12 de jun de 2012

Conselhos úteis para quem entra num caminho de oração


Santa Teresa de Ávila, pintado por Frei João da Miséria.
Este quadro é considerado o retrato mais fiel da santa,
pois o Frei a conhecia pessoalmente.
1. Parece-me bem falar de algumas tentações que tenho visto haver ao princípio (de um caminho de oração) - algumas tenho-as eu tido - e dar alguns avisos sobre coisas que julgo necessárias. Procure-se andar ao princípio com alegria e liberdade, porque há pessoas a quem parece que se lhes vai a devoção se se descuidam um pouco. Bom é cada qual andar com temor para não se fiar pouco nem muito de si mesmo, pondo-se em ocasiões em que lhe é fácil ofender a Deus. Isto é muito necessário até já se estar muito forte na virtude. E não há muitos que o estejam tanto que, metidos em ocasiões favoráveis ao seu natural, se possam descuidar. Que sempre - enquanto vivemos, e até por humildade - é bom conhecer a nossa miserável natureza. Mas há muitas coisas em que se pode, como já disse, tomar recreação, mesmo para se voltar mais forte à oração. Em tudo é preciso discrição.

2. Ter grande confiança que, se nos esforçamos, pouco a pouco - embora não seja logo - poderemos chegar aonde muitos santos chegaram com o favor de Deus. Se os santos nunca se tivessem determinado a desejá-lo e pouco a pouco realizá-lo, nunca teriam subido a tão alto estado. Quer Sua Majestade que andem com humildade e sem nenhuma confiança em si. Espanta-me o muito que faz neste caminho o animar-se a grandes coisas; porque, embora depois a alma não tenha forças, dá um voo e chega a muito, ainda que - como avezinha que tem fracas penas - se canse e fique mais algum tempo.

Muito me aproveitei daquilo que diz Santo Agostinho: Dá-me, Senhor, o que me mandas e manda o que quiseres. Pensava muitas vezes que S. Pedro nada tinha perdido em se lançar ao mar, embora depois temesse. Estas primeiras determinações são grande coisa, ainda que, neste primeiro estado, seja preciso ir-se detendo e ater-se à discrição e parecer do mestre; mas há de olhar-se que não ensine a andar como sapos nem se contente com que a alma se satisfaça a só caçar lagartixas.

A humildade, no entanto, deve estar sempre à frente para se compreender que não há de vir das nossas forças.

4. Mas é mister entendermos como há-de ser esta humildade, porque penso que o demônio faz muito dano, a fim de que não vão muito adiante almas que tem oração, fazendo-lhes compreender mal a humildade, e que lhes pareça soberba o ter grandes desejos e querer imitar os santos e desejar o martírio. Logo nos diz ou dá a entender que as coisas dos santos são para admirar, mas não para as fazermos nós que somos pecadores.

Isto também o digo eu; mas temos de olhar ao que é de espantar e ao que é de imitar. De fato, não seria bem que uma pessoa fraca e enferma se expusesse a muitos jejuns e penitências ásperas, e fosse para um deserto onde não pudesse dormir nem tivesse que comer, ou coisas semelhantes. Mas sem pensar que nos podemos esforçar com o favor de Deus a ter um grande desprezo do mundo, a não estimar honras, nem estar atento às riquezas. Temos uns corações tão apertados, que parece nos há-de faltar a terra em querendo-nos descuidar um pouco do corpo para darmos ao espírito. Depois nos parece que ajuda ao recolhimento ter muito bem consertado tudo o que é preciso, porque os cuidados inquietam a oração.

A mim, isto me pesa; termos tão pouca confiança em Deus e tanto amor próprio, que nos inquieta este cuidado. E assim é que, onde o espírito está tão pouco acostumado com isto, que umas fazer ninharias nos dá tão grande trabalho como as coisas grandes e de muito tomo. E, a nosso juízo, presumimos de espirituais!

5. Há esta maneira de caminhar, querendo conciliar corpo e alma para não perder cá na terra o descanso e gozar lá no Céu de Deus. E assim será a passo de galinha, se andarmos em justiça mas apegados ao corpo; nunca se chegará à liberdade de espírito. Maneira muito boa de proceder, me parece, para o estado de casados, que hão-de viver conforme a sua vocação; mas para outro estado, de maneira alguma desejo tal maneira de aproveitar, nem me farão crer que é boa. Tenho-a experimentado e sempre me ficaria assim, se o Senhor, por Sua bondade, não me tivesse ensinado outro atalho.

6. Ainda que, nisto de desejos, sempre os tive grandes, procurava isto que tenho dito: ter oração e viver a meu belo prazer. Creio que, se tivesse tido quem me lançasse a voar, mais eu teria me empenhado em que estes desejos fossem com obras. Mas são - por nossos pecados - tão poucos e contados os que não tenham neste caso discrição demasiada, que julgo ser isto causa bastante para os que começam, não chegarem mais depressa a uma grande perfeição. O Senhor nunca falta, nem é por Ele que há falha; nós é que somos os faltosos e miseráveis.

7. Também se podem imitar os santos procurando solidão e silêncio e outras muitas virtudes, que não nos matarão estes negros corpos que tão concertadamente se querem levar para desconcertar a alma. E o demônio ajuda muito a torna-los inaptos; quando vê um pouco de temor. Mais não quer para nos dar a entender que tudo nos há-de matar e tirar a saúde; até o ter lágrimas faz-nos temer de cegar... Passei por isto e por isso o sei, e não sei que melhor vista nem saúde podemos desejar que perdê-la por tal causa.

Como sou tão enferma, até que me determinei a não fazer caso do corpo nem da saúde, sempre estive atada, sem valer para nada; e ainda agora faço bem pouco. Mas quis Deus que eu entendesse este ardil do demônio; e quando ele me ameaçava perder a saúde, dizia: Pouco vai em que eu morra. Quando era o descanso: Não tenho necessidade de descansar, mas sim de cruz. E assim outras coisas. Vi claramente que, em muitas delas, embora eu de fato fosse muito enferma, era tentação do demônio ou frouxidão minha. Desde que não ando com tantos cuidados e não sou tão amimada, tenho muito mais saúde.

Assim vai muito de, nos princípios - ao começar a ter oração - não apequenar os pensamentos. Creiam o que digo, porque sei isto por experiência. E, para que escarmentem em mim, poderá também aproveitar o dizer estas minhas faltas.

8. Outra tentação que há logo muito de ordinário, é desejar que todos sejam muito espirituais, pois começam a saborear o sossego e o lucro que ele traz. Desejar isto não é mal; o procurá-lo é que poderá não ser adequado se não há muita discrição para proceder de modo a não parecer que querem ensinar; porque neste caso, quem quiser fazer algum bem, precisa ter virtudes muito fortes para não causar tentação aos outros.

Aconteceu isto comigo - e por isso o compreendo - quando procurava, como já tenho dito, que outras tivessem oração. Como, por um lado, me viam enaltecer o grande bem que era ter oração e por outro lado me viam com grande pobreza de virtudes, trazia-as eu tentadas e desatinadas, como depois me disseram. E tinham sobrada razão, porque não percebiam como se podia harmonizar uma coisa com a outra. E fui eu causa de não terem por mal o que era mal, por verem que o fazia algumas vezes, parecendo-lhes haver algum bem em mim.

9. E isto faz o demônio: parece ajudar-se das boas virtudes que temos para autorizar - no que pode - o mal que pretende. E assim, em muitos anos, só três aproveitaram do que lhes dizia; mas depois, quando o Senhor me havia já dado mais forças na virtude, em dois ou três anos aproveitaram muitas, como depois direi.

E, além disto, há outro grande inconveniente que é prejudicar a alma; pois o que mais havemos de procurar ao princípio é de cuidar só dela, fazendo de conta que não há na terra senão Deus e ela; e isto é o que muito lhe convem.

-- Do Livro da Vida, capítulo 13, de Santa Teresa de Ávila (século XVI)


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