26 de set de 2012

Salmo 149: Festa dos amigos de Deus

1. "Regozijem-se os justos na glória e cantem jubilosos em seus leitos". Este apelo do Salmo 149 (v. 5), que acaba de ser proclamado, remete para uma aurora que está prestes a despontar e vê os fiéis prontos a entoar os seus louvores matutinos. Com uma expressão significativa, este louvor é definido como "um cântico novo" (v. 1), ou seja, um hino solene e perfeito, propício para os últimos dias, quando o Senhor reunir os justos num mundo renovado. Todo o Salmo  está  impregnado  de  uma  atmosfera festiva, inaugurada já pelo aleluia inicial e depois cadenciada com cânticos, louvores, alegria, danças e sons de tímpanos e de cítaras. A oração que este Salmo inspira é a ação de graças de um coração repleto de exultação religiosa.




2. Os protagonistas deste Salmo são chamados, no original hebraico do hino, com dois termos característicos da espiritualidade do Antigo Testamento. Por três vezes são definidos como"hasidim" (vv. 1.5 e 9), ou seja, "os piedosos, os fiéis", aqueles que respondem com fidelidade e amor (hesed) ao amor paternal do Senhor.

A segunda parte deste Salmo surpreende, porque está repleta de expressões bélicas. Parece-nos estranho que no mesmo versículo o Salmo fale dos "louvores de Deus a plena voz" e da "espada de dois gumes nas suas mãos" (v. 6). Refletindo, podemos compreender o motivo:  o Salmo foi composto para os "fiéis" que estavam empenhados numa luta de libertação; combatiam para libertar o seu povo oprimido e para lhe dar a possibilidade de servir a Deus. Durante a época dos Macabeus, no século II a.C., os combatentes pela liberdade e pela fé, submetidos a uma dura repressão por parte do poder helenista, chamavam-se precisamente hasidim, "os fiéis" à Palavra de Deus e às tradições dos Padres.

3. Na perspectiva actual da nossa oração, esta simbologia bélica torna-se uma imagem do nosso compromisso de crentes e, depois de termos cantado a Deus os louvores matutinos, podemos partir pelas estradas do mundo, no meio do mal e da injustiça. Infelizmente, as forças que se opõem ao Reino de Deus são imponentes:  o Salmista fala "de povos, de nações, de chefes e de nobres". Todavia, está confiante porque sabe que ao seu lado se encontra o Senhor, que é o verdadeiro Rei da história (cf. v. 2). Por conseguinte, a sua vitória sobre o mal é certa e será o triunfo do amor. É neste combate que participam todos os hasidim, todos os fiéis e os justos que, com o poder do Espírito, completam a obra admirável que tem o nome do Reino de Deus.

4. Partindo das referências do Salmo ao "coro" e aos "tímpanos e cítaras", Santo  Agostinho  comenta:   "O  que  é que representa um coro? [...] O coro é um grupo de cantores que cantam em conjunto. Se cantarmos num coro, devemos cantar em harmonia. Quando se canta em coro, uma única voz desafinada fere o ouvinte e semeia confusão no próprio coro" (Enarr. in Ps., 149: CCL 40, 7, 1-4).

Depois, referindo-se aos instrumentos utilizados pelo Salmista, pergunta-se:  "Por que motivo o Salmista pega no tímpano e no saltério?". Em seguida, responde:  "A fim de que não só a voz louve ao Senhor, mas também as suas obras. Quando se tocam o tímpano e o saltério, as mãos harmonizam-se com a voz. Assim deve ser também para ti. Quando cantares o aleluia, deves oferecer o pão ao faminto, vestir aquele que está nu e hospedar o peregrino. Se fizeres isto, não só a voz cantará, mas com voz se hão-de harmonizar as mãos, enquanto com as palavras concordarão as obras" (Ibid., 8, 1-4).

5. Há outro vocábulo, com que os orantes deste Salmo são definidos:  trata-se dos "anawim", isto é, "os pobres, os humildes" (v. 4) Esta expressão é muito frequente no Saltério e indica não só os oprimidos, os miseráveis e os que são perseguidos por causa da justiça, mas inclusivamente aqueles que, sendo fiéis aos compromissos morais da Aliança com Deus, são marginalizados por quantos escolhem a violência, a riqueza e a prepotência. É nesta luz que se compreende que a classe dos "pobres" não é apenas uma categoria social, mas uma opção espiritual. Este é o sentido da primeira, célebre, Bem-Aventurança:  "Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5, 3). Já o profeta Sofonias se dirigia com a seguinte expressão aos anawim: "Procurai o Senhor, vós todos, os humildes da terra, que cumpris a sua lei. Procurai a justiça, buscai a humildade:  talvez assim acheis abrigo no dia da cólera do Senhor" (2, 3).


6. Pois bem, o "dia da cólera do Senhor" é precisamente aquele que se descreve na segunda parte do Salmo, quando os "pobres" se põem ao lado de Deus a fim de lutar contra o mal. Sozinhos, eles não têm a força suficiente, nem os instrumentos, nem as estratégias necessárias para se opor à irrupção do mal. Contudo, a frase do Salmista não admite hesitações:  "O Senhor, de verdade, ama o seu povo e adorna os humildes (anawim) com a vitória" (v. 4). Representa-se espiritualmente aquilo que o Apóstolo Paulo declara aos Coríntios:  "O que é vil e desprezível no mundo é que Deus escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são" (1 Cor 1, 28).

É com esta confiança que "os filhos de Sião" (v. 2), os hasidim e os anawim, ou seja os fiéis e os pobres, se preparam para viver o seu testemunho no mundo e na história. O cântico de Maria, contido no Evangelho de Lucas o canto do Magnificat constitui o eco dos melhores sentimentos presentes nos "filhos de Sião":  o louvor de exultação a Deus Salvador, a acção de graças pelas grandes  coisas  que  lhe  fez  o  Omnipotente, o combate contra as forças do mal,  a  solidariedade  para  com  os  pobres e a fidelidade ao Deus da Aliança (cf. Lc 1, 46-55).

-- Papa João Paulo II, na audência de 23 de maio de 2011

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