6 de mai. de 2020

Santa Melânia, a Jovem.

Melânia nasceu em Roma, filha de pais cristãos, no ano 383. Sua avó também chamava-se Melânia e é reconhecida como santa. Seus pais planejaram que Melania deveria se casar e herdar as propriedades da família.

Assim, aos 13 ou 14 anos, Melânia casou-se com outro jovem rico, Valério Piniano. Ela pediu que vivessem em castidade ou não a liberasse do compromisso do casamento combinado pelos pais. Valério respondeu que não concordava, mas prometeu que depois do segundo filho ambos poderiam passar as propriedades para os filhos e renunciar ao mundo.

Primeiro Melânia concebeu uma menina, mas o segundo parto foi extremamente difícil, dele nasceu um menino prematuro e com problemas de saúde que faleceu após ser batizado. A mãe também corria risco de vida e Valério pediu a Deus que a preservasse e que passariam o resto de suas vidas em castidade. Recuperada, Melânia parou de vestir-se conforme a moda, com roupas vistosas e jóias. Infelizmente sua filha caiu doente e faleceu alguns meses após.

Os pais de Valério e Melânia não aceitaram a decisão dos filhos e, de várias formas, tentaram que mudassem de idéia e tivessem herdeiros. Quando o pai de Melânia ficou gravemente doente, pediu perdão por tudo que havia dito e feito, concordou que o casal deveria seguir aquilo que Deus lhes inspirara e pediu que rezassem por ele.

Vida de peregrinos e caridade

Após o falecimento, Valério e Melânia deixaram a cidade de Roma e passaram a viver a serviço de Deus. Ajudavam os doentes, indigentes e peregrinos, visitavam os que haviam sido banidos da cidade e os condenados a trabalhos forçados. Venderam todos os bens na Itália e Espanha distribuindo o dinheiro para hospitais, monastérios, orfãos e viúvas em todo Império Romano. Muitas igrejas foram construídas graças ao seu auxílio.

Em certa ocasião estavam indo para Cártago, mas uma forte tempestade carregou o barco para uma ilha comandada por mercenários que exigiram o pagamento de um resgate para libertá-los. O casal pagou não apenas o valor para eles, mas também para toda tripulação do navio.

Ao chegarem na África destacaram-se por que estavam constatemente em oração ou lendo a palavra de Deus. Melânia começou a fazer cópias dos livros sagrados e distribui-los para locais que não os tinham.

Depois de sete anos em Cártago, foram em peregrinação para Jerusalém. Lá conviveram com São Jerônimo, distribuíram o restante dos seus bens e Melânia passou a viver em uma cela no Monte das Oliveiras. Depois disso raramente via seu marido. 

Vida monástica

Ela fundou um monastério que começou a atrair jovens, chegou a ter 90 moças dedicadas à oração. Por humildade, Melânia não aceitava ser chamada de abadessa e continuava a passar muitas horas em oração solitária. Sempre ensinava que era necessário muita oração para guardar a pureza da alma e do corpo, e a obedecer à vontade de Deus. Quando seu marido morreu, Melânia deu-lhe um funeral cristão e colocou algumas relíquias no altar do monastério, ao lado das relíquias de outros santos.

Neste tempo, decidiu que construiria um monastério para homens no Monte da Ascenção do Senhor. Sua intenção foi abençoada por Deus que lhe enviou um benfeitor que proveu o dinheiro para a construção. o que permitiu terminar as obras em apenas um ano.

Após isso decidiu ir a Constantinopla para converter seu tio Volusiano que estava na cidade como embaixador romano. Chegando lá encontrou-o muito doente, mas suas orações e discursos convenceram-no a abandonar os deuses romanos e ser batizado cristão. Na cidade havia muitos heréticos nestorianos, Melânia foi importante por que explicava para o povo onde estava o erro deles, trazendo-os de volta à Igreja.

Morte e culto

Cerca de um ano depois retornou ao monastério em Jerusalém. Vendo que sua saúde começava a faltar, chamou os padres e monjas, deu-lhes instruções para seguirem uma vida de oração e jejuns, e recebeu os sagrados sacramentos, falecendo no ano de 439.

Santa Melânia, chamada a Jovem, é mais popular na Igreja Ortodoxa, com sua vida sendo confundida com a de sua avó, Santa Melânia, a Velha. Alguns manuscritos que relatam sua vida foram descobertas nos séculos XIX e XX e publicados pelo Vaticano. 

Hoje ela é considerada uma das Mães do Deserto, um grupo de mulheres que nos primeiros séculos da igreja dedicaram-se a vida monástica, mas pouco de seus escritos sobreviveram ao tempo, ao contrário dos Padres do Deserto.


-- autoria própria


3 de mai. de 2020

Cristo, o bom pastor


Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, isto é, eu as amo, e minhas ovelhas me conhecem (Jo 10,14). É como se quisesse dizer francamente: elas correspondem ao amor daquele que as ama. Quem não ama a verdade, é porque ainda não conhece perfeitamente. 

Depois de terdes ouvido, irmãos caríssimos, qual é o perigo que corremos, considerai também, por estas palavras do Senhor, o perigo que vós também correis. Vede se sois suas ovelhas, vede se o conheceis, vede se conheceis a luz da verdade. Se o conheceis, quero dizer, não só pela fé, mas também pelo amor, se o conheceis não só pelo que credes, mas também pelas obras. O mesmo evangelista João, de quem são estas palavras, afirma ainda: Quem diz: “Eu conheço Deus”, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso (1Jo 2,4). 

Por isso, nesta passagem do evangelho, o Senhor acrescenta imediatamente: Assim como o Pai me conhece, eu também conheço o Pai e dou minha vida por minhas ovelhas (Jo 10,15). Como se dissesse explicitamente: a prova de que eu conheço o Pai e sou por ele conhecido, é que dou minha vida por minhas ovelhas; por outras palavras, este amor que me leva a morrer por minhas ovelhas, mostra o quanto eu amo o Pai. 

Continuando a falar de suas ovelhas, diz ainda: Minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna (Jo 10,27-28). É a respeito delas que fala um pouco acima: Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem (Jo 10,9). Entrará, efetivamente, abrindo-se à fé; sairá passando da fé à visão e à contemplação, e encontrará pastagem no banquete eterno. 

 Suas ovelhas encontram pastagem, pois todo aquele que o segue na simplicidade de coração é nutrido por pastagens sempre verdes. Quais são afinal as pastagens dessas ovelhas, senão as profundas alegrias de um paraíso sempre verdejante? Sim, o alimento dos eleitos é o rosto de Deus, sempre presente. Ao contemplá-lo sem cessar, a alma sacia-se eternamente com o alimento da vida. 

Procuremos, portanto, irmãos caríssimos, alcançar essas pastagens, onde nos alegraremos na companhia dos cidadãos do céu. Que a própria alegria dos bem-aventurados nos estimule. Corações ao alto, meus irmãos! Que a nossa fé se afervore nas verdades em que acreditamos; inflame-se o nosso desejo pelas coisas do céu. Amar assim já é pôr-se a caminho. 

Nenhuma contrariedade nos afaste da alegria desta solenidade interior. Se alguém, com efeito, pretende chegar a um determinado lugar, não há obstáculo algum no caminho que o faça desistir de chegar aonde deseja. 

Nenhuma prosperidade sedutora nos iluda. Insensato seria o viajante que, contemplando a beleza da paisagem, se esquece de continuar sua viagem até o fim.

-- Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa (século VI)

25 de abr. de 2020

O amor de Deus

"Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1 Jo 4, 16). Estas palavras da I Carta de João exprimem, com singular clareza, o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus e também a consequente imagem do homem e do seu caminho. Além disso, no mesmo versículo, João oferece-nos, por assim dizer, uma fórmula sintética da existência cristã: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem".
 
Nós cremos no amor de Deus — deste modo pode o cristão exprimir a opção fundamental da sua vida. Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. No seu Evangelho, João tinha expressado este acontecimento com as palavras seguintes: 

"Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho único para que todo o que n'Ele crer (...) tenha a vida eterna" (3, 16). 

Com a centralidade do amor, a fé cristã acolheu o núcleo da fé de Israel e, ao mesmo tempo, deu a este núcleo uma nova profundidade e amplitude. O crente israelita, de fato, reza todos os dias com as palavras do Livro do Deuteronómio, nas quais sabe que está contido o centro da sua existência: " Escuta, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças" (6, 4-5). 

Jesus uniu — fazendo deles um único preceito — o mandamento do amor a Deus com o do amor ao próximo, contido no Livro do Levítico: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo " (19, 18; cf. Mc 12, 29-31). Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um  mandamento, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro.

-- Papa Bento XVI, introdução da Encíclica Deus Caritas Est publicada em 25 de Dezembro de 2005.

18 de abr. de 2020

Imolação premeditada, Santa Gianna Molla

Gianna Beretta nasceu na cidade de Magenta, perto de Milão, em 4 de Outubro de 1922, a décima filha dos seus pais Alberto e Maria Beretta, que viriam a ter outros três filhos. A família morava próxima a Basílica de São Martinho, em Magenta, e nela Gianna foi batizada. Três dos seus irmãos se tornaram religiosos: Enrico, um missionário capuchinho que veio ao Brasil; Giuseppe, padre na diocese de Bérgamo; e Virginia, médica e religiosa canosiana.

Na sua infância, a família foi morar em Bérgamo (1925) e, depois, em Genova (1937). Foi nesta cidade que Gianna estudou na Escola Santa Dorotéia e participava dna paróquia de São Pedro, onde Dom Mario Righetti era o pároco. Em 1941, durante a II Guerra, a família decidiu sair de Bérgamo, que estava sendo bombardeada, para ir morar com o avô materno. No ano seguinte, Gianna começou a estudar medicina, primeiro em Milão, depois Pavia, onde formou-se em 30 de Novembro de 1949. Durante a sua adolescência e depois na faculdade, sempre participou ativamente da Ação Católica e do grupo das Damas de São Vicente, ia diariamente às missas, visitava o Santíssimo Sacramento e recitava o Rosário.

Gianna, médica

Gianna abriu seu consultório em Mesero e começou a atender pacientes enquanto especializava-se em Pediatria. Seu plano era vir para o Brasil onde estava seu irmão como missionário, onde poderia atender às mulheres pobres, porém devido a sua saúde frágil, foi aconselhada a permanecer na Itália.  Sobre sua profissão, Gianna escreveu:

"Todos trabalham para o benefício das pessoas, mas nós, doutores, trabalhamos diretamente nas pessoas. O grande mistério é que um homem é como Jesus: 'Aquele que visitar um doente, é a mim que ajuda'. Assim como o presbítero pode tocar Jesus, nós também tocamos Jesus no corpo de nossos pacientes, nós temos a oportunidade de fazer o bem de uma forma que os padres não podem. Nossa missão não termina quando os remédios já não tem efeito, devemos conduzir as almas a Deus; nossa palavra tem alguma autoridade. Médicos católicos são necessários!"

Gianna, esposa e mãe

Em Dezembro de 1954 conheceu Pietro Molla, um engenheiro, e casaram-se menos de uma ano depois, em 24 de Setembro de 1955, na mesma igreja onde fora batizada, a Basílica de São Martinho em Magenta. Permanecendo aberta à vida, logo tiveram três filhos: Pierluigi (1956), Mariolina (1957) e Laura (1959).

Em 1961 engravidou pela quarta vez, mas no segundo mês de gravidez desenvolveu um fibroma (tumor, em geral benigno) no útero. Os médicos deram três opções de tratamento:

- abortar a criança e fazer um tratamento, mas mantendo a possibilidade de outra gravidez;
- retirar o útero, o que também resultaria na morte da criança e esterilidade;
- retirar apenas o fibroma, preservando a vida da criança, mas arriscando a vida da mãe.

Gianna, que era médica e entendia perfeitamente os riscos de cada opção, foi clara na sua decisão, salvem a criança. Para os médicos e o marido, sua ordem foi clara: "Se houver necessidade de escolher entre eu e o bebê, não hesitem; escolhem, eu exijo, o bebê. Salvem minha filha!"

Na manhã de 21 de Abril de 1962, Sábado Santo, Molla foi conduzida ao hospital para uma cesariana, nasceu sua filha Gianna Emanuela. Santa Gianna continuou sofrendo com dores severas e uma septicemia, falecendo uma semana depois, em 28 de Abril. Sua filha, Gianna Emanuela sobreviveu e tornou-se médica geriátrica.

Comentando sobre a escolha de Santa Gianna, o Papa Paulo VI descreveu-a como sendo "uma jovem mãe da Diocese de Milão que, para dar a vida à sua filha sacrificava, com imolação premeditada, a própria". Desta maneira, com total conhecimento científico e suas dores, Santa Gianna seguiu o exemplo de Jesus Cristo e muitos outros santos, dando sua vida em favor da vida.

Milagres e canonização

Mesmo que seu plano de vir ao Brasil ajudar mulheres não tenha se concretizado, os dois milagres que conduziram a sua canonização foram exatamente ajudando mulheres doentes no Brasil. O primeiro salvou Lucia Sylvia Cirilo, que após o nascimento do quarto filho, teve uma infecção na área vaginal. Como morava em Grajaú, uma pequena cidade do Maranhão e a mesma cidade onde o irmão de Gianna havia sido missionário, a solução seria transferi-la para São Luís, mas quase certamente não haveria tempo para tanto. Uma irmã no hospital ao saber da situação,  começou a orar pedindo que Santa Gianna intercedesse. A ferida inflamada curou-se e cicatrizou quase imediatamente, salvando Lucia. O segundo milagre salvou o quarto bebê de Elisabete Comparini, de Franca/SP: a mãe, cujo útero rompeu-se no terceiro mês de gravidez, perdeu todo líquido amniótico Como a mãe recusava-se a abortar, os médicos mantiveram a gravidez e a criança nasceu saudável meses depois, um fato sem explicação científica. 

Santa Gianna Beretta Molla foi beatificada em 1994 e canonizada em 2004, ambas cerimônias presididas pelo Santo Papa João Paulo II, que também lhe concedeu o título de "Mãe de Família".

Por fim, duas frases de Santa Gianna:

"Nosso corpo é um cenáculo, um ostensório: deve resplandecer como um cristal para que o mundo possa ver a Deus".

"Amor e sacrifício estão intimamente ligados, como a o Sol e a luz. Não há amor sem sofrimento, não há sofrimento sem amor".


-- autoria própria


17 de abr. de 2020

A unção do Espírito Santo


Batizados em Cristo e revestidos de Cristo, vós vos tomastes semelhantes ao Filho de Deus. Com efeito, Deus que nos predestinou para a adoção de filhos tornou-nos semelhantes ao corpo glorioso de Cristo. Feitos, portanto, participantes do corpo de Cristo, com toda razão sois chamados "cristãos", isto é, ungidos; pois foi de vós que Deus disse: Não toqueis nos meus ungidos (Sl 104,15).

        Tomastes-vos "cristãos" no momento em que recebestes o selo do Espírito Santo; e tudo isto foi realizado sobre vós em imagem, uma vez que sois imagem de Cristo. Na verdade, quando ele foi batizado no rio Jordão e saiu das águas, nas quais deixara a fragrância de sua divindade, realizou-se então a descida do Espírito Santo em pessoa, repousando sobre ele como o igual sobre o igual.


        O mesmo aconteceu convosco: depois que subistes da fonte sagrada, o óleo do crisma vos foi administrado, imagem real daquele com o qual Cristo foi ungido, e que é, sem dúvida, o Espírito Santo. Isaías, contemplando profeticamente este Espírito, disse em nome do Senhor: O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o Senhor me ungiu; enviou-me para dar a boa-nova aos humildes (Is 61,1).


        Cristo jamais foi ungido por homem, seja com óleo ou com outro unguento material. Mas o Pai, ao predestiná-lo como Salvador do mundo inteiro, o ungiu com o Espírito Santo. É o que nos diz Pedro: Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo (At 10,38). E o profeta Davi cantava: Vosso trono, ó Deus, é eterno, sem fim; vosso cetro real é sinal de justiça: vós amais a justiça e odiais a maldade. É por isso que Deus vos ungiu com seu óleo, deu-vos mais alegria que aos vossos amigos (Sl 44,7-8).


        Cristo foi ungido com o óleo espiritual da alegria, isto é, com o Espírito Santo, chamado óleo de alegria, precisamente por ser o autor da alegria espiritual. Vós, porém, fostes ungidos com o óleo do crisma, tornando-vos participantes da natureza de Cristo e chamados a conviver com ele.


        Quanto ao mais, não julgueis que este crisma é um óleo simples e comum. Depois da invocação já não é um óleo simples e comum, mas um dom de Cristo e do Espírito Santo, tornando-se eficaz pela presença da divindade. Simbolicamente unge-se com ele a fronte e os outros membros. E enquanto o corpo é ungido com óleo visível, o homem é santificado pelo espírito que dá a vida.

-- Das Catequeses de Jerusálem, século IV

12 de abr. de 2020

Homília da Vigília Pascal, Papa Francisco

"Terminado o sábado" (Mt 28, 1), as mulheres foram ao sepulcro. O Evangelho desta santa Vigília começa assim: com o sábado. Este é o dia do Tríduo Pascal que mais descuramos, ansiosos de passar da cruz de sexta-feira à aleluia de domingo. Este ano, porém, damo-nos conta, mais do que nunca, do sábado santo, o dia do grande silêncio; podemos rever-nos nos sentimentos que tinham as mulheres naquele dia. Como nós, tinham nos olhos o drama do sofrimento, duma tragédia inesperada, que se verificou demasiado rapidamente. Viram a morte e tinham a morte no coração. À amargura, juntou-se o medo: acabariam, também elas, como o Mestre? E depois os receios pelo futuro, carecido todo ele de ser reconstruído. A memória ferida, a esperança sufocada. Para elas, era a hora mais escura, como o é hoje para nós.

Contudo, nesta situação, as mulheres não se deixam paralisar. Não cedem às forças obscuras da lamentação e da lamúria, não se fecham no pessimismo, nem fogem da realidade. Realizam algo simples e extraordinário: nas suas casas, preparam os perfumes para o corpo de Jesus. Não renunciam ao amor: na escuridão do coração, acendem a misericórdia. Nossa Senhora, no sábado – dia que Lhe será dedicado –, reza e espera. No desafio da tristeza, confia no Senhor. Sem o saber, estas mulheres preparavam na escuridão daquele sábado "o romper do primeiro dia da semana" (Mt 28, 1), o dia que havia de mudar a história. Jesus, como semente na terra, estava para fazer germinar no mundo uma vida nova; e as mulheres, com a oração e o amor, ajudavam a esperança a desabrochar. Quantas pessoas, nos dias tristes que vivemos, fizeram e fazem como aquelas mulheres, disseminando rebentos de esperança com pequenos gestos de solicitude, de carinho, de oração!

Ao amanhecer, as mulheres vão ao sepulcro. Lá diz-lhes o anjo: "Não tenhais medo. Não está aqui; ressuscitou" (cf. Mt 28, 5-6). Diante dum túmulo, ouvem palavras de vida... E depois encontram Jesus, o autor da esperança, que confirma o anúncio dizendo-lhes: "Não temais" (28, 10). Não tenhais medo, não temais: eis o anúncio de esperança para nós, hoje. Tais são as palavras que Deus nos repete hoje, na noite que estamos a atravessar.

Nesta noite, conquistamos um direito fundamental, que não nos será tirado: o direito à esperança. É uma esperança nova, viva, que vem de Deus. Não é mero otimismo, não é uma palmadinha nas costas nem um encorajamento de circunstância, com o aflorar dum sorriso. Não. É um dom do Céu, que não podíamos obter por nós mesmos. Tudo correrá bem: repetimos com tenacidade nestas semanas, agarrando-nos à beleza da nossa humanidade e fazendo subir do coração palavras de encorajamento. Mas, à medida que os dias passam e os medos crescem, até a esperança mais audaz pode desvanecer. A esperança de Jesus é diferente. Coloca no coração a certeza de que Deus sabe transformar tudo em bem, pois até do túmulo faz sair a vida.

O túmulo é o lugar donde, quem entra, não sai. Mas Jesus saiu para nós, ressuscitou para nós, para trazer vida onde havia morte, para começar uma história nova no ponto onde fora colocada uma pedra em cima. Ele, que derrubou a pedra da entrada do túmulo, pode remover as rochas que fecham o coração. Por isso, não cedamos à resignação, não coloquemos uma pedra sobre a esperança. Podemos e devemos esperar, porque Deus é fiel. Não nos deixou sozinhos, visitou-nos: veio a cada uma das nossas situações, no sofrimento, na angústia, na morte. A sua luz iluminou a obscuridade do sepulcro: hoje quer alcançar os cantos mais escuros da vida. Minha irmã, meu irmão, ainda que no coração tenhas sepultado a esperança, não desistas! Deus é maior. A escuridão e a morte não têm a última palavra. Coragem! Com Deus, nada está perdido.

Coragem: é uma palavra que, nos Evangelhos, sai sempre da boca de Jesus. Só uma vez é pronunciada por outros, quando dizem a um mendigo: "Coragem, levanta-te que [Jesus] chama-te" (Mc 10, 49). É Ele, o Ressuscitado, que nos levanta a nós, mendigos. Se te sentes fraco e frágil no caminho, se cais, não tenhas medo; Deus estende-te a mão dizendo: "Coragem!" Entretanto poderias exclamar como padre Abbondio: "A coragem, não no-la podemos dar" (I promessi sposi, XXV). Não a podes dar a ti mesmo, mas podes recebê-la, como um presente. Basta abrir o coração na oração, basta levantar um pouco aquela pedra colocada à boca do coração, para deixar entrar a luz de Jesus. Basta convidá-Lo: "Vinde, Jesus, aos meus medos e dizei também a mim: “coragem!”"Convosco, Senhor, seremos provados; mas não turvados. E, seja qual for a tristeza que habite em nós, sentiremos o dever de esperar, porque convosco a cruz desagua na ressurreição, porque Vós estais conosco na escuridão das nossas noites: sois certeza nas nossas incertezas, Palavra nos nossos silêncios e nada poderá jamais roubar-nos o amor que nutris por nós".

Eis o anúncio pascal, anúncio de esperança. Este contém uma segunda parte, o envio. "Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia" (Mt 28,10): diz Jesus. Ele "vai à vossa frente para a Galileia" (28, 7): diz o anjo. O Senhor precede-nos, precede-nos sempre. É bom saber que caminha diante de nós, que visitou a nossa vida e a nossa morte para nos preceder na Galileia, isto é, no lugar que, para Ele e para os seus discípulos, lembrava a vida diária, a família, o trabalho. Jesus deseja que levemos a esperança lá, à vida de cada dia. Mas, para os discípulos, a Galileia era também o lugar das recordações, sobretudo da primeira chamada. Voltar à Galileia é lembrar-se de ter sido amado e chamado por Deus. Cada um de nós tem a sua própria Galileia. Precisamos de retomar o caminho, lembrando-nos de que nascemos e renascemos a partir duma chamada gratuita de amor, lá, na minha Galileia. Este é o ponto donde recomeçar sempre, sobretudo nas crises, nos tempos de provação: na recordação da minha Galileia.

Mais ainda. A Galileia era a região mais distante de Jerusalém, onde estavam. E não só geograficamente: a Galileia era o lugar mais distante do caráter sacro da Cidade Santa. Era uma região habitada por povos diferentes, que praticavam vários cultos: era a Galileia dos gentios (Mt 4, 15). Jesus envia para lá, pede para recomeçar de lá. Que nos diz isto? Que o anúncio da esperança não deve ficar confinado nos nossos recintos sagrados, mas ser levado a todos. Porque todos têm necessidade de ser encorajados e, se não o fizermos nós que tocamos com a mão o Verbo da vida (1 Jo 1, 1), quem o fará? Como é belo ser cristãos que consolam, que carregam os fardos dos outros, que encorajam: anunciadores de vida em tempo de morte! A cada Galileia, a cada região desta humanidade a que pertencemos e que nos pertence, porque todos somos irmãos e irmãs, levemos o cântico da vida! Façamos calar os gritos de morte: de guerras, basta! Pare a produção e o comércio das armas, porque é de pão que precisamos, não de metralhadoras. Cessem os abortos, que matam a vida inocente. Abram-se os corações daqueles que têm, para encher as mãos vazias de quem não dispõe do necessário.

No fim, as mulheres estreitaram os pés de Jesus (Mt 28, 9), aqueles pés que, para nos encontrar, haviam percorrido um longo caminho até entrar e sair do túmulo. Abraçaram os pés que espezinharam a morte e abriram o caminho da esperança. Hoje nós, peregrinos em busca de esperança, estreitamo-nos a Vós, Jesus ressuscitado. Voltamos as costas à morte e abrimos os corações para Vós, que sois a Vida.

-- Papa Francisco, homília da Vigília Pascal, 11 de Abril de 2020

11 de abr. de 2020

As duas noites da Páscoa


Hoje gostaria de falar sobre duas noites na qual Deus se faz presente.

A primeira noite, a noite do medo, é esta Quaresma, marcada pelo coronavírus. As ruas estão vazias, o comércio está fechado, as igrejas estão fechadas, não há confissões, não há missas, todos estão trancados em casa, com medo. A vida normal, como conhecemos, não está acontecendo.

O número mais comentado é o total de mortes. Já pensaste por quê? O mundo tem medo da morte, o mundo que tirou Cristo de suas vidas, tem medo de morrer, caiu na mentira do demônio que faz com que não acreditemos na palavra de Deus.

Por que o mundo está quase parado, não é possível sair para beber, para procurar drogas, para ficar rico, para assistir ao futebol. O mundo está afastado dos seus vícios habituais, os vícios que utiliza para fugir da realidade que a cada dia estamos mais perto da morte. Agora é visível que a morte nos ronda, nos amedronta, por que é algo incerto, incerto se não acreditarmos na palavra de Deus.

Pense nos judeus saindo do Egito, sendo perseguidos pelo exército do faraó, as margens do Mar Vermelho. De um lado, a morte por afogamento, de outro lado a morte pela espada chegando. Estavam encurralados. Mas Deus agiu, abriu o mar, deu um caminho de salvação para aquele povo, que é o mesmo caminho de salvação para nós, é acreditar na palavra de Deus.

Os judeus salvaram-se, viram os soldados afogados, seus corpos foram dar às praias. Ainda hoje, na noite de Páscoa, lembram que saíram do Egito, que Deus matou os primogênitos, que abriu o mar. Este é o poder de Deus Salvador que pode transformar tudo, pode transformar uma noite de morte, uma noite de medo, em uma noite de salvação, simplesmente pelo poder de sua palavra.

Oh! noite que me guiaste,
Oh! noite mais amável que a alvorada
Oh! noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!


– Verso do poema A Noite Escura de São João da Cruz

A segunda noite é a noite de Páscoa, a noite sobre todas as noites, a noite em que Cristo Ressuscitado vence a morte. Ó noite maravilhosa, noite que ilumina nossa vida, a noite em que Palavra de Deus pode se realizar na nossa vida, a noite em que a Palavra de Deus pode te trazer a salvação.

Deus nos guiou até este momento, não morremos até hoje por que Deus quer que vivamos esta Páscoa em casa, para nossa conversão, para aprendermos a celebrar nas casas. Deus realizou maravilhas na tua vida, primeiro de tudo, Ele te deu a vida, pense de quantos acidentes ou quase-acidentes Ele te livrou, de algumas doenças Ele já te livrou, e, acima de tudo, de todos os teus pecados Ele te perdoou.

Nesta noite Jesus Cristo, o Amado de Deus, ressuscita dos mortos, vence a morte para o benefício de todos nós. A Igreja, Amada de Deus, celebra que o demônio está vencido, que a morte está vencida, que não precisamos temer a morte. A morte está derrotada, nossa vida não termina na morte, acreditamos em Cristo Jesus Ressuscitado, acreditamos que também nós ressuscitaremos quando for nosso tempo.

A Igreja, nesta noite de Páscoa, é transformada. Se estívessemos celebrando nas igrejas, veríamos as trevas transformando-se em luz, pois a Vigília Pascal inicia no escuro, mas vai se iluminando na medida em que Cristo entra na Igreja, com o presbítero carregando o Círio Pascal. Com as luzes acesas cantamos o Glória, Glória a Deus nos altos dos céus, Glória a Jesus Cristo Ressuscitado!

Nesta noite Deus mostra todo amor que tem por nós, por cada um nós. Cristo nos ama, e ama muitíssimo. Um anjo anunciou às mulheres que Cristo havia Ressuscitado, hoje vamos receber este mesmo anúncio assistindo à missas em casa, apenas com nossa família, não na igreja, com a comunidade, mas isto não tira seu poder. Que este anúncio de Deus possa transformar a tua vida, que possas acreditar, em teu coração, nesta Palavra de Deus.

Cristo Ressuscitou, Cristo venceu a morte, Aleluia, Aleluia!


-- autoria própria

6 de abr. de 2020

A avareza espiritual

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá,; andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado. 

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras da visa espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Se ocupam mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito, como deveriam. 

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já dequela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos. 

 Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego ao  e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais. 

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez, significadas nestas coisas espirituais; o resto é apego e propriedade de imperfeição, que é necessário cortar, a fim de atingir algo da perfeição.

-- São João da Cruz, no livro A Noite Escura da Alma.  (século XVI)

14 de mar. de 2020

Sobre a obrigação de ir à Missa em tempos de pandemia

A obrigação de ir à Missa dominical e dias santos é afirmada no Código Canônico (1246-1248) e enfatizada no Catecismo (2180-2183). Ninguém duvida desta obrigação. A Igreja, no entanto, não pode obrigar, nem tenta forçar, ninguém a ir à Missa, digamos que não há uma polícia da religião ou algo assim, mas sempre enfatiza a importância da missa semanal.

Em caso de faltar esta obrigação, a questão fundamental não é quantas missas a pessoa deixou de ir, mas por que não foi a Missa? Como veremos, há motivos razoáveis para não ir a Missa: impossibilidade, dispensa e justificação.

Se não for a Missa, o católico é convidado a realizar algum exercício espiritual, como rezar a Liturgia das Horas, assistir a Missa na televisão, se manter em oração por uma hora (tempo de duração de uma Missa) ou algo que lhe seja possível. É claro que nada disso corresponde ao sacrifício pascal de uma Missa, mas são boas alternativas espirituais.

Impossibilidade

Desde dos tempos mais antigos é reconhecido que ninguém é obrigado a realizar o impossível. Se as missas são canceladas em um local e não há maneira razoável de ir a outro, pode ser impossível encontrar uma missa para assitir. No caso, quando um país inteiro não realiza missas, não há alternativas razoáveis, talvez apenas para quem mora nas cidades da fronteira.

Dispensa

A obrigação de rezar a Deus nos domingos é um dos mandamentos já presentes no Antigo Testamento, mas a obrigação específica de ir a Missa é uma questão da lei eclesiástica e pode ser dispensada pelo Bispo diocesano ou párocos após considerarem gravemente as circunstâncias locais e a saúde espiritual de seu rebanho. É óbvio que as decisões de um bispo ou pároco alcançam apenas aqueles que estão sob sua administração. Se um bispo da Itália dispensa seus fiéis de ir a Missa, isto não se aplica ao Brasil.

Justificação

A justificação individual é o motivo mais comum para não ir a Missa, especialmente por que estar doente é uma justificativa válida. Duas observações são importantes:

Primeiro, não devemos julgar.  Se uma pessoa diz que não foi a Missa por que está com dor de cabeça, isto pode não parecer suficiente para um, mas não há como saber com certeza quão debilitante é para aquela pessoa. Lembre-se, no final todos teremos que nos justificar perante Deus, não para os irmãos. 

Segundo, cada doença possui diferentes riscos para o doente e aqueles que estiverem a sua volta. Algumas doenças não colocam outros em risco, como o câncer; outras são mais contagiosas, como sarampo e gripe. É justo que alguém deixe de ir a Missa para não colocar a saúde de outros em risco, por justiça em relação aos seus irmãos e irmãs. 

Este segundo ponto pode se estender a pessoas que mesmo não estando doentes, considerem o risco de estarem transmitindo uma doença por ter contato com alguém doente. No caso do coronavírus, a ciência está indicando que este risco é importante e não deve desprezado. 

Estar com medo de contrair uma doença não parece ser uma justificativa razoável, afinal todos estamos expostos a este risco diariamente. Mas cada pessoa deve exercer seu julgamento individual, considerar os riscos para si, seus familiares e, em caso de dúvida, rezar para que Deus ilumine sua decisão. De novo, a ninguém cabe julgar o irmão, apenas a Deus. 

-- autoria própria, baseado no texto publicado pelo Dr. Edward Peters

1 de mar. de 2020

Shahbaz Bhatti, Servo de Deus, político paquistanês


Shahbaz Bhatti nasceu no Paquistão em 1968, era filho de uma família católica em um país onde menos de 2% da população é cristã, e devido a sua vida, são discriminados, deixados na pobreza e sem educação! Ele contava que em uma Sexta-Feira Santa, quando tinha 13 anos, ouviu uma homília sobre o sacrifício de Jesus na Cruz e decidiu, naquele dia, que dedicaria sua vida defendendo os cristãos e outras minorias no país.


Mantendo sua palavra, quando estava na universidade, Bhatti organizou um grupo de estudantes cristãos para resistir aos ataques da maioria de muçulmanos radicias. Em 2008 foi nomeado Ministro para Assuntos das Minorias, o primeiro ministro cristão na história do país! Mesmo sabendo que sua luta pelas minorias tornava-o um alvo, manteve-se lutando por justiça, especialmente contra as leis contra blasfêmia do governo islâmico. Nunca casou, morava com sua mãe e dedicava-se a causa da ingualdade. Na manhã de 2 de Março de 2011, quando saiu de casa, foi assassino. Tinha apenas 42 anos! No seu diário, havia escrito antes de sair: Eu creio em Jesus Cristo que deu sua vida por nós e estou pronto a morrer por sua caus. Eu vivo por minha comunidade e vou morrer defendendo seus direitos”. O Papa Francisco declarou Bhatti como sendo um Servo de Deus.


-- tradução do texto escrito pelo Pe Pat Angelucci, que foi publicado no boletim da Paróquia Bom Bosco, Port Chester/NY, Março/2020.

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