29 de set. de 2010

A palavra anjo indica o ofício, não a natureza

É preciso saber que a palavra Anjo indica o ofício, não a natureza. Pois esses santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados de Anjos, porque somente são Anjos quando por eles é feito algum anúncio. Aqueles que anunciam fatos menores são ditos Anjos; os que levam as maiores notícias, Arcanjos.

Foi por isso que à Virgem Maria não foi enviado um Anjo qualquer, mas o Arcanjo Gabriel; para tal missão, era justo que fosse o máximo Anjo para anunciar a máxima notícia.

Por esse motivo, também a eles são dados nomes especiais para designar, pelo vocábulo, seu poder na ação. Naquela santa cidade, onde há plenitude da ciência pela visão do Deus onipotente, não precisam de nomes próprios para distinguirem uns dos outros. Mas quando vêm até nós para cumprir uma missão, trazem também entre nós um nome derivado dessa missão. Assim, Miguel significa “Quem como Deus?”; Gabriel, “Força de Deus”; e Rafael, “Deus cura”.

Todas as vezes que se trata de grandes feitos, diz-se que Miguel é enviado, porque pelo próprio nome e ação dá-se a entender que ninguém pode por si mesmo fazer o que Deus quer destacar. Por isso, o antigo inimigo, por soberba, cobiçou ser igual a Deus, dizendo: “Subirei ao céu, acima dos astros do céu erguerei meu trono, serei semelhante ao Altíssimo” (cf. Is 14, 13-14); no fim do mundo, quando será abandonado às próprias forças para ser destruído no extremo suplício, pelejará com o Arcanjo Miguel, como diz João: Houve uma luta com o Miguel Arcanjo (Ap 12, 7).

A Maria é enviado Gabriel, que significa “Força de Deus”. Vinha anunciar aquele que se dignou aparecer humilde para combater as Potestades do ar. Portanto, devia ser anunciado pela força de Deus o Senhor dos Exércitos que vinha poderoso no combate.

Rafael, significa “Deus cura”, porque ao tocar nos olhos de Tobias como que num ato de cura, lavou as trevas de sua cegueira. Quem foi enviado a curar, com justiça se chamou “Deus cura”.

-- Das Homilías sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, Papa, século VI

28 de set. de 2010

A Morte de São Venceslau

Pela morte de seu Bratislau, os habitantes da Boêmia constituíram Venceslau seu príncipe. E pela graça de Deus ele era perfeito. Pois fazia o bem a todos os pobres, vestia os nus, alimentava os famintos, acolhia os peregrinos consoante a palavra evangélica. Não admitia que se causasse dano às viúvas, amava a todos, pobres e ricos, servia os servos de Deus, adornava muitas igrejas.

Mas alguns homens da Boêmia tornaram-se soberbos e persuadiram a Boleslau, seu irmão mais moço, dizendo: "Teu irmão Venceslau, conspirando com a mãe e seus homens, vai te matar".

Celebrando-se festas da dedicação das igrejas em todas as cidades, Venceslau visitava-as todas. Entrou na cidade de Boleslávia, num domingo, festa de Cosme e Damião. Terminada a missa, quis voltar a Praga. Mas Boleslau, com más intenções, reteve-o dizendo: "Por que te vais embora, irmão?" De manhã, soaram os sinos para o ofício matutino. Ouvindo o som dos sinos, Venceslau disse: "Louvor a ti, Senhor, que me deste viver até esta manhã". Levantou-se e foi ao ofício matutino.

Boleslau logo o alcançou à porta. Venceslau olhou-o e disse: "Irmão, ontem nos serviste bem". O demônio inclinou-se ao ouvido de Boleslau e perverteu seu coração; desembainhando a espada, respondeu-lhe: "Vou, agora, servir-te melhor". Dito isto, feriu-lhe a cabeça com a espada.

Venceslau, voltando-se para ele, disse: "Qual é a tua intenção, irmão?". E agarrando-o, lançou-o por terra. Mas acorreu um dos conselheiros de Boleslau e feriu a mão de Venceslau. E agarrando-o, lançou-o por terra. Este, com a mão ferida, largou o irmão e refugiou-se na igreja. Contudo dois malfeitores o mataram à porta da igreja. Veio um terceiro e traspassou-lhe o lado com a espada. Venceslau expirou logo com estas palavras: Em suas mãos, Senhor, entrego meu espírito (cf. Sl 30, 6).

-- Da Primeira Legenda Paleoeslava

27 de set. de 2010

O Modo de Orar

O Senhor de modo divino também te ensinou a bondade do Pai que sabe dar coisas boas, para que ao Bom peças tudo o que é bom. E aconselhou a orar con instância e repetidamente; não em prece fastidiosa pela duração, mas continuada pela freqüência. Futilidades afogam, as mais das vezes, a longa oração, e na muito interrompida facilmente se insinua o descuido.

Exorto ainda a que, quando lhe pedes perdão para ti, saibas que será concedido sobretudo aos outros, na medida em que apoiares o pedido com a voz das tuas obras. O Apóstolo também ensina que se deve orar sem ira nem contestação, para que não se turve, não se altere tua súplica.

E ainda ensina que se há de rezar em todo lugar (cf. 1Tm 2,8), pois disse o Salvador: Entra em teu quarto (Mt 6,6). Não entendas, porém, um quarto cercado de paredes, onde teu corpo fica fechado, mas o quarto que existe dentro de ti, onde são encerrados teus pensamentos, onde moram teus sentimentos. Este quarto de tua oração em toda parte está contigo, em toda parte é secreto, sem outro juiz que não somente Deus.

-- Do Tratado sobre Caim e Abel, de Santo Ambrósio

25 de set. de 2010

Para viver bem, deve-se morrer para o mundo

Agora, para viver bem é necessário, em primeiro lugar, morrer para o mundo antes de morrer em corpo. Todos que vivem para o mundo estão mortos para Deus: não podemos de nenhum modo viver para Deus, exceto se primeiro morrermos para o mundo. Esta verdade está tão plenamente revelada nas Sagradas Escrituras, que apenas infiéis podem negá-la. Mas, como toda verdade deve ser proclamada pela boca de duas ou três testemunhas, vou citar os santos apóstolos, São João, São Paulo e São Tiago, por que através deles o Espírito Santo, o espírito da verdade, falou plenamente.

Escreve São João: "Já não conversarei muito convosco, pois o príncipe deste mundo vem, contra mim ele nada pode" (Jo 14,30). Aqui o demônio é dito "o príncipe deste mundo", que é rei de todos os vícios; e por "mundo", é entendido a companhia de todos os pecadores que amam o mundoe são amados por ele. Um pouco depois, o evangelista continua: "Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro, odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; mas porque não sois do mundo e minha escolha vos separou do mundo, o mundo, por isso, vos odeia." (Jo 15, 19). E em outro ponto: "Não rogo pelo mundo, mas pelos que me deste, porque são teus" (Jo 17, 9). Aqui, Cristo claramente nos  diz que por "mundo" significa quem, com o príncipe do mundo, devem ouvir no último dia: "Vão, conforme predito, para o fogo eterno." (cf Ap 20, 19). São João acrescenta em sua epístola: "Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o orgulho da riqueza - não vem do Pai, vem do mundo. Ora, o mundo passa com suas concupiscências; mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente" (1Jo 2 16-17).

Vamos agora ouvir como São Tiago fala em sua epístola: "Adúlteros, não sabeis que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Assim, todo aquele que quer ser amigo do mundo torna-se inimigo de Deus" (Tg 4,4). Então, São Paulo, aquele vaso da eleição, escreve em sua Primeira Epístola aos  Coríntios, para todos que tem fé: "Vossas necessidades vão além deste mundo", e em outro lugar, na mesma Epístola: "Mas por seus julgamentos o Senhor nos corrige, para não sejamos condenados com o mundo" (1Co 11,32).

Aqui nos é dito claramente que o mundo inteiro será condenado no último dia. Mas por "mundo" não significa céu e terra, nem aqueles que vivem nele; mas somente aqueles que amam o mundo. Os justos e piedosos, em quem reina o amor de Deus, não a concupiscência da carne, estão no mundo, mas não são do mundo: mas os perdidos em vícios não apenas estão no mundo, eles também pertencem a este mundo; pois não o amor de Deus, mas a concupiscência do mundo reina em seus corações, ou seja, luxúria e a concupiscência dos olhos, a avareza e o "orgulho da vida", que é a estima por eles mesmos acima dos outros; então eles imitam a arrogância e o orgulho do demônio, não a humildade e suavidade de Jesus Cristo.
 
-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)
-- Nota: sempre que possível procuro utilizar fontes creditáveis, como textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês.

24 de set. de 2010

Sobre a Carta aos Filipenses

O Senhor está perto; de nada vos inquieteis (Fl 4, 5-6). O Senhor está sempre perto daqueles que o invocam na verdade, com fé íntegra, esperança firme, caridade perfeita. Ele sabe do que precisais, antes mesmo que o peçais. Está sempre pronto a vir em auxílio dos que o servem fielmente, em qualquer necessidade sua.

Por conseguinte, não temos de preocupar-nos demais com as dificuldades iminentes, porque sabemos estar próximos Deus, nosso defensor, conforme nos foi dito: O Senhor está junto dos que têm o coração atribulado e salva os humildes no espírito. Muitas as tribulações dos justos, porém, de todas elas o Senhor os livrará (Sl 33, 19-20). Se nos esforçarmos por realizar e guardar o que ordenou, ele não tardará a nos dar o prometido.

Mas em tudo, por orações e súplicas acompanhadas de ação de graças, apresentai vossos pedidos a Deus (Fl 4,6): não aconteça que aflitos, suportemos as tribulações com murmuração e tristeza. Isto nunca, mas com paciência e de rosto alegre, dando sempre e por tudo graças a Deus (Ef 5,20).

-- Do Tratado sobre a Carta aos Filipenses, do Pseudo-Ambrósio, século IV

22 de set. de 2010

Homília sobre São Mateus

Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” (Mt 9, 9). Jesus o viu não tanto com os olhos do corpo, mas com os olhos do amor. Viu o publicano, e o amou e escolheu, e lhe disse: “Segue-me!”, isto é, imita-me. Pedindo-lhe que o seguisse, não pedia tanto que fosse atrás dele, mas que vivesse como ele; pois aquele que diz permanecer em Cristo deve proceder como Cristo procedeu. Mateus se levantou e seguiu-o (Mt 9, 9).

Nada de espantoso que o publicano, ao primeiro e imperioso apelo do Senhor, tenha abandonado sua busca de lucros terrenos, e, desprezando os bens temporais, tenha aderido àquele que via desinteressado de qualquer riqueza. É que o Senhor, chamando-o exteriormente pela sua palavra, tocava-lhe o mais fundo da alma, espalhando em seu coração, para que o seguisse, a graça espiritual.

Enquanto estava à mesa na casa de Mateus, vieram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se à mesa, junto com Jesus e seus discípulos (Mt 9, 10). A conversão de um só publicano abriu o caminho da penitência e do perdão a muitos publicanos e pecadores. Belo presságio, na verdade: aquele que devia mais tarde ser apóstolo e doutor entre os pagãos arrasta consigo, por ocasião de sua conversão, os publicanos e pecadores, que tomam o caminho da salvação. O ministério que ia desempenhar após progredir na virtude, Mateus já o inicia nos primórdios de sua fé.

Experimentemos compreender profundamente o episódio aqui relatado. Mateus não ofereceu ao Senhor apenas um banquete corporal em sua casa terrestre. Mais que isto: preparou-lhe um festim na casa de seu coração, por sua fé e seu amor, como testemunha aquele que diz: Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e tomaremos a refeição, eu com ele e ele comigo (Ap 3, 20).

Sim, o Senhor está à porta e bate quando o nosso coração está atento a sua vontade, seja pela boca do homem que ensina, seja por uma inspiração interior. Abrimos nossa porta ao apelo de sua voz, quando damos livre assentimento a suas admoestações internas ou externas, e quando pomos em execução o que concluímos que devemos fazer. Então ele entra para tomar a refeição, ele conosco e nós com ele, pois habita no coração dos eleitos pela graça do seu amor, para alimentá-los constantemente com a luz de sua presença, a fim de que elevem progressivamente os seus desejos. E ele também se alimenta desse zelo pelas coisas do céu, que são como o mais delicioso alimento.

-- Das Homílias de São Beda Venerável, presbítero, século VIII

20 de set. de 2010

Revistamo-nos com as armas da justiça

A raiz de todos os males é a ânsia de possuir (1 Tm 6,10). Certos de que nada trouxemoos para este mundo nem dele poderemos levar coisa alguma (1 Tm 6,7) revistamos com as armas da justiça e ensinemos a caminhar no preceito do Senhor. A nós mesmos em primeiro lugar; depois, a vossas esposas, para que andem na fé que lhes foi entregue e na caridade e castidade. Que amem seus maridos com inteira fidelidade e estimem a todos com recato. Eduquem os filhos na disciplina do Senhor (cf. Ef 5,23). As viúvas ensinemos a serem versadas na doutrina do Senhor, intercedendo sem cessar por todos, afastadas de toda a impostura, maledicência, falso testemunho, da avareza e de todo mal. Conscientes de serem altar de Deus e de que ele tudo vê claramente, nada lhe escapa de apreciações, de pensamentos e dos segredos do coração (cf. 1Tm 5).

Sabendo, portanto, que não se zomba de Deus (Gl 6,7), devemos caminhar de modo digno conforme seu preceito manifesto. Igualmente têm os diáconos de ser irrepreensíveis em face da justiça, como ministros de Deus e do Cristo, não dos homens. Não sejam maldizentes, falsos, ávaros (1Tm 3,6s), mas sóbrios em tudo, misericordiosos, dedicados, vivendo de acordo com a verdade do Senhor que se fez o servo de todos. Se lhes formos agradáveis neste mundo, seremos recompensados no outro, como nos prometeu: ele ressuscitará dos mortos a cada um de nós. Se vivermos de modo digno dele, também com ele reinaremos (2Tm 2,12), já que temos fé.

-- Da carta aos Filipenses, de São Policarpo, bispo e mártir (século II)

18 de set. de 2010

Quem vive bem, irá morrer bem

A regra geral "quem vive bem, irá morrer bem" deve ser mencionada antes de tudo, pois sendo a morte nada mais que o fim da vida, é certo que quem viver bem até o final da sua vida, morrerá bem; nem pode morrer doente quem que nunca estiver doente; por outro lado, quem nunca tiver vivido bem, não poderá morrer bem. A mesma coisa é observável em muitos casos similares: todos que houverem percorrido o caminho certo poderão chegar aos seus destinos; ao contrário, aqueles que vaguearem por aí, jamais chegarão ao final de sua jornada.

Também, quem se aplicar diligentemente aos estudos, logo se tornará sábio doutor; mas aqueles que não se dedicarem, serão ignorantes. Mas, talvez, alguém mencione o exemplo do Bom Ladrão, que viveu de maneira errada e morreu corretamente. Este não é o caso; pois o Bom ladrão teve uma vida santa e, portanto, teve uma morte também santa. Mas, mesmo entendendo que ele dispendeu grande parte dos seus dias na maldade, outra parte de sua vida foi tão bem dispendida que ele facilmente se arrependeu de seus pecados e ganhou as maiores graças do céu.

Queimando com o amor de Deus, ele abertamente defendeu nosso Salvador das calunias de Seus inimigos; e dirigiu-se com a mesma caridade a seu vizinho, ele repreendeu e admosteu, dizendo: "Nem sequer temes a Deus, estando na mesma condenação? Quanto à nós, é de justiça; pagamos por nossos atos; mas ele não fez nenhum mal" (Lc 23, 40-41). Nem estava ele morto quando, confessando e chamando por Cristo, ele pronunciou estas nobres palavras: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres com teu reino" (Lc 23, 42). O Bom Ladrão então chegou para ser um daqueles que chegaram por último na vinha e, no entanto, recebererão a mesma recompensa dos primeiros.

Verdade, por isso, a sentença "quem vive bem, irá morrer bem"; e "quem viver mal, morrerá mal". Nós temos que concordar que é mais perigoso adiarmos nossa conversão dos pecados para a virtude: muito mais feliz são os que aceitam o jugo do Senhor desde sua juventude, como disse Jeremias; e extremamente abençoados são aqueles "que não são contaminados por mulheres, e em cuja boca não se encontram mentiras, pois estão sem manchas, em frente ao trono de Deus. Estes foram resgatados dentre os homens, como primícias para Deus e para o Cordeiro" (Ap 14,3-5). Exemplos são Jeremias, São João, "mais que um profeta", e acima de todos, a Mãe de nosso Senhor, bem como todos a quem Deus reconheceu.
A primeira grande verdade, agora, está estabelecida, pois uma boa morte depende de uma boa vida.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)
 
-- Nota: sempre que possível procuro utilizar fontes creditáveis, como textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês. Minha fonte está disponível aqui.

17 de set. de 2010

A elevação da mente a Deus, de São Roberto Belarmino

Senhor, prometes aos que guardam os mandamentos um prêmio, coisas mais desejáveis que ouro em abundância e mais doces que o favo de mel? Sim, prometes um prêmio imenso, nas palavras de teu apóstolo Tiago: O Senhor preparou a coroa da vida para os que o amam (Tg 1,12). E que é a coroa da vida? É o maior bem que nem podemos imaginar e desejar. Com efeito, assim fala São Paulo, citando Isaías: Os olhos não viram, os ouvidos não ouviram nem subiu ao coração do homem o que Deus preparou para os que o amam (1 Cor 2,9; cf Is 64, 1-3; 65,17).

Verdadeiramente, há grande recompensa em guardar teus mandamentos. E não apenas o primeiro e máximo mandamento é de proveito para quem obedece, e não para Deus que ordena; mas também todos os outros  aperfeiçoam, ornam, instruem, ilustram aquele que obedece e, por fim o tornam bom e feliz. Se és sensato entende que foste criado para a glória de Deus e tua salvação eterna. É este o teu fim, este o centro de tua alma, este o tesouro de teu coração. Se chegares a este fim, serás feliz; se nele falhares, serás infeliz.

Por conseguinte, tem por verdadeiro bem aquilo que te leva a teu fim; e por mal, o que te separa deste fim. Prosperidade e adversidade, riqueza e indigência, saúde e doença, honras e vexames, vida e morte, nem uma delas o sábio procura por si mesmo nem delas foge. Mas se concorrem para a glória de Deus e tua eterna felicidade, são boas e desejáveis; se as impedem, são más; mas deve-se fugir delas.

-- Do Tratado sobre a elevação da mente a Deus, de São Roberto Belarmino (século XVII)

16 de set. de 2010

Se Deus ama todos os seres.

O segundo discute-se assim. — Parece que Deus não ama todos os seres.

1. — Pois, o amor põe o amante fora de si e, de certo modo, o transfere para o amado. Ora, é impróprio dizer que Deus, exteriorizando-se a si mesmo, se transfere aos outros seres. Logo, é inadmissível que Deus ame seres diversos de si.

2. Demais. — O amor de Deus é eterno. Ora, os outros seres, diferentes de Deus, não existem abeterno senão em Deus. Logo, Deus não os ama senão em si mesmo. Mas, enquanto estão nele, dele não diferem. Portanto, Deus não ama seres diversos de si.

3. Demais. — O amor é duplo: de concupiscência ou de amizade. Ora, Deus não ama as criaturas irracionais por amor de concupiscência, porque de nada precisa, além de si mesmo; e nem pelo de amizade, que não pode existir em relação aos irracionais, como está claro no Filósofo. Logo, Deus não ama todos os seres.

4. Demais. — A Escritura diz (Sl 5, 6): Aborrece a todos os que obram a iniqüidade. Ora, nada pode ser ao mesmo tempo odiado e amado. Logo, Deus não ama todos os seres.

Mas, em contrário, a Escritura (Sb 11, 24): Tu amas todas as coisas que existem e não aborreces nada que fizeste.

SOLUÇÃO. — Deus ama tudo o que existe, porque tudo o que existe, na medida mesma em que existe, é bom; pois, o ser mesmo de qualquer coisa, assim como qualquer perfeição sua, é um bem. Ora, já demonstramos que a vontade de Deus é a causa de todos os seres. Donde resulta necessariamente, que um ente tem o ser, ou qualquer bem, na medida mesma em que é querido de Deus. Logo, a cada ser existente Deus quer algum bem. Por onde, o amor não sendo senão querer bem a alguém, é claro que Deus ama tudo quanto existe. Não porém como nós. Pois, longe de ser causa da bondade das coisas, a nossa vontade é movida por essa bondade, como pelo seu objeto. O nosso amor, pelo qual queremos bem a alguém, não é a causa da bondade desse ser; mas, inversamente, a bondade verdadeira ou suposta do ser, a quem queremos bem, provoca o nosso amor, que nos faz querer que tal se conserve o bem que possui e se lhe acrescente o que não possui; e para isso cooperamos. Ao contrário, o amor de Deus infunde e cria a bondade dos seres.

São Tomas de Aquino, doutor da Igreja
DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — O amante, transferindo-se para o amado, exterioriza-se a si mesmo, enquanto quer o bem para o amado e obra, pela sua providência, como se o fizesse para si próprio. Por isso, diz Dionísio: Devemos ousar dizer, que é verdade que a própria causa de tudo, por abundância da bondade amante, se exterioriza a si mesma, pela providência para com tudo o que existe.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Embora as criaturas não existissem abeterno senão em Deus, contudo, por terem nele existido desse modo, Deus as conheceu abeterno nas suas naturezas próprias. E pela mesma razão as amou. Assim como nós, pelas semelhanças das coisas que em nós existem, conhecemos as que existem em si mesmas.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Só pode haver amizade para com as criaturas racionais, capazes de retribuir o amor e de participarem das obras da vida. E às quais é próprio suceder bem ou mal, conforme a fortuna e a felicidade; assim como também lhes é própria a benevolência. Mas, as criaturas irracionais não podem chegar a amar a Deus nem à participação da vida intelectual e feliz, que Deus vive. Portanto Deus, propriamente falando, não ama as criaturas irracionais, por amor de amizade mas, como por amor de concupiscência, ordenando-as às racionais. E mesmo a si próprio; não que delas precise, mas, pela sua bondade e para nossa utilidade. Pois, nós desejamos alguma coisa tanto para nós como para os outros.

RESPOSTA À QUARTA. — Nada impede que, a uma luz, amemos, e, a outra, odiemos a uma mesma coisa. Assim, Deus ama os pecadores enquanto têm uma certa natureza; pois, como tais, existem e provêm de Deus. Mas enquanto pecadores não existem, mas, têm o ser falho; e, como isso não lhes vem de Deus, são, como tais odiados dele.

-- Do Livro Suma Teológica, de Santo Tomas de Aquino (século XIII)

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