4 de fev de 2013

Sobre a Interpretação dos Salmos - parte II


Capítulo I

Todavia, isto de assombroso e maravilhoso tem os Salmos: ao ler os demais livros, aqueles que dizem os santos e o objeto de seus discursos, os leitores o relacionam com o argumento do livro, os ouvintes se sentem estranhos ao relato, de modo que as ações recordadas suscitam mera admiração ou o simples desejo de rivalizá-las. Aqueles que, por outro lado, abrem o livro dos Salmos recorrem, com a admiração e o assombro costumeiros, às profecias sobre o Salvador contidas já nos restantes livros, porém lêem os salmos como se fossem pessoais. O ouvinte, igual ao autor, entra em clima de compulsão, apropriando-se as palavras dos cânticos como se fossem suas. Para ser mais claro, não vacilaria, igual que o benaventurado Apóstolo, em retomar o dito: "Os discursos pronunciados em nome dos patriarcas, são numerosos; Moisés falava e Deus respondia; Elias e Eliseu, estabelecidos sobre a montanha do Carmelo, invocavam sem cessar ao Senhor, dizendo: 'Vive o Senhor, em cuja presença estou hoje!'" (1Rs 17,1; 2Rs 3,4). As palavras dos demais santos profetas têm por objeto o Salvador, e um certo número se referem aos pagãos e a Israel. Contudo, nenhuma pessoa pronunciaria as palavras dos patriarcas como se fossem suas, nem ousaria imitar e pronunciar as mesmas palavras que Moisés, nem as de Abraão acerca de sua escrava e Ismael ou as referentes ao grande Isaac; por necessário ou útil que fosse, nada se animaria a dizê-las como próprias. Ainda que um se compadecesse dos que sofrem e desejasse o melhor, jamais diria como Moisés: "Mostra-te a mim!" (Ex 33,13), ou tampouco: "Se perdoas seu pecado, perdoado serás; se não o perdoas, apaga-me do livro que tu escreveste" (Ex 33,12). Ainda no caso dos profetas, nada empregaria pessoalmente seus oráculos para elogiar ou repreender aqueles que se assemelham por suas ações aos que eles repreendiam ou elogiavam; ninguém diria: "Vive o Senhor, em cuja presença estou hoje!" Quem toma em suas mãos esses livros, vê claramente que as ditas palavras devem ler-se não como pessoais, mas sim como pertencentes aos santos e aos objetos dos quais falam. Os Salmos - coisa estranha! - salvo o que concerne ao Salvador e às profecias sobre os pagãos, são para o leitor palavras pessoais: cada um as canta como escritas para ele e não as toma nem as recorre como escritas por outro, nem tampouco referentes a outro. Suas disposições (de ânimo) são as de alguém que fala de si mesmo. O que diz, o orador o eleva até Deus como se fora ele quem falara e atuara. Não experimenta temor algum diante destas palavras, como diante às dos patriarcas, de Moisés ou dos outros profetas, senão por bem, considerando-as como pessoais e escritas referidas a ele, encontra a coragem para proferi-las e cantá-las. Seja que um cumpra ou quebre os mandamentos, os Salmos se aplicam a ambos. É necessário, em qualquer caso, seja como transgressor, seja como cumpridor, ver-se como obrigado a pronunciar as palavras escritas sobre cada qual.
Davi tocando harpa, Jan de Bray

Capítulo II

[As palavras dos Salmos] me parecem que são para quem as canta, como um espelho no qual se refletem as emoções da sua alma para que assim, sob seu efeito, possa recitá-las. Até quem somente os escuta, percebe o canto como referido a ele: ou convencido por sua consciência e, afligido, se arrepende; ou ouvindo falar da esperança em Deus e do auxilio concedido aos crentes, se alegra de que lhe haja sido outorgado e prorrompe em ações de graças a Deus. Assim, por exemplo, canta alguém o salmo terceiro? Refletindo sobre suas próprias atribulações, se apropriaria das palavras do salmo. Assim mesmo, lerá ao 11 e ss. e ao 16 e ss. de acordo com a sua confiança e oração; o recitado do 50 e ss. será expressão de sua própria penitência; o 53 e ss., 55 e ss., 100 e ss. e o 41ss. expressam seus sentimentos sobre a perseguição de que ele é objeto; são suas palavras as que canta ao Senhor. Assim pois, cada salmo, sem entrar em maiores detalhes, pode-se dizer que está composto e é proferido pelo Espírito, de modo que nessas mesmas palavras, como já o disse antes, podemos captar os movimentos da nossa alma e nos faz dizer como provenientes de nós mesmos, como palavras nossas, para que, trazendo à memória nossas emoções passadas, reformemos a nossa vida espiritual. O que os salmos dizem pode servir-nos de exemplo e de padrão de medida.

Capítulo III

Isto também é dom do Salvador: feito homem por nós, ofereceu por nós seu corpo à morte, para livrar-nos a todos da morte. Querendo mostrar-nos sua maneira celestial e perfeita de viver, a criou em si mesmo para que não sejamos já facilmente enganados pelo inimigo, já que temos uma prenda segura na vitoria que em favor nosso obteve sobre o diabo. É por esta razão que não só ensinou, mas também praticou seu ensinamento, de modo que cada um o escute quando fala e, olhando-o, como se observa a um modelo, aceite dele o exemplo, como quando diz: "Aprendam comigo, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11,29). Não poderá existir ensinamento mais perfeito da virtude que a realizada pelo Salvador em sua própria pessoa: paciência, amor à humanidade, bondade, fortaleza, misericórdia, justiça, tudo o encontramos nele e nada temos que esperar, quanto a virtudes, ao observar detidamente sua vida. Paulo o dizia claramente: "Sejam imitadores meus, como eu o sou de Cristo" (1Cor 11,1). Os legisladores, entre os gregos, tem graça unicamente para legislar; o Senhor, qual verdadeiro Senhor do universo, preocupado por sua obra, não somente legisla, mas também se dá como modelo para que aqueles que o desejam, saibam como atuar. Ainda antes de sua vinda entre nós, o colocou manifesto nos Salmos, de maneira que igual que nos proveu da imagem acabada do homem terreno e celestial em sua própria pessoa; também nos Salmos, aquele que o deseja, pode aprender e conhecer as disposições da alma, encontrando como curá-las e retificá-las.

Capítulo IV

Falando com maior precisão, pontualizemos então que se toda a Escritura divina é mestra de virtude e de fé autêntica, o livro dos Salmos oferece, ademais, um perfeito modelo de vida espiritual. Igual a quem se apresenta diante de um rei e assume as corretas atitudes corporais e verbais, não seja que apenas abra a boca, seja arrojado fora por sua falta de compostura, também a aquele que corre até a meta das virtudes e deseja conhecer a conduta do Salvador durante sua vida mortal; o sagrado Livro o conduz primeiro, através da leitura, à consideração dos movimentos da alma e, a partir daí, vai representando sucessivamente o resto, ensinando aos leitores graças a ditas expressões. Neste livro, chama a atenção que alguns salmos contenham narrações históricas, outros admoestações morais, outros profecias, outros súplicas e outros, todavia, confissão.

  • Na forma de narração, temos os seguintes salmos: 18; 43; 48; 49; 72; 76; 88; 89; 106; 113; 126; e 136.
  • Em forma de oração, temos os salmos: 16; 67; 89; 101; 131; e 141.
  • Os proferidos como súplica, petição instante, são os salmos: 5; 6; 7; 11; 12; 15; 24; 27; 30; 34; 37; 42; 53; 54; 55; 56; 58; 59; 60; 63; 82; 85; 87; 137; 139; e 142.
  • Em forma de súplica junto com ação de graças, temos o salmo 138.
  • Entre os que só suplicam, temos os salmos: 3; 25; 68; 69; 70; 73; 78; 79; 108; 122; 129; e 130.
  • Em forma de confissão, temos os salmos: 9; 74; 91; 104; 105; 106; 107; 110; 117; 135; e 137.
  • Aqueles que entrelaçam narração com confissão, são os salmos: 9; 74; 105; 106; 117; 135; e 137.
  • Um salmo que combina confissão com narração e ação de graças é o 110.
  • Tem forma de admoestação o salmo 36.
  • Os salmos que contém profecia são: 20; 21; 44; 46; e 75.
  • No 109 temos anunciação junto com profecia.
  • Os salmos que exortam e prescrevem, e como que ordenam, são: 28; 32; 80; 94; 95; 96; 97; 102; 103; e 113.
  • O salmo 149 combina exortação com louvor.
  • Descrevem a vida ornada pela virtude os salmos: 104; 111; 118; 124; e 132.
  • Aqueles que expressam louvor são: 90; 112; 116; 134; 144; 145; 146; 148; e 150.
  • São salmos de ação de graças: 8; 9; 17; 33; 45; 62; 76; 84; 114; 115; 120; 121; 123; 125; 128; e 143.
  • Aqueles que anunciam uma promessa de bem-aventurança são: 1; 31; 40; 118; e 127.
  • Demonstrativo de alegre prontidão com (acréscimo) de cântico: o 107.
  • Outro há que exorta à fortaleza: o 80.
  • Temos os que reprovam aos ímpios e iníquos, como os: 12; 13; 35; 51; e 52.
  • O salmo 4 é uma invocação.
  • Aqueles salmos que falam [do cumprimento] de votos, são: o 19 e o 63.
  • Tem palavras de glorificação ao Senhor: 22; 26; 38; 39; 41; 61; 75; 83; 96; 98 e 151.
  • Acusações escritas para provocar vergonha são: o 57 e o 81.
  • Se encontram acentos hímnicos nos: 47 e 64.
  • O salmo 65 é um canto de júbilo e se refere à ressurreição.
  • Outro, o 99, é unicamente canto de júbilo.
Capítulo V

Estando, então, os salmos dispostos acima ordenados desta maneira, é possível aos leitores - como já o disse antes - descobrir em cada um deles os movimentos e a constituição de sua alma, do mesmo modo que descobrem o gênero e o ensinamento que cada um lhes transmitem.

Igualmente se pode aprender deles as palavras a dizer para agradar o Senhor, ou com quais palavras expressar o desejo de corrigir-se e arrepender-se ou de dar-lhe graças. Tudo isto impede, ao que recita literalmente estas expressões, cair na impiedade. Já que não somente tenhamos de dar a razão das nossas obras ao Juiz (Supremo), como também de toda palavra inútil (Mt 12,36):

  • Se queres bendizer a alguém, aprendes como fazê-lo e em nome de quem, nos salmos 1; 31; 40; 11; 118 e 127.
  • Se desejas censurar as conjurações dos judeus contra o Salvador, aí tens o segundo (salmo 2) de nossos poemas.
  • Se os teus te perseguem e muitos se levantam contra ti, recita o terceiro (salmo 3).
  • Se estando aflito, invocaste ao Senhor e porque te escutou queres dar-lhe graças, entoa o 4, ou o 74, ou o 114.
  • Se a ti basta que os malfeitores te preparam armadilhas e queres que bem de manhã tua oração chegue a seus ouvidos, recita o 5.
  • Se a ameaça de castigo do Senhor te intranquiliza, podes recitar o 6 ou o 37.
  • Profeta Davi, Fra Angelico
  • Se alguns se reúnem para tramar algo contra ti, como o fez Ajitófel contra Davi, e chega a teus ouvidos, canta o salmo 7 e confia no Senhor em te defender.
Capítulo VI

  • Se, observando a extensão universal da graça do Salvador e a salvação do gênero humano, queres conversar com Deus, canta o salmo 8.
  • Queres entoar o cântico da vindima, para dar graças ao Senhor? Tens novamente a tua disposição o 8 e também o 83.
  • Em honra à vitoria sobre os inimigos e a liberação da criatura, sem vangloriar-se, e sim reconhecendo que estes feitos magníficos são obra do Filho de Deus, recita o já mencionado salmo 9.
  • Se alguém quer confundir-te ou assustar-te, tem confiança no Senhor e repete o salmo 10.
  • Ao observar a soberba de tantos e como o mal cresce, ao ponto que já não há ações santas entre os homens, busca refúgio no Senhor e diga o salmo 11.
  • Prolongam os inimigos seus ataques? Não desesperes como se Deus te esquecera, e sim invoca-o cantando o salmo 12.
  • Não te associes de modo algum com os que blasfemam impiamente contra a Providência, mas bem suplica ao Senhor recitando os salmos 13 e 52.
  • Aquele que queira aprender quem é o cidadão do reino dos céus deve dizer o salmo 14.
Capítulo VII

  • Necessitas orar porque teus adversários assediam tua alma? Canta os salmos 16; 85; 87 e 140.
  • Se quiseres saber como rezava Moisés, aí tens o salmo 89.
  • Foste libertado de teus inimigos e perseguidores? Canta o salmo 17.
  • Te maravilham a ordem da criação e a providente graça que nela resplandece, como também os preceitos santos da Lei? Canta então o 18 e o 23.
  • Vendo sofrer os atribulados, consola-os orando e recitando-lhes as palavras do salmo 19.
  • Vês que o Senhor te conduz e pastoreia, guiando-te pelo caminho reto, alegra-te dele e salmodia o 22!
  • Te submergem os inimigos? Eleva tua alma até Deus salmodiando o 24 e vejas que os iníquos caem malogrados.
  • Te cercam os inimigos, tendo suas mãos totalmente manchadas de sangue, e não buscam mais que perder-te e confundir-te? Então, não confies tua justiça a um homem - toda justiça humana é suspeita! - mas peça ao Senhor que te faça justiça, já que ele é o único Juiz, recitando o 25; 34 ou 42.
  • Quando te assaltam violentamente os inimigos e se congregam como um exército e te depreciam como se ainda não estivesses ungido, e por isso te façam a guerra, não temas, canta muito o salmo 26.
  • A natureza humana é débil, e se [apesar dela] os perseguidores se fazem tão desavergonhados e insistem, não lhes faças caso, suplica em troca ao Senhor com o salmo 27.
  • Se queres aprender como oferecer sacrifícios ao Senhor com ação de graças, recita então com inteligência espiritual o salmo 28.
  • Se dedicas e consagras tua casa, isto é, tua alma que hospeda ao Senhor, como também a casa corpórea na que moras fisicamente, recita com ação de graças o 29 e, entre os salmos graduais, o 126.
Capítulo VIII

  • Se vês que és depreciado e perseguido por amigos e conhecidos à causa da verdade, não perdas o ânimo por isso, nem temas aos que se te opõem, e sim, aparta-te deles e, contemplando o futuro, salmodia o 30.
  • Se ao ver aos batizados e resgatados de sua vida corruptível, ponderas e admiras a misericórdia de Deus, canta em te favor tuas louvações com o salmo 31.
  • Se desejas salmodiar em companhia de muitos, reúne os homens justos e probos, e recita o 32.
  • Se caíste vítima de teus inimigos e sagazmente pudeste evitar seus assédios, reúne os homens mansos e recita em sua presença o salmo 33.
  • Se vês o céu para cometer o mal que impera entre os transgressores da Lei, não penses que a maldade é algo natural neles, como o afirmam os hereges, e sim recita o 35 e te convenças de que a eles lhes correspondem a responsabilidade pelo pecado.
  • Se vês os malvados cometerem muitas iniquidades e avalentarem-se contra os humildes, e queres exortar a alguém que nem se junte com os iníquos, nem lhes tenha inveja, pois seu porvir será a queda, então dê para ti mesmo e para os outros o 36.
Capítulo IX

  • Se, por outro lado, querendo prestar atenção à tua própria pessoa, e vendo que o inimigo se dispõe a atacar-te - pois lhe agrada provocar a este tipo de pessoas - querendo fortalecer-te contra ele, canta o salmo 38.
  • Se tendo que suportar ataques dos perseguidores, queres aprender as vantagens da paciência, recita então o 39.
  • Quando vendo multidão de pobres e mendigos, queres mostrar-te misericordioso com eles, serás capaz de sê-lo graças à recitação do salmo 40, já que com ele elogias aos que já atuaram compassivamente, e exortas aos demais a que ajam de igual maneira.
  • Se ansiando buscar a Deus, escutas as burlas dos adversários, não te perturbes, mas considerando a recompensa eterna de tal nostalgia, consola tua alma com a esperança em Deus, e, superados os pesares que te afligem nesta vida, entoa o salmo 41.
  • Se não queres deixar de recordar os inumeráveis benefícios que o Senhor outorgou a teus pais, como o êxodo do Egito e a estadia no deserto, e que bom é Deus e quão ingratos os homens, tens os salmos 43; 77; 88; 104; 105; 106 e 113.
  • Se havendo-te refugiado em Deus, poderoso defensor no perigo, queres dar-lhe graças e narrar suas misericórdias para contigo, tens o 45.
Capítulo X
  • Pecaste, sentes vergonha, buscas fazer penitência e alcançar misericórdia? Encontrarás palavras de arrependimento e confissão no salmo 50.
  • Ainda assim deves suportar calunias por parte de um rei iníquo, e vês como se encoraja o caluniador, alija-te dali e usa as expressões que encontras no 51.
  • Se te atacam, te acossam e querem trair-te, entregando-te à justiça, como o fizeram zifeos e filisteus com Davi, não perdas o valor: tem ânimo, confia no Senhor e louvai-o com as palavras dos salmos 53 e 55.
  • A perseguição te sobrevem, cai sobre ti e, sem sabê-lo, penetra inesperadamente na cova que te escondias, nem assim temas, pois ainda nesse aperto encontraras palavras de consolo e de memorial indelével nos salmos 56 e 141.
  • Se quem te persegue dá a ordem de vigiar tua casa, e tu, apesar de tudo, logras escapar, dá graças a Deus, e inscreve o agradecimento em teu coração, como sobre uma estrela indelével, em memória de que não pereceste e entoa o salmo 58.
  • Se os inimigos que te afligem proferem insultos, e os que aparentavam ser amigos lançam acusações contra ti, e isto perturba tua oração por um breve tempo, reconforta-te louvando a Deus e recitando as palavras do 54.
  • Contra os hipócritas e os que se vangloriam descaradamente, recita - para vergonha sua - o salmo 57.
  • Contra os que arremetem selvagemente contra ti e querem arrebatar-te a alma, contraponha tua confiança e adesão ao Senhor; quanto mais se encorajem eles, tanto mais descansa nele, recitando o 61.
  • Se perseguido, retira-te para o deserto e nada temas por estar ali só, pois tens a Deus junto de ti, a quem, muito de madrugada, podes cantar-lhe o 62.
  • Se te aterrorizam os inimigos e não cessam em conjurarem contra ti, buscando-te sem descanso, ainda que sejam muitos, não te aflijas, já que seus ataques serão como feridas causadas por flechas atiradas por crianças; entoa, então (confiante), os salmos 63; 64; 69 e 70.
Davi tocando cítara, Andrea Celesti
Capítulo XI

  • Se desejas louvar a Deus recita o 64.
  • E quando queiras catequizar alguém acerca da ressurreição, entoa o 65.
  • Imploras a misericórdia do Senhor? Louva-o salmodiando o 66.
  • Se vês que os malvados prosperam gozando de paz e os justos, em troca, vivem em aflição, para não tropeçar nem escandalizar-te, recita também tu o 72.
  • Quando a ira de Deus se inflama contra o povo, tenhas palavras sábias para seu consolo no 73.
  • Se andas necessitado de confissão, salmodia o 9; 74; 91; 104; 105; 106; 107; 110; 117; 125 e 137.
  • Queres confundir e envergonhar os pagãos e hereges, demostrando que nem um só deles possui o conhecimento de Deus, e sim unicamente a Igreja Católica? Podes, se assim o pensas, cantar e recitar inteligentemente as palavras do 75.
  • Se teus inimigos te perseguem e te cortam toda possibilidade de fuga, ainda que estejas muito afligido e grandemente confundido, não desesperes, e sim clama; e se teu grito é escutado, dá graças a Deus recitando o 76.
  • Porém, se os inimigos persistem e invadem e profanam o templo de Deus, matando os santos e arremessando seus cadáveres às aves do céu, não te deixes intimidar nem temas sua crueldade, e sim compadece com os que padecem e ora a Deus com o salmo 78.
Capítulo XII

  • Se desejas louvar ao Senhor em dia de festa, convoca os servos de Deus e recita os salmos 80 e 94.
  • E se novamente os inimigos todos, se reúnem, assaltando-te por todas as partes, proferindo ameaças até à casa de Deus e aliando-se contra a piedade, não te amedrontes por sua multidão ou seu poder, já que tens uma âncora de esperança nas palavras do salmo 82.
  • Se vendo a casa do Senhor e seus tabernáculos eternos, sentes nostalgia por eles, como tinha o Apóstolo, recita o salmo 83.
  • Quando havendo cessado a ira e terminado o cativeiro, quiseras dar graças a Deus, tens o 84 e o 125.
  • Se quiseres saber a diferença que medeia entre a Igreja católica e os cismáticos, e envergonhar estes últimos, podes pronunciar as palavras do 86.
  • Se quiseres exortar-te a ti e a outros, a render culto verdadeiro a Deus, demostrando que a esperança em Deus não fica confundida, e sim que, ao contrário, a alma fica fortalecida, louva a Deus recitando o 90.
  • Desejas salmodiar o Sábado? Tens o 91.
Capítulo XIII

  • Queres dar graças no dia do Senhor? Tens o 23; ou, desejas fazê-lo no segundo dia da semana? Recita o 47.
  • Queres glorificar a Deus no dia de preparação? Tens o louvor do 92.
  • Porque então, quando ocorreu a crucifixão, foi edificada a casa ainda que os inimigos trataram de rodeá-la, é conveniente cantar como cântico triunfal o que se enuncia no 92.
  • Se te sobrevindo o cativeiro, e a casa, sendo derrubada, volta a ser edificada, canta o que se contém no 95.
  • A terra se livrou dos guerreiros e apareceu a paz: reina o Senhor e tu queres fazê-lo objeto de teus louvores, aí tens o 96.
  • Queres salmodiar o quarto dia da semana? Faça-o com o 93; pois num dia como esse foi o Senhor entregue e começou a assumir e executar o juízo contrário à morte, triunfando confiadamente sobre ela. Se lês o Evangelho, verás que no quarto dia da semana os judeus se reuniram em Conselho contra o Senhor, e também verás que com todo valor começou a procurar-nos justiça contra o diabo: salmodia, com respeito a tudo isto, com as palavras do 93.
  • Se, ademais, observas a providência e o poder universal do Senhor, e queres instruir a alguns na obediência e na fé, exorta-os diante de tudo a confessar decididamente, salmodiando o 99.
  • Se tens reconhecido o poder de seu juízo, quer dizer que Deus julga temperando a justiça com sua misericórdia, e queres acercar-te dele, tens para este propósito as palavras do 100 entre os salmos.
Capítulo XIV

  • Nossa natureza é débil... se as angústias da vida te fizeram similar a um mendigo, e sentindo-te exausto buscas consolo, entoa o 101.
  • É conveniente que sempre e em todo lugar demos graças a Deus... se desejas bendizê-lo, estimula tua alma recitando o 102 e o 103.
  • Queres louvar a Deus e saber, como, por que motivos e com quais palavras fazê-lo? Tens o 104; 106; 134; 145; 146; 147; 148 e 150.
  • Prestas fé ao que disse o Senhor e tens fé nas palavras que tu mesmo dizes quando rezas? Profere o 115.
  • Sentes que vais progredindo gradualmente em tuas obras, de modo que podes fazer tuas as palavras: "esquecendo o que fica atrás de mim, me lanço até o que está adiante" (Fil 3,13)? Podes então entoar para cada um dos degraus de teu adiantar um dos quinze salmos graduais.
Capítulo XV

  • Tens sido conduzido ao cativeiro por pensamentos estranhos e te achas nostalgicamente puxado por eles? Te embarga o arrependimento, desejas não cair no futuro e, ainda assim, segues cativo deles? Senta-te, chora, e como o fez Anato ao povo, pronuncia as palavras do 136!
  • És tentado e, assim, sondado e provado? Se quando superada a tentação quiseres dar graças, utiliza o salmo 138.
  • Te achas novamente acossado pelos inimigos e queres ser libertado? Pronuncia as palavras do 139.
  • Desejas suplicar e orar? Salmodia o 5 e o 142.
  • Se alçado o tirânico inimigo contra o povo e contra ti, ao modo de Golias contra Davi, não temas: tenha fé, e como Davi, salmodia o 143.
  • Se maravilhado pelos benefícios que Deus outorgou a todos e também a ti, queres bendizê-lo, repete as palavras que Davi disse no 144.
  • Queres cantar e louvar ao Senhor? O que deves entoar está nos salmos 92 e 97.
  • Ainda sendo pequeno, tens sido preferido a teus irmãos e colocado sobre eles? Não te vanglories nem te encoraje-se contra eles, e sim atribuindo a glória a Deus, que te elegeu, salmodia o 151, que é um poema genuinamente davídico.
  • Suponhamos que desejas entoar os salmos que resumem o louvor a Deus, e que vão encabeçados pela Aleluia, podes usar: o 104; 105; 106; 111; 112; 113; 114; 115; 116; 117; 118; 134; 135; 145; 146; 147; 148; 149 e o 150.
Capítulo XVI

Se ao salmodiar queres destacar o que se refere ao Salvador, encontrarás referências praticamente em cada salmo; assim, por exemplo:

  • Tens o 44 e o 100, que proclamam tanto sua geração eterna do Pai como sua vinda na carne;
  • O 21 e o 68 que preanunciam a cruz divina, como também todos os padecimentos e perseguições que suportou por nós;
  • O 2 e o 108 que apregoam a maldade e as perseguições dos judeus e a traição de Judas Iscariotes;
  • O 20, 49 e 71 proclamam seu reinado e sua potestade de julgar, como também sua manifestação a nós na carne e a vocação dos pagãos.
  • O 15 anuncia sua ressurreição dentre os mortos;
  • O 23 e 46 anunciam sua ascensão aos céus.
  • Ao ler o 92, 95, 97 ou 98, cais na conta e contemplas os benefícios que o Salvador nos outorgou graças a seus padecimentos.

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