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27 de abr. de 2019

Duas poesias sobre a Cruz

Santa Teresa de Ávila nasceu em uma família nobre, mas preferiu abandonar  mundo e tornar-se irmã carmelita. Tinha visões de Cristo e outras experiências místicas, escreveu livros e poesias, como superiora da Ordem das Carmelitas, restabeleceu as regras de pobreza, e pela qualidade de seus escritos, hoje é uma poucas doutoras da Igreja. Para ela, Cristo é o Amado, e a Igreja é a sua Esposa.

A Cruz

Gostosa quietação da minha vida,
seja bem-vinda, cruz querida.
Ó bandeira que amparaste
o fraco e o fizeste forte!
Ó vida da nossa morte,
quão bem a ressuscitaste!
O Leão de Judá domaste,
pois por ti perdeu a vida.

Seja bem-vinda, cruz querida.
Quem não te ama vive atado,
e da liberdade alheio;
quem te abraça sem receio
não toma caminho errado.

Oh! ditoso o teu reinado,
onde o mal não tem cabida!
Seja bem-vinda, cruz querida.
Do cativeiro do inferno,
ó cruz, foste a liberdade;
aos males da humanidade
deste o remédio mais terno.

Deu-nos, por ti, Deus Eterno
alegria sem medida.
Seja bem-vinda, cruz querida.


Na Cruz está a Vida

Na cruz está a vida e o consolo,
e ela somente é o caminho para o céu.

Na cruz está o Senhor dos céus e da terra,
e o gozar de muita paz, ainda que haja guerra.
Todos os males são vencidos neste solo
e ela somente é o caminho para o céu.

Esta cruz, diz a Esposa para o seu Amado,
é uma árvore preciosa que se elevou,
e seu fruto é conhecido por Deus,
e ela somente é o caminho para o céu.

És uma oliveira preciosa, santa cruz,
cujo azeite é abundante e nos dá luz.
Alma minha, toma a cruz com grande consolo,
pois ela somente é o caminho para o céu.

A cruz é a arvore verde mais desejada pela Esposa,
que a sua sombra sentou para se alegrar com seu Amado,
o Rei dos céus,
e ela somente é o caminho para o céu.

Para a alma que se deixa levar por Deus,
e que verdadeiramente abandonou o mundo,
a cruz é a árvore da vida,
é um caminho alegre para o céu.

Depois que colocou na cruz o Salvador,
na cruz está a glória e a honra,
e no padecer todas as dores, vida e consolo,
e ela somente é o caminho para o céu.

-- Do livro Obras Completas, de Santa Teresa de Avila (século XVI)

14 de out. de 2011

Nas mãos de Deus


Sou vossa, sois o meu Fim:
Que mandais fazer de mim?

Soberana Majestade
E Sabedoria Eterna,
Caridade a mim tão terna,
Deus uno, suma Bondade,
Olhai que a minha ruindade,
Toda amor, vos canta assim:
Que mandais fazer de mim?

Vossa sou, pois me criastes,
Vossa, porque me remistes,
Vossa, porque me atraístes
E porque me suportastes;
Vossa, porque me esperastes
E me salvastes, por fim:
Que mandais fazer de mim?

Que mandais, pois, bom Senhor,
Que faça tão vil criado?
Qual o ofício que haveis dado
A este escravo pecador?
Amor doce, doce Amor,
Vede-me aqui, fraca e ruim:
Que mandais fazer de mim?

Eis aqui meu coração:
Deponho-o na vossa palma;
Minhas entranhas, minha alma,
Meu corpo, vida e afeição.
Doce Esposo e Redenção,
A vós entregar-me vim:
Que mandais fazer de mim?

-- Do livro Obras Completas, de Santa Teresa de Ávila (século XVI)

Infância e juventude de Santa Teresa de Ávila


Ter pais virtuosos e tementes a Deus - se eu não fosse tão ruim - me bastaria, com o que o Senhor me favorecia, para ser boa. Era meu pai afeiçoado a ler bons livros e assim os tinha em vernáculo  para que seus filhos os lessem. Isto, com o cuidado que minha mãe tinha em fazer-nos rezar e sermos devotos de Nossa Senhora e de alguns Santos, fez-me despertar - segundo me parece - na idade de seis ou sete anos. Ajudava-me o não ver em meus pais favor senão para a virtude. Tinham muitas.

Era meu pai homem de muita caridade para com os pobres e de compaixão para com os enfermos. Com os criados tinha tanta, que jamais se pode conseguir que tivesse escravos, porque deles tinha grande dó. Estando uma vez em sua casa uma escrava de um seu irmão, a tratava como a seus filhos. Dizia que, o não ser ela livre, não importava a sua compaixão. Era de grande verdade. Ninguém jamais o viu jurar ou murmurar; era extraordinariamente honesto.

Minha mãe também tinha grandes virtudes e passou a vida com grandes enfermidades. Grandíssima honestidade. Com ser de muita formosura, jamais deu ocasião a que se entendesse que dela fazia caso porque, apesar de morrer aos trinta e três anos, já seu traje era como o de pessoa de muita idade. Muito pacífica e de grande entendimento. Foram grandes os trabalhos por que passou enquanto viveu. Morreu muito cristãmente.

Éramos três irmãs e nove irmãos. Por bondade de Deus, todos se pareceram com os pais, em ser virtuosos, menos eu, embora fosse a mais querida de meu pai. E, antes que eu começasse a ofender a Deus, parece que tinha alguma razão para isso; mas, quando me recordo das boas inclinações que o Senhor me tinha dado, lastimo o mal que eu delas me soube aproveitar.

Meus irmãos em coisa alguma me desajudavam a servir a Deus. Tinha um, quase da minha idade, que era aquele a quem eu mais queria, embora a todos tivesse grande amor e eles a mim. Juntávamo-nos ambos a ler a vida dos santos. Como via os martírios que, por Deus, as santas passavam, parecia-me comprarem muito barato o ir gozar de Deus e desejava muito morrer assim. Não pelo amor, que eu entendesse ter-Lhe, senão para gozar, tão em breve, dos grandes bens que lia haver no Céu. E tratava com este meu irmão do meio que haveria para isso. Combinamos ir a terra de mouros, esmolando por amor de Deus, para que lá nos decapitassem; e parece-me que nos dava o Senhor ânimo em tão tenra idade, se víssemos algum meio; mas o termos pais parecia-nos o maior embaraço.

Espantava-nos muito, o dizer-se no que líamos, que a pena e a glória eram para sempre. Acontecia-nos estar muito tempo tratando disto e gostávamos de dizer muitas vezes: para sempre, sempre, sempre. Com o pronunciar isto muito devagar era o Senhor servido que nesta meninice me ficasse impresso o caminho da verdade..

Quando vi ser impossível ir aonde me matassem por Deus, resolvemos fazer-nos eremitas; e, numa horta que havia em casa, tentávamos, conforme podíamos, fazer ermidas, pondo umas pedrazitas que logo nos caíam. E assim não achávamos remédio em nada para os nossos desejos; faz-me agora devoção ver como Deus tão cedo me dava aquilo que eu depois perdi por minha culpa.

Dava esmola conforme podia; e podia pouco. Procurava solidão para rezar as minhas devoções que eram muitas, em especial o Rosário, do qual a minha mãe era muito devota e assim nos fazia s6e-lo. Gostava muito, quando jogava com outras pequenas, de fazer mosteiros como se fôssemos freiras; e parece-me que desejava sê-lo; embora não tanto como as outras coisas que já disse.


Recordo-me que, quando morreu minha mãe, fiquei da idade de doze anos, pouco menos. Quando comecei a perceber o que tinha perdido, fui-me, aflita, a uma imagem de Nossa Senhora e supliquei-Lhe, com muitas lágrimas, que fosse minha Mãe. Embora o fizesse com simplicidade, parece-me que me tem valido; porque conhecidamente tenho encontrado esta Virgem soberana, sempre que, me tenho encomendado a, Ela, e, enfim, tornou-me a Si.

Aflige-me agora ver e pensar o motivo de eu não ter ficado empenhada nos bons desejos com que comecei.

Oh, Senhor meu! Pois parece determinastes que me salve, praza a Vossa Majestade que assim seja. E, fazendo-me tantas mercês como me tendes feito, não teríeis tido por bem - não para meu proveito mas por respeito Vosso - que se não sujasse tanto a pousada  onde tão de contínuo havíeis de morar?! Aflige-me, Senhor, até o dizer isto, pois sei que foi minha toda a culpa; porque não me parece Vos tivesse ficado nada por fazer para que, desde esta idade, não fosse toda Vossa. Quando vou queixar-me de meus pais, também não posso, porque em tudo não vi neles senão bem e cuidado do meu bem.

Pois, passando desta idade em que comecei a entender as graças de natureza que o Senhor me dera - que, segundo diziam, eram muitas - quando por elas Lhe havia de dar graças, de todas me comecei a servir para O ofender, como agora direi.  

Parece-me que começou a fazer-me muito dano o que agora direi. Considero algumas vezes o mal que fazem os pais em não procurar que seus filhos vejam sempre - e de todas as maneiras - coisas de virtude. Porque, com ter tanta a minha mãe, como disse, de bom não tomei muito, nem quase nada - chegando ao uso da razão - e o mal causou-me muito dano. Era ela afeiçoada a livros de cavalaria. Não tomou, no entanto, esse passatempo tão mal com eu, pois com isso não deixava o trabalho; somente nos facilitava a sua leitura. E talvez o fizesse para não pensar nos grandes trabalhos que tinha e ocupar seus filhos para que não andassem perdidos em outras coisas. Isto pesava tanto a meu pai, que era preciso andar com cuidado para que não o visse. Comecei a ficar com o costume de os ler; e aquela pequena falta que nela via fez resfriar os desejos em mim e faltar no demais. Não me parecia mal o gastar muitas horas do dia e da noite em tão vão exercício, embora às escondidas de meu pai. Era tão em excesso o que nisto me embebia que, se não tivesse livro novo, não tinha - a meu parecer - contentamento.

Comecei a trazer galas e a desejar agradar, parecendo bem, a ter muito cuidado com as mãos e cabelo, perfumes e todas as vaidades que nisto podia ter. E eram muitas, por ser muito requintada? Não tinha má intenção, pois não quisera eu que alguém ofendesse a Deus por minha causa. Durou-me muitos anos este muito requinte no demasiado apuro e em coisas que me pareciam não ser nenhum pecado. Agora vejo o mal que devia ser.

Tinha eu uns primos irmãos que tinham entrada em casa de meu pai, que outros não tinham essa sorte, pois era muito recatado e prouvera a Deus que destes o fora também! Agora vejo o perigo que há - na idade em que se hão-de começar a criar virtudes - em tratar com pessoas que não conhecem a vaidade do mundo, mas antes despertam para ele. Eram quase da minha idade, um pouco mais velhos do que eu. Andávamos sempre juntos. Tinham-me grande amor e, em todas as coisas que lhes dava gosto, eu entretinha conversa com eles. Ouvia os sucessos de suas aspirações e ninharias nadinha boas; e o pior foi a alma abrir-se ao que foi causa de todo o seu mal.

Se eu houvesse de aconselhar, diria aos pais que, nesta idade, tivessem grande cuidado com pessoas com quem seus filhos tratam. Daqui vem muito mal, porque o nosso natural mais tende para o pior de que para o melhor.

Assim me aconteceu a mim; tinha uma irmã de muita mais idade do que eu, de cuja honestidade e bondade - que tinha muita - eu nada apanhei, e tomei todo o mal de uma parente que frequentava muito a nossa casa. Era de modos tão levianos que minha mãe procurou muito evitar que tratasse com os de casa. Parece que adivinhava o mal que por ela me havia de vir. Mas era tanta a ocasião que havia para ter entrada que nada pôde. Ao trato desta, que digo, me afeiçoei. Com ela era a minha conversação e práticas, porque me ajudava em todas as coisas de passatempo que eu queria e até me metia nelas e dava parte das suas conversas e vaidades.

Até que tratei com ela (para ter amizade comigo e dar-me parte das suas coisas), que foi na idade de catorze anos - creio, mesmo mais - não me parece ter deixado a Deus por culpa grave, nem ter perdido o temor de Deus, embora o tivesse maior da honra. Este temor teve força para eu não a perder de todo. Nem me parece que por coisa alguma do mundo eu nisto pudesse mudar... nem que houvesse amor de pessoa que a isto me fizesse render. Assim tivesse eu tido fortaleza para não ir contra a honra de Deus, tal como ma dava o meu natural, para não perder no que a mim me parecia estar a honra do mundo! E não olhava que a perdia por outras muitas vias. 

Em querer esta via, tinha extremos. Dos meios que era mister para a guardar, não usava de nenhum; somente tinha grande cuidado em não me perder de todo.

Meu pai e minha irmã sentiam muito esta amizade e dela me repreendiam muitas vezes. Como não podiam tirar as razões que havia de ela entrar em casa, não lhes aproveitavam suas diligências. E muita era a minha sagacidade para qualquer coisa má. Espanta-me, algumas vezes, o dano que faz uma má companhia e, se eu não tivesse passado por isto, não o poderia crer; no tempo da mocidade, em especial, deve ser maior o mal que causa. Quisera eu que os pais escarmentassem em mim, a fim de olharem muito a isto. De tal maneira me mudou esta convivência que, do meu natural virtuoso, não me ficou na alma quase nenhuma virtude. E parece-me que ela e outra que tinha os mesmos passatempos, imprimiam em mim suas maneiras de ser.

Por aqui compreendo o grande proveito que causa a boa companhia e tenho por certo que, se naquela idade tratasse com pessoas virtuosas, estaria inteira na virtude. Se então tivera tido quem me ensinasse a temer a Deus, a alma iria tomando forças para não cair. Perdido este temor, ficou-me depois só o da perda da honra. Este, em tudo quanto eu fazia; me trazia atormentada. Com o pensamento que não se havia de saber, atrevia-me a muitas coisas bem contra ela e contra Deus.

A princípio causaram-me dano as ditas coisas segundo me parece. Mas a culpa não devia ser sua senão minha. Porque depois bastou a minha malícia para o mal juntamente com o ter criadas, pois, para todo o mal, encontrava nelas boa ajuda. Se alguma tivesse sido de bom conselho, porventura me tivesse aproveitado; mas cegava-as o interesse e a mim a afeição. No entanto, nunca fui inclinada a muito mal, porque coisas desonestas naturalmente as aborrecia, senão a passatempos de boa conversação. Mas, posta na ocasião, estava a mão o perigo e punha nele o meu pai e irmãos. Do qual me livrou Deus de modo que bem se vê que procurava - contra minha vontade - que eu não me perdesse de todo, não foi isto, no entanto, tão em segredo que não tivesse havido de algum modo quebra da minha honra e suspeitas de meu pai. Porque não andava, segundo me parece, há três meses nessas vaidades, quando me levaram a um convento que havia naquele lugar onde se educavam pessoas da minha condição, embora não tão ruins em costumes como eu. E isto foi feito com tão grande dissimulação, que só eu e um parente o soubemos. Aguardaram para isso uma ocasião a não parecer estranho: foi o ter-se casado minha irmã e ficar eu só, sem mãe, não parecia bem.

Era tão demasiado o amor que meu pai me tinha e a minha muita dissimulação, que não acreditou tanto mal de mim e assim não ficou desagradado comigo. Mas, como esse tempo foi de curta duração, embora algo se tivesse percebido, com certeza, nada se devia ter dito. É que eu, como temia tanto a perda da honra, punha todas as minhas diligências em que fosse secreto e não percebia que há Quem tudo vê.

Òh Deus meu, que dano causa ao mundo ter isto em pouca conta e pensar que pode haver coisa secreta feita contra Vós! Tenho por certo que se evitariam grandes males se se pensasse não estar o negócio em nos guardarmos dos homens, mas sim em não nos guardarmos de Vos descontentar.

Os primeiros oito dias senti-os muito, e mais pela suspeita de que se tivesse percebido a minha vaidade do que por estar ali. Já andava cansada e não deixava de ter grande temor de Deus quando O ofendia, e procurava logo confessar-me. Trazia-me isto tal desassossego que, ao fim de oito dias e creio até menos, estava muito mais contente de que em casa de meu pai. Todas o estavam também comigo, porque, nisto de dar gosto onde quer que estivesse, me dava o Senhor graça e assim era muito querida. E ainda que eu me sentisse então inimiga de ser freira, folgava de as ver tão boas, que o eram muito as, de aquela casa e de grande honestidade, religião e recato.

Mesmo com tudo isto, não deixava o demônio de me tentar, e procuravam os de fora desassossegar-me com recados. Mas, como a isso se não dava lugar, depressa acabou. Minha alma começou a acostumar-se de novo ao bem da minha primeira infância, e vi a grande mercê que Deus faz àqueles a quem põe em companhia dos bons. Parece-me que Sua Majestade andava a mirar e a remirar por onde e como me podia fazer voltar a Si. Bendito sejais, Vós, Senhor, que tanto me haveis sofrido! Amem.

-- Do Livro da Vida, de Santa Teresa de Ávila, virgem (século XVI)


11 de jul. de 2011

Nada te perturbe

Nada te perturbe,
Nada te espante,
Tudo passa, Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem
Nada lhe falta:Só Deus basta.
Eleva o pensamento,
Ao céu sobe,
Por nada te angusties,
Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue
Com peito grande,
E, venha o que vier,
Nada te espante.
Vês a glória do mundo?
É glória vã;


Nada tem de estável,
Tudo passa.
Aspira às coisas celestes,
Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas,
Deus não muda.

Ama-O como merece,
Bondade imensa;
Mas não há amor fino
Sem a paciência.
Confiança e fé viva
Mantenha a alma,
Que quem crê e espera
Tudo alcança.
Do inferno acossado
Muito embora se veja,
Burlará os seus furores
Quem a Deus tem.
Advenham-lhe desamparos,
Cruzes, desgraças;
Sendo Deus o seu tesouro,
Nada lhe falta.
Ide, pois, bens do mundo,
Ide, ditas vãs;
Ainda que tudo perca,
Só Deus basta.


-- Poema de Santa Teresa de Ávila

22 de fev. de 2011

Uma Alma Precisa de Oração

Não é pequena lástima e confusão que, por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos. Não seria grande ignorância, minhas filhas, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparação é maior a que há em nós quando não procuramos saber que coisa somos e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a fé. Mas, que bens pode haver nesta alma ou quem está dentro dela, ou o seu grande valor, poucas vezes o consideramos; e assim se tem tão pouco cuidado em conservar sua formosura. 

Dizia-me há pouco um grande letrado, que as almas que não têm oração são como um corpo paralítico ou tolhido que, embora tenha pés e mãos, não os podem mexer; e são assim: há almas tão enfermas e tão habituadas às coisas exteriores, que não há remédio nem parece que possam entrar dentro de si mesmas; porque é tal o costume de tratarem sempre com pessoas servis e inúteis que estão à volta do castelo, que já quase se tornaram como elas e, sendo de natureza tão rica e podendo ter a sua conversação nada menos do que com Deus, não têm remédio. E se estas almas não procuram entender e remediar sua grande miséria, ficarão feitas em estátuas de sal por não voltarem a cabeça para si mesmas, assim como ficou a mulher de Lot por voltar a cabeça para trás.

Porque, tanto quanto eu posso entender, a porta para entrar no castelo de Deus é a oração e reflexão. Para que seja oração, há-de ser com atenção; porque quando a pessoa não está atenta a Quem fala e o que pede e o que está pedindo, não chamo oração, embora muito mexa os lábios. E, se algumas vezes o for, mesmo sem este cuidado, será porque esteve atenta em outras ocasiões; mas, quem tivesse por costume falar com a Majestade de Deus como fala a um seu escravo, que nem repara se diz mal, mas fala o que lhe vem à boca e ou que já decorou, porque já o fez outras vezes, não o tenho por oração e peço a Deus que nenhum cristão assim a considere. Que entre vós, irmãs, espero em Sua Majestade não haverá tal oração, pelo costume que há de tratardes de coisas interiores, e que é muito bom para não cairdes em semelhante bruteza.

-- Do livro Castelo Interior, de Santa Teresa de Ávila (século XVI)

21 de out. de 2010

No amor Deus estamos seguros das tentações

Pois, nosso bom Mestre, dai-nos algum remédio para vivermos sem muito sobressalto em guerra tão perigosa.

Aquele que podemos ter, filhas, e por Sua Majestade nos foi dado, é amor e temor. O amor nos fará apressar o passo; o temor nos fará ir vendo onde pomos os pés para não cair em caminho onde há tanto em que tropeçar, como é este em que caminhamos todos os que vivemos. E com isto é bem certo não sermos enganados.

Quem deveras ama a Deus, todo o bem ama, todo o bem quer, todo bem favorece, todo o bem louva, com os bons se junta sempre e os favorece e defende; não ama senão verdades e coisa que seja digna de se amar. Pensais que é possível, a quem muito ama a Deus, amar vaidades, ou riquezas, ou coisas de deleites do mundo, ou honras, ou tenha contendas ou invejas? Não, que nem pode; e tudo, porque não pretende outra coisa senão contentar ao Amado. Andam estes morrendo para que Ele os ame, e assim dariam a vida para entender como mais Lhe hão-de agradar.

O amor de Deus, se deveras é amor, é impossível que esteja muito encoberto. Senão, olhai um São Paulo, uma Madalena: em três dias um começou a dar mostras de estar enfermo de amor: foi São Paulo. A Madalena, desde o primeiro dia; e como o deu bem a entender! Que isto tem o amor: há mais e menos; e assim se dá a conhecer conforme a força que ele tem. Se é pouco, dá-se pouco a conhecer; se é muito, muito; mas pouco ou muito, caso haja amor de Deus, sempre se conhece.

Mas se sentis este amor de Deus que digo, e o temor que agora direi, andai alegres e sossegadas; pois, para vos perturbar a alma a fim de não gozar tão grandes bens, o demónio meter-vos-á mil temores falsos e fará com que outros também vo-los metam. Já que não pode apanhar-vos, ao menos procura fazer-vos perder alguma coisa, assim como aos que poderiam lucrar muito se acreditassem serem de Deus as tão grandes mercês feitas a uma criatura tão ruim, e julgassem ser isso possível. Parece algumas vezes que esquecemos as Suas antigas misericórdias.
Pensais que importa pouco ao demónio meter estes temores? - Não! mas muito, porque causa dois danos.  Um, é atemorizar os que o escutam e temem assim de se chegarem à oração, pensando poderem também ser enganados. O outro, é que muitos se chegariam mais a Deus, vendo que é tão bom, - como digo - e que é possível comunicar-se agora tanto aos pecadores, desperta-lhes o desejo da mercê e têm razão que eu conheço algumas pessoas a quem isto animou e começaram a ter oração e em pouco tempo saíram verdadeiros contemplatívos, fazendo-lhes o Senhor grandes mercês.

Praza a Sua Majestade nos dê o Seu amor antes de nos tirar desta vida, porque será grande coisa, à hora da morte, ver que vamos ser julgados por Aquele a quem temos amado sobre todas as coisas. Poderemos ir seguras do pleito de nossas dívidas; não vamos para terra estranha, mas para a nossa própria, pois é a d'Aquele a quem tanto amamos e nos ama. Lembrai-vos, aqui, filhas minhas, do lucro que traz consigo este amor, e da perda de o não ter, que nos põe nas mãos do tentador, em mãos tão cruéis, mãos tão inimigas de todo o bem, e tão amigas de todo o mal.

-- Do Livro O Caminho da Perfeição, de Santa Teresa de Ávila (século XVI)

15 de out. de 2010

Lembremo-nos sempre do amor de Cristo

O que mais queremos, do que ter ao nosso lado tão bom amigo (Jesus Cristo), que não nos deixará nos trabalhos e tribulações, como fazem os amigos deste mundo? Bem-aventurado quem o amar de verdade e sempre o trouxer junto de si. Olhemos o glorioso São Paulo de cujos lábios, por assim dizer, não saía senão o nome de Jesus, tão bem gravado o tinha no coração. Desde que entendi isto, tenho considerado atentamente alguns santos, grandes contemplativos, tais como São Francisco, Santo Antônio de Pádua, São Bernardo, Santa Catarina de Sena. Com liberdade havemos de andar neste caminho, entregues às mãos de Deus. Se Sua Majestade quiser elevar-nos à categoria de seus íntimos e confidentes dos seus segredos, vamos de boa vontade.

Quando pensarmos em Cristo, sempre nos lembremos do amor com que nos concedeu tantas graças e da grande ternura que nos testemunhou em nos dar tal penhor do muito que nos ama, pois amor pede amor. Procuremos sempre ir considerando estas verades e estimulando-nos a amar. Porque, uma vez conceda o Senhor a graça de que este amor nos seja impresso no coração, tudo nos será mais fácil: faremos muitas coisas muito depressa e com pouco trabalho.

-- Das Obras de Santa Teresa de Ávila, virgem (século XVI)

6 de set. de 2010

Sobre o Pai Nosso

É coisa para louvar muito ao Senhor ver como é subida em perfeição esta oração evangélica, no que bem mostra ser ordenada por tão bom Mestre, e assim podemos, filhas, cada uma de nós, tomá-la a seu propósito. Pasmo de ver como, em tão poucas palavras, está encerrada toda a contemplação e perfeição, que parece não termos necessidade de outro livro, senão de estudar neste.

Parece-me que, devendo esta oração ser geral para todos, Sua Majestade deixou-a assim para que pudesse cada um pedir a seu propósito e se consolasse, parecendo-nos que a entendemos bem. E assim os contemplativos, que já não querem coisas da terra, e as pessoas já muito dadas a Deus, peçam as mercês do Céu que, pela grande bondade de Deus, se podem receber aqui na terra. Os que ainda vivem nela e é bem que vivam conforme o seu estado, peçam também o pão com que se hão-de sustentar e sustentam suas casas, e assim as demais coisas, conforme as suas necessidades.

Mas olhem que estas duas coisas, ou seja dar-Lhe a nossa vontade e perdoar, são para todos. Verdade é que há nisto mais e menos, como ficou dito; os perfeitos darão a vontade como perfeitos e perdoarão com a perfeição que já disse; e nós, irmãs, faremos o que pudermos, pois o Senhor tudo recebe. Dir-se-ia uma espécie de contrato, que Ele faz da nossa parte com Seu Eterno Pai, como quem diz: Fazei Vós isto, Senhor, e meus irmãos farão estoutro. Pois é certo que, da Sua parte, não falhará. Oh! oh! é muito bom pagador e paga mui sem medida.

Do Livro Caminho da Perfeição, capítulo 37, de Santa Teresa de Ávila, virgem (século XVI)

O texto completo do livro pode ser encontrado no site dos Freis Carmelitas.

30 de jun. de 2010

Pedir a Deus

Quem haverá, por mais irrefletido que seja, que desejando fazer um pedido a uma pessoa importante, não discuta consigo mesmo como lhe falará, de forma a agradar e não o aborrecer? Pensará também no que lhe irá pedir e para que fim, sobretudo quando se trata de coisa tão importante, como a que nosso bom Jesus nos ensina a pedir. Na minha opinião, é isso o mais fundamental.

Não poderíeis, meu Senhor, englobar tudo numa palavra e dizer: "Dai-nos, ó Pai, o que for conveniente e adequado?" Assim, nada mais seria preciso dizer a quem tudo conhece com perfeição.

Isto, na verdade, seria suficiente entre vós e vosso Pai, e foi assim que oraste no Horto de Getsêmani. Vós lhe manifestastes vossa vontade e temor, mas vos conformastes totalmente à sua vontade. Quanto à nós, Senhor meu, sabeis não sermos tão conformados assim, como o fostes à vontade do Pai. Por esta razão, cumpre pedir coisa por coisa. Deste modo, refletiremos antes se nos convém pedir. Em caso contrário, deixemos de pedi-lo. De fato, somos assim: se não for concedido o que pedimos, este nosso livre-arbítrio não aceitará o que o Senhor nos der. Porque, embora seja o melhor quanto o Senhor nos der, se não vemos logo o dinheiro na mão, nunca pensamos ser ricos.

-- Do livro o Caminho da Perfeição, de Santa Teresa de Ávila, virgem (século XVI).

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