mas que eles venham à tua? Agora, no entanto, és rabugento, com dificuldade consegue alguém te falar: evitas encontros; não aconteça teres de abrir mão nem que seja um pouquinho. Conheces só uma frase: “Não tenho nem dou; também sou pobre”. És pobre na verdade, indigente de todo bem: pobre de amor, pobre de bondade, pobre de fé em Deus, pobre de esperança eterna.

--Das Homílias de São Basílio Magno, bispo (século IV)

26 de jul. de 2010

A misericórdia divina e a humana

Bem aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7). É suave a palavra misericórdia, meus irmãos. E se a palavra assim é, o que não será a realidade? Apesar de todos a desejarem, não agem de modo a merecer recebê-la, o que é mau. De fato, todos querem receber a misericórdia, mas poucos querem dá-la.

Que espécie de gente somos nós que, quando Deus dá, queremos receber, quando ele pede, nós nos recusamos a dar? Se um pobre tem fome, Cristo sofre necessidade, conforme disse: Tive fome e não me destes de comer (Mt 25, 35b). Por conseguinte, não desprezes a miséria dos pobres, se queres esperar confiante o perdão dos pecados. Agora Cristo passa fome, irmãos. Em todos os pobres ele se digna ter fome e sede. Mas aquilo que recebe na terra, paga-o no céu.

Pergunto-vos, irmãos, que quereis ou que buscais quando vindes à Igreja? Não é a misericórdia? Dai, então, a misericórdia terrestre e recebereis a celeste. O pobre pede a ti e tu pedes a Deus. O pobre pede um pedaço de pão; tu, a vida eterna. Dá ao mendigo o que merecerás receber de Cristo. Escuta o que ele diz: Dai e vos será dado (Lc 6, 38a). Não sei com que coragem queres receber aquilo que não queres dar. Por isto, vindo à Igreja, daí esmolas aos pobres, segundo vossas posses.

-- Dos Sermões de São Cesário de Arles, bispo (século VI)

24 de jul. de 2010

Nosso coração se dilatou

Nosso coração se dilatou. Aquilo que produz calor costuma dilatar. Assim, é próprio da caridade dilatar, pois é uma virtude cálida e fervente. Ela abria também a boca de Paulo e lhe dilatava o coração. "Não amo só de boca, diz ele; meu coração, em verdade, harmonizava-se com o amor; por isso falo confiante, com toda voz e toda a mente". Nada mais amplo que o coração de Paulo que, à semelhança de um enamorado, abraçava a todos os fiéis com intenso amor, sem dividir e enfraquecer a amizade, mas conservando-a indivisa.

Paulo não disse: "Vós não me amais", e sim: "Não do mesmo modo". De fato, não queria atormentá-los com maior severidade. Vê a censura temperada com não maior indulgência. Isto é bem de quem ama.

-- Das Homílias sobre a Segunda Carta aos Coríntios, de São João Crisóstomo, bispo (século IV)

23 de jul. de 2010

Cristo morreu por todos

Com muita razão, minha grande esperança está em Deus, porque curará todas as minhas fraquezas, por aquele que se assentaa sua direita e intercede por nós, Jesus Cristo. De outro modos desesperaria, pois são muitas e grandes as minhas fraquezas. São muitas e enormes.

Porém muito maior é teu remédio. Poderíamos ter pensado que teu Verbo estava longe de unir-se aos homens e entregarmo-nos ao desespero, se ele não se tivesse feito carne e habitado entre nós. Apavarado com meus pecados e com o peso da minha miséria, eu revolvia no espírito e pensava em fugir para o deserto. Mas me impediste e me fortaleceste, dizendo-me: Para isto Cristo morreu por todos, para os que vivem não mais vivam para si, mas para aquele que por eles morreu (2 Cor 5, 15).

Agora, Senhor, lanço em ti meus cuidados para viver e considerarei as maravilhas de tua lei (Sl 119, 18).Tu conheces minha ignorância e fragilidade: ensinai-me, cura-me. O teu Único Filho me remiu por seu sangue. Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2, 3). Como, bebo, distribuo e, pobre, desejo saturar-me dele entre aqueles que dele comem e são saciados. Com efeito, louvarão o Senhor aqueles que o procuram (Sl 21, 27).

-- Adaptado dos Livros das Confissões, de Santo Agostinho, bispo (século V)

22 de jul. de 2010

Maria Madalena

Maria Madalena, tendo ido ao sepulcro, não encontrou o corpo do Senhor. Julgando que fora roubado, foi avisar aos discípulos. Estes vieram também ao sepulcro, viram e acreditaram no que a mulher lhes dissera. Sobre eles está escrito logo em seguida: Os discípulos voltaram então para casa (Jo 20,10). E depois acrescenta-se: Entretanto, Maria estava do lado de fora do túmulo, chorando (Jo 20,11).

Este fato leva-nos a considerar quão forte era o amor que inflamava o espírito dessa mulher, que não se afastava do túmulo do Senhor, mesmo depois de os discípulos terem ido embora. Procurava a quem não encontrara, chorava enquanto buscava e, abrasada no fogo do seu amor, sentia a ardente saudade daquele que julgava ter sido roubado. Por isso, só ela o viu então, porque só ela o ficou procurando. Na verdade, a eficácia das boas obras está na perseverança, como afirma também a voz da Verdade: Quem perseverar até o fim, esse será salvo (Mt 10,22).

Ela começou a procurar e não encontrou nada; continuou a procurar, e conseguiu encontrar. Os desejos foram aumentando com a espera, e fizeram com que chegasse a encontrar. Pois os desejos santos crescem com a demora; mas se diminuem com o adiamento, não são desejos autênticos. Quem experimentou este amor ardente, pôde alcançar a verdade. Por isso afirmou Davi: Minha alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus? (Sl 41,3). Também a Igreja diz no Cântico dos Cânticos: Estou ferida de amor (Ct 5,8). E ainda: Minha alma desfalece (cf.Ct 5,6).

Mulher, por que choras? A quem procuras? (Jo 20,15). É interrogada sobre o motivo de sua dor, para que aumente o seu desejo e, mencionando o nome de quem procurava, se inflame ainda mais o seu amor por ele.

Então Jesus disse: Maria (Jo 20,16). Depois de tê-la tratado pelo nome comum de mulher sem que ela o tenha reconhecido, chama-a pelo próprio nome. Foi como se lhe dissesse abertamente: Reconhece aquele por quem és reconhecida. Não é entre outros, de maneira geral, que te conheço, mas especialmente a ti. Maria, chamada pelo próprio nome, reconhece quem lhe falou; e imediatamente exclama: Rabuni, que quer dizer Mestre (Jo 20,16). Era ele a quem Maria Madalena procurava exteriormente; entretanto, era ele que a impelia interiormente a procurá-lo.

-- Das Homílias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa (século VI)

20 de jul. de 2010

Tendes Cristo em vós

Longe de nós a indiferença ante a benignidade de Cristo. Se agisse conosco da maneira como fazemos, estaríamos perdidos. Por isto, feitos seus discípulos, aprendamos a viver de acordo com o cristianismo. Quem se faz chamar por nome diferente, não é de Deus. Rejeitai, pois, o mau fermento, velho e azedo. Mudai-vos com a força do novo fermento, que é Jesus Cristo. Salgai-vos nele para que nenhum de vós se corrompa, porque pelo cheiro seríeis descobertos.

Esforçai-vos por ficar firmes na doutrina do Senhor e dos apóstolos, para que tudo quanto fizerdes tenha bom êxito na carne e no espírito, pela fé e pela caridade, no Filho e no Pai e no Espírito, no princípio e no fim, com vosso digno bispo e a bem entretecida coroa espiritual de vosso presbitério, juntamente com os diáconos, agradáveis a Deus. Sede submissos ao bispo e uns aos outros, como, em sua humanidade, Jesus Cristo ao Pai; e os apóstolos a Cristo e ao Pai e ao Espírito, para que a união seja corporal e espiritual.

-- Da Carta aos Magnésios, de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir (século I)

16 de jul. de 2010

Sobre a Eucaristia

Coisa admirável o ter Deus feito chover o maná para sustentar com o alimento celeste o povo no deserto. Por isso se disse: O homem comeu o pão dos anjos (Sl 78, 25). No entanto, aqueles que comeram deste pão, todos eles morreram no deserto. Porém, o alimento que recebeste, pão vivo que desceu do céu (JO 6, 35), comunica a substância da vida eterna e quem quer que dele comer não morrerá eternamente, pois é o corpo de Cristo.

Considera agora qual deles é de maior valor: o pão dos anjos ou a carne de Cristo, que é o corpo da vida. Aquele maná vem do céu; este acima do céu. Aquele, do céu; este, do Senhor dos céus. Aquele é corruptível, se guardado para o dia seguinte; este é totalmente imune à corrupção e quem o tomar piedosamente não poderá experimentar a corrupção. Para aqueles brotou a água da pedra; para ti, o sangue de Cristo. Aqueles, por um momento, a água saciou; a ti o sangue de Cristo refresca para sempre. O povo antigo bebe e tem sede; tu, ao beberes, não podes mais sentir sede, pois, de fato, aquilo era sombra, enquanto isto é realidade.

-- Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

15 de jul. de 2010

A Vida de São Camilo

Começarei pela santa caridade, raiz de todas as virtudes e dom familiar a Camilo mais que qualquer outro. Ele vivia sempre imflamado pelo fogo desta santa virtude, não só para Deus, mas também para com o próximo, especialmente os doentes. Bastava vê-los para que se enchesse de ternura e se comovesse no mais íntimo do coração, a tal ponto que esquecia completametne todas as delícias, prazeres e afetos terrenos. Quando tratava de algum doente, parecia doar-se com tanto amor e compaixão que, de bom grado, tomaria sobre si toda doença, para aliviar-lhe as dores e curar as enfermidades.

Contemplava nos doentes, com tão sentida emoção, a pessoa de Cristo que, muitas vezes, quando lhes dava de comer, pensando serem outros cristos, chegava a pedir-lhes a graça e o perdão dos pecados. Mantinha-se diante deles com tanto respeito, como se estivesse realmente na presença do Senhor. De nada falava com mais frequencia e com mais fervor do que da santa caridade. O seu desejo era imprimi-la no coração de todos os homens.

Para incutir em seus irmãos religiosos esta santa virtude, costumava recordar-lhes aquelas dulcíssimas palavras de Jesus Cristo: Eu estava doente e cuidaste de mim (Mt 25,36). Parecia que ele tinha estas palavras gravadas em seu coração, tal era a frequencia com que as dizia e repetia.

Camilo era um homem de tão grande caridade, que tinha piedade e compaixão não somente dos doentes e moribundos, mas também, de modo geral, de todos os outros pobres e miseráveis. Seu coração era tão cheio de bondade para com os indigentes, que costumava dizer: "Ainda que não se encontrassem pobres no mundo, os homens deveriam andar a procurá-los e desenterrá-los, para lhe fazerem o bem e praticar a misericórdia para com eles".

-- Da Vida de São Camilo, escrita por um companheiro seu (século XVII)

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