30 de set. de 2012

Eles te guardem em todos os teus caminhos


* Dia 2 de Outubro é a Festa dos Santos Anjos da Guarda. Esta é a leitura da Liturgia da Palavra. 

A teu respeito ordenou a seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos (Sl 90,11). Louvem o Senhor por sua misericórdia e suas maravilhas para com os filhos dos homens. Louvem e proclamem às nações que o Senhor agiu de modo magnífico a favor deles. Senhor, que é o homem para que assim o conheças? Ou por que inclinas para ele teu coração? Aproximas dele teu coração, enches-te de solicitude por sua causa, cuidas dele. Enfim, a ele envias o teu Unigênito, infundes o teu Espírito, prometes até a visão de tua face. E para que nas alturas nada falte no serviço a nosso favor, envias os teus santos espíritos a servir-nos, confias-lhes nossa guarda, ordenas que se tornem nossos pedagogos.

A teu respeito, ordenou a seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Esta palavra quanta reverência deve despertar em ti, aumentar a gratidão, dar confiança. Reverência pela presença, gratidão pela benevolência, confiança pela proteção. Estão aqui, portanto, e estão junto de ti, não apenas contigo, mas em teu favor. Estão aqui para proteger, para te serem úteis. Na verdade, embora enviados por Deus, não nos é lícito ser ingratos para com eles, que com tanto amor lhe obedecem e em tamanhas necessidades nos auxiliam.

Sejamos-lhes fiéis, sejamos gratos a tão grandes protetores; paguemos-lhes com amor; honremo-los tanto quanto pudermos, quanto devemos. Prestemos, no entanto, todo o nosso amor e nossa honra àquele que é tudo para nós e para eles; de quem recebemos poder amar e honrar, de quem merecemos ser amados e honrados.

Assim, irmãos, nele amemos com ternura seus anjos como futuros co-herdeiros nossos, e enquanto esperamos nossos intendentes e tutores dados pelo Pai como nossos guias. Porque agora somos filhos de Deus, embora não se veja, pois ainda estamos sob tutela quais meninos que em nada diferem dos servos.

Aliás, mesmo assim tão pequeninos e restando-nos ainda uma tão longa, e não só tão longa, mas ainda tão perigosa caminhada, que temos a temer com tão poderosos protetores? Eles não podem ser vencidos, nem seduzidos, e ainda menos seduzir, aqueles que nos guardam em todos os nossos caminhos. São fiéis, são prudentes, são fortes; por que trememos de medo? Basta que os sigamos, unamo-nos a eles e habitaremos sob a proteção do Deus do céu.

-- Dos Sermões de São Bernardo, abade (século XII)

28 de set. de 2012

Castelo de Sant'Angelo - Roma

Castelo de Sant'Angelo. No topo está a imagem de São Miguel

No ano de 590 uma grande praga estava a matar muitíssimas pessoas em Roma. Os cristãos, em desespero, colocaram um ídolo no altar da Igreja de Santa Ágata. O Papa Gregório teve uma visão e organizou uma procissão pela cidade até a Igreja. Ao entrarem na Igreja, o ídolo caiu no chão, desfazendo-se em muitos pedaços. No retorno da procissão até o Vaticano, após atravessarem a Ponte Aelia, o Papa avistou São Miguel sobre um castelo, cuja espada pingando sangue apontava sobre a cidade, colocando-a na bainha da cintura. Conta-se que a praga afastou-se e ninguém mais caiu doente ou morreu.  
A imagem de São Miguel, obra do escultor
Peter Anton von Verschaffelt.

O Castelo foi aprimorado pelo Papa Nicolau III no século 14, quando foi conectado por um corredor à residência dos papas. Em 1527, quando o Rei Carlos V invadiu Roma, o Papa Clemente VII refugiou-se no castelo. Em 1667, o Papa Clemente IX fez colocar uma imagemd e São Miguel no alto do prédio, de modo que quem estiver atravessando a ponte, veja a imagem de frente. 

Ao longo dos séculos, o Castelo nunca foi derrotado. No século XIX foi utilizado como prisão. Restaurado no início do século XX, hoje é um museu bastante interessante. 

* 29 de Setembro é Festa dos Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel. O texto litúrgico é de São Gregório Magno.

27 de set. de 2012

Amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura

* Dia de 30 de Setembro celebramos a Festa de São Jerônimo. A leitura proposta pela Liturgia intitula-se Ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo. Aqui coloco um comentário feito pelo Bento XVI, na audiência de 7 de Novembro de 2007.


Que podemos nós aprender de São Jerônimo? Sobretudo, penso, o seguinte: amar a Palavra de Deus na Sagrada Escritura. Diz São Jerônimo: Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo. Por isso é importante que cada cristão viva em contato e em diálogo pessoal com a palavra de Deus, que nos é dada na Sagrada Escritura. Este nosso diálogo com ela deve ter sempre duas dimensões: por um lado, deve ser um diálogo realmente pessoal, porque Deus fala com cada um de nós através da Sagrada Escritura e cada um tem uma mensagem. Devemos ler a Sagrada Escritura não como palavra do passado, mas como Palavra de Deus que se dirige também a nós e procurar compreender o que o Senhor nos quer dizer. Mas para não cair no individualismo devemos ter presente que a Palavra de Deus nos é dada precisamente para construir comunhão, para nos unir na verdade no nosso caminho para Deus. Portanto, ela, mesmo sendo sempre uma palavra pessoal, é também uma Palavra que constrói comunidade, que constrói a Igreja. Por isso, devemos lê-la em comunhão com a Igreja viva. O lugar privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a liturgia, na qual, celebrando a Palavra e tornando presente no Sacramento o Corpo de Cristo, atualizamos a Palavra na nossa vida e tornamo-la presente entre nós. Nunca devemos esquecer que a Palavra de Deus transcende os tempos. As opiniões humanas vão e voltam. O que hoje é muito moderno, amanhã será velhoA Palavra de Deus, ao contrário, é Palavra de vida eterna, tem em si a eternidade, ou seja, é válida para sempre. Trazendo em nós a Palavra de Deus, trazemos também em nós o eterno, a vida eterna.
E concluo com uma palavra de São Jerônimo a São Paulino de Nola. Nela o grande exegeta expressa precisamente esta realidade, isto é, que na Palavra de Deus recebemos a eternidade, a vida eterna. Diz São Jerônimo: “Procuremos aprender na terra aquelas verdades cuja consistência persistirá também no céu” (Ep. 53, 10).

Capítulo 15 - Das obras feitas com caridade



A Caridade - Schedoni
  1. Por nenhuma coisa do mundo, nem por amor de pessoa alguma, se deve praticar qualquer mal; mas, em prol de algum necessitado, pode-se, às vezes, omitir uma boa obra, ou trocá-la por outra melhor. Desta sorte, a boa obra não se perde, mas se converte em outra melhor. Sem a caridade, nada vale a obra exterior; tudo, porém, que da caridade procede, por insignificante e desprezível que seja, produz abundantes frutos, porque Deus não atende tanto à obra, como à intenção com que a fazemos.
  2. Muito faz aquele que muito ama. Muito faz quem bem faz o que faz. Bem faz quem serve mais ao bem comum que à sua própria vontade. Muitas vezes parece caridade o que é mero amor-próprio, porque raras vezes nos deixa a inclinação natural, a própria vontade, a esperança da recompensa, o nosso interesse.
  3. Aquele que tem verdadeira e perfeita caridade em nada se busca a si mesmo, mas deseja que tudo se faça para a glória de Deus. De ninguém tem inveja, porque não deseja proveito algum pessoal, nem busca sua felicidade em si, mas procura sobre todas as coisas ter alegria e felicidade em Deus. Não atribui bem algum à criatura, mas refere tudo a Deus, como à fonte de que tudo procede, e em que, como em fim último, acham todos os santos o deleitoso repousar. Oh! Quem tivera só uma centelha de verdadeira caridade logo compreenderia a vaidade de todas as coisas terrenas!

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

26 de set. de 2012

Salmo 149: Festa dos amigos de Deus

1. "Regozijem-se os justos na glória e cantem jubilosos em seus leitos". Este apelo do Salmo 149 (v. 5), que acaba de ser proclamado, remete para uma aurora que está prestes a despontar e vê os fiéis prontos a entoar os seus louvores matutinos. Com uma expressão significativa, este louvor é definido como "um cântico novo" (v. 1), ou seja, um hino solene e perfeito, propício para os últimos dias, quando o Senhor reunir os justos num mundo renovado. Todo o Salmo  está  impregnado  de  uma  atmosfera festiva, inaugurada já pelo aleluia inicial e depois cadenciada com cânticos, louvores, alegria, danças e sons de tímpanos e de cítaras. A oração que este Salmo inspira é a ação de graças de um coração repleto de exultação religiosa.




2. Os protagonistas deste Salmo são chamados, no original hebraico do hino, com dois termos característicos da espiritualidade do Antigo Testamento. Por três vezes são definidos como"hasidim" (vv. 1.5 e 9), ou seja, "os piedosos, os fiéis", aqueles que respondem com fidelidade e amor (hesed) ao amor paternal do Senhor.

A segunda parte deste Salmo surpreende, porque está repleta de expressões bélicas. Parece-nos estranho que no mesmo versículo o Salmo fale dos "louvores de Deus a plena voz" e da "espada de dois gumes nas suas mãos" (v. 6). Refletindo, podemos compreender o motivo:  o Salmo foi composto para os "fiéis" que estavam empenhados numa luta de libertação; combatiam para libertar o seu povo oprimido e para lhe dar a possibilidade de servir a Deus. Durante a época dos Macabeus, no século II a.C., os combatentes pela liberdade e pela fé, submetidos a uma dura repressão por parte do poder helenista, chamavam-se precisamente hasidim, "os fiéis" à Palavra de Deus e às tradições dos Padres.

3. Na perspectiva actual da nossa oração, esta simbologia bélica torna-se uma imagem do nosso compromisso de crentes e, depois de termos cantado a Deus os louvores matutinos, podemos partir pelas estradas do mundo, no meio do mal e da injustiça. Infelizmente, as forças que se opõem ao Reino de Deus são imponentes:  o Salmista fala "de povos, de nações, de chefes e de nobres". Todavia, está confiante porque sabe que ao seu lado se encontra o Senhor, que é o verdadeiro Rei da história (cf. v. 2). Por conseguinte, a sua vitória sobre o mal é certa e será o triunfo do amor. É neste combate que participam todos os hasidim, todos os fiéis e os justos que, com o poder do Espírito, completam a obra admirável que tem o nome do Reino de Deus.

4. Partindo das referências do Salmo ao "coro" e aos "tímpanos e cítaras", Santo  Agostinho  comenta:   "O  que  é que representa um coro? [...] O coro é um grupo de cantores que cantam em conjunto. Se cantarmos num coro, devemos cantar em harmonia. Quando se canta em coro, uma única voz desafinada fere o ouvinte e semeia confusão no próprio coro" (Enarr. in Ps., 149: CCL 40, 7, 1-4).

Depois, referindo-se aos instrumentos utilizados pelo Salmista, pergunta-se:  "Por que motivo o Salmista pega no tímpano e no saltério?". Em seguida, responde:  "A fim de que não só a voz louve ao Senhor, mas também as suas obras. Quando se tocam o tímpano e o saltério, as mãos harmonizam-se com a voz. Assim deve ser também para ti. Quando cantares o aleluia, deves oferecer o pão ao faminto, vestir aquele que está nu e hospedar o peregrino. Se fizeres isto, não só a voz cantará, mas com voz se hão-de harmonizar as mãos, enquanto com as palavras concordarão as obras" (Ibid., 8, 1-4).

5. Há outro vocábulo, com que os orantes deste Salmo são definidos:  trata-se dos "anawim", isto é, "os pobres, os humildes" (v. 4) Esta expressão é muito frequente no Saltério e indica não só os oprimidos, os miseráveis e os que são perseguidos por causa da justiça, mas inclusivamente aqueles que, sendo fiéis aos compromissos morais da Aliança com Deus, são marginalizados por quantos escolhem a violência, a riqueza e a prepotência. É nesta luz que se compreende que a classe dos "pobres" não é apenas uma categoria social, mas uma opção espiritual. Este é o sentido da primeira, célebre, Bem-Aventurança:  "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5, 3). Já o profeta Sofonias se dirigia com a seguinte expressão aos anawim: "Procurai o Senhor, vós todos, os humildes da terra, que cumpris a sua lei. Procurai a justiça, buscai a humildade:  talvez assim acheis abrigo no dia da cólera do Senhor" (2, 3).


6. Pois bem, o "dia da cólera do Senhor" é precisamente aquele que se descreve na segunda parte do Salmo, quando os "pobres" se põem ao lado de Deus a fim de lutar contra o mal. Sozinhos, eles não têm a força suficiente, nem os instrumentos, nem as estratégias necessárias para se opor à irrupção do mal. Contudo, a frase do Salmista não admite hesitações:  "O Senhor, de verdade, ama o seu povo e adorna os humildes (anawim) com a vitória" (v. 4). Representa-se espiritualmente aquilo que o Apóstolo Paulo declara aos Coríntios:  "O que é vil e desprezível no mundo é que Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são" (1 Cor 1, 28).

É com esta confiança que "os filhos de Sião" (v. 2), os hasidim e os anawim, ou seja os fiéis e os pobres, se preparam para viver o seu testemunho no mundo e na história. O cântico de Maria, contido no Evangelho de Lucas o canto do Magnificat constitui o eco dos melhores sentimentos presentes nos "filhos de Sião":  o louvor de exultação a Deus Salvador, a acção de graças pelas grandes  coisas  que  lhe  fez  o  Omnipotente, o combate contra as forças do mal,  a  solidariedade  para  com  os  pobres e a fidelidade ao Deus da Aliança (cf. Lc 1, 46-55).

-- Papa João Paulo II, na audência de 23 de maio de 2011

25 de set. de 2012

Sobre os primeiros mandamentos


Relíquia contendo o sangue de
São Lourenço. Em 10 de Agosto de
cada ano e em algumas festas cristãs,
o sangue se liquefaz.
Porque diz no princípio: Eu sou o teu Senhor e Deus?
- Para que conheçamos que Deusm sendo o nosso criador e Senhor, pode mandar-nos o que quer; e nós criaturas suas somos obrigados a obedecer-lhe.

Que nos ordena com aquelas palavras do Primeiro mandamento: Não terás outro Deus diante de mim?
- Ordena que reconheçamos, adoremos e sirvamos a ele somente, como nosso supremo Senhor.

Como se satisfaz este mandamento?
- Exercitando os atos de fé, esperança, caridade e religião.

E que coisa nos proíbe?
- A idolatria e toda espécie de superstição.

Proíbe também o honrar os santos?
- Isto não é proibido, antes devemos fazê-lo, porque não veneramos os Santos, como a Deus, mas como amigos de Deus.

É proibido dar a honra às imagens de Jesus Cristo e dos santos?
- Não, porque se refere a Jesus Cristo ou aos santos, é em honra a eles que se faz as imagens.

E as relíquias dos santos?
- Com semelhante honra se venera as relíquias, porque os seus corpos foram membros vivos de Jesus Cristo e templo do Espírito Santo e hão de ressuscitar gloriosos à vida eterna.

Que nos proíbe o segundo Mandamento: não uses do nome de Deus em vão?
- Proibe-nos todo desacato que se faça em nome de Deus com palavras, como o nomeá-lo sem respeito e sem devoção. Proíbe-nos de juramentos falsos ou não necessários, ou de qualquer modo ilícitos; e proíbe as blasfêmias contra Deus e os santos.

E que coisa nos ordena?
- Que demos honra ao seu Santo Nome e cumpramos os votos e juramentos.

Que nos determina o terceiro mandamento: lembra-te de santificar as festas?
- Determina-nos honrar a Deus com obras de piedade cristã nos dias de festa dedicados ao seu culto.

Quais são as obras de piedade cristã que se deve fazer em tais dias?
- São essas: assistir com sincera devoção ao Santo Sacrifício da Missa, como expressamento nos manda a Igreja; receber frequentemente os sacramentos da Penitência e da Eucaristia, instituídos para a nossa salvação; concorrer a ouvir a doutrina cristã, os sermões e ofícios divinos; exercitar-se na oração e nas obras de caridade para com o próximo.


Não basta pois para santificar a festa participar da Missa?
- Certo que não basta para santificá-la completamente e não livra da culpa contra a exata observância deste preceito quem sem causa legítima não faz mais no dia de Festa que ouvir a Missa.

E que coisa nos proíbe?
- O fazer qualquer obra servil.

Que dizeis vós por "obras servis"?
- Os trabalhos corporais que são próprios dos servos, dos oficiais mecânicos e dos jornaleiros.

Não há obra servil alguma que nesses dias seja permitida?
- São permitidas aquelas que são necessárias para a vida humana ou para o serviço de Deus, ou que se fazem por algum grave e urgente motivo, com licença, se pode haver-se, de legítimos superiores.

Que obras devemos, sobretudo, evitar nos dias de festas?
- Sobretudo devemos evitar o pecado e tudo que conduz ao pecado, como as tavernas, bailes e outras coisas semelhantes perigosas.

-- Do Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino, bispo (século XVI)



24 de set. de 2012

Capítulo 14 - Como se deve evitar o juízo temerário


O Juízo Final - Francisco Pacheco
  1. Relanceia sobre ti o olhar e guarda-te de julgar as ações alheias. Quem julga os demais perde o trabalho, quase sempre se engana e facilmente peca; mas, examinando-se e julgando-se a si mesmo, trabalha sempre com proveito. De ordinário, julgamos as coisas segundo a inclinação do nosso coração, pois o amor-próprio facilmente nos altera a retidão do juízo. Se Deus fora sempre o único objetivo dos nossos desejos, não nos perturbaria tão facilmente qualquer oposição ao nosso parecer.
  2. Muitas vezes existe, dentro ou fora de nós, alguma coisa que nos atrai e em nós influi. Muitos buscam secretamente a si mesmos em suas ações, e não o percebem. Parecem até gozar de boa paz, enquanto as coisas correm à medida de seus desejos; mas, se de outra sorte sucede, logo se inquietam e entristecem. Da discrepância de pareceres e opiniões freqüentemente nascem discórdias entre amigos e vizinhos, entre religiosos e pessoas piedosas.
  3. É custoso perder um costume inveterado, e ninguém renuncia, de boa mente, a seu modo de ver. Se mais confias em tua razão e talento que na graça de Jesus Cristo, só raras vezes e tarde serás iluminado; pois Deus quer que nos sujeitemos perfeitamente a ele e que nos elevemos acima de toda razão humana, inflamados do seu amor.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

22 de set. de 2012

Os cristãos enfermos


Ao enfermo, diz o Senhor, não fortificastes (Ez 34,4). Diz aos maus pastores, aos pastores falsos, que buscam seu interesse, não o de Jesus Cristo. Aos que se alegram com as dádivas do leite e da lã, mas descuram totalmente as ovelhas e não cuidam das doentes. Parece-me haver diferença entre enfermo e doente – pois costuma-se chamar de enfermos os doentes; enfermo quer dizer não firme, e doente o que se sente mal.

Na verdade, irmãos, esforçamo-nos de algum modo por distinguir estas coisas, mas talvez com maior aplicação poderíamos nós ou outro mais entendido e com o coração mais cheio de luz discernir melhor. À espera disto, para que não sejais privados em relação às palavras da Escritura, falo o que penso. É de se temer sobrevenha uma tentação ao enfermo que o debilite. O doente, ao contrário, já adoeceu por alguma ambição e por esta ambição se vê impedido de entrar no caminho de Deus, de submeter-se ao jugo de Cristo.

Observai esses homens que desejam viver bem, já decididos a viver bem. São, no entanto, menos capazes de suportar os males do que fazer o bem. Pertence à firmeza do cristão não apenas fazer o bem, mas também tolerar os males. Aqueles, pois, que parecem ardentes nas boas obras, mas não querem ou não podem suportar as provações iminentes, estes são enfermos. Por outro lado, aqueles que amam o mundo e por qualquer desejo mau se afastam até das obras boas, jazem gravemente doentes, visto que pela doença, sem forças, nada de bom podem realizar.

O paralítico era um destes, na alma. Os que o carregavam, não podendo levá-lo até junto do Senhor, descobriram o teto e fizeram-no descer. É isto que terias de fazer: descobrir o teto e colocar junto do Senhor a alma paralítica, com todos os membros frouxos, e vazia de obras boas, curvada sob o peso dos pecados e doente com o mal de sua cobiça. Portanto, se todos os seus membros estão frouxos e há paralisia interior para levá-la ao médico – talvez o médico esteja escondido no teu interior: seria este um sentido oculto nas Escrituras– se queres descobrir-lhe o que está oculto, descobre o teto e faze descer diante dele o paralítico.

A quem assim não procede e desdenha fazê-lo, ouvistes o que lhe dizem: Aos doentes não fortalecestes, ao fraturado não pensastes (Ez 34,4); já explicamos esta passagem. Estava alquebrado pelo terror das provações. Mas surge algo que restaura a fratura, estas palavras de consolo: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados além do que podeis suportar, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela para que a possais suportar (1Cor 10,13).

-- Do Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo (século V)

Cântico de Daniel - Toda criatura louve ao Senhor

Queridos irmãos e irmãs,


1. "Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor" (Dn 3, 57). Uma serenidade cósmica invade este Cântico tirado do livro de Daniel, que a Liturgia das Horas propõe para as Laudes do Domingo na primeira e terceira semanas. E esta maravilhosa oração de ladainha condiz bem com o Dies Domini, o Dia do Senhor, que em Cristo ressuscitado nos faz contemplar o ápice do desígnio de Deus sobre o cosmos e a história. Com efeito, n'Ele, Alfa e Ómega, Princípio e Fim da história (cf.Ap 22, 13), a própria criação adquire o sentido completo porque, como recorda João no prólogo do seu Evangelho "tudo começou a existir por meio d'Ele" (Jo 1, 3). Na Ressurreição de Cristo encontra-se o vértice da história da salvação, abrindo a vicissitude humana para o dom do Espírito e da adopção filial, à espera do retorno do Esposo divino, que entregará o mundo a Deus Pai (cf. 1 Cor 15, 24).

2. Neste trecho em forma de ladainha, são como que passadas em revista todas as coisas. O olhar volta-se para o sol, a lua e os astros; detém-se na imensidão das águas, eleva-se rumo às montanhas e contempla as várias situações atmosféricas; passa do calor ao frio, da luz às trevas; considera o mundo mineral e vegetal, analisando as diversas espécies animais. Depois, o apelo torna-se universal:  chama ao princípio os anjos de Deus, atinge todos os "filhos do homem", mas empenha de forma especial o povo de Deus, Israel, os seus sacerdotes, os justos. É um coro imenso, uma sinfonia em que as várias vozes elevam o seu cântico a Deus, Criador do universo e Senhor da história. Recitado à luz da revelação cristã, ele dirige-se a Deus trinitário, como a liturgia nos convida a fazer, acrescentando ao Cântico uma fórmula trinitária:  "Bendigamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo".

3. De certa forma, neste Cântico reflete-se a alma religiosa universal, que no mundo vislumbra os vestígios de Deus, elevando-se à contemplação do Criador. Mas no contexto do livro de Daniel, o hino apresenta-se como ação de graças recitado por três jovens israelitas Ananias, Azarias e Misael condenados a morrer queimados numa fornalha, por se terem recusado a adorar a estátua de ouro de Nabucodonosor, mas milagrosamente preservados das chamas. Por detrás deste acontecimento há a singular história de salvação, em que Deus escolhe Israel como seu povo e com ele faz uma aliança. Os três jovens israelitas desejam ser fiéis precisamente a esta aliança, mesmo ao preço de irem ao encontro do martírio na fornalha ardente. A sua fidelidade encontra-se com a  fidelidade  de  Deus,  que  envia  um anjo  para  afastar  deles  as  chamas (cf. Dn 3, 49).

Desta forma, este Cântico coloca-se na linha dos cantos de louvor por um perigo evitado, contidos no Antigo Testamento. Entre eles, é famoso o cântico de vitória que aparece no capítulo 15 do Êxodo, onde os antigos hebreus exprimem o seu reconhecimento ao Senhor por aquela noite em que seriam inevitavelmente aniquilados pelo exército do faraó, se o Senhor não lhes tivesse aberto um caminho entre as águas, fazendo precipitar "no mar o cavalo e o cavaleiro" (v. 1).

4. Não é por acaso que, na solene vigília pascal, a liturgia nos faz repetir todos os anos o hino cantado pelos israelitas no Êxodo. Aquele caminho que lhes foi aberto anunciava profeticamente a nova senda que Cristo ressuscitado inaugurou para a humanidade na noite santa da sua Ressurreição dos mortos. A nossa passagem simbólica através das águas baptismais permite-nos reviver uma experiência análoga de passagem da morte para a vida, graças à vitória sobre a morte, que Jesus alcançou em favor de todos nós.

Ao repetirmos na liturgia dominical das Laudes o Cântico dos três jovens israelitas, nós discípulos de Cristo queremos colocar-nos na mesma onda de gratidão pelas grandes obras realizadas por Deus, tanto na criação como, sobretudo, no mistério pascal.

Com efeito, o cristão vislumbra aqui uma relação entre a libertação dos três jovens, de quem nos fala o Cântico, e a Ressurreição de Jesus. Nesta última, os Atos dos Apóstolos vêem realizada a oração dos fiéis que, como o Salmista, cantam com confiança:  "Tu não abandonarás a minha alma na habitação dos mortos, nem permitirás que o teu Santo conheça  a  decomposição"  (At 2, 27;Sl 15, 10).

A relação deste Cântico com a Ressurreição é bastante tradicional. Existem antiquíssimos testemunhos da presença deste hino na oração do Dia do Senhor, que é a Páscoa semanal dos cristãos. Além disso, as catacumbas romanas conservam restos iconográficos em que se aparecem os três jovens que rezam incólumes no meio das chamas, testemunhando desta maneira a eficácia da oração e a certeza da intervenção do Senhor.

5. "Bendito sois Vós no firmamento dos céus, digno de louvor e glória eternos!" (Dn 3, 56). Ao entoar este hino na manhã de Domingo, o cristão sente-se grato não só pelo dom da criação, mas também porque é destinatário do cuidado paterno de Deus, que em Cristo o elevou à dignidade de filho.

Um cuidado paternal que nos faz considerar com um novo olhar a própria criação e apreciar a sua beleza, na qual se entrevê, como que em filigrana, o amor de Deus. É com estes sentimentos que Francisco de Assis contemplava a criação e elevava o seu louvor a Deus, nascente última de toda a beleza. Torna-se espontâneo imaginar que a exaltação deste texto bíblico ecoava na sua alma quando, em São Damião, depois de ter alcançado o vértice do sofrimento no corpo  e  no  espírito,  compôs  o " Cântico  do  irmão  sol"  (cf. Fontes Franciscanas, 263).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 2 de Maio de 2001

19 de set. de 2012

Os Mandamentos de Deus


* Começo a publicar a terceira parte do Compêndio escrito por São Roberto Belarmino, agora falando dos Mandamentos de Deus e da Igreja. Apenas para embrar, as duas primeiras partes tratam da oração do Creio e das orações em geral, respectivamente. 

Qual a terceira parte da doutrina cristã?
- Os mandamentos de Deus

Quantos são os mandamentos de Deus?
- São dez, a saber:
1. Eu sou o teu Senhor e Deus, não terás outro Deus diante de mim.
2. Não uses o nome de Deus em vão.
3. Lembra-te de santificar as festas.
4. Honra ao teu pai e mãe para que tenhas prolongada vida na tera.
5. Não matarás.
6. Não fornicarás.
7. Não furtarás.
8. Não dirás falso testemunho.
9. Não desejarás a mulher do teu próximo.
10. Não cobiçarás as coisa alheias.

Quem deu estes mandamentos?
- O mesmo Deus os deu na lei velha, esculpidos em duas tábuas de pedra; e Jesus Cristo os confirmou na nova lei.

Quais são os mandamentos da primeira tábua?
- Os três primeiros, que dizem respeito a Deus.

E quais são os mandamentos da segunda tábua?
- Os últimos sete, que tocam o próximo.

Podemos nós guardar estes preceitos?
- Certamente podemos guardá-los com o auxílio da graça divina, a qual Deus é pronto a dar a uem lhe pede como se deve pedir.

Que contem, em suma, estes mandamentos?
- Contêm a obrigação da caridade para com Deus e com o próximo.

Que coisa se deve considerar geralmente em cada um destes preceitos?
- Que alguam coisa se nos manda e alguma outra se nos proíbe.

-- Do Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino, bispo (século XVI)

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