22 de jul de 2013

A remuneração do trabalho: critérios de justiça e de eqüidade

Amargura profunda invade o nosso espírito diante do espetáculo tristíssimo de inumeráveis trabalhadores em muitas nações e continentes inteiros, os quais recebem um salário que os submete, a eles e às famílias, a condições de vida infra-humanas. Isto deve-se também a estar nos seus primórdios, ou numa fase de insuficiente desenvolvimento, o processo da industrialização nessas nações e continentes.

Mas, em alguns desses países, a abundância e o luxo desenfreado de uns poucos privilegiados contrasta, de maneira ofensiva, com as condições de mal-estar extremo da maioria; noutras nações obriga-se a atual geração a viver privações desumanas para o poder econômico crescer segundo um ritmo de aceleração que ultrapassa os limites marcados pela justiça e pela humanidade; e noutras, parte notável do rendimento nacional consome-se em reforçar ou manter um mal-entendido prestígio nacional, ou gastam-se somas altíssimas nos armamentos.

Além disso, nos países economicamente desenvolvidos, não é raro que para trabalhos pouco absorventes ou de valor discutível recebam salários enormes, enquanto que as correspondentes ao trabalho assíduo e duro de categorias inteiras de cidadãos honestos e operosos são demasiado reduzidas, insuficientes ou, pelo menos, desproporcionais à ajuda que prestam à comunidade, ou com o rendimento da respectiva empresa, ou com o rendimento total da economia da nação.

Julgamos, pois, dever nosso afirmar uma vez mais que a retribuição do trabalho, assim como não pode ser inteiramente abandonada às leis do mercado, também não pode fixar-se arbitrariamente; há de estabelecer-se segundo a justiça e a eqüidade. É necessário que aos trabalhadores se dê um salário que lhes proporcione um nível de vida verdadeiramente humano e lhes permita enfrentar com dignidade as responsabilidades familiares. 

É preciso igualmente que, ao determinar-se os salários, se tenham em conta o concurso efetivo dos trabalhadores para a produção, as condições econômicas das empresas e as exigências do bem comum nacional. Considerem-se de modo especial as repercussões sobre o emprego global das forças de trabalho dentro do país inteiro, e ainda as exigências do bem comum universal, isto é, as que dizem respeito às comunidades internacionais, de natureza e extensão diversas.

-- Da Encíclica Mater et Magistra, Papa João XXIII, publicado em 15 de Maio de 1961

2 comentários:

Francisco de Assis disse...

Parabéns aos membros do site, pois este site é um verdadeiro tesouro para nós católicos e possui um conteúdo riquíssimo!

Se me permitem eu gostaria de dar uma sugestão ao site: existe um grande comentador da Sagrada Escritura, considerado o príncipe dos exegetas, que se chama Cornélio a Lápide, será que vocês poderiam publicar algum escrito dele aqui?

Que Deus os abençõe!

Felipe

Miguel Fornari disse...

Sugestões são sempre bem-vindas. Realmente não conhecia Cornélio a Lápide, dei uma rápida olhada num livro e acho que vou aproveitar brevemente. Muito obrigado!

Miguel

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