20 de jun de 2013

Isaias 38: Cântico de Ezequias

Queridos irmãos e irmãs,
Rei Ezequias orando

Liturgia das Horas, nos vários Cânticos que são postos em paralelo com os Salmos, apresenta-nos também um hino de agradecimento que tem este título:  "Cântico de Ezequias, rei de Judá, quando adoeceu e foi curado da sua enfermidade" (Is 38, 9). Ele está inserido numa parte do livro do profeta Isaías com a característica histórico-narrativa (cf. Is 36-39), cujos dados realçam com algumas variantes os que são oferecidos pelo Segundo Livro dos Reis (cf. cap. 18-20).

Nós, agora, na esteira da Liturgia das Laudes, ouvimos e transformamos em oração, duas grandes estrofes daquele Cântico que descrevem os dois movimentos típicos das orações de agradecimento:  por um lado, é recordado o pesadelo do sofrimento do qual o Senhor libertou o seu fiel e, por outro, canta-se com alegria a gratidão pela vida e pela salvação reconquistada.


O rei Ezequias, um soberano justo e amigo do profeta Isaías, tinha sido atingido por uma grave doença, que o profeta Isaías declarara mortal (cf. Is 38, 1). "Ezequias voltou o seu rosto para a parede e fez ao Senhor esta oração:  "Senhor, lembrai-vos de que tenho andado fielmente diante de vós, de todo o coração, segundo a vossa vontade". E começou a derramar lágrimas abundantes. Então a palavra do Senhor foi dirigida a Isaías, nestes termos:  "Vai e diz a Ezequias:  Eis o que diz o Senhor, o Deus de teu pai Davi:  Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas; vou acrescentar à tua vida mais quinze anos"" (Is 38, 2-5).

Neste ponto brota do coração do Rei o cântico de reconhecimento. Como se disse, ele volta-se antes de tudo para o passado. Segundo a antiga concepção de Israel, a morte introduzia num horizonte subterrâneo, chamado em hebraico sheol, onde a luz se apagava, a existência se atenuava e se fazia quase espectral, o tempo parava, deixava de haver esperança e, sobretudo, deixava de se ter a possibilidade de invocar e encontrar Deus no culto.

Por isso, Ezequias recorda em primeiro lugar as palavra cheias de amargura pronunciadas quando a sua vida estava deslizando em direção aos confins da morte:  "Não verei mais o Senhor na terra dos viventes" (v. 11). Também o Salmista rezava assim no dia da doença:  "Quando chegar a morte, ninguém se lembra de Vós; na mansão dos mortos quem vos louvará?" (Sl 6, 6). Ao contrário, libertado do perigo da morte, Ezequias pode recordar com vigor e com alegria:  "Os vivos são os que vos louvam como eu vos louvo agora" (Is 38, 19).

O Cântico de Ezequias adquire, precisamente sobre este tema uma nova tonalidade, se for lido à luz da Páscoa. Já no Antigo Testamento se abriam grandes clareiras de luz nos Salmos, quando o orante proclamava a sua certeza de que "Vós não me entregareis à mansão dos mortos, nem deixareis que o Vosso amigo veja o sepulcro. Ensinar-me-eis o caminho da vida; na vossa presença (gozamos) a plenitude da alegria, na Vossa direita (encontraremos) as delícias eternas" (Sl15, 10-11; cf. Sl 48 e 72). O autor do Livro da Sabedoria, por seu lado, jamais hesitará em afirmar que a esperança dos justos está "cheia de imortalidade" (Sab 3, 4), porque ele está  convencido  de  que  a experiência de  comunhão  com  Deus  vivida  durante a existência terrena não será infringida. Nós permaneceremos sempre, para além da morte, apoiados e protegidos pelo Deus eterno e infinito, porque "as almas dos justos estão na mão de Deus e nenhum tormento os tocará" (Sab 3, 1).

Sobretudo com a morte e a ressurreição do Filho de Deus, Jesus Cristo, uma semente de eternidade é lançada à terra e feita germinar na nossa caducidade mortal, e por isso podemos repetir as palavras do Apóstolo, baseadas no Antigo Testamento:  "Quando este corpo corruptível se revestir de imortalidade, então cumprir-se-á o que está escrito:  "A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?"" (1 Cor 15, 54-55; cf. Is25, 8; Os. 13, 14).

Mas o cântico do rei Ezequias convida-nos também a refletir sobre a nossa fragilidade de criaturas. As imagens são sugestivas. A vida humana é descrita com o símbolo do nomade:  nós somos sempre peregrinos e hóspedes na terra. Recorre-se também à imagem da tela, que é tecida e que pode permanecer incompleta quando se corta o fio e o trabalho é interrompido (cf. Is38, 12). Também o Salmista tem a mesma sensação:  "Eis que fizestes os meus dias de uns tantos palmos, a minha existência, perante ti, é como um nada; cada um não é mais do que um sopro. Cada homem passa como uma simples sombra:  é em vão que se agita" (Sl 38, 6-7). É necessário reencontrar a consciência dos nossos limites, saber que "a soma da nossa vida como declara ainda o Salmista é de setenta anos, os mais fortes chegam aos oitenta; mas a sua grandeza não passa de atribulação e miséria, porque eles passam depressa e nós desaparecemos" (Sl 89, 10).

No dia da doença e do sofrimento é, contudo, justo elevar a Deus a própria lamentação, como nos ensina Ezequias que, usando imagens poéticas, descreve o seu pranto como o piar da andorinha e o gemer de uma pomba (cf. Is 38, 14). E, mesmo se não hesita em confessar que sente Deus como um adversário, como um leão que quebra os ossos (cf v. 13), não deixa de o invocar:  "Senhor, estou em agonia, confortai-me!" (v. 14).

O Senhor não permanece indiferente às lágrimas do sofredor e, mesmo por caminhos que nem sempre coincidem com os das nossas expectativas, responde, conforta e salva. É como confessa Ezequias no final, convidando todos a ter esperança, a rezar, a ter confiança, na certeza de que Deus não abandona as suas criaturas:  "Senhor, salvai-me e soaremos as nossas harpas no templo do Senhor, todos os dias da nossa vida" (v. 20).

A tradição latina medieval conserva deste Cântico do rei Ezequias um comentário espiritual de Bernardo de Claraval, um dos místicos mais representativos do monaquismo ocidental. Trata-se do terceiro dos Sermões vários, em que Bernardo, aplicando à vida de cada um o drama vivido pelo soberano de Judá e, interiorizando o seu conteúdo, escreve entre outras coisas:  "Louvarei ao Senhor em todos os tempos, isto é, de manhã até à noite, como aprendi a fazer, e não como os que te louvam quando tu lhes fazes o bem, nem como os que crêem durante um certo tempo, mas no momento da tentação cedem; e como os santos, direi:  Se recebemos o bem da mão de Deus, porque não devemos aceitar também o mal?... Assim estes dois momentos do dia serão um tempo de serviço a Deus, porque à noite permanecerá o pranto, e de manhã o eco da alegria. Mergulharei no sofrimento à noite a fim de poder gozar, depois, a alegria da manhã".

Por conseguinte, a súplica do rei é lida por São Bernardo como uma representação do cântico orante do cristão, que deve ressoar, com a mesma constância e serenidade, tanto nas trevas da noite e da provação como na luz do dia e da alegria.

-- Papa João Paulo II, na audiência de 27 de Fevereiro de 2002

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