9 de jul de 2016

A família de acordo com a Palavra de Deus

 Os dois primeiros capítulos do Génesis falam da criação do mundo e apresentam o casal humano na sua forma fundamental. Naquele trecho sobressai uma afirmação decisiva: Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher (Gn 1, 27).
O casal que ama e gera a vida manifesta Deus criador e salvador. Por isso, o amor fecundo é símbolo das realidades íntimas de Deus (Gn 1, 28; 9, 7; 17, 2-5.16; 28, 3; 35, 11; 48, 3-4) e concreatamente refletido em várias sequências genealógicas (Gn 4, 17-22.25-26; 5; 10; 11, 10-32; 25, 1-4.12-17.19-26; 36): de fato, a capacidade que o casal humano tem de gerar é o caminho por onde se desenrola a história da salvação.
Jesus, ao falar sobre o matrimônio, cita o capítulo 2 do Génesis, onde aparece um retrato admirável do casal com dois detalhes. O primeiro é a inquietação vivida pelo homem, que busca “uma auxiliar semelhante” (vv. 18.20), capaz de resolver esta solidão que o perturba e que não encontra remédio na proximidade dos animais e da criação inteira. Como exclamará a mulher do Cântico dos Cânticos, “o meu amado é para mim e eu para ele (...). Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim” (2, 16; 6, 3).
Deste encontro, que cura a solidão, surge a família. Este é um segundo detalhe: Adão, que é também o homem de todos os tempos e lugares, juntamente com Eva, dá origem a uma nova família, como afirma Jesus: “Unir-se-á à sua mulher e serão os dois um só” (Mt 19, 5; Gn 2, 24). No original hebraico, o verbo “unir-se” indica uma estreita sintonia, uma adesão física e interior, a ponto de se utilizar para descrever a união com Deus, como canta o salmista: “A minha alma está unida a Ti” (Sl 63/62, 9). Deste modo, define-se a união matrimonial não apenas na sua dimensão sexual e corpórea, mas também como doação voluntária de amor. O fruto desta união é “tornar-se uma só carne", quer no abraço físico, quer na união dos corações e das vidas e, porventura, no filho que nascerá dos dois e, em si mesmo, há-de levar as duas “carnes”, unindo-as genética e espiritualmente.
O Salmo 128 fala que um homem e a sua esposa estão sentados à mesa, ali aparecem os filhos que os acompanham “como rebentos de oliveira” (Sl 128/127, 3), cheios de energia e vitalidade. Se os pais são como que os alicerces da casa, os filhos constituem as “pedras vivas” da família (1Ped 2, 5). Por isso, outro Salmo exalta o dom dos filhos com imagens que compara à edificação duma casa: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os construtores. (...) Olhai: os filhos são uma bênção do Senhor; o fruto das entranhas, uma verdadeira dádiva. Como flechas nas mãos de um guerreiro, assim são os filhos nascidos na juventude. Feliz o homem que deles encheu a sua aljava! Não será envergonhado pelos seus inimigos, quando com eles discutir às portas da cidade” (Sl 127/126, 1.3-5).
Sob esta luz, podemos ver outra dimensão da família. Sabemos que o Novo Testamento fala da “igreja que se reúne em casa” (1Cor 16,19; Rm 16,5; Col 4,15). A casa da família pode transformar-se em igreja doméstica, em local da Eucaristia, da presença de Cristo sentado à mesma mesa, como descreve o Apocalipse: “Olha que Eu estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3,20). Assim a família também é o local da catequese dos filhos. Eis como um Salmo exalta o anúncio familiar da fé: “O que ouvimos e aprendemos e os nossos antepassados nos transmitiram, não o ocultaremos aos seus descendentes; tudo contaremos às gerações vindouras: as glórias do Senhor e o seu poder, e as maravilhas que Ele fez. Ele estabeleceu um preceito em Jacó, instituiu uma lei em Israel. E ordenou aos nossos pais que a ensinassem aos seus filhos, para que as gerações futuras a conhecessem e os filhos que haviam de nascer a contassem aos seus próprios filhos" (Sl 78/77, 3-6). A família é o lugar onde os pais se tornam os primeiros mestres da fé para seus filhos. Os pais têm o dever de cumprir, com seriedade, a sua missão educativa (Pr 3, 11-12;6, 20-22; 13, 1; 29, 17).
Mas ao falar da família, a Bíblia não nega a presença do sofrimento, do mal e da violência que dilaceram a vida da família e a sua comunhão íntima de vida e de amor. É um rastro de sofrimento e sangue que começa pela violência entre os irmãos Caim contra Abel, passa por vários litígios entre os filhos e entre as esposas dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, pelas tragédias que cobrem de sangue a família de Davi, até às numerosas dificuldades familiares que regista a história de Tobias. O próprio Jesus nasce numa família modesta, que às pressas tem de fugir para uma terra estrangeira. A Palavra de Deus não é uma sequência de teses abstratas, mas é companheira de viagem, mesmo para as famílias que estão em crise ou imersas na tribulação, mostrando-lhes a meta do caminho, quando Deus “enxugará todas as lágrimas dos seus olhos, e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor” (Ap 21, 4).
No início do Salmo 128, o pai é apresentado como um trabalhador que pode, com a obra das suas mãos, manter o bem-estar físico e a serenidade da sua família: “Comerás do fruto do teu próprio trabalho: assim serás feliz e viverás contente” (Sl 128,2). O fato de o trabalho ser uma parte fundamental da dignidade da vida humana deduz-se das primeiras páginas da Bíblia, quando se afirma que Deus “colocou [o homem] no Jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar” (Gn2, 15). No livro dos Provérbios, realça-se também a tarefa da mãe de família, cujo trabalho aparece descrito nas suas múltiplas mansões diárias, merecendo o elogio do marido e dos filhos (cf.31, 10-31).
Como distintivo dos seus discípulos, Cristo pôs sobretudo a lei do amor e do dom de si mesmo aos outros (cf. Mt 22, 39; Jo13, 34), e fê-lo através dum princípio que um pai ou uma mãe costumam testemunhar na sua própria vida: “Ninguém tem maior amor do que quem dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13). Frutos do amor são também a misericórdia e o perdão. Nesta linha, é importante a cena que nos apresenta uma adúltera na explanada do templo de Jerusalém, primeiro, rodeada pelos seus acusadores e, depois, sozinha com Jesus, que não a condena mas convida a uma vida mais digna (Jo 8, 1-11).
Com este olhar feito de fé e amor, de graça e compromisso, de família humana e Trindade divina, contemplamos a família que a Palavra de Deus confia nas mãos do marido, da esposa e dos filhos, para que formem uma comunhão de pessoas que seja imagem da união entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A família é chamada a compartilhar a oração diária, a leitura da Palavra de Deus e a comunhão eucarística, para fazer crescer o amor e tornar-se cada vez mais um templo onde habita o Espírito.

Cada família tenha diante de si o ícone da família de Nazaré, com o seu dia-a-dia feito de fadigas e até de pesadelos, como quando teve que sofrer a violência incompreensível de Herodes. Como os Magos, as famílias são convidadas a contemplar o Menino com sua Mãe, a prostrar-se e adorá-Lo (cf. Mt 2, 11). Como Maria, são exortadas a viver, com coragem e serenidade, os desafios familiares tristes e entusiasmantes, e a guardar e meditar no coração as maravilhas de Deus (cf. Lc 2, 19.51). Isso pode ajudar-nos a interpretar os contecimentos da vida e reconhecer a mensagem de Deus na história familiar.
-- resumo do capítulo 1 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, Papa Francisco

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