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14 de mar. de 2020

Sobre a obrigação de ir à Missa em tempos de pandemia

A obrigação de ir à Missa dominical e dias santos é afirmada no Código Canônico (1246-1248) e enfatizada no Catecismo (2180-2183). Ninguém duvida desta obrigação. A Igreja, no entanto, não pode obrigar, nem tenta forçar, ninguém a ir à Missa, digamos que não há uma polícia da religião ou algo assim, mas sempre enfatiza a importância da missa semanal.

Em caso de faltar esta obrigação, a questão fundamental não é quantas missas a pessoa deixou de ir, mas por que não foi a Missa? Como veremos, há motivos razoáveis para não ir a Missa: impossibilidade, dispensa e justificação.

Se não for a Missa, o católico é convidado a realizar algum exercício espiritual, como rezar a Liturgia das Horas, assistir a Missa na televisão, se manter em oração por uma hora (tempo de duração de uma Missa) ou algo que lhe seja possível. É claro que nada disso corresponde ao sacrifício pascal de uma Missa, mas são boas alternativas espirituais.

Impossibilidade

Desde dos tempos mais antigos é reconhecido que ninguém é obrigado a realizar o impossível. Se as missas são canceladas em um local e não há maneira razoável de ir a outro, pode ser impossível encontrar uma missa para assitir. No caso, quando um país inteiro não realiza missas, não há alternativas razoáveis, talvez apenas para quem mora nas cidades da fronteira.

Dispensa

A obrigação de rezar a Deus nos domingos é um dos mandamentos já presentes no Antigo Testamento, mas a obrigação específica de ir a Missa é uma questão da lei eclesiástica e pode ser dispensada pelo Bispo diocesano ou párocos após considerarem gravemente as circunstâncias locais e a saúde espiritual de seu rebanho. É óbvio que as decisões de um bispo ou pároco alcançam apenas aqueles que estão sob sua administração. Se um bispo da Itália dispensa seus fiéis de ir a Missa, isto não se aplica ao Brasil.

Justificação

A justificação individual é o motivo mais comum para não ir a Missa, especialmente por que estar doente é uma justificativa válida. Duas observações são importantes:

Primeiro, não devemos julgar.  Se uma pessoa diz que não foi a Missa por que está com dor de cabeça, isto pode não parecer suficiente para um, mas não há como saber com certeza quão debilitante é para aquela pessoa. Lembre-se, no final todos teremos que nos justificar perante Deus, não para os irmãos. 

Segundo, cada doença possui diferentes riscos para o doente e aqueles que estiverem a sua volta. Algumas doenças não colocam outros em risco, como o câncer; outras são mais contagiosas, como sarampo e gripe. É justo que alguém deixe de ir a Missa para não colocar a saúde de outros em risco, por justiça em relação aos seus irmãos e irmãs. 

Este segundo ponto pode se estender a pessoas que mesmo não estando doentes, considerem o risco de estarem transmitindo uma doença por ter contato com alguém doente. No caso do coronavírus, a ciência está indicando que este risco é importante e não deve desprezado. 

Estar com medo de contrair uma doença não parece ser uma justificativa razoável, afinal todos estamos expostos a este risco diariamente. Mas cada pessoa deve exercer seu julgamento individual, considerar os riscos para si, seus familiares e, em caso de dúvida, rezar para que Deus ilumine sua decisão. De novo, a ninguém cabe julgar o irmão, apenas a Deus. 

-- autoria própria, baseado no texto publicado pelo Dr. Edward Peters

10 de jan. de 2015

Até que ponto posso chegar atrasado na Missa?

Nem sempre tudo funciona como esperado e algumas vezes chegamos atrasados na Missa. Mas para a Missa ser válida, ou para comungar tranquilamente, qual é a obrigação mínima? Ouvir as três leituras; ou somente o Evangelho; se perder a homília, ainda estaria bem? Deixando de lado a resposta óbvia ou o legalismo piedoso, do tipo "se você realmente amar Jesus e a Eucaristia jamais chegará atrasado", como responder adequadamente a esta pergunta? Eu já ouvi várias respostas, a mais comum que, no minimo, você deve ouvir o Evangelho. Como regra simples, ela serviria, mas, na verdade, ela provavelmente perde o ponto principal.
O pessoal dos últimos bancos teria chegado atrasado?

Primeiro, uma observação: quem faz esta pergunta, normalmente é um católico preocupado em seguir corretamente as orientações da Igreja, mas não encontra uma resposta clara em nenhum documento da Igreja. Então, já temos aí um ponto positivo: a boa intenção de agir de acordo com a Igreja.

A regra é que católicos devem participar da Missa (canon 1247) e assistir (c. 1248) nos domingos e dias festivos. Nada é dito sobre quem chegar atrasado ou que deve-se assistir, no mínimo, esta ou aquela parte da Missa. A regra é assistir a Missa, a Missa toda, porque a é uma celebração completa, composta de vários momentos diferentes, mas que no conjunto se harmonizam para prestar culto a Deus através do seu Filho no Espírito Santo. Perder qualquer parte da Missa é perder um pouco do culto a Deus. 

Como não há resposta clara para qual parte da Missa se pode perder e ela ser ainda válida, uma alternativa é se perguntar, por que, então, um bom católico está perdendo parte da Missa? O motivo seria justo para manter a Missa ainda como um sacrifício válido? Eis aí uma questão totalmente diferente.

Por um momento vamos aceitar a resposta popular: o mínimo é escutar o Evangelho. Então temos duas pessoas que chegaram atrasadas à Missa, perderam o Ato Penitencial, o Glória e duas leituras, entraram juntas na Igreja durante o Aleluia. Pela regra, ambas estão perfeitamente justificadas. Mas uma pessoa chegou atrasada por que teve que levar o filho doente ao médico, que demorou horas para atender, pediu exames e ainda tinha um engarrafamento no caminho. Outra pessoa estacionou o carro ao lado da Igreja meia hora antes mas resolveu ficar escutando o final do jogo.  

Aplicando a regra do Evangelho como limite de validade, ambos estão muitíssimo bem e cumpriram a regra. Eis um problema com regras: elas podem ser simples e claras, o que facilita explicar para as pessoas, mas, as vezes, perdem o ponto essencial da Igreja: amar o próximo. E aí se exige um honesto exame de consciência. Se por acaso morrer agora e chegar perante Deus, meu motivo para o atraso vai soar bem? Saber o resultado do jogo é tão válido quanto atender a um filho doente? 

Apenas um último exemplo: o Evangelho é claro ao dizer que se você tem algo contra um irmão, você deve buscar reconciliação. Imaginemos que uma pessoa ao entrar na Igreja, vinte minutos antes de começar a Missa, percebe que agiu muito mal contra seu amigo, sai da Igreja e telefona para pedir perdão pelo seu erro. A conversa toda demora meia hora e a Missa já começou. A Missa será ainda válida? 

Acima de tudo, o ensinamento é claro: amar a Deus sobre todas as coisas; amar ao próximo. Em todos os atos, inclusive se ocorrer que por um motivo ou outro você chegou atrasado na Igreja, pergunte-se, sem tentar se enganar: foi por amor a Deus, foi por amor ao próximo ou posso fazer melhor da próxima vez. E se concluir que houve um desleixo, procure a confissão e correção adequada. Provavelmente haverá ainda outra Missa no mesmo domingo, na paróquia ou em outra próxima. 

-- autoria própria

23 de jul. de 2013

Panis Angelicus - Pão Angelical

Durante a Comunhão na Missa de Abertura da JML foi cantada uma música que chama-se Panis Angelicus. 

Panis Angelicus é um dos cinco hinos escritos por São Tomás de Aquino para a Festa de Corpus Christi como parte da liturgia do dia. As duas últimas estrofes do hino Sacris Solemnis foram extraidas para especial ênfase e cantadas como antífonas. 

A versão cantada durante a missa foi composta em 1872 por Cesar Frank e, posteriormente, incorporada a Missa para Três Vozes, Opus 12. O vídeo é do Frei Alessandro e tem várias cenas em Assis, Itália.



Hino em Latim:
Panis angelicus
fit panis hominum;
Dat panis coelicus
figuris terminum:
O res mirabilis!
manducat Dominum
Pauper, servus, et humilis.

Tradução:
O pão angelical
se converte em pão dos pobres;
O pão do céu
acaba com as antigas figuras:
Óh, acontecimento admirável!
Os pobres, os servos e os  humildes
se alimentam do Senhor!


12 de jul. de 2013

Creio em Único Deus - Mozart

A Grande Missa em Dó Menor, de Mozart, é uma das obras mais geniais do compositor. Pouco se sabe sobre a criação da obra, em 1782/83, e foi apresentada pela primeira vez na Igreja de Saint Pierre, Salzburg, em 26 de Outubro de 1783. 

Esta missa foi a primeira obra composta por iniciativa de Mozart, sem ter sido encomendada. Isto explica por que demorou tanto na sua composição, pois foi escrita no seu tempo livre, enquanto atendia pedidos de seus clientes. Numa carta ao pai, Mozart explica que foi uma promessa pelo restabelecimento da esposa Constance. No entanto, para os padrões atuais, a missa está incompleta. Por exemplo, como o Credo não era recitado nas missa do Tempo Comum, Mozart musicou apenas a parte inicial da oração.

O vídeo abaixo mostra a apresentação em Cadogan Hall, Londres, em 7 de Julho de 2011. O maestro é Ivor Setterfield; as sopranos são Elizabeth Weisberg e Grace Davidson; acompanhadas pela Orquestra Sinfônica de Trafalgar e Coro Barts. O Coral segue a forma latina da oração.


Credo in unum Deum, Patrem omnipoténtem, factorem cæli et terræ, visibílium ómnium et invisibílium.

Et in unum Dóminum Iesum Christum, Fílium Dei unigénitum, et ex Patre natum, ante ómnia sæcula. Deum de Deo, lumen de lúmine, Deum verum de Deo vero, génitum, non factum, consubstantiálem Patri: per quem ómnia facta sunt. Qui propter nos hómines et propter nostram salútem descéndit de cælis. 
(aqui termina a obra de Mozart)

Et incarnátus est de Spíritu Sancto ex María Vírgine, et homo factus est. Crucifíxus étiam pro nobis sub Póntio Piláto; passus et sepúltus est, et resurréxit tértia die, secúndum Scriptúras, et ascéndit in cælum, sedet ad déxteram Patris. Et íterum ventúrus est cum glória, iudicáre vivos et mórtuos, cuius regni non erit finis.

Et in Spíritum Sanctum, Dóminum et vivificántem: qui ex Patre Filióque procédit. Qui cum Patre et Fílio simul adorátur, et conglorificátur: qui locútus est per Prophétas.
Et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam.
Confíteor unum baptísma in remissiónem peccatorum. Et expecto resurrectionem mortuorum, et vitam ventúri sæculi. Amen.

22 de jan. de 2012

Cristo sempre presente em sua Igreja


Cristo está sempre presente em sua Igreja, principalmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, pois quem o oferece agora, através do ministério dos sacerdotes, é aquele mesmo que se ofereceu na cruz, como, mais intensamente ainda, sob as espécies eucarísticas. Está presente pela sua virtude nos sacramentos, pois quando alguém batiza é Cristo quem batiza. Está presente por sua palavra, pois é ele quem fala, quando se lê a Sagrada Escritura na Igreja. Está presente, enfim, na oração e salmodia da Igreja, ele que prometeu: Onde dois ou três se reúnem em meu nome, aí estou no meio deles.

De fato, nesta obra tão grandiosa em que Deus é perfeitamente glorificado e santificados os homens, Cristo une estreitamente a si sua esposa diletíssima, a Igreja, que invoca seu Senhor e, por ele, presta culto ao eterno Pai.

Papa Bento XVI celebrando a Santa Missa na Catedral de
Saint Patrick (NY).
Portanto, com razão, considera-se a liturgia como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo, onde os sinais sensíveis significam e, do modo específico a cada um, realizam a santificação do homem. Assim, pelo Corpo místico de Jesus Cristo, isto é, sua Cabeça e seus membros, se perfaz o culto público  ntegral. Por este motivo, toda celebração litúrgica, por ser ato do Cristo sacerdote e de seu Corpo, a Igreja, é a ação sagrada por excelência, cuja eficácia nenhuma outra obra da Igreja iguala no mesmo título e grau.

Participando da liturgia terrena saboreamos antecipadamente a liturgia que se celebra na santa cidade, a Jerusalém celeste, para onde nos dirigimos como peregrinos, lá onde Cristo se assenta à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo. Juntamente com todos os exércitos celestes, cantamos hinos de glória ao Senhor. Venerando a memória dos santos, esperamos ter parte em sua companhia. Finalmente, estamos na expectativa do Salvador, nosso Senhor Jesus Cristo, que aparecerá, Ele, nossa vida, e nós também apareceremos com Ele na glória.

A Igreja, seguindo a tradição dos apóstolos cuja origem remonta ao próprio dia da ressurreição, celebra o mistério pascal cada oito dias, que por isto se chama dia do Senhor ou domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para escutar a palavra de Deus e participar da eucaristia, a fim de se lembrarem da paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus, dando graças a Deus que os recriou para a esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo, dentre os mortos. Assim é o domingo a festa primordial e, como tal, seja apresentado e inculcado à piedade dos fiéis para que se lhes torne dia de alegria e de descanso dos trabalhos. Todas as outras celebrações, a não ser que sejam realmente de máxima importância, não passem à sua frente porque é o fundamento e o cerne de todo o ano litúrgico.

-- Da Constituição Sacrossanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II (século XX)

7 de nov. de 2011

Kyrie Eleison

Kyrie Eleison é um canto baseado no Salmo 50 (51). Uma tradução livre é "Senhor, tende piedade de nós". Era usado já na Igreja de Jerusalem no século IV e foi adotado pelo rito romano durante o século V. Na liturgia atual, pode ser utilizado em substituição  ao Ato Penitencial em qualquer momento do ano liturgico.

Existem diversas formas, sempre na forma de canto resposta, isto é, um pedido seguindo da resposta da comunidade (Kyrie Eleison). No canto gregoriano são três estrofes (Kirye Eleison, Christe Eleison, Kyrie Eleison). 

Diversos artistas ao escrever missas compuseram uma variação desta música, entre eles Mozart, Palestrina, Bach, Haydn, Schubert, Beethoven, Verdi e Stravinski. Abaixo, a versão de Haydn, pelos coros da Universidade Católica de Santa Fé e Orquestra Sinfônica Provincial de Santa Fé.

E uma versão mais "leve", voz e um instrumento de cordas, cantada por Andrea Navratil.

7 de out. de 2011

A importância de assistir a Santa Missa - o exemplo dos Reis


Papa Silvestre I abençoa o Imperador Constantino Magno
Os exemplos dos grandes causam ordinariamente muito mais impressão que a piedade mesmo singular de simples particulares, conforme o axioma vulgar: “Conforme-se a terra ao exemplo do rei.” Ora, longa seria a lista que eu poderia desenrolar, para animar a seguir o exemplo daqueles que assistiam todos os dias à Santa Missa.

Citaremos rapidamente alguns: Constantino Magno não só assistia todos os dias à Santa Missa, mas, quando partia em qualquer expedição, em pleno fragor da guerra e ruído das armas, fazia-se acompanhar dum altar portátil no qual mandava celebrar diariamente a Santa Missa, e por este meio alcançou retumbantes vitórias. O Imperador Lotário observava sempre a mesma prática. Em tempos de paz como de guerra, fazia questão de assistir, todos os dias, a três Santas Missas.  O piedoso Henrique III, rei da Inglaterra, assistia, do mesmo modo, a três Santas Missas diárias, para grande edificação de sua corte.  O Senhor recompensou-o, ainda neste mundo, com um feliz reinado de cinqüenta e seis anos.

Mas, para expor à luz a piedade dos monarcas ingleses e sua assiduidade em assistir à Santa Missa, não é preciso remontar aos séculos passados; basta considerar a grande alma de Maria Clementina, a piedosa rainha cuja perda Roma ainda chora. Como ele se dignou dizer-me muitas vezes, punha todas as suas delícias em assistir ao Divino Sacrifício e todos os dias assistia a todas as Santas Missas que podia. Mantinha-se imóvel, sem almofadas, sem apoio, como uma estátua. E por esta devota assistência à Santa Missa, acendeu-se em seu coração amor tão ardente a JESUS-Hóstia, que se esforçava por assistir diariamente a três ou quatro bênçãos do Santíssimo Sacramento. Sua carruagem percorria a toda a velocidade as ruas de Roma, a fim de permitir-lhe chegar a tempo nas diversas igrejas. E quantas lágrimas derramou esta santa mulher para mitigar a fome que tinha de pão dos Anjos, fome tão veemente que lhe causava enlanguescimento noite e dia, porque seu coração se achava a todo instante transportado aonde estava seu tesouro. 

DEUS permitiu, entretanto, que tão prementes instâncias não fossem atendidas; permitiu-o para tornar mais heróico o seu amor, mais ainda, para torná-la mártir de amor. Assim, a meu ver, isto lhe acelerou a morte, como posso julgar pela última carta que me escreveu já no leito de morte. É certo que, se lhe foi negada a comunhão freqüente, não perdeu ela o mérito, pois, não podendo satisfazer seu amor pela comunhão sacramental, buscava consolo na comunhão espiritual, que fazia não só na Santa Missa, mas renovava-a muitas vezes durante o dia, com grande contentamento de seu coração, seguindo o método indicado no capítulo anterior.

Ora, dizei-me, este exemplo sublime não basta para rechaçar todas as desculpas dos que demonstram tanta preguiça em assistir, todos os dias à Santa Missa e nela fazer a comunhão espiritual? Não me satisfaz, entretanto, que imiteis esta boa rainha com o fervor do vosso coração em desejar receber JESUS-HÓSTIA; mas quisera que a imitásseis, ocupando vossas mãos nos trabalhos que tão freqüentemente ela efetuava, a fim de prover de objetos do culto às igrejas pobres, exemplo seguido em Roma por muitas damas nobres, que se consideravam felizes em  trabalhar com suas mãos nos vários paramentos destinados ás igrejas. E fora de Roma, conheço uma grande princesa, ilustre tanto por sua piedade como pelo nascimento, que assistia, todas as manhãs, a várias Santas Missas, e ocupa suas damas nos trabalhos destinados ao altar, a ponto de enviar caixas cheias de corporais, manutérgios e outras peças semelhantes aos missionários e pregadores, para que distribuam ás igrejas pobres e a fim de que o Divino Sacrifício seja oferecido a DEUS com toda a pompa, decência e solenidade adequadas.

Terminamos este parágrafo com o exemplo da São Venceslau (NT. em outro post há a narrativa da vida e morte de São Venceslau), rei da Boêmia, que todos devem imitar, se não em tudo, ao menos na medida do possível. Este Santo rei, não contente em assistir diariamente a muitas Santas Missas, de joelhos sobre o chão duro, e de servir aos padres no altar, com mais humildade que um seminarista, presenteava, ainda, as igrejas com as jóias mais preciosas de seu tesouro e as mais ricas  tapeçarias de seu palácio.

Costumava, além disso, confeccionar, com suas próprias mãos, as hóstias destinadas ao santo Sacrifício. Para este fim e sem receio de diminuir sua dignidade real, com suas mãos feitas para empunhar o cetro, cultivava um campo, conduzindo a charrua, semeava o trigo, fazia a colheita, depois moia os grãos, peneirava a farinha, preparava e cortava as hóstias e as apresentava com o mais profundo respeito aos sacerdotes, para que as convertessem no Corpo do Salvador. Ó mãos dignas, de São Venceslau, de empunhar o cetro da Terra inteira! Qual foi, porém, a recompensa de tão terna piedade?

Permitiu DEUS que o imperador Oto I concebesse pelo santo rei tal benevolência que lhe concedeu o privilégio de gravar em seu brasão as armas do império: a águia negra sobre fundo branco, favor nunca obtido por nenhum outro príncipe. Deste modo, por intermédio do imperador, quis DEUS recompensar a grande devoção de São Venceslau ao Sacrifício da Eucaristia. Magnífica, porém foi sua recompensa no Céu, quando, por um glorioso martírio, obteve uma bela coroa de glória eterna. E assim, graças a essa afeição profunda à Santa Missa, ele foi duplamente coroado, neste mundo e no outro.

-- Do Livro As Excelências da Santa Missa, de São Leonardo de Porto Príncipe, presbítero (século XVIII)

1 de out. de 2011

Exemplos para assistir a Santa Missa


Aqueles que não têm gosto para assistir à Santa Missa, invocam inúmeros pretextos para escusar sua tibieza. Podeis vê-los absolvidos por seus negócios. Cheios de solicitude e zelo pelo progresso de seus miseráveis interesses.

Para isso toda fadiga é leve e não há dificuldade que os retenha. Ao contrário, para assistir à Santa Missa, que é o mais importante dos tesouros, ei-los cheios de frieza e preguiça, invocando centenas de escusas frívolas: seus números cuidados, sua saúde delicada, os embaraços da família, a falta de tempo, o excesso de ocupações. Em suma, se a Santa Madre Igreja não os obrigasse sob pena de pecado a assistir à Santa Missa ao menos, aos domingos e dias santificados, sabe DEUS se visitariam jamais uma igreja ou dobrariam o joelho ante um altar. 

Ó vergonha ó profunda miséria de nossos tempos infelizes, que estamos longe do fervor dos primeiros cristãos, os quais, como já disse, assistiam todo dia à Santa Missa e recebiam o pão dos Anjos. No entanto não lhes faltavam afazeres, cuidados, ocupações. Mas a própria Santa Missa era para eles um auxílio para bem dirigir seus negócios e interesses espirituais e temporais. Mundo obcecado! Quando abrirás os olhos para reconhecer tão palpável ilusão? Vamos! Despertemos todos! E que nossa devoção preferida, a mais amada, seja assistir diariamente à Santa Missa e nela comungar, pelo menos espiritualmente.

Para alcançar tão santo resultado, não sei de meio mais eficaz que o exemplo, pois é uma máxima indiscutível que todos vivimus ab exemplo: isto é, que tudo que vemos feito por nossos semelhantes se nos torna acessível e fácil.

Não poderás fazer, dizia a si próprio Santo Agostinho, o que fazem estes e aqueles? Apresentarei, portanto, alguns exemplos interessantes de pessoas diversas, e por este meio espero convencer todo o mundo.

Uma mulher, que entra na Igreja com um traje espaventoso, atrai todos os olhares, e queira DEUS não atraia também os corações, arrebatando ao SENHOR as devidas adorações. Não é preciso excitar estas pessoas a assistir todos os dias à Santa Missa; já são demais levadas a freqüentar as igrejas. O importante será fazer-lhes compreender com que modéstia e respeito devem portar-se na casa de DEUS,  especialmente quando se celebra a Santa Missa. Tanto mais me edificam senhoras da nobreza e princesas que só aparecem ante aos altares vestidas simplesmente, sem luxo nem elegâncias refinadas, quanto me escandalizam certas pretensiosas que, com seus penteados ridículos e ares de atrizes, assumem poses de deusas no lugar santo.

A bem-aventurada Ivete teve, certo dia, uma visão, que devia inspirar a essas pessoas o temor respeitoso devida à Santa Missa. Ao assistir à Santa Missa viu essa nobre flamenga um espetáculo terrível. Perto dela estava uma dama distinta, cujo olhar se fixava aparentemente no altar; mas não era para seguir o Santo Sacrifício, nem para adorar o Santíssimo Sacramento que ia receber, e sim, para satisfazer uma paixão impura. Em volta dela estavam um grande número de demônios que dançavam e se expandiam em demonstrações de regozijo. Quando ela se levantou para se dirigir à mesa sagrada, uns lhe seguraram a cauda do vestido, outro lhe ofereceu o braço enquanto outros lhe faziam cortejo e serviam-lhe como a sua senhora. No momento em que o sacerdote descia do altar com a Santa Hóstia na mão a fim de dar a comunhão àquela infeliz, pareceu a Ivete que o Salvador abandonava as santas espécies e volvia ao Céu, repugnando-Lhe entrar num coração assim rodeado de espíritos das trevas.

Aterrorizada por semelhante cena, a bem-aventurada Ivete dirigia humildes preces a Nosso Senhor. E Ele revelou-lhe a causa, fazendo-lhe ver que aquela mulher alimentava uma paixão desordenada por uma pessoa que se achava próxima do altar, e que durante toda a Santa Missa, ao invés de se ocupar dos Santos Mistérios, contemplava-a com olhares impuros, desejando antes lhe agradar que agradar a DEUS. Por isso rodeavam-na os demônios e faziam-lhe o cortejo.

Dir-me-eis que não sois do número dessas infelizes criaturas, e eu creio de boa vontade. Se, entretanto, ides à Igreja com certos trajes escandalosos, mereceis todas as censuras. Transformeis o templo sagrado em covil de ladrões, pois roubais a DEUS a honra, pelas distrações que provocais aos sacerdotes, aos ministros, a todo o povo. 

Por favor, considerai e tomai a resolução de imitar Santa Isabel da Hungria. Para assistir à Santa Missa, ela se dirigia com grande pompa à Igreja. Mas, para assistir ao Santo Sacrifício retirava da cabeça a coroa, os anéis dos dedos, depunha seus ornamentos e cobria-se com um véu, ficando em atitude tão modesta que nunca foi vista desviar sequer os olhos. Tudo isso agradou de tal modo a DEUS, que Ele quis manifestá-lo a todos: durante a Santa Missa a Santa aparecia envolta de tal claridade que se velavam de deslumbramento os olhos dos assistentes; parecia-lhes contemplar um anjo do Paraíso. Imitai exemplo tão ilustre, certos de que agradareis a DEUS e aos homens, e que a Santa Missa será para vós de imenso proveito para esta vida e para a outra.

Muitas vezes, porém há impossibilidade para certas pessoas, ou mesmo inconveniência de ir à Igreja todos os dias. Vós que tendes filhos pequenos, ou que por obrigação ou caridade cuidais de um doente, ou que tendes um marido difícil que vos proíbe sair, não deveis inquietar-vos, ou, o que é pior, desobedecer. Pois, ainda que a Santa Missa seja um santo tesouro e de valor infinito, apesar de tudo, é sempre ainda melhor obedecer e renunciar à própria vontade, pois a obediência é imensamente valiosa.
São Leonardo de Porto Maurício pregando na Piazza
Navona (Roma) por ocasião do Jubileu em 1750. A seu
pedido, o Papa Bento XIV mandou construir uma Via Sacra
dentro do Coliseu.

Que sucederia, no entanto, se fôsseis à Santa Missa para vos entregardes à tagarelice, à curiosidade, às distrações voluntárias, e voltásseis com as mãos vazias? Foi o que sucedeu a uma camponesa, que morava em uma aldeia um pouco afastada da Igreja. Querendo alcançar uma graça importante, ela prometeu assistir à Santa Missa durante um ano. Com esta intenção, todas as vezes que ouvia repicar o sino anunciando a Santa Missa, em alguma Igreja dos arredores, largava imediatamente seu trabalho e punha-se a caminho sem atender sequer às inclemências do tempo. De volta a casa, para não perder a conta das Santas Missas assistidas, que tencionava completar exatamente conforme se impusera, depositava cada vez uma fava em uma caixa cuidadosamente guardada. Passou-se o ano, e ela, certa de ter cumprido a promessa e alcançado muitos méritos, foi abrir a caixa. Ora, de tantas favas que ajuntara, só encontrou uma. Surpreendida e consternada, invadiu-a um grande pesar, e dirigiu-se a DEUS, dizendo-lhe lacrimosa: Ó SENHOR, como é possível que, de tantas Santas Missas que participei, só uma se encontre de sobra? Nunca faltei, a despeito do esforço a fazer, do mau tempo, da chuva, do frio e do caminho ruim!

DEUS então lhe inspirou a idéia de contar sua infelicidade a um piedoso sacerdote muito prudente. Este lhe perguntou de que modo ia ela à igreja, e com que devoção assistia ao santo Sacrifício. Então ela disse-lhe que, no caminho só falava de negócios ou de diversões e passava o tempo dos divinos Mistérios a tagarelar com um e outro, tendo o espírito ocupado exclusivamente com sua casa e seus campos. “Aí está, lhe disse o padre, o motivo de nada restar dessas Missas. A tagarelice, a curiosidade, as distrações voluntárias vos roubaram todo o mérito. Satanás vo-lo roubou. Por isso vosso Anjo fez desaparecer as favas, para vos mostrar que as obras mal feitas, ficam perdidas. Dai graças a DEUS porque, pelo menos, uma das Santas Missas, foi bem assistida e vos trouxe frutos.”

Fazei agora uma reflexão bem séria e dizei: Quem sabe, de tantas Santas Missas a que tenho assistido em minha vida, quantas foram agradáveis a DEUS? Que vos responde a consciência! Se vos parece que bem poucas dessas Santas Missas são dignas de mérito aos olhos de DEUS, remediai esta situação e emendai-vos sinceramente para o futuro.

-- Do Livro As Excelências da Santa Missa, de São Leonardo de Porto Príncipe, presbítero (século XVIII)

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