6 de nov. de 2018

São Francisco Spinelli

Francisco Spinelli nasceu em Milão em 14 de Abril de 1853 e no dia seguinte foi batizado na Catedral de Santo Ambrósio. Seus pais, Bartolomeu e Emilia, vinham da região de Bérgamo e trabalhavam como mordomo e camareira na casa do Marquês Emiliano Stanga.  Devido à situação política, com a população se revoltando contra o marquês, seus pais resolveram mandar o menino para a cidade de Verdello, onde morava uma tia. Francisco passou três anos morando com ela, foi ali que começou a frequentar a missa. 

Quando pode retornar a viver com seus pais, foi matriculado na escola em Cremona. Em 19 de Maio de 1861 recebeu a Crisma na paróquia de Santa Ágata, em Cremona. Nesta época acompanhava sua mãe quando ela ia ajudar os pobres da cidade e frequentava muito a paróquia de Santo Alessandro, onde um tio materno era pároco. 

Devido a uma queda da cama, sofreu uma lesão da coluna vertebral que lhe impedia de caminhar normalmente. Certo dia foi rezar em frente à imagem de Nossa Sra de Salette quando sentiu um impulso de levantar-se da cadeira de rodas e, milagrosamente, pode caminhar. 

Ordenação
No outuno de 1871, Francisco entrou no Seminário Diocesando de Bérgamo como aluno "externo", isto é, ele morava com seu tio sacerdote e apenas frequentava as aulas de teologia e latim. No seu tempo livre, começou a ajudar um sacerdote chamado Luigi Palazollo, que viria a ser beatificado em 1963, e estava começando uma escola para pobres analfabetos, um oratório para jovens, e um grupo da Obra de Santa Dorotéa para moças. Francisco ajudava como professor e na orientação dos rapazes do oratório.

Progrediu rapidamente no Seminário, foi ordenado diácono em 22 de Maio de 1875 e sacerdote em 17 de Outubro do mesmo ano, pelo Bispo de Bérgamo, que pulou uma parte da liturgia de ordenação. Ao explicar seu erro para o Vaticano, foi ordenado que completasse a celebração em caráter privado. A Francisco, pediu: "Você tem o dever de ser duplamente bom,  pois foi duplamente ordenado". 

As Irmãs da Adoração
No Natal de 1875 foi em peregrinação para Roma. Na Catedral de Santa Maria Maior, em frente ao presépio, sentiu-se inspirado pela Virgem Maria, que teve a oportunidade única de adorar a Cristo na manjedoura, a convidar mulheres para adorar a Cristo na Eucaristia. Segundo ele, guardou isto no coração e retornou a Bérgamo, onde trabalhava com seu tio e Dom Luigi Palazollo. 

No inverno de 1882 encontrou uma jovem chamada Catarina Comessoli, que desejava fundar uma congregação dedicada à Adoração Eucarística. Catarina era camareira da Condessa Hipólita Fé, que disse que financiaria uma casa. Com a aprovação do bispo, fundaram um novo instituto religioso, as Irmãs da Adoração do Santíssimo Sacramento, que deveria dedicar-se à Adoração Permanente e ajudar os pobres. Nas suas palavras, deveriam "adorar perpetuamente o Santíssimo Sacramento, fonte de força para nosso trabalho e reparação às ofensas feitas a Deus nestes tempos e, também, reunir todos que não fossem aceitos nos hospitais e casas de saúde, especialmente os pobres". Em sete anos, a ordem já tinham nove casas de acolhida, onde tratavam doentes e deficientes mentais.

Nesta época Francisco, com apoio da diocese, comprou terrenos para o novo instituto e escolas para os pobres. Mas as doações não eram suficientes para ajudar os pobres e pagar as dívidas, um novo bispo retirou o apoio financeiro da diocese e Francisco foi forçado a declarar a falência do instituto em 18 de Janeiro de 1889. Também foi destituído da administração do instituto.

Ordem das Irmãs Sacramentinas
Foi transferido para a Diocese de Cremona, onde chegou em 4 de Março de 1889. O Bispo lhe orientou apenas a fazer o bem e ajudar os pobres. Na nova diocese, após saber do fechamento do instituto, decidiu fundar uma nova obra sob a mesma inspiração. Em 8 de Setembro de 1891, com autorização do bispo, foi erigida a Ordem das Irmãs Sacramentinas. As irmãs pediu que "adorassem a Santíssima Eucaristia com o amor mais ardente e que fossem caridosas com os pobres"

Francisco e as irmãs costumavam visitar os doentes mais pobres da cidade. Certo dia entraram na casa de um rapaz que sofria de epilepsia, tremia muito, se debatia e babava pelo canto da boca. Percebeu que uma irmã queria sair dali, pois estava enojada. Então ele lhe corrigiu: "Nesse infeliz deveis ver a Jesus Cristo. Será feliz se no dia do teu juízo puderes responder que sim quando Cristo perguntar: o que fizeste por mim?"

Certo dia conheceu o abade beneditino Jacques Gauthey, que havia saído da França quando o governo expulsou todas as ordens do país. Ao conhecer melhor a congregação, pediu para entrar na ordem, tendo sido consagrado frade em 15 de Setembro de 1907, e passou a morar na Abadia de Acguafredda, dedicando-se à oração e terminar os estatutos das Irmãs. 

Morte, milagres e canonização
Em 1910 escreveu seu testamento: "Dou graças aos sacerdotes que com sacrifícios e zelo me ajudaram ao longo da vida. Aqueles que voluntariamente ou não contribuíram para os meus sofrimentos e tristeza, digo que amo a todos, não tenho o menor rancor de ninguém e rezo ao Senhor Deus que lhes retribua com muitas graças na mesma proporção com que me fizeram sofrer, ou ainda mais graças do que isto".

Ao final de 1912 foi diagnosticado com câncer no estômago, celebrou sua última missa no Dia de Natal e faleceu em 6 de Fevereiro de 1913, enquanto fazia o sinal da cruz. 

Para sua beatificação, foi considerada milagrosa a cura de uma postulante da ordem que caiu em um caldeirão de água fervente que resultou em queimaduras de terceiro grau e coma profundo. Duas religiosas, irmãs Dorina e Cristina colocaram uma imagem do Padre Francisco sobre o corpo da moça, que no dia seguinte acordou-se, disse sentir fome e pediu que avisassem sua mãe que estava curada. 

O segundo milagre que conduziu a canonização ocorreu com um menino recém-nascido no hospital da ordem em Kinshasa, Congo. Sua mãe já estava levando-o para casa quando uma hemorragia fortíssima fez com que sangrasse intensamente. A mãe correu de volta ao hospital, mas os médicos disseram que não sabiam o que fazer, pois nada parava a hemorragia e já não havia sangue suficiente. Irmã Adelina correu a capela e começou a rezar pelo menino, que imediatamente parou de sangrar e recuperou-se. Francisco foi canonizado pelo Papa Francisco, em 14 de Outubro de 2018.

--autoria própria

Links:
Santos e beatos (em italiano)
Irmãs Adoradoras do Santíssimo Sacramento (italiano, inglês e francês)

27 de out. de 2018

São Núncio Sulpízio, o menino pobre que sofreu por Jesus Cristo

Infância

Núncio nasceu um dia após a Páscoa, em 13 de Abril de 1817, durante um grande fome que atingia a província de Pescara, seu nome é uma homenagem ao avô paterno. Foi batizado no mesmo dia, pois seus pais temiam por sua saúde. Quando tinha apenas três anos, seu pai morreu. Quatro meses após. morreu também sua irmã Domenica. 

Sua mãe casou novamente com um homem mais velho, mas que podia sustentar a todos. Núncio apenas mais um pela casa, a quem ele não precisava dar atenção, nunca demonstrou carinho pelo menino, pelo contrário, tratava-o sempre as gritos, reclamando e recriminando por tudo. 

Em 5 de Março de 1823, sua mãe morreu, ele ainda não havia completado seis anos. O padrasto imediatamente mandou-o para a avó, Rosária Rossi. Ela teve uma acolhida carinhosa e erra tratado adequadamente. Acompanhva sua avó às missas, rezando o rosário juntos e ajudava nos afazeres da casa. Frequentava a escola do Padre Fantacci, que lhe ensinou a adorar o Santíssimo Sacramento.

Em 4 de Abril de 1826, sua avó morreu, antes dele completar nove anos. Seu tio Domenico Luciani, um ferreiro, levou-o para casa, tirou-o da escola e começou a ensinar a profissão. Na verdade, tratava-o como um funcionário, ou menos. Quando o menino errava, era punido com surras ou não recebia comida. Usava-o para buscar material ou levar entregas, as vezes ítens muito pesados ou muito longe. Eram tarefas difíceis para um adulto, terríveis para uma criança. 

Neste tempo. Núncio começou a associar seus sofrimentos aos de Cristo. Sabia que Jesus fora humilhado e tratado como a escória da humanidade, assim como acontecia com ele. Começou a oferecer seus sofrimentos pelos pecados do mundo, rezava para fazer a vontade de Deus e apenas pedia o descanso eterno. 

Doença

Num dia de inverno, seu tio mandou-o ir muito longe para buscar algumas ferramentas novas. Sem um sapato adequado, no frio, seu pé ficou em feridas, que infectaram. Estava tão fraco que não podia levantar da cama. Seu tio avisou-o que se não trabalhasse, não seria alimentado. Por falta de cuidado, seu pé transformou-se em gangrena, das feridas corria pus. Alguém aconselhou-o a ir num riacho próximo pra lavar suas feridas, mas chegando lá uma mulher o expulsou por que temia que ele infectasse a água que bebiam. Começou a ir a outro riacho, mais longe da sua casa, o que lhe obrigava a caminhar ainda mais. 

Depois de algum tempo, finalmente seu tio lhe internou num hospital em Áquila. Neste tempo, um outro tio que era soldado, irmão do pai dele, ficou sabendo do que estava acontecendo. Ele contou o caso para seu comandante, Coronel Felice, homem muito caridoso, que praticamente adotou à Núncio e providenciou sua transferência para o hospital em Nápoles, onde poderia ser melhor tratado. 

Certo dia um padre foi visitar os doentes. Segundo ele, perguntou ao menino:
- Estás sofrendo muito?
- Não padre, estou fazendo a vontade de Deus.
- E o que posso fazer por você?
- Gostaria de me confessar e receber a primeira comunhão.
Surpreso, o padre exclamou:
- Mas seus pais não lhe levaram à Igreja?
- Meus pais morreram quando eu tinha apenas cinco anos.
- E quem cuida de você desde então?
- A providência divina!

Este padre começou a preparar-lhe para a receber os sacramentos. Segundo ele era visível que o menino estava recebendo graças extraordinárias, crescendo em todas virtudes e no amor a Jesus Cristo. Outro padre napolitano, que viria a ser canonizado também, São Gaetano Errico, conheceu a Núncio e prometeu-lhe que aceitaria-o na sua ordem tão logo tivesse idade suficiente. 

Núncio permaneceu dois anos no hospital e numa casa de recuperação em Ischia, sempre aos custos do Coronel Felice. Ocupava seu temppo indo rezar na capela ou ensinando o catecismo às outras crianças. A todos doentes encorajava a aceitar os sofrimentos com alegria. 

Sua saúde estava melhor, mas então foi diagnosticado com câncer nos ossos. Os médicos decidiram por amputar a perna, mas o câncer já estava se espalhando pelo corpo. Seu corpo todo era apenas dor. A todos dizia: Jesus sofreu muito mais por nós, em troca recebeu a vida aterna, é através destas dores que estou ganhando o Paraíso" ou "Espero que meu sofrimento hoje tenha salvado uma alma de um pecador que iria para o Inferno". Ao Coronel escreveu: "Fique contente, dos céus estarei sempre lhe ajudando e orando por ti". 

Falecimento e canonização

Em 5 de Maio de 1836, Núncio morreu após receber os últimos sacramentos. O povo pediu para ir rezar em seu velório, que acabou se estendendo por cinco dias. Do caixão exalava um cheiro de rosas e seu corpo permaneceu em perfeitas condições. 

Dez anos após sua morte foi aberto o processo de canonização, que se arrastou por mais de cem anos. São Núncio Sulpício foi beatificado em 1o. de Dezembro de 1963 pelo Papa Paulo VI e canonizado em 14 de Outubro de 2018 pelo Papa Francisco. O milagre que confirmou sua santidade foi a cura de um jovem que se acidentara ao cair de uma motocicleta e estava em coma. Seus familiares pediram que uma relíquia do santo fosse colocada ao lado da leito hospitalar. Uma semana após, o rapaz despertou do coma em perfeitas condições, sem nenhuma seqüela. 

Os restos mortais de São Núncio Sulpício estão na Igreja de São Domingos Soriano, em Nápoles. Na Igreja de São Cirilo de Alexandria, em Pittsburgh, há um santuário em sua honra.

-- autoria própria.

Em 14 de Outubro, o Papa Francisco canonizou sete novos santos: Papa Paulo VI, Dom Oscar Romero, Francisco Spinelli, Vicente Romano, Maria Catarina Kasper, Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus e Núncio Sulprizio. MInha intenção é escrever sobre cada um deles nos próximos dias.

23 de out. de 2018

Santa Maria Catarina Kasper

Em 14 de Outubro, o Papa Francisco canonizou sete novos santos. Destes, dois são conhecidos no Brasil e a imprensa falou sobre eles, mesmo que brevemente: Papa Paulo VI e Dom Oscar Romero. Os outros cinco santos nem foram citados: Francisco Spinelli, Vicente Romano, Maria Catarina Kasper, Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus e Núncio Sulprizio. Aqui vou começar uma pequena série de biografias, um texto para cada dos sete, começando por Santa Maria Catarina Kasper.

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Maria Catarina nasceu em 26 de Maio de 1820 na cidade de Dernbach, que fica na Alemanha, próxima a fronteira coma França, foi a terceira filha de quatro irmãos, seus pais eram Heinrich e Katharina. O pai tinha ainda outras quatro filhas de um primeiro casamento. 

Desde pequena gostava de ler, em especial a Bíblia e o livro A Imitaçãoo de Cristo, de Thomas Kempis. Aos seis anos começou a ir para escola, mas nunca se destacou pois costumava passar longos períodos ausente por doença ou tendo que ajudar na colheita e afazeres domésticos. Quando ficou um pouco maior, quebrava pedras para construção de estradas. Segundo ela, desde muito cedo sentiu um chamado à vida religiosa, mas sabia que os pais necessitavam do seu trabalho. Quando podia, viajava até um santuário mariano para rezar, muitas vezes servindo como líder de um grupo de meninas da cidade.

Em 1841 seu pai morreu, no ano seguinte um dos irmãos. Ela e a mãe tiveram que sair da casa onde moravam e Maria começou a trabalhar como costureira, ganhando 10 centavos por dia. Sua mãe morreu pouco depois, deixando-a livre para seguir sua vocação. Devido à perseguição religiosa em décadas anteriores, na região havia apenas monges Franciscanos e Cistercienses, nenhuma ordem feminina. Maria, com o auxílio da comunidade, coonseguiu construir uma pequena casa na sua cidade. Suas amigas de infância começaram a ajudá-la nos trabalhos aos pobres, algumas ainda morando com suas famílias. O Bispo da região, Dom Joseph Blum, ficou sabendo do trabalho e as incentivou a persistirem.

Em 15 de Agosto de 1851, o Bispo Blum recebeu os primeiros votos do pequeno grupo, iniciando a Ordem da Servas Pobres de Jesus Cristo. A ordem cresceu rapidamente e várias casas se formaram na Alemanha, em 1854 abriram a primeira escola, em 1859 fundaram a primeira casa na Holanda e, em 9 de Março de 1860, o Papa Pio IX assinou um carta apoiando as irmãs, que foram oficialmente reconhecidas em 21 de Maio de 1890 pelo Papa Leão XIII. 

Maria serviu como superiora da Ordem por cinco períodos, faleceu em 02 de Fevereiro de 1898 na sua cidade natal, devido a um infarto. Seus restos mortais estão no altar da casa principal da Ordem, em Dernbach. O processo de beatificação começou em 1928, foi interompido várias vezes, até ser beatificada em 16 de Abril de 1978, pelo Papa Paulo VI. A cura completa e imediata da irmã Maria Herluka, que já sofria gravemente de tuberculose, foi confirmada como um milagre e serviu como justificativa final para a canonização. 

A ordem das Servas Pobres de Jesus Cristo está presente no Piauí e Ceará, além de vários países, inspiradas por sua fundadora a servir aoos pobres, seguindo o exemplo de Maria e vivendo na dependência da providência de Deus. 

-- autoria própria

13 de set. de 2018

Deus, nesta noite compreendi que existes

Escuta Deus, eu nunca falei contigo
mas agora quero te dizer: olá, como estás?
Sabes Deus, me diziam que tu não existias
e eu, cheio de mim, acreditava nisto.

Nesta noite, desde uma cratera de bomba, vi teu firmamento,
então compreendi que me haviam mentido.
Se tivesse contemplado tuas coisas
teria compreendido que estavam me enganando.

Deus, gostaria de saber se pegarás na minha mão,
não sei, ma sinto que me compreenderás.
É curioso que eu tenha vindo a este inferno
para achar um momento para contemplar teu rosto.

Creio que não há muito a dizer,
apenas quue estou feliz de te ter conhecido.
Parece que logo chegará a hora zero,
mas não temo, depois de saber que estás tão próximo.

Já deram o sinal, Deus, agora tenho que marchar.
Quero que saibas que te amo sinceramente.
Esta batalha será tremenda, algo espantoso,
e, quem sabe, esta noite talvez chegue na tua casa.

Mesmo que até agora não tenha sido teu amigo,
Deus, estarás me esperando na tua porta?
Estou chorando, logo eu, derramando lágrimas!
Isto por que me gostaria ter Te conhecido a muitos anos.

Deus, agora tenho que ir, cumprir minhas ordens. Adeus!
Que estranho! Desde que Te encontrei, já não temo a morte.

-- escrito por soldado da II Guerra

25 de ago. de 2018

A Igreja é um espaço sagrado

O que pode ser feito dentro da Igreja, que não seja missa?
Um concerto na igreja - isto está certo?

  • Reunião de condomínio? Não!
  • E a reunião da escola com os pais? Quase certo que não.
  • Uma peça de teatro? Depende: se for Shakespeare, não; uma peça sobre a vida de Nossa Senhora,  provavelmente sim!
  • Um concerto de música  clássica? Mozart compôs missas, mas também compôs outras não religiosas. Qual delas será tocada?
  • Show de rock? Não é por que a banda é formada pelo grupo de jovens que pode tocar qualquer coisa na igreja.  
Quem prestar atenção no que acontece nas igrejas fora do horário das missas, provavelmente já soube de, no mínimo, uns três exemplos acima. Eu já assiti dois deles: concerto e peça de teatro; e ouvi falar sobre todos os outros. Em geral as igrejas são prédio grandes, tem um formato de auditório e já tem lugar para todos sentarem. As mais antigas tem uma acústica ótima e são lindas. Além disso, estão vazias a maior parte do tempo, então é fácil ser "criativo" e querer utilizá-las para várias atividades.

Mas quase nada dos exemplos acima deveria acontecer dentro de uma igreja e o critério não é ser antigo, clássico ou amigo do padre. Há regras, e é melhor seguirmos as regras, mas para segui-las é necessário conhecê-las. Então vamos ao Código Canônico, onde dois artigos são relevantes:

Cân. 1205 -- Lugares sagrados são aqueles que, mediante a dedicação ou a bênção prescrita pelos livros litúrgicos, se destinam ao culto divino e à sepultura dos fiéis.  

Cân. 1210 -- No lugar sagrado apenas se admita aquilo que serve para exercer ou promover o culto, a piedade e a religião; e proíbe-se tudo o que seja discordante da santidade do lugar. Porém, o Ordinário pode permitir acidentalmente outros atos ou usos, que não sejam contrários à santidade do lugar.

O cânon 1205 define quais são os espaços sagrados e é fácil entendê-los na prática: igrejas, capelas e cemitérios católicos são espaços sagrados, pois é ali que se realizam missas, batismos, casamentos e sepultamentos. Quando inaugurados, o bispo, ou quem ele delegar, consagra o local, isto é, torna-o sagrado.  

Como toda paróquia precisa de outros espaços para fins não-litúrgicos, normalmente há um salão paroquial e a secretaria da igreja, que não são espaço sagrados e dedicados exclusivamente para fins litúrgicos. 

O cânon 1210 define que igrejas devem ser utilizadas apenas para celebrações litúrgicas e outros atos que promovam o culto, piedade e religião; e o tudo o que não promover à santidade esta proibido.  É importante entender que o cânon não restringe o uso à apenas missas ou outros sacramentos, mas abre espaço para, por exemplo, catequeses. Mas neste "abrir espaço", não se deve ir muito longe.

Por que Shakespeare não pode? Pense em Hamlet: o tio mata o pai para ficar a esposa, mãe de Hamlet, e assumir o reino. Nada edificante! Quem sabe MacBeth, com suas bruxas e vários assassinatos. Esta também não edifica. Já a vida de Nossa Senhora apresentada no Tempo de Natal é perfeito.

E só por que é música clássica, não quer dizer automaticamente que é religiosa. Mozart compôs a Missa de Coroação, com Glória, Kyrie, Creio, Santo, Cordeiro de Deus e Benedictus. Impossível algo mais litúrgico e adequado para ser tocada em uma igreja. Mas também compôs a Sinfonia de Paris quando estava na corte do rei francês, inspirado pelo luxo, beleza e outros acontecimentos não cristãos.

Se meu texto estiver cansativo, ouça o Agnus Dei de Mozart, no vídeo acima, sendo tocado durante uma missa celebrada pelo Santo João Paulo II. Certamente vai elevar sua alma!

Nem vou explicar por que a reunião do condomínio não deve ser realizada dentro da igreja, espero que já seja óbvio. E a reunião com os pais da escola? Talvez o objetivo seja convidar os pais a virem frequentemente na missa, e isto seria um bom uso da igreja, mas se for para discutir o valor da mensalidade, por favor, não!

É importante dizer que mesmo que o tema da ocasião seja adequado, deve se manter o espaço como algo sagrado, manter o altar no lugar, se possível levar o Santíssimo para uma capela lateral, evitar o máximo possível o uso do altar e não cobrar ingressos. Há um documento da Congregação Para o Culto Divino sobre isto, publicado em 1988. O texto original está no site da Congregação, em vários idiomas, mas não o português. Uma tradução não oficial, como outras que faço aqui, mas de boa qualidade, foi publicado no site Meloteca. Vale a leitura.

Por fim, caso algo indevido seja anunciado na sua paróquia ou igreja próxima, procure conversar com o padre e explicar os motivos de sua preocupação. Seja educado e caridoso, as vezes os padres erram ou simplesmente não tiveram tempo para examinar atentamente o que estava sendo proposto. 

-- autoria própria. 



28 de jul. de 2018

Evangelho não é auto-ajuda

No Rio Grande do Sul, pelos anos 80/90, Pe. Schneider ficou bastante conhecido pelos seus livros e palestras que misturavam auto-ajuda e cristianismo. Ele era bom palestrante e, não posso negar, algumas idéias e técnicas eram positivas e ajudaram-me. Lembrei dele quando nas últimas semanas vi no Twitter algumas mensagens de um outro padre, muito idênticas ao que o Pe. Scheneider dizia 30 anos atrás:
Jesus Cristo ajudando a mulher adúltera.

  • Assuma hoje sua história nas mãos e construa o ser humano melhor e mais feliz que você deseja ser.
  • Saiba aprender com seus problemas e desafios, e saiba que eles oferecem uma grande oportunidade de crescimento e madurecimento para você
  • Invista na virtude e no bem que existe dentro de você

É claro, Twitter não é lugar para pensamentos elaborados e, de fato, há  pessoas que precisam de um incentivo na vida, de um "vai dar certo", "força e confiança, você consegue". Mas estas frases estão mais para auto-ajuda do que anúncio do Evangelho, que são duas coisas diferentes.

Auto ajuda, baseada em qualquer filosofia, cristã, oriental ou agnóstica, tem algumas características claras:

1. A pessoa é o agente da mudança
A auto-ajuda baseia-se na idéia que a pessoa pode mudar, adquirir hábitos mais saudáveis ou produtivos, e isto trará uma melhora para a sua vida. Cada pessoa é totalmente capaz de alterar sua vida, apenas pela sua iniciativa e força de vontade.

2. É centrada em si mesmo
A auto ajuda busca a melhoria do indivíduo, nos seus objetivos imediatos, para ter uma vida melhor enquanto estamos, por aqui, vivos. Estabelecer objetivos e esforçar-se por alcança-los é saudável, mas há o risco de esquecer que os seus desejos particulares podem não ser adequados para seus familiares, amigos, sociedade ou a sua própria alma.

3. A oração é dispensável ou secundária 
Sendo centrada nos eus prórpios objetivos e na capacidade inata e, quase infinita, do ser humana de se daptar e modificar, muitas vezes a auto-ajuda dispensa a oração ou a mantém a serviço da pessoa e de suas necessidades.

4. A auto-ajuda não limitada pela realidade
Sendo centrada nas possibilidades da uma pessoa, a auto-ajuda é limitada, não contando adequadamente para a realidade que cerca as pessoas. As vezes os planos não funcionam por motivos fora do controle da pessoa, como uma doença, um acidente ou as condições da sociedade. 

Agora comparemos com o Evangelho:

1. Deus é o agente da mudança
Ao se deixar conduzir por Deus, a pessoa modificará seus hábitos para algo mais saudável para a sua alma. É Deus que age na pessoa, respeitando seus limites, mas é Deus que converterá a pessoa. O poder é de Deus, de sua Palavra transformadora, nunca da iniciativa pessoal. 

Pense na Aliança que Deus fez com Abraão: a promessa é toda de Deus, Ele não permite que Abraão se comprometa por que entende que cometerá erros, se afastará do Caminho de Deus. A promessa de Deus é que irá perdoar a Abraão quando este errrar e lhe dará filhos e uma terra. Deus cumpriu a promessa, Abraão foi ter relações com a escrava, não com sua esposa. 

2. O plano é de Deus
Uma pessoa ao receber o anúncio do Evangelho irá se converter, isto é, mudar de vida. Como diz o Profeta Ezequiel, Deus tirará o coração de pedra e dará um coração novo, de carne, capaz de amar ao próximo, sem egoísmo. Conheço muitas pessoas que planejavam serem professores, doutores ou advogados, mas ao receber a palavra de Deus, perceberam que eram chamados ao sacerdócio, a uma vida no monastério ou de missão em terras estrangeiras. Converter-se é deixar-se guiar por Deus, nunca tentar submetê-lo a sua própria vontade.    

3. A oração é essencial
Jesus Cristo já deu o exemplo, é necessário orar, estar em diálogo com Deus, mas não uma oração pedindo apenas pelos seus próprios planos. É importante entrar em oração e dizer: Pai, afasta de mim este cálice, mas se for tua vontade, que eu beba até a última gota.  

4. Deus te ama, mesmo quando teus planos são diferentes
Ninguém planeja ter uma doença, viver na pobreza ou estar desempregado; no entanto esta é a realidade para milhões de pessoas. Neste momento, em que nossos planos são diferentes, em que experimentamos nossas fraquezas, limitações e frustações, quando a auto-ajuda não funciona e expõe seus limites, quando, no fundo, enfrentamos nossa morte, é Jesus Cristo que vem e te diz: Eu enfrentei a morte, eu venci a morte, eu ressucitei, morri na Cruz por que te amo. 

O Evangelho é maior que qualquer auto-ajuda, o Evangelho é ilimitado, a auto-ajuda é restrita a uma pessoa. A Palavra de Deus é para aqueles que não podem se auto ajudar; o método não é estabelecer metas e adotar certos hábitos, mas oração habitual e arrependimento dos seus pecados. O objetivo não é tornar-se uma pessoa de sucesso, mas uma pessoa aberta ao serviço e amor ao próximo. 

-- autoria própria

22 de jun. de 2018

Nós, filhos de Deus, permaneçamos na paz de Deus

Cristo acrescentou claramente uma lei que nos obriga a determinada condição: que peçamos a remissão das dívidas, se nós mesmos perdoarmos aos nossos devedores, sabendo que não podemos alcançar o perdão pedido a não ser que façamos o mesmo em relação aos que nos ofendem. Por esta razão, diz em outro lugar: Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos. E aquele servo que, perdoado de toda a dívida por seu senhor, mas não quis perdoar o companheiro, foi lançado ao cárcere. Por não ter querido ser indulgente com o companheiro, perdeu a indulgência com que fora tratado por seu senhor.
Caim matando Abel, de Peter Paul Rubens

Cristo propõe o perdão com preceito mais forte e censura ainda mais vigorosa: Quando fordes orar, perdoai se tendes algo contra outro, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe os pecados. Se, porém, não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, não vos perdoará os pecados. Não te restará a menor desculpa no dia do juízo, quando serás julgado de acordo com tua própria sentença e o que tiveres feito, o mesmo sofrerás.

Deus ordenou que sejamos pacíficos, concordes e unânimes em sua casa. Mandou que sejamos tais como nos tornou pelo segundo nascimento; assim também ele nos quer renascidos e perseverantes. Deste modo nós, filhos de Deus, permaneçamos na paz de Deus e os que possuem um só Espírito tenham uma só alma e um só coração.

Deus não aceita o sacrifício do que vive em discórdia e ordena deixar o altar e ir primeiro reconciliar-se com o irmão, para que, com preces pacíficas, possa Deus ser aplacado. Maior serviço para Deus é a nossa paz e concórdia fraterna e o povo que foi feito uno pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Nos sacrifícios que Abel e Caim foram os primeiros a oferecer, Deus não olhava os dons, mas os corações, de forma que lhe agradava pelo dom aquele que lhe agradava pelo coração. Abel, pacífico e justo, sacrificando com inocência a Deus, ensinou os outros a depositar seus dons no altar com temor de Deus, simplicidade de coração, empenho de justiça e de concórdia. Aquele que assim procedeu no sacrifício de Deus tornou-se merecidamente sacrifício para Deus. Sendo o primeiro a dar a conhecer o martírio, iniciou pela glória de seu sangue a paixão do Senhor, por ter mantido a justiça e a paz do Senhor. Esses serão, no fim, coroados pelo Senhor; esses, no dia do juízo, triunfarão com o Senhor.

Quanto aos discordantes, aos dissidentes, aos que não mantêm a paz com os irmãos, mesmo que sejam mortos pelo nome de Cristo, não poderão, conforme o testemunho do santo Apóstolo e da Sagrada Escritura, escapar do crime de desunião fraterna, pois está escrito: Quem odeia seu irmão é homicida. Não chega ao reino dos céus nem vive com Deus um homicida. Não pode estar com Cristo quem preferiu a imitação de Judas à de Cristo.

-- Do Tratado sobre a Oração do Senhor, de São Cipriano, bispo e mártir (século III)

10 de jun. de 2018

Mórmons são cristãos? Não, mas é complicado.

Após Lutero e o Rei Henrique VIII surgiram diversas igreja saídas da Católica, com menores ou maiores diferenças doutrinárias e teológicas em relação à Católica. Este processo continuou, com mais e mais novas divisões, até a situação atual com milhares de igrejas que podem ser chamadas cristãs, acreditam em Deus Pai, seu filho Jesus Cristo e o Espírito Santo, e utilizam traduções da Bíblia que encontram suas raízes no trabalho de São Jerônimo. 

Uma diferença prática importante: a ISUD não batiza
recém-nascidos, apenas pessoas com um mínimo de
compreensão dos seus ensinamentos. marcado pela
idade de oito anos e sem deficiências mentais.
A Igreja Católica aceita plenamente o Batismo de outras igrejas cristãs, isto é, caso uma pessoa que tenha sido batizada, digamos, na Igreja Luterana converta-se a Igreja Católica, não será necessário batizá-la novamente por que o Batismo é feito com a mesma forma e intenção. Diferenças de natureza doutrinária não são suficientes para invalidar o Batismo, e isto é uma posição muito anterior à Lutero, com raízes numa decisão do Papa Estevão I no ano de 256, quando já ocorriam as primeiras separações da Católica.  

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ISUD), popularmente como  mórmons, surgiu a partir de um movimento liderado por Joseph Smith em torno de 1830. No início, o Batismo ministrado pelos mórmons foi aceito pela Igreja Católica, mas conforme seus ensinamentos foram alterados pelos seus líderes e melhor compreendidos por todos, tornou-se óbvio que esta decisão deveria ser revista. Hoje a Igreja Católica não aceita o Batismo ministrado pelos mórmons, ou seja, basicamente afirma que são tão diferentes do Cristianismo que já não podem ser chamados cristãos.

E por que isto é complicado? O problema é que a ISUD também batiza em nome do Pai, Filho e o Espírito Santo utilizando a água como sinal do batismo, ou seja, na aparência externa, seria um Batismo cristão, mas as semelhanças terminam aí, na exterioridade.

A invocação não é realmente da Santíssima Trindade por que o Pai, Filho e Espírito Santo são considerados não como as três pessoas de Deus, mas três deuses separados que existiam da maneira separada e, livremente, decidiram formar uma divindade. Ou seja, até mesmo a idéia de divindade só começaria  a existir a partir do momento em que os três deuses decidiram se unir. E ainda mais, Deus trata-se um ser nativo de outro planeta que se transformou em um ser humano e morreu de uma maneira humana, sendo esea um modo válido de transformar-se em Deus, também acessível a todos outros homens. Deus Pai tem ancestrais e uma esposa, a Mãe Celestial, com quem dividiu a responsabilidade da criação. Jesus Cristo é o primeiro filho desta união, assim como o Espírito Santo, nascidos após a criação do mundo. Para os mórmos há, no mínimo, quatro deuses, sendo que três deles decidiram unir-se para formar a divindade. Ou seja, as diferenças são tão profundas que não podem nem mesmo ser consideradas como uma heresia, mas como vindas de uma matriz teológica separada do cristianismo. 

Além disso há outras distinções importantes: para a Igreja Católica, o Batismo cancela não apenas os pecados pessoais, como também o pecado original. Já a ISUD sequer aceita a existência do pecado original e o pecado de Adão e Eva teria sido parte do plano de Deus. Também é possível batizar os antepassados já mortos e que isto conduz a salvação de suas almas. Na prática, isto leva os mórmons a cuidadosamente investigarem a história familiar em busca de pessoas a serem salvas. 

Joseph Smith, que iniciou o ISUD, acreditava na Bíblia mas afirmava que ela havia sido degenerada pela Igreja Católica que teria omitido livros e introduzido erros no texto. A partir daí completou uma revisão da Bíblia em 1833, incluindo o que considerou correções e seus próprios comentários. Também escreveu o Livro dos Mórmons, que explica seus ensinamentos e fundamenta sua teologia, sendo que este tem um status igual ao da Bíblia. 

Em síntese, embora na forma o Batismo da ISUD pareça ser cristão, as diferenças são muito grandes a ponto de não ser aceito pela Igreja Católica. Se algum mórmom se converter ao catolicismo, terá que ser batizado e declarar sua adesão ao Credo Niceno-Constantinopolitano: Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.

-- autoria própria, com base em um documento publicado pela Congregação da Doutrina da Fé escrito por Pe. Luis Ladaria em 1o. de Agosto de 2011. 

4 de jun. de 2018

A Teologia da Libertação, seus erros e o ensinamento da Igreja

A expressão "Teologia da Libertação" designa primeiramente uma preocupação privilegiada, geradora de compromisso pela justiça, voltada para os pobres e para as vítimas da opressão. A aspiração pela libertação, como o próprio termo indica, refere-se a um tema fundamental do Antigo e do Novo Testamento. Por isso, tomada em si mesma, a expressão "Teologia da Libertação" é uma expressão perfeitamente válida: designa, neste caso, uma reflexão teológica centrada no tema bíblico da libertação e da liberdade e na urgência de suas incidências práticas.
Na época, Papa João Paulo e Cardeal Joseph Ratzinger

A experiência radical da liberdade cristã constitui aqui o principal ponto de referência. Cristo, nosso Libertador, libertou-nos do pecado e da escravidão da lei e da carne, que constitui a marca da condição do homem pecador. Ê pois a vida nova da graça, fruto da justificação, que nos torna livres. Isto significa que a mais radical das escravidões é a escravidão do pecado. As demais formas de escravidão encontram pois, na escravidão do pecado, a sua raiz mais profunda. É por isso que a liberdade, no pleno sentido cristão, caracterizada pela vida no Espírito, não pode ser confundida com a licença de ceder aos desejos da carne.

A libertação é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado. Seu objetivo e seu termo é a liberdade dos filhos de Deus, que é dom da graça. Ela exige, por uma consequência lógica, a libertação de muitas outras escravidões, de ordem cultural, econômica, social e política, que, em última análise, derivam todas do pecado e constituem outros tantos obstáculos que impedem os homens de viver segundo a própria dignidade. Discernir com clareza o que é fundamental e o que faz parte das consequências, é condição indispensável para uma reflexão teológica sobre a libertação.

Na verdade, diante da urgência dos problemas, alguns são levados a acentuar unilateralmente a libertação das escravidões de ordem terrena e temporal, dando a impressão de relegar ao segundo plano a libertação do pecado e portanto de não atribuir-lhe praticamente a importância primordial que lhe compete. A apresentação dos problemas por eles proposta torna-se por isso confusa e ambígua.

Não se pode tampouco situar o mal unicamente ou principalmente nas estruturas econômicas, sociais ou políticas, como se todos os outros males derivassem destas estruturas como de sua causa: neste caso a criação de um "homem novo" dependeria da instauração de estruturas econômicas e socio-políticas diferentes. Há, certamente, estruturas iníquas e geradoras de iniquidades, e é preciso ter a coragem de mudá-las. Fruto da ação do homem, as estruturas boas ou más são consequências antes de serem causas. A raiz do mal se encontra pois nas pessoas livres e responsáveis, que devem ser convertidas pela graça de Jesus Cristo, para viverem e agirem como criaturas novas, no amor ao próximo, na busca eficaz da justiça, do auto-domínio e do exercício das virtudes.

O sentimento angustiante da urgência dos problemas não pode levar a perder de vista o essencial, nem fazer esquecer a resposta de Jesus ao Tentador (Mt 4, 4):  "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Dt 8, 3). Assim, sucede que alguns, diante da urgência de repartir o pão, são tentados a colocar entre parênteses e a adiar para amanhã a evangelização: primeiro o pão, a Palavra mais tarde. É um erro fatal separar as duas coisas, até chegar a opô-las. O senso cristão, aliás, espontaneamente sugere a muitos que façam uma e outra. A alguns parece até que a luta necessária para obter justiça e liberdade humanas, entendidas no sentido econômico e político, constitua o essencial e a totalidade da salvação. Para estes, o Evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre.

Aplicados à realidade econômica, social e política de hoje, certos esquemas de interpretação tomados de correntes do pensamento marxista podem apresentar, à primeira vista, alguma verosimilhança na medida em que a situação de alguns países oferece analogias com aquilo que Marx descreveu e interpretou, em meados do século passado. No entanto, lembremos que o ateísmo e a negação da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos, encontram-se no centro da concepção marxista. Esta contém de fato erros que ameaçam diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno das pessoas. O desconhecimento da natureza espiritual da pessoa, aliás, leva a subordiná-la totalmente à coletividade e deste modo a negar os princípios de uma vida social e política em conformidade com a dignidade humana.

As Teologias da Libertação fazem um amálgama pernicioso entre o pobre da Escritura e o proletariado de Marx. Perverte-se deste modo o sentido cristão do pobre e o combate pelos direitos dos pobres transforma-se em combate de classes na perspectiva ideológica da luta de classes. A Igreja dos pobres significa então Igreja classista, que tomou consciência das necessidades da luta revolucionária como etapa para a libertação e que celebra esta libertação na sua liturgia. A partir de semelhante concepção da Igreja, elabora-se uma crítica das próprias estruturas da Igreja. Não se trata apenas de uma correção fraterna dirigida aos pastores da Igreja, trata-se, sim, de pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja, tal como a quis o próprio Senhor. Teologicamente, esta posição equivale a afirmar que o povo é a fonte dos ministérios e portanto pode dotar-se de ministros à sua escolha, de acordo com as necessidades de sua missão revolucionária histórica. A doutrina social da Igreja é rejeitada com desdém. Esta procede, afirma-se, da ilusão de um possível compromisso, próprio das classes médias, destituídas de sentido histórico.

Para a Igreja, uma defesa eficaz da justiça deve apoiar-se na verdade do homem, criado à imagem de Deus e chamado à graça da filiação divina. O reconhecimento da verdadeira relação do homem com Deus constitui o fundamento da justiça, enquanto regula as relações entre os homens. Esta é a razão pela qual o combate pelos direitos do homem, que a Igreja não cessa de promover, constitui o autêntico combate pela justiça.

A verdade do homem exige que este combate seja conduzido por meios que estejam de acordo com a dignidade humana. Por isso o recurso sistemático e deliberado à violência cega, venha essa de um lado ou de outro, deve ser condenado. Pôr a confiança em meios violentos na esperança de instaurar uma maior justiça é ser vítima de uma ilusão fatal. Violência gera violência e degrada o homem. Rebaixa a dignidade do homem na pessoa das vítimas e avilta esta mesma dignidade naqueles que a praticam. É pois igualmente ilusão fatal crer que novas estruturas construídas de maneira violenta darão origem por si mesmas a um "homem novo". O cristão não pode desconhecer que o Espírito Santo que nos foi dado é a fonte de toda verdadeira novidade e que Deus é o senhor da história.

* partes do documento Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, publicado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em 6 de Agosto de 1984, na Festa da Transfiguração do Senhor, assinado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger e sebscrito por São João Paulo II, papa. 

29 de mai. de 2018

Adão, julgamento e a misericórdia de Deus

Todos nós conhecemos a história de Adão e Eva, mas é interessante ver alguns detalhes:

Gn 2, 9: Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conehcimento do bem e do mal.

Gn 2, 15-17: Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no meio do jardim de Éden para o cultivar e guardar. E Iahweh Deus deu ao homem este mandamento: "Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer".
Detalhe de "A Queda", pintura de Hugo van der Goes (após 1479).

Gn 3, 9-13: Iahweh Deus chamou o homem: "Onde estás?" disse ele: "Ouvi teu passo no jardim", respondeu o homem, "tive medo porque estou nu, e me escondi." Ele retomou: "E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer?" O homem respondeu: "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!". 

Do versículo 2,9 vemos claramente que havia duas árvores especiais que foram citadas em separado: (1) a árvore da vida e a (2) do conhecimento do bem e do mal. A árvore da vida representava a imortalidade, estar junto de Deus; repousar na sombra da árvore da vida é acreditar na vida eterna. A árvore do conhecimento do bem e do mal representa a faculdade de decidir por si mesmo o que é bom e o que é mal, reinvidicar para si mesmo a autoridade moral e negar que Deus, como Criador, está acima da pessoa humana, comer dos furtos desta árvore é um pecado de orgulho, que querer se comparar a Deus.

Dos versículos 2-17, Deus deixa claro que todas as árvores estão ao dispor de Adão, mas ele deveria evitar o pecado do orgulho, isto é, comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Os frutos da árvore da vida estão à disposição do homem, ele não é, de modo algum, proibida. Como um sinal da vida eterna, está sempre a disposição do homem, basta ir procurá-la. Já desde o início da Igreja, a Cruz de Cristo passa a ser considerada como uma nova árvore da vida, donde obtemos a vida eterna.

Os versículos  do capítulo 3 narram o diálogo de Deus com Adão. Perguntado se havia pecado, comido o fruto da árvore proibida, Adão prontamente responde:  "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!" Ou seja, para Adão há dois culpados: a mulher, que deu o fruto proibido, e Deus, que criou a mulher. Adão julga a Deus e a mulher para se fazer inocente. Como resuultado, Adão e Eva são expulsos do paraíso.  

Mas poderia Adão ter agido diferente? Claro que sim! Não digo não apenas comer o fruto, isto é seguir aos conselhos de Deus. Adão poderia ter respondido diferente, poderia ter admitido a sua culpa e implorado perdão. Não é preciso citar a Jesus Cristo perdoando a vários pecadores, basta olhar os dois próximos episódios no livro de Gênesis, para ver que Deus agiria diferente:

Gn 4, 9-15: Caim matou seu irmão Abel por ciúmes e Deus também inicia um diálogo com Caim perguntando-lhe: "Onde está o teu irmão Abel?" Ao perceber que Caim havia matado Abel, Deus lhe condena, mas Caim, ao contrário de Adão, admite seu erro: "Minha culpa é muito pesada para suportá-la" e teme que seja morto por vingança: "o primeiro que me encontrar me matará".  Deus então colocou um sinal sobre Caim, a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse, ou seja, os homens não deveriam fazer justiça contra Caim, mas aguardar a justiça de Deus. 

Gn 6, 5-8: A história do Dilúvio inicia com Deus reconhecendo que o homem havia se perdido, que a maldade dominava a terra. Deus é claro e estava decidido: "Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei". Mas vendo que havia um justo sobre a terra, apenas um homem justo, um homem que reconhecia estar abaixo de Deus, que não se deixava guair pelo mesmo orgulho de Adão, Deus muda de idéia, salva a Noé e sua família. 

Houvesse Adão dito algo como: "Sim, pequei! Fui preguiçoso, poderia ter estado ao lado de Eva, mas preferi descansar e isto deu a oportunidade que a serpente procurava", Deus poderia ter agido diferente, mas Adão preferiu não assumir a culpa, preferiu acusar a Eva e até mesmo Deus. Na verdade, Adão não confiou na misericórdia divina. 

Neste sentido, Jesus Cristo foi o perfeito contrário de Adão, não apenas não tinha culpa, como ainda justificou seus assassinos e pediu por eles quando já estava próximo a morrer na cruz: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem!" (Lucas 23, 34). A cruz de Cristo é dita ser a árvore da vida na qual podemos repousar nossos pecados e aflições. Pois é esta árvore da vida que Adão e Eva não procuraram, pois prefiriram a outra árvore que lhes era proibida.  

E esta é uma lição que pode ser de muito proveito para nós, pois todos pecamos e a todos Deus estende a sua misericórdia, não importa o pecado que tenhamos cometido. Admitir a própria culpa é admitir que não agiu conforme os mandamentos, ou seja, que Deus instituiu-os para nossa orientação, e ajuda, por que nos ama.

-- autoria própria


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