25 de mar. de 2022

O sacramento da nossa reconciliação

 


 A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.

Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.

Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.

Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido;existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.

Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.

Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.

A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.

É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).

-- Das Cartas de São Leão Magno, Papa (século V)

11 de fev. de 2022

A Meditação, Primeiro Grau da Oração

A palavra meditação é muita usada nas Sagradas Escrituras então quer dizer outra coisa mais que um pensamento fixo e atento, capaz de produzir efeitos bons ou maus.

No primeiro salmo (Sl 1,1-2), o homem chama-se bem-aventurado porque sua vontade está posta na lei do Senhor, e na sua lei meditará dia e noite; mas em outro Salmo diz-se: Porque razão se embraveceram as nações e os povos meditaram coisas vãs? (Sl 2,1-2) A meditação, pois, pode tender para o bem ou para o mal; mas, como na Sagrada Escritura é ordinariamente empregada para exprimir a atenção que prestamos às coisas divinas, para nos excitarmos a amá-las, quando falamos de meditação, entendemos a que é santa e início da teologia mística.

Toda meditação é pensamento, mas nem todo pensamento é meditação. Muitas vezes temos pensamentos a que o espírito se prende por simples passatempo, sem qualquer intenção ou pretensão, à semelhança das moscas que voam por aqui e por ali, sobre as flores, sem delas tirarem coisa alguma; esta espécie de pensamento, por atento que seja, não pode ter o nome de meditação, mas deve-se chamar simplesmente pensamento. Algumas vezes pensamos atentamente numa coisa para entender as suas causas, os seus efeitos, as suas qualidades; este pensamento chama-se estudo, e nele o espírito faz como os besouros que esvoaçam indistintamente sobre as flores e a folhas, para as comerem e delas se nutrirem.

Quando, porém, pensamos nas coisas divinas, não para as apreender, mas para lhes dar o nosso afeto, chama-se a isto meditar, a este exercício, meditação; o nosso espírito aplica-se a tarefa, não como mosca que se diverte, ou besouro que só procura comer e encher-se, mas como abelha, que pousa aqui e ali sobre as flores dos santos mistérios, para deles extrair o mel do divino amor. 

Assim muitos devaneiam em pensamentos inúteis, sem as vezes saberem em que pensam, entregando-se a cogitações que martirizam a sua alma e que quereriam não ter, como testemunha o Santo Patriarca Jó: Passaram os meus dias, desvaneceram-se os meus pensamentos que flagelaram o meu coração (Jó 17,11).

Muitos entregam-se ao estudo, e nesta ocupação laboriosa enchem-se de vaidade, não podendo resistir ao veemente desejo de saber, mas poucos são os que meditam para aquecer o coração no santo amor de Deus.

Numa palavra, o pensamento e o estudo incidem sobre qualquer espécie de assunto, mas a meditação só se refere aos assuntos cuja consideração nos pode tornar bons e devotos; de sorte que a meditação não é outra coisa mais que um pensamento atento, reiterado ou conservado voluntariamente no espírito, a fim de excitar a vontade de afetos e resoluções santas e salutares.

A Sagrada Bíblia explica admiralvelmente em que consiste a meditação com uma excelente comparação. Ezequias descreve num cântico a atenção que presta às suas dores, dizendo: Clamarei como o filhinho da andorinha, gemerei como a pomba (Is 38,14). De fato, os filhinhos das andorinhas abrem desmedidamente o bico, quando chilreiam, e as pombas, ao contrário, conservam o bico fechado, cadenciando a voz na garganta e peito, tanto para exprimir a alegria como a tristeza. Ezequias, pois, para mostrar que no meio das suas mágoas fazia muitas orações vocais, diz: Clamarei como filhinho da andorinha, isto é, abrindo a boca  para soltar diante de Deus muitas vozes plangentes. Por outro lado, querendo atestar que empregava a santa oração mental, continua: Gemerei como a pomba, volvendo e revolvendo os meus pensamentos dentro do coração para bendizer e louvar a soberana misericórdia do meu Deus, que me tirou das portas da morte (Is 38,10), tendo compaixão das minhas misérias. 

Assim diz Isaías (Is 38,14): Rugiremos como ursos, e meditando gemeremos como pombas. O rugido dos ursos refere-se às exclamações e aos brados que se empregam na oração vocal, e o gemidos das pombas à santa meditação.

E para que se saiba que as pombas não fazem o seu arrulho só nas ocasiões tristes, mas também nas alegres, o Esposo sagrado, descrevendo a primavera natural para exprimir as graças da primavera espiritual, diz (Ct 2,12): Ouviu-se na terra a voz da rola; porque na primavera é que a pomba começa a apaixonar-se do amor, como manifesta nos frequentes arrulhos. E logo depois (Ct 2,14): Pomba minha, mostra-me a tua face; soe a tua voz dentro dos meus ouvidos; porque a tua voz é doce e graciosa é a tua face.

Quer dizer que a alma devota lhe é muito grata, quando se apresenta diante dele e medita para se animar ao santo amor espiritual, como fazem as pombas para se excitarem aos seus amores naturais.

Do mesmo modo aquele que tinha dito: Gemerei como a pomba, exprimindo-se doutra forma, afirma: Relembrarei diante de ti todos os meus anos com amargura da minha alma (Is 38, 15), porque meditar e relembrar para excitar os afetos é uma e mesma coisa.

Moisés advertindo o povo que relembrasse os favores recebidos de Deus: Guardarás os mandamentos do Senhor teu Deus, e andarás nos seus caminhos, e O temerás (Dt 8,6); e Deus dá também este mesmo preceito a Josué (1, 8): Não se aparte da tua boca o livro desta lei; mas meditarás nele dia e noite, para observares e cumprires tudo o que nele está escrito.

O que numa das passagens é expresso pela palavra meditar é na outra enunciado pela palavra relembrar. E para mostrar que o pensamento refletido e a meditação tendem a mover-nos aos afetos, resoluções e ações, diz-se numa e noutra passagem, que é necessário relembrar e meditar a lei para observar e praticar. Neste sentido o Apóstolo exorta-nos desta forma (Hb 12, 3): Meditai atentamente n'Aquele que sofreu tal contradição da parte dos pecadores contra a sua pessoa, para que não desfaleçais, faltando-vos a coragem. 

E porque quer Ele que meditemos na Sagrada Paixão, não para nos tornarmos sábios, mas para sermos pacientes e corajosos no caminho do Céu. Oh Senhor, como tenho amado a vossa Lei!, diz Davi (Sl 118, 97), ela é a minha meditação todo o dia. Medita na lei porque a ama, e ama-a porque a medita.

A meditação não é mais que o ruminar místico, necessário para tirar as impurezas (Lv 11,3-4.8), ao qual nos convida uma das devotas pastoras, que seguiam a sagrada Sulamita; afirmava ela que a santa doutrina é como um vinho precioso, digno não só de ser bebido por pastores e doutores, mas de ser cuidadosamente saboreado, e, por assim dizer, mastigado e ruminado. A tua garganta, diz ela (Ct 7,9-10), é como o melhor vinho, digno de ser bebido pelo meu amado, e saboreado entre os seus lábios e os seus dentes. Do mesmo modo o bem-aventurado Isaac (Gn 24,63), como um cordeiro limpo e puro, saía à tarde para os campos para exercitar o seu espírito com Deus, isto é, para orar e meditar.

A abelha na primavera vai voejando de flor em flor não ao acaso, mas de propósito, não somente para se recrear com o aprazível matiz da paisagem, mas para procurar o mel, e tendo-o achado, suga-o e dele se carrega. Em seguida, leva-o à colméia, dispõe-no artisticamente, separando dele a cera e fazendo com esta o favo no qual conserva o mel para o inverno seguinte.

Tal é a alma devota na meditação: vai de mistério em mistério, não de passagem, nem mesmo só para se consolar com a admirável beleza dessas divinas verdades, mas com o intuito de encontrar motivos de amor e afetos, e, tendo-os encontrado, os atrai a si, os saboreia, e deles se carrega e, resumindo-os e dispondo-os dentro do coração, põe de parte o que vê ser mais apropriado ao seu adiantamento, fazendo resoluções convenientes para o tempo da tentação.

Desta forma a celeste amante, como abelha mística, vai pousando no Cântico dos Cânticos, ora sobre os olhos, ora sobre os lábios, sobre as faces, ou sobre os cabelos do seu Bem-amado, isto é, de Jesus, para aurir dÉle a suavidade de mil afetos apaixonados, de sorte que, toda abrasada no amor divino, fala com Ele, interroga-O, escuata-O, suspira e O admira, ao passo que Ele a enche de alegria inspirando-a, movendo-lhe o coração, abrindo-o para nele difundir luzes, claridades, doçuras sem fim, dum modo tão secreto que bem se pode dizer desta santa conversação da alma com Deus o que a Sagrada Escritura diz de Deus com Moisés (Ex 19,19-20): que Moisés, estando no alto da montanha falava com Deus e Ele lhe respondia.
 

-- São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, livro 6, capítulo 2. (século XVI)

19 de jan. de 2022

A Providência divina é admirável na variedade de graças que distribui aos homens


A Providência eterna agiu com incomparável benevolência para com a Rainha das rainhas, a Mãe do amor puro (Eclo 24,24), a única perfeita.

Dispensou também especiais benefícios, graças e bençãos aos homens e anjos, de cuja abundância todos foram orvalhados como de uma chuva que cai sobre os justos e injustos (Mt 5, 45); todos foram esclarecidos, como de uma luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo (Jo 1,9), todos receberam a sua parte, como de uma semente que cai não só sobre a boa terra, mas no meio dos caminhos, entre os espinhos e sobre as pedras (Mt 13, 38), de modo que todos fossem sem excusa (5) perante o Redentor, se não aproveitassem esta abundantíssima redenção para sua salvação. 

Porém, Teótimo [1], ainda que estas graças sejam assim derramadas sobre toda natureza humana, e nisto sejamos todos iguais, pois tantas bençãos nos são oferecidas a todos, é certo que a variedade destes favores é tão grande, que não se pode dizer o que é mais admirável, se a grandeza de todas as graças numa tal diversidade, ou a sua diversidade em tantas grandezas.

Quen não vê que os meios de salvação entre os cristãos são maiores e mais poderosos que entre os bárbaros, e que entre cristãos há povos e cidades onde os pastores são prestativos e hábeis?

Ora, negar que estes meios exteriores são favores da Providência divina, ou pôe em dúvida que contribuam à salvação e à perfeição das almas, seria ser ingrato para com a celeste Bondade e desmentir a verdadeira experiência que nos ensina que, de ordinário, onde abundam estes meios exteriores, os interiores tem mais eficácia e produzem melhor resultado.

Assim como não se encontra nunca dois homens perfeitamente parecidos nos dons naturais, também não se encontra iguais nos sobrenaturais. 

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino asseguram que os anjos receberam a graça segundo a variedade de suas condições naturais. Ora eles são todos, ou de diferente espécie, ou pelo menos de diferentes condições, porque se distinguem uns dos outros; por conseguinte há tantas graças diferentes quantos são so anjos.

Com respeito aos homens, ainda que a graça lhes não seja dada segunda as suas condições naturais, todavia a divina Bondade, comprazendo-se, e para assim dizer, recreando-se na produção de graças, diversifica-as por infinitas formas, para que esta variedade se faça o formoso esmalte da sua redenção e misericórdia, como a Igreja canta na festa de cada Confessor Pontífice: Não se achou outro semelhante a ele (Eclo 44,20). E como no céu ninguém conhece o novo nome senão que o recebe (Ap 2,17), porque cada um dos bem-aventurados tem o seu nome particular, conforme o novo estado de glória que adquire, assim também na terra, cada um recebe uma graça particular, que todas são diversas.

Por isso o nosso Salvador compara a sua graça às pérolas (Mt 13, 44.46), que, como diz Plínio, nunca são perfeitamente iguais; e como as estrelas diferem umas das outras em claridade (1Cor 15,41), do mesmo modo serão os homens diferentes uns dos outros na glória, sinal evidente de o terem sido na graça.

Ora esta variedade na graça, ou essa graça na variedade, produz uma beleza e harmonia, que regozija a santa cidade, a Jerusalém celeste.

Mas importa muito não procurar investigar por que motivo a suprema Sabedoria distribuiu uma graça a uma graça a um antes que a outro, nem por que razão transbordou os seus favores mais num lugar que em outros.

Não, Teótimo, não tenhais nunca esta curiosidade, porque se todos recebem suficiente e abundandamente o que é necessário para a salvação, que razão de quixa pode ter o homem por Deus distribuir as suas graças com mais liberalidade a uns que a outros?

Se alguém perguntasse qual a causa porque Deus fez os lírios maiores que as violetas, porque o alecrim não é uma rosa e cravo não é um malmequer, porque motivo o pavão é mais belo que um morcego, ou porque é o figo doce e o limão ácido, escarneceriam de suas perguntas e dir-lhe-iam: "Pobre homem, já que a beleza do mundo requer variedade, é preciso que haja diferentes e desiguais perfeições nas coisas, e que não seja a outra; eis porque umas são pequenas, outras são grandes; umas acres, outras doces; umas mais e outras menos belas".

Dá-se o mesmo com as coisas sobrenaturais: cada pessoa tem o seu dom; um dum modo e outro doutro, diz o Espírito Santo (1Cor 7,7).

É, pois, um disparate querer investigar porque razão São Paulo não teve a graça de São Pedro, nem São Pedro a de São Paulo, porque motivo Santo Antão não foi Snato Atanásio, nem Santo Atanásio não foi São Jerônimo.

A Igreja é um jardim matizado de flores, e é preciso que as haja de diversos tamanhos, de diversas cores, de diversos aromas, numa palavra, de diferentes perfeições; todas tem o seu valor, a sua graça, o seu esmalte; e todas, no conjunto de suas variedades, produzem a beleza.


-- São Francisco de Sales, Tratado do Amor Divino, livro 2, capítulo 7.

[1]: S. Francisco explica no prefácio do livro que Teótimo não é uma pessoa que ele conhecia, mas a alma do leitor. Teótimo combina duas palavras gregas, Theos, que significa Deus, e Timé, um presente especial, ou seja, para o santo, todas pessoas recebem de Deus um presente especial, sua alma. O santo escolheu esta forma porque escreve não apenas para  o intelecto, como a maioria dos livros, mas para a alma.


 

17 de jan. de 2022

O Espírito Santo ilumina sua Igreja


O Espírito Santo ensina que os lábios da divina Esposa, isto é, da Igreja, se assemelham a uma fita escarlate ou ao favo que destila doçura (Ct 4,3), para que todos saibam que a doutrina que ela anuncia se resume no sagrado amor.

A Igreja, banhada pelo sangue de Jesus, é mais viva e brilhante que o escarlate, é mais suave que o mel, por causa da doçura do Bem amado que a inunda de delícias (Ct 7,5). Por isso, este celeste Esposo, ao começar a publicação da sua Lei, fez descer sobre os discípulos - seus pregadores, grande número de línguas de fogo, mostrando assim que o Evangelho era destinado a abrasar os corações.

É um quadro admirável contemplar as pombas, tão belas, expostas aos raios do sol. Vêde, mudam de cor, segundo as diversas posições em que a examinamos, porque as suas penas são tão sensíveis à luz, que o sol dardejando-as forma uma surpreendente variedade de matizes; cores tão agradáveis, que excedem em formosura o esmalte das mais preciosas pedrarias; tão deslumbrantes e tão delicadamente douradas que o seu ouro as torna vivamente coloridas. É por isso que o profeta diz aos israelitas: (Sl 66, 13-18):

É, pois, com holocaustos que entrarei em vossa casa, pagarei os votos que fiz para convosco,
votos proferidos pelos meus lábios, quando me encontrava na tribulação.
Oferecerei em holocausto as mais belas ovelhas, com os mais gordos carneiros; imolarei touros e cabritos.
Vinde, ouvi vós todos que temeis ao Senhor. Eu vos narrarei quão grandes coisas Deus fez à minha alma.
Meus lábios o invocaram, com minha língua o louvei.


Na verdade, a Igreja tem uma rica variedade de instruções, sermões, tratados e livros piedosos, todos belos e agradáveis porque o Sol da Justiça mistura admiravelmente os raios da sua divina sabedoria com as línguas dos pastores, que são suas penas que, por vezes, fazem também de línguas, e são a rica plumagem desta pomba mística (Sl 62, 3). Contudo por entre a diversidade de cores da doutrina, que a Igreja publica, descobre-se por toda parte o precioso ouro da sua santa dileção, iluminando com seu incomparável brilho toda a ciência dos santos e erguendo-a acima de qualquer outra ciência.

Tudo na Igreja procedo do amor, está enraizado no amor, tende ao amor e vive do amor. Como é bom ouvir falar coisas do Céu a um São Paulo, que as aprendeu no próprio Céu! (2 Cor 12, 4). Como é agradável ver almas alimentadas no seio da dileção escreverem da sua santa suavidade. São Tomás de Aquino deixou-nos um grande tratado, São Boaventura e o beato Dionísio Cartuxo escreveram vários, por diversos títulos, excelentes. Quem jamais exprimiu melhor as celestes paixões do amor sagrado do que Santa Catarina de Gênova, Sanata Angela de Foligno e Santa Catarina de Sena?

Finalmente a bem-aventurada Teresa de Jesus escreveu tão bem das sagradas moções do amor em todos livros que nos deixou, que nos encanta ver tanta eloquência em tão grande humildade, tanta energia de espírito em tanta simplicidade; a sua sapientíssima ignorância faz parecer ignorantíssima a ciência de muitos letrados, que, cansados de tanto estudo, sofrem a vergonha de não entenderem o que ela escreveu, com tanta felicidade, acerca do amor divino.

Assim Deus levanta o trono do seu poder sobre o pedestal da nossa fraqueza, servindo-se dos fracos para confundir os fortes (1 Cor 1,27).

-- São Francisco de Sales, prefácio do Tratado do Amor de Deus (século XVII)

16 de jan. de 2022


São Francisco de Sales com Santa Joana de Chantal
Em 24 de Janeiro, relembramos São Francisco de Sales. Seguem 31 frases do santo, para que possamos passar um mês inteiro com os ensinamentos deste grande santo:

Dia 1: A medida de amar a Deus é amá-lo sem medida.

Dia 2: Não espere as mudanças e eventualidades desta vida com medo; antes, encare-as com a firme esperança de que, ao surgirem, Deus, de quem você é filho, o livrará delas.

Dia 3: Só confia n’Ele e Ele continuará conduzindo você seguramente através de tudo. Onde não puder caminhar, Ele o carregará nos braços.

Dia 4: Não se preocupe com o que pode acontecer amanhã; o mesmo Pai eterno que cuida de você hoje, se encarrega de você amanhã e todos os dias. Ou Ele protegerá você do sofrimento, ou lhe dará a força infalível para suportá-lo.

Dia 5: Esteja em paz, pois, e afaste todos os pensamentos de angústia.

Dia 6: Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade.

Dia 7: Faça tudo com calma e em paz. Realize quanto puder, tão bem quanto for capaz.

Dia 8: Pense muitas vezes em Nosso Senhor, pois Ele ajudará a suportar os problemas. Todos eles serão incapazes de abalar você, só lembrando-se de que você tem um tal amigo.

Dia 9: Procure ver Deus em todas as coisas sem exceção, e disponha-se a fazer a vontade dEle com alegria. Faça tudo para Deus, unindo-se com Ele por palavras e obras.

Dia 10: Avance muito simplesmente com a Cruz de Nosso Senhor e tenha paz consigo mesmo. Passará por cada tempestade com seguridade, enquanto a sua confiança se fixar em Deus.

Dia 11: Não perca a sua paz interior por nada, nem se todo o seu mundo parece vir abaixo. Se se dá conta que se afastou da proteção de Deus, conduza o seu coração de volta para Ele tranquila e simplesmente.

Dia 12: Faça todas as coisas em nome de Deus e fará tudo bem. Se comer ou beber, trabalhar ou descansar, ganhará muito aos olhos de Deus, ao fazer todas essas coisas como Deus quer que se faça”.  São Francisco de Sales

Dia 13: Aconteça o que acontecer, não desanime; segure-se firmemente em Deus, mantenha-se em paz, com confiança no seu amor eterno por você.

Dia 14: O fogo sagrado do verdadeiro amor de Deus que tudo transforma, transforme os  nossos corações, de modo que sejamos só amor.

Dia 15: Deus o colocou no mundo para realizar em você a sua bondade.

Dia 16: O amor ao próximo é o critério para verificar o nosso amor para com Deus.

Dia 17: O amor e a fidelidade juntos trazem sempre consigo a familiaridade e a confiança.

Dia 18: Deus é maior que o nosso coração e nosso coração é maior que o mundo inteiro.

Dia 19: O máximo do amor a Deus está na perfeição do amor aos nossos irmãos.

Dia 20: O vosso falar seja doce, franco, sincero, puro e verdadeiro: nisto está a perfeição do amor.

Dia 21: Doçura, forma concreta de viver a caridade.

Dia 22: Ide ao ‘Porto Real’ da vida religiosa pelo real caminho do amor de Deus e do próximo, da humildade e da complacência.

Dia 23: O que não é absolutamente Deus, não é nada para nós.

Dia 24: Para receber a glória de Deus em nossos corações, é preciso mantê-los vazios de nossa própria glória.

Dia 25: Deus, tendo criado o homem à sua imagem e semelhança, quer que, como nele, tudo no homem seja ordenado pelo amor e para o amor.

Dia 26: Qualquer um que tenha Jesus Cristo em seu coração, ele o terá logo depois em todas as suas ações.

Dia 27: Coragem, por amor a Deus... Nada é impossível ao amor.

Dia 28: A doçura é um raio de céu que nos faz ver Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus.

Dia 29: Procuremos ser aquilo que somos de modo a honrar o Artífice de quem somos sua obra.

Dia 30: Esteja em paz, pois, e afaste todos os pensamentos de angústia.

Dia 31: Anime-se e transforme os problemas em matéria para seu progresso e maturidade.

6 de nov. de 2021

Levemos sempre em nós a morte de Cristo

 Disse o Apóstolo: Para mim o mundo está crucificado, e eu, para o mundo (Gl 6,14). Para que saibamos, por fim, que nesta vida há morte e boa morte, exorta-nos a que levemos a morte de Jesus em nosso corpo (cf. 2Cor 4,10). 

Pois quem tiver em si a morte de Jesus, precisa também ter em seu corpo a vida do Senhor Jesus. Atue, portanto, a morte em nós, para que também possa agir a vida. Vida excelente depois da morte, isto é, vida excelente depois da vitória, vida excelente, terminado o combate. Nela a lei da carne já não luta contra a lei do espírito, não há mais em nós peleja da morte contra o corpo, mas no corpo, a vitória sobre a morte. E francamente não sei qual tem maior força, esta morte ou a vida. É claro que atendo à autoridade do Apóstolo que diz: Portanto a morte age em nós, mas a vida, em vós (2Cor 4,12). A morte de um só a quanta gente faz crescer a vida! Por isto ensina ser desejável esta morte aos que ainda estão nesta vida, para que refulja em nossos corpos a morte de Cristo, aquela ditosa pela qual se destrói o ser exterior, a fim de ser renovado nosso homem interior (cf. 2Cor 2,16) e se desfaça nossa habitação terrena (cf. 2Cor 5,1), abrindo-se assim para nós a habitação celeste. 

Imita, portanto, a morte, que se separa da união com esta carne e desata os laços de que fala o Senhor mediante Isaías: Desata as cadeias iníquas, solta os laços das altercações violentas, deixa livres os oprimidos, rompe todo limite injusto (Is 58,6). O Senhor aceitou sujeitar-se à morte para que a culpa desaparecesse. Mas, para não ser de novo a morte o fim da natureza humana, foi-lhe dada a ressurreição dos mortos, para que pela morte se apagasse a culpa, pela ressurreição se perpetuasse a natureza. 

Por isso, a morte é a passagem de tudo. É preciso que passes continuamente; passagem da corrupção para a incorrupção, da condição mortal à imortalidade, das perturbações para a tranqüilidade. Por isto não te assuste a palavra morte, mas os benefícios da boa passagem te alegrem. Pois, que é a morte a não ser a sepultura dos vícios, o despertar das virtudes? Por isto disse ele: Morra minha alma nas almas dos justos (Nm 23,10), quer dizer, seja consepultada para depor seus vícios, assumir a graça dos justos, que trazem no corpo e na alma a morte de Cristo.

-- Do Tratado sobre o benefício da morte, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

-- A imagem é um quadro chamado O Martírio de São Sebastião , de Michiel Coxie, pintura em óleo, de 1575. São Sebastião não morreu a flechadas, pois os executores não perceberam que ele ainda estava vivo. Uma mulher cristã foi ao local de execução para recuperar o corpo quando percebeu que ele ainda estava vivo. Ela escondeu-o em sua casa e tratou as feridas. Ao se recuperar, São Sebastião foi até o Imperador anunciar que a morte não tinha poder sobre ele. Novamente condenado à morte, desta vez São Sebastião foi ao encontro do Pai. 

30 de out. de 2021

Bem-Aventurada Chiara Luce

 
 
Chiara Badano nasceu em 29 de outubro de 1971, filha de Ruggero e Maria Teresa Badano, na pequena aldeia de Sassello, Itália. O casal esperou e rezou onze anos para ter Chiara. Eles a consideravam sua maior bênção. Enquanto Ruggero trabalhava como caminhoneiro, Maria Teresa ficou em casa para criar a filha. Badano cresceu com uma relação forte e saudável com os pais, mas nem sempre os obedecia.

Um dia, Badano tirou uma maçã de uma árvore no pomar de um vizinho; sua mãe mais tarde relatou o evento:

Uma tarde, Chiara voltou para casa com uma linda maçã vermelha. Eu perguntei a ela de onde veio. Ela respondeu que o havia tirado do pomar do nosso vizinho sem pedir sua permissão. Expliquei a ela que ela sempre tinha que pedir antes de pegar qualquer coisa e que ela tinha que pegar de volta e pedir desculpas ao nosso vizinho. Ela estava relutante em fazer isso porque estava muito envergonhada. Eu disse a ela que era muito mais importante confessar do que comer uma maçã. Então Chiara levou a maçã para a nossa vizinha e explicou tudo para ela. Naquela noite, a mulher trouxe uma caixa inteira de maçãs dizendo que naquele dia Chiara havia aprendido algo muito importante.

Movimento dos Focolares

Badano participou de seu primeiro encontro do Movimento dos Focolares em setembro de 1980; ela tinha apenas 9 anos. Este grupo, especialmente sua fundadora Chiara Lubich, teve um impacto profundo na vida de Badano. O grupo focou na imagem de Cristo abandonado como forma de superar os tempos difíceis. Badano escreveu mais tarde: “Descobri que Jesus abandonado é a chave para a unidade com Deus e quero escolhê-lo como meu único esposo. Quero estar pronto para recebê-lo quando ele vier. Para preferi-lo acima de tudo.”

Embora Badano fosse uma estudante responsável, ela teve dificuldades na escola e até foi reprovada no primeiro ano do ensino médio. Era frequentemente provocada na escola por suas fortes crenças e recebeu o apelido de “irmã”.  Gostava dos passatempos normais da adolescência, como ouvir música pop, dançar e cantar, também jogava tênis e gostava de caminhadas e natação.

No verão de 1988, quando tinha 16 anos, Badano viveu uma experiência transformadora em Roma com o Movimento dos Focolares. Ela escreveu aos pais: “Este é um momento muito importante para mim: é um encontro com Jesus Abandonado. Não foi fácil abraçar este sofrimento, mas esta manhã Chiara Lubich explicou a nós que temos que ser esposas de Jesus Abandonado.” Depois dessa viagem, começou a corresponder-se regularmente com Lubich. Ela então perguntou por seu novo nome, pois isso seria o início de uma nova vida para ela. Lubich deu a ela o nome de Chiara Luce, em italiano, "Luz Clara". 

Doença

No verão de 1988, Luce sentiu uma pontada de dor no ombro enquanto jogava tênis. A princípio ela não pensou nada a respeito, mas quando a dor continuou presente, foi submetida a uma série de testes. Os médicos então descobriram que ela tinha uma forma rara e dolorosa de câncer ósseo, o osteossarcoma. Em resposta, Badano declarou simplesmente: “É para você, Jesus; se você quiser, eu também quero”.

Durante todo o processo de tratamento, Chiara recusou-se a tomar morfina para que pudesse ficar acordada e consciente. Ela sentiu que era importante conhecer sua doença e dor para que pudesse oferecer seus sofrimentos. Ela disse: “Isso reduz minha lucidez e só há uma coisa que posso fazer agora: oferecer meu sofrimento a Jesus porque quero compartilhar o máximo possível em seus sofrimentos na cruz.” 

Durante sua estadia no hospital, caminhava com outro paciente que estava sofrendo de depressão. Essas caminhadas foram benéficas para o outro paciente, mas causavam grande dor a Chiara Luce. Seus pais muitas vezes a incentivavam a ficar e descansar, mas ela simplesmente respondia: “Vou conseguir dormir mais tarde.”

Um de seus médicos, Antonio Delogu, disse: “Por meio de seu sorriso e de seus olhos brilhantes, ela nos mostrou que a morte não existe; só a vida existe”. Uma amiga do Movimento dos Focolares disse: “No início pensamos em visitá-la para mantê-la animada, mas logo percebemos que, de fato, éramos nós que precisávamos dela. Sua vida era como um ímã que nos atraía para ela.”

Quando uma mecha de seu cabelo caía devido à quimioterapia, Chiara simplesmente a oferecia a Deus, dizendo: “Por você, Jesus”. Ela também doou todas as suas economias para uma amiga que estava realizando o trabalho missionário na África. Ela escreveu a ele: “Não preciso mais desse dinheiro. Eu tenho tudo.”

Durante um doloroso procedimento médico, Chiara foi visitada por uma senhora: “Quando os médicos começaram a realizar este pequeno, mas bastante exigente procedimento, apareceu uma senhora com um sorriso muito bonito e luminoso. Ela veio até mim e me pegou pela mão, e seu toque me encheu de coragem. Da mesma forma que ela chegou, ela desapareceu, e eu não podia mais vê-la. Mas meu coração se encheu de uma alegria imensa e todo o medo me deixou. Naquele momento entendi que se estamos sempre prontos para tudo, Deus nos envia muitos sinais de seu amor.”

A fé e o espírito de Chiara nunca diminuíram, mesmo depois que o câncer a deixou incapaz de andar e uma tomografia computadorizada mostrou que qualquer esperança de remissão se foi. Em resposta, ela simplesmente disse: “Se eu tivesse que escolher entre andar novamente e ir para o céu, não hesitaria. Eu escolheria o céu.” Em 19 de julho de 1989, Chiara quase morreu de hemorragia. Sua fé não vacilou quando disse: “Não derrame nenhuma lágrima por mim. Eu estou indo para Jesus. No meu funeral, não quero que as pessoas chorem, mas cantem de todo o coração.”

Antes de morrer, ela disse à mãe: “Oh, mamãe, jovens ... jovens ... eles são o futuro. Veja, não posso correr mais, mas gostaria de passar a tocha para eles, como nas Olimpíadas! Os jovens têm apenas uma vida e vale a pena vivê-la bem.”

Quando Chiara percebeu que não iria melhorar, ela começou a planejar seu “casamento” (seu funeral) com sua mãe. Ela escolheu a música, canções, flores e as leituras para a missa. Ela queria ser enterrada com seu “vestido de noiva”, um vestido branco com cintura rosa, porque sua morte permitiria que ela se tornasse a noiva de Cristo. Ela disse à mãe: “Quando você estiver me preparando, mãe, você precisa ficar dizendo para si mesma: ‘Chiara Luce agora está vendo Jesus’”

Morte

Durante suas horas finais, Chiara fez sua confissão final e recebeu a Eucaristia. Ela pediu à família e aos amigos que orassem com ela: “Venha, Espírito Santo”. Chiara Luce morreu às 4 horas da madrugada de 7 de outubro de 1990, com os pais ao lado de sua cama. Suas palavras finais foram: “Tchau, mãe, seja feliz, porque eu sou. 

 

16 de out. de 2021

O Senhor dos Milagres

 

A imagem do Cristo Moreno foi pintada por um escravo angolano em uma pequena parede de barro no Bairro de Pachamilla, no centro de Lima, Peru. Durante o terremoto em 1655, que matou muitas pessoas, todas as paredes da capela caíram, exceto a parte da parede onde estava exatamente a imagem. Reconhecendo o pequeno milagre, uma capelinha foi construída ao seu redor e missas começaram a ser rezadas ali. 

Em 20 de Outubro de 1687 um terrível terremoto atingiu novamente a região. Segundo alguns relatos, teria durado 15 minutos. As paredes da capela caíram, mas a parede onde a imagem está pintada permaneceu em pé. No ano seguinte foi contratado um pintor profissional para fazer uma cópia da imagem, esta é a cópia que ainda hoje é carregada em procissão pela cidade. 

Em 1746 ocorreu o mais terrível terremoto em Lima. A parede original com a pintura, claro, permaneceu em pé. Após este terremoto decidiu-se construir a Igreja e Monastério das Nazerenas, tendo a parede como fundo do altar. 


Tradicionalmente, no primeiro sábado de Outubro a imagem saí do Monastério, passa pelas ruas principais de Lima e chegar ao Santuário apenas a noite. Nos dias 18, 19 e 28 de Outubro, a imagem é levada em procissão pela cidade, mas sempre retornando ao Santuário das Nazenarenas. Por fim, em 1o. de Novembro, a imagem é conduzida de volta ao monastério, onde passará os próximos onze meses.

Nas procissões, a imagem é carregada sobre um grande tablado que necessita de vários homens devido ao se peso. É importante que estes homens tenham se confessado, para carregar a Cristo. O passo é bastante lento, por isto a procissão dura muitas horas. 


 

9 de set. de 2021

A Doce Chama do Teu Amor: Amai-vos uns aos outros.

O Senhor disse em São Mateus: "Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem." (Mt 5,43-44). A verdade é que no Carmelo não há inimigos, mas há simpatias. Se te sentes atraída por uma irmã, enquanto por causa de outra irmã desvias o caminho, assim, se dar-se conta, estás fazendo diferença entre as irmãs. Pois bem, Jesus disse que esta irmã que evitas, deves amá-la, deves rezar por ela, ainda quando sua conduta te faça pensar que ela não te ama. 

Em Lucas 6 lemos: "Se amas somente aqueles que te amam, que recompensa mereces? Também os pecadores amam aqueles que amam". E não basta amar, é necessário demonstrar. É natural que gostes de receber um presente de um amigo e também presenteá-los com surpresas. Porém isto não é caridade, pois também os pecadores fazem isto.

Jesus também disse: "A todo aqueles que te pedem, dá, e se te levarem tudo, não reclames". Dar aqueles pedem é menos agradável que oferecer algo por tua iniciativa. Se é difícil dar algo a todos que pedem, muito mais difícil é deixar levar aquilo que nos pertence, sem reclamar. Sei que é difícil, mas é melhor dizer que parece difícil, pois o jugo do Senhor é suave (Mt 11,30). Somente a caridade pode converter um coração. Jesus, a doce chama do Teu amor me consume, corro alegre pelo caminho do teu novo mandamento: "Amai-vos uns aos outros" (Jo 13,34).

-- De Santa Terezinha do Menino Jesus, século XIX


4 de set. de 2021

São Lourenço Justiniano

São Lourenço Justiniano foi bispo de Veneza de 1451 até sua morte em 8 de Janeiro de 1456. Foi canonizado em 16 de Outubro de 1690 pelo Papa Alexandre VIII. Eis aqui dois exemplos:

1. Trecho de uma homília sobre Nossa Senhora

Enquanto Maria contemplava tudo que aprendera lendo, ouvindo e observando o que lhe acontecia, ela crescia em fé, aumentava seus méritos, era ainda mais iluminada pela Sabedoria e mais consumida pelo fogo da caridade. Os mistérios do céu foram abertos para ela, preenchendo-a de alegria, cheia do Espírito Santo, elevando-a para Deus, e estendendo seu olhar protetivo sobre a Terra. Tão enormes são suas graças divinas que a transformaram-na na maior dos santos e elevaram-na da terra ao mais alto dos céus.  Ela era totalmente abençoada, sua mente era totalmente guiada pelo Espírito, ela estava sempre disposta a seguir a Palavra de Deus, nunca seus próprios desejos ou vontade. Foi a vontade da Sabedoria Divina que ela fosse a mãe da Igreja, que a abençoada Maria a guardasse, purificasse seus membros, desse o exemplo de humildade e sacrifício espiritual. 

Imitem à Maria, imitem sua alma fiel. Entrem nos mais profundos lugares do seus corações para que possam purificá-los e lavá-los de seus pecados. Deus coloca mais valor em um coração limpo que nas obras realizadas. Portanto, se passarmos um tempo contemplando a Deus em oração ou servindo ao próximo, ambos devem ser realizados pelo Amor de Deus. As maiores ofertas aceitas por Deus são os frutos da purificação espiritual de um coração preenchido por Jesus.

2. Do livro Incêndio do Amor Divino:

O caminho da vida é cheio de armadilhas para nossa fé, portanto devemos caminhar com extremo cuidado. Quem, senão a mais alta luz pode nos ajudar a reconhecer encantamentos perigosos que podem nos levar a ruína neste mundo carnal? Deus é a fonte de todo bem!

-- autoria própria

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