17 de jan de 2011

O Sacramento do Matrimônio

O sacramento do Matrimônio é o próximo, ele é uma instituição composta de duas: uma, como um contrato civil por lei natural; outro, como um sacramento pela lei dos Evangelhos. De ambas deverei falar brevemente, não em todos aspectos, mas somente naquilo que interessa para viver de maneira justa, e, enfim, morrer de maneira correta. A primeira instituição foi feita por Deus no paraíso, através destas palavras de Deus, não é bom que o homem esteja só (Gn 2,18), não pode ser propriamente compreendida, a menos que em relação com algum modo de propagar a raça humana.

As bodas de Cana.


Santo Agustinho observa que de nenhuma maneira um homem necessita de uma mulher, exceto para conceber e educar crianças; para todas as outras coisas, o homem precisa de mais ajuda se companheiros fiéis do que mulheres. No entanto, logo após da mulher ser formada, inspirado por Deus, Adão exclamou: o homem deixe o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher (Gn 2,24); e estas palavras do Evangelho segundo São Mateus: não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu. (Mt 9, 4-6). Nosso Senhor atribui estas palavras à Deus, por que Adão falou não como se fossem vindas dele mesmo, mas por divina inspiração. Esta foi a primeira instituição do Matrimônio.

Outra instituição, ou melhor, exaltação do matrimônio à dignidade de sacramento, é encontrada na Epístola de Sào Paulo aos Efésios: por isso, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois constituirão uma só carne. Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja (Ef 5,31-32). Que o matrimônio é um verdadeiro sacramento, Santo Agostinho prova no livro O Bom Marido: "Nos nossos casamentos, mais importante é a santidade do sacramento que a fecundidade.", e no capítulo seguinte, repete "em todas as nações e povos, a vantagem do casamento consiste em ser o meio apropriado para nascer crianças na fé e castidade, e, no que diz respeito ao povo de Deus, nisto também consiste a santidade do casamento". E, em outro livro, afirma "na cidade do Senhor e em seu Santo Monte, isto é, na sua Igreja, casamento não é apenas uma união, é também considerado um sacramento". Mas neste ponto não é necessário dizer mais. Trata-se do que explicarei, como homens e mulheres unidos em matrimônio devem viver, e como podem morrer um boa morte.

Três bençãos são frutos do matrimônio, das quais podemos fazer bom uso: crianças, fidelidade e a graça do sacramento. A geração de filhos, junto com uma educação apropriada, deve ser mantida em vista, se queremos fazer bom uso do casamento; ao contrário, comete grave pecado, quem busca os prazeres da carne. Onan, um dos filhos do patriarca Juda, é severamente advertido nas Escrituras por não se lembrar disto, por ter abusado, não utilizado, o sagrado sacramento (cf. Gn 38).

Mas algumas vezes pode ocorrer que pessoas casadas sintam-se oprimidas pelo número de seus filhos, pois pela pobreza não podem facilmentemente criar, há um remédio agradável a Deus: por consenso mútuo separar-se de seu leito matrimonial e gastar seus dias em orações e jejuns. Pois isto é agradável a Deus, pessoas casadas envelhecerem na virgindade, seguindo o exemplo de Nossa Senhora e São José. Porque desagradaria a Deus se pessoas casadas não vivessem reunidas como homem e mulher, por consenso mútuo, para que possam dispender suas vidas em orações e jejuns?

De novo: é mais grave pecado para pessoas unidas em matrimônio e abençoadas com filhos, neglicenciar a piedosa educação ou aquelas coisas necessárias à sua vida. Neste ponto, nós temos muitos exemplos, tanto na história sagrada quanto profana. Mas como desejo ser conciso, satisfaço-me somente com o livro dos Reis: naquele dia cumprirei contra Heli todas as ameaças que pronunciei contra a sua casa. Começarei e irei até o fim. Anunciei-lhe que eu condenaria para sempre a sua família, por causa dos crimes que ele sabia que os seus filhos cometiam, e não os corrigiu. Por isso jurei à casa de Heli que a sua culpa jamais seria expiada, nem com sacrifícios nem com oblações. (1Sm 3,12-14). Estas ameaças Deus rapidamente cumpriu: os filhos de Heli foram mortos em batalha e Heli caiu de seu trono, quebrou o pescoço e morreu miseravelmente. Portanto, se Heli, em outros assuntos um homem justo e juiz correto de seu povo, morreu com seus filhos por que não quis educá-los, e não os castigou quando se tornaram ímpios; o que ocorrerá com aqueles que, não apenas não educam se filhos adequadamente, mas também através de seu mau exemplo encoraja-os a pecarem? Verdadeiramente, ele não podem esperar nada além de uma morte horrível, para si mesmos e seus filhos, exceto se arrependam a tempo e façam penitência adequada.

Outra benção, a mais nobre, é a graça do sacramento, que Deus mesmo coloca no coração de pessoas piedosas, desde que o casamento tenha sido devidamente celebrado, e os noivos estejam bem dispostos e preparados. Esta graça, para não mencionar outras bençãos que o acompanham, ajuda de uma maneira maravilhosa a produzir o amor e paz entre pessoas casadas, mesmo que as diferentes personalidades e hábitos de cada um sejam capazes de produzir discórdia. Mas, acima de todas as coisas, imitar a união de Cristo com a Igreja faz o casamento mais suave e abençoado. Disto fala o Apóstolo na Epístola aos Efésios: maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível (Ef 5, 25-27).  

O apóstolo também adverte às mulheres, dizendo: as mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos (Ef 5,22-24). O apóstolo conclui: o que importa é que cada um de vós ame a sua mulher como a si mesmo, e a mulher respeite o seu marido (Ef 5, 25-27). Se estas palavras do Apóstolo forem diligentemente consideradas, os casamentos serão abençoados na terra e nos céus.

Agora explicaremos brevemente o significado das palavras de São Paulo. Primeiro, ele exorta aos maridos que amem suas esposas, como Cristo atem ama sua Igreja . Cristo certamente ama Sua igreja com o amor da amizade, não com o amor da concupiscência; ele procura o bem da sua Igreja, a segurança de sua Igreja, e para seu próprio interesse. Portanto, não ama sua esposa que conta com sua beleza, deixa-se cativar pelo seu amor a ela, ou considera suas riquezas e herança, pois ama a outras coisas, não sua esposa, desejando satisfazer sua concupiscência pela carne ou por outros objetos, o que chama-se avareza. Assim Salomão, sábio no início do reinado, mas ímpio ao final, amou suas esposas e comcubinas, não com o amor da amizade, mas com concupiscência; desejando não o benefício delas, mas satisfazer-se na carne, ficando cego, ele não hesitou em sacrificar a deuses estrangeiros, para que não perdesse a nenhuma de suas amantes.

Que Cristo em seu casamento coma Igreja, pensa não em si mesmo, seu prazer ou usofruto, mas no bem da sua esposa, é evidente nestas palavras: Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra (Ef 5,26-27). Isto é perfeita e verdadeira caridade, entregar-se a punição e sofrimento, em favor do bem-estar eterno da Igreja sua esposa. Mas não apenas Ele amou sua Igreja com amor perfeito, sem concupiscência, não apenas por um tempo, mas com amor perpétuo

Como nunca abandonou sua natureza humana, Ele reuniu sua esposa consigo, em um casamento indissolúvel. Amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor (Jr 31,3), diz o Profeta Jeremias. Por esta razão o casamento é indissolúvel para os cristãos, por que é um casamento que simboliza a união de Cristo com sua Igreja; ainda que o casamento entre pagãos e judeus possa ser dissolvida em certas circunstâncias.
O mesmo apóstolo ensina que as mulheres devem estas sujeitas aos seus maridos, como a Igreja está sujeita a Cristo. Jezebel não observou este preceito, pois ela deseja comandar seu marido, ela perdeu a ambos, juntos com seus filhos (1Re 16 - 1Re22; 2Re 9-10).

E ainda que não hajam muitas mulheres que desejem liderar seus maridos, mas talvez a culpa seja dos homens que não sabem manter a sua superioridade. Sara, mulher de Abraão, estava sujeita seu marido, ela assim dizia sobre ele: velha como sou, ... o meu senhor também é já entrado em anos (Gn 18, 12). E esta obediência de Sara, São Pedro em sua primeira Epístola aprecia: era assim que outrora se ornavam as santas mulheres que esperavam em Deus; eram submissas a seus maridos, como Sara que obedecia a Abraão, chamando-o de senhor (IPe 3, 5-6). Pode soar estranho, que os santos apóstolos Pedro e Paulo continuamente exortem os maridos a amar suas esposas, e as esposas a temer seus maridos; mas se elas devem ser sujeitas a eles, não devem elas também amá-los? Uma esposa deve amar seu marido e ser amada por ele. Mas elas devem amá-los com medo e reverência, tal que seu amor não previna o medo, de outra maneira ela pode tornar-se uma tirana. Dalila enganou seu marido Sansão, embora fosse ele um homem forte, não como um homem, mas como escravo (Jz 13-16).

E no livro de Esdras é relatado que o rei, sendo cativo do amor a sua comcubina, fez ela sentar-se a sua direita, mas ela se apoderou se sua coroa e coloco-a sobre a própria cabeça e feriu o rei. Portanto, não devemos ficar surpresos que o Senhor Todo Poderoso tenha dito a primeira mulher: teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio (Gn 3,16). Ao marido é necessário ter sabedoria para amar e, ao mesmo tempo, ordenar sua esposa; admoestá-la e ensiná-la; e, se necessário, até mesmo cirrigi-la. Temos como exemplo Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Seu marido era um homem cruel e pagão, mas ainda assim ela mantevesse com ele piedosa e prudentemente, sempre o amou, e, ao final, converteu-o a Deus.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)
 
-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português. O texto em inglês está disponível aqui.






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