13 de jun de 2012

Santa Germana Cousin



Santa Germana Cousin, padroeira das crianças
abandonadas, deficientes e pastores.
Obviamente esta pintura é muita idealizada e
longe da realidade.

Germana Cousin foi a última filha de Lourenço Cousin, pequeno proprietário agrícola de Pibrac, e de sua terceira esposa, Maria Laroche, mulher piedosa e de saúde frágil. Mestre Lourenço chegou a ser alcaide de Pibrac em 1573 e em 1574.

A data de nascimento de Germana não é precisa, mas provavelmente veio ao mundo no ano de 1579. Não chegou a conhecer a mãe, que faleceu pouco tempo depois de seu nascimento. Mais ou menos dois anos após perdeu também o pai. 

Talvez devido a avançada idade dos pais, ela nasceu com uma deformação na mão direita e uma doença chamada escráfulas, que consiste em feridas purulentas que surgem no pescoço e afeta também as juntas. A situação no país também não era melhor, pois estava dividido por uma guerra civil entre católicos e protestantes huguenotes, cada lado apoiado por uma parte da família real. O povo sofria com a fome e muitas igrejas foram atacadas, quando horríveis sacrilégios eram cometidos contra a Eucaristia, imagens, livros sagrados e sacerdotes.

Hugo, seu irmão mais velho, tornou-se o herdeiro dos bens do pai Lourenço e acolheu a pequena órfã. Era casado com Armanda Rajols, que não poupava maus tratos à pequena, talvez devido ao ressentimento por ter perdido seu único filho natural quando ainda era recém-nascido. A madrasta dava-lhe pouco alimento e não zelava por sua saúde, deixando-a aos cuidados de uma criada, Joana Aubian. Essa boa mulher tratava das feridas da criança, dividia com ela a comida e a cama.

Santa Germana passou a viver no paiol, onde aquecia-se dormindo com as ovelhas. Não era admitida dentro de casa por medo que contaminasse a família com alguma doença. Vestia-se sempre com trapos velhos, descalça mesmo no frio do inverno, era tratada com menos afeição que o cachorro da família. Pela manhã espera no lado de fora da casa seu alimento, normalmente as sobras e pão velho. Estes fatos foram testemunhados pelos vizinhos, que os narraram em documentos incluídos no processo de canonização.

Sua tarefa era pastorear as ovelhas pelas montanhas da região. Assim, ficava longe de casa pelo restante do dia. Muitos dias a madrasta lhe enviava a pastorear próximo à Floresta de Bouconne, na esperança que os lobos que se escondiam nas árvores lhe atacassem. Ao retornar para casa, devia ainda fiar lã, não importando se o frio lhe enregelava os dedos da sua mão já deformada. Por fim, a madrasta, certo dia bêbada, jogou-lhe sobre o corpo água fervente. 

O único momento de descanso permitido era ir à missa na Igreja de Santa Maria Madalena, num vilarejo próximo. Prestava atenção à cada palavra do sermão e participava das catequeses dadas após a celebração. Foi então que sua vida começou a fazer sentido, pois sentia que seus sofrimentos eram poucos quando comparados aos do Filho de Deus. Percebeu que a vida é apenas uma rápida passagem para a eternidade com Cristo, se por isso fizesse merecer. 

Embora fosse totalmente analfabeta, guardava os ensinamentos que ouvia no profundo do coração, e durante a semana, nas muitas horas que pastoreava sozinha, repetia as palavras para melhor assimilá-las, ou percorria as contas do rosário, lembrando-se dos mistérios divinos. A Eucaristia passou a ser seu alimento e Jesus a companhia preferida. Não satisfeita em apenas atender à Missa, ficava na Igreja durante todo dia, em contemplação. Na hora do Angelus ajoelhava-se onde estivesse e se punha a rezar. Santa Germana improvisou uma cruz e um pequeno altar, para que pudesse adorá-la durante o dia de trabalho.

Movida pelo Espírito Santo, decidiu-se por um singular método de pastoreio. Quando ouvia o sino da Igreja chamar os fiéis para a Missa diária, cravava seu cajado de pastora em meio ao rebanho e ordenava em alta voz que as ovelhas não se afastassem, esperando o seu retorno. Jamais perdeu uma ovelha, nem mesmo para os lobos. Sabia que melhor Pastor estava a cuidar das suas ovelhas.

As crianças da cidade começaram a ir ao seu encontro após terminarem as aulas. Nestas ocasiões não falava de si, mas do amor de Deus e dos sofrimentos de Jesus Cristo. Estas catequeses eram transmitidas aos pais, que passaram a lhe chamar de "a devota". 

Certo dia estava muito longe da cidade quando ouviu o sino chamando para Missa. De onde estava, devia atravessar um rio, cuja água era muito fria, proveniente do degelo das montanhas. Usar a única ponte lhe obrigaria caminhar grande distância, não seria possível chegar a tempo na Igreja. Foi então que, com o testemunho de dois outros pastores, Santa Germana caminhou até as margens do rio, pediu um favor especial a Deus, e as águas se abriram. Como os judeus fugindo do Egito, Santa Germana passou a pé enxuto. O milagre tornou-a famosa, o que mais atraiu a ira da sua madrasta.

Em outra ocasião, ela arriscou-se a entrar na cozinha da casa, com a idéia de distribuir o alimento para crianças pobres que estavam a passar fome. Sua madrasta a encontrou e acusou-lhe de roubo. Arrastou-a até a prefeitura da cidade e exigiu que fosse presa, a prova era o embrulho que carregava. Ao abrirem o pacote, nele encontrou-se apenas flores do campo. Por fim, seu irmão permitiu que passasse a dormir num quartinho, embaixo da escada da casa. 

Numa noite de junho de 1601, um sacerdote e dois religiosos que estavam viajando, ao cair da noite acomodaram-se nas ruínas de um antigo castelo próximo de Pibrac.  No meio à noite foram despertados pelo som de uma música, viram o céu iluminar-se e um cortejo celeste de virgens descer sobre uma casa rural das redondezas. Em seguida, o mesmo cortejo subiu para o céu acompanhado de uma jovem vestida de luz e coroada de flores silvestres.

Naquela manhã de verão, percebendo que ela não se levantara no horário costumeiro, seu irmão foi chamá-la. Ele encontrou-a morta, com o rosto iluminado e o rosário nas mãos. Ao amanhecer, entrando no povoado, o sacerdote e os religiosos relataram o maravilhoso fato aos habitantes de Pibrac, e constataram que se tratava da casa onde pouco antes fora encontrada morta uma pobre pastora chamada Germana Cousin.
     
Seu corpo foi sepultado em frente ao altar na Igreja de Santa Maria Madalena, mas com o tempo ela ficou esquecida. Numa fria manhã de dezembro de 1644, Guilherme Cassé, coveiro, e seu ajudante Gaillard Baron iniciaram os trabalhos de escavação de um túmulo para enterrar uma defunta, quando estarrecidos descobrem o corpo de uma jovem de uns vinte anos, conservado em sua mortalha um tanto escurecida. O corpo parecia ter sido colocado no túmulo há poucos dias. A jovem apresentava cicatrizes no pescoço e sua mão direita era deformada.
O corpo incorrupto está na Catedral de Pribac, França.

A notícia rapidamente se espalhou pela cidade. Dois anciãos, Pedro Pailhès e Joana Salères, reconheceram-na como sendo Germana Cousin, falecida 43 anos atrás. O corpo foi instalado num caixão perto do púlpito da igreja paroquial, e o povo, que a tinha em conta de santa, logo afluiu para contemplá-la. Outros ridicularizam os ingênuos e exigiram que o caixão fosse transferido para outro lugar. Entre estes estava Maria de Clément Gras, esposa do nobre Francisco de Beauregard.

Pouco tempo depois, esta senhora foi surpreendida por um câncer no seio e a criança que ela amamentava ficou doente. Estavam ambos às portas da morte. O esposo então se lembrou do desprezo que ela demonstrara pela pobre Germana, e cogitou se Deus não ficara ofendido e quisera puni-la. Maria de Clément Gras foi então para junto do corpo de Germana e pediu perdão por sua atitude, suplicando também a sua cura e a de seu filho, prometendo oferecer à igreja um caixão adequado para colocar seu corpo.

Na noite seguinte, ela foi despertada por uma grande claridade em seu quarto: Germana lhe aparece e prediz a cura de seu filho! Após a visão, a chaga do seu seio estava quase fechada. Ela fez vir seu filhinho: ele estava são e sugou longamente o leite que recusava há tempos. O fato é reconhecido como o primeiro milagre realizado pela intercessão da jovem após a descoberta de seus despojos.

Em 1793, durante a Revolução Francesa, os membros do "comitê de salvação pública" decidiram atacar a Igreja e sumir com o corpo da santa. O caixão foi profanado por um certo Toulza, acompanhado de três cúmplices. Eles retiraram o corpo do caixão e o enterraram na sacristia, jogando cal e água sobre ele. Depois da Revolução Francesa, a pedido da população o prefeito Jean Cabriforce, mandou procurar o local onde haviam enterrado o corpo. Uma vez mais Germana foi descoberta: seu corpo estava intacto, apesar de ter permanecido durante anos sob a ação da cal viva.

Foi o Beato Pio IX quem proclamou, no dia 7 de maio de 1854, a beatificação de Germana. E em 29 de junho de 1867, colocou-a entre as virgens santas. Sua festa é celebrada em 15 de Junho. 


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