Mostrando postagens com marcador mãe de Deus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mãe de Deus. Mostrar todas as postagens

27 de fev. de 2021

Eis aí o teu filho - homília de Quaresma

Quando Jesus viu sua mãe e o discípulo que amava ao pé da cruz, Ele disse "Mulher, eis aí teu filho! e então disse ao discípulo "Eis aí tua mãe!". E a partir daquele momento, o discípulo considerou-a sua mãe. (João 19, 26-27). Em outra catequese, falamos de Maria como Mãe de Deus ,hoje falarei sobre Maria, Mãe dos Cristãos, nossa mãe.

Devemos imediatamente ressaltar que não estamos lidando com dois títulos e duas verdades do mesmo nível. Mãe de Deus é um título solenemente atribuído a Maria e é baseado na maternidade real. Tem uma conexão essencial com a principal verdade da nossa fé, pois Jesus é ao mesmo tempo Deus e homem, na mesma pessoa, Mãe de Deus é um título proclamado por toda igreja. Mãe dos Cristãos ou Nossa Mãe indica a maternidade espiritual, não tão relacionado às principais verdades da nossa fé, não podemos dizer que utilizado por todos cristãos, em qualquer lugar e sempre, mas reflete a doutrina e devoção de algumas Igrejas, em especial da Igreja Católica.

 Calvário, de Josse Lieferinxe (c. 1500)

Santo Agostinho nos ajuda a entende as semelhanças e diferenças entre estas duas maternidades. Fisicamente, Maria é apenas Mãe de Jesus, enquanto, espiritualmente, por fazer a vontade de Deus, ela é nossa irmã e mãe. Ela não foi a mãe espiritual de Jesus, a cabeça da Igreja, nosso Salvador, mas ela certamente é a mãe espiritual de todos nós, membros do corpo de Cristo, por que sua caridade cooperou para o nascimento da igreja da qual todos nós somos memberos.

Nesta meditação, gostaria de trazer à luz toda riqueza e o dom de Cristo, que está contido neste título, não apenas para que utilizemos estes títulos para honrar Maria, mas para edificar nossa fé e imitarmos a Cristo.

Assim como a maternidade física, a espiritual ocorre em dois momentos diferentes: concepção e nascimento. Apenas um não é suficiente. Maria experimentou ambos, ela espiritualmente nos concebeu e nos trouxe a luz. Ela nos concebeu, isto é, nos recebeu, quando entendeu que seu filho não era como os outros meninos, compreensão esta iniciou na Anunciação do anjo e progrediu na medida que Jesus gradualmente avançava na sua missa. Ele era o Messias em torno do qual uma comunidade estava sendo formada. Este tempo da concepção de Maria ocorreu através de seu "sim", foi um tempo de alegria.

Ao pé da cruz, Maria teve seu tempo de sofrimento. Jesus, naquele momento, referiu-se a ela como "Mulher". Sabendo que o João Evangelista, além do discurso direto, utilizou muitos alusões, símbolos e referências, estas palavras fazem-nos pensar em outras passagens, como quando Jesus disse: Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora (Jo 16, 21) e, no livro do Apocalipse: uma mulher ... estava grávida, e já com as dores de parto, e gritava na ânsia de dar à luz (Ap 12, 1-2).

Mesmo que entendamos esta mulher como sendo a Igreja, a comunidade da nova aliança dando à luz ao novo homem e nova mulher, Maria estava pessoalmente envolvida com esta comunidade inicial de fiéis. Esta comparação entre Maria e a Mulher foi aceita pela Igreja desde o inicio. Santo Irineu, um dos discípulos de São Policarpo, e este de São João, ja falava de Maria como a nova Eva, a nova "mãe de todos viventes".

Examinemos agora o texto de São João para ver se há alguma referência nele para o que estamos dizendo. As palavras de Jesus para Maria "Mulher, eis teu filho" e para João, "Eis tua mãe", tem um significado direto e real. Jesus confiou João a Maria e Maria a João.

Mas este não é o significado completo da cena. A exegêse moderna, que tem feito enormes progressos na compreensão da linguagem e expressões do quarto Evangelho, está ainda mais convencida disto que os Santos Padres estavam. Se apenas lermos a passagem de maneira simples e direta, considerando apeans o que está escrito, parece algo fora do lugar, algo que não combina com o restante do texto. Para João, o momento da morte era o momento da glorificação de Jesus, o cumprimento final das Escrituras.

Então, dado este fato, é muito estranho que o texto contenha algo privado e pessoal, não um comentário universal e eclesial ligando esta mulher às mulheres de Genêsis 3,15 e Apocalipse 12. O significado eclesial é que o discípulo não era apenas João, mas representava todos os discípulos de Cristo, a sua Igreja. Cristo morrendo nos deixou ao cuidado de Maria como seus filhos, assim como Maria foi dada a nós como nossa mãe.

As vezes as palavras de Jesus descrevem algo presente e revelam aquilo que já era uma verdade; outras, criam e trazem a existência aquilo que elas expressam. As palavras de Jesus morrendo na cruz para Maria e João são do segundo tipo. Neste sentido, são semelhantes a quando ele disse, "Este é meu corpo", ali Jesus fez Maria mãe de João e João, filho de Maria. Ele não proclamou a nova maternidade de Maria, ele a instituiu. Não é uma palavra que tenha vindo de Maria, é uma Palavra de Deus, não se baseia nos méritos de Maria, mas na graça de Deus.

Aos pés da cruz, Maria se torna a filha de Sião, que após a perda do seu filho, recebe uma nova e numerosa família de Deus, mas uma família no Espírito, não na carne. Um salmo, que a liturgia aplica a Maria, diz: "Ajuntarei Raab e Babilônia aos que me honram; eis a Filisteia e Tiro com a Etiópia, lá todos nasceram. Será dito de Sião: “Um por um, todos esses homens nela nasceram; foi o próprio Altíssimo quem a fundou. O Senhor inscreverá então no registro dos povos: 'Aquele também nasceu em Sião'"  (Sl 87, 4-6). E, de fato, é verdade, todos nascemos em Sião! Isto deve ser dito de Maria, a nova Sião, este e aquele são nascidos dela. Eu, você, cada pessoa, até mesmo aqueles que ainda não sabem, esta escrito no registro de Deus: "Este homem nasceu em Sião". 

Mas, não fomos "nascidos ... pela palavra de Deus, viva e eterna" (1Pd 1,23)? Não somos todos "nascidos de Deus" (Jo 1,13), renascidos pela "água e Espírito" (Jo 3,5)? Tudos isto é verdade, mas não deixa de ser verdade de que, em outro sentido, somos filhos de Maria, sua fé e sofrimento. Se São Paulo, um apóstolo de Cristo, pode dizer a seus seguidores, "fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho" (1Cor 4,15), não poderia Maria, com ainda mais razão, eu me tornei tua mãe em Cristo? Quem tem mais direito de dizer as palavras do apóstolo: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gal 4,19)? Ela deu a luz novamente ao pé da cruz, por que ela já havia dado a luz antes, na alegria, não no sofrimento, quando deu a luz à palavra viva e eterna, Cristo, do qual renascemos.

Assim como aplicamos a Maria, aos pés da cruz, a lamentação de Sião, que bebeu do cálice da ira divina, também, confiando no poder infinito da palavra de Deus, que vai muito além dos nossos esquemas exegéticos, também podemos aplicar a Maria o hino de Sião reconstruída após o exílio, que maravilhada, olha por todos seus filhos e exclama: "'Quem me gerou estes filhos?'. Não tinha filhos, era estéril: 'Quem os criou?'. Eis que eu estava desamparada e só: 'De onde vieram eles?'" (Is 49,21).


-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte I, 3 de Abril de 2020. 

-- tradução própria 

Nota: nos próximos publicarei as segunda e terceira parte da homília.

1 de jan. de 2013

Homília na Solenidade de Nossa Sra Mãe de Deus


Queridos irmãos e irmãs!

Que Deus nos dê a sua graça e a sua bênção, e sua face resplandeça sobre nós. Assim aclamamos com as palavras do Salmo 66, depois de termos escutado, na primeira leitura a antiga bênção sacerdotal sobre o povo da aliança. É particularmente significativo que, no início de cada ano novo Deus projete sobre nós, seu povo, o brilho do seu santo Nome, o Nome que é pronunciado três vezes na fórmula solene da bênção bíblica. Não menos significativo é o fato de que seja dado ao Verbo de Deus - que se fez carne e habitou entre nós, como a luz de verdade que ilumina todo ser humano (Jo 1, 9.14) -, oito dias depois seu natal - como nos narra o Evangelho de hoje - o nome de Jesus (cf. Lc 2, 21).

É nesse nome que nós estamos aqui reunidos. Saúdo cordialmente todos os presentes, a começar pelos ilustres Embaixadores do Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé. Saúdo com afeto o Cardeal Bertone, meu Secretário de Estado e ao Cardeal Turkson, com todos os membros do Conselho Pontifício Justiça e Paz; sou-lhes particularmente grato por seus esforços na difusão da Mensagem para o Dia Mundial da Paz, que este ano tem como tema “Bem-aventurados os obreiros da paz”.

Embora o mundo, infelizmente, ainda esteja marcado com focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado, além de diversas formas de terrorismo e criminalidade, estou convencido de que as inúmeras obras de paz, de que é rico o mundo, testemunham a vocação natural da humanidade à paz. Em cada pessoa, o desejo de paz é uma aspiração essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um princípio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunitário, e isto faz parte dos desígnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem é feito para a paz, que é dom de Deus. Tudo isso me sugeriu buscar inspiração, para esta Mensagem, às palavras de Jesus Cristo: Bem-aventurados os obreiros da paz, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5, 9). Esta bem-aventurança diz que a paz é, simultaneamente, dom messiânico e obra humana.... é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação. Sim, a paz é bem por excelência que deve ser invocado como um dom de Deus e, ao mesmo tempo, que deve ser construído com todo o esforço.

Podemos perguntar-nos: qual é o fundamento, a origem, a raiz dessa paz? Como podemos sentir em nós a paz, apesar dos problemas, da escuridão e das angústias? A resposta nos é dada pelas leituras da liturgia de hoje. Os textos bíblicos, a começar pelo Evangelho de Lucas, há pouco proclamado, nos propõe a contemplação da paz interior de Maria, a Mãe de Jesus. Durante os dias em que deu à luz o seu filho primogênito (Lc 2,7), Maria deve de afrontar muitos acontecimentos imprevistos: não só o nascimento do Filho, mas antes a árdua viagem de Nazaré à Belém; não encontrar um lugar no alojamento; a procura de um abrigo improvisado no meio da noite; e depois o cântico dos anjos, a visita inesperada dos pastores. Maria, no entanto, não se perturba com todos estes fatos, não se agita, não se abala com acontecimentos que lhe superam; Ela simplesmente considera, em silêncio, tudo quanto acontece, guardando na sua memória e no seu coração, refletindo com calma e serenidade. É esta é a paz interior que queremos ter em meio aos acontecimentos às vezes tumultuosos e confusos da história, acontecimentos cujo sentido muitas vezes não conseguimos compreender e que nos deixam abalados.

A passagem do Evangelho termina com uma menção à circuncisão de Jesus. Conforme a Lei de Moisés, oito dias após o nascimento, o menino devia ser circuncidado, e nesse momento lhe era dado o nome. O próprio Deus, através de seu mensageiro, dissera a Maria - e também a José – que o nome a ser dado para a criança era “Jesus” (cf. Mt 1, 21; Lc 1, 31), e assim aconteceu. Aquele nome que Deus já tinha estabelecido antes mesmo que o Menino fosse concebido, lhe é dado oficialmente no momento da circuncisão. E isto marca definitivamente a identidade de Maria: ela é “a mãe de Jesus”, ou seja a mãe do Salvador, do Cristo, do Senhor. Jesus não é um homem como qualquer outro, mas é o Verbo de Deus, uma das Pessoas divinas, o Filho de Deus: por isso a Igreja deu a Maria o título de Theotokos, ou seja, “Mãe de Deus”.

A primeira leitura nos recorda que a paz é um dom de Deus e está ligada ao esplendor da face de Deus, de acordo com o texto do Livro dos Números, que transmite a bênção usada pelos sacerdotes do povo de Israel nas assembléias litúrgicas. Uma bênção que por três vezes repete o santo Nome de Deus, o nome impronunciável, ligando a cada repetição o santo Nome a dois verbos que indicam uma ação em favor do homem: O Senhor te abençoe e te guarde. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti. O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz (6, 24-26). A paz é, portanto, o ponto culminante dessas seis ações de Deus em nosso favor, em que Ele nos dirige o esplendor da sua face.

Para a Sagrada Escritura, a contemplar a face de Deus é a felicidade suprema: o cobristes de alegria em vossa face, diz o salmista (Sl 21, 7). Da contemplação da face de Deus nascem alegria, paz e segurança. Mas o que significa concretamente contemplar a face do Senhor, tal como se entende no Novo Testamento? Significa conhecê-Lo diretamente, tanto quanto é possível nesta vida, através de Jesus Cristo, no qual Deus se revelou. Deleitar-se com o esplendor da face de Deus significa penetrar no mistério de seu Nome manifestado a nós por Jesus, compreender algo da sua vida íntima e da sua vontade, para que possamos viver de acordo com seu designio de amor para a humanidade. O apóstolo Paulo expressa justamente isso na segunda leitura, da Carta aos Gálatas (4, 4-7), afirmando que do Espírito, que no íntimo dos nossos corações, clama: Abá! Ó Pai. É o clamor que brota da contemplação da verdadeira face de Deus, da revelação do mistério do Nome. Jesus diz: Manifestei o teu nome aos homens (Jo 17, 6). O Filho de Deus feito carne nos deu a conhecer o Pai, nos fez perceber no seu rosto humano visível a face invisível do Pai; através do dom do Espírito Santo derramado em nossos corações, nos fez conhecer que n’Ele nós também somos filhos de Deus, como diz São Paulo na passagem que escutamos: Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá! Ó Pai (Gal 4, 6).

Queridos irmãos e irmãs, eis o fundamento da nossa paz: a certeza de contemplar em Jesus Cristo o esplendor da face de Deus, de ser filhos no Filho e ter, assim, na estrada da vida, a mesma segurança que a criança sente nos braços de um Pai bom e onipotente. O esplendor da face do Senhor sobre nós, que nos dá a paz, é a manifestação da sua paternidade; o Senhor dirige sobre nós a sua face, se mostra como Pai e nos dá a paz. Aqui está o princípio daquela paz profunda - paz com Deus - que está intimamente ligada à fé e à graça, como escreve São Paulo aos cristãos de Roma (Rm 5, 2). Nada pode tirar daqueles que creem esta paz, nem mesmo as dificuldades e os sofrimentos da vida. De fato, os sofrimentos, as provações e a escuridão não corroem, mas aumentam a nossa esperança, uma esperança que não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5, 5).
Que a Virgem Maria, que hoje veneramos com o título de Mãe de Deus, nos ajude a contemplar a face de Jesus, Príncipe da Paz. Que Ela nos ajude e nos acompanhe neste novo ano; que Ela obtenha para nós e para o mundo inteiro o dom da paz. Amém!

-- Papa Bento XVI, Homília na Solenidade de Maria Santíssima Mãe de Deus, 1o. de Janeiro de 2013

6 de set. de 2012

Homília na Festa da Natividade de Nossa Senhora


* Homília proferida pelo Papa João Paulo II, em 8 de Setembro de 1979, Festa da natividade de Nossa Senhora, celebrada na Basílica de Loreto. No interior da Basílica está a casa de Nossa Senhora, que foi transportada pelos cruzados de Isael até a Itália. 

Basílica de Nossa Senhora de Loreto
1. "O teu nascimento, ó Virgem Mãe de Deus; anunciou a alegria ao mundo inteiro". Hoje é o dia desta alegria. A Igreja, a 8 de Setembro, nove meses depois da solenidade da Imaculada Conceição da Mãe do Filho de Deus, celebra a recordação do seu nascimento. O dia da natividade da Mãe faz voltar os nossos corações para o Filho: "De ti nasceu o Sol da Justiça, Cristo nosso Deus: Ele levantou a maldição e trouxe a graça, venceu a morte e deu-nos a vida eterna" (Ant. do Benedictus).

Assim pois, a grande alegria da Igreja passa do Filho para a Mãe. O dia da sua natividade e verdadeiramente um prenúncio e o inicio do mundo melhor ("origo mundi melioris"), como proclamou de modo esplêndido o Papa Paulo VI.

E por isso a liturgia de hoje confessa e anuncia que o nascimento de Maria esparge a própria luz sobre todas as Igrejas que há no orbe.

2. A festividade do nascimento de Maria dir-se-ia que projeta a sua luz, de modo especial, sobre a Igreja da terra italiana, precisamente aqui, em Loreto, no admirável santuário, que hoje é a meta da nossa peregrinação comum. Desde o princípio do meu pontificado desejei ardentemente vir a este local; esperei  porém exatamente este dia, esta festividade de hoje. 

3. O culto da Mãe de Deus nesta terra anda ligado, segundo antiga e viva tradição, à casa de Nazaré. A casa em que, segundo recorda o Evangelho de hoje, Maria habitou, a seguir aos desposórios com José. A casa da Sagrada Família. Cada casa é sobretudo santuário da mãe. Esta cria-o, de modo especial, com a sua maternidade. E necessário que os filhos da família humana, ao virem ao mundo, encontrem um teto sobre a cabeça; que tenham uma casa. A casa de Nazaré, como sabemos, não foi todavia o lugar do nascimento do Filho de Maria e Filho de Deus. Provavelmente, todos os predecessores de Cristo, de que fala a genealogia do Evangelho de hoje, segundo Mateus, vieram ao mundo debaixo do tecto duma casa. Isto porém não lhe foi concedido a Ele. Nasceu como um exilado em Belém, num estábulo. E não pôde voltar à casa de Nazaré, porque foi obrigado a fugir à crueldade de Herodes, indo de Belém para o Egipto, e só depois da morte do rei, se atreveu José a levar Maria com o Menino para a casa de Nazaré.

Desde então, aquela casa foi o local da vida quotidiana, o local da vida oculta do Messias; a casa da Sagrada Família. Foi o primeiro templo, a primeira igreja, sobre a qual a Mãe de Deus irradiou a própria luz com a sua Maternidade. Irradiou-a com a sua luz, a emanar do grande mistério da Encarnação; do mistério do seu Filho.

4. Abrangidas por esta luz crescem, em todo o vosso país de sol, as casas familiares. E tantas são elas. Dos picos dos Alpes e das Dolomitas — de que me pude aproximar no domingo 26 de Agosto visitando os lugares natalícios do Papa João Paulo I — até à Sicília. Tantas, tantas casas; as casas familiares. E tantas, tantas famílias; cada uma delas mantém-se, graças à tradição cristã e mariana da vossa pátria, em certa ligação espiritual com aquela luz que promana da casa de Nazaré, particularmente hoje: no dia da natividade da Mãe de Cristo.

Talvez essa luz, que procede da tradição da casa nazaretana em Loreto, realize alguma coisa ainda mais profunda: faça que todo este país, que a vossa pátria, se torne uma como grande casa familiar. Grande casa, habitada por grande comunidade, cujo nome é "Itália". É necessário retroceder na realidade histórica, mesmo talvez até à realidade pré-histórica, para chegar às suas raízes longínquas. Um estrangeiro como eu, que tem consciência da realidade "que forma a história da própria nação, interna-se nesta realidade com especial respeito e com atenção cheia de recolhimento. Mas como se desenvolve, a partir das suas raízes antiquíssimas, esta grande comunidade humana, cujo nome é "Itália"? Com que laço, os homens, que hoje a constituem, estão unidos hoje àquelas gerações que passaram através da terra, desde os tempos da antiga Roma até aos tempos presentes? O Sucessor de Pedro, cujo lugar se mantém nesta terra desde os tempos da Roma imperial, sendo testemunha de tantas mudanças e, ao mesmo tempo, de toda a história da vossa terra, tem o direito e o dever de se propor tais perguntas.

E tem o direito de assim perguntar o Papa que é filho doutra terra, o Papa cujos compatriotas jazem aqui em Loreto, no cemitério de guerra. Sabe todavia porque é que eles caíram aqui. O antigo adágio romano "pro aris et focis" explica-o no melhor dos modos. Caíram por cada altar da fé e por cada família na terra natal, que desejavam preservar da destruição. Pois, em meio de todas as alternativas da história, cujos protagonistas são os homens, e sobretudo os povos e as nações, permanece sempre a casa, como arca da aliança das gerações e garantia dos valores mais profundos: dos valores humanos e divinos. Por isso, a família e a pátria, a fim de preservarem estes valores, não poupam nem sequer os próprios filhos.
Casa de Nossa Senhora no interior da Basílica. As pedras originais
estão recobertas por obras artísticas.

5. Como vedes, caros Irmãos e Irmãs, venho aqui a Loreto para reler o misterioso destino do primeiro santuário mariano na terra italiana. Na verdade, a presença da Mãe de Deus no meio dos filhos da família humana, e no meio de cada nação da terra em particular, diz-nos tanta coisa das nações e mesmo das comunidades!

E venho, ao mesmo tempo, no período de preparação para um importante encargo, que me convém tomar, a seguir ao convite do Secretário-Geral da ONU, diante do alto foro da mais representativa Organização do mundo contemporâneo. Venho procurar aqui neste Santuário, pela intercessão de Maria, nossa Mãe, a luz. Já no domingo último pedi em Castel Gandolfo, durante o encontro do Angelus, que se ore pelo Papa e pela sua missão cheia. de responsabilidades no foro da ONU. Hoje repito e renovo uma vez mais essa petição.

Trata-se, na verdade, de trabalhar e colaborar para que na terra, que a Providência destinou a ser a habitação dos homens, a casa de família, símbolo da unidade e do amor, ela vença tudo quanto ameaça esta unidade e o amor entre os homens: o ódio, a crueldade, a destruição e a guerra. Para esta casa familiar se tornar a expressão das aspirações dos homens, dos povos, das nações e da humanidade — apesar de tudo, o que lhe é contrário, que a elimina da vida dos homens, das nações e da humanidade, que abala os seus fundamentos, quer sócio-económicos quer éticos, porque sobre uns e sobre outros é que se baseia cada casa: seja a que para si constrói cada família, seja também a que, com o esforço de gerações inteiras, para si constróem os povos e as nações: a casa da própria cultura, da própria história; a casa de todos e a casa de cada um.

6. Eis a inspiração que encontro aqui, em Loreto. Eis o imperativo moral que daqui desejo levar comigo. Eis, ao mesmo tempo, o problema, que exatamente diante da tradição da Casa de Nazaré e diante do rosto da Mãe de Cristo em Loreto, desejo recomendar e confiar, de modo especial, ao seu maternal Coração, à sua omnipotência de intercessão ("omnipotentia supplex").

Assim como já fiz em Guadalupe, no México, e depois na polaca Jasna Gora (Monte Claro) em Czestochowa, desejo neste encontro de hoje em Loreto recordar aquela consagração ao Coração Imaculado de Maria que, há vinte anos, fizeram os Pastores da Igreja italiana, em Catânia, a 13 de Setembro de 1959, no encerramento do 16° Congresso Eucarístico Nacional. E desejo referir as palavras que, naquela ocasião, dirigiu aos fiéis o meu Predecessor João XXIII de venerada memória, na sua mensagem radiofónica: "Nós confiamos que, em virtude desta homenagem à Virgem Santíssima, os Italianos todos, com renovado fervor, venerem n'Ela a Mãe do Corpo Místico, de que é a Eucaristia símbolo e centro vital; imitem n'Ela o modelo mais perfeito da união com Jesus, nossa Cabeça; a Ela se unam na oferta da Vítima divina, e da sua maternal intercessão implorem, para a Igreja, os dons da unidade e da paz, sobretudo mais viçoso e fiel florescer de vocações sacerdotais. Deste modo, a consagração tornar-se-á motivo de empenho cada vez mais sério na prática das virtudes cristãs, que é defesa eficacíssima contra os males que as ameaçam e fonte de prosperidade mesmo temporal, segundo as promessas de Cristo" (João XXIII).

Tudo quanto, há vinte anos, foi expresso no ato de consagração a Maria, realizado pelos Pastores da Igreja italiana, hoje desejo eu não só recordar, mas também, com todo o coração, repetir, renovar e fazer propriedade minha, em certo modo, já que, em virtude dos imperscrutáveis decretos da Providência, me tocou aceitar o património dos Bispos de Roma na Sé de São Pedro.

7. E faço-o com a mais profunda convicção da fé, da inteligência e do coração juntamente. Porque na nossa difícil época, e também nos tempos que virão, só pode salvar o homem o verdadeiro e grande Amor.

Só graças a ele esta terra, habitação da humanidade, pode tornar-se uma casa: a casa das famílias. a casa das nações e a casa da humanidade inteira. Sem amor, sem o grande e verdadeiro Amor, não há casa para o homem na terra. O homem seria condenado a viver privado de tudo, mesmo que erguesse os mais esplêndidos edifícios e os mobilasse o mais modernamente possível.

Aceitai, ó Senhora de Loreto, ó Mãe da Casa de Nazaré, esta minha e nossa peregrinação, que é grande oração comum pela casa do homem da nossa época: pela casa que prepara os filhos da terra inteira para a eterna casa do Pai, no céu. Ámen.

11 de out. de 2011

Mulher, eis aí o teu filho!


Cristo na cruz, entre Nossa Senhora e São João,
pintura de Jan Van Eick.

"Mulher, eis aí o teu filho!" (Jo 19, 26) Quando já se aproxima o termo deste Ano Jubilar, no qual Tu, ó Mãe, nos deste novamente Jesus, o fruto bendito do teu ventre puríssimo, o Verbo encarnado, o Redentor do mundo, é-nos particularmente doce ouvir esta palavra com que Ele nos entrega a Ti, tornando-Te nossa Mãe: "Mulher, eis aí o teu filho!" Confiando-Te o apóstolo João, e com ele os filhos da Igreja, e mesmo  todos os homens, Cristo, longe de atenuar, reiterava o seu papel exclusivo de Salvador do mundo.


Tu és esplendor que nada tira à luz de Cristo, porque existes n'Ele e por Ele. Em Ti, tudo é um "fiat", "faça-se": Tu és a Imaculada, és transparência e plenitude de graça. Assim, eis aqui os teus filhos, congregados ao teu redor, ao alvorecer do novo Milénio. 

A Igreja, hoje, pela voz do Sucessor de Pedro, à qual se junta a de tantos Pastores aqui reunidos das várias partes do mundo, procura refúgio sob a tua materna proteção e implora confiadamente a tua intercessão perante os desafios que o futuro encerra.

Muitos, neste ano de graça, viveram e continuam a viver a alegria superabundante da misericórdia que o Pai nos concedeu em Cristo. Nas Igrejas particulares espalhadas pelo mundo, e ainda mais neste centro da  cristandade, acolheram este dom as mais variadas categorias de pessoas. Aqui vibrou o entusiasmo dos jovens, daqui se elevou a súplica dos doentes. Por aqui passaram sacerdotes e religiosos, artistas e jornalistas, os homens do trabalho e da ciência, crianças e adultos, e todos reconheceram, no teu amado Filho, o Verbo de Deus, feito carne no teu seio.

Com a tua intercessão, ó Mãe, faz que não se percam os frutos deste Ano, e que as sementes de graça se desenvolvam até à medida plena da santidade à qual todos somos chamados.

Queremos, hoje, consagrar-Te o futuro que nos espera, pedindo-Te que nos acompanhes no nosso caminho. Somos homens e mulheres dum período extraordinário, tão cheio de triunfos como de contradições. A humanidade possui, hoje, instrumentos de força inaudita: pode fazer deste mundo um jardim, ou reduzi-lo a um amontoado de ruínas. Conseguiu uma capacidade extraordinária de intervenção sobre as próprias fontes da vida: pode usá-la para o bem, dentro das margens da lei moral, ou ceder ao orgulho míope duma ciência que não aceita confins, até espezinhar o respeito devido a todo o ser humano. Hoje, como nunca no passado, a humanidade encontra-se numa encruzilhada. E, uma vez mais, a salvação está total e unicamente, ó Virgem Santa, no teu Filho Jesus. 

Por isso, Mãe, tal como o Apóstolo João, queremos receber-Te na nossa casa (cf. Jo 19, 27), para aprendermos de Ti a conformar-nos com o teu Filho. "Mulher, eis aqui os teus filhos!" Viemos à tua presença para consagrar à tua solicitude materna nós mesmos, a Igreja, o mundo inteiro. Intercede por nós junto do teu amado Filho para que nos dê o Espírito Santo em abundância, o Espírito de verdade que é fonte de vida. 

Acolhe-O por nós e conosco, como na primeira comunidade de Jerusalém, aconchegada ao teu redor no dia de Pentecostes (cf. At 1, 14). O Espírito abra os corações à justiça e ao amor, incite os indivíduos e as nações à mútua compreensão e a uma vontade firme de paz..Nós Te consagramos todos os homens, a começar pelos mais débeis: as crianças que ainda não foram dadas à luz e as nascidas em condições de pobreza e de sofrimento, os jovens à procura de um sentido, as pessoas carecidas de emprego e atribuladas pela fome e pela doença. Consagramos-Te as famílias em crise, os anciãos sem assistência e quantos vivem sozinhos e sem esperança. 

Ó Mãe que conheces os sofrimentos e as esperanças da Igreja e do mundo, assiste os teus filhos nas provas quotidianas que a vida reserva a cada um e faz com que, graças ao esforço de todos, as trevas não prevaleçam sobre a luz.  

A Ti, aurora da salvação, entregamos o nosso caminho no novo Milénio, para que, sob a tua guia, todos os homens descubram Cristo, luz do mundo e único Salvador, que reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amem. 

-- Homília durante o Ato de Consagração à Maria, Papa João Paulo II, em 8 de Outubro de 2000.

27 de jun. de 2011

Defesa da maternidade divina da Virgem Maria

Causa-me profunda admiração haver alguns que duvidam em dar à Virgem Santíssima o título de Mãe de Deus. Realmente, se nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, por que motivo não pode ser chamada de Mãe de Deus a Virgem Santíssima que o gerou? Esta verdade nos foi transmitida pelos discípulos do Senhor, embora não usassem esta expressão. Assim fomos também instruídos pelos Santos Padres. Em particular, Santo Atanásio, nosso pai na fé, de ilustre memória, na terceira parte do livro que escreveu sobre a santa e consubstancial Trindade, dá frequentemente à virgem Santíssima o título de Mãe de Deus.

Vejo-me obrigado a citar aqui suas palavras, que têm o seguinte teor: “a Sagrada Escritura, como tantas vezes fizemos notar, tem por finalidade e característica afirmar de Cristo Salvador estas duas coisas: que ele é Deus e nunca deixou de o ser, visto que é o Verbo do Pai, seu esplendor e sabedoria; e também que nestes últimos tempos, por causa de nós, se fez homem, assumindo um corpo da virgem Maria, Mãe de Deus”.

E continua mais adiante: “Houve muitos que já nasceram santos e livres de todo pecado. Por exemplo: Jeremias foi santificado desde o seio materno; também João, antes de ser dado à luz, exultou de alegria ao ouvir a voz de Maria, Mãe de Deus”. Estas palavras são de um homem inteiramente digno de lhe darmos crédito, sem receio, e a quem podemos seguir com toda segurança. Com efeito, ele jamais pronunciou uma só palavra que fosse contrária às Sagradas Escrituras.

De fato, a Escritura, verdadeiramente inspirada por Deus, afirma que o Verbo de Deus se fez carne, quer dizer, uniu-se à carne dotada de alma racional. Portanto, o Verbo de Deus assumiu a descendência de Abraão e, formando para si um corpo vindo de uma mulher, tornou-se participante da carne e do sangue. Assim, já não é somente Deus mas homem também, semelhante a nós, em virtude da sua união com a nossa natureza.

Por conseguinte, o Emanuel, Deus-conosco, possui duas realidades, isto é, a divindade e a humanidade. Todavia, é um só o Senhor Jesus Cristo, único e verdadeiro Filho por natureza, ainda que ao mesmo tempo Deus e homem. Não é apenas um homem divinizado, igual àqueles que pela graça se tornam participantes da natureza divina; mas é verdadeiro Deus, que para nossa salvação, se tornou visível em forma humana, conforme Paulo testemunha com as seguintes palavras: Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, a fim de resgatar os que estavam sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva (Gl 4,4-5).

-- Das Cartas de São Cirilo de Alexandria, século IV

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...