29 de ago. de 2020

Santa Sabina e Santa Serápia

 No século II, a perseguição aos cristãos se acalmou durante o reinado de Trajano. Sua política foi seguida pelo sucessor, Imperador Adriano, pelo mesmo motivo: evitar desordens civis. Basicamente, cristãos eram punidos apenas se fossem denunciados.

Sabina era viúva do Senador Valenciano e filha de outro administrador da cidade, Herodes Metalário. Uma de suas escravas, Serapia havia vendido todos seus bens, doado o dinheiro aos pobres e entrou voluntariamente na escravidão. Pelo seu exemplo de piedade, oração e dedicação, converteu a Sabina. 

Paisagem com o enterro de Santa Serápia 

No ano de 125, Serápia foi denunciada como cristã e presa. Como costume, foi convidada a rezar aos deuses romanos, mas ela recusou-se por amor a Cristo. Enquanto estava na cadeia, dois soldados tentaram estuprá-la, mas ela resistiu e eles não tiveram forças para dominá-la. Então eles tentaram queimá-la com tochas, mas o fogo não a tocou. Por fim, o juiz decretou que fosse espancada e decapitada. Seu corpo foi enterrado em um túmulo comum.

Sabina resgatou o corpo de sua escrava e deu-lhe um digno enterro cristão no mausoléu de sua família. Cerca de um mês depois, Sabina foi também denunciada como cristã, presa e recusou-se a adorar aos deuses romanos. Sendo de um família importante, foi levada para a região da Úmbria, onde foi decapitada, a exemplo de sua escrava.

Em 430 seus restos mortais foram levados de volta a Roma, onde enterraram no Monte Aventino, no local que tinha sido propriedade de sua família. Naquele local foi construída uma igreja que daria origem a basílica atual em honra das duas santas, Serápia e Sabina, cuja festa é celebrada em 29 de Agosto.

-- autoria própria

-- A imagem é do quadro Paisagem com o enterro de Santa Serápia, do francês  Cláudio de Lorena, que está no Museu do Padro, em Madri. Santa Sabina está ali presente acompanhando o enterro de sua ex-escrava. A paisagem mostra, em um primeiro plano, ruínas do templo de Juno, depois os fundos da catedral dedicada às santas e, por fim, os restos do Coliseu. Não se trata de uma cena histórica, mas mostra os martíres cristão em destaque, a catedral cristã está intacta mas não é importante por que a Igreja é mais que os prédios, enquanto os poderosos romanos que fizeram tantos martíres, hoje são ruínas.


 

22 de ago. de 2020

Rainha do mundo e da paz

 

Considera com que justa disposição refulgiu, já antes da assunção, o admirável nome de Maria por toda a terra. Sua fama extraordinária por toda a parte se espalhou antes que sua magnificência fosse elevada acima dos céus. Pois convinha que a Virgem Mãe, em honra de seu Filho, primeiro reinasse na terra, em seguida,fosse recebida gloriosa nos céus. Fosse amplamente conhecida na terra, antes de entrar na santa plenitude. Levada de virtude em virtude, fosse assim exaltada de claridade em claridade pelo Espírito do Senhor. 

Presente na carne, Maria antegozava as primícias do reino futuro, ora subindo até Deus com inefável sublimidade, ora descendo até os irmãos com inenarrável caridade. Lá recebia os obséquios dos anjos, aqui era venerada pela submissão dos homens. Servia-lhe Gabriel com os anjos; ao lado dos apóstolos servia-lhe João, feliz por lhe ter sido confiada a Virgem Mãe a ele, virgem. Alegravam-se aqueles por vê-la rainha; estes por sabê-la senhora. Todos a obedeciam de coração.

E ela, assentada no mais alto cume das virtudes, repleta do oceano dos carismas divinos, do abismo das graças, ultrapassando a todos, derramava largas torrentes ao povo fiel e sedento. Concedia a saúde aos corpos e às almas, podendo ressuscitar da morte da carne e da alma. Quem jamais partiu de junto dela doente ou triste ou ignorante dos mistérios celestes? Quem não voltou para casa contente e jubiloso, tendo impetrado de Maria, a Mãe do Senhor, o que queria?

Ela é esposa repleta de tão grandes bens, mãe do único esposo, suave e preciosa nas delícias. Ela é como fonte dos jardins inteligíveis, poço de águas vivas e vivificantes, que correm impetuosas do Líbano divino, fazendo descer do monte Sião até às nações estrangeiras vizinhas rios de paz e mananciais de graças vindas do céu. E assim, ao ser elevada a Virgem das Virgens por Deus e seu Filho, o rei dos reis, no meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se a profecia do Salmista que diz ao Senhor: Está à tua destra a rainha recoberta de bordados a ouro, em vestes variadas (Sl 44,10).

 -- Santo Amadeu, bispo (século XII)

6 de ago. de 2020

É bom nós estarmos aqui


Jesus manifestou a seus discípulos este mistério no monte Tabor. Havia andado com eles, falando-lhes a respeito de seu reino e da segunda vinda na glória. Mas talvez não estivessem muito seguros daquilo que lhes anunciara sobre o reino. Para que tivessem firme convicção no íntimo do coração e, mediante as realidades presentes, cressem nas futuras, deu-lhes ver maravilhosamente a divina manifestação do monte Tabor, imagem prefigurada do reino dos céus. Foi como se dissesse: Para que a demora não faça nascer em vós a incredulidade, logo, agora mesmo, eu vos digo, alguns dos que aqui estão não provarão a morte antes de verem o Filho do homem vindo na glória de seu Pai (cf. Mt 16,28). Mostrando o Evangelista ser um só o poder de Cristo com sua vontade, acrescentou: E seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João e levou-os a um monte alto e afastado. E transfigurou-se diante deles; seu rosto brilhou como o sol, as vestes se fizeram alvas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias a falar com ele (cf. Mt 17,1-3). 

São estas as maravilhas da presente solenidade, é este o mistério de salvação para nós que agora se cumpriu no monte: ao mesmo tempo, congregam-nos agora a morte e a festa de Cristo. Para penetrarmos junto àqueles escolhidos dentre os discípulos, inspirados por Deus, na profundeza destes inefáveis e sagrados mistérios, escutemos a voz divina que do alto, do cume da montanha, nos chama instantemente.  

Para lá, cumpre nos apressarmos, ouso dizer, como Jesus, que agora nos céus é nosso chefe e precursor, com quem refulgiremos aos olhos espirituais – renovadas de certo modo as feições de nossa alma – conformados à sua imagem; e à semelhança dele, incessantemente transfigurados, feitos consortes da natureza divina e prontos para as alturas.  

Para lá corramos cheios de ardor e de alegria; entremos na nuvem misteriosa, semelhantes a Moisés e Elias ou Tiago e João. Sê tu também como Pedro, arrebatado pela divina visão e aparição, transfigurado por esta linda Transfiguração, erguido do mundo, separado da terra. Deixa a carne,abandona a criatura e converte-te para o Criador a quem Pedro, fora de si, diz: Senhor, é bom para nós estarmos aqui (Mt 17,4). 

Sim, Pedro, verdadeiramente é bom para nós estarmos aqui com Jesus e aqui permanecermos pelos séculos. Que pode haver de mais delicioso,de mais profundo, de melhor do que estar com Deus, conformar-se a ele, encontrar-se na luz? De fato, cada um de nós, tendo Deus em si, transfigurado em sua imagem divina, exclame jubiloso: É bom para nós estarmos aqui, onde tudo é luminoso, onde está o gáudio, a felicidade e a alegria. Onde no coração tudo é tranquilo, sereno e suave. Onde se vê a Cristo, Deus. Onde ele junto com o Pai tem sua morada e ao entrar, diz: Hoje chegou a salvação para esta casa (Lc 19,9). Onde com Cristo estão os tesouros e se acumulam os bens eternos. Onde as primícias e figuras dos séculos futuros se desenham como em espelho.

-- Do Sermão no dia da Transfiguração do Senhor, de Anastásio Sinaíta, bispo (século VII)

4 de jul. de 2020

Santo Isaac Jogues, mártir em terras americanas

Santo Isaac Jogues (1607-1646) e suas mãos mutiladas



Isaac Jogues nasceu em 10 de Janeiro de 1607, filho de Laurent and Françoise, na cidade de Orleans, França, foi o quinto do filho do casal, que teria ainda outros quatro. Aprendeu a ler em casa, aos 10 anos começou a frequentar uma escola jesuíta; aos 17 iniciou seu noviciado em Rouen, professou seus votos em 1626 e, após estudar Teologia em Paris, foi ordenado padre em 1636.

Nesta época alguns padres retornaram das missões na América e contaram as muitas tribulações e até torturas que sofreram. Isaac, no entanto, viu a necessidade de ir catequizar estes índios, para que pudessem se converter e modificar suas vidas. Logo após sua ordenação, foi enviado para o Canadá, onde trabalharia com os índios Huron e Algonquins, aliados dos franceses.

Missão no Canadá

Chegou em Quebec no dia 2 de Julho. Para sua mãe escreveus: “Não sei como é entrar no paraíso, mas isto e - será difícil eu sei - será difícil estar tão alegre como quando coloquei meus pés neste mundo novo e celebrei minha primeira Missa no dia da Visitação de Nossa Senhora”.

Em 11 de Setembro chegou na vila de São José, onde permaneceria. Uma epidemia atingiu a vila, resultando em índios e missionários muito doentes. Após se recuperar, pode iniciar seu trabalho de evangelização. Os índios convidavam os padres a visitar as vilas e ensiná-los sobre Deus. Viveu na vila por seis anos, aprendeu a linguagem, comida, usos e costumes dos índios, com que compartilhavam o mesmo modo de viver.

Nesta época, índios das tribos ao sul, atual Estados Unidos, começaram a contar que os colonizadores estavam ingleses e holandeses estavam trazendo calamidades e que os índios estavam lutando contra eles.

Isaac e um companheiro, Padre Garnier, decidiram rumar para o sul, na direção do estado de Ontátrio. Lá não foram recebidas por quase nenhuma vila de índios e seu trabalho, neste sentido, foi um tanto inútil. Em Setembro de 1641, Isaac e Padre Charles foram visitar a tribo dos Oijbwe. Lá foram bem recebidos por dois mil índios e construíram uma residência.

Prisão e torturas

Em 3 de Agosto de 1642, Padre Isaac, dois leigos franceses e um grupo de índios Hurons estavam retornando para Quebec quando foram atacados por índios Mohawk. Jogues conseguiu se esconder, mas percebeu que os índios haviam capturados muitos prisioneiros e decidiu se entregar pois assim poderia ajudá-los e ministrar os últimos sacramentos aos cristãos do seu pequeno rebanho.

Percebendo que Isaac era padre, tornou-se o alvo preferencial dos Mohawk que bateram com bastões, quebraram a ponta dos dedos e depois cortaram a carne até aparecer os ossos. Dali marcharam até a vila da tribo, onde passaram por uma espécie de corredor, um por vez, formado pelos guerreiros. Enquanto passavam pelo corredor, eram espancados. Uma índia cortou o dedão da mão direita de Isaac. Foram todos amarrados e as crianças jogavam carvão quente neles. Dali foram levados para outra vila, onde permaneceram amarrados por alguns dias, até que um dia decidiu que era suficiente. Durante este período, Isaac permaneceu rezando e encorajando seus companheiros.

Ao saber da captura, um comandante holandês da região tentou negociar com os Mohawk a liberação dos europeus, mas estes negaram qualquer proposta, apenas prometeram que não os matariam. Eles permaneceram prisioneiros, com pouca comida e sem vestimenta adequada para o inverno. Tinham que caçar para comer, mas os índios não lhes davam nenhuma arma. Num dia muito frio de inverno, Isaac percebeu que uma índia que estava grávida caiu num rio com grande correnteza; ele pulou na água e a salvou.

No outono de 1643, os índios levaram seus prisioneiros para negociar com os holandeses. Estes conseguiram tomá-los dos índios e os colocaram em um barco que os conduziu pelo Rio Hudson até Nova Iorque. Isaac foi o primeiro padre a visitar a cidade, ainda dominada pelos protestantes holandeses. Lá ele aguardou um navio que pudesse levá-lo de volta para a França.

Estadia na França

Ao chegar à França, Isaac foi considerado como um mártir vivo, por tudo que sofrera. Segundo as normas da época, o padre só poderia tocar o Santíssimo Sacramento com dois dedos para ter o mínimo contato possível, mas com suas mãos mutiladas, isto era impossível. O Papa Urbano VIII, ao saber do caso, concedeu-lhe uma dispensa especial. 
Imagem na porta da Catedral de São Patrício, em Nova Iorque.


Retorno ao Canadá

Na primavera de 1646, Isaac foi enviado para Canadá junto com o jesuíta Jean de Lalande, onde deveria negociar um acordo com os Mohawk, a idéia era conseguir estes dessem passagem para os franceses e seus aliados, os índios Huron.

Eles não foram bem recebidos pelos Mohawk que achavam que praticavam uma espécie de magia negra. Epidemias de febre, sarampo e varíola, que matavam muitos índios, não ajudavam os franceses. Além disso, Isaac conhecia muito bem o território e passou a ser visto como uma ameaça.

Em 18 de Outubro de 1646, os MOhawk mataram Isaac Jogues e, no dia seguinte, Jean de Lalande. Seus corpos foram jogados no Rio Mohawk, no atual estado de Nova Iorque.

Como Santo Isaac Jogues escreveu, a vida de prisioneiro, sofrimentos e tortura, eram sua participação nos sacrifícios de Cristo. Ele escreveu que: “Jesus está nos concedendo estes sofrimentos para que participemos nas suas cruzes”. Ele contou que teve uma visão onde havia uma procissão de vítimas de torturas entrando no Paraíso e dizendo “pecadores construíram monumentos e deixaram marcas de sua ira nas minhas costas”. Para ele, tudo isto era sua participação na Paixão de Cristo e, por isto, retornou para o Canadá, para  morte quase certa. Isto ele deixou claro para sua mãe, quando antes da segunda viagem, lhe escreveu que “meu coração diz que eu devo aceitar esta missão, que eu devo ir e não retornarei”.

Canonização

Santo Isaac Jogues foi canonizado pelo Papa Pio XI em 29 de Junho de 1930 junto com outros mártires. Sua festa ocorre em 19 de Outubro . O principal santuário em sua honra está localizado na cidade de Auriesville, estado de Nova Iorque.

-- autoria própria

1 de jul. de 2020

Venha a nós o vosso reino


Quem haverá, por mais irrefletido que seja, que, desejando fazer um pedido a uma pessoa importante, não discuta consigo mesmo como lhe falará, de forma a lhe agradar e não o aborrecer? Pensará também no que lhe irá pedir e para que fim, sobretudo quando se trata de coisa tão importante, como a que nosso bom Jesus nos ensina a pedir. Na minha opinião, é isso o mais fundamental.
 
Não poderíeis, Senhor meu, englobar tudo numa palavra e dizer: “Dai-nos, ó Pai, o que for conveniente e adequado?” Assim nada mais seria preciso dizer a quem tudo conhece com perfeição.

Tempestade no Mar da Galiléia, Rembrandt.
Isto na verdade, ó eterna Sabedoria, seria suficiente entre vós e vosso Pai, e foi assim que orastes no Horto de Getsêmani. Vós lhe manifestastes vossa vontade e temor, mas vos conformastes totalmente à sua vontade. Quanto a nós, Senhor meu, sabeis não sermos tão conformados assim, como o fostes à vontade do Pai. Por esta razão, cumpre pedir coisa por coisa. Deste modo, refletiremos antes se nos convém o que pedimos. Em caso contrário, deixemos de pedi-lo. De fato, somos assim: se não nos for concedido o que pedimos, este nosso livre-arbítrio não aceitará o que o Senhor nos der. Porque, embora seja o melhor quanto o Senhor nos der, se não vemos logo o dinheiro na mão, nunca pensamos ser ricos. Por isso Jesus nos ensina a dizer as palavras com que pedimos a vinda de seu reino: Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino. Admirai, minhas filhas, a profunda sabedoria de nosso Mestre! Considero eu aqui – e para nós é bom entender – o que pedimos com este reino. A majestade de Deus via que não podíamos santificar ou glorificar como seria bom este santo nome do Pai eterno, de acordo como pouquinho que podemos, a menos que sua Majestade não providenciasse, dando-nos aqui o seu reino. Por isso o bom Jesus pôs um pedido ao lado do outro. Para entendermos o que pedimos e quanto interessa pedirmos, importuna e ardentemente, e, além disso, fazer tudo que estiver a nosso alcance para satisfazer àquele que no-lo dará, quero expor-vos aqui o que sobre isso compreendo.

O supremo bem que me parece existir no reino dos céus é que já não se dá valor às coisas da terra. Sendo assim, há um alegrar-se da alegria de todos, uma paz perpétua, uma satisfação imensa em si mesmos por ver que todos engrandecem ao Senhor e bendizem seu nome, sem ninguém mais o ofender com seus pecados. Todos o amam e em seu coração não anseiam nada mais do que amá-lo, nem podem deixar de amá-lo, porque o conhecem. É assim que o deveríamos amar também aqui, embora não o possamos com toda esta perfeição e em sua essência. Pelo menos, nós o amaríamos muito mais do que o amamos, se melhor o conhecêssemos.

-- Do livro O Caminho da Perfeição, de Santa Teresa, virgem (século XVI)

19 de jun. de 2020

Em vós está a fonte da vida


Considera, ó homem redimido, quem é aquele que por tua causa está pregado na cruz, qual a sua dignidade e grandeza. A sua morte dá a vida aos mortos; por sua morte choram o céu e a terra, e fendem-se até as pedras mais duras. Para que, do lado de Cristo morto na cruz, se formasse a Igreja e se cumprisse a Escritura que diz: Olharão para aquele que transpassaram (Jo 19,37), a divina Providência permitiu que um dos soldados lhe abrisse com a lança o sagrado lado, de onde jorraram sangue e água. Este é o preço da nossa salvação. Saído daquela fonte divina, isto é, no íntimo do seu Coração, iria dar aos sacramentos da Igreja o poder de conferir a vida da graça, tornando-se para os que já vivem em Cristo bebida da fonte viva que jorra para a vida eterna (Jo 4,14). 

            Levanta-te, pois, tu que amas a Cristo, sê como a pomba que faz o seu ninho na borda do rochedo (Jr 48,28), e aí, como o pássaro que encontrou sua morada (cf. Sl 83,4), não cesses de estar vigilante; aí esconde como a andorinha os filhos nascidos do casto amor; aí aproxima teus lábios para beber a água das fontes do Salvador (cf. Is 12,3). Pois esta é a fonte que brota no meio do paraíso e, dividida em quatro rios (cf. Gn 2,10), se derrama nos corações dos fiéis para irrigar e fecundar a terra inteira. 

            Acorre com vivo desejo a esta fonte de vida e de luz, quem quer que sejas, ó alma consagrada a Deus, e exclama com todas as forças do teu coração:“Ó inefável beleza do Deus altíssimo e puríssimo esplendor da luz eterna, vida que vivifica toda vida, luz que ilumina toda luz e conserva em perpétuo esplendor a multidão dos astros, que desde a primeira aurora resplandecem diante do trono da vossa divindade.  

            Ó eterno e inacessível, brilhante e suave manancial daquela fonte oculta aos olhos de todos os mortais! Sois profundidade infinita, altura sem limite, amplidão sem medida, pureza sem mancha!” 

            De ti procede o rio que vem trazer alegria à cidade de Deus (Sl 45,5), para que entre vozes de júbilo e contentamento (cf. Sl 41,5) possamos cantar hinos de louvor ao vosso nome, sabendo por experiência que em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz (Sl 35,10). 

-- Das Obras de São Boaventura, bispo (século XIII)

12 de jun. de 2020

O suave livro dos salmos

Embora toda a divina Escritura exale a graça de Deus, o mais suave é o Livro dos Salmos. Moisés, que escreveu os feitos dos patriarcas em simples prosa, quando fez passar através do mar Vermelho o povo dos pais para imperecível admiração, vendo afogados o faraó e seus exércitos, sentiu inflamar-se seu engenho, pois conseguira portentos acima de suas forças, e elevou triunfal cântico ao Senhor. Maria, também, tomou o pandeiro e assim exortava as outras, entoando: Cantemos ao Senhor, que se cobriu de glória e de honra; lançou ao mar cavalo e cavaleiro.
 
A história instrui, a lei ensina, a profecia anuncia, a correção castiga, a moral persuade. Ora, no Livro dos Salmos há proveito para todos e remédio para a salvação do homem. Quem o lê, tem remédio especial para as chagas das paixões. Quem quiser lutar como em ginásio de almas e estádio de virtudes, onde estão preparados diversos gêneros de luta, escolha para si aquele que julgar mais adequado para mais facilmente alcançar a coroa.

Se alguém quiser recordar e imitar os feitos gloriosos dos antepassados, encontrará compendiada num salmo toda a história de nossos pais, podendo assim enriquecer o tesouro da memória numa breve leitura. Se alguém perscruta a força da lei que está toda no vínculo da caridade (quem ama o próximo, cumpriu a lei), leia então, nos salmos, com quanto amor um só se expôs aos mais graves perigos para repelir o opróbrio de todo o povo. Donde se reconhece não ser a glória da caridade menor do que o triunfo da virtude.
 
Que direi sobre o dom da profecia? Aquilo que outros anunciaram por enigmas, só a este, aparece clara e abertamente a promessa de que o Senhor Jesus nasceria de sua linhagem, conforme lhe falou: Porei sobre teu trono o fruto de tuas entranhas. Por conseguinte, nos salmos não apenas nasce Jesus para nós, mas ainda aceita a salvífica paixão de seu corpo, adormece, ressurge, sobe aos céus, assenta-se à direita do Pai. O que homem algum ousaria dizer, só este profeta anunciou e depois o próprio Senhor o manifestou no seu evangelho.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

5 de jun. de 2020

Beato Franz Jägerstätter, mártir do governo nazista

Franz nasceu na Áustria em 20 de Maio de 1907, seu pai morreu como soldado durante a I Guerra Mundial e sua mãe casou novamente com Heinrich Jägerstätter, que o adotou como filho, inclusive mudando o seu sobrenome.

Como jovem, ele trabalhava na fazenda do pai, depois nas minas. Era membro de uma gang de motociclistas, e até chegou a ser preso por algumas confusões e brigas que participou. Quando seu pai morreu, ele assumiu a fazenda. Em 1936 engravidou sua futura esposa, casaram-se e decidiram que a lua de mel seria uma peregrinação a Roma. 

Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria. Na sua vila, Franz foi a única pessoa que votou contra, mas as autoridades preferiram mentir que a votação havia sido unânime em favor dos nazistas. Após o início da guerra, em 1940 Franz foi chamado para treinamento militar, do qual participou por sete meses. Através de um pedido do prefeito, Franz retornou para casa. Neste tempo entrou para a Terceira Ordem de São Francisco e tornou-se sacristão da igreja de Sankt Radegund. 

Conforme os crimes cometidos pelos nazistas foram se tornando mais conhecidos da população e a perseguição religiosa aumentando, Franz decidiu que não poderia lutar por aquele governo. Discutiu isto com o padre e o bispo, ambos aconselharam-no a pensar na sua família, pois já tinha 3 filhos. Sua ida para o Exército foi sendo adiada por pedidos das autoridades locais que o consideravam essencial na cidade.

Mas em 23 de Fevereiro de 1943 foi finalmente chamado para o serviço ativo. Franz apresentou-se no quartel em 1o. de Março, na cidade de Enns, recusou-se a prestar o obrigatório juramento a Hitler e ofereceu-se para trabalhar no corpo médico. Sua oferta foi recusada e ele foi imediatamente preso.

Na Semana Santa escreveu para sua esposa: "A Páscoa está chegando, se for a vontade de Deus que não possamos novamente celebrar a Páscoa unidos como família neste mundo, ainda podemos olhar com confiança para o futuro pois celebraremos uma Páscoa eterna nos céus, todos nós estaremos lá, e poderemos nos alegrar pois estaremos eternamente reunidos". Da Áustria, foi transferido para Berlim, onde seria julgado.

Túmulo do Beato Franz




Seu advogado de defesa perguntou-lhe por que não fazia como todos os outros católicos que estavam servindo no Exército, defendendo seu país, sua família. Franz respondeu: "Eu só posso agir de acordo com a minha consciência, não posso julgar a ninguém. Tenho pensado na minha família, rezado, e colocado minha esposa e filhos nas mãos de Deus. Eu sei o que Deus quer na minha vida e que Ele cuidará da minha família". 

Em outro momento escreveu: "Eu não trocaria a minha cela pequena e suja por um palácio real se tivesse que renunciar a minha fé. Discípulos de Jesus devem aprender que o sofrimento é inevitável e aprender de Cristo que a nossa é uma religião da Cruz"

Numa carta para sua esposa, escreveu: "Nossos laços com Deus devem ser mais fortes que o amor que devotamos à família. Com certeza sabes que devemos amar mais a Deus que nossas vidas e temos que estar prontos para abandonar nos amores terrenos para não ofendermos a Deus por nada".

Em 8 de Agosto, Franz escreveu uma última carta à sua esposa: "Querida esposa e mãe, eu te agradeço, do meu coração, por tudo que fizeste na minha vida, por todos sacríficios que estás passando por causa de mim. Eu te peço que me perdoes se tenho te ofendido, assim como tenho perdoado a todos. Meu coração está com meus queridos filhos, tenho implorado a Deus que reserve um pedaço do céu para cada um de nós. Dou graças também ao nosso Salvador porque pude sofrer por Ele. Confio na sua infinita misericórdia; espero que Ele me perdoe tudo e não me abandone na minha última hora... Observai os mandamentos e, com a graça de Deus, ver-nos-emos em breve no Céu!"

Beato Franz foi decapitado e cremado no dia seguinte. Suas cinzas foram transferidas para o cemitério da sua cidade quando terminou a guerra, em 1946, junto ao de outros 60 que morreram como soldados durante a guerra. 

Após a morte de Franz, sua esposa escreveu ao bispo: "Eu perdi meu querido marido e o pai de meus filhos, mas posso assegurar que o nosso era um dos casamentos mais felizes da paróquia, que muitas pessoas nos invejavam. Mas quis o bom Deus que não permanecêssemos juntos, tenho a certeza que nos reencontraremos nos céus, onde a guerra não irá nos separar".

Papa Bento XVI declarou-o mártir da fé católica e a beatificação aconteceu em 26 de Outubro de 2007, na cidade de Linz, Áustria. 

-- autoria própria

 * Homília no solene rito de Beatificação de Franz Jägerstätter , que foi presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins.




2 de jun. de 2020

Santa Melânia, a Velha

Melânia, a Velha é a avó de outra santa com o mesmo nome, Melânia, a Jovem; ou seja, na mesma família temos duas santas, ambas chamadas Melânia, avó e a neta. A família estava no topo da administração romana, era riquíssima e tinha ligações com a Espanha. 

Melânia, a Velha, nasceu em 323 ou 325, os registros são incertos. Seus pais, quando ela chegou na idade adequada, escolheram como marido Valério Máximo, já tinha sido embaixador romano na corte em Constantinopla e prefeito de Roma, ou seja, também era de uma família rica e prestigiada, mas bem mais velho que Melânia. Permanenceram casados por poucos anos, tiveram três filhos e o marido faleceu quando ela tinha apenas 22 anos. Logo após, dois filhos também morreram, deixando a família reduzida apenas a Melânia e seu filho Valério Públicola, o futuro pai da neta Melânia.

Vida monástica

Ela decidiu que ao invés de casar novamente, iria deixar Roma e foi para Egito e Israel, onde passaria a viver próximo aos padres do deserto, bispos, monjes e monjas que eram o centro da igreja, que naquela época não era Roma. Surpreendente para nossos padrões atuais, ela deixou seu filho com um tutor que tinha acesso a todos os seus bens para garantir o sustento da criança e partiu para o Oriente. Ela só retornaria a ver o filho 37 anos após.

Ao chegar no Egito, ela visitou alguns monjes que viviam no deserto e decidiu que teria uma vida semelhante. No entanto, havia um problema prático: eles queriam viver em isolamento e, neste sentido, sua presença não era benvinda. Por outro lado, ela percebeu que continuar vivendo numa casa confortável, mesmo que estando em oração e jejum, envolvia ter que perder tempo com a administração da casa, limpeza e outras atividades que a distraiam do objetivo principal. 

Com estes pensamentos, ela foi para Jerusalém viver nos locais que Jesus e os apóstolos também haviam vivido. Chegando lá, inspirada pelos textos de Orígenes, construiu um monastério no Monte das Oliveiras onde passaria a viver uma vida ascética estudando as Sagradas Escrituras. Este foi um dos primeiros monastérios construídos como uma resposta intermediária entre o isolamento no deserto e as necessidades práticas de uma vida na cidade. O monastério chegou a abrigar 50 jovens vivendo uma vida penitente, mas também trabalhando numa hospedaria para peregrinos construída ao lado da casa. 

Melânia envolveu-se nos debates quanto às possíveis heresias de Orígenes, São Jerônimo que também morava em Jerusalém chegou a escrever contra ela. Quando os defensores de Orígines foram perseguidos, Melânia deu abrigo e os protegeu.

Viagem a Roma
Em 399 ela decidiu viajar para Roma. No caminho encontrou-se com São Paulino de Nola, que morava no sul da Itália, para quem deu de presente um pedaço da Santa Cruz de Cristo. Em Roma, não apenas reencontrou seu filho, mas também sua neta, a quem teria instigado a viver uma vida simples e peregrina, abandonando Roma e as riquezas da família.

Em 406 decidu retornar a Jerusalém. Novamente encontrou-se com São Paulino de Nola, que pediu-lhe para levar uma carta a São Agostinho, que estava no norte da África. Depois da longa viagem, ela permaneceu no monastério em Jerusalém até sua morte, em 410.

Santa Melânia, a Velha, é muito mais venerada pela Igreja Ortodoxa, não sendo muito popular no Ocidente. 

Dois exemplos para nós
Algumas histórias, de difícil comprovação, são contadas sobre ela.

Quando pela primeira vez chegou ao Egito, procurou um monge do deserto conhecido como Abba Pambo e deu-lhe 100 quilos de prata. Ainda habituada aos modos da corte, esperava um grande agradecimento e elogios, mas o monge não lhe disse nada. Ela insistiu e ressaltou que se tratava de 100 quilos de prata, uma fortuna. Enfim o monge lhe respondeu: "Minha filha, Deus que construiu as montanhas com seu poder, sabe que aí há 100 quilos de prata. Ele prestou atenção na viúva que deu duas moedinhas no templo (cf Mc 12, 42), Ele sabe o que estás fazendo. Mas se estás dando para mim, eu não quero bem materiais e podes levar de volta".

Anos depois, outro monge chamado Evagrius chegou a Jerusalém e ficou na hospedaria ao lado do monastério que ela havia fundado. O monge estava muito doente e não havia remédio que ajudasse. Percebendo que algo mais se passava, ela foi falar com ele e disse: "Estás doente por que há um pecado em teu coração!". O monge confessou que havia conhecido uma mulher muito linda, por quem sentia desejos da carne. Melânia lhe respondeu: "Prometa que de agora em diante vais viver em um monastério, recluso e em oração, e eu vou rezar por ti e pedir a Deus que te perdoe os pecados, sejam lá o que tiverdes feito". E, de fato, o monge se recuperou rapidamente e viveu ainda muito e muitos anos.  

-- autoria própria.


31 de mai. de 2020

Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo

"Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo": assim escreve Paulo aos Coríntios. E continua: "Há diversidade de serviços, mas o Senhor é o mesmo; e há diversos modos de agir, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos" (1 Cor 12, 4-6). Diversidade e o mesmo, diversos e um só: o Apóstolo insiste em juntar duas palavras que parecem opostas. Quer-nos dizer que este um só que junta os diversos é o Espírito Santo. E a Igreja nasceu assim: diversos, unidos pelo Espírito Santo.

Recuemos até aos inícios da Igreja, no dia de Pentecostes, e fixemos os Apóstolos: entre eles, temos pessoas simples, habituadas a viver do trabalho das suas mãos, como os pescadores, e está Mateus, certamente dotado de instrução pois fora cobrador de impostos. Existem origens e contextos sociais diversos, nomes hebraicos e nomes gregos, temperamentos pacatos e outros ardorosos, ideias e sensibilidades diferentes. Eram todos diferentes. Jesus não os mudara, nem os uniformizara, tornando-os modelos em série. Não. Deixara as suas diversidades; e agora une-os, ungindo-os com o Espírito Santo. A união – a união deles que eram diversos – vem com a unção. No Pentecostes, os Apóstolos compreendem a força unificadora do Espírito. Veem-na com os próprios olhos, ao constatar que todos, apesar de falar línguas diversas, formam um só povo: o povo de Deus, plasmado pelo Espírito, que tece a unidade com as nossas diferenças, que dá harmonia porque, no Espírito, há harmonia. Ele é a harmonia.

Mas voltemos à Igreja de hoje. Podemos interrogar-nos: "O que é que nos une, em que se baseia a nossa unidade?" Também entre nós existem diversidades, por exemplo de opinião, preferência, sensibilidade. A tentação, porém, é defender sempre de espada desembainhada as nossas ideias, considerando-as boas para todos e pactuando apenas com quem pensa como nós. E esta é uma tentação ruim, que divide. Mas, esta é uma fé à nossa imagem, não é aquilo que deseja o Espírito. Nesse caso, poder-se-ia pensar que aquilo que nos une fossem as próprias coisas em que acreditamos e os próprios comportamentos que adotamos. Mas não! Há muito mais: o nosso princípio de unidade é o Espírito Santo. E a primeira coisa que Ele nos lembra é que somos filhos amados de Deus; nisto, todos iguais e, todavia, somos todos diferentes. O Espírito vem a nós, com todas as nossas diversidades e misérias, para nos dizer que temos um só e mesmo Senhor, Jesus, um só e mesmo Pai; por isso, somos irmãos e irmãs. Partamos daqui! Olhemos a Igreja como faz o Espírito, não como faz o mundo. O mundo vê-nos de direita e de esquerda, com esta ideologia, com aquela; o Espírito vê-nos do Pai e de Jesus. O mundo vê conservadores e progressistas; o Espírito vê filhos de Deus. O olhar do mundo vê estruturas, que se devem tornar mais eficientes; o olhar espiritual vê irmãos e irmãs implorando misericórdia. O Espírito ama-nos e conhece o lugar de cada um no todo: para Ele não somos papelinhos coloridos levados pelo vento, mas ladrilhos insubstituíveis do seu mosaico.

Tornamos ao dia de Pentecostes e descobrimos a primeira obra da Igreja: o anúncio. Vemos, porém, que os Apóstolos não preparam uma estratégia; quando estavam fechados lá, no Cenáculo, não montavam a estratégia, não; não preparavam um plano pastoral. Teriam podido dividir as pessoas por grupos segundo os vários povos, falar primeiro aos de perto e depois aos que eram de longe, tudo bem ordenado... Teriam podido também temporizar um pouco no anúncio e, entretanto, aprofundar os ensinamentos de Jesus, para evitar riscos... Mas não! O Espírito não quer que a recordação do Mestre seja cultivada em grupos fechados, em cenáculos onde tendemos a "fazer o ninho". E esta é uma doença má que pode vir à Igreja: uma Igreja não comunidade, nem família, nem mãe, mas ninho. O Espírito abre, relança, impele para além do que já foi dito e feito, Ele impele para além dos recintos duma fé tímida e cautelosa. No mundo, sem uma estrutura compacta e uma estratégia calculada é um fracasso. Na Igreja, ao contrário, o Espírito assegura ao arauto a unidade. E os Apóstolos partem: sem preparação, lançam-se, saem. Anima-os um único desejo: dar o que receberam. Como é belo aquele princípio da Primeira Carta de João: aquilo que nós recebemos e vimos, damo-lo a vós (cf. 1, 3)! 

Finalmente chegamos a compreender qual é o segredo da unidade, o segredo do Espírito. O segredo da unidade da Igreja, o segredo do Espírito é o dom. Porque Ele é dom, vive doando-Se e, assim, nos mantém unidos, fazendo-nos participantes do mesmo dom. É importante acreditar que Deus é dom, que não se comporta tomando, mas dando. E por que é importante? Porque o nosso modo de ser crentes depende de como entendermos Deus. Se tivermos em mente um Deus que toma, que Se impõe, desejaremos também nós tomar e impor-nos: ocupar espaços, reivindicar importância, procurar poder. Mas, se tivermos no coração que Deus é dom, muda tudo. Se nos dermos conta de que aquilo que somos é dom d’Ele, dom gratuito e imerecido, então também nós quereremos fazer da própria vida um dom. E amando humildemente, servindo gratuitamente e com alegria, ofereceremos ao mundo a verdadeira imagem de Deus. O Espírito, memória viva da Igreja, lembra-nos que nascemos de um dom e crescemos doando-nos; não poupando-nos, mas dando-nos.

Queridos irmãos e irmãs, olhemos no íntimo de nós mesmos e perguntemo-nos o que é que impede de nos darmos. Há – por assim dizer – três inimigos do dom; os principais são três, sempre deitados à porta do coração: o narcisismo, a vitimização e o pessimismo. O narcisismo leva a idolatrar-me a mim mesmo, a comprazer-me apenas com o lucro próprio. O narcisista pensa: "A vida é boa, se eu ganho com ela". E assim chega a dizer: "Por que deveria eu doar-me aos outros?" Nesta pandemia, faz um mal imenso o narcisismo, o debruçar-se apenas sobre as próprias carências, insensível às dos outros, o não admitir as próprias fragilidades e erros. Mas o segundo inimigo, a vitimização, também é perigoso. A vítima lamenta-se todos os dias do seu próximo: "Ninguém me compreende, ninguém me ajuda, ninguém me quer bem, estão todos contra mim!" Quantas vezes ouvimos estas lamentações! E o seu coração fecha-se, enquanto se interroga: "Por que não se doam a mim os outros?" No drama que vivemos, como é má a vitimização! Como é mau pensar que ninguém nos compreende e sente aquilo que sentimos nós! Isto é o fazer a vítima. Por fim, temos o pessimismo. Neste caso, a ladainha diária é: "Nada vai bem, a sociedade, a política, a Igreja..." O pessimista insurge-se contra o mundo, mas fica inerte e pensa: "Assim para que serve doar-se? É inútil". Agora, no grande esforço de recomeçar, como é prejudicial o pessimismo, ver tudo negro, repetir que nada voltará a ser como antes! Pensando assim, aquilo que seguramente não volta é a esperança. Nestes três – o ídolo narcisista do espelho, o deus-espelho; o deus-lamentação: "sinto-me alguém nas lamentações"; e o deus-negatividade: "é tudo negro, é tudo escuro" – encontramo-nos na carestia da esperança e precisamos de apreciar o dom da vida, o dom que é cada um de nós. Por isso, necessitamos do Espírito Santo, dom de Deus que nos cura do narcisismo, da vitimização e do pessimismo; cura do espelho, das lamentações e da escuridão.

Irmãos e irmãs, peçamo-lo: Espírito Santo, memória de Deus, reavivai em nós a lembrança do dom recebido. Libertai-nos das paralisias do egoísmo e acendei em nós o desejo de servir, de fazer bem. Porque pior do que esta crise, só o drama de a desperdiçar fechando-nos em nós mesmos. Vinde, Espírito Santo! Vós que sois harmonia, tornai-nos construtores de unidade; Vós que sempre Vos doais, dai-nos a coragem de sair de nós mesmos, de nos amar e ajudar, para nos tornarmos uma única família. Amém.

-- Papa Francisco, Na Festa de Pentecostes, 30 de Maio de 2020

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