29 de out de 2010

Há Justiça em Deus?

Parece que em Deus não há justiça.

1. — Pois, a justiça se divide por oposição à temperança. Ora, em Deus não há temperança (pois Deus não tem limites). Logo, nem justiça.

2. Demais. — Quem faz tudo ao bel prazer da sua vontade não obra segundo a justiça. Ora, como diz o Apóstolo:  “Deus realiza todas as coisas segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1, 11). Logo, não se lhe deve atribuir justiça.

3. Demais. — É ato de justiça restituir o devido. Ora, Deus a ninguém é devedor. Logo, não lhe cabe a justiça.

4. Demais. — Tudo o que há em Deus é a sua essência. Ora, isto não convém à justiça, pois, conforme Boécio, o bem respeita à essência, mas a justiça, ao ato. Logo, a Deus não convém à justiça.

Mas, em contrário, diz a Escritura: O Senhor é justo e ele amou a justiça (Sl 10, 8).

Representação tradicional da Justiça.


SOLUÇÃO. — Há duas espécies de justiça. Uma consiste no mútuo dar e receber; p. ex., a que consiste na compra e venda ou trocas semelhantes. Esta é chamada pelo Filósofo justiça comutativa ou reguladora das trocas; e essa não convém a Deus, segundo o Apóstolo: Quem lhe deve alguma coisa primeiro para esta lhe haver de ser recompensada?(Rm 11, 35) Outra forma de justiça consiste na distribuição e se chama justiça distributiva, pela qual um governador ou administrador dá segundo a dignidade de cada um. Ora, assim como a ordem devida, na família ou em qualquer multidão governada, demonstra a justiça do governador, assim também a ordem do universo manifesta, tanto nos seres naturais, como nos homens, a justiça de Deus. Por isso diz Dionísio: Devemos ver a verdadeira justiça de Deus no distribuir ele a todos os seres segundo o que convém à dignidade de cada um, e no conservar na natureza a sua ordem própria e virtude.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. — Das virtudes morais, umas concernem às paixões; assim, a temperança impede a concupiscência; a fortaleza, ao temor e à audácia; a mansidão, à ira. Tais virtudes só se podem atribuir a Deus metaforicamente, porque nele nem há paixões nem apetites, como seria necessário para haver tais virtudes. Porém, outras virtudes morais concernem aos atos; assim, quanto ao dar e ao receber, a justiça, a liberalidade e a magnificência. E tais virtudes não existem no corpo, mas na inteligência; por isso, nada impede sejam atribuídas a Deus. Não, contudo, no concernente às ações civis, mas as convenientes a Deus. Pois, seria ridículo louvar a Deus pelas suas virtudes políticas, como diz o Filósofo.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Sendo o bem objeto da vontade, Deus só pode querer aquilo que está na razão da sua sabedoria; e esta é como a lei da justiça, pela qual a sua vontade é reta e justa. Por onde, o que faz por sua vontade justamente o faz; assim como nós fazemos justamente o que fazemos de acordo com a lei; nós, porém, pela lei de um superior, ao passo que Deus, pela sua própria lei.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A cada um é devido o que lhe pertence. Ora, dizemos que uma coisa pertence a alguém quando se lhe ordena. Assim, o servo pertence ao senhor e não, inversamente. Por onde, a palavra devido implica uma certa ordem de exigência ou necessidade de um ser em relação a outro. Ora, há uma dupla ordem a se considerar nas coisas. Uma, pela qual uma pessoa se ordena para outra; assim, as partes, ao todo, e cada coisa, ao seu objetivo. Outra, pela qual todas as criaturas se ordenam para Deus. Por onde, o devido também pode ser considerado à dupla luz, quanto à obra divina. Ou enquanto algo é devido a Deus, ou, a uma criatura. E de um e outro modo, Deus paga o devido. Pois, é devido a Deus o cumprirem os seres aquilo que a sua sabedoria e vontade estabeleceram e que manifesta a sua bondade. E deste modo a justiça de Deus concerne à sua dignidade, atribuindo-se a si o que lhe é devido.

Por outro lado, é devido a uma pessoa ter aquilo que se lhe ordena, como ao homem ter mãos e lhe servirem os outros animais. E assim, também Deus faz justiça, dando-lhe o devido, segundo a exigência da natureza e à condição de cada um. Mas este débito depende do primeiro, porque a cada pessoa é devido o que se lhe ordena pela ordem da divina sabedoria. E, embora Deus dê, deste modo, o devido a cada uma, contudo, não é devedor, pois Deus não se ordena para satisfazer os outros seres, mas estes, para ele. Por isso, dizemos que a justiça é, umas vezes, em Deus, conveniência com a sua bondade, e outras, retribuição dos méritos. E a um e outro modo alude Anselmo dizendo: És justo punindo os maus, por isso lhes convir aos méritos; mas também o és justo perdoando-lhes, por convir isso à tua bondade.
RESPOSTA À QUARTA. — Por dizer respeito ao ato, não resulta que a justiça deixe de ser a essência de Deus, pois, também aquilo que é da essência de um ente pode ser princípio de ação. Mas, o bem nem sempre concerne ao ato, pois, dizemos que um ser é bom, não somente pela ação, mas também pela perfeição essencial. Por isso, no mesmo lugar, se diz que o bem está para o justo, como o geral, para o especial.

-- Do Livro Suma Teológica, 1a parte, Do Tratado do Deus Uno, Questão 21, Artigo 1, de São Tomas de Aquino (século XIII)

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