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17 de mai. de 2017

Os cristãos no mundo

São Paulo pregando em Atenas, de Rafael (1515)
Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem pela língua nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apoia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras.

        Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira. Casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito.

        São de carne, porém, não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas sua cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão a vida. São pobres, mas enriquecem a muitos; tudo lhes falta e vivem na abundância. São desprezados, mas no meio dos opróbrios enchem-se de glória; são caluniados, mas transparece o testemunho de sua justiça. Amaldiçoam-nos e eles abençoam. Sofrem afrontas e pagam com honras. Praticam o bem e são castigados como malfeitores; ao serem punidos, alegram-se como se lhes dessem a vida. Os judeus fazem-lhes guerra como a estrangeiros e os pagãos os perseguem; mas nenhum daqueles que os odeiam sabe dizer a causa do seu ódio.

        Numa palavra: os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma está em todos os membros do corpo; e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não provém do corpo; os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é guardada num corpo visível; todos veem os cristãos, pois habitam no mundo, contudo, sua piedade é invisível. A carne, sem ser provocada, odeia e combate a alma, só porque lhe impede o gozo dos prazeres; o mundo, sem ter razão para isso, odeia os cristãos precisamente porque se opõem a seus prazeres.

        A alma ama o corpo e seus membros, mas o corpo odeia a alma; também os cristãos amam os que os odeiam. Na verdade, a alma está encerrada no corpo, mas é ela que contém o corpo; os cristãos encontram-se detidos no mundo como numa prisão, mas são eles que abraçam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; os cristãos vivem como peregrinos em moradas corruptíveis, esperando a incorruptibilidade dos céus. A alma aperfeiçoa-se com a mortificação na comida e na bebida; os cristãos, constantemente mortificados, veem seu número crescer dia a dia. Deus os colocou em posição tão elevada que lhes é impossível desertar.

-- Da Carta a Diogneto, autor desconhecido (século II)

18 de dez. de 2011

Por seu Filho, Deus nos revelou seu amor

Nenhum homem viu a Deus nem o conheceu, mas ele mesmo se manifestou. Manifestou-se pela fé, pois só a ela é concedida a visão de Deus. O Senhor e Criador do universo, Deus, que fez todas as coisas e as dispôs em ordem, não só amou os homens, mas também foi paciente com eles. Deus sempre foi, é e será o mesmo: benigno e bom, isento de ira, veraz; só ele é bom. E quando concebeu seu grande e inefável desígnio, só o comunicou a seu Filho. Enquanto mantinha oculto e em reserva seu plano de sabedoria, parecia abandonar-nos e esquecer-se de nós. Mas, quando revelou por seu Filho amado e manifestou o que havia preparado desde o princípio, ofereceu-nos tudo ao mesmo tempo: participar de seus benefícios, ver e compreender. Quem de nós poderia jamais esperar tamanha generosidade?

Tendo Deus, portanto, tudo disposto em si mesmo com o seu Filho, deixou-nos, até estes últimos tempos, seguir nossos impulsos desordenados, desviados do caminho reto pelos maus prazeres e paixões. Não que ele tivesse algum gosto com nossos pecados; tolerando-os, não aprovava aquele tempo de iniqüidade, mas preparava este tempo de justiça. Assim, convencidos de termos sido, naquele período, indignos da vida em razão de nossas obras, tornemo-nos agora dignos dela pela bondade de Deus. E depois de mostrar nossa incapacidade de entrar pelas próprias forças no Reino de Deus, nos tornemos capazes disso pelo poder divino.

Quando, pois, a nossa iniqüidade atingiu o auge e se tornou manifesto que a paga merecida do castigo e da morte estava iminente, chegou o tempo estabelecido por Deus para revelar sua bondade e poder. Ó imensa benignidade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou nem se vingou de nós, mas nos suportou com paciência. Cheio de compaixão, assumiu nossos pecados, entregou seu próprio Filho como preço de nossa redenção: o santo pelos pecadores, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal pelos mortais. O que poderia apagar nossos pecados a não ser sua justiça? Por quem poderíamos ser justificados, nós, ímpios e maus, senão pelo Filho de Deus?

Ó doce intercâmbio, ó misteriosa iniciativa, ó surpreendente benefício, ser a iniqüidade de muitos vencida por um só justo e a justiça de um só justificar muitos ímpios!

-- Da Carta a Diogneto (século II)

7 de jun. de 2011

Desígnio salvador de Deus

Deus, Senhor e Criador, que fez todas as coisas e as distinguiu segundo a sua ordem, não apenas demonstrou amar aos homens, também foi magnânimo com eles. Em verdade sempre foi assim, segue sendo e sempre será: benévolo, sem ira e verdadeiro: somente Ele é o verdadeiro bem. Havendo concebido um desígnio tão grande e inefável, comunicou-lhe somente ao seu Filho. Pois bem, enquanto sua vontade cheia de sabedoria mantinha-se em segredo,  parecia que Deus não se preocupava nem cuidava dos homens. Mas, depois que se revelou por meio de seu Filho amado e manifestou o que tinha preparado desde o princípio, nos deu tudo de uma vez, não apenas receber seus benefícios, mas também ouvir e compreender o que nenhum de nós jamais havia esperado.

A cruz circundada pela inscrição em latim: "In hoc signo vinces"
(Neste sinal serás vitorioso). Este símbolo foi utilizado por
 Constantino,  o primeiro imperador romano convertido ao
Cristianismo.
Assim, pois, tendo preparado tudo em si mesmo e com seu Filho, permitiu que nos guiássemos por nossos desordenados impulsos, sendo arrastados por prazeres e concupisciências. Não que tivesse, de alguma maneira, complacência com nossos pecados, porém lhes tolerava. Nem tão pouco aprovava aquele tempo de iniquidade, pois já ia preparando o tempo atual de justiça, para que, havendo nós caidos, convencidos por nossas próprias obras, envergonhados por nossas próprias obras de que somos indignos da vida, fomos feitos dignos da vida eterna pela bondade de Deus. Sendo patente que nós, por nossos méritos, não podemos entrar no Reino de Deus, Ele nos concede esta capacidade pelo poder deste mesmo Deus.
Quando nossa iniquidade chegou ao seu ápice e tornou-se plenamente manifesto que a paga que podíamos esperar era o castigo e a morte, chegou aquele momento que Deus havia disposto de antemão a partir do qual mostraria sua bondade e poder. Ó maravilhoso amor de Deus e benignidade para com os homens! Não nos odiou, não nos separou dEle, não guardou rancor, mas mostrou-se magnânimo, nos apoiou e compadecido carregou sobre si nossos próprios pecados. Ele mesmo entregou seu próprio Filho (Rm 8, 32) como resgate, o santo pelos pecadores, o inocente pelos malvados, o justo pelos injustos (1 Pe 3,18), o incorruptível pelos corrompidos, o imortal pelos mortais. Que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, longe de sua justiça? Em quem poderíamos nós, malvados e ímpios, sermos justificados, senão somente no Filho de Deus? Ó doce troca! Ó obra insondável! Ó benefícios insuperáveis! A iniquidade de muitos foi sepultada por um justo apenas, a justiça de um bastou para justificar a muitos malvados.

Deste modo, sabendo Deus que por nossa própria natureza não éramos capazes de alcançar a vida e havendo agora mostrado o Salvador capaz de salvador o impossível, deseja que creiamos em sua bondade e o tenhamos como sustento, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, honra, glória, força e vida, sem que nos preocupemos com roupas ou comida.  Se desejas alcançar esta fé, procura primeiro alcançar o conhecimento do Pai. Porque Deus amou aos famintos, para os quais amou o mundo, a quem submeteu todas as coisas, a quem deu a razão e inteligência, os únicos a quem concedeu olhar para o alto para que Lhe possam ver, a quem modelou a sua própria imagem, a quem envio seu Filho unigênito (1Jo 4,9), a quem prometeu o reino dos céus, que dará àqueles que Lhe amarem.

Não tens idéia da alegria que terás quando chegares a alcançar este conhecimento ou do amor que podes sentir por aquele que primeiro te amou até tal extremo. E quando chegares a amar-Lhe, te converterás em imitador de sua bondade. Não te maravilhes de que o homem possa chegar a ser imitador de Deus; sim podes se assim desejar Deus. A felicidade não está em dominar tiranicamente o  próximo, nem estar sempre acima dos mais débeis, nem na riqueza, nem na violência contra os mais necessitados: nisto tudo não está o amor de Deus, tudo isto está longe de sua grandeza. Melhor faz aquele que toma sobre si a carga do próximo, de modo que o superior está disposto a fazer o bem ao seu inferior. Quem provê ao próximo o que recebeu de Deus, este é imitador de Deus.

Então, ainda morando na terra, poderás contemplar como Deus é o senhor dos céus; passarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás aos que recebem castigo de morte por não negar a Deus; condenarás o engano e a perdição do mundo; conhecerás a verdadeira vida dos céus, chegarás a depreciar o que temos aqui por morte; temerás a morte verdadeira, reservada aos condenados ao fogo eterno que castigará até o fim os condenados. Quando tiveres conhecido o fogo eterno admirarás os que por causa da justiça suportam o fogo temporal e os terá por bem-aventurados.
-- Da Carta a Diogneto (século II). Aqui, para o texto completo em espanhol - tradução própria.

25 de mai. de 2011

Carta a Diogneto

Refutação ao politeísmo



Uma vez que tenhas te purificado de todos os prejuízos que dominam tua mente e libertado de teus hábitos mentais que te enganam, fazendo-te como um homem radicalmente novo, podes começar a ser ouvinte desta, que tu mesmo confessas, ser uma doutrina nova. Veja, não apenas com teus olhos, mas também com tua inteligência qual a realidade e a aparência destes que crês serem vossos deuses. Um é pedra como as que pisamos; outro é um pedaço de bronze, não melhor que o bronze utilizado no uso diário; outro é de madeira, que já está apodrecida; outro é de prata e necessita de um guarda para não ser roubado; outro é de ferro e pode enfurrajar; outro é de argila, em nada melhor que a utilizada nos utensílios mais comuns de uma casa. Não são todos feitos de matéria corruptível? Não foi o escultor que lhes criou, ou o ferreiro ou o prateiro? Não são todas coisas surdas, cegas, insensíveis, imóveis? Não apodrecem todas elas? Não podem ser destruidas? Isto é o que vós chamais deuses e a eles vos escravizais e adorais para acabar sendo como eles. Por isso perseguis os cristãos, porque não creêm que estes sejam deuses?

Refutação ao Judaísmo


Porque os cristãos não praticam a mesma religião dos judeus? Os judeus, enquanto se abstem da idolatria e creêm em apenas um Deus de todas as coisas, um Deus soberano, pensam retamente. Porém se equivocam ao querer atribuir-lhe um culto semelhante ao idolátrico de que falamos. Os gregos mostram ser insensatos ao ofertar objetos materiais, insensíveis e surdos; porém os judeus fazem o mesmo, como se Deus tivesse necessidade deles, isto mais parece loucura que verdadeiro culto religioso. Deus fez o o céu e a terra e tudo o que contém (cf. Sl 145, 6) e nos concede tudo que necessitamos, Ele não tem necessidade de absolutamente nada. Ele que proporciona todas as cosias que possamos imaginar dar a Ele.

Não é necessário te informar sobre escrúpulos com respeito a alimentos, sua superstição quanto ao sábado, gloriarem-se da circunsição e simulação de jejuns; tudo isto são coisas ridículas e indignas de consideração.

Como não considerar ímpios aqueles que de todas as coisas criadas por Deus consideram algumas como bem criadas; e rechaçam outras como impuras e supérfluas? Como não é coisa irreligiosa caluniar a Deus, atribuindo-lhe proibição que fazermos o bem durante o sábado? Não te parece irrazoável gloriar-se da mutilação da carne como sinal de eleição, como se assim fossem particularmente amados por Deus? Com isto penso que terás visto suficientemente quanta razão tem os cristãos de afastar-se dos erros e orgulho dos judeus.

Os Cristãos no Mundo

Cristo Bom Pastor
Cripta de Lucina na catacumba de São Calixto.
Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem pela língua nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apóia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras.

Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio. Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles tera estrangeira. Casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito.

São de carne, porém, não vivem segundo a carne. Moram na terra, mas sua cidade é no céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis. Amam a todos e por todos são perseguidos. Condenam-nos sem os conhecerem; entregues à morte, dão a vida. São pobres, mas enriquecem a muitos; tudo lhes falta e vivem na abundância. São desprezados, mas no meio dos opróbrios enchem-se de glória; são caluniados, mas transparece o testemunho de sua justiça. Amaldiçoam-nos e eles abençoam. Sofrem afrontas e pagam com honras. Praticam o bem e são castigados como malfeitores; ao serem punidos, alegram-se como se lhes dessem a vida. Os judeus fazem-lhes guerra como a estrangeiros e os pagãos os perseguem; mas nenhum daqueles que os odeiam sabe dizer a causa do seu ódio.

Numa palavra: os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma está em todos os membros do corpo; e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não provém do corpo; os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é guardada num corpo visível; todos vêem os cristãos, pois habitam no mundo, contudo, sua piedade é invisível. A carne, sem ser provocada, odeia e combate a alma, só porque lhe impede o gozo dos prazeres; o mundo, sem ter razão para isso, odeia os cristãos precisamente porque se opõem a seus prazeres.

A alma ama o corpo e seus membros, mas o corpo odeia a alma; também os cristãos amam os que os odeiam. Na verdade, a alma está encerrada no corpo, mas é ela que contém o corpo; os cristãos encontram-se detidos no mundo como numa prisão, mas são eles que abraçam o mundo. A alma imortal habita numa tenda mortal; os cristãos vivem como peregrinos em moradas corruptíveis, esperando a incorruptibilidade dos céus. A alma aperfeiçoa-se com a mortificação na comida e na bebida; os cristãos, constantemente mortificados, vêem seu número crescer dia a dia. Deus os colocou em posição tão elevada que lhes é impossível desertar.

-- Da Carta a Diogneto, autor desconhecido (século II)


5 de mai. de 2010

Os cristãos no mundo

Os cristãos não se diferenciam dos outros homems nem pela pátria, nem pela língua, nem por um gênero de vida especial. De fato, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e sua vida nada tem de extraordinário. A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apóia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras.

Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as cinrcunstâncias de cada pessoa; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer nos outros usos. Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátria. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira.

Os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo. A alma está em todos os membros do corpo; e os cristãos em todas as cidades do mundo. A alma habita no corpo, mas não provém do corpo; os cristãos estão no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível é guardada num corpo invisível; todos vêem os cristãos, pois habitam no mundo, contudo, sua piedade é invisível. A alma imortal habita numa tenda mortal; os cristãos vivem como peregrinos em moradas corruptíveis. A alma aperfeiçoa-se com a mortificação na comida e bebida; os cristãos, constantemente mortificados, vêem seu número crescer dia a dia.

-- adaptado Da Carta a Diogneto (século II). Aqui, para o texto completo em espanhol

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