2 de abr de 2013

Salmo 117: Cântico de alegria e de vitória


Quando o cristão, em sintonia com a voz orante de Israel, canta o Salmo 117 que acabamos de ouvir entoar, sente dentro de si um particular frémito. De fato, ele encontra neste hino que se caracteriza por uma grande marca litúrgica duas frases que se repetem no Novo Testamento com uma nova tonalidade. A primeira é constituída pelo versículo 22:  "A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular". Esta frase é citada por Jesus, que a aplica à sua missão de morte e de glória, depois de ter narrado a parábola dos vinhateiros (cf. Mt 21, 42). A frase é citada também por Pedro nos Atos dos Apóstolos:  "Ele é a pedra que vós, os construtores, desprezastes e que se transformou em pedra angular. E não há salvação em nenhum outro, pois não há debaixo do céu qualquer outro nome dado aos homens que nos possa salvar" (At 4, 11-12). Cirilo de Jerusalém comenta:  "Um só é o Senhor Jesus Cristo, para que a filiação seja única; proclamamos um só, para que não penses que haja outro... Com efeito, é chamado pedra, não inanimada nem cortada por mãos humanas, mas pedra angular, porque aquele que crê nela não ficará desiludido" .

A segunda frase que o Novo Testamento extrai do Salmo 117 é proclamada pela multidão na solene entrada messiânica de Cristo em Jerusalém:  "Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor!" (Mt 21, 9; cf. Sl 117, 26). A aclamação é envolvida por um "Hossana" que retoma a invocação hebraica hoshiana', "Ó Deus, salvai-nos!".

Este maravilhoso hino bíblico está situado no âmbito da pequena recolha de Salmos, do 112 ao 117, chamada o "Hallel pascal", ou seja, o louvor salmódico usado pelo culto hebraico para a Páscoa e também para as principais solenidades do ano litúrgico. O fio condutor do Salmo 117 pode ser considerado o rito da procissão, talvez marcado por cânticos para o solista e para o coro, tendo como fundo a cidade santa e o seu templo. Uma bonita antífona abre e encerra o texto:  "Louvai o Senhor porque Ele é bom, porque é eterno o Seu amor" (vv. 1. 29).

A palavra "misericórdia" traduz a palavra hebraica hesed, que designa a fidelidade generosa de Deus em relação ao seu povo aliado e amigo. São três as categorias de pessoas que cantam esta fidelidade:  Israel inteiro, a "casa de Aarão", isto é, os sacerdotes, e "quem teme Deus", uma expressão que indica os fiéis e sucessivamente também os prosélitos, ou seja, os membros das outras nações desejosos de aderir à lei do Senhor (cf. vv. 2-4).

Parece que a procissão se desenrola pelas ruas de Jerusalém, porque se fala das "tendas dos justos" (cf. v. 15). Contudo, eleva-se um hino de agradecimento (cf. vv. 5-18), cuja mensagem é fundamental:  mesmo quando estamos angustiados é necessário manter alta a chama da confiança, porque a mão poderosa do Senhor conduz o seu fiel à vitória sobre o mal e à salvação.

O poeta sagrado usa imagens fortes e vivazes:  os adversários cruéis são comparados com um enxame de abelhas ou a uma frente de chamas que progride reduzindo tudo a cinzas (cf. v. 12). Mas a reação do justo, apoiado pelo Senhor, é veemente; é repetida três vezes:  "No nome do Senhor esmagá-las-ei" e o verbo hebraico evidencia uma intervenção destruidora em relação ao mal (cf. vv. 10.11.12). De fato, na base encontra-se a direita poderosa de Deus, ou seja, a sua obra eficaz, e, indubitavelmente, não a mão débil e incerta do homem. E é por isto que a alegria pela vitória sobre o mal se abre a uma profissão de fé muito sugestiva:  "O Senhor é a minha fortaleza e o meu cantar, é a minha salvaçao" (v. 14).

Parece que a procissão chegou ao templo, às "portas da justiça" (v. 19), à porta santa de Sião. Entoa-se aqui um segundo cântico de agradecimento, que é aberto por um diálogo entre a assembleia e os sacerdotes para serem admitidos ao culto. "Abri-me as portas da justiça, desejo entrar para dar graças ao Senhor", diz o solista em nome da assembleia em procissão. "Esta é a porta do Senhor; por ela entram os justos" (vv. 19-20), respondem outros, provavelmente os sacerdotes.

Depois  de  terem  entrado,  podem dar  voz  ao  hino  de  gratidão  ao  Senhor, que no templo se oferece como "pedra" estável e certa sobre a qual se edifica a casa da vida (cf. Mt 7, 24-25). Desce uma benção sacerdotal sobre os fiéis, que entraram no templo para exprimir a sua fé, elevar a sua oração e celebrar o culto.

O último cenário que se apresenta aos nossos olhos é constituído por um rito jubiloso de danças sagradas, acompanhadas por um festivo agitar de ramos:  "Ordenai o cortejo com ramos de palmeiras, até aos ângulos do altar" (v. 27). A liturgia é alegria, encontro de festa, expressão de toda a existência que louva o Senhor. O rito dos ramos faz pensar na solenidade hebraica dos Tabernáculos, memória da peregrinação de Israel no deserto, solenidade na qual se realizava uma procissão com ramos de palmeiras, murta e salgueiro.

Este mesmo rito evocado pelo Salmo é reproposto ao cristão com a entrada de Jesus em Jerusalém, celebrado na liturgia do Domingo de Ramos. A Cristo são elevados "Hossanas" como "filho de Davi" (cf. Mt 21, 9) pela multidão que, "veio à Festa... tomou ramos de palmeira e saiu ao seu encontro, clamando:  "Hossana! Bendito seja Aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel!"" (Jo 12, 12-13). Naquela celebração de festa que, contudo, anuncia o momento da paixão e morte de Jesus, realiza-se e compreende-se em sentido pleno também o símbolo da pedra angular, proposta na abertura, adquirindo um valor glorioso e pascal.

O Salmo 117 encoraja os cristãos a reconhecer no acontecimento pascal de Jesus "o dia que o Senhor fez", em que "a pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se pedra angular". Por conseguinte, eles podem cantar com o Salmo cheios de gratidão:  "O Senhor é a minha fortaleza e o meu cantar, é a minha salvação" (v. 14); "O Senhor actuou neste dia, cantemos e alegremo-nos n'Ele" (v. 24).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 5 de Dezembro de 2001

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