10 de fev. de 2015

Salmo 84: A nossa salvação está próxima

O Salmo 84, que agora proclamamos, é um cântico jubiloso e repleto de esperança no futuro da salvação. Ele reflete o momento exaltante da volta de Israel do exílio na Babilónia para a terra dos antepassados. A vida nacional recomeça naquele querido lar, que tinha sido apagado e destruído pela conquista de Jerusalém por parte do exército do rei Nabucodonosor, em 586 a.C.

De fato, no original hebraico do Salmo  ouve-se  ressoar  repetidamente  o verbo shûb, que indica a vinda dos deportados, mas significa também "vinda" espiritual, isto é, "conversão". Por conseguinte, o renascimento não se refere apenas à nação, mas também às comunidades  dos  fiéis,  que  tinham  vivido o exílio como uma punição dos pecados cometidos e que viam agora a repatriação  e  a  nova  liberdade  como uma bênção divina, em virtude da conversão alcançada.

O Salmo pode ser acompanhado no seu desenvolvimento, segundo duas etapas fundamentais. A primeira, marcada pelo tema da "vinda", com todos os valores que mencionámos.

Celebra-se antes de tudo a vinda física de Israel: "Senhor... Vós sois quem restaurais a parte de Jacó" (v. 2); "Restaurai-nos, ó Deus, nossa salvação... Será que já não nos restituirás a vida...?" (vv. 5.7). Este é um precioso dom de Deus, que se preocupa em libertar os seus filhos da opressão e se empenha na sua prosperidade. Com efeito, Ele "ama tudo o que existe... perdoa a todos, porque todos são dele, o Senhor que ama a vida" (cf. Sb 11, 24.26).

Mas, paralelamente a esta "vinda", que na prática unifica os dispersos, há outra "vinda", mais interior e espiritual. O Salmista reserva-lhe um amplo espaço, atribuindo-lhe um relevo particular, que é válido não só para o antigo Israel mas para os fiéis de todos os tempos.

Nesta "vinda" o Senhor age eficazmente, revelando o seu amor ao perdoar a iniquidade do seu povo, ao eliminar todos os seus pecados, ao abandonar todo o seu desdém e ao pôr fim à sua ira (cf. Sl 84, 3-4).

Precisamente a libertação do mal, o perdão das culpas e a purificação dos pecados criam um novo povo de Deus. Isto é expresso através de uma invocação, que também entrou na liturgia cristã:  "Concedei, Senhor, que vejamos os vossos favores; seja-nos oferecida a vossa salvação" (v. 8). Mas a esta "vinda" de Deus que perdoa deve corresponder a outra "vinda", isto é, a conversão do homem que se arrepende. De fato, o Salmo declara que a paz e a salvação são oferecidas a quem "já não voltará ao desvio" (cf. v. 9). Quem percorre com decisão os caminhos da santidade recebe os dons da alegria, da liberdade e da paz.


Sabemos que, com frequência, as palavras bíblicas que se referem ao pecado recordam um enganar-se no caminho, um falhar a meta, um desviar-se da via reta. A conversão é, precisamente, um "voltar" para o caminho linear, que leva para a casa do Pai, que nos espera para nos abraçar, perdoar e nos fazer felizes (cf. Lc 15, 11-32).

Assim, chegamos à segunda parte do Salmo (cf. Sl 84, 10-14), tão querida à tradição cristã. Nela é descrito um mundo novo, em que o amor de Deus e a sua fidelidade, como se fossem pessoas, se abraçam; de modo semelhante, também a justiça e a paz se beijam, quando  se  encontram. A verdade germina  como  numa  renovada  primavera; e a justiça, que para a Bíblia é também salvação e santidade, desce do céu para começar o seu caminho no meio da humanidade.

Todas as virtudes, primeiro expulsas da terra devido ao pecado, entram agora de novo na história e, cruzando-se, desenham o mapa de um mundo pacífico. Misericórdia, verdade, justiça e paz tornam-se como que os quatro pontos cardeais desta geografia do espírito. Também Isaías canta:  "Destilai, ó céus, lá das alturas, o orvalho, e as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e produza o fruto da salvação; ao mesmo tempo faça germinar a justiça! Eu sou o Senhor, que crio tudo isto" (45, 8).

As palavras do Salmista, já no segundo século com Santo Ireneu de Lião, foram interpretadas como anúncio da "geração de Cristo por parte da Virgem" (Adversus haereses, III, 5, 1). Com efeito, a vinda de Cristo é a fonte da misericórdia, o desabrochar da verdade, o florescer da justiça e o esplendor da paz.

Por isso o Salmo, sobretudo na sua parte final, é lido de novo em chave natalícia pela tradição cristã. Eis como o interpreta Santo Agostinho, num dos seus discursos para o Natal. Deixemos que seja ele a concluir a nossa reflexão. "A verdade surgiu da terra":  Cristo, que disse:  "Eu sou a verdade" (Jo 14, 6) nasceu da Virgem. "E a justiça aproximou-se do céu":  quem crê n'Aquele que nasceu, não se justifica sozinho, mas é justificado por Deus. "A verdade surgiu da terra":  porque "o Verbo se fez homem" (Jo 1, 14). "E a justiça aproximou-se  do  céu";  porque  "qualquer graça excelente e qualquer dom perfeito provêm do alto" (Tg 1, 17). "A verdade surgiu da terra", isto é, tomou um corpo de Maria. "E a justiça aproximou-se do céu"; porque "o homem nada pode receber se não lhe for concedida pelo céu" (Jo 3, 27) 

-- São João Paulo II, na audiência de 25 de Setembro de 2002

8 de fev. de 2015

Livro Segundo Exortações à vida interior - Capítulo 1 - Da vida interior


  1. O reino de deus está dentro de vós, diz o Senhor (Lc 17,21). Converte-te a Deus de todo o coração, deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te às interiores, e verás chegar a ti o reino de Deus. Pois o reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito Santo (Rom 14, 17), que não se dá aos ímpios. Virá a ti Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu interior digna moradia. Toda a sua glória e formosura está no interior (Sl 44,14), e só aí o Senhor se compraz. A miúdo visita ele o homem interior em doce entretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade sobremaneira admirável
  2. Eia, alma fiel, para este Esposo prepara teu coração, a fim de que se digne vir e morar em ti.
    Pois assim ele diz: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23). Dá, pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta. Se possuíres a Cristo, estarás rico e satisfeito. Ele mesmo será teu provedor e fiel procurador em tudo, de modo que não hajas mister de esperar nos homens. Porque os homens são volúveis e faltam com facilidade à confiança, mas Cristo permanece eternamente (Jo 12,34), e firme nos acompanha até ao fim.
  3. Não se há de ter grande confiança no homem frágil e mortal, por mais que nos seja caro e útil; nem nos devemos afligir com excessos, porque, de vez em quando, nos contraria com palavras ou obras. Os que hoje estão contigo amanhã talvez sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam como o vento. Põe toda a tua confiança em Deus, e seja ele o teu temor e amor; ele responderá por ti, e fará do melhor modo o que convier. Não tens aqui morada permanente (Hbr 13,14), e onde quer que estejas, és estranho e peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres intimamente unido a Jesus.
  4. Para que olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu repouso? No céu deve ser a tua habitação, e como de passagem hás de olhar todas as coisas da terra. Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma cuidado para não te apegares a elas, a fim de que não te escravizem e percam. Ao Altíssimo eleva sempre teus pensamentos, e a Cristo dirige súplica incessante. Se não sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa na paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas chagas. Pois, se te acolheres devotamente às chagas e preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto em tuas mágoas, não farás mais caso do desprezo dos homens e facilmente sofrerás as suas detrações.
  5. Cristo também foi, neste mundo, desprezado dos homens, e em suma necessidade, entre os opróbrios, o desampararam seus conhecidos e amigos. Cristo quis padecer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo teve adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por amigos e benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência, se não encontrares alguma adversidade? Se não queres sofrer alguma contrariedade, como serás amigo de Cristo? Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo queres reinar.
  6. Se uma só vez entraras perfeitamente no Coração de Jesus e gozaras um pouco de seu ardente amor, não farias caso do teu proveito ou dano, ao contrário, te alegrarias com os mesmos opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da verdade, e o homem deveras espiritual e livre de afeições desordenadas, pode facilmente recolher-se em Deus, e, elevando-se em espírito, acima de si mesmo, fruir delicioso descanso.
  7. Aquele que avalia as coisas pelo que são, e não pelo juízo e estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio, ensinado mais por Deus que pelos homens. Quem sabe andar recolhido dentro de si, e ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade. O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa com as façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e distrai, quanto se mete nas coisas exteriores.
  8. Se foras reto e puro, tudo te correria bem e se voltaria em teu proveito. Mas, porque ainda não estás de todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas terrenas, por isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações. Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor desordenado às criaturas. Se renunciares às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu e gozar a miúdo da alegria interior.

6 de fev. de 2015

5º Domingo do Tempo Comum - Domingo 08/02/2015

Mc 1,29-39
Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André.
30A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus.
31E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
32À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33A cidade inteira se reuniu em frente da casa.
34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era.
35De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto.
36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”.
38Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”.
39E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
Comentário:
Este evangelho é composto por três pequenas histórias: as duas primeiras apresentam Jesus como libertador dos males físicos e espirituais; a terceira fala da missão de Jesus e os apóstolos. Cristo não veio apenas em sentido material, mas também em sentido teológico (Jo 8,42; 13, 3; 16, 27-28). As curas não são um ato de um mágico, mas o ato do salvador dos homens. A cura das doenças torna então o valor de sinal; orienta nosso olhar para uma restauração global do homem; torna-se um momento da ação salvífica de Cristo.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Êxodo 22, 20-23
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 145(146)
  • Isaias 49,9
  • Isaias 61,1
Evangelhos
  • João 8,42-47
  • João 13, 1-20
  • João 16, 26-28

1 de fev. de 2015

Da diligente emenda de toda a nossa vida

  1. Sê vigilante e diligente no serviço de Deus, e pergunta-te a miúdo: a que vieste, para que deixaste o mundo? Não será para viver por Deus e tornar-te homem espiritual? Trilha, pois, com fervor o caminho da perfeição, porque em breve receberás o prêmio dos teus trabalhos; nem te afligirão, daí por diante, temores nem dores. Agora, terás algum trabalho; mas depois acharás grande repouso e perpétua alegria. Se tu permaneceres fiel e diligente no seu serviço, Deus, sem dúvida, será fiel e generoso no prêmio. Conserva a firme esperança de alcançar a palma; não cries, porém segurança, para não caíres em tibieza ou presunção.
    Ora e trabalha
  2. Certo homem que vacilava muitas vezes, ansioso, entre o temor e a esperança, estando um dia acabrunhado pela tristeza, entrou numa igreja, e diante dum altar, prostrado em oração, dizia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo ouviu em si a divina respostas: Se tal soubesses, que farias? Faze já o que então fizeras, e estarás bem seguro. Consolado imediatamente, e confortado, abandonou-se à divina vontade, e cessou a ansiosa perplexidade. Desistiu da curiosa indagação acerca do seu futuro aplicando-se antes em conhecer qual fosse a vontade e o perfeito agrado de Deus para começar e acabar qualquer boa obra.

    1. Espera no Senhor e faze boas obras, diz o profeta, habita na terra e serás apascentado com suas riquezas (Sl 36,3). Há uma coisa que esfria em muitos o fervor do progresso e zelo da emenda: o horror da dificuldade ou o trabalho da peleja. Certo é que, mais que os outros, aproveitam nas virtudes aqueles que com maior empenho se esmeram em vencer a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contrariam mais suas inclinações. Porque tanto mais aproveita o homem, e mais copiosa graça merece, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
    2. Não custa igualmente a todos se vencer e mortificar-se. Todavia, o homem diligente e porfioso fará mais progressos, ainda que seja combatido por muitas paixões, que outro de melhor índole, porém menos fervoroso em adquirir as virtudes. Dois meios, principalmente, ajudam muito a nossa emenda, e vêm a ser: apartar-se valorosamente das coisas às quais viciosamente se inclina a natureza, e porfiar em adquirir a virtude de que mais se há mister. Aplica-te também a evitar e vencer o que mais te desagrada nos outros.
  3. Procura tirar proveito de tudo: se vês ou ouves relatar bons exemplos, anima-te logo a imitá-los; mas, se reparares em alguma coisa repreensível, guarda-te de fazê-la, e, se em igual falta caíste, procura emendar-te logo dela. Assim como tu observas os outros, também eles te observam a ti. Que alegria e gosto ver irmãos cheios de fervor e piedade, bem acostumados e morigerados! Que tristeza, porém, e aflição, vê-los andar desnorteados e descuidados dos exercícios de sua vocação! Que prejuízo descurar os deveres do estado e aplicar-se ao que Deus não exige!
  4. Lembra-te da resolução que tomaste, e põe diante de ti a imagem de Jesus crucificado. Com razão te envergonharás, considerando a vida de Jesus Cristo, pois até agora tão pouco procuraste conformar-te com ela, estando há tanto tempo no Caminho de Deus. O religioso que, com solicitude e fervor, se exercita na santíssima vida e paixão do Senhor, achará nela com abundância tudo quanto lhe é útil e necessário, e escusará buscar coisa melhor fora de Jesus. Oh! se entrasse em nosso coração Jesus crucificado, quão depressa e perfeitamente seríamos instruídos!
  5. O religioso cheio de fervor tudo suporta de boa vontade e executa o que lhe mandam. O relaxado e tíbio, porém, encontra tribulação sobre tribulação, sofrendo de toda parte angústias: é que ele carece da consolação interior e lhe é vedado buscar a exterior. O religioso que transgride a regra anda exposto a grande ruína. Quem busca a vida cômoda e menos austera, sempre estará em angústias, porque uma ou outra coisa sempre lhe desagrada.
  6. Que fazem tantos outros religiosos que guardam a austera disciplina do claustro? Raro saem, vivem retirados, sua comida é parca, seu hábito grosseiro, trabalham muito, falam pouco, vigiam até tarde, levantam-se cedo, rezam muito, lêem com frequência e conservam-se em toda a observância. Olha como os cartuxos, os cistercienses, e os monges e monjas das diversas ordens se levantam todas as noites para louvar o Senhor. Vergonha, pois, seria, se tu fosses preguiçoso em obra tão santa, quando tamanha multidão de religiosos entoa a divina salmodia.
  7. Oh! se nada mais tivesses que fazer senão louvar a Deus Nosso Senhor de coração e boca! Oh! se nunca precisares comer, nem beber, nem dormir, mas sempre pudesses atender aos louvores de Deus e aos exercícios espirituais! Então serias muito mais ditoso do que agora, sujeito a tantas exigências do corpo! Oxalá não existissem tais necessidades, mas houvesse só aquelas refeições que - ai! - tão raro gozamos!
  8. Quando o homem chega ao ponto de não buscar sua consolação em nenhuma criatura, só então começa a gostar perfeitamente de Deus, e anda contente, aconteça o que acontecer. Então não se alegra pela abundância, nem se entristece pela penúria, mas confia inteira e fielmente em Deus, que lhe é tudo em todas as coisas, para quem nada perece nem morre, mas por quem vivem todas as coisas e a cujo aceno, com prontidão, obedecem.
  9. Lembra-te sempre do fim, e que o tempo perdido não volta. Sem empenho e diligência, jamais alcançarás as virtudes. Se começares a ser tíbio, logo te inquietarás. Se, porém, procurares afervorar-te, acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude. O homem fervoroso e diligente está preparado para tudo. Mais penoso é resistir aos vícios e às paixões que afadigar-se em trabalhos corporais. Quem não evita os pequenos defeitos pouco a pouco cai nos grandes. Alegrar-te-ás sempre à noite, se tiveres empregado bem o dia. Vigia sobre ti, anima-te e admoesta-te e, vivam os outros como vivem, não te descuides de ti mesmo. Tanto mais aproveitarás, quanto maior for a violência que te fizeres. Amém.
-- Do livro "Imitação de Cristo", capítulo 25 (século XV)

31 de jan. de 2015

4º Domingo do Tempo Comum - Domingo 01/02/2015

Evangelho (Mc 1,21-28)
21Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar.
22Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.
23Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”. 25Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”
26Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. 27E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” 28E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.
Comentário:
Graças ao Espírito recebido no Batismo, Jesus inaugura sua missão conforme foi prescrita (Mc 1,9). Ele ensina como o Servo de Isaias 42, 1-4; expulsando os espíritos impuros, mostrando seu poder (Lc 10, 18-19; Jo 12, 32; Ap 12, 9-12). O grito do Espírito (v. 24) é semelhante ao da viuva de Sarepta para o profeta Elias (1Rs 17,18), numa clara comparação de Jesus com os profetas que o procederam. A pergunta que todos fazem "o que é isto?", "quem é Jesus Cristo?", volta ao longo de toda a primeira parte do Evangelho de Marcos, que finalmente será respondida por Pedro: Ele é o Cristo, Filho de Deus (Mc 8, 29).
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • 1 Reis 17,17-24
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Isaías 42, 1-9
Evangelhos
  • Marcos 1, 9-11
  • Marcos 2,12; 3,11; 4,41; 5, 41-42; 6, 2-3; 7,37
  • Marcos 8, 27-29
  • Lucas 10, 17-20
Cartas
  • Apocalipse 12, 7-12

24 de jan. de 2015

3º Domingo do Tempo Comum - Domingo 25/01/2015

Mc 1,14-20
14Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”
16E, passando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
17Jesus lhes disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”.
18E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus.
19Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; 20e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus.
Comentário:
Este trecho, paralelo a Mt 4, 12.17-22, oferece duas características próprias de Marcos: Jesus está pregando o Evangelho de Deus e convida aos ouvintes a crer (vv 14-15). O termo evangelho, à luz da citação a Isaias (1,3), adquire um sentido religioso e indica a alegre notícia da salvação messiânica, isto é, o tempo em que será instaurado na terra o reino de Deus (Is 40, 9; 52, 7). Esta realidade implica uma mudança de mentalidade (a conversão), exemplificada no chamado aos discípulos, que ecoa o convite de Jonas para todo povo, inclusive os ninivitas, que não eram judeus, a crer em Deus (Jn 3,1-5).
 Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Isaías 1,2-3
  • Isaías 40, 9-11
  • Isaias 52, 7-12
  • Jonas 3, 1-10
Evangelhos
  • Mateus 4, 12-22
  • Mateus 12, 38-42
  • Lucas 5,1-11
  • Lucas 11, 29-32
Cartas

19 de jan. de 2015

Celibato, continência e castidade

A segunda leitura deste domingo nos dizia: O corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo (1 Cor 6,13). Pois bem, é comum encontrar uma confusão em três termos bastante comuns quando falamos sobre a posição da Igreja sobre sexualidade: celibato, continência e castidade. Então, para esclarecer melhor o que significam, vou traduzir um excelente texto do canonista Edward Peters (original aqui).

Celibato é a escolha, consciente e delibarada, de não entrar em um casamento. Celibato não é apenas ser solteiro, é uma decisão pessoal; por óbvio, nenhuma criança é celibatária. Pode ser uma escolha temporária, por exemplo decidir esperar até a formatura, ou permanente, devido a votos religiosos. Pode ser uma escolha por boas razões, como ir ajudar os necessitados em países distantes; ou por más razões, como manter a independência para namorar quantas pessoas desejar. Quando houver livre escolha, podemos chamar tal pessoa de celibatária.

Portanto, solteiros, sejam quais forem as circunstâncias, talvez não tenha encontrado o amor da sua vida ou decidiu entrar na vida religiosa, são convidados pela Igreja a restrigirem suas atividades sexuais, a exercerem a continência, próxima palavra que veremos. Por enquanto, enfatiza-se que celibato é uma escolha de vida, temporária ou permanente.

Continência é a escolha de não manter relações sexuais. Novamente, é importante ser uma escolha, simplesmente não ter sexo não é exatamente continência. Se houver um problema de saúde que impossibilite relações sexuais, não teriamos continência, ou num exemplo extremo, uma pessoa vivendo sozinha numa ilha não teria parceiros para manter relações, Em ambos casos não se falaria de continência. 

Todos solteiros são chamados a se absterem de relações sexuais, mesmo que estejam namorando ou sejam noivos. Mas também é possível que casais decidem manter continência, o caso de Maria e José. Eles não eram celibatários, pois estavam casados, mas abstiveram-se de relações sexuais. 

A expressão "continência temporária" é comum e significa que um casal decide não manter relações por um tempo, como, por exemplo, o tempo de Quaresma. Mas, neste caso, o termo "abstinência" é mais adequado. 

Castidade é uma virtude que ocorre quando a pessoa utiliza sua capacidade sexual em acordo com seu estado de vida. Ou seja, uma pessoa solteira é casta se mantiver continência, isto é, não manter relações sexuais; uma pessoa casada é casta se mantiver relações sexuais apropriadas com sua esposa, e somente com sua esposa. Em ambos casos, solteiros ou casados, trata-se da mesma virtude, mas as ações são diferentes. 

Em resumo, a Igreja ensina que todos são chamados a castidade, em todos os tempos e situações; que pessoas solteiras são chamadas à continência; e reconhece que algumas pessoas podem escolher o celibato como modo de vida por justas razões.

-- Tradução própria.

Post #1000

Nossa missão é distribuir o amor de Cristo, mesmo quando
tivermos apenas cinco pães e dois peixes.
Pois então chegamos ao post número 1000 deste blog, que iniciou em 2010. A proposta sempre foi mostrar que dentro da Igreja Católica há dois mil anos de acúmulo de sabedoria, ainda fortemente influenciada por outros milhares de anos de cultura e fé judaica. Perante os acontecimentos atuais podemos achar tudo uma novidade e tentarmos buscar novas respostas às interrogações do tempo. Apenas como exemplo, dois dias atrás uma menina perguntou ao Papa por que sofremos. Pois Santos aos longos dos séculos tem dado respostas as mais diversas tem dado resposta a esta pergunta, e é este o verdadeiro tesouro da Igreja, nunca o ouro e todas escultura que estão dentro das igreja. 

Então, a idéia sempre foi não criar muito, apenas utilizar, divulgar o que já está escrito ao longo dos tempos. Então a maioria dos textos é simples cópia do que já está nos livros, com certa preferência por textos não muito fáceis de encontrar na Internet, Uma boa parte dos posts é tradução de textos que encontrei apenas em Inglês ou Espanhol. Muitos posts são como um resumo da vida de santos, exemplos os mais diversos de que é possível viver o amor de Deus em todas as circunstâncias. Há posts sobre música em que tento mostar como louvar a Deus inspirou artistas através dos séculos a comporem sinfonias belíssimas. E, por fim, há algums textos em que, usando fontes confiáveis, abordo algumas questões atuais. 

Mas, no fundo, como ouvi de Kiko Arguello, tenha coragem que Deus irá inspirar o que deves fazer. E, na verdade, este blog é mais um chamado de Deus para utilizar alguns talentos que tenho para o benefício de outros, mesmo que não sejam muitos. Afinal, se quisesse ser popular, poderia falar de futebol. 


17 de jan. de 2015

2º Domingo do Tempo Comum - Domingo 18/01/2015

Jo 1,35-42
Naquele tempo, 35João estava de novo com dois de seus discípulos 36e, vendo Jesus passar, disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”
37Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram Jesus.
38Voltando-se para eles e vendo que o estavam seguindo, Jesus perguntou: “O que estais procurando?” Eles disseram: “Rabi (que quer dizer: Mestre), onde moras?”
39Jesus respondeu: “Vinde ver”. Foram pois ver onde ele morava e, nesse dia, permaneceram com ele. Era por volta das quatro da tarde.
40André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram a palavra de João e seguiram Jesus. 41Ele foi encontrar primeiro seu irmão Simão e lhe disse: “Encontramos o Messias” (que quer dizer: Cristo).
42Então André conduziu Simão a Jesus. Jesus olhou bem para ele e disse: “Tu és Simão, filho de João; tu serás chamado Cefas” (que quer dizer: Pedra)
Comentário:
Como fora profetizado, João Batista viria para dar testemunho da luz (Jo 1, 7.15; 3,26-30) e seu testemunho é declarar: "Eis o Cordeiro de Deus". Aceitar o Cordeiro significa seguir e buscar a Jesus, a exemplo de seus discípulos. Todo relato deste Evangelho é um pouco estilizado, para ressaltar que é Cristo que está entre nós, já não é necessário procurar a Deus no templo, mas Ele está entre nós. Os discípulos abandonam a vida que levavam e, imediatamente, passam a seguir ao Cristo, para marcar esta mudança, inclusive, mudam de nome. 
Esta mudança de vida, a conversão e aceitar a missão, encontra-se várias vezes na Bíblia: Davi era um o filho menor de uma família de pastores e será o rei de Israel (1Sm 16), Samuel é chamado diretamente por Deus (1Sm 3,3-10); enquanto Isaías e Jeremias duvidam que sejam capazes de cumprir a missão (Is 6, Jr 1). Em comum, o fato que a vocação é sempre um chamado pessoal pois Deus não constrói homens em série, mas ama a cada individualmente.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • 1 Samuel 3, 3-10
  • 1 Samuel 16
  • Deuteronomio 4, 29
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Isaías 6
  • Jeremias 1
Evangelhos
  • Mateus 4, 18-21
  • Mateus 16, 18-20
Cartas



10 de jan. de 2015

Até que ponto posso chegar atrasado na Missa?

Nem sempre tudo funciona como esperado e algumas vezes chegamos atrasados na Missa. Mas para a Missa ser válida, ou para comungar tranquilamente, qual é a obrigação mínima? Ouvir as três leituras; ou somente o Evangelho; se perder a homília, ainda estaria bem? Deixando de lado a resposta óbvia ou o legalismo piedoso, do tipo "se você realmente amar Jesus e a Eucaristia jamais chegará atrasado", como responder adequadamente a esta pergunta? Eu já ouvi várias respostas, a mais comum que, no minimo, você deve ouvir o Evangelho. Como regra simples, ela serviria, mas, na verdade, ela provavelmente perde o ponto principal.
O pessoal dos últimos bancos teria chegado atrasado?

Primeiro, uma observação: quem faz esta pergunta, normalmente é um católico preocupado em seguir corretamente as orientações da Igreja, mas não encontra uma resposta clara em nenhum documento da Igreja. Então, já temos aí um ponto positivo: a boa intenção de agir de acordo com a Igreja.

A regra é que católicos devem participar da Missa (canon 1247) e assistir (c. 1248) nos domingos e dias festivos. Nada é dito sobre quem chegar atrasado ou que deve-se assistir, no mínimo, esta ou aquela parte da Missa. A regra é assistir a Missa, a Missa toda, porque a é uma celebração completa, composta de vários momentos diferentes, mas que no conjunto se harmonizam para prestar culto a Deus através do seu Filho no Espírito Santo. Perder qualquer parte da Missa é perder um pouco do culto a Deus. 

Como não há resposta clara para qual parte da Missa se pode perder e ela ser ainda válida, uma alternativa é se perguntar, por que, então, um bom católico está perdendo parte da Missa? O motivo seria justo para manter a Missa ainda como um sacrifício válido? Eis aí uma questão totalmente diferente.

Por um momento vamos aceitar a resposta popular: o mínimo é escutar o Evangelho. Então temos duas pessoas que chegaram atrasadas à Missa, perderam o Ato Penitencial, o Glória e duas leituras, entraram juntas na Igreja durante o Aleluia. Pela regra, ambas estão perfeitamente justificadas. Mas uma pessoa chegou atrasada por que teve que levar o filho doente ao médico, que demorou horas para atender, pediu exames e ainda tinha um engarrafamento no caminho. Outra pessoa estacionou o carro ao lado da Igreja meia hora antes mas resolveu ficar escutando o final do jogo.  

Aplicando a regra do Evangelho como limite de validade, ambos estão muitíssimo bem e cumpriram a regra. Eis um problema com regras: elas podem ser simples e claras, o que facilita explicar para as pessoas, mas, as vezes, perdem o ponto essencial da Igreja: amar o próximo. E aí se exige um honesto exame de consciência. Se por acaso morrer agora e chegar perante Deus, meu motivo para o atraso vai soar bem? Saber o resultado do jogo é tão válido quanto atender a um filho doente? 

Apenas um último exemplo: o Evangelho é claro ao dizer que se você tem algo contra um irmão, você deve buscar reconciliação. Imaginemos que uma pessoa ao entrar na Igreja, vinte minutos antes de começar a Missa, percebe que agiu muito mal contra seu amigo, sai da Igreja e telefona para pedir perdão pelo seu erro. A conversa toda demora meia hora e a Missa já começou. A Missa será ainda válida? 

Acima de tudo, o ensinamento é claro: amar a Deus sobre todas as coisas; amar ao próximo. Em todos os atos, inclusive se ocorrer que por um motivo ou outro você chegou atrasado na Igreja, pergunte-se, sem tentar se enganar: foi por amor a Deus, foi por amor ao próximo ou posso fazer melhor da próxima vez. E se concluir que houve um desleixo, procure a confissão e correção adequada. Provavelmente haverá ainda outra Missa no mesmo domingo, na paróquia ou em outra próxima. 

-- autoria própria

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...