11 de mai de 2014

Ordenação, o casamento com a noiva Igreja

Vocês prepararam-se por muitos anos, muitos anos de oração. Vocês prepararam-se tão bem como a moça que está entrando em um casamento. Agora falemos da noiva com quem vocês estão casando-se hoje.

Ela é mais nova, ainda na sua primavera, mas ela conta sua idade em séculos. É uma noiva brilhantemente linda, mas também é deformada, desfigurada com muitas feridas, as cicatrizes do próprio Cristo. Está gasta pelos séculos, feia para aqueles que não a conhecem tão bem como vocês. 

Cardeal O'Connor, arcebispo de Nova Iorque entre
1984 e 2000. 
Ela será gentil, paciente e amável, mas também pode ser cabeça dura, discordar até irritar. Ela será fiel, mas, em certos momentos, parecerá que está dando as costas, até mesmo traindo-os. Será consoladora e reconfortante, mas também extraordinariamente exigente. Ela entregará sua vida a vocês, mas exigirá em troca a vida de vocês.

A noiva com que vocês estão unindo-se hoje não é a Igreja triunfante. Esta é a Igreja deste mundo, a Igreja do Povo de Deus. Povo de Deus que é forte e santo, fraco e pecador. Povo de Deus que é bom e generoso. Povo de Deus que é egoísta e exigente. Povo de Deus que irá amá-los além de qualquer amor imaginado, mas, às vezes, parecerá que os odeia, é ressentido, até mesmo os desprezará. Povo de Deus, sua noiva, vos dará incríveis alegrias e imensas dores, grandes alegrias e profundas tristezas. Este é o Povo de Deus, ainda não totalmente maduro, ainda imperfeito. E estas são as pessoas que tomas por esposa hoje, como padres.

Como seu bispo, vos dou um mandato: amem sua Igreja, amem o Povo de Deus. Amem ambos nos bons momentos, nos piores, na riqueza, na pobreza, na doença e na saúde. Amem até a morte, após a qual vocês e eles serão transfigurados em glória.

Vocês se tornaram íntimos do seu povo, mas as intimidades ocorrerão quando estiverem administrando os Santos Sacramentos. Vocês poderão curar, reconciliar, dar o seu amor. Irão batizar, visitar os doentes, enterrar os mortos e, acima de tudo, entrar na maior das intimidades com sua esposa no Santo Sacrifício Eucarístico. Nas missas devem colocar de lado a sua vida e erguer a de Cristo. Seus corpos estarão quebrados, mas Seu Corpo foi quebrado. Seu sangue pode ser derramado, assim como o Sangue de Cristo foi derramado. Maior amor que este não há, e, verdadeiramente, entregarás a tua vida para a noiva, a Igreja, e o Povo de Deus. E nunca, nunca, encontrarás Deus recusando a sua generosidade e sacrifício.

Amem o Povo de Deus, sejam gentis e amáveis com eles. Peçam que sejam o que Deus pede para serem  mas perdoem as faltas quando acontecerem, assim como a noiva, a Igreja, perdoa os vossos pecados e fraquezas. E, se amares a sua esposa, se entregares a tua vida a Ela diariamente, então entenderás que o amor fica mais forte e profundo com o passar dos anos, como é dito na festa de casamento em Caná, a noiva reservou o melhor vinho para o final. Os anos de prata e ouro do sacerdote, apesar dos sofrimentos pelos quais podem passar, as tentações que experimentarem, as pressões, os conflitos, solidão, daqueles dias em que te perguntares "é isto o que realmente Deus quer de mim?", apesar de tudo isto, entenderás que o amor do Povo de Deus é  cada dia mais rico e mais doce que hoje, no dia da ordenação.

Minha palavra final aos meus irmãos padres: sempre preguem a verdade. O Povo de Deus não merece nada menos. Há ouvidos procurando por novos ensinamentos, como São Paulo nos lembrou, mas nós temos os ensinamentos de Cristo, o Evangelho, nosso Santo Papa, os santos. Preguem e ensinem corajosamente. Sirvam o Povo de Deus como seus servos, nunca como mestres. Acima de tudo, amem a Igreja que hoje estás tomando como esposa.

--   Homília do Cardeal John O'Connor, arcebispo de Nova Iorque, durante uma ordenação em 1980.


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