20 de set. de 2020

A avareza, o terceiro dos pensamentos pecaminosos

Os bens amarram a Alma à Terra 

A avareza é a raiz de todos os males e nutre arbustos malignos e perigosos a todas as demais paixões e não permite que floresçam outras virtudes.

Quem deseja controlar as paixões, que extirpe a raiz, se efetivamente cortar os ramos mas deixar a avareza crescer, de nada servirá o esforço, por que os demais pecados, apesar de reduzidos, rapidamente retornarão com força.

O monge rico é como um navio com excesso de carga que é atingido por uma tempestade, assim como o navio que ruma para o mar se põe a prova a cada onda que enfrenta, assim se vê o rico submergido com muitas preocupações.

O monge que não possui nada é, ao contrário, como um viajante ágil que encontra refúgio em qualquer lugar. É como a águia que voa alto e desce apenas para buscar seu alimento. 

Está acima das tempestades, se alegra com o presente, se eleva com as coisas do alto, se afasta das terrenas, está junto das coisas celestes. Tem asas leves, nunca está pesado com preocupações. Sai de um lugar e vai para outro sem tristezas, a morte chega e a enfrenta com ânimo; a alma, de fato, não está amarrada a nenhum tipo de atadura.

Quem, ao contrário, possui muitas coisas, também possui muitas preocupações, é como um cachorro amarrado pela coleira. Se for obrigado a abandonar seus bens, leva consigo, como grave peso e uma aflição inútil, as lembranças de suas riquezas e atormenta em tristeza.

E quando chega a morte se aproxima, deixa seus bens com tristeza, pode entregar-se a morte, mas nunca perde o olho para seus negócios; é arrastado como um escravo fugitivo, se separa do corpo, mas não de seus interesses, por que a paixão aos bens o amarra a esta vida.

Muita preocupação com bens materiais afasta da oração


O mar jamais transborda apesar de receber uma grande quantidade de água de todos os rios, da mesma maneira, o desejo por riquezas jamais é satisfeito para o ávaro. Ele duplica seus bens, então quer quadruplicar, e continuar a multiplicá-la, jamais cessa de trabalhar, até que a morte coloca um fim a tudo.

O monge deve ter cuidado com as necessidades do corpo, se alimentar com água e pão, mas não adulará os ricos para o prazer de seus apetites, nem se submeterá a muitos; de fato, as mãos são sempre suficientes para satisfazer as necessidades naturais,

Um monge que não possui nada é como um pugilista que não pode ser golpeado, é como um atleta veloz que alcança rapidamentes os prêmios celestes. O monge rico se alegra com suas muitas rendas, enquanto que aquele que nada possui se alegra com em ter coisas obtidas honestamente.

O monge ávaro trabalha duramente enquanto que o pobre tem tempo para a oração e leitura. O ávaro é apreciado pelos homens, enquanto o pobre junta tesouros nos céus.

Maldito seja aquele que forja um ídolo e o adora, também seja maldito aquele que é afeito à avareza. O primeiro, com efeito, se postra frente ao falso e inútil; o segundo leva em si a imagem da riqueza, que é uma falsidade.

 

-- Evágrio, monge (século IV), tradução própria

 -- A imagem é uma gravura de James Todd, chamada Greed, parte de uma série sobre os sete pecados capitais. Pode ser adquirida na Annex Galleries.

 

16 de set. de 2020

Fé generosa e firme

 Cipriano a Cornélio, seu irmão. Tive notícias, irmão caríssimo, dos gloriosos testemunhos de vossa fé e fortaleza. Recebemos com tanta exultação a honra de vossa confissão que também nos julgamos participantes e companheiros de vossos merecidos louvores. Pois se em nós e na Igreja só há um modo de pensar e indivisa concórdia, qual o sacerdote que não se rejubilaria como próprios com os louvores dados a seu irmão no sacerdócio? Ou que fraternidade não se alegraria com o júbilo de todos os irmãos?

São Cornélio foi Papa for 2 anos,
até morrer martirizado em 253.
Seu irmão, São Cipriano,
também morreu mártir em 258.
Impossível expressar como foi grande esta exultação e alegria, quando fui informado de vossas vitórias e atos de coragem. Nisto foste o primeiro, durante o interrogatório dos irmãos. O testemunho do chefe ainda foi acrescido pela confissão dos irmãos. Enquanto vais à frente na glória, fazes muitos companheiros nesta glória e estimulas o povo a dar testemunho por estares preparado, primeiro que todos, a confessar em nome de todos. Não sabemos o que primeiro elogiar em vós: se vossa fé decidida e estável, se o indefectível amor fraterno. Aí se provou de público a virtude do bispo indo à frente, e se revelou a união da fraternidade que o seguia. Já que em vós só há um coração e uma só voz, foi toda a Igreja Romana que testemunhou.

Tornou-se evidente, irmão caríssimo, a fé que o Apóstolo já tinha louvado em vós. Já então ele previa a virtude louvável e a firmeza da coragem, atestando com isso vossos méritos futuros. O elogio aos pais era estímulo aos filhos. Por serdes assim unânimes, assim fortes, destes exemplo de unanimidade e de fortaleza aos outros irmãos. Sinais da providência do Senhor nos avisam, e palavras salutares da divina misericórdia nos advertem de que já se aproxima o dia de nossa grande luta.


Por isto, como podemos irmão caríssimo, pela mútua caridade que nos une, nós vos exortamos a não esmorecer. Nos jejuns, nas vigílias e orações com todo o povo. São estas armas celestes que fazem ficar de pé e perseverar com denodo; são estas as defesas espirituais, as lanças, que protegem.  

Lembremo-nos um do outro, concordes e unânimes, mutuamente oremos sempre por nós, suavizando as tribulações e angústias pela caridade recíproca.

 --  Das Cartas de São Cipriano, bispo e mártir (século III)

12 de set. de 2020

A luxúria, o segundo dos pensamentos pecaminosos.

 O perigo da mulher insinuante

A temperança gera o controle, enquanto a gula é a mãe do descontrole; o azeite alimenta a luz na lâmpada, mas frequentar mulheres atiça o chamado ao prazer.

A violência das ondas pode quebrar um barco mal amarrado assim como a luxúria pode fazer com a mente do destemperado. A Luxúria parecerá aliada da satisfação, mas lhe dará liberdade, depois se unirá aos adversários e combaterá ao lado dos inimigos da alma. Permanece invulnerável às flechas do inimigo aquele que ama a tranquilidade, mas aquele que se mistura com a multidão recebe golpes continuamente.

Mirar uma mulher é como um dardo venenoso, fere a alma, que inocula um veneno e, quanto mais perdura, mais profunda é a infecção. Aquele que busca defender-se destas flechas se mantém distante de aglomerações e não fica de boca aberta em dias de festas, é muito melhor permanecer em casa orando que fazer a obra do inimigo nas festas.

Evite a intimidade com as mulheres se desejas ser sábio e não lhes dê a liberdade de falar-te com confiança. Com efeito, muitas ao início simulam uma certa cautela, porém acabam por atacá-lo descaradamente; num primeiro momento tem o olhar baixo, falam docilmente, choram comovidas, agem com seriedade, suspiram com amargura, fazem perguntas sobre a castidade e escutam atentamente. Quando as vês pela segunda vez, ela levanta um pouco mais a cabeça; na terceira vez já se aproximam com menos pudor; tu já terás sorrido e elas se põem-se a rir; seguidamente se embelezam e e vestem com ostentação, seu olhar se transforma com o desejo, levantam as sobrancelhas, desnudam o colo e abandonam o corpo à languidez, pronunciam frases temperadas pela paixão e te falam com voz fascinante até se apoderar de tua alma.

Acontece que estes truques te encaminham para a morte e estas redes estendidas te arrastam à perdição, portanto não te deixes seque enganar por aquelas que se servem de discursos discretos, pois mesmo nelas se oculta o veneno maligno das serpentes.

A beleza da mulher pode levar um homem até a perder a vida

É melhor se aproximar do fogo ardente do que de uma mulher jovem, sobretudo se tu também és jovem. De fato, quando te aproximas da chama e sentes o calor, rapidamente te afastas, mas quando és seduzido pelas belezas de uma mulher, dificilmente conseguirás fugir delas.

A erva cresce quando está perto da água, assim como germina o descontrole frequentando mulheres.

Aquele que enche sua barriga e faz profissão de sabedoria se parece a quem afirma controlar a força de um fogo com palha. Assim como efetivamente é impossível apagar um fogo com palha, também é impossível controlar os desejos inflamados pela intemperança.

Uma coluna se apoia em uma base e a paixão pela luxúria se assenta nos cimentos da abundância.

Um navio surpreendido por uma tempestade se apressa em chegar a um porto e alma do sábio busca a solidão; um foge das ameaçadoras ondas do mar, o outro das formas femininas que trazem dor e ruína.

O semblante belo de uma mulher afunda o homem mais que as ondas do mar afundam um navio; ainda assim os marinheiros podem tentar nadar para salvar a vida, enquanto a beleza feminina traz o engano que pode levar até a desprezar a sua própria vida.

A sarça ardente se manteve intacta mesmo que estivesse queimando, o sábio mantém distância das mulheres e não se perde na intemperança. A lembrança do fogo não queima, nem a paixão tem vigor se não houver matéria.

Cuidado com as lembranças de uma mulher

Se te entregas ao teu inimigo,  ele continua sendo teu inimigo; se te entregas a paixão, ela se revelará. A vista das mulheres excita o intemperante, mas conduz o sábio a glorificar a Deus. Se alguém que vive entre mulheres  diz estar tranqüilo, não acredites, pois não pode alcançar a paz interior.

Um cachorro no meio da multidão abaixa a sua cauda, porém quando está sozinho, mostra sua maldade. Somente quando a lembrança de uma mulher surgir sem acender as paixões, podes te considerar nas portas da sabedoria. Quando, no entanto, esta lembrança te levar a procurá-la e seus dardos atingem tua alma, considera-te longe da virtude.

Porém não deves manter-te ocupado com estes pensamentos nem familiarizar-se muito com as formas femininas pois a paixão pode, de fato, se reacender e conduzir ao perigo.

A prata para ser purificada deve ficar no forno por um tempo adequado, por que se prolongar o processo a prata é destruída; da mesma forma uma fantasia insistente com mulheres pode destruir a sabedoria adquirida. Não te familiarizes demais com uma certa mulher na tua imaginação para que não reacender o fogo da paixão e não queimar a auréola que circunda tua alma. Assim como a fagulha no meio da palha pode reacender o fogo, assim as lembranças de uma mulher reacendem o desejo.

 -- Evágrio, monge (século IV), tradução própria

 -- A imagem é uma gravura de James Todd, chamada Lust, parte de uma série sobre os sete pecados capitais. Pode ser adquirida na Annex Galleries.

5 de set. de 2020

A gula, o primeiro dos pensamentos pecaminosos

 


1. Jejum prepara para a oração; barriga cheia, o sono

A origem do fruto é a flor ea origem da vida ativa [na oração] é a temperança, quem domina o próprio estômago faz diminuir as paixões, ao contrário, que é subjugado pela comida aumenta os prazeres.

Como Amalec é a origem dos povos, assim a gula é a origem das paixões. Como a lenha é o alimento do fogo, assim a comida é o alimento do estômago. Muita lenha resulta em uma grande chama e a abundância de comida nutre a concupiscência. A chama se extingue quando há pouca lenha e a penúria de comida elimina os pecados.

Aquele que tem domínio sobre sua boca desbarata aos estrangeiros e dissolve facilmente as ataduras de suas mãos. De uma boca controlada nasce uma fonte de água e controle da gula resulta em uma prática de contemplação,

Com a vara da tenda podes matar o inimigo, com a sabedoria da temperança podes matar as paixões. O desejo da comida conduz à desobediência e uma degustação deleitosa afasta do paraíso. Saciar o corpo com comidas raras é nutrir a intemperança que nunca descansa.

Uma barriga vazia prepara para oração vigilante, ao contrário, barriga cheia convida a dormir muito. Uma mente sóbria se alcança com jejum, enquanto uma vida cheia de delícias conduz ao abismo.

A oração daquele que jejua é como um pássaro que voa mais alto que a águia, enquanto que a oração de um glutão está envolta em sombras. A nuvem esconde os raios do sol e uma digestão pesada ofusca a mente.

2. O jejuante alcançará a cidade eterna, o guloso jamais terá paz interior

Um espelho sujo não reflete claramente a forma de um objeto a sua frente, um intelecto obtuso pela vaidade não busca o conhecimento de Deus. Uma terra sem cultivar gerar espinhos e uma mente corrompida pela gula germina pensamentos malignos.

O podre não pode emanar perfumes, tampouco não sentimos o perfume suave da contemplação no guloso. O olho do guloso olha com curiosidade os banquetes, enquanto o olhar do jejuante observa os ensinamentos dos sábios.

A alma do guloso recorda os feitos dos mártires, enquanto o jejuante imita seus exemplos. Um soldado teme o som da trombeta que anuncia a batalha, igualmente o guloso teme os chamados à temperança.

Um monge guloso, submetido às exigências de seu ventre, quer sua parte diariamente. O caminhante que busca com afinco alcançará a cidade eterna mais cedo, o monge guloso não chegará a paz interior.

O perfume das flores se espalha no ar, assim como a oração do jejuador deleita o olfato divino.

Se te abandonas ao desejo da comida, nada te bastará para te satisfazer: o desejo da comida é, com efeito, como um fogo que sempre se inflama, todos os dias. Uma medida adequado pode encher um vaso, mas a barriga de glutão jamais dirá “basta!”.

Estender as mãos colocava em fuga aos amalequitas e uma vida ativa submete as paixões carnais.

3. Domina tua carne com jejuns e vigílias

Extermina tudo que seja inspirado pelos vícios e mortifica fortemente tua carne. Se, de qualquer maneira, o inimigo for morto, não produzirá mais medo, assim um corpo mortificado não perturbará a alma. Um cadáver não nota o calor do fogo, menos ainda um jejuante sente prazer nos desejos que extinguiu.

Se matas um egípcio, enterre o corpo; se controlares teus desejos, não voltes a alimentá-los. Assim como a terra adubada germina também as sementes da erva daninha, assim um corpo satisfeito reviverá as paixões.

Uma chama que está se apagando, reacenderá se colocares lenha seca; o prazer do corpo também reacenderá se voltares a buscar a saciedade da comida; não te compadeças se teu corpo reclama do jejum, nem busques comidas suntuosas; se fizeres o contrário te envolverás em uma batalha sem trégua, até que os pecados escravizem tua alma e faças servo da luxúria.

O corpo sob controle é como um cavalo dócil que jamais se revoltará contra o cavaleiro, o cavalo é dominado pelo freio, se submete e obedece as mãos de quem lhe sujeita. Um corpo dominado por jejuns e vigílias, não busca os pensamentos ruins nem relincha excitado pelo ímpeto das paixões.

 -- Evágrio, monge (século IV)

-- A imagem é uma gravura de James Todd, chamada Gluttony, parte de uma série sobre os sete pecados capitais. Pode ser adquirida na Annex Galleries. 

2 de set. de 2020

Cristo falava do templo do seu corpo


 Destruí este templo e em três dias o reedificarei (Jo 2,19). Os apegados ao corpo e às coisas sensíveis, creio, parecem indicar os judeus, que irritados por terem sido expulsos por Jesus, acusando-os de transformarem a casa do Pai em mercado de seus produtos, pedem um sinal. Por esse sinal devia Jesus justificar o seu procedimento e provar que era o Filho de Deus, o que eles na sua incredulidade não queriam admitir. Mas o Salvador ajuntou uma palavra sobre seu corpo, como se falasse daquele templo; aos que interrogavam: Que sinal mostras para assim fazeres?, responde: Destruí este templo e em três dias o reedificarei.  

Todavia ambos, tanto o templo como o corpo de Jesus, compreendidos como unidade, parecem-me ser figura da Igreja. Por ter sido edificada com pedras vivas; feita casa espiritual para o sacerdócio santo (1Pd 2,5). Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo sua máxima pedra angular o Cristo Jesus (Ef 2,20), existindo em verdade, como templo. Se, porém, por causa da palavra: Vós sois o corpo de Cristo e membros uns dos outros (1Cor 12,27), se entender serem destruídas e deslocadas as junturas e disposições das pedras do templo, como se lê no Salmo 21 sobre os ossos de Cristo, pelas ciladas das perseguições e tribulações e por aqueles que combatem a unidade do templo por contradições, levantar-se-á o templo e ressuscitará o corpo ao terceiro dia. Após o dia da maldade que pesa sobre ele, e após o dia da consumação que se seguir.  

Seguirá de perto o terceiro dia do novo céu e da terra nova, quando esses ossos, quero dizer, toda a casa de Israel, serão reerguidos, no grande domingo, em que a morte é vencida. Assim a ressurreição de Cristo depois da paixão contém o mistério da ressurreição do corpo total de Cristo. Como aquele corpo de Jesus, sensível, foi pregado na cruz, sepultado e depois ressuscitado, assim todo o corpo dos santos de Cristo com ele foi pregado na cruz e agora já não vive mais. Cada um deles, à semelhança de Paulo, não se gloria em coisa alguma a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo por quem está crucificado para o mundo e o mundo para ele.  

Por isto não apenas foi cada um de nós, junto com Cristo, pregado à cruz e crucificado para o mundo, mas também, junto com Cristo, sepultado: Fomos consepultados com Cristo, diz Paulo (Rm 6,4) e acrescenta como quem já recebeu as aras da ressurreição: E com ele ressuscitamos (cf. Rm 6,4). 

-- Do Comentário sobre o Evangelho de João, de Orígenes, presbítero (século I)

29 de ago. de 2020

Santa Sabina e Santa Serápia

 No século II, a perseguição aos cristãos se acalmou durante o reinado de Trajano. Sua política foi seguida pelo sucessor, Imperador Adriano, pelo mesmo motivo: evitar desordens civis. Basicamente, cristãos eram punidos apenas se fossem denunciados.

Sabina era viúva do Senador Valenciano e filha de outro administrador da cidade, Herodes Metalário. Uma de suas escravas, Serapia havia vendido todos seus bens, doado o dinheiro aos pobres e entrou voluntariamente na escravidão. Pelo seu exemplo de piedade, oração e dedicação, converteu a Sabina. 

Paisagem com o enterro de Santa Serápia 

No ano de 125, Serápia foi denunciada como cristã e presa. Como costume, foi convidada a rezar aos deuses romanos, mas ela recusou-se por amor a Cristo. Enquanto estava na cadeia, dois soldados tentaram estuprá-la, mas ela resistiu e eles não tiveram forças para dominá-la. Então eles tentaram queimá-la com tochas, mas o fogo não a tocou. Por fim, o juiz decretou que fosse espancada e decapitada. Seu corpo foi enterrado em um túmulo comum.

Sabina resgatou o corpo de sua escrava e deu-lhe um digno enterro cristão no mausoléu de sua família. Cerca de um mês depois, Sabina foi também denunciada como cristã, presa e recusou-se a adorar aos deuses romanos. Sendo de um família importante, foi levada para a região da Úmbria, onde foi decapitada, a exemplo de sua escrava.

Em 430 seus restos mortais foram levados de volta a Roma, onde enterraram no Monte Aventino, no local que tinha sido propriedade de sua família. Naquele local foi construída uma igreja que daria origem a basílica atual em honra das duas santas, Serápia e Sabina, cuja festa é celebrada em 29 de Agosto.

-- autoria própria

-- A imagem é do quadro Paisagem com o enterro de Santa Serápia, do francês  Cláudio de Lorena, que está no Museu do Padro, em Madri. Santa Sabina está ali presente acompanhando o enterro de sua ex-escrava. A paisagem mostra, em um primeiro plano, ruínas do templo de Juno, depois os fundos da catedral dedicada às santas e, por fim, os restos do Coliseu. Não se trata de uma cena histórica, mas mostra os martíres cristão em destaque, a catedral cristã está intacta mas não é importante por que a Igreja é mais que os prédios, enquanto os poderosos romanos que fizeram tantos martíres, hoje são ruínas.


 

22 de ago. de 2020

Rainha do mundo e da paz

 

Considera com que justa disposição refulgiu, já antes da assunção, o admirável nome de Maria por toda a terra. Sua fama extraordinária por toda a parte se espalhou antes que sua magnificência fosse elevada acima dos céus. Pois convinha que a Virgem Mãe, em honra de seu Filho, primeiro reinasse na terra, em seguida,fosse recebida gloriosa nos céus. Fosse amplamente conhecida na terra, antes de entrar na santa plenitude. Levada de virtude em virtude, fosse assim exaltada de claridade em claridade pelo Espírito do Senhor. 

Presente na carne, Maria antegozava as primícias do reino futuro, ora subindo até Deus com inefável sublimidade, ora descendo até os irmãos com inenarrável caridade. Lá recebia os obséquios dos anjos, aqui era venerada pela submissão dos homens. Servia-lhe Gabriel com os anjos; ao lado dos apóstolos servia-lhe João, feliz por lhe ter sido confiada a Virgem Mãe a ele, virgem. Alegravam-se aqueles por vê-la rainha; estes por sabê-la senhora. Todos a obedeciam de coração.

E ela, assentada no mais alto cume das virtudes, repleta do oceano dos carismas divinos, do abismo das graças, ultrapassando a todos, derramava largas torrentes ao povo fiel e sedento. Concedia a saúde aos corpos e às almas, podendo ressuscitar da morte da carne e da alma. Quem jamais partiu de junto dela doente ou triste ou ignorante dos mistérios celestes? Quem não voltou para casa contente e jubiloso, tendo impetrado de Maria, a Mãe do Senhor, o que queria?

Ela é esposa repleta de tão grandes bens, mãe do único esposo, suave e preciosa nas delícias. Ela é como fonte dos jardins inteligíveis, poço de águas vivas e vivificantes, que correm impetuosas do Líbano divino, fazendo descer do monte Sião até às nações estrangeiras vizinhas rios de paz e mananciais de graças vindas do céu. E assim, ao ser elevada a Virgem das Virgens por Deus e seu Filho, o rei dos reis, no meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se a profecia do Salmista que diz ao Senhor: Está à tua destra a rainha recoberta de bordados a ouro, em vestes variadas (Sl 44,10).

 -- Santo Amadeu, bispo (século XII)

6 de ago. de 2020

É bom nós estarmos aqui


Jesus manifestou a seus discípulos este mistério no monte Tabor. Havia andado com eles, falando-lhes a respeito de seu reino e da segunda vinda na glória. Mas talvez não estivessem muito seguros daquilo que lhes anunciara sobre o reino. Para que tivessem firme convicção no íntimo do coração e, mediante as realidades presentes, cressem nas futuras, deu-lhes ver maravilhosamente a divina manifestação do monte Tabor, imagem prefigurada do reino dos céus. Foi como se dissesse: Para que a demora não faça nascer em vós a incredulidade, logo, agora mesmo, eu vos digo, alguns dos que aqui estão não provarão a morte antes de verem o Filho do homem vindo na glória de seu Pai (cf. Mt 16,28). Mostrando o Evangelista ser um só o poder de Cristo com sua vontade, acrescentou: E seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João e levou-os a um monte alto e afastado. E transfigurou-se diante deles; seu rosto brilhou como o sol, as vestes se fizeram alvas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias a falar com ele (cf. Mt 17,1-3). 

São estas as maravilhas da presente solenidade, é este o mistério de salvação para nós que agora se cumpriu no monte: ao mesmo tempo, congregam-nos agora a morte e a festa de Cristo. Para penetrarmos junto àqueles escolhidos dentre os discípulos, inspirados por Deus, na profundeza destes inefáveis e sagrados mistérios, escutemos a voz divina que do alto, do cume da montanha, nos chama instantemente.  

Para lá, cumpre nos apressarmos, ouso dizer, como Jesus, que agora nos céus é nosso chefe e precursor, com quem refulgiremos aos olhos espirituais – renovadas de certo modo as feições de nossa alma – conformados à sua imagem; e à semelhança dele, incessantemente transfigurados, feitos consortes da natureza divina e prontos para as alturas.  

Para lá corramos cheios de ardor e de alegria; entremos na nuvem misteriosa, semelhantes a Moisés e Elias ou Tiago e João. Sê tu também como Pedro, arrebatado pela divina visão e aparição, transfigurado por esta linda Transfiguração, erguido do mundo, separado da terra. Deixa a carne,abandona a criatura e converte-te para o Criador a quem Pedro, fora de si, diz: Senhor, é bom para nós estarmos aqui (Mt 17,4). 

Sim, Pedro, verdadeiramente é bom para nós estarmos aqui com Jesus e aqui permanecermos pelos séculos. Que pode haver de mais delicioso,de mais profundo, de melhor do que estar com Deus, conformar-se a ele, encontrar-se na luz? De fato, cada um de nós, tendo Deus em si, transfigurado em sua imagem divina, exclame jubiloso: É bom para nós estarmos aqui, onde tudo é luminoso, onde está o gáudio, a felicidade e a alegria. Onde no coração tudo é tranquilo, sereno e suave. Onde se vê a Cristo, Deus. Onde ele junto com o Pai tem sua morada e ao entrar, diz: Hoje chegou a salvação para esta casa (Lc 19,9). Onde com Cristo estão os tesouros e se acumulam os bens eternos. Onde as primícias e figuras dos séculos futuros se desenham como em espelho.

-- Do Sermão no dia da Transfiguração do Senhor, de Anastásio Sinaíta, bispo (século VII)

4 de jul. de 2020

Santo Isaac Jogues, mártir em terras americanas

Santo Isaac Jogues (1607-1646) e suas mãos mutiladas



Isaac Jogues nasceu em 10 de Janeiro de 1607, filho de Laurent and Françoise, na cidade de Orleans, França, foi o quinto do filho do casal, que teria ainda outros quatro. Aprendeu a ler em casa, aos 10 anos começou a frequentar uma escola jesuíta; aos 17 iniciou seu noviciado em Rouen, professou seus votos em 1626 e, após estudar Teologia em Paris, foi ordenado padre em 1636.

Nesta época alguns padres retornaram das missões na América e contaram as muitas tribulações e até torturas que sofreram. Isaac, no entanto, viu a necessidade de ir catequizar estes índios, para que pudessem se converter e modificar suas vidas. Logo após sua ordenação, foi enviado para o Canadá, onde trabalharia com os índios Huron e Algonquins, aliados dos franceses.

Missão no Canadá

Chegou em Quebec no dia 2 de Julho. Para sua mãe escreveus: “Não sei como é entrar no paraíso, mas isto e - será difícil eu sei - será difícil estar tão alegre como quando coloquei meus pés neste mundo novo e celebrei minha primeira Missa no dia da Visitação de Nossa Senhora”.

Em 11 de Setembro chegou na vila de São José, onde permaneceria. Uma epidemia atingiu a vila, resultando em índios e missionários muito doentes. Após se recuperar, pode iniciar seu trabalho de evangelização. Os índios convidavam os padres a visitar as vilas e ensiná-los sobre Deus. Viveu na vila por seis anos, aprendeu a linguagem, comida, usos e costumes dos índios, com que compartilhavam o mesmo modo de viver.

Nesta época, índios das tribos ao sul, atual Estados Unidos, começaram a contar que os colonizadores estavam ingleses e holandeses estavam trazendo calamidades e que os índios estavam lutando contra eles.

Isaac e um companheiro, Padre Garnier, decidiram rumar para o sul, na direção do estado de Ontátrio. Lá não foram recebidas por quase nenhuma vila de índios e seu trabalho, neste sentido, foi um tanto inútil. Em Setembro de 1641, Isaac e Padre Charles foram visitar a tribo dos Oijbwe. Lá foram bem recebidos por dois mil índios e construíram uma residência.

Prisão e torturas

Em 3 de Agosto de 1642, Padre Isaac, dois leigos franceses e um grupo de índios Hurons estavam retornando para Quebec quando foram atacados por índios Mohawk. Jogues conseguiu se esconder, mas percebeu que os índios haviam capturados muitos prisioneiros e decidiu se entregar pois assim poderia ajudá-los e ministrar os últimos sacramentos aos cristãos do seu pequeno rebanho.

Percebendo que Isaac era padre, tornou-se o alvo preferencial dos Mohawk que bateram com bastões, quebraram a ponta dos dedos e depois cortaram a carne até aparecer os ossos. Dali marcharam até a vila da tribo, onde passaram por uma espécie de corredor, um por vez, formado pelos guerreiros. Enquanto passavam pelo corredor, eram espancados. Uma índia cortou o dedão da mão direita de Isaac. Foram todos amarrados e as crianças jogavam carvão quente neles. Dali foram levados para outra vila, onde permaneceram amarrados por alguns dias, até que um dia decidiu que era suficiente. Durante este período, Isaac permaneceu rezando e encorajando seus companheiros.

Ao saber da captura, um comandante holandês da região tentou negociar com os Mohawk a liberação dos europeus, mas estes negaram qualquer proposta, apenas prometeram que não os matariam. Eles permaneceram prisioneiros, com pouca comida e sem vestimenta adequada para o inverno. Tinham que caçar para comer, mas os índios não lhes davam nenhuma arma. Num dia muito frio de inverno, Isaac percebeu que uma índia que estava grávida caiu num rio com grande correnteza; ele pulou na água e a salvou.

No outono de 1643, os índios levaram seus prisioneiros para negociar com os holandeses. Estes conseguiram tomá-los dos índios e os colocaram em um barco que os conduziu pelo Rio Hudson até Nova Iorque. Isaac foi o primeiro padre a visitar a cidade, ainda dominada pelos protestantes holandeses. Lá ele aguardou um navio que pudesse levá-lo de volta para a França.

Estadia na França

Ao chegar à França, Isaac foi considerado como um mártir vivo, por tudo que sofrera. Segundo as normas da época, o padre só poderia tocar o Santíssimo Sacramento com dois dedos para ter o mínimo contato possível, mas com suas mãos mutiladas, isto era impossível. O Papa Urbano VIII, ao saber do caso, concedeu-lhe uma dispensa especial. 
Imagem na porta da Catedral de São Patrício, em Nova Iorque.


Retorno ao Canadá

Na primavera de 1646, Isaac foi enviado para Canadá junto com o jesuíta Jean de Lalande, onde deveria negociar um acordo com os Mohawk, a idéia era conseguir estes dessem passagem para os franceses e seus aliados, os índios Huron.

Eles não foram bem recebidos pelos Mohawk que achavam que praticavam uma espécie de magia negra. Epidemias de febre, sarampo e varíola, que matavam muitos índios, não ajudavam os franceses. Além disso, Isaac conhecia muito bem o território e passou a ser visto como uma ameaça.

Em 18 de Outubro de 1646, os MOhawk mataram Isaac Jogues e, no dia seguinte, Jean de Lalande. Seus corpos foram jogados no Rio Mohawk, no atual estado de Nova Iorque.

Como Santo Isaac Jogues escreveu, a vida de prisioneiro, sofrimentos e tortura, eram sua participação nos sacrifícios de Cristo. Ele escreveu que: “Jesus está nos concedendo estes sofrimentos para que participemos nas suas cruzes”. Ele contou que teve uma visão onde havia uma procissão de vítimas de torturas entrando no Paraíso e dizendo “pecadores construíram monumentos e deixaram marcas de sua ira nas minhas costas”. Para ele, tudo isto era sua participação na Paixão de Cristo e, por isto, retornou para o Canadá, para  morte quase certa. Isto ele deixou claro para sua mãe, quando antes da segunda viagem, lhe escreveu que “meu coração diz que eu devo aceitar esta missão, que eu devo ir e não retornarei”.

Canonização

Santo Isaac Jogues foi canonizado pelo Papa Pio XI em 29 de Junho de 1930 junto com outros mártires. Sua festa ocorre em 19 de Outubro . O principal santuário em sua honra está localizado na cidade de Auriesville, estado de Nova Iorque.

-- autoria própria

1 de jul. de 2020

Venha a nós o vosso reino


Quem haverá, por mais irrefletido que seja, que, desejando fazer um pedido a uma pessoa importante, não discuta consigo mesmo como lhe falará, de forma a lhe agradar e não o aborrecer? Pensará também no que lhe irá pedir e para que fim, sobretudo quando se trata de coisa tão importante, como a que nosso bom Jesus nos ensina a pedir. Na minha opinião, é isso o mais fundamental.
 
Não poderíeis, Senhor meu, englobar tudo numa palavra e dizer: “Dai-nos, ó Pai, o que for conveniente e adequado?” Assim nada mais seria preciso dizer a quem tudo conhece com perfeição.

Tempestade no Mar da Galiléia, Rembrandt.
Isto na verdade, ó eterna Sabedoria, seria suficiente entre vós e vosso Pai, e foi assim que orastes no Horto de Getsêmani. Vós lhe manifestastes vossa vontade e temor, mas vos conformastes totalmente à sua vontade. Quanto a nós, Senhor meu, sabeis não sermos tão conformados assim, como o fostes à vontade do Pai. Por esta razão, cumpre pedir coisa por coisa. Deste modo, refletiremos antes se nos convém o que pedimos. Em caso contrário, deixemos de pedi-lo. De fato, somos assim: se não nos for concedido o que pedimos, este nosso livre-arbítrio não aceitará o que o Senhor nos der. Porque, embora seja o melhor quanto o Senhor nos der, se não vemos logo o dinheiro na mão, nunca pensamos ser ricos. Por isso Jesus nos ensina a dizer as palavras com que pedimos a vinda de seu reino: Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino. Admirai, minhas filhas, a profunda sabedoria de nosso Mestre! Considero eu aqui – e para nós é bom entender – o que pedimos com este reino. A majestade de Deus via que não podíamos santificar ou glorificar como seria bom este santo nome do Pai eterno, de acordo como pouquinho que podemos, a menos que sua Majestade não providenciasse, dando-nos aqui o seu reino. Por isso o bom Jesus pôs um pedido ao lado do outro. Para entendermos o que pedimos e quanto interessa pedirmos, importuna e ardentemente, e, além disso, fazer tudo que estiver a nosso alcance para satisfazer àquele que no-lo dará, quero expor-vos aqui o que sobre isso compreendo.

O supremo bem que me parece existir no reino dos céus é que já não se dá valor às coisas da terra. Sendo assim, há um alegrar-se da alegria de todos, uma paz perpétua, uma satisfação imensa em si mesmos por ver que todos engrandecem ao Senhor e bendizem seu nome, sem ninguém mais o ofender com seus pecados. Todos o amam e em seu coração não anseiam nada mais do que amá-lo, nem podem deixar de amá-lo, porque o conhecem. É assim que o deveríamos amar também aqui, embora não o possamos com toda esta perfeição e em sua essência. Pelo menos, nós o amaríamos muito mais do que o amamos, se melhor o conhecêssemos.

-- Do livro O Caminho da Perfeição, de Santa Teresa, virgem (século XVI)

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