18 de abr. de 2025

O que Deus fez por ti?


O povo judeu era escravo no Egito, não podia sequer celebrar seu Deus, pois o Faraó proibia. Eram obrigados a seguir os deuses egípcios. As parteiras foram ordenadas a matar os recém-nascidos logo após o nascimento, ainda em frente aos pais. Eram obrigados a trabalhar todos os dias até alcançarem cotas impossíveis de produção. Na noite de Páscoa, Deus os libertou do Egito e os conduziu até Israel, receberam uma terra onde eram livres, onde construíram templos, tinham seus filhos, famílias e animais. Isto Deus fez para o povo judeu.

Na véspera de sua Paixão, Jesus reuniu-se com seus apóstolos para celebrar a Ceia Pascal. Como era costume, deviam estar limpos, algo difícil em uma terra desértica. Pois Cristo fez o trabalho dos escravos, lavou os pés de cada um dos doze, incluindo Judas que iria entregá-lo em poucas horas, e usando uma toalha, secou seus pés, isto é, fez o trabalho completo de purificação do corpo e dos pecados. Isto Deus fez para os apóstolos.

Logo depois, Jesus celebrou a Páscoa judaica, a festa da libertação do Egito, mas deu-lhe um novo significado. O pão já não é mais o pão da pressa, o pão da fuga do Egito, agora é o Corpo de Cristo para nossa salvação. O vinho já não é o fruto da terra prometida, de Israel, mas é o Sangue de Cristo derramado na Santa Cruz. Ali, naquela noite, Jesus deixou para nós a fonte da vida, um sinal de somos parte do corpo e sangue de Cristo, que somos também filhos de Deus. I

Logo após a Última Ceia, Cristo foi preso, foi obediente a Deus até o final. Naquele dia lhe colocaram uma coroa de espinhos, chicotearam-no, bateram com varas, testemunhou o povo pedindo sua morte, até seu mais importante colaborador, seu sucessor, Pedro lhe negou três vezes. Jesus foi o cordeiro imolado, o servo tão desfigurado que já não lhe reconheciam, o justo que morreu perdoando aqueles que estavam torturando e matando. Isto Jesus fez por amor, em nosso favor.

Na Vigília Pascal revivemos a história da salvação, como Deus agiu na história do mundo, desde sua criação até hoje, e ainda no futuro. Jesus Cristo não terminou na cruz, após dar seu último suspiro e entregar seu espírito ao Pai. Cristo desceu à mansão dos mortos, onde estão aqueles que mesmo sendo pecadores, ainda tem uma esperança de salvação, e conduziu os seus para o céu, para estarem junto à Ele. Cristo ressuscitou, já não está no túmulo, isto Deus fez para a nossa salvação.

Ao final da Vigília Pascal, temos que reconhecer quantas graças o Senhor fez por nós. O simples fato de estarmos vivos já é um milagre do amor de Deus. Pense quantas vezes quase aconteceu com você, o acidente de carro a sua frente, poderia ter sido você; a pessoa com uma doença incurável, poderia ter sido você; o assaltante deu um tiro em alguém que você conhecia, poderia ter sido você, o amigo de escola que perdeu a vida nas drogas, poderia ter sido você. De todas estas situações Deus te livrou, e até hoje Deus tem te conduzido, mesmo que muitas vezes não reconheças. Muitas coisas Deus fez por você.

Acima de tudo, Deus te ama!

-- autoria própria, catequese de Páscoa, 2025. 


13 de abr. de 2025

A cruz de Cristo é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças

Cristo na Cruz, Bartolomé Murillo
Timken Museum of Art, San Diego/USA

Que a nossa inteligência, iluminada pelo Espírito da Verdade, acolha com o coração puro e liberto, a glória da cruz que se irradia pelo céu e a terra; e perscrute, com o olhar interior, o sentido destas palavras do Senhor, ao falar da iminência de sua paixão: Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado (Jo 12,23). E em seguida: Agora sinto-me angustiado. E que direi? “Pai, livra-me desta hora!”? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu Filho! (Jo 12,27). E tendo vindo do céu a voz do Pai que dizia: Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo! (Jo 12,28), Jesus continuou, dirigindo-se aos presentes: Esta voz que ouvistes não foi por causa de mim, mas por causa de vós. É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim (Jo 12,30-32).

Ó admirável poder da cruz! Ó inefável glória da Paixão! Nela se encontra o tribunal do Senhor, o julgamento do mundo, o poder do Crucificado!

Atraístes tudo a vós, Senhor, para que o culto divino fosse celebrado, não mais em sombra e figura, mas num sacramento perfeito e solene, não mais no templo da Judéia, mas em toda parte e por todos os povos da terra.

Agora, com efeito, é mais ilustre a ordem dos levitas, maior a dignidade dos sacerdotes e mais santa a unção dos pontífices. Porque vossa cruz é fonte de todas as bênçãos e origem de todas as graças. Por ela, os que creem recebem na sua fraqueza a força, na humilhação, a glória, na morte, a vida. Agora, abolida a multiplicidade dos sacrifícios antigos, toda a variedade das vítimas carnais é consumada na oferenda única do vosso corpo e do vosso sangue, porque sois o verdadeiro Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo (Jo 1,29). E assim realizais em vós todos os mistérios, para que todos os povos formem um só reino, assim como todas as vítimas são substituídas por um só sacrifício.

Proclamemos, portanto, amados filhos, o que o santo doutor das nações, o apóstolo Paulo, proclamou solenemente: Segura e digna de ser acolhida por todos é esta palavra: Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores (1Tm1,15).

E é ainda mais admirável a misericórdia de Deus para conosco porque Cristo não morreu pelos justos, nem pelos santos, mas pelos pecadores e pelos ímpios. E como a natureza divina não estava sujeita ao suplício da morte, ele assumiu, nascendo de nós, o que poderia oferecer por nós.

Outrora ele ameaçava nossa morte com o poder de sua morte, dizendo pelo profeta Oséias: Ó morte, eu serei a tua morte; inferno, eu serei a tua ruína (cf. Os 13,14). Na verdade, morrendo, ele se submeteu às leis do túmulo, mas destruiu-as, ressuscitando. Rompeu a perpetuidade da morte, transformando-a de eterna em temporal. Pois, como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos reviverão (1Cor 15,2).


Dos Sermões de São Leão Magno, papa (século V)

12 de abr. de 2025

A Última Ceia, uma Páscoa judaica


A Última Ceia foi a celebração da Páscoa judaica, um
"seder", a solene refeição sacrificial realizada de acordo com os antigos ritos judaicos por nosso Senhor e seus apóstolos. Aqui revemos os acontecimentos dessa solene refeição, segundo se narra no Evangelho e do que os eruditos nos dizem da Páscoa no tempo de Cristo. Realmente, a Última Ceia foi a "última", em parte porque foi a celebração final dos ritos pascais da nova lei, a Páscoa Cristã.

"Este é o meu corpo que é entregue por vós"

A Ceia Pascal é uma espécie de preparação da Missa que enfoca nossa atenção no coração do mistério pascal, o Cordeiro que foi sacrificado e nos redimiu da escravidão com seu sangue.

A Última Ceia foi a celebração da Páscoa judaica, um "seder", uma solene refeição sacrificial realizada de acordo com os antigos ritos judaicos por nosso Senhor e seus apóstolos. Aqui queremos reconstruir os acontecimentos dessa solene refeição, segundo se narra no Evangelho e do que os eruditos nos dizem da Páscoa no tempo de Cristo. Realmente, a Última Ceia foi a última, porque foi a celebração final dos ritos pascais da nova lei, a Páscoa Cristã.

A Última Ceia é o momento decisivo quando os símbolos e profecias de outrora do Antigo Testamento são substituídos para sempre pelos fatos e cumprimento do Novo Testamento. Os evangelistas omitiram, ao narrar essa Ceia, muitos detalhes que davam como conhecidos por seus leitores judeus. Por exemplo, nosso Senhor toma o cálice duas vezes na narração de São Lucas na Última Ceia (Lc. 22: 17-20), São Paulo fala da "Taça da bênção" (1Cor 10,16) e São Mateus menciona um salmo antes que os Apóstolos deixassem o Cenáculo? (Mt. 26: 30). Tudo isto faz parte de um Seder judaico, e os judeus, ainda hoje, compreendem muito bem o que está sendo narrado.

Essas e outras frases ganham novo significado à luz dos antecedentes judaicos. A Ceia Pascal também nos ajudará a entender e a aprofundar as cerimônias litúrgicas da Semana Santa e da Páscoa, impregnadas como estão de figuras e alusões ao Antigo Testamento nas várias orações e salmos da liturgia católica. "Esta é a solenidade pascal na qual o verdadeiro Cordeiro foi sacrificado..." "Ó noite bendita que despojou os egípcios e enriqueceu os hebreus..."

Ao mesmo tempo, compreendendo mais claramente o contexto no qual Cristo escolheu instituir a Santa Eucaristia, se enriquecerá nossa participação na Missa. A Ceia Pascal é uma espécie de preparação da Missa que enfoca nossa atenção no coração do mistério pascal, o Cordeiro que foi sacrificado e nos redimiu da escravidão com seu sangue. E assim nos prepara para entrar mais de cheio em cada Missa, porque a Vigília Pascal não foi unicamente o fim do velho rito, mas o princípio do novo. Santo Atanásio diz: "Quando nos reunimos e comemos a carne de nosso Senhor e bebemos seu sangue, celebramos a Páscoa". A cerimônia da Ceia Pascal nos permite representar os eventos da vigília pascal como um drama-oração, para nos prepararmos para a verdadeira representação da vigília pascal na Santa Missa. 

Mas, por que Cristo usou a Ceia Pascal para instituir a Eucaristia? É importante que pensemos que isto representa a eleição deliberada e completamente considerada de Cristo. Ele envia seus discípulos para preparar o Cenáculo. Ele se preocupa com o tempo e o lugar exato e arranja tudo cuidadosamente de antemão, dizendo-lhes: Ardente desejo tive de comer convosco esta Páscoa, antes do meu sofrimento; pois vos digo que não a comerei mais até que ela se cumpra no Reino de Deus (Lc. 22: 15-16).   

A história do Êxodo do Egito que a Igreja lê em preparação aos mistérios pascais é a maior parábola de nossa Redenção no Antigo Testamento. Cada detalhe é significativo. E, dentro de todos os acontecimentos da Antiga Lei, o mais significativo de todos é o sangue do cordeiro sacrificado aspergido nas portas dos filhos de Israel para que o anjo vingador, que veio matar o primogênito em toda casa do Egito, "passasse por cima" das casas dos hebreus. O sangue do cordeiro profetiza o verdadeiro cordeiro cujo sangue libertou o mundo da escravidão do pecado. 

Deus ordenou que esta primeira Páscoa fosse comemorada solenemente em uma festividade anual; o povo devia sacrificar um cordeiro e participar de sua refeição com pão ázimo e ervas amargas, uma lembrança da fuga apressada do Egito, quando não houve tempo de levar consigo pão com fermento, em agradecimento pela liberdade que foi um presente de Deus. 

A festa da Páscoa anual ainda é uma celebração fundamental na religião judaica. Com o passar dos séculos, o ritual tornou-se mais elaborado; gradualmente também a Páscoa tornou-se não unicamente uma memória do agradecimento a Deus pela bondade a Israel no passado, mas como uma profecia do futuro; justamente como Deus uma vez conduziu o povo escolhido, longe da escravidão, para que um dia os guiasse ao novo êxodo, à era futura do Messias. 

No tempo de nosso Senhor, a ceia pascal já não era comida de pé e apressadamente, mas sentados ao redor da mesa de festa. Em grande contraste com aquela noite de fuga, 1.500 anos antes, a atmosfera era de amor e alegria espiritual. O coração verdadeiro da celebração permanecia o mesmo através dos séculos: sacrifício e banquete sacrificial, celebrado em ação de graças. 

A Vigília Pascal

Agora podemos começar a ver por que Cristo escolheu este momento para seu sacrifício. Esta festa familiar do povo escolhido, celebrada pelo povo como um todo e com um só coração, existia para que pudesse ser transformada na grande festa da comunidade cristã, demonstrando caridade, unindo mais intimamente em um só corpo aqueles alimentados pelo único Pão divino. A primeira Páscoa foi comemorada em uma Ceia Pascal; a segunda Páscoa, o sacrifício de Cristo, nossa Páscoa, foi realizada na Santa Missa, a Ceia Pascal do Novo Testamento.

No contexto da Páscoa, o significado do sacrifício se esclarece: "Este é o meu corpo que é entregue por vós" (Lc 22,19) para que vós possais vencer a morte no pecado para a vida de Deus. Nesse contexto, esclarece-se também que o novo sacrifício terá também seu banquete sacrificial: "Em verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós." (Jo 6,54). 

Na Última Ceia, Cristo com toda humildade e reverência guardou a Páscoa com seus discípulos, observando cada detalhe do seu ritual. Mas quando a Ceia ia concluir, Ele substituiu o antigo rito pelo novo. Ele tomou o pão, o abençoou e partiu, e o que deu aos seus discípulos já não era simplesmente o pão sem fermento da Páscoa. Ele tomou o cálice, o abençoou e o que lhes deu já não era unicamente a oferenda da Páscoa, mas o mistério da Nova Aliança que acabava de ser estabelecida. O momento supremo, antecipado na comemoração da Páscoa através dos séculos, havia chegado. A redenção do homem ia realizar-se. 

Geralmente se sustenta que nosso Senhor celebrou a Páscoa com seus discípulos na quinta-feira à noite, antecipando em um dia a Páscoa legal dos discípulos. Na Sexta-feira Santa, na hora precisa em que os cordeiros pascais eram sacrificados no Templo, símbolo claro do cumprimento das profecias, o Cordeiro de Deus consumava seu sacrifício na Cruz. 

A Velha Aliança entre Deus e o povo escolhido havia sido selada pelo sangue de muitas vítimas. A Nova Aliança estava agora selada pelo sangue da única vítima perfeita. O cordeiro figurado era substituído pelo Cordeiro verdadeiro. O sacrifício agora havia sido feito perfeito. Este mesmo sacrifício profetizado na Páscoa judaica, cumprido no Calvário, é renovado em cada Missa. Tão frequentemente quanto nós, cristãos, o povo escolhido do Novo Testamento, comemos o pão e bebemos o vinho, celebramos o mistério pascal. 

Como diz São João Crisóstomo, em cada Missa "é Cristo quem aqui e agora celebra a Páscoa com seus discípulos. E a mesa do altar é nada menos que a mesa da Última Ceia". Esta representação da Ceia Pascal é, então, uma preparação para o mistério pascal, como é renovado em cada Missa, e mais especialmente como é celebrado na Quinta-feira Santa e durante toda a Semana Santa... agora que as cerimônias litúrgicas da Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado Santo foram restauradas para as horas da noite, a dramatização pode ser feita apropriadamente a qualquer hora antes da Missa de Quinta-feira, e talvez melhor na noite de Quarta-feira Santa.

Retirado de "Celebración de la Cena Pascual", de Mons. Mario De Gasperín

Tradução própria


22 de dez. de 2024

Pregão de Natal


Do latim, præ-conium (anúncio solene ou pregão) de um acontecimento importante, proclamado diante da comunidade. Um pregão pode ser notificação oficial de parte da autoridade, ou inauguração solene de umas festas populares.

Na Liturgia, diz-se sobretudo do anúncio gozoso que, na Vigília Pascal, faz o diácono, no começo da celebração, proclamando os louvores da noite enternecedora que a comunidade começa a celebrar, e na qual se anunciará, a seu tempo (no Evangelho), a grande notícia da Ressurreição do Senhor. O nome de «pregão pascal» é mais feliz do que «bênção do círio» que se lhe dava, noutros tempos.

Também se pode cantar o pregão na noite de Natal, no começo da «Missa do Galo», com uma fórmula bem preparada e aprovada pelos bispos. O Pregão de Natal situa o Mistério da Incarnação no contexto da história do cosmos (Criação do mundo e Dilúvio), da história do Povo de Deus (Abraão, Êxodo, David) e da história universal (olimpíadas, fundação de Roma e império de Augusto). Isto é importante para entendermos que o Nascimento de Cristo aconteceu em um momento da história humana, não é uma ficção. 

O Natal é uma consagração do mundo e da história humana com horizontes de uma abertura verdadeiramente universal. Transcrevo aqui o texto oficial, segundo a Conferência de Bispos de Portugal por que não achei nada vindo da CNBB:

«Vos anunciamos irmãos uma boa notícia, 

uma grande alegria para todo povo,

escutem-na com com o coração alegre.


Passados inumeráveis séculos desde a criação do mundo,

 quando no princípio Deus criou o céu e a terra

 e formou o homem à sua imagem;

 depois de muitos séculos, 

desde que o Altíssimo pôs o seu arco nas nuvens 

como sinal de aliança e de paz; 

vinte e um séculos depois da emigração de Abraão, 

nosso pai na fé, de Ur dos Caldeus; 

treze séculos depois de Israel ter saído do Egito, 

guiado por Moisés; 

cerca de mil anos depois que David foi ungido rei; 

na semana sexagésima quinta, 

segundo a profecia de Daniel; 

na Olimpíada cento e noventa e quatro; 

no ano setecentos e cinquenta e dois da fundação de Roma; 

no ano quarenta e dois do império de César Octávio Augusto; 

estando todo o orbe em paz, 

Jesus Cristo, Deus eterno e Filho do eterno Pai, 

querendo consagrar o mundo com a sua piedosíssima vinda, 

concebido pelo Espírito Santo, 

nove meses depois da sua concepção, 

nasceu em Belém de Judá, 

da Virgem Maria, feito homem: 

é o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo 

segundo a carne».



24 de out. de 2024

São Ronan, o eremita


Ronan nasceu na Irlanda, no século VI, foi bem educado, tornou-se padre e suas atividades como bispo o tornaram famoso no país. Porém desejava ter uma comunhão mais estreita com Deus e, por isso, no apogeu de sua carreira, decidiu por um exílio voluntário, cortando todos laços com sua família, amigos e governo, e embarcou numa viagem para o norte da França. 

Ele desembarcou na região de Lion, dali prosseguiu até os bosques próximos de Névez, na região da Cornualha, onde se instalou numa ermida, que acabou ficando conhecida como Locronan (lugar de Ronan). Ali se dedicou à oração e uma vida na simplicidade, mas logo ficou conhecido por sua santidade, começou a atrair vários admiradores que o procuravam por sua sabedoria. 

Também acabou atraindo invejosos. Uma mulher chamada Keban, esposa de um campesino que admirava e ajudava muito o santo, acusou-o de ser um bruxo que podia transformar-se em um lobo selvagem que havia devorado inúmeras ovelhas e sua filha única. Então Ronan foi preso para ser investigado. O rei atiçou cachorros ferosos contra o santo, que os acalmou e domesticou. Perguntado sobre a filha de Keban, o santo revelou que a mãe havia encerrado a menina em um lugar muito pequeno, onde a deixou presa até morrer. Depois o santo mostrou onde estava o corpo da menina. Neste ponto, o povo resolver matar a mãe que havia assassinado a propria filha para acusar falsamente o santo. No entanto Ronan disse que ela deveria ser perdoada, não punida, e que a menina estava viva. De fato, por sua intercessão, a menina foi ressuscitada. 

Após algum anos, partiu para a cidade Hillion, onde faleceu rezando em sua cela. Daí surgiu uma disputa sobre onde o santo deveria ser enterrado, como não havia acordo, decidiram colocar o corpo do santo em uma carroça puxada por bois, mas ninguém conseguia levanter o corpo do santo, que pesava como se fosse uma pedra. Apenas o rei da Cornualha, que tinha um ferimento mal curado no braço, pode levanter o corpo do santo. Após colocá-lo sobre a carroça, seu braço foi curado milagrosamente. Os bois seguiram diretamente para o bosque de Névez, onde Ronan viveu como eremita.

São Ronan é celebrado em 1 de Junho. 

Tumba de São Ronan, na igreja de Locronan. 


-- autoria própria

26 de ago. de 2024

Nossa Senhora de La Vang


Temendo a propagação do catolicismo, o imperador Cảnh Thịnh restringiu a prática do catolicismo no país em 1798. Logo depois disso, o imperador emitiu uma lei anticatólica e iniciou-se a perseguição.

Vários católicos procuraram refúgio na floresta de La Vang, na província de Quảng Trị, no Vietnã, e devido as dificuldades, muitos ficaram doentes. Enquanto se escondiam na selva, a comunidade reunia-se todas as noites ao pé de uma árvore para rezar o terço. Uma noite, uma aparição os surpreendeu. Nos galhos da árvore apareceu uma senhora, usando o tradicional vestido vietnamita e segurando uma criança nos braços, com dois anjos ao seu lado. As pessoas presentes interpretaram a visão como a Virgem Maria e o menino Jesus Cristo. Eles disseram que Nossa Senhora os confortou e disse-lhes para ferverem as folhas das árvores como remédio para curar a doença. A lenda afirma que o termo "La Vang" era um derivado da palavra vietnamita que significa "gritar". 

Em 1802 os católicos regressaram às suas aldeias, transmitindo a história da aparição em La Vang e a sua mensagem. À medida que a história da aparição se espalhava, muitos vieram rezar neste local e oferecer incenso. Em 1820 foi construída uma capela.

De 1830 a 1885, outra onda de perseguições dizimou a população católica, durante o auge da qual foi destruída a capela em homenagem a Nossa Senhora de La Vang. Em 1886, iniciou-se a construção de uma nova capela. Após a sua conclusão, Dom Gaspar (Loc) consagrou a capela em honra de Nossa Senhora Auxiliadora, em 1901.

Em 8 de dezembro de 1954, a estátua de Nossa Senhora de La Vang foi recolocada uma imagem da virgem de La Vang na capela. A Conferência Episcopal Vietnamita escolheu a igreja de Nossa Senhora de La Vang como o Santuário Nacional em homenagem à Imaculada Conceição. La Vang se tornou o Centro Mariano Nacional do Vietnã em 13 de abril de 1961. O Papa João XXIII elevou a Igreja de Nossa Senhora de La Vang à categoria de basílica menor em 22 de agosto de 1961. Ela foi destruída novamente durante a Guerra do Vietnã em 1972 e o governo comunista não permitiu a sua reconstruçao.

Embora não haja reconhecimento oficial do Vaticano deste evento como uma aparição mariana, em 19 de junho de 1998, o Papa João Paulo II reconheceu publicamente a importância de Nossa Senhora de La Vang e expressou o desejo de reconstruir a Basílica de La Vang em comemoração ao 200º aniversário da primeira visão. A partir de 2012, uma nova igreja começou a ser construída, na mesma área da igreja destruída durante a guerra. 

Para mais fotos, acesse o post de Suzanne Nuyen, o texto é em inglês mas há muitas fotos, uma delas é a que ilustra este post.  

Um vídeo, também em inglês, mostra o santuario e construções próximas. 

Nossa Senhora de La Vang é celebrada em 27 de Agosto.

27 de mai. de 2024

Santa Dinfna, padroeira dos doentes mentais, mártir

Santa Dinfna nasceu na Irlanda, século sexto ou sétimo, era filha de um rei local, que era pagão, e sua rainha, que era cristã. A rainha morreu quando Dinfna era ainda criança, mas providenciou que a filha fosse batizada e fosse orientada por um padre. 

O Martírio de Santa Dimfna e São Gerebernus, pintura atribuída a Jacques de l'Ange

O rei decidiu procurar uma segunda espoda, que lhe desse um filho para seru sucessor, e enviou mensageiros por todo reino com ordens de encontrar uma moça virgem que fosse tão bonita quando a mãe de Dinfna, a qual ele amara muitíssimo, porém, os mensageiros não encontraram nenhuma moça que lhe agradasse. Com os passar dos anos, Dinfna tornou-se uma moça muito bonita e o rei decidiu que iria com a própria filha, mas ela já havia decidido que iria preservar a sua virgindade e dedicar-se à caridade.

Ao saber das intenções de seu pai, Dinfna fugiu com o seu confessor, Padre Gerebernus e auxiliares para o continente europeu. Instalou-se na cidade de Geel, próximo a uma capela dedicada a São Martinho de Tours, e lá passava o dia em oração. Após certo tempo decidiu construir um hospital para os doentes, usando a fortuna que havia trazido consigo.

Ao saber que suas moedas estavam sendo negociadas na Bélgica,  o rei logo entendeu que sua filha estava lá, organizou uma expedição, e foi buscá-la para forçar o casamento. Chegando em Geel, primeiro o rei mandou decapitar o Padre Gerebernus e outros servos que haviam ajudado na fuga. Dinfna suplicou pela vida deles, mas em vão. Enfim, ela era a única que restava viva, mas resistiu e declarou que jamais se casaria, que sua virgindade pertencia a Deus, e preferia morrer a cometer o pecado de incesto. O pai enfurecido tomou da sua própria espada e decapitou a filha que tinha apenas 15 anos.

Após o rei tomar rumo de volta à Irlanda, os habitantes de Geel enterraram os corpos de Dinfna e Padre Gerebernus em uma caverna próxima a cidade. Aos poucos surgiram relatos de milagres de cura de doentes mentais que perdido o rumo e, de alguma forma, haviam passado pela caverna. Desta maneira, a cidade começou a ser conhecida como um local de peregrinação para os doentes mentais, algo que persiste até os dias atuais.  Em 1349 uma igreja foi construída em honra à Dinfna, como muitos peregrinos vinham em busca de cura, a igreja foi expandida em 1480. A igreja original incendiou e uma nova foi construída em 1538, que existe até hoje.

Em 2004, o Martirológico Romano foi revisado e a festa de Santa Dinfna e São Gerebernus foi definida como 30 de Maio, segundo a tradição, dia do seu martírio. Santa Dinfna é padroeira das pessoas que sofrem transtornos mentais e neurológicos, bem como dos profissionais que tratam estes pacientes. 

Oração

Deus eterno e todo-poderoso, que escolheirs as criaturas mais frágeis para confundir os poderosos, dai-nos, ao celebrar o martírio de Santa Dinfna, a graça de imitar sua constância na fé. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!


30 de dez. de 2023

Esperança

Todo início de ano temos eperança de que o próximo seja melhor, que tenhamos mais saúde, alegria, tranquilidade e amor. Tudo isto é bom e não é errado desejar um vida melhor, afinal ninguém precisa ser um filósofo estóico para alcançar os céus e se alguém não tiver mais esperanças e desejos na vida, o que resta é apenas desespero e a morte. Mas enquanto todos tem esperança, há alguams diferenças importantes quando consideramos a esperança baseada na fé.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC 1817) define esperança assim:

A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos o Reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. "Conservemos firmemente a esperança que professamos, pois Aquele que fez a promessa é fiel" (Heb 10, 23). "O Espírito Santo, que Ele derramou abundantemente sobre nós, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, para que, justificados pela sua graça, nos tornássemos, em esperança, herdeiros da vida eterna" (Tt 3, 6-7).

Em primeiro lugar, a esperança é um dom de Deus, que Ele prometeu para nosso benefício. A esperança nos dá a possibilidade de enfrentarmos qualquer situação sabendo que por mais difícil que pareça, Deus pode agir e transformá-la em algo diferente do que pensamos. Os desafios da vida podem parecer impossíveis, todos nós já enfrentamos situações assim, mas Deus tem o poder de recriar a vida a partir de uma situação de morte. Cristo fez exatamente isto quando desceu à mansão dos mortos e ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus, onde está sentado à direita de Deus. Professamos esta fé em cada Missa, e quando temos uma situação como uma doença, desemprego, crise na família, podemos confiar que Deus pode renovar nossa vida, refazer a nossa história e conduzir a vida melhor. 

Em segundo lugar, devemos ter nossos olhos não apenas na vida terrestre, mas sabermos que o Reino dos Céus e a vida eterna devem ser o centro da nossa esperança e da nossa vida. Com o auxílio do Espírito Santo, do qual a esperança é um dos dons, podemos ter a certeza que, arrependidos de nossos pecados, levando uma vida santificada, também ascenderemos aos céus e nos encontraremos junto de Deus. A vida não termina com a nossa morte, a vida é eterna.

Em terceiro lugar, devemos confiar em Deus, não nas nossas forças. Como seres humanos somos imperfeitos e nossa compreensão é incompleta, mas Deus é perfeito e onisciente. Nele podemos confiar plenamente, pois Ele sabe, melhor que nós, onde estará nossa felicidade. Nossos erros do passado podem ser apagados, nosso futuro reconstruído por Deus. Não há dificuldade que Deus não possa nos ajudar a superar, não há problema que Deus não possa resolver. Nosso papel é rezar e confiar em Deus, para que a vontade Dele se faça na nossa vida, não que Ele faça o que queremos, mas que Ele nos ajude a estarmos preparados para aceitar o que Ele coloca na nossa vida. 

Deixo aqui algumas passagens bíblicas que podemos ler e explorar, que falam desta esperança em Deus, que a fé o Espírito Santo nos trazem. Que todos tenhamos um Feliz Ano Novo!


  • Coragem! E sede fortes. Nada vos atemorize, e não os temais, porque é o Senhor, vosso Deus, que marcha à vossa frente: ele não vos deixará nem vos abandonará” (Dt 31, 6)
  • Vós sois meu abrigo e meu escudo; vossa palavra é minha esperança. (Sl 119, 114)
  • Em recompensa, o meu Deus há de prover magnificamente a todas as vossas necessidades, segundo a sua glória, em Jesus Cristo. (Fp 4, 19)
  • O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei medo? Quando os malvados me atacam para me devorar vivo, são eles, meus adversários e inimigos, que resvalam e caem. Se todo um exército se acampar contra mim, não temerá meu coração. Se se travar contra mim uma batalha, mesmo assim terei confiança. Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário. Assim, no dia mau ele me esconderá na sua tenda, irá ocultar-me no recôndito de seu tabernáculo, sobre um rochedo me erguerá. (Sl 26, 1-5).
  • Paulo, servo de Deus, apóstolo de Jesus Cristo para levar aos eleitos de Deus a fé e o profundo conhecimento da verdade que conduz à piedade, na esperan­ça da vida eterna prometida em tempos longínquos por Deus verdadeiro e fiel. (Tt 1, 1-2)
  • Manifestou-se, com efeito, a graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens. Veio para nos ensinar a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa da nossa esperança feliz, a aparição gloriosa de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniqui­dade, nos purificar e nos constituir seu povo de predileção, zeloso na prática do bem. (Tt 2, 11-14)
  • Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia ele nos fez renascer pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança, para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada para vós nos céus; para vós que sois guardados pelo poder de Deus, por causa da vossa fé, para a salvação que está pronta para se manifestar nos últimos tempos. (1Pe 1, 3-5)
  • A confiança que depositamos nele é esta: em tudo quanto lhe pedirmos, se for conforme à sua vontade, ele nos atenderá. E se sabemos que ele nos atende em tudo quanto lhe pedirmos, sabemos daí que já recebemos o que pedimos. (1Jo 5, 14-15)
  • Se é só para esta vida que temos colocado a nossa espe­rança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima. Mas não! Cristo ressuscitou dentre os mortos, como primícias dos que morreram! Com efeito, se por um homem veio a morte, por um homem vem a ressurreição dos mortos. Assim como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: como primícias, Cristo; em seguida, os que forem de Cristo, na ocasião de sua vinda. (1Co 15, 19-23)
  • O Deus da esperança vos en­cha de toda a alegria e de toda a paz na vossa fé, para que pela virtude do Espírito Santo transbordeis de esperança! (Rm 15, 13)
  • Cristo em vós, esperança da glória! (Cl 1, 27b)
  • Aproximemo-nos, pois, confiadamente do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e achar a graça de um auxílio oportuno. (Hb 4, 16)

-- autoria própria

22 de dez. de 2023

Sobre a benção de casais - Fiducia supplicans

Em 18 de Dezembro de 2023 Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um document chamado Fiducia supplicans, que está disponível no site do Vaticano. Não há versão em português, então vou traduzir alguns trechos da versão em espanhol

9. Desde o ponto de visto estritamente litúrgico, uma benção requer que auqele que a recebe esteja em conformidade com a vontade de Deus manifestada nos ensinamentos da Igreja

10. As bençãos se celebram, de fato, em virtude da fé e objetivam o louvor a Deus e o proveito espiritual do povo. [...] Por isso, se convida a aqueles que pedem a benção de Deus através da Igreja a intensificar suas disposições internas na fé de que não há nada impossível e confiar na caridade que premia os que guardam os mandamentos de Deus.

11. Baseando-se nestas considerações, [...] a Congregação para Doutrina da Fé recorda que quando, com um rito litúrgico adequado, se invoca uma benção sobre alguma relação humana, aquilo que se bendiz deve corresponder as desígnios de Deus inscritos na Criação e plenamente revelados por Cristo, Nosso Senhor. Por isso, dado que a Igreja sempre considerou moralmente lícitas apenas as relações sexuais que se vivem dentro do matrimônio, não tem poder de conferir sua benção litúrgica quando está, de alguma maneira, pode oferecer uma forma legítimidade moral a uma união que se presume ser um matrimônio ou uma prática sexual extramatrimonial. 

31. Assim, no horizonte delineado neste documento, se coloca uma possibilidade de bençãos de casais em situações irregulares e casais do mesmo sexo, cuja forma não deve encontrar nenhuma forma fixa por parte das autoridades eclesiásticas, para não produzir confusão com a benção própria do sacramento do matrimônio. [...] As bençãos devem expressar uma súplica a Deus para que se conceda aquelas ajudas que provêm do Espírito Santo [...] para que as relações humanas possam amadurecer e crescer em fidelidade na mensagem do Evangelho [...].

32. A graça de Deus, de fato, atua na vida daqueles que não se consideram justos, mas que se reconhecem humildemente pecadores como todos. [...] Por isso, com incansável sabedoria e maternidade, a Igreja acolhe a todos que se aproximam de Deus com coração humilde, aompanhando-os com auxílios espirituais que permitam a todos compreender e realizar plenamente a vontade de Deus em sua existência. 

Comentário:

Agora é meu comentário particular, não partes de documentos da Igreja:: 

  • seria importante ter uma tradução oficial e completa do documento em português, espero que a CNBB esteja trabalhando neste sentido;
  • não podemos esquecer que todos somos pecadores e recebemos bençãos da Igreja para mudarmos nossas atitudes;
  • o documento começa reafirmando os ensinamentos da Igreja sobre a ilegitimidade de casamentos em segunda união e parcerias homossexuais, ou seja, a doutrina não mudou;
  • não haver uma fórmula para  a benção nestas situações permite aos padres adaptar a benção a cada caso particular mas, ao mesmo tempo, deixa a todos, padres, comunidades e Igreja, abertos a situações contrárias aos ensinamentos da Igreja;
  • considerando a alta probabilidade de confusões e mal-entendidos, não é de se estranhar que bispos tenham orientado os padres a não abençoar casais em situação irregular, prudência é uma virtude;
  • a benção deve ressaltar a importância de modificar o comportamento individual, saindo da atual situação de pecado;
  • como sempre, a imprensa não leu o documento completo, ou se leu, destacou apenas o que interessa a sua agenda.






1 de out. de 2022

É difícil ser cristão?

 

Está escrito: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28) cujo significado é explicado por São Hilário: “O Senhor chama para si todos aqueles que estão com dificuldades para cumprir a Lei e estão sobrecarregados pelos pecados do mundo”. E Logo a seguir, Jesus diz “meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30), portanto a Nova Lei é mais leve que a Velha Lei.

Há duas dificuldades que podem afetar as obras da virtude que são o objetivo da Lei. Uma é relativa às obras externas, que podem ser cansativas e percebidas como um peso por que a Velha Lei é muito abrangente, cheia de detalhes e pequenas cerimônias realizadas ao longo de todo dia, enquanto a Nova Lei aboliu muito daquelas práticas.

Outra dificuldade é relativa aos atos interiores, por exemplo, que as obras de caridade devem ser feitas com presteza e alegria. Esta dificuldade é resolvida pelo amor, por que um ato que é difícil realizar, torna-se fácil pelo amor. Até os filósofos afirmam que é fácil cumprir a Lei, mas fazê-lo alegremente, sem murmurar, é difícil se a pessoa não for justa. De acordo, lemos em (1Jo 5,3) “Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos”. Santo Agostinho completa: "os mandamentos não são pesados para o homem que ama, mas são um peso para os que não amam”.

Logo, as tribulações sofridas por aqueles que observam a Nova Lei são facilmente resolvidas se considerarmos o Amor que anima estes mesmos mandamentos, como explica Santo Agostinho: “o amor faz tudo mais leve e facilita tudo que parece difícil e além da nossa capacidade”.

-- São Tomás de Aquino

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