3 de abr. de 2012

Há uma só morte que resgata o mundo e uma só ressurreição dos mortos


O desígnio de nosso Deus e Salvador em relação ao homem consiste em levantá-lo de sua queda e fazê-lo voltar, do estado de inimizade ocasionado por sua desobediência, à intimidade divina. A vinda de Cristo na carne, os exemplos de sua vida apresentados pelo Evangelho. A paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que, imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial.

Portanto, para atingir a perfeição, é necessário imitar a Cristo, não só nos exemplos de mansidão, humildade e paciência que ele nos deu durante a sua vida, mas também imitá-lo em sua morte, como diz São Paulo, o imitador de Cristo: Tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos (Fl 3,10).

Mas como poderemos assemelhar-nos a Cristo em sua morte? Sepultando-nos com ele por meio do batismo.Em que consiste este sepultamento e qual é o fruto dessa imitação? Em primeiro lugar, é preciso romper com a vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto se não nascer de novo, conforme a palavra do Senhor, porque o renascimento, como a própria palavra indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é preciso pôr fim à antiga. Assim como, no estádio, os que chegam ao fim da primeira parte da corrida, costumam fazer uma pequena pausa e descansar um pouco antes de iniciar o retorno, do mesmo modo era necessário que nesta mudança de vida interviesse a morte, pondo fim ao passado para começar um novo caminho.

E como imitar a Cristo na sua descida à mansão dos mortos? Imitando no batismo o seu sepultamento. Porque os corpos dos batizados ficam, de certo modo, sepultados nas águas. O batismo simboliza, pois, a deposição das obras da carne, segundo as palavras do Apóstolo: Vós também recebestes uma circuncisão, não feita por mão humana, mas uma circuncisão que é de Cristo, pela qual renunciais ao corpo perecível. Com Cristo fostes sepultados no batismo (Cl 2,11-12). Ora, o batismo, por assim dizer, lava a alma das manchas contraídas por causa das tendências carnais, conforme está escrito: Lavai-me e mais branco do que a neve ficarei (Sl 50,9). Por isso, reconhecemos um só batismo de salvação, já que é uma só a morte que resgata o mundo e uma só a ressurreição dos mortos, das quais o batismo é figura.

-- Do Livro sobre o Espírito Santo, de São Basílio Magno, bispo (seculo IV)

1 de abr. de 2012

Gloriemo-nos também nós na Cruz do Senhor!


A Paixão de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é para nós penhor de glória e exemplo de paciência.

Haverá alguma coisa que não possam esperar da graça divina os corações dos fiéis, pelos quais o Filho unigênito de Deus, eterno como o Pai, não apenas quis nascer como homem entre os homens, mas quis também morrer pelas mãos dos homens que tinha criado?

Grandes coisas o Senhor nos promete no futuro! Mas o que ele já fez por nós e agora  celebramos é ainda muito maior. Onde estávamos ou quem éramos, quando Cristo morreu por nós pecadores? Quem pode duvidar que ele dará a vida aos seus fiéis, quando já lhes deu até a sua morte? Por que a fraqueza humana ainda hesita em acreditar que um dia os homens viverão em Deus?

Na terra, escuridão e morte; a luz do céu ilumina
somente a Cristo.

A Crucificação, pintura de Anton Raphael Mengs,
1761-9. Está no Palácio Real, Arajuez, Espanha.
Muito mais incrível é o que já aconteceu: Deus morreu pelos homens.

Quem é Cristo senão aquele que no princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus: e a Palavra era Deus? (Jo 1,1). Essa Palavra de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Se não tivesse tomado da nossa natureza a carne mortal, Cristo não teria possibilidade de morrer por nós. Mas deste modo o imortal pôde morrer e dar sua vida aos mortais. Fez-se participante de nossa morte para nos tornar participantes da sua vida. De fato, assim como os homens, pela sua natureza, não tinham possibilidade alguma de alcançar a vida, também ele, pela sua natureza, não tinha possibilidade alguma de sofrer a morte.

Por isso entrou, de modo admirável, em comunhão conosco: de nós assumiu a mortalidade, o que lhe possibilitou morrer; e dele recebemos a vida.

Portanto, de modo algum devemos envergonhar-nos da morte de nosso Deus e Senhor; pelo contrário, nela devemos confiar e gloriar-nos acima de tudo. Pois tomando sobre si a morte que em nós encontrou, garantiu com total fidelidade dar-nos a vida que não podíamos obter por nós
mesmos.

Se ele tanto nos amou, a ponto de, sem pecado, sofrer por nós pecadores, como não dará o que merecemos por justiça, fruto da sua justificação? Como não dará a recompensa aos justos, ele que é fiel em suas promessas e, sem pecado, suportou o castigo dos pecadores?

Reconheçamos corajosamente, irmãos, e proclamemos bem alto que Cristo foi crucificado por amor de nós; digamos não com temor, mas com alegria, não com vergonha, mas com santo orgulho.

O apóstolo Paulo compreendeu bem esse mistério e o proclamou como um título de glória. Ele, que teria muitas coisas grandiosas e divinas para recordar a respeito de Cristo, não disse que se gloriava dessas grandezas admiráveis – por exemplo, que sendo Cristo Deus como o Pai, criou o mundo; e, sendo homem como nós, manifestou o seu domínio sobre o mundo – mas afirmou: Quanto a mim, que eu me glorie somente na cruz do Senhor nosso, Jesus Cristo (Gl 6,14).

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

Semana Santa

Durante a Semana Santa pretendo publicar os textos do Ofício das Leituras dia-a-dia, finalizando com a Homília papal na Vigília de Páscoa. A todos, uma santíssima semana culminando com a Ressurreição de Cristo. Aqui na Arquidiocese de Nova Iorque, começamos com confissões em todas as paróquias nesta segunda-feira.



30 de mar. de 2012

Homília do Domingo de Ramos


"Hosana! Bendito seja O que vem em nome do Senhor! Bendito o reino do nosso pai David que está a chegar! Hosana nas alturas!" (Mc 11, 9s.)

Houve um dia em que Jesus de Nazaré foi exaltado à vista de todo o povo. E Ele permitiu isto. Antes, num certo sentido Ele mesmo criou as condições para que isto acontecesse, entrando em Jerusalém montado num jumentinho, rodeado dos seus discípulos, precisamente quando de várias partes da Terra Santa se dirigia para lá muita gente.

Quando os fariseus disseram: "Mestre, repreende os Teus discípulos", Ele retorquiu-lhes: "Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras" (Lc 19, 39 s.).

Houve um dia em que Jesus de Nazaré, cumprindo a vontade do Pai, consentiu que se manifestasse n'Ele a glória terrena do Messias: que se manifestasse diante de Jerusalém e pelos lábios dos seus conterrâneos. Deste modo, de fato, devia cumprir-se a Escritura, que exprime de maneira régia a glória do Messias: como exaltação do descendente de Davi.

Assim, portanto, hoje celebramos o dia da exaltação de Jesus de Nazaré diante dos olhos dos homens. Hoje também, ao entrarmos na liturgia da Semana Santa, começamos a meditar o mistério da exaltação do Messias diante de Deus.

Admirável é a liturgia do Domingo de Ramos, assim como admiráveis foram os acontecimentos do dia, ao qual ela se refere.

Sobre o entusiasmo do messiânico "Hosana" pesa uma sombra profunda. É esta a sombra da paixão que se aproxima. Quão significativas são afinal estas palavras do profeta, que se cumprem neste dia: "Não temas, ó filha de Sião. Aí vem o teu Rei sentado sobre o filho de uma jumenta!" (Jo 12, 15; cf. Zac 9, 9).

Pode, no dia do entusiasmo geral do povo pela vinda do Messias, a Filha de Sião ter motivo de temor? E no entanto, sim. Está próximo já o tempo, em que se cumprirão nos lábios de Jesus de Nazaré as palavras do Salmista: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?" (Sl 21/22, 2). Ele mesmo pronunciará estas palavras do alto da Cruz. Então, em vez do entusiasmo do povo que canta "Hosana", seremos testemunhas dos escárnios no pátio de Pilatos, no Gólgota, tal como proclama o Salmista: "Todos os que me vêem escarnecem de mim, torcem os lábios, meneiam a cabeça: 'Confiou no Senhor, que Ele o livre, que o salve, já que o ama'" (ibid.,vv. 8 s.).

A liturgia de hoje – a liturgia do Domingo de Ramos  permitindo que nos detenhamos diante da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, conduz-nos contemporaneamente ao término da paixão"Trespassaram as minhas mãos e os meus pés, posso contar todos os meus ossos...". E em seguida: "Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre elas" (ibid.,vv. 17-19).

Como se o Salmista visse já com os próprios olhos o desenrolar dos acontecimentos da Sexta-feira Santa. Verdadeiramente naquele dia, já próximo, Cristo far-se-á obediente até à morte, e esta será a morte de Cruz (cf. Fil 2, 8).

E precisamente aqui, ao término da Paixão, tem o seu início o mistério da exaltação do Messias. Esta exaltação é diversa da "histórica" exaltação diante dos homens, o dia do festivo "Hosana". É esta a exaltação em Deus mesmo.

A esta exaltação em Deus tomaram-se imediata introdução a humilhação de Cristo e o seu despojamento definitivo mediante a Cruz. "(Cristo Jesus) que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-se a Si mesmo, tomando a condição de servo..." (Fil 2, 6 s). Estas palavras da carta aos Filipenses referem-se não só à Paixão. Constituem elas, num certo sentido, a síntese de toda a vida de Cristo. Constituem o sinal de todo o mistério da Encarnação.

Destas palavras, com efeito, resulta claramente que Ele "se despojou a Si mesmo" pelo fato mesmo que, "embora sendo de natureza divina", aceitou a condição humana, a natureza humana: tomando a "condição de servo". Podendo de todas as maneiras "aproveitar a ocasião de ser igual a Deus", escolheu conscientemente tudo o que O tornava "semelhante" aos homens: "tido pelo aspecto como homem". E eis, aproximamo-nos do término deste nivelamento. Consegui-lo-emos então, quando Cristo "Se humilhar a si mesmo, feito obediente até à morte e morte de Cruz".

Mas precisamente este término significa o início da exaltação. A exaltação de Cristo está compreendida no despojamento de Cristo. A glória tem o seu início e a sua fonte na Cruz. São Paulo na carta aos Filipenses salienta-o claramente, quando faz iniciar a sucessiva frase do seu magnifico texto com a palavra "por isso". "Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome" (v. 9). O apóstolo vê esta exaltação à medida do mundo visível e invisível. Escreve então... "e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre nos Céus, na Terra e nos infernos, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor — para glória de Deus Pai" (vv. 9-11). 

Tal é a medida da exaltação de Cristo em Deus. Daquele Cristo, que no Domingo de Ramos permitiu a sua "exaltação" diante dos olhos de Jerusalém, quando não faltavam senão poucos dias para a crucifixão. Com o presente domingo a Igreja encontra-se no limiar da Semana Santa. É esta a semana pascal. Ela contém em si o mistério do despojamento de Cristo e da sua exaltação: da exaltação mediante o despojamento. Com grande humildade, com fé e com amor vamos ao encontro deste Mistério.

-- Homília da Celebração do Domingo de Ramos, Papa Joãp Paulo II, em 4 de Abril de 1982.

29 de mar. de 2012

Cristo ofereceu-se por nós



São Fulgêncio de Ruspe (467-533). Era vice-
governador de Bizâncio quando leu o comentário
sobre o Salmo 36, escrito por Santo Agostinho.
Decidiu então abraçar a vida monástica.

Os sacrifícios das vítimas materiais, que a própria Santíssima Trindade, Deus único do Antigo e do Novo Testamento, tinha ordenado que nossos antepassados lhe oferecessem, prefiguravam a agradabilíssima oferenda daquele sacrifício em que o Filho unigênito de Deus feito carne iria, misericordiosamente, oferecer-se por nós.

De fato, segundo as palavras do Apóstolo, ele se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). É ele o verdadeiro Deus e o verdadeiro sumo-sacerdote que por nossa causa entrou de uma vez para sempre no santuário, não com o sangue de touros e bodes, mas com o seu próprio sangue. Era isto que outrora prefigurava o sumo-sacerdote, quando, uma vez por ano, entrava no santuário com o sangue das vítimas.

É Cristo, com efeito, que, por si só, ofereceu tudo o quanto sabia ser necessário para a nossa redenção; ele é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, Deus e templo. Sacerdote, por quem somos reconciliados; sacrifício, pelo qual somos reconciliados; templo, onde somos reconciliados; Deus, com quem somos reconciliados. Entretanto, só ele é o sacerdote, o sacrifício e o templo, enquanto Deus na condição de servo; mas na sua condição divina, ele é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Acredita, pois, firmemente e não duvides que o próprio Filho Unigênito de Deus, a Palavra que se fez carne, se ofereceu por nós como sacrifício e vítima agradável a Deus. A ele, na unidade do Pai e do Espírito Santo, eram oferecidos sacrifícios de animais pelos patriarcas, profetas e sacerdotes do Antigo Testamento. E agora, no tempo do Novo Testamento, a ele, que é um só Deus com o Pai e o Espírito Santo, a santa Igreja católica não cessa de oferecer em toda a terra, na fé e na caridade, o sacrifício do pão e do vinho.

Antigamente, aquelas vítimas animais prefiguravam o corpo de Cristo, que ele, sem pecado, ofereceria pelos nossos pecados, e seu sangue, que ele derramaria pela remissão desses mesmos pecados. Agora, este sacrifício é ação de graças e memorial do Corpo de Cristo que ele ofereceu por nós, e do sangue que o mesmo Deus derramou por nós. A esse respeito, fala São Paulo nos Atos dos Apóstolos: Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos colocou como guardas, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o sangue do seu próprio Filho (At 20,28). Antigamente, aqueles sacrifícios eram figura do dom que nos seria feito; agora, este sacrifício manifesta claramente o que já nos foi doado.

Naqueles sacrifícios anunciava-se de antemão que o Filho de Deus devia sofrer a morte pelos ímpios; neste sacrifício anuncia-se que ele já sofreu essa morte, conforme atesta o Apóstolo: Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (Rm 5,6). E ainda: Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho (Rm 5,10).

-- Do Tratado sobre a fé de Pedro, de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (século VI)

28 de mar. de 2012

Os mistérios principais da fé cristã (Compêndio da Doutrina Cristã)


Quantos são os deuses?
- Deus é um só.

Em Deus quantas são as pessoas?
- São três pessoas realmente distintas.

Quais são estas três pessoas?
- O Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Como se chama este mistério?
- O mistério da Santíssima Trindade.

Que entendeis por este nome: Santíssima Trindade?
- Um Deus em três pessoas realmente distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Qual a primeira pessoa da Santíssima Trindade?
- A primeira é o Pai; a segunda, o Filho; a terceira é o Espírito Santo.

Porque o Pai é a primeira pessoa?
- O Pai é a primeira pessoa por que não procede de outra, mas é o princípio das outras duas pessoas.

Porque o Filho é a segunda pessoa?
- O Filho é a segunda pessoa porque é gerado pelo Pai.

Porque o Espírito Santo é a terceira pessoa?
- O Espírito Santo é a terceira pessoa porque procede do Pai e do Filho.

O Pai existiu antes que o Filho e o Espírito Santo?
- O Pai não existiu primeiro, porque o Filho e o Espírito Santo são tão eternos quanto o Pai.

O Pai é Deus?
- O Pai é Deus; o Filho é Deus; e o Espírito Santo é Deus.

Se cada uma das pessoas é Deus, então são três deuses?
- Não são três deuses, mas um só Deus.

Porque são um só Deus estas três pessoas?
- Porque todas três tem a mesma e única natureza divina.

Destas três, qual é a maior, a mais poderosa e a mais sábia?
- Todas são iguais, porque tem a mesma grandeza, o mesmo poder e a mesma sabedoria.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

27 de mar. de 2012

O conhecimento de Deus e nosso fim (Compêndio da Doutrina Cristã)


Quem é, o que vos criou?
- Deus é o que me criou.

Para que fim vos criou?
- Deus me criou para O conhecer, amar e servir, guardando a sua santíssima lei.

Como Deus premia aqueles que O ama e servem?
- Com a glória do Céu.

Que coisa se goza no céu?
- A vista de Deus e todos os bens eternamente, sem espécie alguma de mal.

Como castiga Deus aqueles que nesta vida não O amam nem servem?
- Com o Inferno.

Que se padece no Inferno?
- A privação da vista de Deus, o fogo eterno, e todos os males, sem espécie alguma de bem.

Quem é Deus?
- Deus é um espírito perfeitíssimo, que tem todas as virtudes e perfeições, e que é  Criador, Senhor do Céu e da Terra.

Quem fez ou criou Deus?
- Deus por ninguém foi feito ou produzido.

Onde está Deus?
- Deus está no Céu, na Terra e em todo lugar.

Deus vê todas as coisas?
- Deus tudo vê, até nossos pensamentos.

Deus também vê as coisas futuras?
- Deus vê tudo juntamente, o passado, presente e futuro.

A quanto tempo há Deus?
- Deus sempre existiu.

E quanto tempo durará?
- Deus sempre existiu e para sempre existirá.

Deus tem olhos e mãos, ou por dizer mais breve, tem corpo como nós?
- Deus não tem corpo, porque é um espírito puríssimo.

Se Deus não tem olhos, como vê as coisas?
- Deus vê as coisas com sua infinita sabedoria.

E se Deus não tem mãos, como pode fazer o mundo?
- Deus fez o mundo com a sua vontade onipotente.

De que coisa fabricou o mundo?
- Do nada o criou.

E poderia fazer outro mundo?
- Sim, poderia fazr outros mundos por que é onipotente.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)


26 de mar. de 2012

Carta de Santa Clara para Ermentrudes de Bruges


Santa Clara, afresco de Simone Martini,
na Basílica de São Francisco em Assis.
Clara de Assis, humilde serva de Jesus Cristo, deseja saúde e paz a sua querida irmã Ermentrudes.

Soube, irmã querida, que você teve a felicidade de fugir da lama do mundo, pela graça de Deus. Alegro-me por isso e me congratulo com você, como me alegro porque você e suas filhas seguem com valor os caminhos da virtude.

Querida, seja fiel até a morte àquele com quem você se comprometeu, pois é ele que vai coroá-la com o louro da vida.

Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra. Não perca a cabeça com as imagens vazias do mundo enganador; tape os ouvidos aos assobios do inferno e, forte, quebre seus assaltos. Suporte por bem as adversidades e não se deixe exaltar pela prosperidade, porque esta pede fé, mas aquelas a exigem. Entregue fielmente a Deus o que prometeu, e ele retribuirá.

Querida, olhe para o céu que nos convida, tome a cruz e siga o Cristo que vai à nossa frente. Na realidade, depois de muitas e variadas tribulações, vamos entrar por meio dele na sua glória.

Ame com todo coração a Deus e a seu filho Jesus, crucificado por nós pecadores, sem permitir que ele saia de sua recordação. Trate de meditar sempre nos mistérios da cruz e nas dores de sua Mãe que estava ao pé da cruz.

Ore e vigie sempre. Complete apaixonadamente a obra que você começou bem e dê conta do serviço que você assumiu na santa pobreza e na humildade sincera.

Não se assuste, filha. Deus, fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras, vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor consolador, porque ele é o nosso redentor e a nossa recompensa eterna.

Oremos mutuamente a Deus, pois assim uma carregará o peso da outra e vamos cumprir com facilidade a lei de Cristo. Amém.

-- Carta a Ermentrudes de Burges, Santa Clara (sécuo XIII)

* Santa Clara teria escrito duas cartas a Ermentrude. O texto atualmente conhecido seria uma fusão de ambas. Segundo os estudiosos, seu conteúdo pode ser claramente atribuído a Santa Clara. 


** Ermentrudes nasceu em Colônia, na Alemanha, de onde saiu em peregrinaçao no ano de 1240. Viveu em Bruges por doze anos em um monastério,  quando decidiu ir até Assis. Ao chegar, soube que Clara já havia falecido. Retornou a Bruges para formar uma casa das irmãs menores. Depois, fundou outras casas na atual Bélgica.

24 de mar. de 2012

A vida de Moisés - as graças de Deus

Como mais uma vez se originasse no povo uma rebelião para conseguir o poder, e alguns tentassem pela força que fosse transferido para eles o sacerdócio, ele suplicou uma vez mais a Deus pelos que pecavam, porem o rigor do juízo divino foi mais forte que a compaixão de Moisés por sua gente. A terra, que por vontade divina se abrira como uma boca, fechou-se novamente sobre si mesma, tragando totalmente todos os que se opunham a autoridade de Moisés; aqueles que se haviam envolvido em intrigas para alcançar o sacerdócio, devorados pelo fogo em número próximo de duzentos e cinqüenta, com sua desgraça ensinaram sensatez ao povo (Nm 16, 1-35). 

Para que os homens se persuadissem mais de que a graça do sacerdócio é concedida por Deus aos que são dignos, Moisés fez com que os homens principais de cada tribo trouxessem bastões, marcados cada um com o sinal de seu dono. Entre estes se encontrava o do sacerdote Aarão. Tendo colocado os bastões diante do santuário, neles mostrou ao povo o desígnio de Deus no que diz respeito ao sacerdócio: dentre todos, somente o báculo de Aarão floresceu e produziu fruto do lenho, - o fruto era uma noz -, e o levou ao amadurecimento (Nm 17, 16-24). Mesmo para os que não criam pareceu um enorme prodígio que o que estava seco, sem casca e sem raiz, se tornasse fértil de repente, e que realizasse o que realizam as plantas com raízes, fazendo, o poder divino, para o lenho as vezes da terra, córtex, umidade, raiz e tempo. 

Depois disto Moisés, guiando o exército entre povos estrangeiros que se opunham à sua passagem, promete com juramento que o povo não atravessaria suas lavouras nem seus vinhedos, mas que seguiria o caminho real, sem desviar-se nem para a direita nem para a esquerda. Como nem assim se aquietassem os inimigos, vencendo seu adversário em combate, faz-se dono do caminho (Nm 20, 17). 

Então certo Balac, que dominava sobre o povo mais importante, -madianitas era o nome desse povo-, compadecido da sorte dos vencidos e imaginando que padeceria as mesmas coisas por parte dos israelitas, não leva em sua ajuda nenhum contingente de armas ou de pessoas, mas a arte da magia através de certo Balaam, o qual tinha fama de ser versado nestas coisas e, segundo a convicção daqueles que o haviam procurado, tinha certo poder nesta atividade. Sua arte era a da adivinhação, porem com a ajuda dos demônios era temível, fazendo cair males incuráveis sobre os homens com poder mágico (Nm 22, 2-8). 

Este, enquanto segue aos que o conduzem ao rei do povo, conhece pela voz da jumenta que o caminho não lhe seria favorável. Depois conhecendo por uma visão o que devia fazer, descobriu que sua magia era demasiado débil para causar dano àqueles que estavam acompanhados por Deus na luta. Balaam possuído pela inspiração divina em lugar da energia dos demônios, disse palavras tais que claramente são uma profecia das melhores coisas que lhes sucederia mais adiante aos israelitas. Ao ser impedido de utilizar sua arte para o mal, tomando então consciência do poder divino, afastou-se da adivinhação e se fez intérprete da vontade divina (Nm 22, 22-24). 

Depois disto, os estrangeiros foram exterminados pelo povo em um combate contra eles; este por sua vez resultou vencido pela paixão da incontinência pelas cativas. Finéias atravessou com uma só lança aos que estavam entrelaçados na ignomínia; então teve descanso a cólera de Deus contra aqueles que se haviam deixado arrastar às uniões ilícitas (Nm 25, 1-9). 

Finalmente, o Legislador, subindo a um monte e contemplando de longe a terra que estava preparada para Israel segundo a promessa feita por Deus aos pais, abandonou a vida humana sem haver deixado sobre a terra nenhum sinal, nem uma recordação de seu trânsito com algum monumento funerário. O tempo não havia maltratado sua formosura, nem havia obscurecido o fulgor de seus olhos, nem havia debilitado a graça resplandecente de seu rosto (Dt 34,1-7), mas permaneceu sempre idêntico a si mesmo e, desta forma, conservou, mesmo na maturidade, a imutabilidade na beleza. 

Expus para ti em grandes traços quanto aprendemos sobre a história do homem em seu sentido literal, ainda que também tenhamos alargado necessariamente o discurso naquelas coisas em que de algum modo havia razão para isso. 

23 de mar. de 2012

Celebremos a Festa do Senhor



Está próximo de nós o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que se fez tudo por nós, e promete estar conosco para sempre. Ele o proclama com estas palavras: Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo (Mt 28,20). E porque quis fazer-se tudo para nós, ele é o nosso pastor, sumo sacerdote, caminho e porta; e é também a nossa festa e solenidade como diz o Apóstolo: O nosso cordeiro pascal, Cristo, já está imolado (1Cor 5,7). Cristo, esperança dos homens, veio ao nosso encontro, dando novo sentido às palavras do salmista: Vós sois a minha alegria; livrai-me daqueles que me cercam (cf. Sl 31,7). Esta é a verdadeira alegria, esta é a verdadeira solenidade: vermo-nos livres do mal. Para tanto, que cada um se esforce por viver em santidade e medite interiormente na paz e no temor de Deus.

A Ressurreição, por Carl Bloch

Os santos, enquanto viviam neste mundo, estavam sempre alegres, como em contínua festa. Um deles, o bem-aventurado Davi, levantava-se de noite, não uma mas sete vezes, para atrair com suas preces a benevolência de Deus. Outro, o grande Moisés, exprimia a sua alegria entoando hinos e cânticos de louvor a Deus pela vitória alcançada sobre o Faraó e sobre todos os que tinham oprimido o povo hebreu. Outros ainda, dedicavam-se alegremente ao exercício contínuo do culto sagrado, como o grande Samuel e o bem-aventurado Elias. Todos eles, pelo mérito das suas obras, já alcançaram a liberdade e celebram no céu a festa eterna. Alegram-se com a lembrança da sua peregrinação terena, vivida entre as sombras do que havia de vir e, passado o tempo das figuras, contemplam agora a verdadeira realidade.

E nós, que nos preparamos para a grande solenidade, que caminho havemos de seguir? Ao aproximarem-se as festas pascais, a quem tomaremos por guia? Certamente nenhum outro, amados irmãos, senão aquele a quem chamamos nosso Senhor Jesus Cristo, e que disse: Eu sou o caminho (Jo 14,6). É ele, como diz São João, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29); é ele que purifica nossas almas, como declara o profeta Jeremias: Parai um pouco na estrada para observar, e perguntai sobre os antigos caminhos, e qual será o melhor, para seguirdes por ele; assim ficareis mais tranqüilos em vossos corações (Jr 6,16).

Outrora, era com sangue de bodes e a cinza de novilhas que se aspergiam os que estavam impuros, mas só os corpos ficavam purificados. Agora, pela graça do Verbo de Deus, alcançamos a purificação total. Se seguirmos a Cristo, poderemos sentir-nos desde já nos átrios da Jerusalém celeste e saborear de antemão as primícias daquela festa eterna. Assim fizeram os Apóstolos, que foram e continuam a ser os mestres desta graça divina, porque seguiram o Salvador; diziam eles: Nós deixamos tudo e te seguimos (Mt 19,17). Sigamos também nós o Senhor; preparemo-nos para celebrar a festa do Senhor não apenas com palavras mas também com nossos atos.

-- Das Cartas Pascais de Santo Atanásio, bispo (século V)

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