23 de mar. de 2019

Santa Cunegundes, imperatriz e irmã de clausura

Santa Cunegundes nasceu em 975, era uma dos onze filhos de Siefried I de Luxemburgo e Edviges de Nordgau e descendente direta do Imperador Carlos Magno. Ela desejava tornar-se uma irmã de clausura desde jovem, mas por motivos políticos, seus pais arranjaram um casamento com o Príncipe Henrique, que viria se ser imperador do Santo Império Romano e canonizado pela Igreja. Em comum acordo, decidiram preservar a castidade, mesmo dentro do casamento e, por óbvio, não tiveram filhos.

São Henrique e Santa Cunegundes.
O marido foi coroado Imperador em 9 de Julho de 1002 e ela, imperatriz, em 10 de Agosto, ambos na cidade de Mainz, atual Alemenha. Como era tradição, depois foram coroados imperador e imperatriz pelo Papa, dentro da Basílica de São Pedro pelo Papa Bento VIII. Segundo relatos, era muito ativa politicamente, atuando como principal conselheira do marido e tomando parte dos Conselhos Imperiais. 

Durante o reinado, ela caiu gravemente doente e prometeu que caso fosse curado, doaria as terras e construiria um monastério para irmãs de clausura em Kassel, promessa que cumpriu prontamente após restaurar sua saúde. 

Diz-se que certa noite adormeceu, deixando uma vela acesa sobre sua cama, que em certo momento pegou fogo. Ao acordar, fez um Sinal da Cruz e o fogo imediatamente apagou. Em outro episódio, este bem mais público, seus inimigos políticos começaram a espalhar mentiras sobre sua fidelidade ao marido, dizendo que quebrara o voto de castidade com outros homens. Inspirada por Deus, mandou organizar como uma passarela de brasas ardentes e andou sobre elas, sem sofrer queimaduras, o que foi entendido como sinal de pureza. 

Em 1024 seu marido faleceu e ela assumiu o posto de regente do Império. Por não ter filhos, organizou um Conselho Imperial que elegeu o futuro rei, Conrado, que era príncipe de Worms e Speyer. 

Como viúva, Cunegundes rapidamente desfez-se dos bens materiais, doando o dinheiro para os pobres e a Igreja. Em 1025, no exato dia em que completou um ano da morte do marido, ela se retirou para a Abadia de Kaufungen, para tornar-se um irmã beneditina. Neste dia doou seu último bem material, uma relíquia da Santa Cruz, desfez-se de suas vestes imperiais e assumiu o hábito de irmã. 

No mesmo convento estava sua sobrinha Judite, que preferia passar o tempo em fofocas com outras irmãs em vez de orar, jejuar e ajudar nos trabalhso do convento. Após tentar corrigi-la muitas vezes, teria perdido a paciência e dado um tapa no rosto da sobrinha, mas a marca permaneceu no rosto por toda a vida, como uma lembrança dos votosde castidade e obediência que todas haviam feito.

Viveu por quinze anos dedicando à oração e aos trabalhos de caridade do convento até falecer em 3 de Março de 1040.  A santa foi canonizada pelo papa Inocêncio III em 29 de março de 1200 e é a patronessa de três países: Luxemburgo, Lituânia e Polônia. 
  

20 de fev. de 2019

A Sabedoria de Deus misturou o vinho e pôs a mesa para nós

A Sabedoria construiu para si uma casa (Sb 9,1a). O poder por si subsistente de nosso Deus e Pai preparou para si próprio uma casa: o universo onde ele habita por sua virtude. No universo colocou também o homem que ele criou à sua imagem e semelhança, composto de natureza visível e invisível.

Ergueu, então, sete colunas (Sb 9,1b). O Espírito Santo deu os seus sete dons ao homem depois de criado e conformado a Cristo, para que cresse em Cristo e observasse seus mandamentos. Por estes dons, o homem espiritual chega à perfeição e se fortalece, pelo enraizamento na fé, na participação da vida sobrenatural. Sua fortaleza é dinamizada pela ciência, enquanto que sua ciência se manifesta pela fortaleza.

Assim, a natural nobreza do espírito humano é elevada pelo dom da fortaleza, e predisposta a procurar com fervor e a desejar inteiramente as vontades divinas, pelas quais tudo foi criado. Pelo dom do conselho, torna-se capaz de distinguir, entre o que é falso e as santíssimas vontades de Deus, incriadas e imortais. Deste modo tornamo-nos capazes de as meditar, ensinar e cumprir. Pelo dom da prudência, enfim, somos levados a aprovar e aceitar estas mesmas vontades e não outras. Estas três virtudes exaltam o natural esplendor do espírito.

Misturou em sua taça o vinho e preparou a mesa (Sb 9,2). Neste homem, em quem, como em uma taça, mesclam-se a natureza espiritual e a corpórea, Deus uniu à ciência das coisas o conhecimento dele próprio como o criador de tudo. Este dom da inteligência, tal qual o vinho, faz o homem embriagar-se de tudo quanto se refere a Deus. Sendo assim, graças a ele, que é o pão celeste, nutrindo as almas pela virtude e inebriando e deleitando pela doutrina, a Sabedoria dispõe tudo como as iguarias do celeste banquete para os que dele desejam participar.

Enviou os seus servos, chamando-os em alta voz à sua mesa, dizendo (Sb 9,3). Enviou os apóstolos, a serviço de sua divina vontade na proclamação do Evangelho, que provindo do Espírito está acima de toda a lei, quer escrita, quer natural, a fim de chamar todos a si. Nele próprio, como numa taça, mediante o mistério da encarnação, fez-se a mistura admirável das naturezas divina e humana, de maneira pessoal, isto é hipostática, sem confusão. Enfim, pelos apóstolos ele proclama: Quem é insensato, venha a mim. Quem é insensato, porque julga em seu coração que Deus não existe, abandone a impiedade, venha a mim pela fé, e saiba que sou eu o criador de tudo e Senhor.

Aos carentes de sabedoria ele diz: Vinde, comei comigo o meu pão e bebei o vinho que misturei para vós (Sb 9,5). Tanto àqueles que não têm obras da fé quanto aos mais perfeitos em sua doutrina ele chama: “Vinde, comei o meu corpo que à semelhança do pão dos fortes vos nutre; e bebei o meu sangue, que como vinho de doutrina celeste vos deleita e conduz à deificação; pois de modo admirável misturei o sangue à divindade para vossa salvação”.

-- Do Comentário sobre o Livro dos Provérbios, de Procópio de Gaza, bispo (século VI)

9 de fev. de 2019

Beata Alexandrina de Balazar

Alexandrina Maria da Costa, também conhecida como Beata Alexandrina de Balazar, foi uma mística portuguesa, que nasceu em 30 de Março de 1904 e morreu em 13 de Outubro de 1955, tendo passado quase toda vida na sua cidadezinha natal de Póvoa do Varzim, num povoado chamado Calvário. 

O pai abandonou a família, sendo criada apenas pela mãe, pode estudar apenas por dezoito meses, já com nove anos trabalhava nas fazendas. Quando tinha 12 anos, estava ajudando a fazer um tapete de flores para a Procissão do Santíssimo, enquanto colhia flores, teve sua primeira experiência mística ao começar a sangrar na cabeça; segundo ela, Jesus lhe colocou uma coroa de espinhos e passou a chamá-la Alexandrina das Dores.

Paralisia
Aos 14 anos, no Sábado Santo de 1918, estava com a irmã e outra menina em casa, trabalhando com costura, quando quatro homens forçaram a porta de entrada. Para escapar do ataque, Alexandrina pulou de uma janela com mais de quatro metros de altura, quebrando uma ou mais vértebras. Até os 19 anos ainda conseguia se arrastar até a Igreja, onde permanecia em oração quase todo dia.

Segundo Alexandrina, até 1928, dez anos após o ataque, ainda pedia a graça da cura, prometendo que sairia como missionária pelo mundo, até que compreendeu que sua salvação seria pelo sofrimento. Disse que "Nossa Senhora concedeu-me uma graça ainda maior. Depois da resignação deu-me a conformidade completa à vontade de Deus e, por fim, o desejo de sofrer”, e também que  "Jesus, tu és prisioneiro no Tabernáculo. E eu por tua vontade prisioneira na minha cama. Far-nos-emos companhia”.

Paixão de Cristo
De sexta-feira, 3 de Outubro de 1938 a 24 de Março de 1942, ou seja por 182 vezes, viveu, em todas as sextas-feiras, os sofrimentos da Paixão: Alexandrina, superando o estado habitual de paralisia, descia da cama e com movimentos e gestos, acompanhados de angustiantes dores, repetia, por três horas e meia, os diversos momentos da Via Crucis. Depois disso, a partir de 27 de Março de 1942, Alexandrina deixou de se alimentar, vivendo exclusivamente da Eucaristia por 13 anos, até sua morte.

Em 1936, Jesus falou-lhe que deveria escrever ao Papa para que ele consagrasse o mundo ao Coração Imaculado de Maria, este pedido foi renovado várias vezes, até que em 31 de Outubro de 1942 o Papa Pio XII celebrou esta consagração em língua portuguesa, e renovou-a, no Vaticano,  em 8 de Dezembro, na Festa da Imaculada Conceição. 

Neste ponto da vida, a sua fama de santidade já era conhecida e muitas pessoas vindas de longe visitavam-na, pediam conselhos e orações. De sua cama, pedia que as pessoas organizassem novenas, jejuns e rezassem intensamente. tournou-se também uma colboradora salesiana.

Falecimento e beatificação
No início de 1955 foi-lhe revelado que deveria preparar-se, pois morreria ainda naquele ano. Em 12 de Outubro pediu a Unção dos Enfermos, no dia seguinte rezou o rosário em honra à Nossa Senhora de Fátima e faleceu tranquilamente, após declarar: “Sou feliz porque vou para o céu”.

Sobre seu túmulo, que está numa capela na igreja de Balazar, pediu para escrever:

“Pecadores, se as cinzas do meu corpo puderem ser úteis para a vossa salvação, aproximai-vos: passai todos por cima delas, pisai-as até desaparecerem, mas não pequeis mais! Não ofendais mais o nosso Jesus! Pecadores, queria dizer-vos tantas coisas. Não bastaria este grande cemitério para escrevê-las todas! Convertei-vos! Não queirais perder a Jesus por toda a eternidade! Ele é tão bom!... Amai-O! Amai-O! Basta de pecar!”

Alexandrina foi beatificada em 25 de Abril de 2004 pelo Papa João Paulo II, que assim falou sobre ela:

" "Tu me amas?", pergunta Jesus a Simão Pedro. Ele responde: "Tu sabes tudo, Senhor, bem sabes que te amo." A vida da Beata Alexandrina Maria da Costa pode resumir-se neste diálogo de amor. Investida e abrasada por estas ânsias de amor, não quer negar nada ao seu Salvador: de vontade forte, tudo aceita para mostrar que o ama. Esposa de sangue, revive misticamente a paixão de Cristo e oferece-se como vítima pelos pecadores, recebendo a força da Eucaristia que se torna o único alimento dos seus últimos treze anos de vida. Pela esteira da Beata Alexandrina, expressa na trilogia sofrer, amar, reparar, os cristãos podem encontrar estímulo e motivação para nobilitar tudo o que a vida tenha de doloroso e triste com a prova maior de amor: sacrificar a vida por quem se ama. (…) O amor a Cristo é o segredo da santidade!" 

Por obediência aos seus diretores espirituais, escreveu vários diários e relatos de experiências místicas que estão publicados.  

-- autoria própria.



21 de jan. de 2019

Políticos pró-aborto são automaticamente excomungados? Provavelmente não!

Estaria todo político pró-aborto automaticamente excomungado da Igreja Católica, em virtude de seu apoio e ações práticas favoráveis a uma prática explicitamente contrária à vida humana? 

Vou dar duas respostas, uma curta, outra longa, mas para ambas é fundamental lembrar da parábola do Filho Pródigo (Lc 11, 15-32), que saiu a gastar a fortuna do pai em festas, bebedeiras e mulheres. Quando se arrependeu e retornou a casa do pai (a Igreja), foi acolhido de braços abertos pelo Pai que correu ao seu encontro. A Igreja está sempre de braços abertos àqueles que se arrependem, pois ela busca a salvação de almas, não formar uma sociedade de homens perfeitos, o que seria impossível, pois somos todos pecadores.

Resposta curta
O aborto é citado uma única vez no Código de Direito Canônico (CDC) e em pouquíssimas palavras:

Cân. 1398 — Quem procurar o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.

A expressão latina "latae sententiae" indica que a pena de excomunhão pode ser aplicada sem haver um julgamento, como testemunhas e advogados de defesa ou acusação, a pena seria automática. Mas veja que ela aplica-se apenas a quem participar ativamente de um aborto, ou seja, a mãe, o pai, médicos e enfermeiras, pois eles tem a clara intenção de provocar um aborto. O caso da equipe médica é bastante claro no cânone 1329, parágrafo 2, que afirma que a pena de excomunhão pode ser estendida aos cúmplices de um delito, se este não ocorresse sem a sua participação. neste caso, pode ser incluído também os pais que derem dinheiro para a filha cometer o aborto.

Porém, é possível argumentar que um político ao defender o aborto, ou até mesmo votar em uma lei pró-aborto, não está participando diretamente de nenhum aborto, cada mãe é que está tomando livremente a decisão. Em favor de tais políticos, o canon 18 é bastante claro para dizer que "são de interpretação estrita as leis que estabelecem alguma pena". Por esta razão, advogados canônicos afirmam que a excomunhão automática não se aplica a políticos pró-aborto (ver 1 e 2).

A resposta longa explora outras alternativas e quais penas podem ser aplicadas, por que é óbvio que tais políticos não estão em comunhão plena com os ensinamentos da Igreja.

Resposta longa

Há outras ações em que a pena de excomunhão pode ser aplicada. Por exemplo, o cânon 1364 indica que apostasia, heresia e cisma implicam em excomunhão latae sententiae, e que isto poderia ser aplicado a políticos pró-aborto. Apostasia ocorre quando uma pessoa repudia a fé cristã; heresia é a negação insistente de uma verdade fundamental da fé Católica, inspirada de maneira divina; e cisma é a negação em se submeter à autoridade do Papa e da Igreja, expressa pelos seus bispos.

Um político que se declara católico, ou seja, acredita em um Deus único, criador do céu e da terra, etc...  certamente não está em apostasia; cisma também não é o caso por que tal político ão está negando a autoridade do padre ou bispos. Restaria, talvez, a heresia.

Heresia aplica-se somente as verdades universais da Igreja, inspiradas pelo Espírito Santo, escritas nas Sagradas Escrituras, ou declaradas como divinas pelo magistério solene da Igreja. Por exemplo, declarar-se contrária à Ressureição de Jesus Cristo seria uma heresia, pois isto está atestado em diversas passagens bíblicas, além de 2000 anos de ensinamento da Igrejas. Em um comentário escrito pelo então Cardeal Ratzinger sobre o motu porprio Ad Tuendam Fidem, ele afirma que todo fiel deve dar firme e claro testemunho sobre a grave imoralidade do assassinato direto ou indireto da vida humana inocente pois isto está de acordo com o Magistério da Igreja. É claro que votar a favor do aborto é um testemunho contrário à santidade da vida, logo pode ser considerado heresia.

O que pode ser dito em favor de tais políticos, após este ensinamento claro da Igreja? Vejamos o cânon 1323, que lista várias posibilidades de exclusão de penas:

Cân. 1323 — Não está sujeito a nenhuma pena aquele que, ao violar a lei ou o
preceito:
 l.° ...
 2.° sem culpa ignorava que infringia a lei ou o preceito
  ...

Há outras razões na lista, como ser maior de 16 anos ou estar agindo em legítima defesa, que não se aplicariam a tais políticos. Agora deve-se considerar as deficiências da própria Igreja: certamente nas aulas de catequese para primeira comunhão ninguém discute aborto e a santidade da vida; talvez na catequese de Crisma algo seja falado, e na maioria das missas o assunto não é discutido. Quem realmente tem conhecimento dos preceitos da Igreja, em todos detalhes e motivações? Eu diria que maioria dos políticos, que só aparecem na Igreja em casamentos, batizados e época de eleições, jamais ouviram uma boa catequese sobre a vida humana.

Por outro lado, este tema tem sido discutido, mesmo que superficialmente, por muitos anos através da imprensa, tornando quase impossível alguém com razoável cultural não conhecer o ponto principal da Igreja: a vida humana inicia na concepção e, mesmo no ventre da mão, deve ser preservada e defendida. Neste sentido, pode-se dizer que católicos que votam a  favor do aborto estão, no mínimo, dando um escândalo para outros fiéis e cometendo um pecado grave contra a vida humana.  Isto os colocaria no alcance do cânon 915:

Cân. 915 — Não sejam admitidos à sagrada comunhão ...  outros que obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto.

Devido ao caráter público da atividade política, seria adequado que bispos e padres tornem públicas suas decisões, mas também seria pastoral que, antes, convidassem estes políticos para uma conversa de caráter particular, explicando os motivos desta eventual punição e dando uma clara oportunidade para o arrependimento.

Um bispo pode também impor a pena de excomunhão após claramente advertir tais políticos, pedir que mudem sua atitude e retomem a plena comunhão com a Igreja (canône 1318). Neste caso, o objetivo é proteger a alma de todos fiéis para que não se deixem levar pelo pecado público de outros.  Uma pessoa excomungada não está fora da Igreja, seu Batismo continua plenamente válido, e caso de arrependem, podem conversar seus pecados, receber a absolvição e serem plenamente reintegrados à Igreja, inclusive recebendo a Sagrada Eucaristia.

Por isso é bom lembrar que qualquer tipo de punição que seja aplicada, é sinal que um pecado foi cometido. Não há nenhum motivo para outros católicos se alegrarem com tal situação, mas sim há motivos para rezar pela alma daqueles que estão em pecado, sejam políticos ou não. E, finalmente, excomunhão é um assunto sério dentro da Igreja Católica, não é uma arma política para ser utilizada em época de campanha eleitoral.

-- autoria própria

Link para o Código de Direito Canônico em português

PS: o texto fala sempre de políticos, mas os argumentos também são válidos para juízes que tomam decisões contrárias à vida, porém, dependendo do caso, juízes podem estar diretamente facilitando um aborto específico.


11 de jan. de 2019

Os sinais do batismo do Senhor

O evangelho nos conta que o Senhor foi ao Jordão para ser batizado e quis ser consagrado neste rio por sinais do céu.
Não é sem razão que celebramos esta festa pouco depois do dia do Natal do Senhor, já que os dois acontecimentos se verificaram na mesma época, embora com diferença de anos; julgo que também ela deve chamar-se festa do Natal.
No dia do Natal, Cristo nasceu entre os homens; hoje renasce pelos sinais sagrados; naquele dia, nasceu da Virgem; hoje é gerado pelos sinais do céu. No Natal, ao nascer o Senhor segundo a natureza humana, Maria, sua mãe, o acaricia em seu colo; agora, ao ser gerado entre os sinais celestes, Deus, seu Pai, o envolve com sua voz, dizendo: Este é o meu filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o (Mt 17,5). Sua mãe o traz nos braços com ternura, seu Pai lhe presta o testemunho de amor. A Mãe apresenta-o aos magos para que o adorem, o Pai apresenta-o às nações para que o reverenciem.
O Senhor Jesus foi, portanto, receber o batismo e quis que seu santo corpo fosse lavado nas águas.
Talvez alguém diga: “Se ele era santo, por que quis ser batizado?” Escuta: Cristo foi batizado, não para ser santificado pelas águas, mas para santificá-las e para purificar as torrentes com o contato de seu corpo. A consagração de Cristo é sobretudo a consagração da água.
Assim, quando o Salvador é lavado, todas as águas ficam puras para o nosso batismo; a fonte é purificada para que a graça batismal seja concedida aos povos que virão depois. Cristo nos precede no batismo para que os povos cristãos sigam confiantemente o seu exemplo. Vejo aqui um significado misterioso: também a coluna de fogo ia na  frente através do mar Vermelho, para que os filhos de Israel a seguissem corajosamente no caminho; foi a primeira a atravessar as águas, a fim de abrir caminho aos que vinham atrás. Este acontecimento, como diz o Apóstolo, era uma figura do batismo. Foi certamente uma espécie de batismo, no qual os homens eram cobertos pela nuvem e passavam através das ondas.
Tudo isso foi realizado pelo mesmo Cristo nosso Senhor, que agora, na coluna do seu corpo, precede no batismo os povos cristãos, como outrora, na coluna de fogo, precedeu através do mar os filhos de Israel. Sim, é a mesma coluna que outrora iluminou os olhos dos caminhantes que hoje enche de luz os corações dos que creem. Outrora abriu um caminho seguro entre as ondas, hoje firma no batismo os passos da nossa fé.

-- Dos Sermões de São Máximo de Turim, bispo (século V)

1 de jan. de 2019

Santo Papa Paulo VI, o papa que moldou a Igreja atual

Diácono Montini no dia de sua ordenação.
Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu em 26 de Setembro de 1897, seu pai era advogado, jornalista e membro do parlamento italiano, sua mãe vinha de uma família de nobres. Estudou em uma escola mantida pelos jesuítas, depois passou para a escola pública, onde completou o ensino médio. Entrou direto no Seminário em 1916, com 18 anos, e foi ordenado padre em 29 de Maio de 1920. No mesmo ano defendeu sua tese e obteve um doutorado em Direito Canônico, isto com apenas 22 anos. 

Atividades no Vaticano

Em 1920, começou a trabalhar na Secretaria de Estado do Vaticano e em 1923 foi nomeado Núncio Apostólico para a Polônia. Ao ver a política do país e o nacionalismo fanático da população, escreveu avisando que a paz em que estavam vivendo era apenas uma situação transitória entre duas guerras. De fato, a I Grande Guerra já havia sido concluída e a II Grande Guerra começaria justamente pelo ataque a Polônia. 

Retornou a Roma em 1931 como responsável pelo treinamento de novos diplomatas, em 1937 o então Secretário de Estado Cardeal Pacelli o nomeou para o segundo posto na secretaria. Em 1939, quando Pacelli foi eleito Papa Pio XII, manteve a posição, agora trabalhando junto com o novo Secretário de Estado Luigi Maglione. Devido a sua posição, reunia-se com o Papa praticamente todos os dias, até 1954. 

Durante a guerra coordenou os esforços de ajuda aos perseguidos. Apenas na residência de verão dos Papas, Castel Gandolfo, 15 mil pessoas foram abrigadas, eram soldados aliados que haviam fugido dos campos de prisioneiros, judeus ou comunistas; e depois da liberação de Roma, também soldados alemães que haviam auxiliado a Igreja. Giovanni Montini também era responsável pela troca de mensagens secretas entre as igrejas e conventos onde haviam outros refugiados, em seis anos de guerra, foram 10 milhões de mensagens e pedidos de ajuda.

Arcebispo de Milão

Em 1954 foi nomeado Arcebispo de Milão e Secretário da Conferência dos Bispos Italianos, o Papa Pio XII, que já estava adoentado, anuncio da sua cama a nomeação de Montini como um presente para o povo de Milão. Como bispo, ele reorganizou as estruturas de assistência aos pobres da cidade. Uma das suas iniciativas mais importantes foi o programa "Mil vozes", quando todos 500 padres, seminaristas e muitos leigos da diocese foram chamados a anunciar o Evangelho onde o povo se encontrasse: fábricas, casa, escolas, parques, hospitais, hotéis, etc... 

No consistório que elegeu o Papa João XXIII, mesmo não sendo cardeal, Arcebispo Montini foi votado para suceder Pio XII. Quando o Concílio Vaticano II foi anunciado, ele foi indicado como membro da Comissão de Preparação e, a pedido do Papa, passou a morar em Roma. Além do concílio, foi enviado pelo Papa para representá-lo em diversos países, na África, Brasil e Estados Unidos.  

Papa PauloVI

Em 21 de Junho de 1963 foi escolhido como o novo Papa, assumindo o nome de Paulo VI. No seu diário escreveu: "Antes eu já era solitário, mas agora minha solidão é completa". Sua primeira decisão fundamental foi concluir o Concílio Vaticano II, emfrentando grandes controvérsias dentro e fora da Igreja. Apesar de tudo, em 8 de Dezembro de 1965 o Concílio foi concluído e seus textos publicados. A parte mais visível é a autorização para celebrar missas na língua de cada país, mas há outros aspectos fundamentais para a Igreja, como o chamado a santidade para todos membros da Igreja, a aproximação com outras igrejas cristãs e reorganização da Curia Romana.  

Além disso, escreveu encíclicas que são decisivas para a Igreja atual: Mysterium Fidei, onde reafirma a presença de Cristo na Eucaristia; Populorum Progressio, sobre a necessidade de salários justos e boas condições de trabalhos para todos; Sacerdotalis Caelibatus, sobre a prática de celibato por padres na igreja ocidental; e, acima de todas, Humanae Vitae, sobre o verdadeiro amor conjugal, que inclui uma discussão sobre práticas de contracepção:

O amor conjugal exprime a sua verdadeira natureza e nobreza, quando se considera na sua fonte suprema, Deus que é Amor (1Jo 4, 8), "o Pai, do qual toda a paternidade nos céus e na terra toma o nome". (Ef 3, 15)

O matrimônio não é, portanto, fruto do acaso, ou produto de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador, para realizar na humanidade o seu desígnio de amor. Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas.

Depois, para os batizados, o matrimônio reveste a dignidade de sinal sacramental da graça, enquanto representa a união de Cristo com a Igreja. 

Ainda como Papa, elegeu como cardeais seus três sucessores: Alberto Luciano (João Paulo I), Karol Wojtyla (João Paulo II) e Joseph Ratzinger (Bento XVI). 

Morte e canonização

Em 14 de Julho de 1978, o Papa Paulo VI estava bastante adoentado e foi para Castel Gandolfo repoousar. Tinha problemas de respiração e necessitava de oxigênio. No domingo 6 de Agosto, participou da Missa da Missa do seu leito. ao receber a Eucaristia, sofreu um ataque cardíaco, mas resistiu por mais três horas, falecendo às 21:41. Por seu pedido, foi enterrado na terra, na cripta do Vaticano e não em uma tomba ornamentada.  


Dois milagres de cura foram reconhecidos pelo Vaticano, ambos de crianças ainda no ventre das suas mães, que nasceram saudáveis após seus pais orarem pela intercessão do santo. Sua canonização ocorreu em 14 de Outubro de 2018, tendo sido celebrada pelo Papa Francisco. 

-- autoria própria

Os sete santos canonizados em 14 de Outubro de 2018.

Em 14 de Outubro, o Papa Francisco canonizou sete novos santos. Os dois primeiros na lista até foram citados na imprensa por serem um pouco mais conhecidos, os outros cinco nem o nome apareceu, e no entanto também são exemplos para todos nós. Este post serve como um link para cada a biografia de cada um deles:

  • Papa Paulo VI: uma vida dedicada à Igreja, suas mudanças moldaram a Igreja atual. 
  • Dom Oscar Romero: arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador, foi assassinado enquanto celebrava uma missa por que denunciava os ataques do governo contra padres e fiéis católicos.
  • Francisco Spinelli: fundou uma ordem religiosa, que foi fechada pelo bispo local por mau administração; persistiu e fundou uma segunda ordem para socorrer os pobres e doentes na Alemanha.
  • Vicente Romano
  • Maria Catarina Kasper: iniciou a Ordem das Servas de Cristo, dedicadas a auxiliar os pobres.
  • Nazária Inácia de Santa Teresa de Jesus
  • Núncio Sulprizio: jovem com vida muito sofrida, morreu de cancer dizendo "Espero que meu sofrimento hoje tenha salvado uma alma de um pecador que iria para o Inferno"


-- autoria própria

25 de dez. de 2018

Vamos a cidade de Davi, chamada Belém

Juntamente com Maria sua esposa, José subiu "à cidade de Davi, chamada Belém" (Lc 2, 4). Nesta noite, também nós subimos a Belém, para lá descobrir o mistério do Natal.

Jesus, nosso pão de cada dia

1. Belém: o nome significa casa do pão. Hoje, nesta casa, o Senhor marca encontro com a humanidade. Sabe que precisamos de alimento para viver. Mas sabe também que os alimentos do mundo não saciam o coração. Na Sagrada Escritura, o pecado original da humanidade aparece associado precisamente com o ato de tomar alimento: "…agarrou do fruto, comeu" – diz o livro do Génesis (3, 6). Agarrou e comeu. O homem tornou-se ávido e voraz. Para muitos, o sentido da vida parece ser possuir, estar cheio de coisas. Uma ganância insaciável atravessa a história humana, chegando ao paradoxo de hoje em que alguns se banqueteiam lautamente enquanto muitos não têm pão para viver.

Belém é o ponto de viragem no curso da história. Lá Deus, na casa do pão, nasce numa manjedoura; como se quisesse dizer-nos: Estou aqui ao vosso dispor, como vosso alimento. Jesus não agarra, mas oferece de comer; não dá uma coisa, mas dá-Se a Si mesmo. Em Belém, descobrimos que Deus não é alguém que agarra a vida, mas Aquele que dá a vida. Ao homem, habituado desde os primórdios a agarrar e comer, Jesus começa a dizer: "Tomai, comei. Este é o meu corpo" (Mt 26, 26). O corpo pequenino do Menino de Belém lança um novo modelo de vida: não devorar e acumular, mas partilhar e dar. Deus faz-Se pequeno, para ser nosso alimento. Nutrindo-nos d’Ele, Pão de vida, podemos renascer no amor e romper a espiral da avidez e da ganância. A partir da casa do pão, Jesus traz o homem de regresso a casa, para que se torne familiar do seu Deus e irmão do seu próximo. Diante da manjedoura, compreendemos que não são os bens que alimentam a vida, mas o amor; não a voracidade, mas a caridade; não a abundância ostentada, mas a simplicidade que devemos preservar.

O Senhor sabe que precisamos de alimento todos os dias. Por isso, ofereceu-nos todos os dias da sua vida, desde a manjedoura de Belém até ao cenáculo de Jerusalém. E ainda hoje, no altar, faz-Se pão partido para nós: bate à porta, para entrar e cear conosco (cf. Ap 3, 20). No Natal, recebemos Jesus, Pão do céu na terra: trata-se de um alimento cuja validade é ilimitada, fazendo-nos saborear já agora a vida eterna.

Em Belém, descobrimos que a vida de Deus corre nas veias da humanidade. Se a acolhermos, a história muda a partir de cada um de nós; com efeito, quando Jesus muda o coração, o centro da vida já não é o meu "eu" faminto e egoísta, mas Ele, que nasce e vive por amor. Nesta noite, chamados a ir até Belém, casa do pão, interroguemo-nos: 

Qual é o alimento de que não posso prescindir na minha vida? É o Senhor ou outra coisa qualquer?

Depois, entrando na gruta, ao vislumbrar na terna pobreza do Menino uma nova fragrância de vida, a da simplicidade, perguntemo-nos: 

Será verdade que preciso de tantas coisas, de receitas complicadas para viver? Quais são os contornos supérfluos de que consigo prescindir para abraçar uma vida mais simples? 

Em Belém, ao pé de Jesus, vemos pessoas que caminharam, como Maria, José e os pastores. Jesus é o Pão do caminho. Não Se compraz com as digestões lentas, longas e sedentárias, mas pede que nos levantemos rapidamente da mesa a fim de servir como pães partidos para os outros. Perguntemo-nos: No Natal, reparto o meu pão com aqueles que estão sem ele?

Não temais, o Senhor te ama
Depois de Belém, casa do pão, reflitamos sobre Belém, cidade de Davi. Lá Davi, na sua adolescência, era pastor e, como tal, foi escolhido por Deus, para ser pastor e guia do seu povo. No Natal, na cidade de David, são precisamente os pastores que acolhem Jesus. Naquela noite, quando "a glória do Senhor refulgiu em volta deles" – diz o Evangelho –, "tiveram muito medo" (Lc 2, 9), mas o anjo disse-lhes: "Não temais" (2, 10). 

Reaparece muitas vezes no Evangelho esta frase "não temais": parece o refrão de Deus à procura do homem. Porque o homem desde o princípio, por causa do pecado, tem medo de Deus: "…por que tive medo, escondi-me" (Gn 3, 10) – diz Adão, depois do pecado. Belém é o remédio para o medo, porque lá, não obstante os "nãos" do homem, Deus diz para sempre "sim": será para sempre Deus connosco. E, para que a sua presença não provoque medo, faz-Se um terno menino. A frase "não temais" não é dirigida a santos, mas a pastores, pessoas simples que então não primavam por inteligência nem devoção. O Filho de Davi nasceu no meio dos pastores, para nos dizer que doravante ninguém estará sozinho; temos um Pastor que vence os nossos medos e nos ama a todos, sem exceção.

Os pastores de Belém mostram-nos também como ir ao encontro do Senhor. Velam durante a noite: não dormem, mas fazem aquilo que Jesus nos pedirá várias vezes: vigiar (cf. Mt 25, 13; Mc 13, 35; Lc 21, 36). Permanecem vigilantes; aguardam, acordados, na escuridão; e a glória de Deus "refulgiu em volta deles" (Lc 2, 9). O mesmo vale para nós. A nossa vida pode ser uma esperança, em que a pessoa, mesmo nas noites dos problemas, se confia ao Senhor e O deseja; então receberá a sua luz. Ou então uma pretensão, na qual contam apenas as próprias forças e meios; mas, neste caso, o coração permanece fechado à luz de Deus. 

O Senhor gosta de ser aguardado e não é possível aguardá-Lo no sofá, dormindo. De fato, os pastores movem-se: "foram apressadamente" – diz o texto (2, 16). Não ficam parados como quem sente ter chegado a casa e não precisa de nada; mas partem, deixam o rebanho indefeso, arriscam por Deus. E depois de terem visto Jesus, embora sem grande habilidade para falar, vão anunciá-Lo, de modo que "todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores" (2, 18).

Esperar acordado, ir, arriscar, contar a beleza são gestos de amor. O bom Pastor, que vem no Natal para dar a vida às ovelhas, na Páscoa dirigirá a Pedro, e através dele a todos nós, a pergunta determinante: "Tu Me amas?" (Jo 21, 15). Da resposta, dependerá o futuro do rebanho. Nesta noite, somos chamados a responder, dizendo-Lhe também nós: "Sou deveras teu amigo". A resposta de cada um é essencial para todo o rebanho.

"Vamos a Belém…" (Lc 2, 15): assim disseram e fizeram os pastores. Também nós, Senhor, queremos vir a Belém. O caminho, ainda hoje, é difícil: é preciso superar os cumes do egoísmo, evitar escorregar nos precipícios da mundanidade e do consumismo. Quero chegar a Belém, Senhor, porque é lá que me esperas. E dar-me conta de que Tu, colocado numa manjedoura, és o pão da minha vida. Preciso da terna fragrância do teu amor, a fim de tornar-me, por minha vez, pão repartido para o mundo. Toma-me sobre os teus ombros, bom Pastor: amado por Ti, conseguirei também eu amar tomando pela mão os irmãos. Então será Natal, quando Te puder dizer: "Senhor, Tu sabes tudo; Tu sabes que eu sou deveras teu amigo!" (Jo 21, 17).

Papa Francisco, noite de Natal, 2018.

17 de dez. de 2018

O mistério de nossa reconciliação

De nada serve afirmar que nosso Senhor, filho da Virgem Maria, é verdadeiro e perfeito homem, se não se acredita que ele também pertence a essa descendência proclamada no Evangelho.

Escreve São Mateus: Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão (Mt 1,1). E, a seguir, apresenta a série de gerações desde os primórdios da humanidade até José, com quem estava desposada a Mãe do Senhor.

São Lucas, porém, percorrendo em sentido inverso a ordem dos descendentes, chega ao começo do gênero humano, para mostrar que o primeiro e o último Adão têm a mesma natureza.

Com efeito, seria possível à onipotência do Filho de Deus, para ensinar e justificar os homens, manifestar-se do mesmo modo que aparecera aos patriarcas e profetas, como, por exemplo, quando travou uma luta ou manteve uma conversa, ou quando aceitou os serviços da hospitalidade a ponto de tomar o alimento que lhe apresentaram.

Mas essas aparições eram imagens, sinais misteriosos, que anunciavam a realidade humana do Cristo, assumida da descendência daqueles antepassados.

Nenhuma daquelas figuras, entretanto, poderia realizar o mistério da nossa reconciliação, preparado desde a eternidade, porque o Espírito Santo ainda não tinha descido sobre a Virgem Maria, nem o poder do Altíssimo a tinha envolvido com a sua sombra; a Sabedoria eterna não edificara ainda a sua casa no seio puríssimo de Maria para que o Verbo se fizesse homem; o Criador dos tempos ainda não tinha nascido no tempo, unindo a natureza divina e a natureza humana numa só pessoa, de modo que aquele por quem tudo foi criado fosse contado entre as suas criaturas.

Se o homem novo, revestido de uma carne semelhante à do pecado (cf. Rm 8,3), não tivesse assumido a nossa condição, envelhecida pelo pecado; se ele, consubstancial ao Pai, não se tivesse dignado ser também consubstancial à Mãe e unir a si nossa natureza, com exceção do pecado, a humanidade teria permanecido cativa sob o jugo do demônio; e não poderíamos nos beneficiar do triunfo do Vencedor, se esta vitória fosse obtida numa natureza diferente da nossa.

Dessa admirável união, brilhou para nós o sacramento da regeneração, para que renascêssemos espiritualmente pelo mesmo Espírito por quem o Cristo foi concebido e nasceu.

Por isso diz o Evangelista, referindo-se aos que crêem: Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,13).

-- São Leão Magno, Papa (século V) 

8 de dez. de 2018

São Vicente Romano

Vincenzo Romano nasceu em 3 de Junho de 1751, filho de Nicola Luca e Maria Grazia, na nascida de Torre del Greco, nas imediações de Nápoles. Foi batizado no dia seguinte na Igreja de Santa Cruz. Tinha dois irmãos, Pietro e Goiseppe. Seus pais eram simples trabalhadores, muito piedosas, e incentivaram seus filhos a seguirem o caminho sacerdotal. 

São Vecente Romano, um retrato feito em torno de 1800.
Está carregando a Liturgia das Horas, pois costumava
rezá-las em qualquer lugar que estivesse.
Ainda criança apaixonou-se por Santo Alfonso Ligório, cujos sermões assistia pessoalmente, e desenvolveu grande devoção pelo Santíssimo Sacramento. Ao quatorze anos decidiu-se pelo seminário, sendo ajudado pelo irmão mais velho, Pietro, que já era padre. Devido a algumas normas rígidas de admissão que o Cardeal de Nápoles havia imposto, sua entrada foi mais difícil. Inicialmente procurou a Ordem dos Jesuítas, mas foi recusado. Apenas com a ajuda do Duque Di Martino, que pediu em seu favor, foi admitido ao exame para entrada no Seminário Diocesano, onde saiu-se muito bem. 

No Seminário demonstrava um fervor e fé acima dos seus companheiros. Dom Mariano Arciero, sacerdote de grande virtude, que viria a ser declarado Venerável, foi o responsável pela sua formação. No sábado 10 de Junho de 1775 foi ordenado sacerdote na antiga basílica de Santa Restituta. Celebrou sua primeira missa no dia seguinte, domingo da Santíssima Trindade, na Igreja de Santa Cruz, onde fora batizado 24 anos antes e para a qual fora designado.

Em 15 de Junho de 1794, uma erupção do Monte Vesúvio causou enorme destruição da cidade, inclusive a Igreja foi perdida devido a um incêndio. Preocupado com a situação de desespero da comunidade, providenciou toda forma de aceitável de celebrar a Santa Missa, para trazer conforto àqueles que haviam perdido sua casa e trabalho. Quanto a reconstrução da Igreja, iniciou os trabalhos tão logo pode, sendo que ele mesmo ajudava no trabalho, carregando pedras, limpando, ajudando no que era possível. Este viria a ser, basicamente, o trabalho de sua vida. 

No plano pastoral, o ministério da palavra e o Evangelho da Caridade foram as bases de sua atividade. Incentivou que a oração do Rosário, escreveu um folheto para que todos acompanhassem a Santa Missa e desenvolveu uma estratégia missionária chamada "Sciabica", um tipo de rede de pescador, que consistia em aproximar-se de uma pessoa caminhando na rua, perguntar se poderia acompanhá-la, e daí ir pregando o Evangelho. Se aceitassem, convidava a entrar numa Igreja próxima, confessar-se e rezar. Mantinha também uma escola para meninos pobres e era regularmente visto com bandidos, pois sabia que sua presença evitava que cometessem maldades. Nos fins de semana, além das missas, organizava pregações (catequeses) para seus paroquianos. Segundo testemunhos, falava de maneira simples e clara, para que todos pudessem entender, inclusive aqueles que não tinham estudo. 
Igreja da Santa Cruz, em Torre del Greco.

Em 1 de Janeiro de 1825 caiu, quebrando o fêmur, fato que iniciou o declínio de sua saúde. Ainda viu sua Igreja ser concluída e re-inaugurada em 1827. Morreu santamente em 20 de Dezembro de 1831, tendo levado uma vida exemplar. Seu corpo repousa em uma urna na própria Igreja da Santa Cruz e sua memória é celebrada em 29 de Novembro. 

O processo de canonização foi aberto em 1843, seus dois irmãos, um sobrinho também padre e uma sobrinha, assim como vários contemporâneos foram testemunhas no processo. Em 25 de Março de 1895, o Papa Leão XIII declarou Vicenzo como Venerável. O primeiro milagre reconhecido oficialmente foi a cura de Maria Carmela Restucci, que em 1891 desenvolveu um câncer no seio, que cusava feridas e muitas dores. Após pedir a intervenção do santo, amanheceu curada, o que foi confirmado pelo seu médico. O segundo milagre ocorreu em 1940, quando Maria Carmela Cozzolino já preparava-se para a morte, pois um câncer na garganta que quase lhe impidia de respirar. Seu médico iniciou uma novena em honra ao santo; Maria também amanheceu curada na manhã do terceiro dia, pois o câncer havia simplesmente desaparecido. Com o testemunho de tais milagres, foi beatificado em 17 de Novembro de 1963. O terceiro milagre foi também o desaparecimento de um tumor, neste caso, uma massa de mais de quatro quilos que se formou no abdômen de Raimondo Formisano, em 1989. Por fim, São Vicente Romano foi canonizado em 14 de Outubro de 2018 pelo Papa Francisco.  

-- autoria própria

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