29 de jun de 2013

Homília na Solenidade de São Paulo e São Pedro

"E vós, quem dizeis que Eu sou?" (Mt 16, 15).

Jesus dirige aos discípulos esta pergunta acerca da sua identidade, enquanto se encontra com eles na alta Galileia. Muitas vezes acontecera que eram eles a dirigir interrogativos a Jesus; agora é Ele que os interpela. A sua pergunta é específica e espera uma resposta. Simão Pedro toma a palavra em nome de todos: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo" (Mt 16, 16).

A resposta é extraordinariamente lúcida. Nela se reflete de modo perfeito a fé da Igreja. "Tu és o Cristo!". À confissão de Pedro Jesus replica: "És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue quem to revelou, mas o Meu Pai que está nos céus" (Mt 16, 17).

És feliz, Pedro! Feliz, porque esta verdade, que é central na fé da Igreja, não podia emergir na tua consciência de homem, senão por obra de Deus. "Ninguém disse Jesus conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar" (Mt 11, 27).

Reflitamos sobre esta página evangélica particularmente densa: o Verbo encarnado revelara o Pai aos seus discípulos; agora é o momento em que o próprio Pai lhes revela o seu Filho unigénito. Pedro acolhe a iluminação interior e proclama com coragem: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo"!

Estas palavras nos lábios de Pedro provêm do profundo do mistério de Deus. Revelam a verdade íntima, a própria vida de Deus. E Pedro, sob a ação do Espírito divino, torna-se testemunha e confessor desta soberana verdade. A sua profissão de fé constitui assim a sólida base da fé da Igreja: "Sobre ti edificarei a minha Igreja" (Mt 16, 18). Sobre a fé e a fidelidade de Pedro está edificada a Igreja de Cristo.

Disto estava bem consciente a primeira comunidade cristã que, como narram os Atos dos Apóstolos, quando Pedro esteve encerrado na prisão, se recolheu para elevar a Deus uma ardente oração por ele (cf. At 12, 5). Ela foi ouvida, porque a presença de Pedro ainda era necessária à comunidade que dava os seus primeiros passos: o Senhor enviou o seu anjo para o libertar das mãos dos perseguidores (cf. ibid., 12, 7-11). Estava escrito nos desígnios de Deus que Pedro, depois de ter durante muito tempo confirmado na fé os seus irmãos, haveria de receber o martírio aqui em Roma, juntamente com Paulo, o Apóstolo das nações, também ele muitas vezes salvo da morte.

"O Senhor assistiu-me e deu-me forças a fim de que a palavra fosse anunciada por mim e os gentios a ouvissem" (2 Tm 4, 17). São palavras de Paulo ao fiel discípulo Timóteo: escutamo-las na segunda Leitura. Elas dão testemunho da obra nele realizada pelo Senhor, que o tinha escolhido como ministro do Evangelho, "alcançando-o" na via de Damasco (cf. Fl 3, 12).

Envolvido numa luz fulgurante, o Senhor se lhe havia apresentado dizendo: "Saulo, Saulo, por que Me persegues?" (Act 9, 4), enquanto uma força misteriosa o lançava por terra (cf. ibid., v. 5). "Quem és Tu, Senhor?", perguntara Saulo. "Eu sou Jesus, a quem tu persegues!" (ibid.). Foi esta a resposta de Cristo. Saulo perseguia os sequazes de Jesus e Jesus fez-lhe tomar consciência de que era Ele mesmo a ser perseguido neles. Ele, Jesus de Nazaré, o Crucificado, que os cristãos afirmavam ter ressuscitado. Se, agora, Saulo experimentava a sua poderosa presença, era claro que Deus O tinha deveras ressuscitado dos mortos. Era precisamente Ele o Messias esperado por Israel, era Ele o Cristo vivo e presente na Igreja e no mundo!

Unicamente com a sua razão, Paulo teria podido compreender tudo aquilo que um tal evento comportava? Certamente, não! De fato, fazia parte dos desígnios misteriosos de Deus. Será o Pai a dar a Paulo a graça de conhecer o mistério da redenção, operada em Cristo. Será Deus a permitir-lhe entender a estupenda realidade da Igreja, que vive por Cristo, com Cristo e em Cristo. E ele, que se tornou partícipe desta verdade, não cessará de a proclamar incansavelmente até aos extremos confins da terra.

De Damasco Paulo iniciará o seu itinerário apostólico, que o levará a defender o Evangelho em tantas partes do mundo então conhecido. O seu impulso missionário contribuirá assim para a realização do mandato de Cristo aos Apóstolos: "Ide, pois, ensinai todas as nações... " (Mt 28, 19).

Hoje a Igreja proclama de novo a sua fé. É a nossa fé, a imutável fé da Igreja em Jesus, único Salvador do mundo; em Cristo, o Filho de Deus vivo, morto e ressuscitado por nós e para a humanidade inteira.

-- Papa João Paulo II, em 29 de Junho de 2000

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