11 de jun de 2011

A Divindade do Espírito Santo

Por que todo esse desvario? Em que lugar das Escrituras acharam a designação de anjo dada ao Espírito? Não é preciso que repita agora o que já disse alhures. Ele foi chamado Consolador, Espírito de filiação, Espírito de Deus, Espírito do Cristo. Em parte alguma, anjo, arcanjo, espírito ministrante - como o são os anjos; ao contrário, é ele mesmo ministrado por Gabriel, que disse a Maria: o Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra (Lc 1,35). Se as Escrituras não chamam o Espírito um anjo, que excusa invocam aqueles tais para dizerem tal temeridade? Mesmo Valentim, que lhes inspirou a nefasta idéia, dava distintamente a um o nome de Paráclito e a outros o de anjos, ainda se atribuindo a todos a mesma "idade".

O sentido das palavras divinas refuta absolutamente a linguagem herética dos que desatinam contra o Espírito. Eles porém, sempre hostilizando a verdade, tiram - conforme dizes - não mais das Escrituras, onde nada achariam, mas de seu próprio coração, o que eructam dizendo: se o Espírito não é criatura, nem um dentre os anjos, mas procede do Pai, é então filho, e neste caso ele e o Verbo são irmãos. Mas se é irmão, como o Verbo é unigênito? e como não são iguais, pois um é designado após o Pai e outro após o Filho? Se o Espírito provém do Pai, como não é também engendrado, e Filho, mas simplesmente "Espírito Santo"? Enfim, se é o Espírito do Filho, ter-se-á que o Pai é avô do Espírito...

O Espírito é chamado vivificante, pois a Escritura diz: Aquele que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos, vivificará também vossos corpos mortais por meio de seu Espírito, que habita em vós (Rm 8,11). O Senhor é a vida em si e "o autor da vida", conforme Pedro (At 3,15); ora, o mesmo Senhor dizia: a água que eu darei ao fiel se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna, e ele dizia isto do Espírito, que deveriam receber os que crêem nele (Jo 7,39). As criaturas são vivificadas pelo Espírito; como então se aparentam a Ele, que não tem a vida por participação, mas é fonte de participação e vivifica as criaturas? Como poderia ser do número das criaturas, vivificadas nele pelo Verbo?

É também por meio do Espírito que nós participamos de Deus. Por isto diz s. Paulo: "não sabeis que sois  templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo' de Deus, Deus o destruirá; pois templo de Deus, que sois vós, é santo (1Cor 3,16). Se o Espírito fosse criatura, nós não teríamos, por meio dele, participação de Deus, estaríamos sempre associados à criatura, sempre estranhos à natureza divina, não participando dela em nada. Mas, se somos ditos participantes do Cristo e participantes de Deus, tem-se que a unção, o sigilo, que está em nós, não é de natureza criada, é da natureza do Filho, o qual, por meio do Espírito que nele está, nos une ao Pai. Foi o que João ensinou, já o dissemos, ao escrever: Sabemos que permanecemos em Deus e ele permanece em nós, pois nos deu de seu Espírito (1Jo 4,13). Ora, se pela participação do Espírito nós nos tornamos participantes da natureza divina, insensato será dizer que o Espírito pertence à natureza criada e não à de Deus.

-- De Santo Atanásio, carta Sobre a Divindade do Espírito Santo (século IV)

-- Texto completo da carta

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