1 de ago de 2011

Quem sou eu para que me abandones?

* esta é uma das cartas em que Madre Teresa relata sua noite escura, quando não percebia Deus na sua alma. Na imprensa causou algum alvoroço, porque é um tanto dificil entender esta experiência de "noite escura". Foi escrita ao seu diretor espiritual, Padre Picachy, a pedido dele. Aqui trata-se de uma tradução pessoal a partir do livro (em espanhol) Las Cartas Privadas de la Santa de Calcuta, do Padre Brian Kolodiejchuk, um dos postuladores de sua causa.

Incluo também um breve relato. Os pensamentos postos em papel dão um breve alívio. Porque quer Ele que conte ao senhor todas estas coisas, não o sei. Agradaria-me poder me negar, negar-me-ia alegremente.

Senhor Deus meu, quem sou eu para que Tu me abandones? Uma filha de Teu amor, e agora, convertida na mais odiada, não amada. Chamo, me agarro, eu quero, mas não há resposta, não há ninguém em quem possa me agarrar, nada, sozinha. A escuridão é tamanha e estou sozinha. Depreciada, abandonada. A solidão do coração que quer o amor é insuportável. Onde está minha fé? Inclusive no mais profundo, bem dentro, não há nada além de vazio e escuridão. Deus meu, como é dolorosa esta dor desconhecida. Doi sem cessar. Não tenho fé. Não me atrevo a pronunciar as palavras e pensamentos que enchem meu coração e me fazem sofrer uma agonia indizível. Tantas perguntas sem respostas vivem dentro de mim, me dá medo descobri-las, pois podem ser causa de blasfêmias. 

Se Deus existe, por favoor, perdoe-me. Confio que tudo isto terminará no céu com Jesus. Quando tento levantar meus pensamentos ao Céu, há um vazio tão acusador que estes mesmos pensamentos regressam como facas afiadas e ferem a minha alma. Amor, a palavra, não me diz nada. Se me dizes que Deus me ama, sei que a realidade de escuridão, frieza, vazio é tão grande que nada comove minha alma.Antes de começar a obra havia tanta união, amor, fé, confiança, oração e sacrifício. Enganei-me ao me entregrar cegamente ao Sagrado Coração? A obra não é uma dúvida, porque estou convencida de é Sua, não minha. Não sinto, em meu coração não há o mínimo pensamento ou tentação de atribuir-me algo desta obra.

Todo este tempo sorrindo - as irmãs e o povo fazem comentários deste tipo. Eles pensam que minha fé, minha confiança e meu amor preenchem todo meu ser e que a intimidade com Deus e a união a sua vontade impregnam meu coração. Se soubessem como minha alegria é um manto sobre o qual cubro o vazio e a miséria.

Apesar de tudo, esta escuridão e vazio não são tão doloros como os sofrimentos de Cristo. Esta contradição, temo, vai me desequilibrar. Deus, que estás fazendo com tua pequena? Quando pediste para imprimir tua paixão em emu coração, esta é a resposta?

Se isto te traz alegria, se Tu obtem de tudo isto uma só gota de alegria, se isto te leva almas, se meus sofrimentos saciam Tua Sede, aqui estou Senhor, com alegria aceito passar por tudo até o final da vida, e sorrirei ao Teu Rosto Oculoto. Sempre.

-- Madre Teresa de Cálcuta, carta ao Padre Picachy, em 3 de Julho de 1959.

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